segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

João Tordo e a tourada metafísica.

Ando a preparar dois importantes contributos para o esclarecimento da moralidade pública, um sobre problemas de interpretação do estilo no discurso escrito e outro visando uma revisão em alta da zarzuela moral redigida por David Foster Wallace a propósito da indústria pornográfica, e que constitui, quanto a mim, uma triste capitulação da burguesia esclarecida perante a vanguarda proletária da moralidade judaico-cristã, uma coisa, paradoxalmente, muito comum em quase todos os escritores americanos. Entretanto julgo ser meu dever auxiliar os pobres em espírito, sobretudo os que, demonstrando pureza de coração, ou seja, vontade de um discurso crítico, revelam uma total inabilidade para pensar, criticar e expressar essa crítica a propósito desse órgão maligno e multifuncional, a língua, uma serpente falante capaz dos mais variados movimentos.


Interessado em recolher alguns materiais para o estudo do estilo, nomeadamente o tratamento retórico desastroso das relações sexuais em jovens autores portugueses (salvos sejam) encontrámos uma interessante reflexão de João Tordo. Quem é João Tordo? É um escritor entalado entre a técnica do policial e uma olímpica falta de cultura literária, mas é sobretudo um atrapalhado polemista, sendo ao nível da imaginação que revela as mais profundas debilidades, provavelmente por excesso de exposição às nobres disciplinas do pensamento, e passo a explicar. Não vamos proceder a uma análise integral da sua obra pois não seria justo, nem para João Tordo, nem, sobretudo, para mim, uma vez que me obrigaria a uma leitura atenta de todos os seus numerosos livros, vários, vários, produzidos entre os bastidores do guionismo (enxameado de longitudinais pernas e revitalizantes peitos) as fumegantes cozinhas dos restaurantes nova-iorquinos (enxameadas de baratas e indígenas provenientes do terceiro mundo) e os vários cursos de filosofia e escrita-criativa (enxameados de desempregados intelectuais e rebarbadoras especializadas no desbaste de qualquer densidade poética) sem esquecer o domínio, ainda que insipiente, do contrabaixo, tudo isto, meninos e meninas, ainda antes do escritor atingir os 40 anos de idade.

Diz João Tordo:

Leio o Jornal de Letras e deparo-me, a propósito do best-seller José Rodrigues dos Santos, com a cansativa conversa da polarização dos autores. A divisão entre os que "trabalham a linguagem" e os que "contam histórias" é a ideia mais absurda que pode existir em literatura. A literatura é linguagem: ponto final. É forma de contar, é "maneira" de dizer, é a construção de uma voz inequívoca que conta e que diz; aí reside a originalidade de um escritor e a sua arte. Qualquer pessoa pode "contar uma história" - o meu vizinho, o senhor do café, a minha avó que faz hoje anos (a minha avó conta excelentes histórias).

Por acaso, sou capaz de me lembrar de uma mão cheia de ideias absurdas a propósito da literatura, a começar pelo sentido geral do texto de João Tordo. Critica-se a polarização entre o escravizado, malcheiroso, conceito de «trabalho da linguagem» e os tristes, mas ricos, especialistas em contar histórias. Claro que Tordo, baixando a armadura, tenta aqui investir contra a linguagem mais próxima do relato jornalístico, do texto científico ou do relatório policial, precisamente por ser esta a linguagem em que pretende fazer «literatura» e não suportando um macho cobridor com mais capacidade de cobertura.  Por outro lado, todos percebemos onde quer chegar José Rodrigues dos Santos, ao insistir na polarização entre literatura e contadores de histórias. Para o derrotar seria necessário demonstrar (o que temos aqui feito algumas vezes) que, segundo as suas próprias instruções estéticas, dos Santos (o que eu andava mortinho para escrever dos Santos) revela  inabilidade, mesmo como contador de histórias. O problema é que dos Santos, embora um medíocre utilizador da língua portuguesa, e não obstante a inabilidade como contador de histórias, revela um controlo mínimo dos mecanismos dramáticos, do jogo da informação relevante, da capacidade de descrever a oposição entre segurança e perigo, da exploração da ambiguidade implícita nos mecanismos de decisão. E o problema é que a literatura, temos pena caríssimo João Tordo, é também isso. Pode depois ser melhor ou pior literatura, quando se avalia a capacidade de sobrevivência do texto a longo prazo, analisando a imaginação, o rigor das figuras de estilo, a mestria da combinação entre ornamento, ritmo e atratividade dos temas, mas não vamos lá com distinções entre literatura e contadores de histórias. Espera, mas não era exatamente isso que pretendias criticar? Estimado João Tordo, não resolvemos o problema da qualidade e da definição de estilos e dos tipos de produto, cegando em relação à crítica minuciosa do texto. Se dos Santos quer produzir um Lava-tudo e João Tordo quer produzir um Corrosivo para superfícies cromadas, o público terá tudo a ganhar com esse tipo de distinções funcionais entre os respetivos detergentes e terá tudo a perder com mistificações em torno da necessidade de lavar a casa. O que é necessário é testar se o Lava-tudo lava mesmo tudo e se o desengordurante de superfícies cromadas consegue reproduzir o nosso melancólico rosto na tampa das panelas como a face de Narciso na superfície do lago.


João Tordo meteu-se por um atalho, como preguiçoso que é, e perdeu-se. Afirma que qualquer um pode contar histórias: o vizinho, o senhor do café, que pode eventualmente estar envolvido com a mulher do vizinho (e isto seria já um interessante piscar de olhos à literatura, mas segundo Tordo não é, pois não se tratou aqui de qualquer trabalho de linguagem) e a avó do escritor, uma contadora de excelentes histórias. Repare o leitor que aqui, o próprio João Tordo confessa que a avó conta excelentes histórias, em vez da alternativa, ou seja, ser a avó uma excelente contadora de histórias. Quer dizer que se uma história pode ser excelente, mesmo contada pela sua avó (que foi integrada, segundo a teoria dos conjuntos, no grupo dos que não trabalham a linguagem, a saber, o vizinho e o senhor do café) então significa que uma história pode ser excelente sem trabalho de linguagem. Como sair deste labirinto? Ora aí está um bom tema para um livro.


Falta debelar uma difícil questão: o que fazem, segundo João Tordo, os praticantes da literatura? O primeiro contributo para a definição começa por ser, antes de mais, quantitativo, e como o compreendemos, como o compreendemos, neste mundo de escassez monetária:

Por outro lado, são em muito menor número os que sabem (e podem) escrever literariamente.

Isto é verdade, e João Tordo não se encontra entre eles. Depois, assustado com o seu próprio raciocínio, uma vez que José Rodrigues dos Santos se encontra entre os muito poucos que passam os 300 mil exemplares vendidos por livro, João Tordo decide puxar pela sua formação filosófica, pela sua experiência de refugado nas traseiras dos restaurantes nova-iorquinos, sobretudo pela sua distinta capacidade de escrever literariamente. E o que faz? Chama Aristóteles? Não. Chama S. Agostinho, um mestre na manipulação de mamas, vinho verde e problemas de linguagem? Não. Chama Vico e Hume? Não. Dada a nossa reverência à atualidade, chama I.A. Richards ou Northorp Frye? Não. Chama, que porra, ao menos Jacinto do Prado Coelho, ou vá lá, vá lá, David Mourão Ferreira, por razões de amor pátrio? Não, não, três vezes não. João Tordo esmera-se, arregaça as mangas, cerra os dentes, limpa o suor da testa, e chama Miguel Real:


Miguel Real escreve (e bem): "Eis porque a obra de JRS é academicamente mal vista: nada de novo traz à categoria de persoangem, nada de novo traz à categoria de acção, de enredo, de tempo, de forma estética".

E prossegue João Tordo:

Contar uma história não tem nada a ver com literatura: todos o fazemos, todos os dias, a todas as horas. "Contar bem" uma história, como reivindica JRS, continua (sic) não tem nada a ver com literatura. Qualquer filme menor americano conta razoavelmente bem uma história. A literatura não pode ser polarizada desta maneira porque acontece-lhe uma coisa curiosa: deixa de o ser.

Calma, vamos todos tentar manter a calma, pois estamos numa situação perigosa. Vou começar por estimular, muito devagarinho, apenas um dos meus neurónios. Não vou perguntar sobre o que traz de novo à categoria de personagem, à categoria de acção, de enredo, de tempo, de forma estética a obra de João Tordo, de Miguel Real, de Patrícia Reis, de José Luís Peixoto, de João Pedro Ricardo António João Manuel Francisco, ou de qualquer outro dos mastodontes agraciados, recentemente, com o favor das academias, pois não seria justo nem para o leitor, nem para mim, nem para os pandas selvagens. Mas gostaria de perguntar qual a relação entre a escassez literária e a abundância do que fazemos, a todos os dias e a todas as horas, pois o texto de João Tordo não parece esclarecer esta fascinante questão, e os meus leitores, habituados à colocação destes problemas, gostariam de ouvir aqui uma explicação de João Tordo, digamos, mais manejável. Também gostaríamos de ver respondida a questão sobre a mecânica responsável por fazer com que a literatura, quando polarizada entre trabalho da linguagem e contar histórias, deixe de o ser, pois não foi ainda explicado, mas temos esperança, temos esperança. Bem, se a literatura deixa de o ser quando se processa esta polarização, eu diria que, nesse caso, é intensificar essa polarização para que o que não é literatura deixe de tentar convencer-nos de que o é. Mas este raciocínio prende-se mais com a sociologia da edição e do jornalismos literário, que Tordo parece defender e sobre o qual não diz uma palavra (lembre-se que, saindo da Leya, só faltou lamber o rabinho empresarial do Grupo, não vá o diabo tecê-las) do que com o exercício da crítica literária consistente, que não vemos João Tordo ter coragem de sequer esboçar na suas muitas oportunidades para aceder aos meios de comunicação. Vai uma parceria Tordo? Não garanto é que não saias maltratado.

Trabalhar a linguagem é o dever de qualquer escritor - ou, pelo menos, o de qualquer escritor cuja existência e essência se confundam, isto é, aquele que procura, com os livros que escreve, abrir uma brecha no muro de pedra em que a realidade se constitui; essa linguagem - ou essa voz, ou essa forma - constituem, por si só, a história de um livro. Isto é: um romance é a forma de contar um romance; a voz que se constrói com as palavras. E esta polarização do absurdo é muito cansativa.

Peço ao leitor para colocar a máscara de gás pois entramos em terra de ninguém, a visibilidade é muito reduzida e há diverso material explosivo a sulcar velozmente os céus com um silvo ameaçador, para não mencionar o estrondo ensurdecedor dos grandes sistemas metafísicos em ruínas. A fusão entre existência e essência julgo ser aqui uma referência subterrânea aos dotes culinários da avó de João Tordo (parabéns atrasados) pois as reduções de vinho do porto, não só têm tendência para queimar com facilidade como produzem estados inebriantes capazes de sugerir as mais diversas cambalhotas da mente, sobretudo no que respeita aos objetivos da escrita. Quanto ao escritor que escreve livros resta-lhe abraçar a construção civil, munido com a sua maceta e ponteiro (que o meu pai, apesar de eletricista, manejava com algum brilhantismo) e abrir «uma brecha no muro de pedra» em que a realidade se constitui, aproveitando os intervalos em que a mesma realidade se distrai, esquecendo que o escritor também faz parte do muro de pedra que ambos, escritor e realidade, constituem. Estamos confusos, isso é certo, e não nos apetece nada ir trabalhar para as obras e abrir brechas em muros de pedra, preferimos escrever, pois no que respeita a muros de pedra da realidade, eu diria que os acabamentos manhosos e o reboco estalado são normalmente da responsabilidade do escritor, enquanto não anda a tergiversar sobre problemas que não consegue compreender ou interpretar devidamente.

Tordo, Tordo, bem vejo que pretendes fechar o campo do que é literário e do que não é, mas esse é um trabalho só ao alcance dos predestinados, e leva uma vida inteira a fazer, e só a obra o confirma definitivamente, e depois da morte, sobretudo, pois o efeito catalisador do tempo é o juiz mais poderoso nestes labirínticos processos, pelo que te resta, para não fazeres figura de urso, desenhar raciocínios mais elegantes e informados. Sugestão prática: ler crítica literária (ver bibliografia recomendada neste blogue) e frequentar menos cursos de escrita criativa e encontros com leitores.


domingo, 26 de janeiro de 2014

Aviso à navegação, este vai ser um post lamechas.

Por virtudes dos tempos, estamos sempre ligados. É ve-los no facebook aqui na sala de espera. O twitter não me larga com bips (Alf larga aquela merda). Nestes últimos dias não tenho dormido. O meu filho adoeceu. O suficiente para nos deixar a pensar.  É difícil a vida. Atendendo às dificuldades. O raciocínio que já falta. O sono que suspira por melhores dias. Os filhos que fazem parte de nós. Extensões de mim para o mundo. E sinto-o a respirar aqui ao meu lado e sonho com um mundo melhor para ele. Estamos a ficar mais parvos com tanta rede social, mas nunca se soube tanto e tão rápido. Vocês, que nunca vi, mas que sabem de mim por aqui. Não sei para onde vamos e o que vai ser lá à frente no tempo. Tudo é relativo dependendo do referencial. O que sei é que amanhã é um novo dia e esta é mais uma noite. Vou voltar agora ao verdadeiramente  importante. E deixar-me disto. O silêncio sempre foi meu amigo.

Santa procrastinação.

Tenho tanta coisa que já devia estar feita há semanas, mas.... o espírito é forte, a carne é fraca. E descobrir bandas de metal no Youtube é bem melhor que ser um adulto responsável.

Um tipo começa no mainstream


 
escorrega, está no rap


e quando se levanta, dá por ele em Jaipur


sábado, 25 de janeiro de 2014

A linguagem C como suporte interpretativo para a compreensão do mundo


Este texto do alf levanta um ponto importante, e realmente a máquina (entenda-se as redes digitais e os recursos computacionais que lhe estão agarrados) pode ajudar os escritores a ter um pouco mais de dignidade profissional. E não é só no sucesso de um livro que a máquina pode ajudar, no amor  também. Aos mais deslumbrados com as maravilhas da técnica, não esqueçam que na origem estão humanos, a máquina está lá só para ajudar.

Mas o texto espicaçou-me o espírito. Como seria um mundo em que a literatura (entenda-se a palavra escrita nas suas variadas formas) tem um suporte predominantemente digital ? Um mundo em que quase toda a gente lê através de um leitor digital tipo Kindle ou Nook. Como seria este mundo ?

Caveat emptor: o que se segue é pura especulação, em que se olha para o passado da música e do software para se tentar prever o futuro da literatura.

Num mundo em que a literatura é consumida em formato digital, quase tudo quanto é livreiro, gráfica ou editora estão fechadas. Os custos de reprodução, distribuição e armazenamento praticamente não existem quando o produto está no formato digital e ocupa muito pouco espaço.

Em vez de livrarias, existem repositórios digitais onde qualquer autor pode submeter a sua obra. Por regra, os repositórios contêm pequenos textos (contos, poemas) gratuitos. A maioria tem publicidade entremeada entre os parágrafos, lá colocada pelos repositórios e totalmente fora do controlo dos autores. As receitas de publicidade revertem a favor dos repositórios. Os problemas da visibilidade do autor mantêm-se, apenas a edição e distribuição se tornam mais fáceis.

Nos repositórios também se encontram textos pagos mas a um preço bastante baixo, tipicamente um euro ou menos. A ideia é jogar com a lei dos números e vender em quantidade. Por exemplo, só o mercado para literatura em português tem cerca de 250 milhões de potenciais clientes. Apesar de alguns casos de sucesso, a maioria dos autores ganha tostões com os repositórios.


Aumenta número de revistas gratuitas, compostas por selecções de textos publicados num dado repositório. Apenas uma meia-dúzia de revistas atinge a notoriedade, promovendo uma competição feroz entre os autores para lá publicar. Com o tempo, a especificidade humana vem ao cimo e isto ou isto tornam-se a regra. Os editores das revistas são os únicos a serem pagos, os autores não recebem um chavo pelo seu trabalho.

A maioria dos autores tem um emprego estável, e publicam nas revistas apenas com o objectivo de aumentarem a sua visibilidade e o seu status laboral. Os jovens autores começam na universidade a publicar gratuitamente para abrilhantar o currículo.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Perdoa-lhes porque não sabem o que fazem.


mais aqui.

Mundo editorial não resiste aos ataques de alf e enlouquece subitamente.

Aqui, e aqui, onde aprendemos sobre a importância do «catálogo», do rosto, do input criativo, da energia mutante, eu sei lá. Questões financeiras é que nada, não se sabe, é segredo, é tabu, é proibido, o dinheiro conspurca, derrete a imaginação, corrompe os espíritos.

Com o devido conjunto de bandas sonoras nº 1, nº2, nº3 e nº4. Mas sobretudo esta e esta. Esta também é fundamental. Ou talvez esta.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Quando a máquina de fazer escritores enfrenta a máquina de fazer dinheiro.

As mina pira, ô ô
As mina pira, ah ah
Se fizé gostoso aí as mina vem pra cima


Este texto pede ao leitor a paciência do santo e a curiosidade do gato mas garanto aos bravos persistentes que no final se sentirão muito melhores pessoas, além de um claro rejuvenescimento da pele e descontos nos postos de abastecimento de combustível da Galp. Vou começar pela interpretação poética da epígrafe dos dois autores sertanejos, Ronny & Rangel. Os homens, como todos os organismos conscientes e dotados de memória, fazem geralmente uma representação interna dos problemas, e à cabeça de todos, representam sempre muito mal o decisivo problema da apropriação locomovida da beleza, ao qual foi anexado um mecanismo de reprodução, cuja lógica interna permanece em grande parte inacessível. Neste caso, calcula-se que perante a espora do desejo (presa numa bota cujo dono desconhecemos) o homem faz a singela previsão de que as meninas terão que ficar doidas para se poderem atingir alguns resultados, o que é desde logo duvidoso, e característico de uma sociedade, a brasileira, amanhada numa caldeirada de indígenas, africanos, aristocratas bovinos, belas italianas e voluptuosas germânicas, e catolicismos made in Portugal, mas adiante. Assumindo as premissas, é necessário fazer gostoso, ou seja, fazer de acordo com as intenções das meninas. Como isto é tão difícil como convencer Jorge Jesus de que não se vencem campeonatos com dois pontas de lança,  os homens são obrigados a esboçar uma ideia geral do que as mulheres consideram gostoso (os autores da epígrafe, «as minas pira», atiram-se ao dinheiro, o mais eficaz e flexível caminho para a satisfação de todos os desejos). Considera-se que perante a ação gostosa, facilitada pela disponibilidade de meios de pagamento, as mulheres virão para cima. Não desenvolverei os inúmeros perigos desta estratégia (e são muitos, são muitos) mas interessa-nos o que revela sobre o mercado editorial.

 
Partimos do princípio de que a intermediação do editor, garante ao processo de seleção de um texto, o atingir de um resultado gostoso. Como? O especialista sabe o que as meninas e os meninos gostam, e avançando com o dinheiro, garante o cumprimento de todas as tarefas mecânicas, incluindo os difíceis fretes da negociação com os meios de comunicação de massas, tal como o processo de elaboração física do livro. O pobre autor, à semelhança do macaco sovado pelo chefe do grupo, com os seus 10% debaixo do braço, vai lamber as suas feridas, satisfeito com a sua condição de pessoa de sucesso com franco acesso aos meios de comunicação, e um magrinho rendimento que o obriga a aceitar toda a espécie de tolices, incluindo cursos de escrita criativa. Não quero ser injusto. Sendo a edição uma decisão progressiva, em articulação com o esgotamento do stock nas diferentes livrarias, e uma leitura dos resultados das vendas, o editor pode ir alocando os recursos aos que mais vendem. Deste modo, estamos mais ou menos de acordo em relação à justiça do jogo competitivo entre os autores publicados, sobretudo em editoras de escala semelhante e com recursos para aceder ao mercado semelhantes (embora isto coloque desde logo petroleiros de problemas ao conceito de igualdade das condições de partida num mercado, e estou a pensar na esfíngica questão de saber se os resultados dependem realmente do mérito do livro ou de um outro qualquer fator crítico). Admitamos, em suma, que o mercado revela, com efeito, preferências reais de consumo. A questão crítica do sistema económico é outra, ou seja, os custos da matéria prima, os incentivos para diversificar a qualidade da produção de livros, e penso nos milhares de manuscritos inéditos, nunca publicados ou incentivados, e entre os quais poderão ter morrido incontáveis génios, mártires da racionalidade altamente limitada do sistema. A simples existência da rede digital não resolve o problema pois nada nos diz sobre a reputação. Para ultrapassar as editoras não basta automatizar o acesso ao texto, é preciso automatizar, em parte, a crítica. Aqui colocam-se dois bicudos problemas.


Por um lado, acreditamos que o escritor de mérito acaba por encontrar o seu editor. Nada mais falso, pois o falhanço das condições favoráveis podem levar o génio artístico às mais diversas práticas, desde a heterossexualidade à homossexualidade, passando pela criação de impérios do calçado, blogues de moda, comentário desportivo e incluindo a liderança política de grandes partidos do arco da governação. Podemos sempre dizer: temos pena. Mas neste caso, abstenham-se de falar no mercado como um elemento de justiça ou do seu serviço, nas condições atuais, à arte da escrita e ao livro. Por outro lado, as falhas de informação no processo tradicional de escolha dos autores, fazem com que os grandes editores persigam, com os seus afiados dentes, reduzir os altíssimos custos de varrer o conjunto dos potenciais manuscritos (imaginem as centenas de milhares, só em Portugal, que todos os dias enviam material inédito, algum, calculo eu, dolorosamente mau). Nada nos diz que isto tenha de ser assim. No entanto, perante a lógica de decisão instalada nas grandes editoras, os custos de análise dos candidatos (sempre a crescer com a democratização da escola) pressionam o processo de decisão e os editores atiram-se para a frente, quer pela capitulação diante de um cálculo apressado sobre o que o público gosta (sexo, espionagem, inquéritos policiais, conspirações, sentimentalismo) quer pelo recurso à visibilidade, a tão famigerada e aqui comentada plataforma (lunática) do autor. Daí a crescente solicitação a pessoas com personalidade pública firmada (na rádio, na televisão, nos jornais) para abraçarem o mundo das letras. Sem a devida crítica no processo de decisão, os editores tentam depois racionalizar as escolhas, uma das atividades cómico-trágicas a que me costumo entregar quando quero dar boas gargalhadas. Posto o processo em movimento, é difícil tirar conclusões claras sobre os fatores críticos mas não é preciso estar ao nível de Jorge Jesus para se perceber que estamos diante de um claríssimo confronto entre o conceito clássico do mercado, tendencialmente destruidor das grandes empresas (gerador de competição e de pressão sobre os efeitos de monopólio) e os esforços dessas mesmas grandes empresas para controlar a disrupção do mercado, e proteger o interesse e os lucros dos seus membros perante outros possíveis interesses presentes no comportamento dinâmico dos consumidores. Sabemos que a relação entre a escala das empresas e as dinâmicas do mercado é um dos mais difíceis temas da economia clássica mas a alternativa é continuar a galhofar perante a ideia de esgravatar, da lama, uns míseros 10% de um trabalho tão digno como qualquer outro. Não contem comigo para enriquecer o Pais do Amaral.


Uma das mais estimulantes atividades a que se pode entregar um ser humano, além da masturbação, é o sistemático combate às ressurreições inesperadas do mais arcaico e resiliente raciocínio explicativo de que há memória nos anais da evolução, ou seja, a ideia de que o indivíduo é inteiramente impotente (ui) perante o movimento da espécie.  Como corolário, vemos permanentemente ressuscitar a ideia de que a natureza encerra uma sabedoria de projeto capaz de garantir a sobrevivência dos humanos, projeto esse inacessível à racionalidade consciente de uma pessoa, ou de um pequeno grupo, ou de uma associação organizada entre todas as pessoas de modo a levar a cabo um processo de decisão. Vulgarmente, chamava-se a isto política, mas caiu em descrédito, precisamente depois das grandes ideias filosófico-científicas do século XVIII. Há também quem diga que foi a explosão tecnológica. Vamos devagarinho para que ninguém se aleije.


Para utilizar uma alegoria mitológica, quanto mais se brande a espada para decepar as mil cabeças desta hidra, mais outras mil nascem em lugar de cada uma das cabeças decepadas. Com efeito, para que uma falácia mil vezes repetida não se transforme num mistério da fé, é necessário vigilância, esforço e falsificação de hipóteses. Ao indivíduo só lhe resta uma racionalidade limitada para vencer os problemas na adaptação a um meio, por vezes hostil, e a relação entre nós, pessoas de bem, oscilará sempre entre cooperação e competição. Podemos fazê-lo à bruta, se continuarmos a esgalhar o pessegueiro da realidade, ou podemos pensar e criticar, de preferência num debate vivo e violentamente participado, sem respeito por qualquer forma de autoridade a não ser a lógica. Sabemos que o «mercado» foi um momento de fulgurante iluminação em que os filósofos de cabeleira e meias de seda avançaram mais um pouco na elegância da nossa adaptação a um ambiente, na época maioritariamente orgânico, mas temos estado de tal forma satisfeitos connosco mesmos que desde então temos assumido a postura do indígena dormitando à sombra da bananeira e continuamos a aplicar as mesmas soluções ao ambiente altamente artificial do século XXI. O problema é que uma visão superficial, e acrítica, do mercado, nada nos diz sobre os mecanismos que no próprio mercado reduzem o leque de escolhas dos consumidores e não estou a falar de teorias da conspiração. Utilizarei o próprio raciocínio da microeconomia clássica.

Desde o século XVI, os altos custos necessários para se imprimir um livro ofereceram às editoras um papel preponderante. O iluminismo setecentista é em parte o resultado do triunfo social deste mecanismo. Mais livros e mais baratos, e melhor eficácia na distribuição dos incentivos para escrever geraram qualidade e quantidade de informação, lançando sobre a crosta terrestre uma fantástica multidão de ferramentas. O livro apresentava maior proteção relativamente à replicação, rápida e a baixo custo, da informação, fortalecendo a produção de textos, e criando uma base económica para a comunicação entre as pessoas. Mas este sistema tinha limites, e esses limites foram estilhaçados pela escolarização do pós-guerra, no século XX, e sobretudo pela invenção do computador. 


O mundo digital facultou instrumentos de comunicação e facilidade de expressão, numa escala sem precedentes. O limite de textos que um leitor conseguia assimilar, ou a informação que um escritor podia produzir num dia, tinham uma aplicação direta no papel que a edição convencional (a escolha por um especialista amarrado pelo cálculo de risco) assumia na distribuição das oportunidades para escrever. E o preço a que a informação chegava ao leitor também limitava a possibilidade deste estar em contato com os textos de vários autores. Se estiverem sentados na vossa cadeira, posso afirmar uma novidade explosiva: neste momento, as editoras são o problema e não a solução. Os grandes grupos económicos com interesses na área da edição desunham-se para apertar a violência sobre direitos de copyright precisamente para travar a democratização económica, mais eficiente, do conhecimento.  Há toneladas de gordura nas editoras, e a solução passa necessariamente por organizações mais pequenas e mais eficientes, com menor taxa de lucro, e com maior remuneração dos autores, se quisermos utilizar o mercado para gerar mais competição, maior diversidade de produção de livros e uma posição económica mais estável no que respeita aos escritores, que são, em geral, filosófico-politco-económico e às vezes literariamente, tão burros como uma porta. Vendem a alma ao diabo por não acreditarem, nem durante três segundos, na força do que têm para dizer, entrando, como o burro engalanado, para esta vergonhosa procissão. Curiosamente, o único texto, em português, a que tive acesso, sobre a posição dos escritores nesta matéria, dirige o seu ataque aos autores que escrevem textos grátis (recuando medrosamente diante dos 10% pagos, em geral, pelas editoras) incapaz, compreensivelmente, de morder a mão de onde lhe chegam as migalhas. Não compreendeu o autor, apesar de economista, e pobre aliado do sistema editorial cada vez mais concentrado, que todos os autores, praticantes dos textos grátis, estão precisamente a incorrer num custo para furar a muralha de estrangulamento comunicacional montada pelos gigantes da edição.


Na verdade, o festival conceptual que dá pelo nome de mercado, quando aplicado à literatura, tem demonstrado à saciedade um volume infinito de confusões e deslocações estratégicas de teorias, pelo que, previsivelmente, os cientistas da computação resolveram desferir uma autêntico tiro de canhão contra a muralha das coisa serem o que são. Ora, um par de chinesas mais um nórdic@ resolveram cometer suicídio lógico e amandaram-se (grande palavra) à resolução destas dificuldades, e embora tenham falhado com estrondo, forneceram algumas contribuições importantes para a consideração do mais complexo problema do mundo, e começaram pelo que tem de ser, isto é, o sentido da linguagem. Peço a vossa indulgência para um citação em inglês:

Predicting the success of literary works is a curious question among publishers and aspiring writers alike. We examine the quantitative connection, if any, between writing style and successful literature. Based on novels over several different genres, we probe the predictive power of statistical stylometry in discriminating successful literary works, and identify characteristic stylistic elements that are more prominent in successful writings.


Traduzo o explosivo resumo das conclusões:

O estudo garante existirem elementos estilísticos comuns às obras de sucesso, pelo menos no âmbito do género literário, permitindo construir um modelo com surpreendentemente elevada capacidade de previsão (84%) do sucesso literário.


Isto não passa de autoilusão, como é evidente, mas veremos como as conclusões podem ser tremendas. A complexidade do problema dinamita, como é evidente, qualquer modelo estatístico de previsão do sucesso de obras literárias. A previsão aplicada a problemas desta natureza é o mesmo que tentar marrar em comboios (onde é que já ouvi isto?). O desconhecimento olímpico da semiótica e mesmo da literatura, sobre temas de linguagem e sentido, da autoria de cientistas da computação, revela alguma superficialidade na falsificação dos dados nos quais se baseia o estudo. É preciso estar um pouco cansado (pode ter sido o caso) para não identificar a gigantesca falácia implícita no estudo: a sistematização de características associadas aos melhores livros já filtrados pelo tempo, aponta, como é evidente, para confirmações do que o passado considerou como um sucesso literário. O que é muito diferente (pesar dos dados recolhidos começarem em Homero) de saber se essa estrutura de gosto, e a própria resiliência dos textos, se manterão, e se o sucesso não foi antes determinado por contextos institucionais (Universidades, Televisão e até as história editorial das próprias obras) tornando muito difícil extrair conclusões do conteúdo semiótico do texto. Para citar o exemplo mais elegante e espirituoso, Umberto Eco escreveu milhares de páginas sobre isto, e em momento oportuno voltaremos à interessante análise, apresentada no estudo, em torno de uma sistematização do «estilo de sucesso» a muito longo prazo.


Em todo o caso, este tipo de instrumentos merecem o nosso aplauso, pois expõem, de uma forma clara, o calcanhar de Aquiles do sistema editorial, isto é, o pouco investimento na procura da qualidade textual dos autores, ou seja, autores capazes de agarrar o público pela abrangência temática, versatilidade semântica, pertinência dos enredos, domínio do estilo e intensidade retórica dos textos. As editoras preferem incorrer em custos para controlar a informação, aliando-se aos meios de comunicação de massas, capazes de reduzir o risco da edição de um autor escolhido de forma semi-aleatória. Ora, este algoritmo, trabalhado pelas investigadoras da computação, poderia sintetizar o trabalho humano dos júris de concursos e dos esforçados editores (lançando ambos no desemprego e prestando assim ao país um serviço inestimável) convidando a um investimento desses recursos na edição de mais livros e no financiamento de mais autores. Não fujamos às dificuldades.


É certo que as editoras se desculpam com a sustentabilidade e por isso teremos de ser nós, pessoas de bem, a dinamitar a sua posição. Por um lado, a identificação de modelos rígidos e invariáveis poderia obrigar as editoras a descartar (ou pelo menos refrear) o elemento humano na decisão editorial, fornecendo maior competitividade, se reduzidas as distorções, sempre inevitáveis, das limitações humanas na escolha de potenciais escritores, e deixando aos consumidores uma maior parte dessa tarefa, pela convencional análise das vendas. Do mesmo modo, ao eliminar a excessiva interferência de intermediários no processo de escolha, e lembre-se que esta interferência se dá atualmente sem informação de qualidade, os autores receberiam, pelo preço de alguma preocupação com o aspeto mais comercial do processo (elaboração física e distribuição do livro) muito mais liberdade para jogarem o jogo das preferências do público, reduzindo as máquinas de produção de imagem dos escritores (propaganda). Na verdade, chega a ser embaraçoso, se não  ridículo, que os escritores se entreguem constantemente à autopromoção, e banalidades orais sobre tudo o que mexe, quando deviam sobretudo escrever textos. Ou seja, uma análise computacional transferiria a decisão, sobre os incentivos para escrever, mais diretamente para os consumidores, garantindo ao autor a marca de uma qualidade prévia (ainda que limitada, eu sei, eu sei, pelos critérios de sucesso do algoritmo) e oferecendo-lhe muito maior legitimidade junto do público. Em suma, seriam poupados avultados recursos despendidos com especialistas em edição, aprofundado a inteligência artificial do mercado. 

Duas consequências lógicas: os escritores, devido à maior rapidez e universalidade deste algoritmo para analisar os seus manuscritos, correriam a tentar um selo de garantia. Esquecendo agora as injustiças, que também existem (e talvez em maior quantidade) no modelo humano, isso geraria uma independência brutal do escritor, equivalente ao crescimento do seu poder e legitimidade para se autopublicar e não ficar apenas com 10%. Sem um algoritmo deste género, ou mais afinado, a publicação digital não representa uma solução ótima pois, no mar de informação, irá colocar nas mãos de um gigante editorial qualquer, a faca, o queijo e a broa de Avintes. A outra consequência lógica seria a tentativa de grande parte dos escritores para adequarem os seus textos ao algoritmo, de forma a passar, com boa nota, na máquina, o que abriria, por certo, uma oportunidade para massificar a verdadeira literatura popular, pois as pessoas, em critérios de exigência estética, obedecem melhor às máquinas do que a pobres autores e críticos como eu. Claro que teríamos que submeter-nos a uma máquina e não à Maria do Rosário Pedreira mas não estou certo de que: a) a segunda seja mais inteligente do que a primeira; b) a substituição seja necessariamente má.

Como eu sei que ninguém me leva a sério, chamo a testemunha nº 1 do processo, o senhor Italo Calvino:

«Neste sentido, mesmo confiada à máquina, a literatura continuará a ser um lugar privilegiado da consciência humana, uma explicitação de potencialidades contidas num sistema de signos de todas as sociedades e de todas as épocas: a obra continuará a nascer, a ser julgada, a ser destruída ou continuamente renovada pelo contacto do olho que a lê; o que desaparecerá será a figura do autor, esta personagem a quem se continua a atribuir funções que não lhe competem, o autor como expositor da sua própria alma na exposição permanente das almas, o autor como utente de órgãos sensoriais e interpretativos mais perspicazes do que a média, o autor, essa personagem anacrónica, portadora de mensagens, diretor de consciências, orador de conferências nas sociedades culturais. (...) Desapareça então o autor - este enfant gâté da ignorância -, para deixar o seu lugar a um homem mais consciente, que saiba que o autor é uma máquina e saiba como esta máquina funciona»."Cibernética e Fantasmas"

No fundo, estaremos apenas a afinar o problema de um sistema económico que sustenta a relação complexa entre a capacidade de análise de manuscritos e automatização de um juízo crítico. A extraordinária importância de incorporar uma máquina no processo prende-se com a capacidade de analisar milhares e milhares de manuscritos, minimizando as limitações de tempo e de memória do editor. Claro que o modelo dotará o processo de rigidez, mas eu pergunto se o modelo humano atual, baseado, por vezes, na total aleatoriedade, de gosto, de cálculo de probabilidades de lucro, e no peso da televisão, dos jornais e das rádios, serve melhor a consciência artística, o público e os candidatos a um rendimento na produção de textos? Claro que isto não é simpático nem para os autores comprometidos com este jogo arcaico e ultrapassado pelos computadores, nem para todos os que, na televisão, nos jornais, nas rádios, nas editoras, gravitam em torno do trabalho do autor. O problema é que o sistema está a matar a dignidade de uma atividade crítica, individual e coletiva, e é tempo de o amor à literatura, à leitura, à lógica e ao raciocínio, e à arte da escrita, desempenharem um certo papel na economia contemporânea. Estamos quase a ponto de poder dar um murro na mesa e dizer com Manuel José, treinador em terras do Egipto, e poeta popular: «ou há moralidade ou comem todos».
Julgo que o importante é continuar a questionar as limitações do atual modelo, antes de começar a vociferar contra as máquinas. Afinal de contas, não sabemos bem que espécie de máquina somos nós.
 

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Intervalo neo-clássico.

Só podemos inclinar a cabeça, quando a eloquência faz uma aparição, pela boca de um homem com a quarta classe, num país colonizado por deselegantes, histéricos e humoristas engraçados pagos pelas mesmas instituições que estrangulam o país. Ainda não percebemos que, muitas vezes, a oratória é uma arma bastante mais eficaz do que a comédia.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O «Não darei mais fôlego às trombetas» não resultou: segue-se, por isso, um contra-ataque venenoso, económico-filosófico, ou seja, tal como os gregos, diante das gloriosas muralhas de Tróia, iremos derrotar o adversário no seu próprio território.

O ruidoso momento que estamos a atravessar inaugura uma época ideal para falar e publicar o menos possível e tentar compreender melhor como são as coisas*.


Italo Calvino, «Não darei mais fôlego às trombetas», 9 de Abril de 1965, numa carta a Armando Vitelli recusando participar numa mesa redonda, com o espantoso tema, requiem pelo romance, com a participação de Moravia (ui), Pasolini (ui, ui), Arbasini (?), Sanguineti (ai, ui) e Leoneti (???).


*no espetacular português de José Colaço Barreiros, uma pessoa a quem muito devemos e a quem os jornais e as revistas literárias não costumam fazer referência.

Ao nosso novo amigo, Joel, deixo-lhe uma dica que resume aquele texto dele


como o alf disse. mais porno e menos tolentino.

Terceiro e derradeiro post sobre irrelevâncias - em que se faz referência a uma eventual necessidade de se repensar o sistema de incentivos na economia da edição.

Foram aqui lançadas várias acusações em virtude do manifesto desperdício de tempo (esse mítico recurso do século XXI) levado a cabo pela minha pessoa, quando decidi envolver-me em lutas de lama com espécimes do mais irrelevante tipo nesta nossa ecologia mediática. Permitam-me, para efeitos de justificação, citar a famosa afirmação de Thomas Kempis, esse excelso imitador de Cristo «Toda a perfeição, nesta vida, é mesclada de alguma imperfeição, e todas as nossas luzes são misturadas de sombras.» 

Julgava ser ponto assente a vocação temerária e ensandecida deste blogue. Quem melhor colocou a coisa foi Vicent Poursan, permitam-me os restantes leitores e comentadores uma curta citação de um dos nossos mais antigos e eruditos leitores:

O que se sabe (sobre alf) em concreto é a sua contumaz queda pra marrar com comboios que, até hoje, teimam em passar no ramal do lado.


É isto, é isto. Marremos por isso mais uma vez no comboio, independentemente do ramal, bem sabemos que não sou um fanático da eficácia. A minha religião é o estilo. Parece-me que estou justificado e, por isso, em condições de prosseguir com a última peça desta Trilogia dedicada ao nosso triste e irrelevante mundo.

Ora, neste caso, o estilo também passa pelo estilhaçamento dos diferentes bastiões da muralha. Claro que existem bastiões mais robustos e pontiagudos do que outros. Escolhemos um: Joel Neto, e o seu romance, Os sítios sem resposta, Porto Editora. Bem sei, não é propriamente uma fortaleza inexpugnável, mas, caros amigos, não devemos negligenciar as forças do inimigo, a muralha é forte, quase indestrutível, a saber: uma consideração impensada, irrefletida, bolsada pelos vencedores do nosso sistema de comunicação, que insistem em tirar partido da miséria alheia e da concentração de poder, económico e informativo, para traçar sobre as costas do povo vergado, os mais sabujos negócios, sem pinga de consideração pela elegância ou pela qualidade dos produtos que pretendem comercializar, para não falar do profundo desprezo pela beleza e pela obra dos santos autores que os precederam. Dizia Fernando António Nogueira Pessoa: quando um tipo escreve tem que se notar que existiu Homero. Simples, barato, não dá  milhões. Vem isto a propósito de Joel Neto, de quem muito se espera.



«A grande afirmação do autor como romancista.»
JORNAL DE LETRAS

«Um romance fluido e sem pontas soltas.»
LER 

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TIME OUT
 
«Melancólico e comovente.»
DIÁRIO DE NOTÍCIAS



As editoras do grupo Bertrand (Bertrand, Quetzal, Pergaminho, Temas e Debates, Arte Plural, Contraponto, GestãoPlus, 11/17), bem como o Círculo de Leitores, a Distribuidora de Livros Bertrand e a cadeia de livrarias Bertrand passam, a partir de hoje, a estar formalmente integradas no Grupo Porto Editora, abandonando o DirectGroup, uma divisão de negócios da multinacional Bertelsmann.Segundo jornais de ontem, «o volume de negócios do GPE em 2009 foi de 95 milhões de euros, prevendo-se que, com a entrada da Bertrand e do Círculo de Leitores, a faturação de 2010 se situe nos 150 milhões de euros». A revista LER é publicada pela Fundação Círculo de Leitores.


Não podemos iniciar esta pequena crónica sem mencionar algumas opiniões tipo, a propósito da publicação do livro de Joel Neto, Os Sítios sem resposta. Penso aqui, sobretudo, na firme opinião do atleta intelectual, génio ilimitado, praticante da perspicácia felina e dos mais arriscados domínios da sageza guerreira, destemido e pioneiro, o ínclito, o visionário, Pedro Boucherie Mendes, funcionário do Grupo Impresa, Boucherie Mendes que a 4 de Abril de 2012 já tinha, note-se, com admiração e espanto, lido umas dezenas de livros. Diz-nos Boucheirie Mendes a propósito do livro Os sítios sem resposta:

«Um tour de force. O melhor livro que li este ano (e já li umas dezenas). Magnífico, com tudo no sítio e a demonstração que é possível escrever em português de Portugal como os brasileiros descobriram há muito ser possível com o português deles
Pedro Boucherie Mendes (4-4-12)


Decidimos então averiguar essa maravilha literária e fomos em busca do livro, encontrando, no blogue do autor, várias informações jornalísticas e uma pré-publicação. Decidimos escrever uma carta.


Caríssimo Joel Neto, cronista do Diário de Notícias e de O Jogo (grupo Controlinveste, com participação do genro altamente patrocinado pelo Presidente da República, e o respetivo e respeitável carcanhol angolano) parabéns pela publicação do teu livro de que só agora, infelizmente, tive auspiciosa notícia. Mal eu sabia que tendo tu regressado aos Açores, já preparavas um outro romance sobre as vivências rurais. Desculpa, não entendas isto como uma quezília pessoal Benfica-Sporting, um tema caro às tuas preocupações literárias, mas temos de partilhar a tua obra com os nossos leitores (não somos esquisitos, frequentamos todas as esquinas, temos esperança no ser humano) até por que nos vídeos de divulgação da tua obra, Os sítios sem resposta, tu pareces um padre, e confessas mesmo, sem pudor, ter adaptado um verso do Poeta e Padre, Tolentino Mendonça, como título do teu livro. Isto merece reflexão mais demorada.

Repara bem, tu desperdiçaste uns infinitos sete minutos e vinte e quatro segundos de uma entrevista com uma estimulante e fresquíssima gordinha, de fabuloso semblante (no sentido de propensa a fábulas, pela carnação e cores rosadas) e cheia de vida, numa palavra, uma bela e voluptuosa rapariga, lembrando as lavadeiras que debruavam os tanques das nossas aldeias (quando o sol rodopiava em fogo e as pastorinhas analfabetas e febris sonhavam com virgens do mundo antigo, pairando sobre nuvens de ouro entre frondosas azinheiras) e que entre os intervalos da lavagem, conversavam, entre risinhos e grandes calores, com um morgado de botas altas e cavalo russo, que a dado momento, se tornava circunspeto e as tentava convidar para umas cambalhotas furtivas entre os lírios do campo.

Contudo, Joel, diante da lavadeira, tu mantiveste uma postura de confessor. Bem sei que a televisão é um sítio público, e os segredos da sedução obrigam a manejar um sem número de instrumentos perigosos de exibir em público, mas caramba, nem um sorriso maroto (só gargalhadas boçais) nem um elogio à perspicácia da menina, nem uma insinuação sobre a particular beleza, renascentista, da sua tez, e chegas mesmo a embaraçá-la perguntando se ela, que diabo, leu o livro. Ler o livro? Mas tu não sabes como a cena funciona? Tu apareces em tudo quanto é jornal mas sabes perfeitamente que tiveste de fazer os teus telefonemas. Não tiveste que utilizar o poder comercial da editora para te abrir portas? Achas que menina não tem mais nada para fazer se não ler os teus livros? Podias ter mantido a concentração no que interessa, e elogiar o seu deslumbrante cabelo escadeado, a tonalidade brônzea da pele, as madeixas simples, de fortes raízes escurecidas, que em nada lembram a grosseria da coloração artificial, mas se assemelham às caudas de fogo dos cometas, ou uma menção aos bonitos ténis dourados, lembrando as asas que Vénus trazia nos pés, ao menos uma referência, curta que fosse, ao simples, elegante, recorte da anca, espartilhada em escura ganga, aos ombros carnudos, coroados por aquele franjear fúnebre celebrando já as exéquias do  homem atingido pela seta do cupido. Nada, nada, só generalidades sobre o teu profundo livro, o amor dos filhos pelos pais, o amor dos pais pelos filhos, considerações sobre o Sporting,  e chegas mesmo a  dizer «se eu despir este casaco vais ver». Joel, vais ver o quê? Caramba, manténs uma postura de menino de coro e depois ameaças mostrar os peitorais descaídos, insinuando tatuagens e piercings? Aquilo era ironia? Pior, aquilo era verdade? Neste contexto, e com falinhas mansas, ameaças o mundo com a tua sensibilidade, quando, na verdade, o teu livro parece ser um hino ao sexo entre desconhecidos. Em que ficamos? Estaremos desorientados?


Não leves a mal, mas algo me diz que é preciso zelar pela saúde financeira das nossas editoras, enquadrando o exército de críticas positivas que fazes desfilar no blogue, e a fortíssima propaganda dos nosso jornais, instrumentalizados pelos grupos económicos, geridos por pessoas convencidas de que podem moldar o mundo de acordo com a sua própria ignorância. Dirá o leitor que leu dois livros e meio de má economia: é o que vende. Dirá uma pessoa informada: ai sim, então se os agentes são racionais, o que é uma falência? Sopraram-me ontem ao ouvido que o Joaquim Oliveira, uma pessoa que sabe o que vende, e patrão da Controlinveste, está atulhado de dívidas até aos dentes. No entanto, isto não tem problema absolutamente nenhum, pois estamos em equilíbrio. Falemos, pois, de coisas elevadas.

Como é do domínio público, este pequeno país está atulhado de ignorantes, um país que tu acusas de ter uma massa crítica reduzida (pois é compreensível que meças o país pelo tamanho do teu nariz - desculpa a rima -, ou pela inteligência dos teus amigos jornalistas) e por isso, considera este texto como um produto da tua imaginação, num futuro longínquo em que Portugal tivesse uma massa crítica mais consistente e fermentada, ainda que retorcida, com azia, e ressabiada. Felizmente, é uma conjetura, não existe, na realidade, qualquer massa crítica. Encara esta carta como o desabafo irrelevante de um daqueles anónimos cobardes e repugnantes que enxameiam a blogosfera; encara isto como a retorcida imoralidade da natureza humana, que tu dizes se preferível à amoralidade. Não estou a retirar-te o direito de seres um escritor, mas permite-me que torne o jogo um pouco mais competitivo. Não quero estragar essa lenda nacional, onde se constata que somos um país de invejosos, sem massa crítica, muito silencioso e ovino, que só sabe criticar sob a capa do anonimato, por isso, endereço desde já o pedido: arranja-me uma coluna de jornal, e eu deixo cair a máscara. Se te repugna a utilização do disfarce, chamo em meu auxílio a viperina língua de Shakespeare: arranja-me um máscara e eu direi a verdade, e, maria santíssima, como nós estamos desesperados pela verdade. Caso contrário, e tal como as equipas pequenas, segundo a velha tática do catenaccio (deus abençoe a Itália) cada um joga com as armas que tem e segundo a estratégia preconizada, por muito arriscada que pareça essa estratégia (sigamos Jorge Jesus). Pois aqui vai uma folha de couve, um pedaço de lixo, humilde contributo para a generalização da literatura popular de qualidade, uma coisa que tu aprecias e que eu, sinceramente, não sei o que seja.

Vamos analisar uma curta cena da pré-publicação. Repara, isto não é a maldade do crítico, não desfolhei furioso e com um líquido esverdeado a escorrer-me dos dentes pontiagudos, todas e cada uma das páginas da tua obra, em busca desse minúsculo pedaço de texto, em que tu, exausto pelo laborioso confronto com as musas, perdendo a concentração de ferro e descansando, por um só segundo, o estilete de aço da tua imaginação, acabas por soçobrar e cair na mediocridade. Não, não,  nada disso, pois dei de caras com o rastilho que tu próprio espalhaste com precisão, expondo-te ao perigo, em troca do elogio montado pela santa academia dos órgãos de comunicação de massas; pode dizer-se que me limitei a acender um fósforo.

Isto é a pré-publicação, apresentada como cartão de visita do teu blogue e publicada nos jornais. Vejamos então o que nos contas. A coisa é simples mas de inigualável alcance. A malta está a almoçar e de repente, alguém diz: muda-se de mulher mas não de clube de futebol. E nisto, o herói, espicaçado no seu orgulho de ser pensante, decide exercer a crítica. E eu, descansando por um pouco os olhos do ecrã, pensei que o nosso herói pudesse atirar qualquer coisa do género:

- Quem disse que não se pode mudar? Todo o mundo é composto de mudança, e mesmo o verde manto...

Mas não, nada disso, isto seria lirismo serôdio. Bem, antes de mais, parece que é Outono, pois escreves umas considerações sobre a abundante chuva enviada por um Deus impiedoso (ai, ai, ai, a metafísica cristã que não nos larga, a nós, homens que tivemos o infortúnio de frequentar a catequese, fazendo da nosso libido um farrapo de cozinha). Bem, aceitemos o Outono, em que chove, e por isso, o verde manto cobre o chão, que já coberto foi de neve fria, pensaria o teu herói. Todavia sou forçado a dominar a minha mente, e a disciplinar esta minha mania de projetar sobre o mundo, pois o teu herói, sendo ele próprio, não pensa nada disto, pois maneja o nosso português como os brasileiros manejam os português deles, e diz uma coisa muito outra, utilizando o falajar popular (a gigante expressão é do gigante da crítica Miguel Real):

- Agora já não sou do Sporting, agora sou do Benfica.

E está lançada a épica questão. Entretanto, telefona uma gaja desconhecida, combina um encontro às sete e comparece no apartamento do nosso herói, com uns sapatos de salto-agulha. (Esta cena dos saltos-agulha só pode ter sido inventada por uma freira - esgazeada de fome e de desejo, e encerrada num mosteiro por trágico desgosto amoroso -, para se vingar da condição masculina). Noto que a indústria pornográfica, guiada pela insinuante mão de Mefistófeles, tem vindo a cobrir todo o pé, anteriormente nu, com o mais elegantemente desenhado sapato de salto, altíssimo e estilizado, corrigindo uma das últimas imperfeições de uma atividade de excelência e desbravando os deliciosos caminhos que nos conduzem aos prados verdejantes do prazer. Joel, mais pornografia e menos Tolentino Mendonça, e a qualidade literária subirá em flecha. Agora, dou-te a palavra para nos ilustrares:

No momento em que estalei o trinco da porta, e enquanto tentava ainda perguntar-me quem era aquela mulher, por que me telefonara e o que afinal queria de mim, ela deixou cair o casaco, pousou a pasta com um gesto negligente, descalçou os sapatos um no outro, sem sequer lhes tocar com as mãos, e dirigiu-se à sala com a autoridade de quem a conhecesse desde sempre.

Isto pode ser perigoso de imaginar. Eu próprio tento várias vezes descalçar os sapatos um no outro, sem lhes tocar com as mãos, e uma ocasião cheguei mesmo a tropeçar, quase partindo os dentes na mesa de cabeceira.

Depois, voltou-se para trás, esperou um pouco, encheu o peito de ar, soltou a camisa do cós da saia e abriu os três botões de baixo, um de cada vez.

Encheu o peito de ar? Como assim? Repara, isto é uma cena de sedução selvagem, não é a disciplina olímpica de saltos para a água. Mais concentração Joel, mais concentração.

A seguir, tornou a esperar um pouco, arqueando as sobrancelhas – e, então, como eu continuasse ali estático, encostou-se finalmente a mim, à espera de ser persuadida a abrir os botões que permaneciam fechados: tudo com a naturalidade de uma velha concubina que tem de amar depressa porque, entretanto, outros afazeres a aguardam.

Caramba, Joel, o teu herói parece um termóstato, a gaja descalça os sapatos, abre os botões de baixo (da camisa, da saia, não interessa) incorre em olhares insinuantes para que o teu herói a liberte dos botões ainda fechados e nada acontece. Nada acontece? Mas tem de acontecer, caramba. Em todo o caso, existe, para tudo, uma explicação. Tu insuflaste na cabeça do pobre homem uma imagem terrível: uma velha concubina. Uma velha concubina. Pior que isso, só a sogra em roupa interior. É preciso mais respeito por personagens que trabalham, que dão o melhor de si, pois nestas condições, um homem não consegue exibir-se de acordo com os seus pergaminhos; com velhas concubinas, só a poder de fármacos. Vê tu próprio como o pobre homem se confessa:

Eu continuava atarantado, procurando situar-me no meio daquela farsa – e, incapaz de evitá-lo, olhava e tornava a olhar para a janela, certificando-me de que ninguém estava a ver ou, estando-o, me dissesse que não tinha enlouquecido, que aquilo acontecia mesmo, que bastava esperar um pouco e logo compreenderia tudo. Quando a mulher me encostou à parede e me segurou com ênfase os testículos, no entanto, percebi que tinha uma erecção.

Espera, espera, espera, a gaja agarrou-lhe os testículos, não, não, a gaja segurou com ênfase nos testículos. Vais ter que explicar isto. Segurou com ênfase nos testículos? Como assim? Primeiro, isto pode não ser o pináculo da analogia, [ênfase + testículos] articula-se mal com a aritmética da sedução. Vejamos alguns exemplos sobre a variação dos testículos no mundo animal. Parece que entre os chimpanzés todos os membros do grupo tentam desesperadamente copular com todas as fêmeas do grupo o que obriga a uma competição violenta entre machos, provocando o aumento dos testículos. Já os gorilas parecem ter desenhado uma organização social em que o macho copula com as fêmeas, sendo o próprio sistema social a excluir, automaticamente, e sem luta, os competidores da atividade sexual, resultando isto no definhamento dos testículos dos machos. Deste modo, bem se vê que, no que respeita a testículos, há segurar e segurar. Segurar com ênfase pode significar algo de preocupantemente ameaçador. Embora tudo dependa do tamanho dos testículos e da capacidade preênsil da mão que os agarra, neste caso, a executiva misteriosa. No entanto, a informação mais importante é sem dúvida esta: o nosso herói percebe, finalmente, que tinha uma ereção, e nós queremos perceber o que andou a fazer o nosso herói nos últimos três minutos e meio, enquanto a executiva desapertava os botões da camisa, descalçava sapatos de salto agulha, sem tocar com as mãos nos pés (e agora se percebe, estava a preparar-se para lhe segurar com ênfase nos testículos e talvez não quisesse sujar as mãos) e desapertava botões da camisa, retirando a mesma para fora do cós (uma palavra horrível Joel, soa a mosteiro beneditino) da saia. Estaria o nosso herói a assistir a um jogo do Benfica, por cima do ombro da referida senhora, tendo paralisado com um movimento incompreensível de Oscar Cardozo? Terá um problema de ligação ao nível do sistema nervoso, com um intervalo de vários minutos entre a ereção e o funcionamento neuronal responsável pelo reconhecimento mental da ereção? Isto sim, era motivo para todo um livro imperdível. A ação segue o seu curso irreversível.

No momento em que me beijou, melando-me por completo os lábios, com a língua enfiada bem fundo na minha boca, senti um tal ardor percorrer-me o baixo ventre que por pouco não me vim de imediato.


Joel: a língua enfiada, bem fundo, lembra qualquer coisa como a matança do porco, enchidos, morcelas de arroz, velhas transmontanas suadas, com braços gordos e viris, munidas com facas e alguidares de latão. Não tragas estas expressões para aqui, pois o nosso herói parece, neste momento, um pobre cavalo de tiro.

E, tão cedo me abriu a braguilha, me puxou as calças para baixo e me passou a língua ao longo do pénis, do princípio ao fim e depois outra vez ao princípio, desemaranhando com cuidado os pêlos que se eriçavam de surpresa e de desejo, agarrei-me à ombreira da porta da sala, lancei a cabeça para trás e deixei-me conduzir ao quarto.»

Aqui, e para terminar, várias perplexidades. A senhora puxou as calças para baixo ao nosso herói e aplicou várias lambidelas no pénis do mesmo. Ok, até aqui, tudo bem, ainda que a descrição do principio ao fim e do fim ao princípio deixe transparecer a ideia de que não se trata de um pénis mas de uma autoestrada. Agora, a questão dos pelos: causa-me espécie, pronto, reconheço. Um gajo que não sente a ereção, não pode ter pelos que se eriçam de surpresa, mesmo tendo em conta que existe uma língua a viajar longitudinalmente ao longo do pénis. Mas, perante tais pormenores, estou preocupado com uma coisa: tendo o nosso herói as calças em baixo, de que forma terá sido conduzido ao quarto, sem que volte a reportar-se qualquer notícia sobre a situação do vestuário? Por certo, trata-se da imaginação do escritor, bem sei, selecionando, da realidade, apenas a informação relevante. Mas era relevante saber o que aconteceu às calças, não fosse o homem esquecer-se de que tinha uma ereção, e deixa-se conduzir, pelos corredores, com o pénis aos trambolhões de encontro aos móveis.

Com toda a amizade, Joel, és um tipo simpático, mas deixa-te disto ou compra todos os livros que puderes e passa os próximos cincos anos da tua vida em leitura silenciosa. Para citar novamente Fernando António Nogueira Pessoa, lembro o que uma vez escreveu a certo poeta de circunstância: se o senhor não sabe música para que se põe a tocar rabeca? E repara, Joel, que nesta maravilhosa rede social, talvez tenha sido um repugnante anónimo a dizer-te o que nenhum dos teus amigos teve coragem ou sabedoria para te dizer, quando era o que o teu eventual amor pela literatura merecia que te dissessem. Não te sintas perseguido, vê isto como um simpático aviso, pois o anónimo digital prepara-se para um terrível contra-ataque contra os gigantes da comunicação.

Animem-se que é segunda-feira e eu só ponho coisas aqui à borla

domingo, 19 de janeiro de 2014

O Facebook é um bom exemplo

"Mas e se toda a informação que nós produzimos (e senhores, vós produzis diariamente e em quantidade) fosse propriedade nossa? E portanto, comercializada por nós os donos, como outro qualquer bem e serviço? "


Tomemos o exemplo do Facebook, que ano passado chegou uma capitalização bolsista de 100 mil milhões de doláres e menos de 6 mil empregados. Fazendo uma análise muito grosseira, ou os quase 6 mil "code monkeys" que trabalham no Facebook geram valor acrescentado de forma extraordinária ou a informação que os utilizadores lá põem vale bom dinheiro. E por informação entenda-se cusquices, fotos documentando o nosso lado bestial, os "textos" do Gonçalo Waddington e os comunicados de Aníbal Cavaco, presidente.


Parafraseando a pergunta original, e se o Facebook fosse como uma espécie de banco informático, onde os utilizadores colocam informação a render juros?

Isto pode parecer estranho, mas o modelo de negócio do Facebook é exactamente vender o conteúdo dos utilizadores a terceiros. Os termos de serviço do Facebook dizem que os utilizadores são os donos do que lá colocarem mas que o Facebook pode usar a informação sem pagar um chavo. O que estou a propor é que os utilizadores recebessem uma percentagem do lucro que o Facebook faz a vender os seus conteúdos.

Num mundo assim, o uso do Facebook não seria gratuito. Ou seria apenas para os utilizadores que cumprissem com um mínimo de posts e fotos mensais. Também é possível que o Facebook discriminasse por utilizador, cobrando mais pelo acesso aos utilizadores mais populares. Por exemplo, a leitura dos "textos" do Waddington seria paga assim que atingisse os mil "likes". Se isso seria bom ou mau, são outras conversas.

Claro que agora não existe razão nenhuma para que isto venha a suceder. O Mark Zukenberg enche-se de nota, o povo vai cuscando e o Waddington mostrando que o cérebro é acessório. Toda a gente contente, portanto. Mas só por agora. 

Voltemos ao início, e vejamos que menos de 6 mil macacos fazem funcionar uma empresa cotada em 100 mil milhões. Mesmo que cada um destes consiga suportar dez pessoas (família directa, café da esquina, etc) o que vão fazer os restantes 300 e tal milhões de pessoas nos USA? Ou dito de outra forma, como é que eles vão ter dinheiro para comprar o que os anunciantes no Facebook lhes querem vender ?

O argumento do Jaron Lanier é que o sistema actual não é sustentável, exactamente porque o valor da informação que os utilizadores colocam no Facebook não é contabilizado e lhe permite ter a capitalização em bolsa que tem pois parece criar valor magicamente. Mas não existe nada de mágico nisto, apenas os operários que não são pagos pelo trabalho deles.

Pode-se argumentar que é possível a um indivíduo fazer lucro com o Facebook, vendendo apps ou criando uma reputação que depois utiliza para vender livros/sabonetes/cd's/productos bancários.

Sim, mas o Facebook tem o poder de cancelar as contas de quem bem lhe apetecer e quando bem lhe apetecer. E só há espaço para meia-dúzia de estrelas, sendo o resto obra de graça. Em futebolês, só há espaço para meia-dúzia de Ronaldos o resto são Luís Filipes.

Ao sétimo dia, os quatro cavaleiros do Apocalipse cavalgaram o Facebook e sopraram as suas trombetas de fogo.

In sum, our analysis reveals an intriguing and unexpected observation on the connection between readability and the literary sucess - that they correlate into the opposite directions.

Ou na espantosa versão do cada vez mais espantoso tradutor do Google:

Em suma, a análise revela uma observação intrigante e inesperada sobre a conexão entre leitura e o sucesso literário - que se correlacionam em direções opostas.

Curiosamente, o tradutor não identifica readability como legibilidade (do texto), e adopta (ai) automaticamente a bela, simples e eficaz expressão "leitura", a não ser que se informe devidamente o tradutor com o conceito de legibilidade (uma palavra horrível) traduzindo a expressão, fora do contexto, o que significa que a língua portuguesa mantém, muito justamente, dificuldades com termos que em nada nos ajudam a sermos pessoas espetaculares.

Aqui fica o mote para o estimulante artigo sobre previsão do sucesso literário que nos garantirá esta semana a oportunidade para lançarmos uma estratégia de contra-fogo em relação a cursos de escrita criativa, oferecendo nós, de forma inteiramente gratuita, o nosso curso de escrita criativa em vinte minutos, a fazer circular graciosamente por esse magnífico albergue espanhol, o Facebook.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Pessoas do facebook, causas nobres, co-adopção e mangalhos: não há nada que o humor não resolva, a não ser problemas de inteligência e domínio da linguagem escrita.

Era do conhecimento mundial e inter-galáctico o facto de algumas das referências do humor nacional serem pessoas de um gabarito mental, cultural, intelectual e até mesmo coisa e tal, com prova de competência e génio cabalmente dada em todo o mundo, excluindo o estrangeiro - para citar um poeta popular minhoto - mas ninguém estava preparado para a demonstração de inteligência, classe, elegância, sabedoria política e consistência, protagonizada por dois dos mais promissores, que digo eu, dois dos mais seguros valores da comédia, que digo eu, dois dos mais estabelecidos pilares do teatro mundial. A inigualável intervenção foi feita a propósito da mais recente e fundamental polémica, o referendo (referendo) a propósito da liberdade de adopção por casais homossexuais (é isto?) aprovado na Assembleia da República pela nojenta coligação CDS-PSD.

É verdade que existem matérias controversas na sociedade, e divergência de valores relativamente a coisas absolutamente irrelevantes como a utilização das vantagens oferecidas pelos meios de comunicação de massas a certos indivíduos, mais tarde protagonistas de campanhas publicitárias a cargo de instituições financeiras que, como é do domínio público, têm sido de uma competência, justiça económica e previsão de perdas, da mais rígida e inflexível deontologia. Devo dizer que algumas dessas instituições, tanto bancárias, como de comunicação de massas, têm merecido a honrosa colaboração dos nossos jovens humoristas, que a classe média, os professores, as pessoas de cultura (pilares da nossa pátria, sustentáculos do desenvolvimento industrial, científico, e coiso e tal) seguem com humilde e generosa afeição (como em seguida se fará prova) sendo as mesmas respeitáveis, e generosas, instituições colaborantes e mecenas dos nossos promissores talentos. Os jovens atores são por isso, e justamente, financiados pelo regime fiscal da nação (onde se incluem pretos, homossexuais, ciganos, economistas, jornalistas e até sócios do Sporting) sendo as referidas instituições, tanto bancárias, como de comunicação de massas, note-se, totalmente alheias aos problemas por que passa o país, instituições que tão justamente têm sido denunciados pelos nossos jovens humoristas, é bom lembrar, nos intervalos dessas mesmas instituições financeiras despejarem as betoneiras de dinheiro no seio das referidas instituições, tanto bancárias, como de comunicação de massas, isto sim, um abençoado e gloriosamente chavascal badalhoco. Agora, aprovar um referendo popular sobre uma matéria política de interesse coletivo? Consultar as pessoas? Isto é típico do mais retorcido fascismo. Quero dizer, no entanto, que o importante aqui não é a matéria em apreciação, mas sim o estilo e a sabedoria dos nossos coerentes e vigilantes humoristas, monumentos vivos à vitalidade democrática e ao saudável culto da cidadania.


Escolho dois exemplos de esforço, competência e abnegação. Em primeiro lugar, Gonçalo Waddington - um génio da palavra e do mangalho verbal - e concluirei com uma pequena nota sobre Bruno Nogueira - o pernilonga de uma generosidade sem limites que gosta de fazer humor inteligente perante pesos pesados da nossa pátria como Margarida Rebelo Pinto ou jovens inconscientes do Facebook - e toda a gente sabe como são perigosos, poderosos e letais os jovens inconscientes do Facebook. Comecemos por esse surto viral, de uma esfusiante competência linguística, acuidade crítica, humor fino, poderoso, crítico e inteligente, espalhado por todas as pessoas de bem, nas redes sociais, da autoria de Gonçalo Waddington, um texto agraciado com 33 mil 181 likes, com o qual fui confrontado, e em muito má hora, pois desde então, deixei de chamar a mim mesmo pessoa esclarecida que escreve, pois não sou digno de passar os olhos pelo seu Facebook :


Acho que os deputados do PSD deveriam encontrar-se todos em casa de Passos Coelho e dividir-se em dois grupinhos, meninos para um lado e meninas para o outro, distribuir os peluches que haverá lá por casa (pelos ditos grupos) e brincarem aos papás e mamãs. Mas brincar à séria!, com coiso-no-coiso e cena-na-cena, e boca-no-coiso e cena-na-boca, e dedo-na-cena e coiso-na-mão.
"Afinal, não é assim tão diabólico, isto de arrefinfar com malta da mesma equipa!", dirá um. "Realmente, tens razão! Estou confusa." dirá uma laranjoca. E concluirá Passos Coelho, o flósofo: "Camaradas, eis a verdade dos factos: jogar ao tira-mete, ao saca-põe, ao toca-aqui-e-não-digas-que-é-inconstitucional, ao rega-me-com-a-lei-branca, à malha-e-esgalha, ao arrefinfa-com-pau-de-sebo-mas-não-escorregues-antes-de-mim, à barbie-badalhoca, à carlota-cambalhota, e todas essas brincadeiras que antes pensávamos serem fruto do demo, não passam, afinal, disso mesmo: brincadeirinhas.


Gosto da ideia de arrefinfar com malta da mesma equipa e é uma pena não ter sido deixado claro pela prodigiosa inteligência de Gonçalo Waddington, se aqui se refere à equipa política ou à equipa de preferência sexual, não sendo para o efeito inteiramente decisivo, pois julgo que o argumento principal é tentar imaginar a bancada do PSD a protagonizar cenas de sexo selvagem, em princípio entre pessoas do mesmo sexo, e com peluches pelo meio (eu preferiria algemas, sapatos de salto, meias até à coxa) mas reconheço que os peluches não devem ser descriminados no que respeita ao sexo e tenho-me perguntado o que será de TED, o urso, na vida adulta, dado o regime de abstinência a que tem sido submetido pela sociedade de consumo. Note-se a fineza do raciocínio lógico e a erudição histórica, quando se associam as brincadeiras alegadamente sugeridas aos  mefistofélicos deputados do PSD e o facto dos mesmos mefistofélicos, ignorantes, bezerros deputados do PSD padecerem de visões sobre a função sexual, inteiramente associadas a práticas satânicas, quando são só brincadeirinhas, sobretudo quanto metem peluches. No fundo, são só brincadeirinhas. Iluminado por esta ideia, estive durante dez minutos, com um urso na mão, a tentar convencer uma escultural funcionária de uma loja de roupa, a contribuir para uma brincadeirinha que me ocorreu, mas ela não se mostrou muito colaborativa, e, nada contente, ameaçou mesmo chamar a polícia. Das três, uma: 1) ou algo de muito errado se passa com a minha imaginação; 2) ou não se trata apenas de uma brincadeirinha; 3) ou não consegui acompanhar a argumentação do genial ator, e devia ter procurado uma escultural deputada do PSD, a fim de obter a devida companhia para a brincadeira (salvé Marco Paulo).

Isto não é para qualquer um meus amigos, isto só está ao alcance dos predestinados. A diversidade e abrangência da crítica demolidora do jovem ator não tem limites e desfaz inteiramente a repugnante decisão levada a cabo pela Assembleia da República, esse antro de malandragem.

Brincadeirinhas de seres racionais e criativos que, em tempos remotos, descobriram diferentes usos para as suas berlaitas e para as suas podengas, qual cena do 2001: ODISSEIA NO ESPAÇO, em que o primata descobre que ao bater com o osso provoca destruição. Neste caso, confirma-se que o uso das nossas espadas, (e permitam-me a piada, camaradas, "espada com espada também dá uma bela berlaitada!"), ou das nossas covas-do-amor, no caso das camaradas, (e perdoem-me a comparação bélica, camaradas, mas as vossas pachachas fazem lembrar as covas-de-lobo, armadilhas em forma de cone invertido, que o nosso saudoso Dom Nuno tão bem utilizou em Aljubarrota).

Aqui o leitor fica desarmado e sente uma vontade irreprimível de se levantar e aplaudir de pé, onde quer que se encontre, em casa ou na oficina, no estaleiro metalúrgico, com o maçarico, ou na planície alentejana, de foice na mão, no cimo do prédio em construção ou a bordo do cargueiro, é indiferente, pois quem de entre nós se lembraria de relacionar o macaco de Kubrick, agitando o osso da destruição, o poder criativo do sexo, a berlaitada, a teoria da evolução, e uma votação na Assembleia da República? E tudo isto de forma clara, objetiva e estruturada, de forma a que o argumento sobressaia com a clareza de um Shakespeare, que digo eu, Shakespeare está para Wadington tal como uma formiga está para um elefante. Mas preparem-se, preparem-se, pois quando a erudição histórica e a mestria da linguagem se juntam com a indestrutível vitalidade da indignação moral, o poder criativo dos jovens atores (animado por um claríssimo talento para a escrita) desfaz as correntes de aço deste quotidiano austero que nos amarra, e pelas mãos da arte e dos seus mártires adoradores, esvoaça pelo espaço, prometendo aos homens e mulheres injustiçados o dia da libertação. Sim, o referendo será derrotado. Mas enquanto não chega esse dia, demos alimento à nossa inteligência.

Ainda me dói o rim, e aposto que ao leitor também, em virtude dos espasmos causados por essa piada imortal : "espada com espada também dá uma bela berlaitada!". A Revista à Portuguesa, Lá Feria, Fernando Mendes, Marina Mota ponham os vossos olhos nisto, e até mesmo a defunta Ivone Silva, que se levante da tumba, pois Shakespeare não é digno deste génio: estes prodígios não se deviam conspurcar, escondendo sob a capa de um autor bolorento e ultrapassado - que nada lhes dá a ganhar - a verdadeira força criativa da sua pena, pois quem escreve assim não deve temer a cruel foice do tempo. Se não, vejamos. Não sei se notaram (isto não é acessível a todos) mas quando se referem as covas-do-amor associando-as às pachachas das senhoras deputadas (uma coisa só ao alcance dos grandes) está a querer demonstrar-se agora não me lembro o quê, e tenho pena de não estar à altura de Wadington, mas sei muito bem que a ponte analógica entre as covas-do amoras covas-de-lobo, (relembro, armadilhas em forma de cone invertido, que o nosso saudoso Dom Nuno tão bem utilizou em Aljubarrota) está muito justamente a denunciar a ligação entre nacionalismo, marialvismo guerreiro, beatice, genitália feminina, representação parlamentar do PSD, estratégia militar e a discussão pública sobre co-adopção, tudo numa saborosa e biologicamente autêntica caldeira de peixe capaz de desarmar os mais conservadores argumentos. Wadington, incansável, retoma a refrega, animado pelo exemplo de D. Nuno:

Mas, dizia eu, que estas brincadeirinhas, afinal, não nos modificam em nada, camaradas. Continuamos a ser os mesmos canalhas que éramos antes deste encontro pseudo-badalhoco. (Digo pseudo porque, afinal, não me sinto assim tão badalhoco. É pena... Mas o dogma, qual mangalho desgastado pelo exercício, também cai.) O que me leva a pensar o seguinte: Os meus filhos seriam os mesmos anormaizinhos que o são hoje, fosse eu um invertido e fossem eles adoptados. Sim, camarada Poiares Maduro!, serias o mesmo mentiroso de sempre, sendo filho de duas Safos de Lesbos ou de dois Variações. (Quem te dera, camarada!) Nunca saberemos se, ter dois pais ou duas mães, é melhor ou pior para uma criança. Mas, não podemos, à partida, assumir que é mau para os "piquenos".

Não sei se os leitores repararam mas Wadingotn, num golpe de mestre, abandona a influência Pasoliniana (não digo Sade, pois Sade era um repelente aristocrata) utilizando um tom mais introspetivo, comovendo o leitor, ao jeito do gladiador que, após vencer o mal, lambe as suas feridas, e ainda que os dentes possam ainda ranger, sob o efeito da indignação, a certeza de quem está do lado certo da história, permite assumir o canto profundo e cavernoso dos grandes momentos. E então Wadington lembra que mesmo após as mais mirabolantes cambalhotas sexuais, mesmo após termos introduzido todas as partes do nosso corpo em todas as restantes partes do corpo dos outros, nunca se tratará de badalhoquice, pois continuamos a ser os mesmos, e é bonito ver como este bonito pensamento, que em tudo se relaciona com os problemas da co-adopção, fica a ecoar nas nossas mentes: os canalhas deputados do PSD serão sempre os mesmos canalhas, mesmo que se entreguem a relações sexuais uns com os outros. Onde já se viu profundidade de raciocínio como esta, em matéria de decisão política? Aliás, é visionário o nosso ator quanto compara o dogma a um mangalho (e não entro sequer nas delícias da aliteração). Mas ó excelência da ironia, Gonçalo Waddington, o libertário, permite-me apenas destacar um tipo de mangalho que nunca se desgasta, nem quando submetido ao mais recorrente e sistemático exercício: a inteligência das pessoas ditas da cultura. Com efeito, estão sempre prontas a sacrificar os seus mangalhos criativos em defesa das causas nobres, e sempre recorrendo aos mais inteligentes e eficazes poderes da linguagem, essa matéria incandescente dos poetas, que todos amamos e na qual gostamos de nos lambusar, não fosse um isso uma enorme badalhoquice, que é, como todos sabem, um monopólio dos deputados do PSD. Depois, veja-se com que elegância chama mentiroso a Poiares Maduro, sugerindo, com pensamento de lince, a reles condição do constitucionalista (ou lá o que o gajo é, confesso que não sei) pelo facto de não ter beneficiado da convivência com pessoas escolhidas por um critério de preferência sexual. Não julgue o leitor distraído que Wadington entra aqui em contradição, incapaz de manter a consistência lógica de um raciocínio durante mais de trinta segundos. Não, está apenas a passar uma certidão de incompetência a todas as pessoas do PSD que não convivem com a poesia de Safo e a música de António Variações, uma pessoa que vestia manifestamente mal, mas seria muito incorreto entrar por aí.

Por fim, o desarme, a característica dos grandes génios: após insinuações sobre a pachacha das senhoras deputadas (algumas com idade para serem mães de Gonçalo Waddington, um pormenor neste terreno da igualdade e do combate por causas fraturantes) e sobre o mangalho dos senhores deputados, Waddington recorre à linguagem do Batatinha (como sabem, um famoso artista de circo) e sugere, com a humildade que o caracterizou ao longo de todo o texto, que não devemos à partida considerar que ter dois pais ou duas mães, é melhor ou pior para uma criança e qual Séneca do século XXI, remata com um aforismo:

 Seríamos tão mais felizes se fodêssemos mais e melhor.


Haverá leitor capaz de discordar disto? Bem, no meu caso, depende do parceiro, pois julgamos que o desespero masculino não chega a esse ponto. Em todo o caso, há um problema relacionado com rendimentos marginais decrescentes, e tenho algumas dúvidas sobre a exata localização do ponto ótimo entre o mais e o melhor no que respeita a sexo, mas uma coisa é certa: se fodêssemos mais e melhor (e encontrada a eficiência do modelo tendo em conta as variáveis a)felicidade, b) mais e c) melhor) é seguramente uma verdade indesmentível que teríamos com certeza menos paciência para irrelevâncias e artistas medíocres, o que, sem dúvida, não abona a favor da minha pessoa. Não posso terminar sem referenciar, justamente, o outro génio do teatro nacional, Bruno Nogueira, um homem capaz de envergonhar Garrett.

No seu Facebook escreveu:

A ideia de que qualquer membro da bancada PSD pode adoptar uma criança não deixa de ser constrangedora. Isso sim, merece um par de referendos.

Repare-se no fino tratamento do português, na sintética potência das ideias: duas frases como dois chifres perseguindo o nojento toureiro social democrata e democrata cristã, dois murros no sofisma político, numa palavra, um artista. Entretanto, no meio dos mais variados elogios, um aluno de Liceu, chamado Afonso, escreveu a seguinte atoarda: 

achas bem a paneleiragem adoptar crianças?

Vergonha das vergonhas, os alunos do liceu a dizerem tolices, onde já se viu? Isto é intolerável, isto merece uma correção, isto é digno de uma resposta em conformidade. Que podia fazer Bruno Nogueira senão responder à altura? Julgam que ignorou esta violenta crítica de consequências devastadoras? Julgam que respondeu de forma irónica, desmontando o insulto gratuito e a falta de educação? Julgam que respondeu de forma cordial, mas fazendo ver a injustiça e a leveza deste tipo redução patética? Não, nada disso, Bruno Nogueira, com a inteligência que o carateriza, apontou direito à cabeça da hidra, anónima e repugnante, e decepou-a:

Bruno Nogueira Oficial Afonso, acho bem pessoas como tu sofrerem de morte súbita, por exemplo.
São gostos.


Com criadores deste calibre, Portugal está salvo, e os badalhocos parlamentares não tardarão a ser confrontados com a justiça, pois é difícil encontrar um meio de comunicação de onde não saia, vigilante e generoso, um potente humorista, sempre abrangente, sempre com soluções, sempre coerente, sempre fundamentado no seu raciocínio político, sempre elegante, sempre profundo. Até admira que exista quem tenha medo do futuro.