sexta-feira, 30 de novembro de 2007

SATU = Sem Alternativa nos Transportes Urbanos

Quem já esteve parado na A5, na marginal ou mesmo dentro de Oeiras, pode interessar a próxima imagem (imagem via oBiToque - cliquem para aumentar e perceber melhor):

Há que pensar neste facto (e estar parado no trânsito ajuda a pensar) de que há poucas alternativas para quem se desloca para Lisboa a partir de Oeiras e arredores. O comboio é um bom meio, mas ou se vive junto à estação ou então compra-se um bom par de sapatos. As (poucas) camionetas que existem e fazem a ligação aos subúrbios tem horários obtusos e que por vezes aparentam ser variantes com o vento que se faz sentir.
Tenho a sorte de trabalhar a 10 minutos a pé do trabalho, mas todos os dias passo por aqueles que lutam por um lugar na A5. Já vivi isso também e aos poucos uma pessoa habitua-se a sofrer. Apesar de tudo quando estava parado, muitas vezes lembrei-me do comboio cheio de gente suada e apertada as 8h e o carro rapidamente se transformava num sofá com musica a gosto. Nessa altura trabalhava num local onde só de carro conseguia chegar a horas. A alternativa de transportes públicos era andar pé + comboio + autocarro + andar a pé. Não haveria problema nenhum tirando o facto que o autocarro passava de hora a hora, e a partir das 20h não passava. Conclusão: tendo em conta o preço dos transportes e os horários não me admira que se continue a preferir o automóvel.
Voltando à imagem é bem esclarecedora de como seria melhor se houvesse mais transporte e melhor interfaces para as pessoas que vivem nos subúrbios. Ainda há pouco tempo a estação da CP de Oeiras foi brindada com estacionamento pago. Os senhores acharam por bem cobrar o ouro dos deuses por um lugar. O resultado foi um parque vazio e os passeios à volta cheios de carros estacionados fruto de uma imaginação riquíssima baseada no best-seller "como conseguir meter um veiculo onde não há lugar para ele em 2 lições". A bom tempo alteraram a politica e cobram agora "apenas" 1€ por um dia de estacionamento. Foi uma boa ideia. Mas claramente insuficiente. Porque continuam a haver carros em cima dos passeios. Ideias? É necessário aumentar estes interfaces e até mesmo porque não criar uma rede de transportes públicos só do concelho? (ao exemplo do Barreiro, Setubal, etc). Já vimos que o que existe não chega. O transito não para de aumentar. Em Oeiras temos o SATU. E sim é tecnologia de ponta. Mas viaja sozinho. E acaba em lugar nenhum.

ps. De bicicletas não falo. Quem já esteve em Munique ou Berlin sabe bem que lá fácil de andar de bicicleta. Em Lisboa as 7 colinas falam por si. Os taxistas idem.

Evidências...

Às vezes passamos demasiado tempo à procura daquilo que afinal estava tão perto...

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Acordai!

Num mundo onde cada vez mais se vê pessoas adormecidas, a caminhar sem rumo ou a ir caminhando por caminhar, onde poucos sinais de alegria se fazem sentir, onde pouco valor é dado ao que se tem e muito se dá ao que se quer ter, onde o umbigo próprio tem mais importância que o alheio, onde se vê tão pouca motivação e tão pouca vontade de assegurar projectos, dar a cara e ir à luta tenho uma certa vontade de ter um megafone gigante e de vez em quando pôr a tocar esta música de Fernando Lopes-Graça que foi um dos mais notáveis compositores e musicólogos contemporâneos nascido a 17 de Dezembro de 1906, em Tomar.
Eu que conheci esta música quando tinha dez anos e logo me apaixonei por ela e cedo tive esta vontade de dizer ao mundo "ACORDAI!".

Tens queixas? Canta que isso passa

E que tal juntarmos o Coro da Ermida ao Complaints Choirs Worldwide e fazermos uma pequena canção com tudo aquilo que nos chateia à nossa volta? As instruções seguem aqui. Deixo aqui um video do coro de Helsínquia:



Ao que parece nem na Finlândia (país modelo na Europa a todos os níveis) o povo está contente. Para Portugal acho que seria bastante fácil escrever uma canção. O que acham? Aceitam-se sugestões.

O ser e o tempo


"Certamente que a concepção de que a paz é o objectivo da guerra e, portanto, de que uma guerra é a preparação para a paz, é tão antiga como Aristóteles, e a pretensão de que a finalidade de uma corrida ao armamento é a manutenção da paz é ainda mais antiga, isto é, tão velha como a descoberta da falsa propaganda. (...)"

Universidade de Princeton, na Primavera de 1959
ARENDT, Hannah, Sobre a revolução, Relógio D'Água, Lisboa, p. 12-17).


Tal como um dia escreveu Milan Kundera a política é sempre uma luta entre a memória e o esquecimento. Talvez por isso os cursos de humanidades, onde uma grande parte do tecido teórico se encontra voltado para o passado, se encontram hoje numa situação difícil. Opiniões todos temos. Não se trata, portanto, de discutir a questão moral. A ética é sempre uma geometria de espaços e, por isso, uma luta justificada por necessidades. Assim resta-nos tentar perceber quem leu ou quem não leu, quem analisou ou quem não analisou, quem trabalhou o problema ou quem trabalhou o seu percurso pessoal - talvez seja a hora de uma crítica de fundo ao paradigma dos vícios privados/virtudes públcias. Porque há coisas discutíveis como a participação de uma força militar internacional num inequívoco cenário de violência política e opressão. Mas há também coisas muito pouco discutíveis como as relações entre o ritmo cardíaco e o suporte da vida ou como a superficialidade intelectual de grande parte dos líderes políticos de sucesso. Como a barbaridade da guerra e a grave mentira dos fins justificados. Talvez seja essa a moral da grande História. A nossa escassa vida nãos nos permite ser duas coisas em simultâneo no mesmo espaço de tempo.

Tell me a story IV

Era uma vez um senhor que fumava charuto. E vivia num reino. Tinha ideias muito giras na sua cabeça. Comboios aéreos que não levam ninguém para lado nenhum. Poetas de mármore. Prédios enormes onde havia arvores. Tecnologia de ponta. Tapou buracos com girassóis. E tudo isto aconteceu. Muita gente gostava das ideias dele. Eram tantas as pessoas que gostavam ali de morar que entupiam todos os poucos caminhos que havia. Houve um dia que quis ir a outro reino e ficou parado no transito 2h. E nesse dia chorou amargamente.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Acaso

Breve como a aurora nasce o menino,
Que demora a deixar de ser pequenino.

Veloz como um raio é a morte
Que nos deixa um sentimento de pouca sorte.

Longo é o tempo que sozinhos passamos,
Assim como o que esperando pela pessoa que amamos.

Curta parece sempre a disponibilidade
Para aproveitar os momentos de amizade.

Déjà vu

Inspirada pelo nosso El_Presidente, gostaria partilhar convosco esta pérola da verdade... faz-me lembrar tanta gente que até dá vontade de rir! ... ou será de chorar?


Habemus Ermida

Publicado no Diário da República, 2.a série—N.o 223—20 de Novembro de 2007



Como diria o nosso primeiro: porreiro pá!

ps. é notório o aumento de actividade aqui no blog. Das duas uma, ou estamos sem nada para fazer ou então no caminho do paraiso. Obrigado pelo contributo Caldo Verde e Alf para as histórias. Caro Alf, logo fico à espera do "Pringle" em jeito de salvação para o Glorioso. Recomendo muitas Nossas Senhoras fluorescentes.

Uma história de encantar - Tell me a story III

A propósito do espaço Tell me a story, e se bem que nada tem a ver com desporto, surgiu-me a ideia de contribuir.

A história que vos queria aqui deixar surge em torno de um dos temas fulcrais da nossa associação: a cidadania.

Tomei conhecimento de uma outra associação, através do seu site, e não pude deixar de pensar que este espaço era o melhor sítio para a divulgar.

O nome da associação em questão é Ajuda de Berço. Não sei se alguns de vós já tinham ouvido falar dela, ou até feito contribuições, mas para mim foi uma novidade.

A sua missão é, e passo a transcrever:

"A Ajuda de Berço promove, defende e dignifica a vida humana, através do apoio a mulheres grávidas sem condições e aos filhos delas nascidos; bem como o acolhimento e encaminhamento de crianças entre os 0 e os 3 anos de idade que não possam viver com os pais ou familiares.

Para mais informações contacte ajudadeberco@ajudadeberco.pt ou ligue para o 21 362 82 74/6/7."

O site em questão encontra-se em www.ajudadeberco.pt

Já se vêm as iluminações de Natal por cidades e vilas, e já se apela ao espírito de consumismo exacerbaco, perdão, de partilha, por isso que melhor altura para vermos de podemos contribuir de alguma forma, quer seja como indivíduos quer seja como associação que somos.

E com este pensamento vos deixo com um até breve.

Tell me a story II

Domine, memento mei, cum veneris in regnum tuum: Hodie mecum eris in Paradiso

Tomo a liberdade de participar no espaço inaugurado por El_presidente. Com uma história, pois claro.

Era uma vez três gatunos crucificados numa monte ventoso e seco da palestina. Um deles parece que zombava, uma espécie de irritação arrependida, uma forma de violência contra as coisas serem o que são, um apelo enraivecido a ver se iam todo três ainda a qualquer lado. O outro estava calado. Parece que era daquele tipo de gajos que sabe. Não sabia exactamente o quê mas tal como o velho ateniense sabia que sabia qualquer coisa: que era não saber nada de nada.
Estava ainda um terceiro, que era o mais novo - os gajos novos são sempre os que dizem coisas que ninguém percebe. Parece que tinha um olhar pendurado no horizonte. Ou eram aves a caminho do sul ou era sabedoria também mas daquela que traz também as lágrimas. Então a dado momento disse este último ladrão:

- Nos dois ainda bem que a morte nos castiga pois somos dela merecedores. Mas este homem que fez ele para estar aqui. Senhor, lembra-te de mim quando vieres com o teu reino.

Alguns minutos depois, muita comoção e três mercadores de tendas que passaram a caminho de Éfeso, os três ladrões morreram. Os corvos cruzaram o céu do fim da tarde. O vento soprou para os lados da cidade velha. Alguns séculos depois os romanos regressaram aos campos floridos da toscânia, ao sol da sicília, aos poentes napolitanos, às neves de Milão. Uma vez que deram em escrever o sucedido ninguém sabe muito bem o que respondeu o ladrão calado, o gajo que sabia e terá dito:

- Hoje mesmo estarás comigo no paraíso.

Como ninguém percebeu onde ficava aquele sítio estranho - onde os gajos tinham combinado o encontro - foram uns quantos séculos de discussão: acentuação do grego, se o ladrão do meio, que tinha referido Hoje, estava a falar daquele dia ou do fim do tempo; se o fim do tempo era no outro dia, dali a três semanas ou vinte séculos; se o Hoje pertencia a outra qualquer dimensão que ainda está por descobrir; se o encontro metia o corpo e a alma ou se era só a alma; se a alma dormia, levitava, ou era emanação de Deus; enfim toda uma panóplia de certas e determinadas questões.
Nisto apareceu um jesuíta, daqueles tramados, chamado Vieira e disse:

“Levarem os reis consigo ao Paraíso ladrões não só não é companhia indecente, mas acção tão gloriosa e verdadeiramente real, que com ela coroou e provou o mesmo Cristo a verdade do seu reinado, tanto que admitiu na cruz o título de rei. Mas o que vemos praticar em todos os reinos do mundo é tanto pelo contrário que, em vez de os reis levarem consigo os ladrões ao Paraíso, os ladrões são os que levam consigo os reis ao inferno.”

Quanto a mim nenhum deles era ladrão. O primeiro era um gajo sem paciência, mal orientado, que acabou amargurado com o estado das coisas. O do meio era um carpinteiro a quem ninguém conseguiu explicar bem os contornos daquela lamentável situação. O terceiro…Bem o terceiro talvez fosse como um gajo que todos os dias se senta para escrever e não consegue entender porque será que o gajo do meio faltou ao encontro combinado.

Um boa crítica é sempre um grande comentário

Claro que a culpa não é do Magister Neves. Podemos invocar antes do mais as assobiadelas ao Pringle, esse ponto de lança luxuoso, clássico direi mesmo, que o benfica requisitou às neves da Suécia para gelar os adversários. Acontece que foram os sócios e a direcção que acabaram gelados com as exibições do jogador nórdico. Vem isto a propósito do nosso espaço Always on my mind. O breviário comentado que aqui apresentamos não pretende ridicularizar os cronistas uma vez que os próprios conseguem fazê-lo melhor do que ninguém (o Magister Neves é um exemplo eloquente). O que se pretende é justamente prevenir os leitores do que as colunas de opinião dos jornais de referência, bem como os espaços de comentário das televisões, são cada vez mais um espaço pervertido, onde as informações são passadas de forma leviana e sem qualquer tipo de escrutínio. Isto resulta de um equívoco dramático que Fernando Savater (na sua forma despretensiosa) identificou de forma muito clara:

“O estúpido direito a ter opinião que não é o direito de pensar por si mesmo e submeter a uma confrontação racional o pensado, mas sim o de manter a própria crença, sem que ninguém interfira com incómodas objecções. Viver numa sociedade plural impõe assumir que o que é verdadeiramente importante são as pessoas , não as suas opiniões e que estas devem ser escutadas e discutidas e que não nos devemos limitar a vê-las passar, sem as tocar, como se fossem vacas sagradas”

Fernando Savater, O valor da educação, Presença, Lisboa, 1997

O que está em causa é um poder absolutamente determinante na vida de cada um de nós. Como todos sabemos os jornais de grande tiragem, as televisões e, felizmente, cada vez mais a net, determinam parcialmente eleições, decisões políticas, formas de pensar e até empregos, para já não falar no seu papel cada vez maior na construção do tecido económico. O último que tentou colocar a questão, o deputado Carrilho, apesar da forma arrogante com que o fez, talvez não merecesse ter sido atropelado como foi. A verdade é que assistimos ao passear de opinião sem contraditório, sem esclarecimentos, de discursos disparatados que por serem tidos como opiniões são considerados intocáveis. Caro leitor, concordo que todos têm o direito a opiniões. Mas convém que elas sejam bem argumentadas, inteligentes e informadas. O problema do Magister Neves (como aliás outros cronistas a “convidar” ao nosso espaço) é que raramente consegue reunir estas três condições em simultâneo. Reproduzo aliás a sua observação com a qual concordo em absoluto: “Esta reverência da nossa dita comunicação dita social para com determinadas personalidades é que me incomoda. Lembro-me sempre do "só sábios éramos não sei quantos...", CS obviamente incluída”.
Não significa isto tornar os meios de comunicação bodes expiatórios dos impasses políticos. Significa que é preciso verdadeira pluralidade. Significa que o jornalismo não deve ser uma missão (como Miguel Sousa Tavares relembrava ontem a Ana Lourenço na Sicnotícias) mas uma profissão, uma dedicação. Se assim fosse talvez os disparates diminuíssem ainda que, como é óbivo e sempre nos recorda o velho Platão, ter ciência é saber que ela nos pode abandonar a qualquer momento.

Umpf

Isto de ser novata é uma chatice, nem conseguir publicar a minha mensagem onde a queria. :(

Ó El_Presidente, é possível reorganizar os posts para eles estarem no sítio correcto? Não gostaria nada de ficar presa nestas limitações, imagine-se que se tratava dos quadrantes sócio-políticos, já viram o erro gigantesco e os danos irreversíveis que uma colocação não desejada poderia causar? Isto mesmo depois de se ter feito o teste e o resultado indicar o que o coração também sente?

Resumindo e baralhando: help!

Tell me a story

Era uma vez um tipo com a mania. Que jogava à bola. Mas era coxo e tinha um péssimo penteado. Um dia fartou-se e foi para treinador. Nunca mais foi o mesmo. Só o penteado ficou. The end.

ps. já que o Alf inaugura espaços aqui no blog, eu não quero ficar atrás. Assim inventei o tell me a story.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

You were always on my mind

Iniciamos hoje no blogue da Ermida um espaço chamado You were always on my mind. Esta momento de reflexão pretende divulgar a importante opinião (diria mesmo, em vários casos, uma fulgurante capacidade de leitura do real) de vários colunistas de reconhecido mérito e prestígio. Perante o contínuo silêncio que lhes é imposto pelas forças ocultas do materialismo, estes homens amordaçados pelos sindicatos e pelo conservadorismo marxista resistem denodadamente ao espírito do tempo.

Para combater esse silêncio analisaremos o conteúdo dessas opiniões glosando as afirmações mais esclarecidas. Deste modo estaremos a contribuir para aquilo que julgamos ser um autêntico breviário comentado do homem moderno, permitindo, em simultâneo, que o esquecimento não nos separe destas fontes de clarividência.

Hoje temos connosco o Magister César da Neves. Com a crónica “O trauma e o regresso da religião” é todo um mundo que se descodifica perante o nosso olhar. Pela mão do Magister a realidade não tem segredos, e vemos ermergir uma autêntica “aletheia” interpretativa em torno da verdade.

Oiçamos com atenção:

“Assiste-se à expansão aberta das devoções descafeinadas, sobretudo nas zonas de decadência cultural, como a Europa”.

Apenas alguns poucos seriam capazes de perceber que a Europa é uma região em decadência cultural. Aliás, há vários decénios que não se lê um jornal, não se assiste a um noticiário, não se frequenta uma conferência em que a palavra crise seja pronunciada. Querem esconder-nos esta preocupante realidade. Mas o Magister Neves aí está para a desmontar pronunciando com coragem a palavra decadência, mostrando que a Europa é um lugar em ruínas, abjecto nos seus comportamentos, decadente, mirrado, pífio, a bolsar infecções por todos os seus poros. Apenas por compaixão o Magister Neves não conclui a sua tarefa fazendo desfilar perante os olhos atónitos do leitor uma autêntica galeria de regiões onde a a cultura pulsa, vibrante e radiosa como o sol de verão: a américa latina e a sua fulgurante cultura política, assente sobre uma irrepreensível distribuição da riqueza e uma multplicação imparável da escolaridade; a américa do norte e o seu desenvolvimento inigualável, movido por um combate cego a favor do pacifismo e da abolição das armas; o médio oriente e os seus inegáveis contributos científicos – o cinto de explosivos e a burka; a ásia, meu deus a ásia com o seu oriental respeito pelo silêncio, onde emergem culturas plenas de vida, de chumbo e de gaiolas habitacionais com meio metro quadrado; em África nem é preciso falar. Sobre África, ó Europa da vergonha, apenas uma palavra: catana.

“A juventude naturalmente não pode existir sem uma fé. Os que a assumem, vivem equilibrados; os outros são explorados por interesses sedutores. O rock e o metal, por exemplo, apresentam-se cada vez mais como avassaladoras galáxias de doutrinas metafísicas, com santuários, paramentos, liturgias e penitências. Os novos profetas organizam-se em bandas e a visita semanal à discoteca substitui para muitos a missa. O êxtase dos concertos imita as antigas apoteoses dionisíacas.”

Ó meu deus, como acompanhar tanta sapiência. “A juventude naturalmente não pode existir sem fé”. Sobre isto não compreendo e por isso não vou falar. Mas naturalmente que aqueles que assumem a fé decerto são equilibrados, de outro modo para quê assumir a fé? Ou alguém está por acaso a sugerir que a fé é uma forma de colmatar um forte desiquilíbrio em torno de uma incapacidade, tão humana, de não fazer silêncio perante aquilo que não compreende? Acho bem que o leitor não venha com progressismos iluministas ultrapassados e decadentistas. No que diz respeito ao rock e ao metal como galáxias de doutrinas metafísicas (uma bela expressão) acho que o Magister põe o dedo na ferida. Quando estabelece uma analogia entre a missa e a discoteca é como se uma luz brilhasse de repente na escuridão existencial dos séculos humanos. Isto porque há muito que me preocupava o facto de sair sempre da missa com um cansaço de quem está há três horas aos saltos, além do cérebro inebriado por uma espécie de repetição insurdecedora.

“Até a letra de muitas canções lembra o Livro dos Salmos. Nominalmente tratam do prazer, mas só ganham sentido como orações. Frases como "não posso viver sem ti" ou "amar- -te-ei para sempre" são incompreensíveis se dirigidas à amada; mas referidas a Deus, tornam-se plausíveis e razoáveis. Até o Papa pode rezar, quase sem mudar uma vírgula, com as nossas canções, da velhinha Always on my Mind (1972) de Elvis Presley até a I Do It For You (1993) de Bryan Adams.”

Agora ó incrédulos e materialistas façam silêncio perante as trompas da verdade. Magister não podemos viver sem ti. Esta ideia do Papa a rezar ao som de Elvis parece-me talvez o momento que inaugura este século XXI em termo de capacidade hermenêutica. Pet Shop Boys ao altar e já.

“São os meios anticlericais que mostram bem como a religião ultrapassa o campo da religião. O cepticismo militante mostrou ser a fé do avesso. O fervor beato dos ateísmos, jacobino ou marxista, o dogma inabalável do cientifismo panteísta ou a mística apocalíptica dos movimentos ecológicos e naturistas, contêm todos os elementos das igrejas tradicionais. Os pregadores inflamados estão hoje não nos púlpitos mas em comícios esquerdistas e revistas radicais”.

Em relação a este princípio de leitura é copiar para o caderno, acreditando que talvez um dia eu esteja à altura de o entender. Por agora resta-me unir as duas mãos e agradecer.

“Para compreender o trauma e o regresso à fé múltipla de Atenas, é preciso considerar a História recente. Ela começa no choque original da cultura moderna, as guerras da Reforma. Nessa época, em que detalhes teológicos se tornavam pretextos nos campos de batalha, as pessoas pacíficas não podiam falar de fé, sob pena de combaterem os vizinhos. Foi um tempo terrível! A razão por que os nossos intelectuais não percebem a religião, e só pensam em violência quando falam dela, vem da miopia imposta por esta obsessão. Este é o trauma.”

Não percebi. Repete uma outra vez Magister.

“Para compreender o trauma e o regresso à fé múltipla de Atenas, é preciso considerar a História recente. Ela começa no choque original da cultura moderna, as guerras da Reforma. Nessa época, em que detalhes teológicos se tornavam pretextos nos campos de batalha, as pessoas pacíficas não podiam falar de fé, sob pena de combaterem os vizinhos. Foi um tempo terrível! A razão por que os nossos intelectuais não percebem a religião, e só pensam em violência quando falam dela, vem da miopia imposta por esta obsessão. Este é o trauma.”

Ahhh, agora sim. Como ficámos traumatizados pelas guerras da reforma não conseguimos separar a religão da batatada renascentista. De maneira que as guerras de religião foram um pretexto para outras convulsões, mais estruturais, alimentadas por forças subterrâneas que fizeram depois pagar a factura aos deprotegidos credos das religiões, instrumentalizando a fé. Mas ó Magister isto cheira-me a materialismo. Se a religião não foi o verdadeiro motor da guerra, então qual foi? Não venha o leitor com a economia que saco já aqui da minha nossa senhora de fátima florescente.


“Perdidas as raízes culturais, apareceram duas soluções. O iluminismo do século XVIII julgou responder com a religião natural, sem padres nem igrejas. E acabou na guilhotina. O positivismo do século XIX fez do homem armado com a ciência o único deus, e Marx, Freud, Sartre, os seus profetas. Com o Holocausto, a bomba e o gulag, ele revelou-se o pior dos ídolos.”

De lágrimas nos olhos apetecia-me cantar uma canção do Frei Hermano enquanto lia o livro de Aura Miguel Porque viajas tanto, tal é a comoção que este desmontar da mentira e da perversão provoca no meu enganado coração. Perdidas as raízes culturais…Precisamente. Ou seja, acabado esse exercício de cultura que era a osmose combinatória (bela expressão de Manuel João Vieira) entre religião e poder foi o fim da cultura na Europa. Morto S. Inácio de Loyola e o Papa Leão X nunca mais a Europa assistiu a uma frase inteligente. Desde então vivemos na mais profunda escuridão. O iluminismo acabou na guilhotina. Nem mais ó Magister, nem mais. Até que enfim alguém diz uma verdade a esses ilumnistas. Virem para aqui com iluminações quando a o rebanho estava no escurinho a rezar o terço e a pedir para o pão chegar para o jantar. Olha os malandros.

Que mais Magister, que mais?

“Estas duas soluções, muito sedutoras, omitem a verdade mais evidente. A natureza e o homem não são deus, não se criam a si mesmos nem controlam o mundo à sua volta. Ou Alguém faz isso, ou então a vida e a realidade não têm finalidade e sentido.”

É preciso dizê-lo com clareza novamente. “A natureza e o homem não são deus, não se criam a si mesmo nem controlam o mundo à sua volta”. Exacto. Quem controla o mundo, enquanto Deus está de férias em Porto Galinhas, é o Sapo Cocas que ainda ontem lhe fiz uma prece para o jogo de quarta-feira na Luz. - Sapo Cocas, escuta-me com atenção que tu estás sempre no meu coração, quando o Petit chutar a bola para a bancada por favor suspende as leis da gravidade e faz com o que o esférico entre na baliza do Dida.


“Foi assim que o ateísmo, sem conseguir fundamento intelectual sólido ou resposta às questões humanas, se revelou uma crença arbitrária. Hoje, após a angústia da Reforma, o terror da Revolução e a perplexidade da guerra global, somos de novo, em tudo, os mais religiosos dos homens.”

Precisamente. “Fundamento intelectual sólido” têm os milagres de Fátimas a que o Magister já dedicou centenas de páginas. É uma pena que as pessoas continuem a ignorar esse facto. E quando assim é, como dizem os futebolistas, não é de admirar que a europa esteja em decadência.

“Só falta ouvir o que Paulo tem a dizer”.

Tentámos trazer aqui um testemunho de Paulo mas não estava disponível uma vez que amanhã se desloca ao comício da Al Qaeda, a convite de Bin laden, para uma conferência intitulada “Do apedrejamento de cristãos à diáspora do disparate: como contribuir para a morte de pessoas e sair por cima”. Não podemos ouvir Paulo, ó Magister, mas dedico-te esta canção do Marco Paulo:

Niguém, ninguém, poderá mudar o mundo
Ninguém, ninguém é mais forte que o amor
Niguém
Niguém

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Eureka revisitada

Ao ler o texto abaixo do Alf e especialmente na parte do sonho, lembrei-me deste sketch dos Monty Python:



É curioso reparar que há uma supresa no onze destes académicos, Arquimedes (matematico, engenheiro, fisico, etc) que parece não ter lugar, mas que tem a sua famosa ideia e descobre o caminho para o golo que, ironia das ironias é marcado pelo filosofo de serviço Sócrates que saindo da sua apologia marca um golo à Liedson (desculpem o clubismo latente. O Alf compreende que não podia colocar aqui o Nuno Gomes).

Assim caro Martim, podes ver mais um grande exemplo de como os filosofos tem boas hipoteses nesse grande mercado global como lhe gostam de chamar nos nossos dias, nem que seja no emocionante futebol de distrital a que chamamos superliga. Para acabar, refiro apenas um artigo publicado no teu jornal no dia 20/11, onde se dizia:

"É verdade que os curso de engenharia e informática poderão ter mais saida, mas nos outros paises os licenciados encontram emprego em áreas diferentes daquelas que estudaram directamente, porque aprenderam hábitos e capacidades de raciocinio que lhes permitem colocar as questões certas", explica João Ferreira do Amaral, economista e professor do ISEG. E exemplifica com os curso de Filosofia, que "noutros paises são aproveitados até para áreas especificas da economia, onde é importante ter uma determinada capacidade e estrutura mental". Jorge Armindo, presidente da Amorim Turismo também defende que uma formação em Humanidades ou em Letras não deve ser vista como um 'handicap' no mercado de trabalho actual. E dá um exemplo: "Um dos melhores especialistas em banca de investimento é inglês e licenciado em literatura inglesa."

Eureka Martim

Avillez, avança que agora é a tua vez

Esta semana em matinal viagem a caminho de Lisboa (numa A5 entupida junto ao estádio – onde se prepara uma sagaz resolução do problema da mobilidade com a construção do Oeiras valley no principal nó rodoviário do Concelho) ecoava na TSF mais um exercício da nova canção nacional: a economia de bolso. Martim Avillez de Figueiredo, jovem promessa da gestão portuguesa e lúcido director do Diário Económico, frequentador de tudo quanto mexe na área da comunicação, lançava nas ondas da rádio a receita do desenvolvimento pátrio: “numa época de globalização apenas podemos competir com os fazedores de camisolas de lã da índia e da china se formos capazes de fazer camisolas impermeáveis podendo, por isso, acrescentar um prémio ao preço de venda.” É um facto. Camisolas de lã impermeáveis merecem prémio e destaque. Juntava-se a isto a original e impressionante - dada a sua indiscutível raridade - invocação da mais valia tecnológica. A talhe de foice decepava pelo caminho os cursos de humanidades e os próprios cursadores - esses parasitas que apenas têm conseguido emprego na área do ensino (esse bicho indomável a que os liberais não sabem bem o que fazer) num passado rançoso e venezuelano que é necessário relegar para o baú das recordações. Ou seja, multiplicação de cursos tecnológicos para chular camisolas à prova de chuva aos gajos loiros da europa do norte, ou ao brasil, onde também chove muito no verão e parece que a escolaridade é menor e por isso passível de engolir produtos manhosos.

O director Figueiredo rematava com uma frase de antologia, dessas que deviam figurar nas badanas dos livros de espiritualidade à venda no centro comercial a fim de massificar, depressa e bem, a receita para vencer a crise: “as pessoas têm que entender que têm que se adaptar à economia, a esta nova economia”.

Nesta altura já a fila da auto-estrada se movia com mais desenvoltura, os carros passavam dos soluços irritados das tartarugas na praia, ao deslizar lento dos dejectos pela sanita, enquanto nas ondas da rádio me inebriavam o espírito de desenvolvimento e criação de riqueza anunicada no plano do director Avillez de Figueiredo.

Entretanto, chegado a casa depois de um dia de Biblioteca Nacional, onde me desparasitei e resei três pais-nossos para redenção das minhas culpas na prática da inutilidade e reparação do meu pecado de lesa-economia, depois de alguma navegação à vista pela net - movido por esse vento do progresso anunciado pela rádio - dei com mais uma declaração forte, grande, justificada, do director espiritual da nação económica. Agora na Sic Notícias a pluralidade em todo o seu explendor dissecava os problemas do emprego. Quem falava? O director Figueiredo. Aqui vai um pequeno comentário dessa análise forte, grande e justificada do director do Diário Económico:

“Há medida que se vão perdendo empregos vão-se ganhando empregos nestas áreas tecnológicas e de empregos mais qualificados”. Nem mais. Há quem perca o emprego é certo, mas que importa isso se passamos a ter coisas com botões que até mandam faxes e recebem, e permitem contar, inventariar, comunicar, copiar, expandir, etc. Nisto o meu gato pergunta – Ó Alf mas que é que as pessoas fazem com a comunicação se não têm nada para comunicar? Perante o meu silêncio voltou a baixar o focinho para a leitura do Diário Económico.

De maneira que, no ecrã, o director Figueiredo continuava a sua digressão: “O período de desenvolvimento da economia portuguesa empacta justamente nesta formação que os portugueses ao longo dos últimos vinte trinta anos se habituaram a ligar a um bom emprego. E que formação é essa? São sobretudo formações superiores na área das humanísticas e das ciências humanas”
Fulgurante esta conclusão. Exactamente. Nestes últimos vinte anos, humanidades e bom emprego foi um casamento de sonho. Portanto, em 74 quase não havia licenciados em Portugal (é consultar o esquema para quem quiser ver as proporções) e em 80 já a minha mãe, que tem a quarta classe, espalhava fúria na minha casa porque as letras não eram futuro para ninguém e parece-me que Sócrates e Platão há pelo menos 2500 também não tinham grande vida, se não fosse a proveniência de outros rendimentos. Mas isto deve-se, concerteza, à nossa condição de retornados (além da peçonha dos rios moçambicanos) pois é evidente que nessa época toda a gente sabia (menos a minha mãe) que cursar letras era fortuna garantida sem espinhas e sem estudo.
Pelo que o director Figueiredo descobriu perspicazmente o que ninguém até agora percebeu. Os portugueses andaram trinta anos a viver à tripa forra com Kant e Weber debaixo do braço, embalados em iates, bem regados pelo vinho bordéus que as conferências sobre temas de humanidades permitiam pagar a peso de ouro. E porque é que ninguém percebeu? Porque todo o país está manietado por essa odiosa ideologia das humanísticas (bela palavra, esta mescla de humano com estatística) e não percebeu que todos os empreiteiros que nestes últimos vinte, trinta anos encheram o bandulho à custa do futebol, da corrupção e da ignorância, são professores de filologia clássica em Universidades de excepção, entregando-se nas horas de ócio ao estudo da sofística ateniense do século IV a.c., da análise semiótica das iluminuras medievais cistercienses, da flutuação dos preços do trigo no mediterrâneo no tempo de Felipe II, entre a viagem para observar a construção da nova auto-estrada e a jantarada com o presidente do Merdaleja Futebol Clube. Por isso chegámos a este estado lamentável. Estes empreiteiros – e seus milhares de sequazes formados em humanidades – em vez de se terem dedicado a estudar técnicas para desenhar camisolas de lã impermeáveis enterraram o dinheiro da nação nestas minudências das letras passadas.

Figueiredo avança fulgurante, no desvelamento da verdade: “Aí temos como sabemos essa guerra grande forte e justificada contra alguns dos privilégios excessivos que os professores tinham em Portugal. Esses privilégios excessivos explicam alguma redução dos postos de trabalho junto dos professores”.

Até que enfim alguém diz com clareza que é necessário guerra aos professores. Sem quartel. Até que enfim alguém repõe o mínimo de justiça neste inqualificável regime de excepção minimizando os traumas de liceu que todos temos escondidos no âmago do coração: os professores, esses malandros que nos faziam ler mais do que o Diário Económico (para quê se está lá tudo?) e ver além da SIC (para quê se lá nos explicam tudo?). Os professores…. esses malandros que ocupavam todos os lugares do estacionamento do liceu com carros topo de gama não deixando lugar para o estacionamento do meu carrinho de rolamentos, esses gatunos que traziam hordas de acessores, ocupavam toda a área nobre de Almoçageme com as suas casas com piscina; esses insurrectos que chegavam de helicóptero, deixavam gorjetas de 10 contos na cantina da escola, esses pilantras que partiam rumo às Caraíbas aos cinquenta anos, para esbanjar a sua milionária reforma usufruindo de um luxuoso sistema de saúde assegurado pelo sindicato dos professores, uma poderosa máquina de privilégios que nomeia o Papa, controla a rota dos meteoritos e comanda os ventos cósmicos.

Figuereido levanta então a sua voz, fulmina com o olhar o poderoso inimigo do progresso e anuncia ao povo sedento de justiça o seu caminho: “Estes 160 000 licenciados que perderam o emprego têm a ver com todos estes licenciados de ciências humanas que não estão ainda ajustados a estas novas necessidades da economia portuguesa (…) É importante que as gerações mais novas e que aqueles que são pais das gerações mais novas vão ajudando os filhos a perceber que o velho paradigma - em que eles (os pais) foram educados - das ciências humanas já não vai funcionar em Portugal e que esse tipo de empregos não terá postos de trabalho no futuro, por isso é necessário que nós, que os indivíduos façam a sua parte, que é ajustar a sua formação superior às condições do mercado e depois é preciso que o Estado aposte a sério nesta alternativa tecnológica.”

Muito bem. Evidentemente. Os indivíduos, sobretudo esses gajos humanísticos que babam coisas a respeito do homem, e até lêm outras coisas além da Maxmen e do Expresso, não estão ajustados à necessidade da economia. Como a economia (amen, louvada seja para sempre e seu pai santíssimo também e a virgem mãe sacratíssima) impõe mudanças no funcionamento global do sistema os gajos das humanidades não estão ajustados ao sistema. Por isso é comer e calar que todos "os processos de transição têm as suas dores de crescimento" diz Figueiredo El director (tem piada isto agora soou-me a PREC).
Melhor. Os pais têm o dever de informar os filhos que não vão para essas áreas sebentas das humanidades porque não têm emprego, a fim de que se possa extinguir rapidamente esse incómodo no qual se consome o dinheiro público, de forma a poder conduzi-lo para outras necessidades prementes como a construção de mais 240 estádios para o mundial de 2012, por meio das quais se produzirão mais 2500 empresas como a MartinFer de Paços de Ferreira (certamente habitadas por resmas de tecnológicos funcionários dando a emprego a milhões de funcionários tecnológicos devidamente formados para a utilidade da utilidade), que possa produzir empresários de risco como esses que colocam em bolsa empresas de contrução de estruturas metálicas de estádios de futebol em europeus negociados por gente de elevado gabarito e apreciável capacidade de gestão (Madaíl, Loureiros, Costa, Vieira) em articulada colaboração com políticos de prestígio e elevada competência técnica (Lello, Sócrates, Arnaut) de forma a que continuemos a privilegiar no espaço televisivo programas de três horas em que tolos regorgitem alarvidades sobre a sua desorientada cabeça e o Eduardo Lourenço seja calado pela música de fundo porque se aventure a falar mais do que dois minutos.

O leitor deve estar um pouco agoniado com tudo isto, pois pergunta certamente como podemos ter sido enganados durante tanto tempo pelos Professores que controlam as nossas crianças nas odiosas escolas públicas, mantendo o povo num indigente atraso. Calma, caro leitor, não peguemos ainda em armas contra esses vermes do ensino público pois o Director tem a solução do nossas angústias. Deixemos por isso falar uma última vez D. Avillez de Figueiredo:

“Não basta que o Estado traga uma empresa como a Microsoft e faça protocolos com uma Universidade como o MIT, é preciso que o governo faça o enquadramento de tudo isto, criar incentivos fiscais, um novo paradigma fiscal em Portugal”. Confesso que gora fiquei confuso. Pensei que a tecnologia era uma inevitabilidade do mercado, uma imposição do sistema económico que as empresas multiplicavam de olhos fechados na persecução do bem comum. Pensei que a horrenda intervenção do Estado ficava apenas para a Venezuela…
Foi então que percebi o meu cansaço e me deitei, consolado pelas palavras lúcidas do director assegurando o caminho do amanhã que, finalmente, depois da grande mentira comunista, volta a cantar para os nossos filhos. Toda a noite desenhei em sonhos sistemas digitais, além de um brasileiro vestido com uma camisola de lã que, de forma intermitente, aparecia na grande área e marcava o golo da vantagem na final da liga dos campeões. O Benfica jogava contra um onze poderoso (o campeão da União Soviética) formado por perigosos jogadores onde, perante cada aproximação televisiva descortinava com horror a fisionomia de Foucault (rapidissímo médio ala), Descartes (com tri-velas de envergonhar o Quaresma), Hegel (central frio e cerebral), Nietzsche ( com um domínio de bola assinalável) e na baliza, claro, Marx.

O sonho prolongou-se neste jogo de nervos. Ao intervalo tocou a campainha e quando abri a porta era um rapaz a pedir assinaturas para o Jornal Económico do Bairro. Eu sorri e disse baixinho:

Martim, como todo o carinho pelo teu brilhante percurso, apenas uma recomendaçãozinha para o jornal do bairro (e um grande abraço ao Professor Freitas do Amaral - esse intelectual de incomparável gabarito que pela primeira vez me apareceu em sonhos dizendo «eis que uma economia conceberá licenciados em tecnologia»):

Experimenta uma consulta ao sítio do MIT. Depressa perceberás que o país onde bebeste essa prosa liberal em terceira mão (por via regorgitada de Oxford) tem nas suas instituições de tecnologia escolas de “humanísticas”. Ou seja, em países com economias desenvolvidas não apenas se multiplicam os cursos de humanidades – com um investimento secular em colecções de arte, documentos históricos comprados na Europa, preciosidades arqueológicas gregas – como as própias instituições de tecnologia como o Massachusetts Institute of Technology consideram essencial a formação em humanidades e promovem o emprego em “humanísticas”, criando Colégios como a School of Humanities, Arts, and Social Sciences onde existe um departamento denominado Science, Technology, and Society onde se desmontam algumas das patetices que jovens talentos da gestão por correspondência, como tu, teimam em multiplicar nos noticiários onde têm acesso, ninguém sabe exactamente porquê, nem de que forma ou critério.
Porque a questão da teconologia não está na tipologia do cursos mas no padrão de desenvolvimento e, por isso, o que dizes é um enorme disparate. É como se recomendasses a alguém que precisasse de dinheiro que para o obter devia apostar em pedir dinheiro. A tecnologia é a consequência e não a causa. A causa, meu amigo, é também uma larga disseminação de um boa formação em humanidades, aberta e especulativa, além de uma massificação do pensamento teórico (nas suas várias dimensões) além de muitas outras questões relacionadas com a participação cívica e a consciência política dos cidadãos que se envolvem no tecido produtivo com preocupação pública, coisa que, ao contrário do que todos os dias se repete, nunca abundou em Portugal.

Aliás, a própria capacidade de produzir tecnologia está ligada a um pensamento especulativo, também exercitado pelas ciências humanas, pela filosofia, pela história. Como sabes o pai de Heisenberg, aquele da incerteza - essa coisa estranha, mas familiar a tipos hesitantes como eu – era Professor de História Bizantina. Como também gosta de lembrar o meu amigo Armando, o Newton - como deves saber, pai da mecânica moderna e de grande parte da tecnologia da primeira industrialização - passava 80% do tempo a ler a Bíblia e a especular sobre astrologia e teologia, as duas coisas mais inúteis de toda a história do pensamento. Mas compreendo Martim, isto só o saberias se tivesses estudado História ou Física essas disciplinas da especulação inútil que urge substituir por licenciaturas em Engenharia das Camisolas de Lã.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

A luta continua

Estes senhores estão a tornar-se um caso sério da nossa realidade. E já mudaram a face da nossa televisão comodista e pouco exigente. Esta semana tocaram em 3 assuntos tabu em Portugal: fado, futebol e fátima. Deixo-vos o de Fátima que é simplesmente fabuloso (alem de demonstrar bons conhecimentos biblicos)



Aconselho também que vejam o do Fado e o do Futebol.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Quandrantes e assimptotas

Este site traz um teste interessante que pode ser revelador da nossa consciência politica e social. Fiz o teste e eis os meus resultados:

Economic Left/Right: -3.75
Social Libertarian/Authoritarian: -4.92

Comparando com outros senhores famosos:

é bom saber que ando perto do Dalai Lama. Caro leitor revele-se.

domingo, 18 de novembro de 2007

Ser um mais ou menos cidadão responsável!

Um dia destes estava eu a correr no meu ginásio (Passeio marítimo) e coloquei-me a mim mesmo uma questão. Se já faço parte daquela parte da população com mais de 18 anos, e que por isso tenho responsabilidade de exercer o meu direito de voto, como todas as pessoas com mais de dezoito anos têm, e também tesponsabilidade de escolher quem eu quero que governe o meu país, porquê não me posso candidatar também a cargos públicos da sociedade como primeiro-ministro ou presidente da república. Não é a questão de votarem em mim ou não. Acho que não tenho muito dinheiro para alimentar grandes máquinas de propaganda política, mas seria justo, numa perspectiva que se cada pessoa com direito de voto é suficientemente dotado de capacidade crítica e que por isso vota em quem acha, segundo os seus princípios obviamente, então também deve ser capaz de se propor a cargos públicos, como os que referi a cima. É preciso por os olhos em verdadeiros exemplos de democracia, como a democracia ateniense. Mas como é óbvio, nós não percebemos nada de democracia nem nada desses assuntos, só aqueles senhores lá daquele sítio das leis, lá para Lisboa!

Para quê privatizar empresas públicas?

Num momento em que se fala na privatização da empresa Estradas de Portugal (sim porque o que o governo quer fazer é uma privatização disfarçada aos olhos de todos nós). Mas agora pergunto-me o porquê destas privatizações todas em nome de um estado mais eficaz e em nome da redução do peso do estado na sociedade. Aquele conjunto de tecnocratas e reveladores da verdade como o compromisso Portugal dizem que o estado deve ter menos peso na sociedade e deve privatizar mais empresas. Será mesmo isso que Portugal precisa. Acho que não! Provas dadas do contrário são as empresas estatais, outrora privatizadas, que agora dão imenso lucro, mas que já nao pertencem às mãos do estado ou na realidade, já não pertencem à grande maioria dos portugueses!
O que se quer, no meu ponto de vista, é um estado cada vez mais forte com maior peso na sociedade através de empresas públicas, para concorrer com as privadas. Não se pode deixar as empresas que todos nós criámos a partir dos nossos impostos cair em mãos alheias. O que é de facto importante é essas empresas criarem riqueza e essa mesma riqueza ser canalizada para a educação, ciência, melhores cuidados de saúde, enfim todos os pontos essenciais para termos uma sociedade mais justa e mais equilibrada, onde na prática todos tenham acesso às mesmas coisas, e não só um conjunto de uma elite (que é sempre a mesma e já chateia, na minha opinião).
Se desresponsabilizarmos o estado das suas funções, para quê votarmos. Só para ter uma, e desculpem-me a expressão, cambada de pseudo-intelectuais que só, pelo menos na maioria das vezes burucratizam leis. Também se não concordarem comigo, amigos na mesma, mas então em tom irónico coloco esta questão : Porque não privatizarmos o estado?
Tenho dito

sábado, 17 de novembro de 2007

Parabéns!!!!

Mas eu não fiz anos mamã!!! Mas oh filho é caso para comemorar. O Sr José também comemora e nós, como bons europeus que somos, temos de o demonstrar também aos primos lá das outras terras,sabes lá do resto da Europa, filho! (Parece que ofereceram uma pequena guloseima ao sr. José!
)

A liberdade das ideias

Falando de coisas mais sérias, encontrei esta pérola no blog do meu amigo P.



O texto completo pode ser encontrado aqui. Podemos viver presos. Mas as ideias não. Não podia estar mais certo este senhor.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

100% cool

Os ermidenses que me perdoem, mas tinha que colocar isto aqui. Directamente do baú, essa música bestial que é o Daddy Cool.



Nem sei do que gosto mais neste videoclip. Os penteados delas. O penteado dele. Dos movimentos tresloucados do vocalista. A letra inspirada e tão pouco repetitiva. O público caucasiano que contrasta. E que humildemente vai batendo umas palmas. E aquele dente de marfim? 100% cool!

Pra descontrair - la cancion

Já andava para o fazer há bastante tempo, mas assim que soube a boa notícia - na parábola, aí em baixo - resolvi enviar via net o pedido de pagamento de defesas oficiosas em atraso ao Senhor Presidente do I.G.F.P.J.

Assim vai-se dizendo as verdades!

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Parábola do bom ladrão

Senhor Ministro não se arranja um desses carrinhos para mim?


"Esta aquisição, executada pelo Instituto de Gestão Financeira e de Infra-Estruturas da Justiça (IGFIEJ) e autorizada por despacho do secretário de Estado adjunto do ministro da Justiça, Conde Rodrigues, está a provocar, segundo apurou o DN, algum mal-estar nos meandros judiciários, nomeadamente nos tribunais, uma vez que são constantes as queixas da falta de dinheiro para a compra dos materiais mais básicos. Por outro lado, os magistrados do Ministério Público recorrem normalmente à Polícia Judiciária para conseguirem uma viatura quando necessitam de realizar uma diligência.

Neste panorama de carência, um dos contemplados com um novo carro de alta cilindrada foi o presidente do IGFIEJ, com um Audi Limousine 2.0TDI, de 140 cavalos. Esta viatura, sem o IA, custou ao Estado 38 615,46 euros, com 2831 euros de equipamento opcional, nomeadamente caixa de 6 CD, computador de bordo a cores, sistema de navegação plus, sistema de ajuda ao parqueamento, alarme e pintura metalizada"

Prometo que não digo a ninguém. E pode vir sem extras. A sério.

sábado, 10 de novembro de 2007

Isaltino constrói "Oeiras Valley"

Fui buscar esta ao baú recente do Google e do Expresso. Atentem nas palavras do senhor presidente Isaltino. Já agora e em relação ao posto anterior o senhor líder da distrital de Lisboa deve querer um apartamento neste lugar: Alto da Boa Viagem


In Expresso 25.08.2007
Jornalista: Carla Tomás

Abandonado durante décadas, o terreno entre Caxias e o Jamor prepara-se para receber três torres de apartamentos, um hotel de cinco estrelas e um pavilhão multiusos.

Obviamente que isto é para gente rica”, exclama o presidente da Câmara Municipal de Oeiras, Isaltino Morais, defendendo o mega empreendimento projectado para o Alto da Boa ViagemDesignado pelo autarca como “de alta qualidade” e “estratégico” para o concelho, o projecto foi aprovado por unanimidade pela Câmara, em Maio. Porém, não faltam vozes críticas entre os populares locais, que chamam a atenção para a sua “enormidade” e para os problemas de mobilidade nas já congestionadas A5 e Marginal.
“Não me parece razoável recorrer a terrenos do Estádio Nacional para estacionamento e para fazer rotundas de saída para a A5”, critica Vale Henriques, membro do movimento Salvem Caxias, criado para lutar contra a construção da cidade judiciária e vencedor dessa batalha.

A ideia é reforçada por Jane Carvalho, representante do Bloco de Esquerda na Assembleia Municipal de Oeiras, que lembra que “os lugares dimensionados são muito inferiores aos necessários” e que diz não perceber como se vai utilizar o estacionamento do Jamor “do outro lado da via rápida”. A deputada bloquista acrescenta que “enquanto não houver um estudo de mobilidade sério, um projecto destes não deve ir para a frente”. E recorda que existe no processo um parecer dos serviços da própria Câmara a alertar para os problemas de tráfego.

Na mesma linha, o especialista em transportes Carlos Gaivoto salienta que “faltam estudos de tráfego” e que este empreendimento não tem em conta as indicações do Plano Regional de Ordenamento do Território que aconselha a contenção urbana na Área Metropolitana. “Em vez disso densifica a área de transição entre Oeiras e Lisboa".

O terreno em causa “devia ser de transição para proteger a zona verde do Estádio Nacional”, concebida nos anos 40 pelo paisagista Caldeira Cabral, defende o seu filho João, que participou na equipa que elaborou um conjunto de medidas de protecção do Complexo do Jamor, nos anos 80, nunca aprovadas. E por isso alerta: “O Estádio Nacional precisa de áreas de expansão para o estacionamento e não de sobrecarga. É necessário proteger a mata que o envolve, e a construção maciça deste empreendimento tem o efeito contrário”. E conclui: “Não se devia descurar a protecção visual daquela zona nem o valor paisagístico da Costa do Sol construindo torres de 19 andares”.

Estes alertas, porém, não preocupam o presidente da Câmara, que diz desconhecer as críticas. Isaltino Morais afirma que a ideia de passar na marginal e observar as torres lhe “agrada” e que o que interessa é que “aquele vai ser um espaço de grande qualidade, do melhor que se vai fazer na Área Metropolitana de Lisboa (AML)”. Além disso, sublinha: “Vai ao encontro da nossa aposta no desenvolvimento estratégico no terciário”, porque metade do empreendimento é para serviços e escritórios. “Estamos a trabalhar no conceito de «Oeiras Valley»”.

Quanto aos problemas de mobilidade, Isaltino defende que “não há na AML concelho com melhor mobilidade que o de Oeiras” e que o estudo de tráfego estará concluído até ao final do ano. Quanto ao arranjos necessários em termos de vias de tráfego “são da responsabilidade do promotor”. E se há muito uso do automóvel e escassa oferta de transportes públicos, o autarca escuda-se: “Não temos competência em transportes”.

Pegando nas últimas palavras, creio que não temos competência em muitas outras coisas. Fico com a ideia de que o Sr. Isaltino nunca foi para Lisboa de manhã via Marginal ou até mesmo pela A5. Já há caos que chegue. Além de que mais uma vez se perde a oportunidade de recuperar convenientemente uma das últimas grandes áreas verdes da AML. Enfim venham mais carros e mais confusão. Os ricos não se importam. E o povo não reclama, desde que haja Tony Carreira e afins no pavilhão multi-usos do Sr. Tomás Taveira.

Volta Isaltino! O PSD perdoa-te pá!

"Isaltino Morais sabe, antes das eleições para a distrital e da própria campanha, que da minha parte tenho todo o gosto que ele volte a ser militante, disse Carlos Carreiras", o novo Líder eleito da distrital de Lisboa do PSD.

in Correio da Manhã

Newsletter #1

Ermida_Associação Cultural
Novembro 2007 | #1

Apresentação

A Ermida_Associação Cultural procura despertar a vivência das comunidades do Concelho de Oeiras para uma ‘vida pública’ vinculada ao centro histórico de Paço de Arcos, articulando as suas actividades em torno de três temas fundamentais: a arte, a ciência e a cidadania. Para o ano de 2007/2008 a Ermida apresenta:

_ Coro da Ermida
_ T.U. na ERMIDA (Tempo Útil na Ermida)
_ A Arte da Ciência e a Ciência da Arte
_ Caminhadas Filosóficas

Ler artigo completo >>
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Em destaque: Festa do Outono

Dia 24 de Novembro, a partir das 20h, no Centro Militar de Electrónica (Quartel de Paço de Arcos) [Mapa]. A festa contará com a actuação da Banda da Sociedade Recreativa e Musical Trafariense, seguido de um baile de danças Tradicionais Europeias. Ao longo da festa serão servidos petiscos e bebidas frescas.

Preço:
Bilhete individual - 3€ (inclui 1 bebida)
Bilhete grupo 4 pessoas - 10€ (inclui 4 bebidas)

Bilhetes à venda à entrada da Festa e no fim das missas (Igreja de Paço de Arcos)

Para obter mais informações contacte-nos via email
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Caminhada Filosófica #1

Dia 1 de Dezembro do Convento dos Capuchos à Peninha, descobrindo a serra e as gentes que por lá viveram. Teremos como convidado um historiador que nos irá falar sobre o tema do Monaquismo e sua importância na história ao longo dos tempos.

Preço:
Associados Ermida - 3€
Público em geral - 5€

Inscrições limitadas a 25 pessoas

Para obter mais informações e inscrições contacte-nos via email
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Coro da Ermida

Ensaios todas as sextas feiras na Capela do Senhor Jesus dos Navegantes em Paço de Arcos às 20h30. [Mapa]

Inscrições abertas para todos os naipes, dos 6 aos 35.

Para obter mais informações contacte-nos via email
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Próximos Eventos

Concerto Coro da Ermida - 7 de Dezembro 2007
Caminhada Filosófica #2

Em breve mais pormenores
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Contactos da Ermida

email_ ermida.associacao.cultural@gmail.com
blog_ http://ermidas.blogspot.com

Importa-se de repetir? É que estes senhores não ouviram


Eis um pequeno excerto de Robespierre, perdão, do pai do P.S.D. a lembrar que essa coisa imunda a que deram o nome de "revolução francesa" não se reduziu a guilhotinas:
"Quando se trata de urbanismo, do direito à habitação, é a nossa liberdade concreta que está em causa, é a organização democrática da nossa sociedade que se procura (...)
São questões que se prendem com a humanização da sociedade em que vivemos (...)
Uma autêntica democracia local tornará inabalável a estabilidade democrática. Mas para que ela exista é indispensável que os princípios sociais democratas da liberdade, igualdade, solidariedade sejam uma realidade entre as várias partes do território nacional".
Já agora informo o ilustre leitor que este excerto de Francisco Sá Carneiro pertence a um prefácio de um livro publicado por Helena Reseta quando concorreu à Câmara de Lisboa pelo P.P.D.P.S.D ainda na década de 1970.
Pois é, foi há já vários séculos.

Guilhotinas Robespierre - SGPS, SA.

Esta semana o país leu com entusiasmo mais um clarividente editorial do Director do Público. Ainda que não tenhamos sido brindados com mais uma original “defenestração” da educação pública, pudemos, em ofício de consciência, vilipendiar a revolução e o comunismo, esses dois monstros da história que teimam em agitar as suas mil cabeças, qual hidra virtual a que nenhum justo liberal consegue decepar a cabeça.
Com imagens de belo efeito, o Director Fernandes invocou o exemplo de Robespierre, esse provinciano grotesco, responsável por guilhotinar meio mundo, enquanto o outro meio mundo corria, inedefeso, para se albergar debaixo das protectoras asas da pátria da liberdade – a bela inglaterra, sempre pronta para a glorificação da paz e da justiça.

O Director Fernandes zurziu depois com a sua pena justiceira na ignorância dos que, noventa anos depois da revolução russa de 1917, nada aprenderam com esse triste espectáculo de neve, sangue e texos herméticos escritos numa língua esquisita.
Tudo isto devia ser rememorado et in secula seculorum em devida e útil lição de história, multiplicada com ofertas (+ 4, 55 eur) generalizadas por diários credíveis e honrosos que pudessem proteger-nos contra o flagelo do idealismo e da provínciana utopia. Robespierre era um lunático e um patife que nem um saco de batatas conseguiu vender ao seu vizinho de baixo.

Se ao menos se tivesse lembrado de fazer uma multinacional de eficazes guilhotinas a utilizar pelos governos do mundo inteiro (na limpeza dos pouquíssimos e indesejáveis comunistas e revolucionários), possibilitando a milhares de imigrantes o sonho benfazejo de trabalhar no ocidente, disfrutando das maravilhas dos seus contentores, potenciando o desenvolvimento das democracias africanas com matérias primas impecavelmente negociadas em troca de sacos de farinha e a globalização de mini-calendários com estampa dos direitos humanos em inglês, teria salvo a sua honra, limpo o seu ascoroso hálito de provinciano, enfim, importado felicidade e conforto ao seu povo, actos sempre dignos de louvor e aplauso eterno.

Memento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris

Entrou para o mosteiro nova. “Tão novinha, que desperdício” disseram familia e amigos, de acordo com o relato da própria. Depois riu, contente, no ecrã.

A irmã Raquel vem à televisão confessar a sua conversão. “Senti um desejo total de me consagrar a deus, não consigo dizer mais”.
Não conseguia, portanto, dizer mais, que é outra forma de dizer que não se consegue explicar a própria vida que é a coisa mais difícil de explicar. Com ou sem hábito. Mas mais adiante a reportagem encerra com a irmã Raquel a entoar um hino da liturgia das horas

“Em vós meu deus me refugio e não serei confundido”

A resposta está então em ti, Raquel, límpida como as águas vivas, pelas quais tu, certamente, dizes que o veado anseia: custa muito ser apenas mais um neste lagar do mundo, sabendo que, no fim, seremos todos mais ou menos a mesma coisa - terra. Confundidos e desprotegidos.

Por isso, voltemos ao mundo Raquel e saibamos viver com limpidez e dignidade, não como quem contempla, mas como quem, em cada pequena coisa, nunca deixasse de ser contemplado.

Alf - o regresso

Uma vez que a tentativa de alcunha do sexto ano do ciclo não pegou aqui vai uma mudança de identidade (pretende-se farpear à tripa forra tudo o que mexer) em jeito de homenagem à escola pública.

Apenas uma justificação para o efeito

Avizinhando-se o frio do inverno, por volta de 1988, a minha mãe tricotou umas impecáveis luvas vermelhas que, de tão grossas, me transformavam as mãos nos intrumentos de pegar do boneco da michelin (esta alusão deu direito a almoço grátis na bomba de gasolina da Cova da Piedade).
Claro que a cor vermelha sugeria uma outra coisa: as mãos desse extraordinário "dizedor" de verdades que à época nos preenchia os serões.

Foi difícil repelir a alcunha - dois sprints em pleno janeiro de fazer arrancar o pelo na perseguição de dois prevaricadores além de uma esfrega no alcatrão do recreio.

Uma vez que o assunto ficou por ali, passados vinte anos está na hora de repôr a verdade: Alf era, com efeito, mais consentâneo com o meu perfil extra-terrestre.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Os génios são assim: Ricky Gervais

Eu quero ver!

Somos ó nobre uma geração perdida

Talvez na praia da consolação, talvez numa plastificada esplanada de uma avenida do Cacém, Ruy Belo escreveu estas palavras:

“Que o medo não te tolha a tua mão
Nenhuma ocasião vale o temor
Ergue a cabeça dignamente irmão
Falo-te em nome seja de quem for

No princípio de tudo o coração
Como o fogo alastrava em redor
Uma nuvem qualquer toldou então
Céus de canção promessa e amor

Mas tudo é apenas o que é
levanta-te do chão põe-te de pé
Lembro-te apenas o que te esqueceu

Não temas porque tudo recomeça
Nada se perde por mais que aconteça
Uma vez que já tudo se perdeu”

Como versos não dão de comer (dizia o douto Medina Carreira de veias inchadas no palanque do candiado presidencial Silva) tudo por aqui parece por vezes ir rodando em infinita alegria, como dejectos no lavatório à procura da saída.

A todos quantos sobre a terra cobrem com seu hálito os serões gelados de neve ou com as suas mãos os prados salpicados de pétalas, advém a inútil morte de filhos, pais, mães, avós ou irmãos – morte que sempre vem, inadvertida como a tempestade ou como um cruzeiro de súbito no tejo numa manhã de sol – após um leve feixe de anos, muitas vezes mal observados, precariamente tocados pelos nossos dedos, vistos com pressa, de um barco que atravessa o rio do exílio, ou no autocarro a caminho da aldeia da infância.

Talvez amanhã algum de nós se surpreenda perto de ser atropelado, sem tempo para dizer adeus tardes luminosas no estádio da luz, adeus noites de luar nalgum lugar além do tejo, adeus colecções de cromos dos mundiais, adeus carrinhos da polícia militar, adeus brinquedos enfeitados nas montras do natal, adeus deslumbramentos do cesário, adeus minhas tias retocando o cabelo para a missa, adeus ondulação do trigo sob a chuva, adeus pagelas dos sagrado coração de jesus a enfeitar a sala de jantar, adeus livros de poesia na estantes das bibliotecas públicas, adeus gaivotas descendo sobre o mar, adeus pai acenando à chegada do comboio, adeus figos maduros, chuva de verão, adeus apito do chefe da estação num comboio nocturno, adeus auto-estradas apinhadas de carros a caminho da caparica, adeus aviões no céu em linha recta, adeus lisboa vista do castelo, adeus terreiro da igreja enfeitado com bandeiras, adeus ó barco do barreiro, adeus capelas alvas empoleiradas pelas serras, adeus cabritos saltando no carreiro, adeus ó frio da madrugada quando os homens vão no comboio para o trabalho, talvez eu seja apenas mais uma carta no baralho.

Eu sei, sentimentalismo. Ia mesmo agora escrever um poema em estilo, cheio de metáforas difíceis e originais, rompendo com as formas visíveis da literatura, provocando um tsunami à moda do serapião de walter hugo mãe (belo pseudónimo, estão a ver como é difícil igualar esta precisão de estilo e de sucesso, este empreendorismo de editora e carreira nas letras) como diz o saramago.
Ia mesmo, mesmo, mesmo agora estilhaçar as convensões, num salto mortal poético, vibrar um rude golpe na tradição, inaugurando uma nova época de criação – de escrita criativa, com sucesso, com confiança, um Mourinho da palavra, um poetastro, um poetaço, um lírico explosivo, um jovem talento promissor com diversos livros anunciados em cartaz de corpo inteiro.

Mas sabe, ilustre leitor, passaram aves na minha janela. O Daniel Faria morreu alagado em sangue com a cabeça acidentalmente quebrada na sanita. O Sá de Miranda esteve agora aqui e sussurrou-me que também o Sena abalou prá Califórnia. Cheirava a literatura e ele pirou-se.
O ruy belo, bem, o ruy belo embarcou para bem longe antes que o fizessem professor. O Lobo Antunes perdeu o tino e luta aterrado contra o fim. Eu já não respondo por mim. Mas prometo que tenho projectos de futuro e planos para amanhã. Talvez circule outra vez, se a noite não vier malsã, entre belém e a trafaria de folha no joelho à espera do meu anjo, em luta permanente contra o vento, embalado na canção do cacilheiro, a ver se tenho tempo de chutar os livros borda fora e deixar o sol entrar. As coisas a oxidar, o teu copo, ó sócrates filósofo, por encher. Eu a querer chegar, a poesia empurrar-me para o mar.

Concluindo, apetece dizer que talvez tudo esteja já perdido.

Ou talvez eu me tenha perdido disto tudo.

Atenção! Achtung! Danger! Peligro! Crónica no Diário de notícias pode provocar perda de consciência

O Magister César das Neves previu esta semana o futuro no Diário de Notícias. É uma previsão de antologia, devo dizer. Apenas para aguçar o espírito, vendo como se espalha classe e profundo saber, tomem lá com dois dardos da autoria do robusto braço do Magister:

(esclareço os leitores mais sensíveis que a previsão se faz num ilustrado exercício de ironia de fazer corar o Eça de Queiróz, pelo que podemos ficar de tal modo abalados pelas estocadas certeiras do Magister que logo nascerá, sem mais, um flagrante apelo à conversão à moda dos pré-socráticos, sem maiêutica nem interrogações, é logo direito à santidade)

“Muito significativo foi que, duas semanas depois, (algumas linhas antes o Magister tinha previsto que a União Europeia ia dedicar-se à erradicação da violência familiar por todas formas até nas brincadeiras, sugestão que não percebi totalmente, dada a minha lamentável impreparação para identificar estas preciosas e riquíssimas alusões estílisticas) se tenha dado finalmente a consagração do sadomasoquismo como orientação sexual reconhecida pela ONU.”

Mais adiante

“Por enquanto ainda se mantém controversa e, por isso, facultativa a exigência de todos os obesos usarem cartazes ao pescoço dizendo «comer mata» ou «banha é crime»”

Pois é. E depois dizem que a Igreja não produz intelecutais de gabarito. É o não produzes.
Em suma identificam-se os grandes males do nosso tempo que é preciso combater e já!
A escalada galopante do sadomasoquismo - assunto sobre o qual reconheço a minha vergonhosa ignorância mas que, fazendo profissão de fé (amen) nos profícuos conhecimentos do Magister, ameaça os fundamentos da nossa civilização - e o inaceitável e repressivo combate ao direito que todos temos a engordar que nem porcos - que nem de longe nem de perto constitui um problema global e muito menos ameaça a nossa vibrante e imparável saúde pública.

E está este homem desaproveitado a escrever colunas jornalísticas (além das aulas na Universidade Católica, embora isso seja um grave desaproveitamento, dado o facto de por aí circular quem menos precisa destes insubstituíveis avisos) quando devia ser convidado para Magister da nação (inventei agora mesmo este cargo por inspiração directa de Bento CCCX que acaba de aparecer em cima da cabeça do meu gato, soprando ao meu ouvido – o que Portugal precisa não é de sindicatos ou de função pública, é de quem vos ensine os caminhos do senhor. Não tive tempo, é pena, de perguntar qual senhor, mas presumo que fosse o senhor Magister Neves.

É por estas e por outras que o país apresenta estes índices em resultados escolares. Se todas as universidades tivessem o Magister Neves como professor de Ética talvez Portugal voltasse a ocupar o pedestal mais digno do panteão das nações europeias. Juntos voltaríamos a correr pelas pradarias ao som de hossanas, embalados pelos cânticos dos justos, louvando as fontes de água viva que nos conduzem à paz da parvoíce. Cítaras e trombetas anunciariam os pés do mensageiro que trouxesse os perfumes da palavra divina, envoltos no proficiente entendimento do Magister. Senhor como é bom ouvir a tua voz. O teu cajado fortalece o nosso espírito nesta terra onde corre leite e mel e o Magister Neves recompensa os temerosos, censurando com vigor os iníquos, enquanto nos intervalos assina sebentas de finanças públicas em parceria com esse outro inefável Magister da Pátria – o probo Aníbal Cavaco Silva. Os dois juntos devolverão a alegria aos portugueses, indicando o caminho, conduzindo pela mão os filhos de Jacob, guiando às alturas paradisíacas da redenção as nossas mentes ínvias.
A voz do Magister Neves ecoando com estrondo nas consciências dos pecadores, ressoando como o bronze do juízo, acordando o fervor religioso que há, dormente, em todos nós, no momento em que uma forquilha empunhada pelo mafarrico me abrasava a carne fazendo correr lágrimas no meu rosto contrito e arrependido por todo o meu aviltante esforço em evitar gorduras.
Foi então que acordei e logo compareceram na minha consciência torturada as suaves palavras da minha tia Antónia quando, acossados pela chuva, descíamos a encosta da serra, sempre que se anunciava trovoada para os lados da serra do Açor. Sorria sossegando-me e murmurava a espaços, de lábios aflitos mas tocando serena com as mãos o pelo das cabras como que a reconhecer a finitude e a morte que há em tudo, "Nossa Senhora de Fátima salvai-nos e salvai Portugal".

Professor Espadinha…VOCÊ É CONCORRENTE, VENHA JOGAR!!!!

Esta semana o Professor Espadinha, um dos intelectuais mais influentes e profícuos da nossa comunidade, com várias obras de reconhecido mérito entre as quais o serviço do chá das cinco em casa de Karl Popper, publicou no jornal Café Expresso mas sem natas, uma inteligente e sagaz crónica onde defendia a imperiosa necessidade de introduzir a concorrência no ensino público. Na opinião do ilustre pensador apenas desta forma será possível resgatar o ensino público da sua manifesta mediocridade.

Em boa hora surge este esclarecimento. Antevejo enormes vantagens no alargamento dos conceitos de concorrência e competitividade a outros campos da actividade humana. Image o caro leitor, a título de exemplo, a multiplicação da felicidade conjugal que não seria se, em vez de um homem, existissem dois ou mais homens por casamento. Esta saudável concorrência, regulada pela Comissão de Valores do Mercado Casamenteiro, evitaria vários dos incómodos tradicionais e os homens, antes de deixar a louça suja na cozinha, ou baldar ao tradicional passeio de domingo para ver a bola, pensariam duas vezes não fosse a sua amada esposa dizer

- esta semana dormes tu na sala porque o José apresentou índices de competitividade mais elevados.

E todos viveriam felizes para sempre. Ou quase todos.

O Jesuíta de Coina

O Colégio S. João de Brito teve uma magnífica classificação no ranking internacional da pesca ao exame. Nada mais nada menos do que o 4º lugar. Este inaudito e glorioso resultado convoca todos os homens de bem e todos os poderes públicos, potestades e divindidades, a um empenho denodado na tarefa mais urgente da nação - liberdade de aprender e ensinar.

Vejamos o que diz o douto Forum para a Liberdade de Educação:
“Todas as Escolas — de propriedade do Estado ou de entidades privadas — devem ter autonomia para diversificar os seus projectos educativos e por estes ser totalmente responsabilizadas, assistindo aos pais o direito de optar livremente entre qualquer delas”
Totalmente responsabilizadas. E com diversidade de projectos educativos. Ou seja, missas e matemáticas para um lado e política para o outro, que estas coisas não são para misturar.
Este Forum, constituído por intelectuais de nomeada, com vastos currículos de reconhecido mérito intergaláctico, é constituído por um grupo de

“cidadãos preocupados com a situação da educação e do ensino em Portugal e que partilham o diagnóstico de que as deficiências mais graves resultam primordialmente da ausência de uma efectiva liberdade de aprender e ensinar”.

Justamente. Esta solução parece-me clara como água e acertada como uma maça na cabeça de um guarda do Xerife de Nottingham após uma seta disparada por Robin Hood.
Lembro-me que eu, inocente criança, fui levado pelos meus pais, entre lágrimas e gritos, a uma escola pública. Imaginem a repugnância do meu espírito! Uma escola pública. Com baldas, professores que faltam, gamanços no recreio, ausência de valores, sem espetáculos de natal ou sequer um catálogo infinito de actividades extracurriculares, sem missa inaugural (ó vergonha eterna do saber).
E ali fui mantido contra minha vontade, chorando junto aos gradeamentos a minha servil condição de aluno num país onde os meus pais não podiam escolher. Ou escola pública ou escola pública. Se o Estado se tivesse responsabilizado pela minha educação, com verdadeira liberdade, os meus pais decerto teriam corrido a uma das centenas de escolas privadas que, certamente, logo se multiplicariam como cogumelos do Minho a Timor, perdão, do Minho ao Algarve, abrindo as suas excelsas portas, possibilitando-me uma educação competitiva, global, de excelência.
Sim, não percamos mais tempo, despedimento para todos os funcionários públicos (que há Estado a mais) e cheques-ensino para todos (que há Estado a mais, ou melhor, a menos, quer dizer… que há estado - isto de coisas em comum, colectividades, cheiro a sardinhas, vinho tinto, tabaco, senhores de bigode… que horror, que porcaria).

Ora, já imagino o futuro risonho do meu país. O absentismo reduzido à insigificância de formigas acossadas pela coruja do saber; os indíces de licenciados e doutorados disparando em direcção ao céu, ultrapassando a Grécia, Turquia, República Checa, Alemanha, E.U.A, França, Noruega, Dinamarca, Suécia, (a Suécia, meu deus, a Suécia); filas intermináveis de famílias desfavorecidas da Musgueira, Cova da Moura, Brandoa, Poço do Bispo, Baixa da Banheira, Trafaria, Alhos Vedros, Coina (libertando-se dos aguilhões iníquos das áreas de residência) à porta do Colégio de S. João de Brito com total liberdade de aprender; os magníficos, e altamente qualificados, professores do Colégio em extâse metafísico-democrático-liberal com a liberdade de poder ensinar.

Na saula de aula do Colégio.

- Nelson Chibanga resolva esta equação de segundo grau, por favor.

- Concerteza stôr, deixe-me só consultar este magnífico dicionário criolo-português que o meu pai, ontem à 21h30, depois de chegar da obra, foi comprar a uma das várias livrarias altamente especializadas de Coina, por recomendação da minha prima Vanessa que ainda ontem tirou vinte no exame de matemática do colégio mira-rio depois de uma sessão de cinco horas e meia na prática de exercícios na área das equações diferenciais, à luz do candeeiro a petróleo, sob aquele inigualável e instrutivo reflexo do zinco nas folhas brancas, sessão essa, devo dizer em conformidade com a verdade, superiormente orientada com brio e excelência pela minha tia Marlene Chibanga depois de oito horas a arrumar tabuleiros no centro comercial e mais duas horas divididas entre o autocarro de Loures Shopping e o barco do barreiro onde, com leveza e inigualável precisão, não obstante os balanços da ondulação e a tristeza infinita das manchas de petróleo reflectindo no rio a luz da lua, preparou toda a sessão de estudo. Que isto é apertar connosco, porque desde que recebemos o cheque-ensino, louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, e nos deixámos destas coisas das minorias culturais, Deus nos livre das ideias estruturalistas como ensina o Magister César das Neves, o meu irmão Venceslau Chibanga, após uma curta estadia a trabalhar nas obras do Terreiro do Paço, já se doutorou em economia do desenvolvimento e frequentou três MBA na Leonard Stern School of Business da New York University, Maria Santíssima continue a olhar por nós.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Imaginem um circulo a volta deste texto

Gosto deste senhor. Banksy . Ficou famoso por pintar os muros que Israel construiu para se separar da Palestina e de seu povo "perigoso". Pintou imagens de esperança nessa altura. Mas o seu portfolio mostra bem um olhar aguçado para a realidade actual. Ninguém sabe quem ele é. Quase o apanharam quando no museu em Londres trocou um quadro por um igual mas alterado por si introduzindo alguns novos elementos bem originais. Vão ao site e descubram como o grafitti pode ser visto como uma obra de arte e forma de expressão de quem se preocupa com o mundo em que vive. Deixo aqui um dos meus favoritos:



sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Para lado nenhum

Directamente do baú. Joy division.

"When the routine bites hard
And ambitions are low
And the resentment rides high
But emotions wont grow
and were changing our ways,
Taking different roads
Then love, love will tear us apart again"


A fábrica e a auto-estrada - algum esquecimento e muito boa educação

Quando se procuram coisas no baú descobrem-se preciosidades :

“A arte da politica sabese muito tarde, e quando se vem a entender, mal se pode exercitar: aprendesse na adolescencia, e sabese na velhice: em quanto ha vigor, não ha doutrina; quando ha conhecimento, não ha forças; e por isso contão as Historias tão poucos Politicos consumados” in Elogio fúnebre de um Secretário de Estado da Coroa de Portugal em 1736. Ou por vezes corre-se o risco de encher o nariz de pó, dar uma cabeçada na trave do sotão. Pode ser também que tudo se esqueça, « tudo esquece tão cedo », não é, caro Virgílio ?

Parece que recentemente o Sr. Presidente consagrou algumas da suas seráficas palavras à educação. Entre outras magníficas metáforas considerou que ela (a educação, claro) não poder ser uma « fábrica de ensino » onde os pais vão depositar os filhos. Talvez deva antes ser uma gasolineira. Onde podemos abastecer com sucesso rumo à inovação social. Imaginemos então como poderia Portugal ter disparado rumo ao desenvolvimento, direito à vitória sobre os « desafios da globalização », formando, de forma rigorosa, globalizante, com excelência, os milhões de portugueses, ontem analfabetos, para usufruir delícias eternas em vivendas algarvias ; tudo isto se a competente liderança do Sr. Presidente tivesse estado ao serviço de um governo durante para aí, digamos, dez anos.

« E então chegaram Diamantino Durão, Couto dos Santos e Manuela Ferreira Leite e remendaram o que puderam, facilitaram tudo o que foi possível facilitar e começaram a cortar onde poderiam poupar. Não é por acaso que o segundo mandato maioritário de Cavaco Silva tem 3 e não 1 ministro e não é também por acaso que é do início dos anos 90 que datam a definição de uma nova organização curricular e novos programas (tudo de 1991) e, em especial, de um novo regime de avaliação cristalizado no Despacho Normativo 98-A/92 de 20 de Junho que foi a machadada final em qualquer reforma educativa a sério que pretendesse basear-se em qualquer noção de rigor e qualidade das aprendizagens. É o primeiro alvor dos eduqueses ou maus cientistas da educação, os verborreicos e vácuos, gongóricos na retórica, curtinhos na substância, que se distinguem facilmente dos Cientistas da Educação com Maiúsculas » in A Educação do meu Umbigo Gaveta aberta de textos e memórias a pretexto da Educação que vamos tendo

Lembro-me que em 1991 tive a primeira sensação de desistência, numa tarde em que só, caminhando pela estrada de alcatrão que ligava a quinta do Marquês de Pombal a Porto Salvo, junto ao Colégio das Freiras, avistei a construção da nova auto-estrada Lisboa-Cascais. A nova via cortava o vale onde perto passava a ribeira da Lage e perdia-se na linha castanha daquelas terras repletas de trigo que um dia ouvi chamar a Ribeiro Teles os « extraordinariamente importantes barros de Oeiras ». Não sei porque raio alguém chamaria a um conjunto de terras « uma coisa importante » mas não deixei de perceber na voz do já velho arquitecto a mesma destreza com que o meu avô seguia pela horta pesando com as mãos a terra.
Nessa tarde, fiquei alguns minutos a olhar a fina corda de alcatrão desenrolada ao sol como uma víbora preguiçosa. Quando cheguei a casa, nessa tarde, havia bandeiras cor de laranja. Um homenzinho magro, de nome Silva e voz irritantemente rouca, saltava na televisão, com dois dedos erguidos. Ou talvez não saltasse e fosse apenas o movimento absurdo da multidão que, saltando ao seu redor, me enjoava por dentro.

Em minha casa nunca houve grandes convicções partidárias e talvez por isso o entusiasmo eleitoral estivesse sempre misturado com a distância de quem vê, descrente da eficácia da guerra, passar mais um General em triunfo a caminho de Roma.
Havia interesse, mas não alegria. Havia atenção mas não esperança. Havia conhecimento mas não vigor. Havia doutrina mas muito poucas forças para entender porque se erguiam aqueles braços se os barros e o trigo desapareciam como uma vertigem, à medida que as mudanças na constituição travavam a promessa da paz, pão e liberdade que saía estridente dos altifalantes do Sr. Silva, sob uma promessa de chegarmos todos mais depressa a lado nenhum.
À noite pensei sobre o pouco que o país tinha para oferecer às suas crianças da periferia e desejei que, sendo assim, ao menos tu Veloso não podias ter falhado aquele penalty.