terça-feira, 30 de novembro de 2010

5 a zero como eu todos os dias

e ando aqui hirto e firme, obstinadamente tentando fazer aquilo para que sou pago. Uma besta asinina, tal qual o besugo. Em Tomar não neva, mas está um frio de rachar ui ai se não está.

Ainda ontem uma aluna me acusou de a tentar chumbar. Só porque ela me apareceu com um trabalho fotocopiado e me pediu ajuda copiar as respostas. Se isto não é estar a perder por 2 a zero à passagem do quarto de hora, não sei o que será.

Mas este tipo de coisas um gajo até aceita com um sorriso nos lábios. Afinal o Orçamento de Estado é o que é, e parece que é feito por gente com capaz de atar os sapatos sem ajuda. Adiante. Eu vinha aqui mesmo era para introduzir uma nova unidade de tempo, o Vasco Lobo Xavier (VLX). Se submarino do Portas é uma unidade monetária, comprei duas dúzias de maçãs por 0.00000000000004 submarinos do Portas na praça à dona Almerinda, então porque não o VLX para unidade de tempo ? Assim que soube do percalço do Mourinho, indaguei. Quanto tempo demorá o VLX a fazer um post com referências ao último Porto-Benfica ? 18 minutos, mais coisa menos coisa.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Amor soviético entremeado pela confissão de que o Nuno Ramos de Almeida nunca lerá o suficiente


joão viegas says:
28 de Novembro de 2010 at 19:35
Bolas Nuno Ramos de Almeida. Não me diga que nunca tinha lido, ou pelo menos ouvido falar, nesse texto do Swift !!!
Deixem-se de Zizeks e Krugmans e outros Rolling Stones. Leiam os classicos ! Esta la tudo, dito com mais sal, com melhor forma, com mais pertinência.
Assim, pelo menos, vocês ficavam a saber porque é que a educação e a cultura podem fazer a diferença…

Nuno Ramos de Almeida says:
28 de Novembro de 2010 at 20:39
Olá,Já li alguns textos do Switt, nomeadamente um alegadamente apócrifo sobre Política e Verdade, mas nunca tinha lido este. Para minha alegria faltam-me milhares de livros para ler, por muito que eu já tenha lido alguns. É a vida.

joão viegas says:
28 de Novembro de 2010 at 22:56
Claro, tem toda a razão. A intenção não era melindrar e a resposta esta perfeitamente à altura da boçalidade do meu comentario…
joão viegas says:
28 de Novembro de 2010 at 23:15
Que horror : a sua resposta esta ADAPTADA à boçalidade do meu comentario (eu é que estou perfeitamente à altura da dita boçalidade) !
Nuno Ramos de Almeida says:
29 de Novembro de 2010 at 0:16
Meu caro João Viegas,Não achei o seu comentário boçal, apenas tenho pena de nunca ter lido esse texto de Switt. Ao contrário que dizia Mark Twain, eu não acho que ‘um clássico é um livro que toda a gente gostaria de ter lido, e ninguém tem a paciência de ler’. Tenho uma imensa alegria em ler o mais que posso. Nunca lerei o suficiente. (aplausos)

joão viegas says:
29 de Novembro de 2010 at 9:22
Bom, nesse caso, se me da licença – ja que fui pedante, ao menos que seja util – note que é OBRIGATORIO ler esse texto quanto antes. E’ curtinho e deve-se encontrar facilmente por ai (até na net, aposto, mas cumpre em seguida comprar o livro).

O Rio, essa cidade maravilhosa

Um outro olhar sobre a guerra urbana que anda pelo Rio nestes dias.

domingo, 28 de novembro de 2010

*

inwardness - the choicest or most essential or most vital part of some idea or experience; "the gist of the prosecutor's argument"; "the heart and soul of the Republican Party"; "the nub of the story"

A todos os trabalhadores por conta de outrém, os meus mais sinceros sentimentos por mais uma semana


Aguardo ansiosamente as maravilhas do correio aéreo.

Quando comecei esta linha de investigacão, e muito antes de desenvolver quaisquer raciocínios, reparei que estávamos todos rigorosamente fodidos

Tocata
Das primeiras vezes em que ouvi falar da Amadora estava num carro unitário e uni-familiar, conduzido pelo esposo - segundo Campos e Cunha, amen, um conceito xenófobo, isto do ponto de vista da luta de classes - de uma operária dos têxtil natural de Castelo Branco, e colaboradora numa fábrica de pronto a vestir numa vila periférica da periferia de Lisboa, colaboradora, alguém que colabora, um dos conceitos mais espectaculares da pós-modernidade (antes de falirem, as fábricas do textil tinham operárias que nem sempre usavam mini-saia e nem sempre ganhavam concursos como, segundo dizem, a mãe do Henrique Raposos, uma Sofia Loren anti-sindicalista capaz de provocar o salivamento das glândulas salivares, segundo dizem, do pai de Henrique Raposo, mas isto antes do Henrique Raposo nascer, ainda segundo dizem) e eu, esmagado contra napa escruciante do banco traseiro, via passar os ulmeiros e os choupos de uma estrada que hoje julgo ter sido colonizada pelo IC 19 mas que, antigamente, segundo dizem, se localizava algures entre Belas e Alfragide, numa tarde em que fazia sol, e, segundo dizem, nos prometiam o amanhã cantante sob a forma do Continente, supermercados, SA. Nesta altura, eu não sabia que Henrique Raposo havia de começar a sua própria linha de investigação, de outra forma, teria imediatamente puxado o travão de mão e precipitado duas famílias e meia no abismo do esquecimento para que a linha de investigação de Henrique Raposo brilhasse em toda a sua clara e apolínea sagacidade e não estivesse para aqui a ser conspurcada pelo anónimo ziguezaguear do web-disparate.

Fuga
Quando comecei esta linha de investigação (2004), nunca pensei que iria ter um brinde do tamanho de Obama: o Presidente americano é o 'facto' que comprova todos os raciocínios que desenvolvo ao longo do livro. Obama é a personificação do “Mundo sem Europeus”. O Presidente americano personifica os três grandes paradigmas (...): o mundo pós-atlântico, o novo Ocidente e o fim do eurocentrismo.
O presidente Americano é um facto. Já o Henrique Raposo é uma pessoa. Um germanófilo! Não, é um anglo-saxão. Não, é um investigador, cuja linha de investigação penetra no âmago da história e desvenda o sentido dos ventos, dos processos, que digo eu, dos desvelamentos cósmicos, das nebulosas, das super-novas, dos bing-bangs, é o pim-pam-pum das geo-estratégias multi-siderais, é o tornado das academias trans-nacionais, uma epifânia da imparcialidade universal, Apolo da ciência política, Vénus das relações internacionais, é o equilibrador das potências alinhadas com a paz perpétua, é a pomba da sagacidade, a raposa da interpretação, o castor da diligência jornalística, é o homem que não teme, que não verga, que não quebra, é o sempre-em-pé do aforismo sociológico, é o Zé-Barnabé, toma-lá-que-agora-é-que-é, o vingador da injustiça comunista, o vendedor de alpista a todos os desventurados do invidualismo metodológico, é a corrente digital da comunicação blogosférica, é o opinador que não há, é o mediador que sempre falta em cada entropia parlamentar, é o calor do lar e da montanha, zaratustra com a meticulosa raiva da aranha, capaz de vingar Aron, Hayek, Schopenhauer, é engolidor de caipirinhas, é o punhal e a balança, é deus que dança. Meus amigos, o Henrique Raposo não é apenas um intelectual, o Henrique Raposo é uma assombração de minerva, é uma coruja alada em forma de raciocínio metálico, é um vibrador globalizado, é um justiceiro geométrico, um corrector das esquerdas, um acelerador das direitas, é um evento totalizador e uma suspensão da inactividade, é uma gloriosa actualização da verdade cósmica que guia as potências dos planetas, os rios, e os pernetas, um profeta dos sentidos ocultos que há nas mensagens analógicas dos Presidentes, negros, amarelos, vermelhos, indo-israelitas, um ganhador de bolsas, um propulsor dos estudo, um viajante das teorias germanófilas e um gnomo potenciador das leituras anglófilas. É um ovni, não, é um avião, não, é o super-canhão da aritmética política, anti-sindicalista, anti-prec, anti-maoista, anti-esquerda, anti-anti-anti, é o combatente dos desvios a todas as linhas de investigação que não personifiquem a chamada de atenção para um mundo sem europeus,é o combatente de combates que nínguém quer traver, um alinhador de desvios anti-religosos, um anti-anti-anti todas as formas de anti, que é como quem diz um propulsor para a frente, um detonador do sentido do futuro, uma explosão de sentido na encruzilhada das fraquezas, um sabotador de socialismos, de socializantes ismos, um apologista dos individualismos, um anti-anti-anti-anti todas as formas de ser anti-qualquer coisa, o cantador dos três grandes paradigmas personificados, paradigmas, repito, personificados em barak Obama, bela imagem, o mundo-pós Atlântico (um conceito capaz de fazer corar Newton e Einstein), o Novo Ocidente (esfinge egípcia só equiparada às frases entarameladas na Cozinha de Nigela) e o fim do eurocentrimo (uma espécie de ás de espadas invertido com Edward Said acoplado na ponta romba da florzinha negra).
Quanto a nós, somos apenas amigos de teorias pífias, perdidos em tristezas que não pagam dívidas, perplexos, ressabiados em forma de criado, de judeu, ajoelhados, e com justiça, perante alemãs que cozinham salsichas em banquetes da baviera, nós, que fomos irresponsáveis até ao fundo dos nossos ossos, que até para tomar banho consultamos a nossa consciência, que adormecemos a meio de apresentações aladas de relatório e contas, que fugimos ao trabalho para colher uma onda que não voltará a quebrar-se nas areias meridionais, onde Goethe viu laranjas de ouro e a única possível felicidade sobre a terra, nós, que choramos, às vezes, melancólicos em estradas secundárias da Amadora, esmagados contra a napa escruciante de bancos traseiros de carros uni-familiares, quem sabe fabricados na Alemanha, ainda antes de 1989, num tempo em que Jurgen Klinsman ainda não tinha sido glorificado no Olimpo, e Rudi Voler ainda não tinha cuspido num aniversário cujo nome agora não me quero recordar, e, portanto, perdidos de uma época em que tudo era bom. Nós, correndo de regresso a caminho da montanha, quem sabe, no Verão, a visitar as tias da família, atrapalhados com volumes e cestas de novidades Lisboetas, perdidos em nevoeiros de estações pertencentes a ramais de nível secundário, agarrando o estômago com duas mãos frágeis de cerâmica embutida com estrelinhas marítimas da costa portuguesa, ali é o Bugio, além a Caparica, dizia um tio perdido entre garrafas de bebidas brancas e os clarões dos tiros africanos, os pretos esventrados, os portos do índico repletos de malas apressadas, a vírgula de uma mãe torcida pelo medo de não ver outra vez a terra onde amamentou o filho, uma curva do caminho mais difícil, e nós, crianças de mãos frágeis, bronze que ressoa sem saber, coloridas borboletas sem máscara de guerra, pobres animais sem um sentido de futuro, sem estandartes nem estrelas circulares. A Alemanha? A Alemanha era apenas um país onde, diziam, um homem infeliz e mau iniciou um dia uma tremenda guerra.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Acho que o João Tordo só tinha a beneficiar com uma boa enfrascadela a cada cinco minutos que é tempo médio de resposta de uma pipa do Cartaxo

Grande parte das grandes conversas que tive na vida foram passadas em bares, com álcool.

Bebe muito?

Os médicos é que dizem que se deve beber cinco copos de vinho por semana. Se me perguntar se bebo mais do que isso, com certeza que sim. Mas não me embebedo todas as noites. Beber tem uma certa sociabilidade e acho que os escritores portugueses, se bebessem um bocadinho mais, só tinham a beneficiar.

Aqui

Que saudades do tempo em que um livro era só um livro, e um homem que escreve, apenas um homem que escreve

The basic tool for the manipulation of reality is the manipulation of words. If you can control the meaning of words, you can control the people who must use the words.
Philip K. Dick, How To Build A Universe That Doesn't Fall Apart Two Days Later (1978)

Sometimes the appropriate response to reality is to go insane.
Philip K. Dick, Valis

Perguntas que por vezes principiam como uma comichão insidiosa ao nível do baixo ventre

Um escritor é alguém que expressa um raciocínio-sentimento perigosamente particular ou, por outro lado, é uma agência universal de emprego que planifica o mercado académico de serviço, onde os reformados da actividade criativa se vêm excitar violentamente com o festim pornográfico de teses e teses doutorais, fastidiosamente assassinas de qualquer inteligência, humana ou animal, e tão irrelevantes como os milhões de folhas dos relatórios e contas dos milhões de editoras que prosperam à conta da e magestosa, olímpica, gloriosa, ignorância científica dos homens de letras, que com toda a certeza, não deixarão de existir daqui a cem mil milhões de anos?

Assim sendo, tanto na perspectiva da passagem «A» como do ponto de vista da passagem «B», resta-nos cometer o suicídio

«Este não é mais um livro, nem sequer mais um bom livro. É um livro que marcará um momento na literatura portuguesa», defendeu Zeferino Coelho, concluindo que, em 2110, «haverá colóquios e congressos com especialistas que vão estudar a passagem «A» ou «B» da obra ou as consequências que esta teve na literatura». Palavras e prognósticos que foram secundados por Vasco Graça Moura.


«É um livro cheio de fantasmas, fantasmas dos Lusíadas, fantasmas do homem contemporâneo, uma viagem, uma antiepopeia, e é um livro extraordinário. Estou convencido de que dentro de cem anos ainda haverá teses de doutoramento sobre passagens e fragmentos». (Vasco Graça Moura, «A Torto e a Direito», TVI24, 6/11/10)

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Aos defensores da diversificação ao nível das fidelidades intelectuais terei que confessar a minha lamentável reincidência em autores da margem sul

Nem sequer gosto de citações longas e se há merdas que me irritam na historiografia brasileira é a insistência com que coleccionam longos trechos de cartas de governadores do Rio de Janeiro do ano de 1731 em teses de doutoramento dos mais variados temas históricos só porque foram sugestionados com a ideia pós-moderna de que uma citação longa se transforma num testemunho com a credibilidade daquelas confissões de velhinhos contra fundo negro filmadas pela BBC no intuito de convencer o espectador médio de que o holocausto existiu mesmo (Israel, amigo, além de um abraço, isto nada tem que ver com o Apoel). Acontece que o autor que em baixo se aduz, com a mais despretensiosa reverência - e o Senhor Jesus sabe como temos trabalhado uma singela citação (a próxima etapa implicará o desgraçamento moral) - continua a ser o que de melhor existe no âmbito da crítica intelectual nestes nossos dias que são últimos. Como a humildade é uma virtude próxima das lamas da criação, e dizem que Tchékov copiava à mão contos de Tolstoi, «para trabalhar o estilo», eu não me envergonho de espetar aqui com mais um pedaço de luta pelo esclarecimento e pela emancipação, único apanágio do trabalho intelectual, e algo que até um taralhoco como Eduard Said foi capaz de perceber. Dizer apenas (ajeitando a gravata e puxando o microfone parlamentar para um raio de dez centímetro a contar da ponta do meu pronunciado nariz) que pode juntar-se as essas notas sobre ciência uma merda chamada Livro de Dança, ou outra versando sobre essas monumentalidades do pensamento ocidental que são Maria Filomena Mulder e Gabirela LLansol o que por si só bastaria para medir o nível de desnorte intelectual, emocional e científico que graça em certas cabeças laureadas. Peço a Deus, encarecidamente, e todos o dias, depois de lavar meticulosamente a dentuça com pasta medicinal Couto, que me guarde de tais coisas ou que me assista, num momento de hipotética fraqueza, com um caçadeira de canos cerrados com que fuzile qualquer tentativa de me agraciarem com um prémio. Até porque, para tal, terei que publicar, e isso, o senhor seja louvado, ainda está nas minhas desesperadas mãos.


...lembro-me distintamente de lhe ler uma coisa lá dele, em pé na Livraria Trama, o Breves Notas Sobre Ciência (Relógio d'água, 2006), podendo dizer com segurança que é uma das piores coisas que li na vida, um monte de fotografias do fujimori, inconsequentes clichês de jorge luis borges na cabeça, sem qualquer sentido, direção ou lógica; tresanda a digestivo podre de noções de filosofia da ciência, um amontoadozito de zenões de cinco ou seis frases (dipostas do fundo da página para cima, claro), que nem para uma historiografia do que é a recreação adolescente mereceriam salvação (não me pagam para concretizar).

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Um bom fim-de-semana



Estou em greve blogueira. Mais só para a semana.

Para os indecisos, isto é um ataque pessoal desferido com toda a irracionalidade que pode haver num argumento iniciado pela citação de Hélder Postiga

Eu bem me esforço por uma desmarcação rápida desse autor maldito de cujo nome agora não me quero lembrar, e chego a sentir laivos de Hélder Postiga num jogo, digamos, contra o Paços de Ferreira, mas a realidade empurra-me para a repetição febril e marxista da citação do Cinco dias, um blogue imponentemente violento de erudição e coragem cívica, mas cujo rendimento per capita dos autores desconfio que ultrapassará grande parte das equipas de balcão de algumas agências bancárias do país real ( e do irreal também, já que ontem sonhei que me encontrava perdido em Mogadouro e era interceptado por um velho socialista vestido de Elvis que à minha pergunta sobre a máquina multibanco mais próxima respondia com uma interpretação chula de «always on my mind»). Mas e a Greve Geral? A verdade é que até ao momento, quanto a molho de tomate, temos apenas isto:

O alegado crime aconteceu, segundo a União de Sindicatos de Braga – que integra a CGTP -, às 09:15, quando o responsável pelo Intermarché situado em Calendário, Vila Nova de Famalicão, “lançou a sua viatura contra as dirigentes sindicais, Fátima Coelho e Lídia, e puxou de arma para os restantes dirigentes sindicais do piquete de greve”.

Ora, não podemos deixar de ter simpatia por um indíviduo que arremete de automóvel contra um piquete, mesmo que constituído por sindicalistas, e sobretudo quando o piloto é o responsável pelo Intermarché de Calendário, Vila Nova de Famalicão, vila onde nasceu Jorge Reis Sá, amigo (entretanto zangaram-se - efeitos da sensibilidade) de Valter Hugo Mãe, quero dizer, valter hugo mãe. Ah, a greve, a greve. Fiquei perplexo ao descobrir que existe em Portugal um comentador, com tal sagacidade na descoberta de processos de transição, em termos defesa-ataque, capaz de fazer corar Freitas Lobo.
O PCP faz falta, disso ninguém dúvida. Quem não faz falta são os intelectuais militantes do PCP, quase todos forjados em bairros periféricos da classe média - e nem é preciso ir a Gramsci -, quase sempre mais próximos das performances sociológicos de Paulo Portas do que de Jerónimo de Sousa - e nem é preciso recordar os mecanismos de selecção que conduzem os preguiçosos à indústria das ideias -, quase sempre estúpidos até aos fundamentos mais científicos de uma consciência incapaz de compreender a complexidade da vida - e incapazes de compreender o papel da classe trabalhadora (qual classe trabalhadora?) que se enterra mais numa semana de compras no Natal e na estúpida assinatura da televisão por cabo, e na estúpida materialização dos seus desejos (ah, o que é o homem?) do que em dez anos de salários baixos. Alguém já experimentou desenhar uma curva da estupidez presente numa greve geral? Será assim tão diferente do comportamento mental do Conselho de Administração da José de Mello Saúde? E se é uma questão sistémica - mecanismo de distribuição - não seria de começar por instruir as massas sobre os efeitos políticos do consumo, ou sobre a diferença entre comprar um livro ou um computador para ler o André Levy e o Nuno Ramos de Almeida? E se é de condições para comprar livros que se trata, a greve geral não seria oportunidade para os sindicalistas e deputados do PCP apresentarem níveis médios de raciocínio mais elevados? Não me citem por favor os outros partidos. Os outros partidos laboram nos interesses, na ganância e no tráfico de influências, o PCP é que não. Que esperar de intelectuais doutorando-se em temas artísticos? Ou é em literatura neo-realista? Meu Deus, a literatura neo-realista. Ou é Lipovetsky - um indivíduo completamente perdido - ou, pior ainda, variações sobre o teatro do oprimido, gajos cujo nível médio de opressão nunca ultrapassou a hora e meia de estudo na biblioteca do partido, quando não se ficam pela emissão de dois sistemas de jogo (defensivo e ofensivo) que até eu tenho dificuldade em compreender. Como sei? Meus caros amigos e simpatizantes, as ciências humanas não são assim tão pantanosas como possa pensar-se após de uma leitura de Zé Neves.
Acontece que o tempo é uma variável definitiva da economia do conhecimento e a militância partidária implica défice de atenção a textos impressos com mais 50 páginas. Ou para citar Quim Barreiros, não se pode ter o malho na eira e o rabanete no nabal.

Utilidade marginal da Greve Geral

É ou não é
Que um velho que à rua saia
Pensa, ao ver a minissaia:
Este mundo está perdido?!
Mas se voltasse
Agora a ser rapazote
Acharia que saiote
É muitíssimo comprido?

É OU NÃO É - Amália Rodrigues (letra e vídeo)

No tempo em que eu comentava a realidade fazendo uso da inteligência, seria próprio desenhar aqui algumas indignações sobre os efeitos contraproducentes de uma greve, geral ou particular, com ou sem Carvalho da Silva, e mesmo sabendo de antemão que o índice de miúdas numa greve geral é de 0,4 % por cada analfabeto alcoolizado munido de um bigode de onde se desprendem pedaços de couve oleada por caldo verde. Cá estarei para televisionar o telejornal e apresentar penitência pública se a realidade me desmentir em toda a sua eloquência. Em todo o caso, agora, depois de iniciada a primeira idade do malho, isto numa perspectiva de responsável utilização do espaço público (estou eternamente agradecido ao pioneiro do malho, Jorge Coelho, resta apenas a sensação do cão que fazendo asneira no meio da sala, é agarrado na pele do cachaço pelo dono e sente o focinho esfregado na porcaria que acaba de fazer, contudo, recusando-se a reconhecer quer o dono, quer a autoria da porcaria, mas nem por isso conseguindo libertar-se dessa situação desesperante, isto para utilizar uma bela imagem desse grande economista russo, o conde Lev Tolstoi. Apesar de todas produções analíticas da realidade a que temos assistido nos últimos dias, Amália Rordrigues continua a ser a autora de dois dos melhores comentário aos efeitos decrescentes do rendimento social inerentes tanto a qualquer greve como ao comportamento dos mercados. O primeiro começa pela expresão, «São os caracóis, são os caracolitos», e o segundo pode ser sintetizado pela estrofe acima apresentada. Segundo Sarsefield, Salserfield, Saresfield, Sarsfield Cabral, enfim, aquele director da rádio renascença que participa nos Simpsons como Mr. Burns, os mercados, ah, os mercados, agem como qualquer pessoa de bom senso perante o gravíssimo crescimento da Despesa Pública e a greve geral é a greve geral, que em nada pode resolver o problema, nada comparado com uma boa avé-maria todos os dias ao deitar, o que já teria solucionado estas impertiências plenas de razoabiliade a cargo do mercado primário, secundário e terciário. Contudo, não pode esquecer-se que o paleontologista, especializado na hitória natural do disparate, Mário Nogueira, figura entre as fileiras da massa que hoje cozerá em lume brando no panela da Greve Geral. Esperemos que haja pelo menos umas pitadas de molho de tomate.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Amanhã é dia de greve

e este video devia estar num blogue qualquer perto de si

Enquanto o Presidente da República não explica a diferença entre mercado primário e secundário devo acabar a minha própria luta de cães


Não é só o Alf que posta à meia-dúzia de cada vez

Três vezes. Desde que a ditadura foi embora e o povo tomou as rédeas dos seus destinos que o FMI já cá veio três vezes. A data da terceira vinda, tal como o segredo do Fátima cujo santuário espero ainda não ter sido interditado ao público em geral, demora em saber-se mas sabe-se que se vai saber mais dia menos dia. A ser como o terceiro segredo de Fátima, a vinda do FMI coincidirá com Sporting ganhar o campeonato, improvável mas não impossível, embora eu não esteja a ver quem no FCP actual faz as vezes de Secretário.

Se em pouco mais de 30 anos de liberdade, o povo já teve que comer umas bordoadas do FMI por duas vezes estando a terceira prometida para breve, não será tempo de tirar as rédeas do poder ao povo e o colocar no seu devido lugar, que é albardado e a puxar a carroça ? Se, como muito bem foi relembrado aqui e ali e acolá, as 200 famílias que essencialmente controlam o graveto neste jardim à beira mar falido não mudaram após Abril, para quê continuar com a farça ? Para termos greves a meio da semana e feriados em Abril ? Haja paciência.....

Fura greves, é o que tu és


O direito à greve é uma coisa muito linda, mas gostava que me explicassem qual o objectivo de tal exercício social. O que é que se pretende exactamente ? Pedir a demissão do Sócrates ? O homem é peçonha que vamos ter que aguentar durante pelo menos mais alguns meses. Mudar a política do governo ? Exactamente como, ou os grevistas têm um PEC e um orçamento de estado alternativo a oferecer ? Estão chateados com o Sócrates ? E quem é que não está ? O exercício da greve é fútil. O governo não vai cair, o PSD espero que nunca lá chegue. E reparem que eu até sou um tipo que guina à direita, mas o Passos Coelho é farinha do mesmíssimo saco que o Sócrates. Antes burro que me carregue que cavalo que me derrube.

A foto tirei-a na minha aula de ontem à tarde. Ou saquei-a da net. A realidade tende a imitar a ficção e ao contrário também.

A greve de quarta a empurrar o turismo intra-muros

O Carvalho da Silva indignava-se ontem com os serviços mínimos a que estão obrigadas a CP e a Soflusa (cito de cabeça). Que não percebe para quê tantos comboios, coiso e tal. Eu dou uma ajuda. Por incrível que possa parecer, existem pessoas que se deslocam de comboio durante a semana e não apenas nos pendulares de sexta e domingo. Por mais extraordinário que possa parecer a CP ainda fornece um serviço público com alguma qualidade e utilidade à populaça em geral, a mim em particular. Em vez de agarrar no carro, que não tenho, e gastar o dinheiro, que me faz falta, em gasolina e portagens venho até à cidade templária de regional. São duas horas ocupadas a imaginar como motivar as néscias almas que, qual movimento browniano, confluem para a mesma sala que eu. Mas ó sô Carvalho, isto sou eu. Deus me livre, se ainda não foi ilegalizado, de relembrar sua excelência que existe uma quantidade apreciável de povo que precisa dos transportes públicos para poder ganhar p'a bucha.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Luta de cães ou como somos reles quando os donos dos cães tentam fazer qualquer coisa pelo mundo e nós a ler livros, meu deus, a ler livros


A pessoa que escreveu as linhas que se seguem, foi convidada para falar, repito, para falar, no âmbito da comemoração do dia mundial da filosofia, repito, do dia mundial da filosofia, não no dia mundial da filosofia para crianças, nem no dia mundial da luta de cães, nem no dia mundial da luta contra as mulheres que vestem mias 100 peças de roupa branca por ano, mas sim no dia mundial da filosofia, e sobre política e cidadania, ao que parece no Colégio do Sagrado Coração de qualquer coisa (agora não me recordo, vejam no link), pelo que tenho tido dificuldade em respirar nestes últimos minutos e tenho mesmo procurado suicidar-me continuadamente com um volume das obras completas do cardeal Ratzinger atado ao pescoço, tendo enchido a banheira para tal efeito, mas sendo apenas obsequiado, até ao momento, com algumas escoriações, um tapete molhado e um resfriamento, para grande infelicidade de todo o auditório que nos segue.


Algumas palavras interpretativas. O cão que de certa forma foi vítima, prepara-se, alegadamente, para fazer cócó, defronte da fachada neo-clássica da Igreja dos Mártires (a necessitar de confirmação), ou está na ressaca de uma epifania da ética. Como não louvar os donos de cães que apesar da tensão do momento conseguem transcender-se e não espetar dois tiros de caçadeira nos miolos de meio Portugal a propósito de uma desesperante mordidela de um cão no seu próprio cão? Faça-se notar aos mais distraídos, e aos menos especializados nestas coisas da política e da cidadania, a éticamente irrepreensível posição dos transeuntes. E o que dizer dos romenos, não se desiquilibrando das escadas, nem do passeio, nem nada? E o que não seria de prazer ético e de sabedoria se lá tivessemos estado, e presenciado aquela cena muito agressiva e breve em que dois cães foram de certa forma vítimas da inteligência de Laurinda Alves? Mas o que somos nós? Eu que tenho falhado os grandes momentos da vida pública portuguesa, tenho a irrelevância e a infâmia de ter também falhado esta performance ética inolvidável, apesar dos nervos, dos muitos nervos do momento.

Ora aí está mais um exemplo escandaloso da ilegalização de Deus nas elites Europeias

O Conselho de Ética da José de Mello Saúde é presidido pela Profª. Doutora Paula Martinho da Silva e tem a seguinte composição:
Profª. Doutora Isabel Renaud (católico)
Dr. João Paulo Malta (provavelmente católico)
Padre Nuno Amador (até prova em contrário, católico)
Dra. Rita Amaral Cabral (provavelmente católica)
Presidente do Conselho de Enfermagem da JMS, Enfª Helena Valentim Abrantes (não sei, as enfermeiras às vezes envolvem-se em coisas esquisitas)
Presidente do Conselho Médico da JMS, Prof. Doutor João Paço (católico)

Ah, os mercados: Uma Tragédia Portuguesa


Conselheiro económico do PSD, professor catedrático de Economia e administrador do grupo José de Mello

Ah, os mercados II

A nuvem da Boa Nova vem cavalgada pelos José de Mello

José de Mello, SGPS
Conselho de Administração Presidente Vasco Maria Guimarães José de Mello Vice - Presidente Pedro Maria Guimarães José de Mello Vogais Gonçalo Maria Guimarães José de Mello João Maria Guimarães José de Mello João Pedro Stilwell Rocha e Melo Joaquim Augusto Moreira Aguiar Jorge Caldas Gonçalves José Luís de Almeida Fernandes Salvador Maria Guimarães José de Mello
Comissão Executiva Presidente Vasco Maria Guimarães José de Mello Vice - Presidente Pedro Maria Guimarães José de Mello
Vogais João Maria Guimarães José de Mello João Pedro Stilwell Rocha e Melo Jorge Caldas Gonçalves Salvador Maria Guimarães José de Mello
Mesa da Assembleia Geral Presidente Fundação Amélia da Silva de Mello
Secretários Manuel Abreu Gomes Luís Eduardo Brito Freixial de Goes
Fiscal Único Efectivo Albuquerque Aragão & Associados (SROC)
Suplente João Florêncio Vicente de Carvalho - ROC
Secretário da Sociedade Manuel Abreu Gomes Luís Eduardo Brito Freixial de Goes

Ah, os mercados

Momento em que a República se agacha para apanhar um sabão...
LOURES
Concurso foi lançado no ano passado. Ainda em apreciação estão propostas do Grupo Mello, Santa Casa da Misericórdia, Grupo Espírito Santo e Hospitais Privados de Portugal.
CASCAIS
Obra é construída e gerida pelo consórcio Teixeira Duarte/HPP Hospitais Privados de Portugal (Caixa Geral de Depósitos), em parceria com o Ministério da Saúde. A inaugurar em 2010.
BRAGA
O novo hospital em regime de parcerias público-privadas deverá estar a funcionar em 2009 e servirá os distritos de Braga e Viana do Castelo. A gestão privada é do Grupo Mello Saúde.
V. FRANCA DE XIRA
Construção em 2009. Até final do ano serão conhecidos os dois finalistas. Quatro consórcios candidatos, liderados por Grupo Mello, Cespu-Saúde, HPP/CGD e Espírito Santo.
Correio da Manhã, março de 2008

Dívida Pública? Olhai as aves do céu: elas não semeiam ou recolhem bens em celeiros, e no entanto o Pai celeste alimenta-as.


Estamos completamente conscientes de estar a participar numa mega-orgia de citações e comentários a comentários, numa cadeia de mal-cozinhados argumentos, gizados entre uma sandes de atum e a hora de partida do metro da Rotunda (agora marquês de Pombal, embora o marquês de Pombal figure, cronologicamente falando, em primeiro lugar no desfilar dos acontecimentos pátrios, e só depois venha, na linha ininterrupta da história portuguesa, a brava rotunda pejada de lojistas e vigaristas republicanos, isto em 1910, para os mais distraídos). Nestes dias que podem ser os últimos, estamos, caros amigos, perante uma hiper-confusão de contornos bíblicos que levarão ao poder pessoas como o Henrique Raposo. Mas não faz mal, porque só é vencido quem desiste de lutar, para citar um slogan conhecido e, ao mesmo tempo, um desconhecido discurso de Ruy Belo proncunciado num auditório bolorento na Lisboa que serviu de cenário remediado às eleições de 1968. A modernidade, a modernidade, a modernidade. Vejamos: EUA, Índia, Israel, China, Brasil? É isto a modernidade. Com efeito, estamos perante um indivíduo que fala continuamente em pós-europeus e que erige em paradigma da modernidade territórios cuja contribuição para o conceito de modernidade pode ser resumido através das seguintes invenções: o míssil, a Bíblia, o maior índice de assassinato político por metro quadrado, o mais índice de assassinato por minuto, o cabelo do David Luiz - como todos sabem, uma actualização do cabelo do cabreiro inimigo de Golias -, a indústria pornográfica (mesmo isto, é uma imitação rasteira da pornografia filosófica da Paris do século XVIII), o talk-show, a catanada anti-religosa entre hindus e muçulmanos, a catanada pela catanada, o assassinato em massa pela fome, a venda de flores ambulante em restaurantes de cidades periféricas e muito mais coisas de magnífico recorte moderno. De acordo com Henrique Raposo, a modernidade, para ser vital, isto é, para pulsar no coração de milhões de seres repletos de vontade de viver, baixos salários, consciência nacional, ambição de conforto, produto interno bruto de dimensões colossais, precisa dessa vaselina mental chamada fé em Deus. Se estamos sozinhos com o ateísmo, nem tudo é mau para a Europa, neste ano da graça do senhor de 2010. Quanto à elite europeia e sua consagração do ateísmo como marca da modernidade, isolemos um objecto quantificável. Qual elite europeia? A portuguesa? Será Portugal parte dessa Europa? Ou salvámo-nos dessa Babilónia de arrogantes ateus de linguajar anglo-saxão? Gostaria muito de conhecer a elite portuguesa que declarou a ilegalização de Deus. Leonor Beleza? Marcelo Rebelo de Sousa? Aníbal Cavaco Silva? António Guterres? José Sócrates? o bispo do Porto, prémio pessoa 2009? Cristiano Ronaldo? José Mourinho? Marco Paulo? Manuel Luís Goucha? Carlos Queirós, meu deus, será Carlos Queirós? Joana Carneiro? Pedro Mexia? Rui Moreira? Pedro Lomba? João Lobo Antunes? Os Sousa Francos, os Mellos, os Espírito Santos, os Mayer, os Orey, os Vasconcelos, os Lobo Xavier, os Pereira Coutinho? Não será antes extraordinariamente difícil encontrar alguém com fama pública e distinção social convictamente declarado ateu? Com a excepção de Saramago, que entretanto foi chamado ao Conselho Directivo, não estou a ver ninguém. Estará Henrique Raposo ainda em Portugal, ou já descolou para a terra onde Lincoln libertando dos grilhões as hordas de escravos, a todos nos conduz à paz do senhor, entre cânticos de alegria e grinaldas de açucenas? Estará Henrique Raposo a falar de uma ilegalização de Deus no país onde as cerimónias do 12 e 13 de Maio, esses dias de velas e lenços brancos envolvidos em lágrimas de bondosa comoção espiritual, merecem, desde que me lembro, honras de transmissão directa na televisão pública e privada? Henrique Raposo não era aquela pessoa que cantava no coro «Vivemos acima das nossas possibilidades», animando a celebração dominical presidida por Manuela Ferreira Leite, outra perigosa ateísta convicta e jacobina ilegalizadora do divino? Pois Deus é meu amigo, gosto muito dele, e os mercados que se acalmem que Ele garantiu-me a segurança dos empréstimos e da solvabilidade da dívida externa, Palavra da Salvação.

domingo, 21 de novembro de 2010

Estou ressabiado, perdi a palavra passe: e tive dificuldade em lembrar-me da expressão «arrebim-bó-malho»

Declaração de intenções: eu gosto muito do Maradona e não só o imito escandalosamente como me auto-nomeei seu cão-de-fila, mesmo que por vezes seja clara a desorientação mental desse autor e a falta de uma mulher na vida do mesmo, isto é, o autor Maradona. Neste tempo todo que tem passado sofri diversos processos de conversão interna que podem ser ilustrados (para efeitos pedagógico-penitenciais) por uma alusão à pele do frango quando roda continuadamente num espeto a uma distância de cerca de dez centímentros de um aglomerado de brasas incandescentes. Só isso me impede de fazer referências mais demoradas a uma crucial polémica discursivo-mental, já considerada histórica por diversos doutorandos em ciências da comunicação pós-laboral, isto é, pessoas que estudam as pessoas que estudam entre as duas e as duas e meia da manhã no espaço compreendido entre a calçada do combro e o príncipe real. Falo - (falo?), obviamente, de uma discussão sobre o direito a discutir os direitos de propriedade, evolucionada pelo gaz cerebral de Zé Neves - um intelectual de esquerda anti-violência nas esquadras e que tem uma visão teórica da história expressa no aturado estudo do nacionalismo comunista, uma questão que a todos interessa, até porque gostariamos, se nos é permitido um pouco de magestade, de não ser fuzilados por engano, um dia destes, na monumental praça do campo pequeno -, Fernanda Câncio - uma jornalista que entrou num processo de acelerada sportinguização por quase ter casado com uma espécie de José Eduardo Bettencourt da Covilhã -, e Maradona - um bloguer que resiste com cada vez mais dificuldade ao assédio complexificado da fama pública, enveredando por polémicas pífias com outros gigantones da opinião. Assaltam-me, munidas de arma branca e com um bizarro sotaque proveniente do cruzamento entre a Amadora e o arquipélago de Cabo Verde, variadas e perigosas perguntas: a quem lembraria utilizar citações de caetano veloso, numa discussão sobre direitos de propriedade? Porque razão discutem estas pessoas, por intermédio de reduções tão ridículas como a argumentação vagamente artístico-popular desenhada por filhos de funcionários dos Correios de cidades periféricas do Estado da Baía, assuntos de uma complexidade que a ser quantificada ultrapassaria o número de pelos púbicos na população feminina acima dos setenta anos no concelho de Mirandela? Será que a blogosfera é uma ampliação em comédia do canal parlamento, se bem que descontando os abusos de confiança em empresas de construção civil e somando produtos de satisfação pessoal expressos pelos seguidores nas caixas de comentário? Correndo o risco de ser confundido ou com um taxista zangado ou com o pacheco Pereira - o que do ponto de vista da psicologia social é a mesma coisa - teremos sempre de dizer que a frase que se segue é estúpida:

A limpeza não é um bom argumento de autoridade. O que é o limpo e o que é sujo não é propriamente da ordem do natural e mesmo que fosse está por provar que as paredes nascem brancas.

Logicamente, o Zé Neves não tem um gato, e nunca teve a maravilhosa oportunidade de observar como ele - o gato - lambe meticulosamente a sua aparelhagem sexual em ordem à obtenção de uma ordem natural das coisas. Isto quer apenas dizer que identificar alguma coisa como natural é tão pantanoso como discutir o que é sujo e o que é limpo, fenómeno argumentativo que não só confirma a ignorância de Zé Neves, mas mais uma vez faz triunfar indirectamente as ciências exactas por desconfiarem de pessoas que argumentam logicamente tropeçando a cada dois segundos em palavras armadilhadas de alçapões histórico-semânticos que fazem mais pela confusão mental de qualquer leitor do que observar as performances mentais de Pedro Boucherie Mendes. O que perigosamente também nos faz pensar que não existe grande diferença entre a intervenção pública de um ex-director da FHM e a de um simpatizente de movimentos anti-Nato. Isto quer dizer que continuo à espera de uma boa explanação da forma-função ou da função-produção destas discussões e creio que na resposta os três (Neves, Câncio e Maradona) estariam de acordo sobre as virtudes terapêuticas do debate público, da dialéctica da responsabilidade expressa nos maravilhosos efeitos curativos da persuasão; falariam até, quem sabe, no sonho da palavra que salva a república, e eu continuo a achar que isto tudo não passa de vaselina e que o malho se erige cada vez mais (bela imagem de colaboração entre erudição e cultura popular) como o mais eficaz instrumento de participação social em tempos de muito barulho por muito menos que nada.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Por falar em humanidade, bom fim de semana

Sabemos que a humanidade não está perdida

Quando acontece isto por causa disto. O pão que ficou engasgado na garganta quando vi esta manhã na TV esta gente. E não me lembro de melhor homenagem que podia ter sido feita.

E depois do amor
E depois de nós
O dizer adeus
O ficarmos sós

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Sites com sabor

"A grande limitação actual dos sites está relacionada com a impossibilidade de ter uma experiência sensorial completa, pois o tacto e cheiro estão ainda ausentes na Internet"

Tantas vezes que eu me prometi nunca mais comprar livros de gestão, marketing ou afins. Tantas vezes que acabo a cometer o mesmo erro. É o que dá entrar numa livraria no ínicio do mês.

Em tempos de crise, é necessário definir prioridades

e ontem fui ver o Carlos do Carmo com a Count Basie Orchestra. Burguês clamam alguns, foste ver quem perguntam outros. Pena que tenha sido no Pavilhão Atlântico, um conselho: nunca vão para a plateia no Pavilhão Atlântico. Pena que tenha sido curto. Pena que os músicos não tenham agraciado uma plateia que passou o tempo todo a aplaudi-los de pé, com um ou dois encores. Fora isso, a música foi genial.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Vai ser a noticia do dia

Exportações continuam a crescer mas importações desaceleram

ou quem como diz:

Adelaide de Sousa quer ter sexo sem compromisso comigo mas a Silvia Alberto também

Queria vir e deixar de escrever aqui

Mas não consigo. Esta semana comprei o Expresso e li o Fernando Seara a dizer: "Quando aqui cheguei pediam-me trabalho, depois foram casas, agora pedem-me de comer. Chegámos ao fim da linha". De facto, crianças com fome na escola enquanto outros dividem o bolo dos dividendos de 1.500.000.000€ parece-me algo que precisamos mesmo de mudar. Não me falem de justiça, que cada um tem o que merece, porque ainda hoje ouvi que a sentença da casa pia afinal vai ser cancelada por uma questão técnica no processo que o invalida. PC Portugal. Precisamos de muito melhor. Já chega. A sério.

Queria vir aqui mandar vir como já estou farto de estarmos sempre a falar da crise

E alguém já o fez por mim, neste notável elogio da crise

obrigado JR pelo link

Queria vir aqui e mandar vir com o sporting e com o treinador que temos

mas alguém já o fez por mim

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Rumoreia-se que o FMI está para chegar

e a senhora minha esposa, inquietada que anda com o estado do país, pergunta-me para quando a chegada dos "gajos dos FMI". Respondi que não sabia, mas que esperava que não fosse este fim-de-semana. A casa precisa de uma arrumação e eu não queria passar vergonha diante das visitas. A senhora minha esposa retorquiu com um sonoro "és tão parvo" enquanto se punha a ajeitar as almofadas no sofá.

Apesar da hora ser já tardia

penso que já é óbvia a minha descrença na democracia enquanto forma de escolher os glúteos que ocuparão Belém, São Bento e outros cadeirões afins. Resta portanto saber para onde prosseguimos se se abandonar a democracia.

Isto de ser pobre é uma canseira

e volta e meia ainda tenho que gramar com indíviduos que pensam que não se deve reclamar do o governo oposiçao que temos, porque afinal forams eleito pelos portugueses. Ora responsabilizar os eleitores pelos actos dos eleitos é asneira da grossa.

Em primeiro lugar, a população não tem outro meio de escolher quem governa a não ser votando nas listas que lhes são apresentadas. Mais, o processo de construção destas listas é tudo menos transparente e honesto e cada bípede eleito pode ser substituído após as eleições por qualquer outro bípde da lista.

Segundo, um eleitor tem que decidir o voto pesando mil e um factores: afecto político, tachos na familía, para que lado é que a maré está a virar, média de golos num jogo do Sporting na Europa, etc. É no mínimo rídiculo pensar que a intenção de voto é objecto de apurada reflexão. O tipo sai de casa, está sol e tem dinheiro para a bejeca, vota no governo. Se está de chuva ou falta o guito, vota nos outros. Pouco mais complicado que isto será a dinâmica de voto.

Terceiro, mesmo que o voto seja resultado de intensa meditação em retiro espiritual apropriado, existe sempre a possibilidade dos políticos serem uns sacanas duns mentirosos. Tome-se o Obama por exemplo. Agora é moda dizer-se que "era óbvio que o tipo não ia resolver os problemas do mundo. Aqueles americanos são mesmo uns tótós".  Pois, a memória é curta. O slogan da campanha foi "Yes we can" e quem quiser consultar os arquivos do Youtube, encontra este vídeo. Só faltou aos democratas declarar que o Obama era o Martin Luther King ressuscitado. Os americanos podem ser donos de um limitado entendimento intelectual mas o facto foi que a campanha do Obama o apresentou como a dádiva  de Deus aos US of A.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Posso ter sido um bocadinho rispído demais

com os cavalheiros na foto apensa. Afinal o Teixeira dos Santos tem ar de ser boa pessoa, amigo do seu amigo, bom pai de família e, parece-me óbvio, sócio do Sporting com as quotas em dia. O jovem de 67 anos que se vê do lado esquerdo também merece uma certa e quantificável dose de respeito. Ainda por cima, ostenta a medalha de ter sido o único ministro das finanças que conseguiu realmente baixar o déficit. Tudo bons rapazes, portanto. Mas aqui é que a porca torce o rabo, por assim dizer. Se este dois senhores, certamente intelectualmente acima do verme que vos escreve, nem conseguiram reduzir 1% ao Orçamento de Estado então qual era o problema de vivermos de duodécimos ? Mais se pergunta, qual é a função do Governo e da Oposição se nos tempos de aperto a que vamos sobrevivendo por enquanto, não é capaz de diminuir em um ponto percentual a ração da marsupial vaca pública ? A trinta e seis anos depois de Abril, a liberdade para decidir sobre o nosso futuro não chega a 1% ?  

Eu sou um tonto alegre que por aqui anda

mas isso não impede que almas bem-intencionadas me tentem puxar para ser um "cidadão mais activo na política. Estás sempre a mandar bocas, mas a ver se te vejo a arregaçar as mangas e mudar o país". A crítica é certeira, mas a verdade é que tenho muito mais que fazer. Tome-se a palhaçada da aprovação do orçamento. Se não estou em erro, o estado contava gastar este ano cerca de 65 mil milhões de euros. Suponha-se que conta gastar o mesmo para o ano que vem.  Ora os 500 milhões que tão orgulhoso deixaram o Eduardo Catrógada representam menos de 1% do valor total do bolo. Tanto barulho para isto ?

E claro, hoje o "mercado internacional", essa entidade tão misteriosa e elusiva quanto o bom futebol do Sporting, deu sinais claros de aprovação ao acordo a que se chegou. A sério ? Os dois PS's andaram à bulha durante meses por menos de 1% do bolo, e quando no final lá se fartaram toda a gente elogia o patriotismo destas almas. O sentido de Estado do Passos Coelho e a flexibilidade do Sócrates. Não tenho tempo para perder com palhaçadas. São capazes de dizer um do outro o que Maomé não disse do toucinho, tudo por menos de 1% do orçamento. Mas manter as migalhas do abono de família isso já não ? Nada de despesismos, que estamos em crise. É isso ? Se o Eduardo Catrógada considera a passada sexta-feira o ponto alto da sua vida, imagino a má-vida que tem levado.