quinta-feira, 31 de março de 2011

A situação é desesperada mas não é séria



Musiquinha que inspirou a do post anterior. Que vi no primeiro episódio do Breaking Bad. Que um francês alegre me recomendou. O mundo está todo ligado.

Out of time

Um leilão extraordinário no valor de 1,5 mil milhões de euros vai ser feito amanhã. Curioso valor, semelhante aos 2 mil milhões que a Economist dizia que a gente precisa todos os meses de ir pedir emprestado. Imagino que o BCE vá participar no leilão, porque caso contrário segunda temos o FMI à porta.

quarta-feira, 30 de março de 2011

terça-feira, 29 de março de 2011

Tolentino

Houve alturas em o que gostei muito de ler o Tolentino. Depois fartei-me. Hoje gostei de ler esta entrevista. Há coisas simples na vida.

segunda-feira, 28 de março de 2011

E lá fora

Radiohead have published a newspaper, so Guardian staff including editor Alan Rusbridger attempted to beat them at their own game by recording their version of a Radiohead classic

e a verdade é que a cover está boa.

via complexidade e contradicção

O golf lá tambem ficou mais barato

Num notavel exercicio de escrita, a Irlanda escreveu-nos uma carta

via facebook de alguém que já nao me lembro

The country's need to issue debt is only €2 billion or so a month

diz a Economist da passada semana sobre Portugal. E logo a seguir afirma, "(...) that is small by most measures". Eu não entendo nada de economia, que fique claro. Mas em que universo paralelo é normal um país ter que pedir dinheiro emprestado todos os meses ? E logo trocados, 2 mil milhões de aéreos.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Bom fim de semana

Á deriva

O António Barreto resume nesta entrevista o meu sentimento em relação ao clima democrático que se vive actualmente. Sem o respeito pelo outro, sem a cordialidade e honestidade que é devida nas relações que se mantêm com os adversários políticos não é possível a democracia. Pior, nas eleições que se anunciam vamos ter exactamente os mesmos protagonistas. Não de agora, mas de há pelo menos dez anos. Com os mesmos comportamentos, os mesmos vícios e defeitos. Assim as eleições, a suceder, não serão uma hipótese do povo se expressar mas antes um espetáculo circence de má qualidade em que à populaça será permitido urrar de quando em quando.

A culpa desta situação é da nossa irresponsabilidade passada, mas principalmente da UE. Eu sei que não parece bem atirar as culpas para os outros, mas que se lixem as aparências. Foi a UE quem serviu de fiador aos nossos desvarios orçamentais. Foi a UE quem foi aguentando o barco através dos empréstimos do Banco Central Europeu. E é a UE que está reunida para emitir mais uma vez pronunciamentos ocos que serão ignorados mesmo antes da tinta secar. Sem o apoio europeu, seríamos irresponsáveis na mesma mas à escala da nossa pequenez,  não à grande e á francesa.

Penso que é altura de se começar a equacionar o nosso abandono do euro, e caso a UE caminhe para uma união política, virarmos costas à Europa. O euro, que foi apresentado como a panaceia miraculosa para os déficits crónicos da pátria lusa, não só não os impediu como os agravou ao ponto da bancarrota. Não funcionou para impedir as asneiras e impede agora que se resolva com os remédios conhecidos, a Irlanda e a Grécia que o digam.

terça-feira, 22 de março de 2011

Portugal, o único país do norte de África que ainda não está em convolução

Parece ser esta a ideia que os média andam a veicular cá e lá fora. Amanhã cai o governo, diz-se que, e vai ser o fim-do-mundo em cuecas, afirma-se categoricamente. Eu sinceramente não entendo qual é o problema. Nada como o confronto para se resolverem os problemas, e só tem medo de ir à luta quem não tem com que lutar.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Agora que a poeira da manif assentou

é altura de esclarecer alguns dos meus pontos de vista.

Um curso não dá direito a um emprego.

A precariedade de curta duração (menos de um ano) é algo de normal em quem está a começar a trabalhar. Entenda-se, é normal a juventude ter que fazer pela vida.

A falta de emprego, e a precariedade de que todos se queixaram no passado fim-de-semana, é um sintoma do fraco dinamismo da economia portuguesa.

Eu de economia pouco entendo, mas tenho olhos para ver. E consigo perceber que existem demasiadas protecções à concorrência, cujo único objectivo é proteger as rendas dos que gravitam em torno do poder. A área das energias renováveis é um paradigma notável, sei-o por experiência própria. Mais do que discutir o que taxar e a que percentagem, devemos derrubadar todas e quaisqueres barreiras à entrada de concorrentes.

Existe um sério problema de liderança política em Portugal, que não permite afrontar os interesses instalados. Enquanto não se resolver o problema político, o económico vai continuar. Infelizmente não vejo em nenhum dos partidos políticos actualmente na Assembleia da República o indivíduo que nos vai desenrascar.

quarta-feira, 16 de março de 2011

A luta é alegria

Sou obrigado a vir a terreiro fazer um ponto da situação: a manifestação foi uma manifestação, conceito da teoria política que pessoas especializadas em electrónica transparente e mercados financeiros, primários, secundários e terciários, têm certa dificuldade em manejar. Sobre o número, penso que já falei o suficiente, mas a recorrente alusão aos exercícios quantitativos da Priscila Rêgo induzem-me a clarificar, para efeitos de tranqualização geral, que o facto do desemprego ser menor entre os licenciados - uma conclusão mais famosa que a Venús de Milo - em nada retira qualquer legitimidade aos protestos transversais que animaram as pessoas de vária índole e qualificação académica que encheram a Avenida da Liberdade no Sábado passado. De resto, esse tem sido pau para todo o rabinho ressabiado que procura desenvolver pirotecnia sobre a pretensa desorientação da manifestação. Pereira Coutinho (o mais novo, e mais rabeta) falou na existência de camadas muito mais fragilizadas. Isto quer dizer que se o irmão do meio estiver a levar bolachada no recreio e o irmão mais novo for fazer queixa à Professora, o protesto torna-se improcedente, a não ser que o próprio preencha requerimento em papel de vinte e cinco linhas. Já Avillez de Figueiredo (o mais louro e panasca) referiu uma maioria silenciosa do interior que, não sendo jovem nem urbana, sofre misérias incontáveis para sobreviver a um orçamento de 758 euros, que não deve ser esquecida perante as manifestãções dos jovens (e nós sabemos como antes destes movimentos a agenda do debate político se preocupava imenso com estas problemáticas), sendo absolutamente claro que a origem desse orçamento restrito terá estado na manifestação do Sábado passado. Esse é, aliás, o argumento mais recente de Priscila Rêgo, uma vez que as propostas dos jovens contribuiriam, segundo a já famosa autora, para aumentar o desemprego, em mais um exercício de previsão daqueles que fizeram curso nestes últimos vinte anos e que têm garantido paz, prosperidade e trabalho cada vez mais bem remunerado. Como não faço previsões e não arrisco causalidades inspiradas nos comentários de Luís de Freitas Lobo, continuo a achar que as manifestações são um dos mais sofisticados instrumentos de desenvolvimento. E agora? Agora, é preciso que a luta continue.

Coisas que interessam, que nem só de problemas vive o homem


Esta moçoila ganhou o Grammy para a Revelação do Ano. Saúde-se a insanidade temporária do júri que premiou qualidade à música chiclete, mastiga-deita-fora.


Já esta rapariga surpreendeu-me a mim. Não se deixem enganar pelo fogo-de-artifício promocional da editora, a moça tem voz e nota-se que gosta do que faz. Não canta em português ? A qualidade não tem pátria. A Esperanza Spalding, por exemplo, deslumbra em inglês, em português sem falhas e em espanhol.

domingo, 13 de março de 2011

E agora ?

Ontem foi muita gente para as ruas. Mesmo muita gente. Gente o suficiente para deixar estupefacto meio-mundo e cínicos pessimistas como eu. Não sei para aonde nos encaminhamos, mas espero que ontem tenha sido o catalizador para um país melhor.

sábado, 12 de março de 2011

Preciso de colocar aqui música boa



estavam aos gritos com o "baby baby" da britney spears. isto é um pesadelo sem fim.

200.000 e há muito tempo que não passava aqui

1. foi muita gente para a rua. e isso é bonito. para mim o melhor mesmo é que já se discute o que fazer a partir daqui. vejam-se os comentários aqui e os posts do ngoncalves. há que pôr duvidas. sair à rua. descobrir novos caminhos. e só por isso já valeu a pena a manifestação.

2. o sporting empatou. perdi o meu tempo e vi a 2ª parte. de antologia a falta que o polga marca para ele próprio. a liga dos últimos deve andar distraida com estas coisas que acontecem naquele que é o clube mais deprimido da história do futebol moderno.

3. escrevo estas palavras enquanto os meus vizinhos de baixo gritam (eles acham que cantam) no sing star que devem ter lá por casa. Se volto a ouvir o "Always" dos Bon Jovi ou o falsete dos Scissors sisters não respondo por mim. já se fizeram manifestações por menos. ou mesmo revoluções.

bom domingo a todos. à procura de novos caminhos. ou como um dia disse o poeta esquecido de queluz:

"Seria muito mais cómodo para mim, no presente momento eleitoral, continuar a escrever os meus versos e a publicar os meus livros sobre temas predominantemente literários, em nome de um apelo irresistível. Mas parece-me que não seria honesto nem corajoso. Não sou político, não tenho ambições políticas, mas intervenho nesta luta desigual em nome de uma posição moral. Nem a divisão da oposição bastou para me servir de pretexto para não intervir. Se é certo que a divisão enfraquece na luta contra o inimigo comum, não é menos certo que ela representa afinal a diversidade de tendências e constitui a expressão de um pluralismo sem o qual não há democracia verdadeira. De maneira que aqui me encontro a lutar ombro a ombro
...
Um dia se fará a história nos diversos domínios e então se verá, no espelho dessa história feita para todos, a importância real, a verdadeira contribuição de cada um para a vida ou para a morte dos outros e de todos."

Ámen digo eu.

ps. agora estão a arrepiar o losing my religion dos REM. perdoa-lhes pai porque não sabem o que fazem.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Trio d'ataque

O Manuel juntou-se na caixa de comentários daqui, e chamou a atenção para a minha total incapacidade em articular ideias. A questão dos dez anos é simples. Não é para estar parados por uns tempos até a economia melhorar. Antes, que quaisquer que sejam as medidas tomadas hoje os efeitos só se sentem a médio e longo prazo. A noção de que é possível resolver os problemas do país num par de meses parece-me rídicula. Isto não é obviamente impeditivo de organizar protestos e entregar folhas A4 com reclamações/ideias, tudo bem. Afinal nem só de pão vive o homem, nem só de frio racionalismo contabilístico se alimenta a mudança. Já dizia o poeta: Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Portanto tudo bem, protestar por uma vida melhor é o primeiro passo para uma vida melhor. Mas não chega.

Vamos olhar para um caso concreto, os recibos verdes. A minha percepção era de que uma porção significativa da juventude era paga através de recibos verdes, mas parece que os números dizem exactamente o contrário. Longe de mim de estar a afirmar que os números não podem ser massajados, adulterados e torturados para dizer o que se pretende. Mas uma coisa é eu falar do que penso ser a realidade da precariedade no país, outra diferente é dar-me ao trabalho de quantificar a realidade. Este trabalho de quantificação não só não é contrário ao sonho que nos move, por definição inquantificável, como é necessário para nos movermos em direcção ao sonho. Dito de outra forma: sabemos para onde queremos ir, precisamos de saber onde estamos. Não vi ninguém no movimento dos enrascados a fazer este trabalho. No site apenas encontrei um JPEG com as estatísticas do desemprego, claramente favoráveis à malta com curso superior e em consonância com o que a Priscila Rêgo tem vindo a ilustrar.

E após este trabalho básico, é necessário tomar decisões que necessariamente não vão agradar a toda a gente. Suponha-se que os recibos verdes são proíbidos e apenas os contractos de trabalho, a termo ou não, são permitidos. Quais são as consequências ? Vai aumentar o desemprego ? Vão diminuir os salários dos que agora estão a recibos verdes ? Se realmente a percentagem de pessoas a recibos verdes for neglegenciável então não aquece nem arrefece. Pontualmente alguns poderão ficar pior, mas quanto a isso não há nada a fazer. Se por outro lado existir uma fracção significativa, pondo números acima dos 10% ou mais, a recibos verdes o caso muda de figura. Vai-se correr o risco de lançar para o desemprego uma porrada de gente ?

E não me venham com conversas sobre leis para proibir os empresários de despedir, baixar salários ou  obrigar a contractar. As leis contornam-se, como todos sabeis, e para efeitos ilustrativos relembro o nosso primeiro quando apadrinhou uma lei de seguros automóveis. O efeito foi que se acabou a pagar mais após a introdução de uma lei que pretendia exactamente reduzir o custo do seguro automóvel contra todos os riscos. Ou mais recentemente a mudança nas fracções dos parques de estacionamento que redondou num aumento generalizado dos preços quando se pretendia exactamente o contrário. Moral da história: de boas intenções está o governo cheio. Novamente isto não é um apelo à inacção e ao conformismo, antes um aviso à navegação. Reclamar amanhã é bonito, é necessário e tem efeitos positivos não quantificáveis. Mas não chega.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Eu sou um indivíduo capaz de muita coisa

excepto produzir um texto com um mínimo de clareza e inteligibilidade. A ver se consigo desta vez.

O Gonçalo Teixeira fez um longo comentário ao que eu aqui balbuciei. Vamos por pontos. Li no Público, na entrevista feita aos organizadores da manifestação da geração à rasca,  que não escolheram o fim-de-semana do Carnaval porque acreditavam que a maior parte da malta não estaria para disponível. Supondo que é correcto, isto mostra que os manifestantes têem outras prioridades. Seja visitar a família fora de Lisboa, como o Gonçalo lembrou, ou ir até a neve em Espanha esturrar o dinheiro dos pais. Seja qual for o motivo, têem outras prioridades e isso desvaloriza e enfraquece o protesto.

Adiante, para os dez anos de miséria que nos esperam. Os manifestantes do próximo sábado querem, presumo eu, mudanças agora e não daqui a dez anos. O problema está que, fora um milagre superior ao de Fátima, eu não vejo como é que as condições de vida podem melhorar significativa e sustentadamente no espaço de meses. Poderá ser miopia da minha parte, mas sinceramente não sei como é que tal pode vir a suceder.

As manifestações são acontecimentos mediáticos, por natureza de curta duração. E é também esse o entendimento que tenho do grupo que está a dinamizar o movimento. Lido o manifesto, continuo na ignorância sobre o que pretendem. É tão vago que facilmente são confundidos com outros movimentos.
E depois do protesto, o que sucede ? O objectivo do movimento é apenas fazer ouvir as vozes que os compoẽm ? Vão formar um partido e concorrer a eleições ? Vão fazer a revolução ? A ideia que me fica do movimento é a de uma amálgama de gente onde a única condição para se ser membro é querer reclamar. Até os sócios do Sporting são mais homogéneos que o movimento Geração à Rasca.

O Gonçalo, presumo, e os que no sábado estarão a reclamar têm bons motivos para isso. E mutatis mutandis, eu também estou no mesmo barco dos enrascados. Mas eu não me revejo neste protesto, não me revejo neste movimento e estou convicto que o protesto nada mais serve do que reforçar os esterótipos: quem protesta quer tacho, quem critica já tem tacho. Aliás a comunicação social tem sido incapaz de fazer mais do que repetir estes esterótipos.

Eu não vejo outra forma de mudar a não ser através de um trabalho de fundo, estabelecendo prioridades, definido objectivos e ignorando os protestos mediáticos que se vão fazendo. No sistema político actual, estas tarefas cabem em exclusivo aos partidos políticos. Ou nasce um novo partido ou se modificam os actuais. Isto não é um convite à inactividade, apenas um convite a estar quieto em vez de fazer asneira.

Este texto continuaria não tivesse eu que contribuir para produção científica do país. Mas não termino sem deixar claro que faço minhas as críticas do Gonçalo ao estado do país. E que à geração à rasca faltam objectivos, organização e vontade para cumprir o seu manifesto.

Estou viciado

quarta-feira, 9 de março de 2011

Gel na Eurovisão

Tenho assistido, com particular satisfação, ao derramamento de lágrimas argumentativas por todos aqueles que sempre fundaram no sucesso todo o mecanismo de aferição da verdade, lágrimas banhadas na saudade dos tempos em que a inteligência era o esteio do debate político e a nobreza de valores animava todos os interesses em confronto. Nada que se compare a estes tenebrosos tempos, em que se anunciam protestos forjados na desorientação, na irresponsabilidade, e jovens destrambelhados ganham concursos televisivos por televoto. Com efeito, a vitória dos Homens da Luta como representantes na Eurovisão (um belo conceito a recuperar, uma euro-visão), e uma anunciada manifestação para dia 12, são factos aleatórios que estão a deixar os teóricos da realidade à beira de um ataque de contradições insolúveis, daquelas que costumam motivar camionistas, talhantes e vendedores de fruta a abandonar as fileiras da civilização e a enveredar, ainda que precária e provisoriamente, pelos caminhos apontandos por intelectuais parasitas e jovens universitários decadentes; veredas atribuladas que normalmente costumam conduzir à decapitação de uma qualquer Maria Antonieta que se preste ao virar da história. Com todo o respeito que me merecem os críticos da gritaria, isto é mesmo assim, e é, como diria Fernando Nogueira Pessoa, muito belo que assim seja. Como devem calcular, eu sou daqueles que se identifica, antes de mais, com as personagens decadentes da literatura russa. Um Laevsky nas mãos de um Tchekhov, um Rudin nas mãos de um Turgueniev, ou qualquer alcoólico crónico que odeie irresponsável e parasitamente a organização e os sentimentos nobres que nos fundamentam, que é como quem diz que me estou positivamente lixando para os efeitos do colapso aparente das instituições, mesmo que depois me arrependa e venha aqui chorar copiosamente a perda dos incomparáveis privilégios que me foram concedidos pela revolução democrática de 1974, mesmo que entretanto um qualquer Oliveira Salazar, desta vez, recrutado na actualizada Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa e não na bolorenta Coimbra, tome as rédeas da República e guie Portugal com a mesma insensatez com que, a fazer fé no que nos conta Ovídeo, Faetonte conduziu o carro do sol, e seus corcéis de fogo, até à tragédia final. Ou só agora é que acordaram para as consequências trágicas do pornográfico comportamento da curva de distribuição salarial desta nossa República? É que já Aristóteles falava nesta merda. Isto porque me parece que estaremos a falhar um ponto, nós, os eruditos, mas também todos os apreciadores de empadão de codornizes (penso aqui no varão de nobre carácter e incomparável argúcia, Miguel Sousa Tavares, mas também no anónimo Maradona, do qual discordo totalmente nesta matéria) a verdade é que tudo sempre está bem com a realidade até a realidade se transformar em Carlos Xistra e sacar dos seus cartões vermelhos. Ou seja, descobrimos agora, via Maradona, que as críticas condensadas de forma canhestra, é certo, mas condensadas, ainda assim, pela geração desorientada, não passam de interesses particulares que gritam mais alto, como se gritar mais alto não fosse o combustível de todas as instituições.

Mas os desempregados com licenciatura têm mais poder reivindicativo e mais a ganhar: estágios profissionais para licenciados, bolsas de investigação para trabalhar numa universidade, um posto na Adminstração Pública. Não estão em maior número - só gritam mais.


Isto é tão comovente que chego a pensar em desistir de todos os meus ódios particulares para aderir a uma corrente budista, qualquer uma, desde que encabeçada pela Laurinda Alves. Mas desconhecerá esta pessoa que qualquer direcção social, ou gestão de empresa, se pauta não pelo maior número mas pelo que grita mais alto? Não votamos nós em representantes caracterizados precisamente por serem aqueles que gritam mais alto entre o maior número? Talvez fosse bom explicar que as instituições, desde a regulação oferta/procura dos mercados financeiros, passando pelos sistemas de preços, indo à representação parlamentar e passando pelas academias científicas, são sistemas de gritaria codificados. Mesmo quando funcionando no ponto de eficiência máxima, nunca se trata da decisão do maior número mas dos que gritam mais alto. Até a eleição de sua excelência o Presidente da República não foi produzida pelo maior número mas pelos que gritaram mais alto nas urnas (o maior número não vota). Por outro lado, acresce à confusão geral que na falta de um contrato social intra-uterino, todos fomos postos num sistema sem que nos fosse pedida a nossa concordância, pelo que todos os cidadãos da república podem passar a defender uma revisão das instituições, até à ditadura, se for preciso, e que, por isso, convém acordar para o problema da distribuição um pouco antes da confusão estar instalada. Mas não. Sempre que, durante estes últimos dez anos, se referiam assimetrias gritantes relacionadas não apenas com dependências do ponto de partida, mas com erros no funcionamento do sistema institucional, os defensores da realiade, incluindo o Maradona, acenavam com a polícia. Ora, quando a polícia cair na rua, talvez Maradona seja dos primeiros a reivindicar uma ditadura, pelo que ditadura por ditadura, vamos antes à marretada para a rua (não vou sequer argumentar perante tentativas de esvaziamento da realidade, como as que identificam a manifestação da tarde como aquecimento para a "noite" numa coisa chamada Clube Ferroviário, porque, uma vez mais, não será preciso responder a Maradona que a realidade é una, tanto para os benefícios indirectos da divisão do trabalho em Adam Smith, como para a dupla e complexa frequência de actividades tão distantes como a pedrada na cabeça da polícia - à tarde - seguida de bebedeira até ao coma - lá pela noitinha. Com efeito, quando existem bloqueios nos sistemas de gritaria, e se produzem periferias qualificadas com poder de gritaria, não há outra coisa a fazer; os espaços institucionalizados da gritaria começam a sofrer a concorrência de outras formas de gritaria, até que se produza novo equilíbrio geral, e mesmo esse novo equilíbrio traz já dentro das suas ínfimas e múltiplas conexões novas sementes de desiquilíbrio, o que é o mesmo que dizer que vivemos em gritaria constante, numa dependência frágial, mas que nem sempre aqueles que gritam mais alto possuem os altifalantes do sistema. O momento em que os que gritam mais alto estão fora do enquadramento institucional tem sido denominado revolução (mas também pode ser golpe de estado, revolta, ataque terrorista, etc) e a sua aceitação como realidade depende de múltiplos e complexos factores em que o número (ao contrário do que pensam os Pachecos Pereiras desta vida) é apenas uma das variáveis. Simplificando: para todos aqueles que sempre confiaram no número como fundamento da autoridade, avizinham-se tempos de grande angústia, pois a gritaria poderá vir a tomar conta disto, em mais um belo momento de metamorfose do diálogo (como se o diálogo não fosse sempre uma forma dissimulada de gritaria) com espaço para a criação e a originaliade. Resta dizer que toda a minha obra aponta para a importância de dignificar, se for preciso pelo medo e pela pedrada, a multidão, criando nos futuros decisores uma proibição moral em torno de possíveis agressões a essa entidade abstracta «bem comum». Tenho ouvido repetir que nada se resolve na rua. Lamentavelmente, tenho o dever de informar que tudo se tem resolvido na rua. Desde 1645 até 1776. Talvez não seja por acaso que os países africanos não têm manifestações massivas e que a Europa dos séculos XVII e XVIII, onde se forjaram todas as ideias que nos assistem até hoje, tinha como passatempo decapitar reis. Veremos se a ocasião será ou não aproveitada. Em todo o caso, meus caros amigos, é pegar no megafone, cerrar os dentes, e sentir o prazer de estar vivo, porque, para o mal e para o bem, nada dura para sempre.

terça-feira, 8 de março de 2011

Com tanta canção de protesto e foram escolher os Deolinda

Por qué no te callas ?

Leio que a malta que está à rasca armou banzé no jantar do PS em Viseu. E que, passo a citar, "Enquanto os jovens eram expulsos do salão onde decorria o jantar, os participantes gritavam PS." Trocado por míudos, enquanto uns berravam por não ter mama outros chamavam pelam mama que têem.

Este tipo de comportamentos, a copiar os Euro-festivaleiros Homens da Luta, não se pode admitir em democracia. A democracia exige, vão ao dicionário, respeito pelo outro e o entendimento que o diálogo é a única forma de discurso possível. Ora, torna-se difícil dialogar com quem nos está a gritar aos ouvidos de megafone na mão.

Aqui chegados, convêm fazer um esclarecimento. Com a possível excepção do juiz de Aveiro, ninguém neste país tem mais vontade do que eu em chegar a roupa ao pêlo ao nosso primeiro-ministro. Mas para além de conseguir cama e comida durante uns meses em estabelecimento prisional a designar e um breve estrelato no facebook, isso ia resolver exactamente  o quê ?  Os protestos em democracia fazem-se através das urnas. E se o povo é demasiado asinino para escolher correctamente (seja lá o que isso for), então tanto pior para o povo.

A terminar uma nota de humor. Reza a crónica do evento que entregaram aos Sócrates duas máscaras: "Uma delas laranja e a outra rosa, que era para se decidir pela políticas que toma, porque estamos fartos, não só das políticas do PS, como do PSD. Varia sempre entre os mesmos, o país vai de mal a pior e somos nós que sofremos". Lindo, um protesto contra toda a classe política. Portanto vamos governar o país com o voto do público, likes no facebook e número de seguidores no twiter. Para memória futura, convêm lembrar que estes métodos elegeram o Salazar como o maior português de todos os tempos (esta ainda não consigo perceber) ou os Homens da Luta para a Eurovisão. Auspicioso futuro nos é prometido pela democracia directa.

terça-feira, 1 de março de 2011

Uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma

O curioso epi-fenómeno auto-denominado Geração à rasca pretende reunir malta para protestar. Era para ser no fim-de-semana que se avizinha mas como é o de Carnaval ficou para a semana seguinte. No que respeita às prioridades da organização estamos entendidos. Primeiro a folia, depois os problemas.

Um dos objectivos, parece, é uma alegre procissão até ao adro da Assembleia da República para que cada um possa entregar uma folhinha A4 com propostas para a resolução dos problemas que apoquentam a malta. Fantástico. Repito, fantástico. Eu aproveito para pedir, que não custa tal como protestar ao um  fim-de-semana não prolongado, à organização que passe pelo Campo Grande e entregue também as soluções para os problemas da agremiação desportiva que ali tem sede. Basta uma folhinha A5, nada de esforçar as meninges que a malta é jovem.

É tanta parvoíce junta que eu nem sei por onde começar. Talvez pelo início. Quaisquer que sejam as soluções para que isto melhore, uma coisa é certa. Não são de efeito imediato mas sim de médio e longo prazo. No imediato, entenda-se os próximos 10 anitos mais coisa menos coisa, vamos ter uma vida de trampa. Eu sei que isto é complicado de penetrar nas cabecinhas de quem prefere Carnaval a encarar a vida, mas é assim mesmo.

O que me leva ao ponto seguinte, as soluções em formato A4. Gente da minha terra, será que é assim tão difícil de perceber que as escolhas que enfrentamos hoje são difíceis de tomar ? Não se trata de acabar com os recibos verdes (que deviam de ser extintos mas isso é outra história) ou aumentar os salários (que são muito baixos). Ou criar emprego. (que faz falta) O Estado português assumiu compromissos que agora não pode pagar. O povo português fez empréstimos que agora não pode pagar. Ou posto de uma forma que até vocês conseguem entender. Nós e o Estado temos que decidir o que é supérfluo e o que é necessário. E aguentar a bronca que aí vem quando os credores começarem a bater à porta.

Se realmente a mundança é o que se pretende, então actualmente só existe um caminho possível. Entrar num partido, ou formar um novo, e concorrer a eleições. Mais nenhum caminho, incluíndo protestos é válido. Porque o Governo tem a obrigação de velar pelos interesses de todos os cidadãos, não apenas os que conseguem berrar mais alto. É triste, mas é a democracia. Eu suspeito que muitos no próximo dia 12 de Março vão estar a suspirar secretamente por um homem providencial que venha do nada e ponha o país na ordem, fazendo o trabalho que os manifestantes se recusam a fazer. Se é para fazer figuras tristes, vão antes em procissão até ao cemitério de Santa Comba Dão.