domingo, 26 de janeiro de 2014

Aviso à navegação, este vai ser um post lamechas.

Por virtudes dos tempos, estamos sempre ligados. É ve-los no facebook aqui na sala de espera. O twitter não me larga com bips (Alf larga aquela merda). Nestes últimos dias não tenho dormido. O meu filho adoeceu. O suficiente para nos deixar a pensar.  É difícil a vida. Atendendo às dificuldades. O raciocínio que já falta. O sono que suspira por melhores dias. Os filhos que fazem parte de nós. Extensões de mim para o mundo. E sinto-o a respirar aqui ao meu lado e sonho com um mundo melhor para ele. Estamos a ficar mais parvos com tanta rede social, mas nunca se soube tanto e tão rápido. Vocês, que nunca vi, mas que sabem de mim por aqui. Não sei para onde vamos e o que vai ser lá à frente no tempo. Tudo é relativo dependendo do referencial. O que sei é que amanhã é um novo dia e esta é mais uma noite. Vou voltar agora ao verdadeiramente  importante. E deixar-me disto. O silêncio sempre foi meu amigo.

Santa procrastinação.

Tenho tanta coisa que já devia estar feita há semanas, mas.... o espírito é forte, a carne é fraca. E descobrir bandas de metal no Youtube é bem melhor que ser um adulto responsável.

Um tipo começa no mainstream


 
escorrega, está no rap


e quando se levanta, dá por ele em Jaipur


sábado, 25 de janeiro de 2014

A linguagem C como suporte interpretativo para a compreensão do mundo


Este texto do alf levanta um ponto importante, e realmente a máquina (entenda-se as redes digitais e os recursos computacionais que lhe estão agarrados) pode ajudar os escritores a ter um pouco mais de dignidade profissional. E não é só no sucesso de um livro que a máquina pode ajudar, no amor  também. Aos mais deslumbrados com as maravilhas da técnica, não esqueçam que na origem estão humanos, a máquina está lá só para ajudar.

Mas o texto espicaçou-me o espírito. Como seria um mundo em que a literatura (entenda-se a palavra escrita nas suas variadas formas) tem um suporte predominantemente digital ? Um mundo em que quase toda a gente lê através de um leitor digital tipo Kindle ou Nook. Como seria este mundo ?

Caveat emptor: o que se segue é pura especulação, em que se olha para o passado da música e do software para se tentar prever o futuro da literatura.

Num mundo em que a literatura é consumida em formato digital, quase tudo quanto é livreiro, gráfica ou editora estão fechadas. Os custos de reprodução, distribuição e armazenamento praticamente não existem quando o produto está no formato digital e ocupa muito pouco espaço.

Em vez de livrarias, existem repositórios digitais onde qualquer autor pode submeter a sua obra. Por regra, os repositórios contêm pequenos textos (contos, poemas) gratuitos. A maioria tem publicidade entremeada entre os parágrafos, lá colocada pelos repositórios e totalmente fora do controlo dos autores. As receitas de publicidade revertem a favor dos repositórios. Os problemas da visibilidade do autor mantêm-se, apenas a edição e distribuição se tornam mais fáceis.

Nos repositórios também se encontram textos pagos mas a um preço bastante baixo, tipicamente um euro ou menos. A ideia é jogar com a lei dos números e vender em quantidade. Por exemplo, só o mercado para literatura em português tem cerca de 250 milhões de potenciais clientes. Apesar de alguns casos de sucesso, a maioria dos autores ganha tostões com os repositórios.


Aumenta número de revistas gratuitas, compostas por selecções de textos publicados num dado repositório. Apenas uma meia-dúzia de revistas atinge a notoriedade, promovendo uma competição feroz entre os autores para lá publicar. Com o tempo, a especificidade humana vem ao cimo e isto ou isto tornam-se a regra. Os editores das revistas são os únicos a serem pagos, os autores não recebem um chavo pelo seu trabalho.

A maioria dos autores tem um emprego estável, e publicam nas revistas apenas com o objectivo de aumentarem a sua visibilidade e o seu status laboral. Os jovens autores começam na universidade a publicar gratuitamente para abrilhantar o currículo.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Perdoa-lhes porque não sabem o que fazem.


mais aqui.

Mundo editorial não resiste aos ataques de alf e enlouquece subitamente.

Aqui, e aqui, onde aprendemos sobre a importância do «catálogo», do rosto, do input criativo, da energia mutante, eu sei lá. Questões financeiras é que nada, não se sabe, é segredo, é tabu, é proibido, o dinheiro conspurca, derrete a imaginação, corrompe os espíritos.

Com o devido conjunto de bandas sonoras nº 1, nº2, nº3 e nº4. Mas sobretudo esta e esta. Esta também é fundamental. Ou talvez esta.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Quando a máquina de fazer escritores enfrenta a máquina de fazer dinheiro.

As mina pira, ô ô
As mina pira, ah ah
Se fizé gostoso aí as mina vem pra cima


Este texto pede ao leitor a paciência do santo e a curiosidade do gato mas garanto aos bravos persistentes que no final se sentirão muito melhores pessoas, além de um claro rejuvenescimento da pele e descontos nos postos de abastecimento de combustível da Galp. Vou começar pela interpretação poética da epígrafe dos dois autores sertanejos, Ronny & Rangel. Os homens, como todos os organismos conscientes e dotados de memória, fazem geralmente uma representação interna dos problemas, e à cabeça de todos, representam sempre muito mal o decisivo problema da apropriação locomovida da beleza, ao qual foi anexado um mecanismo de reprodução, cuja lógica interna permanece em grande parte inacessível. Neste caso, calcula-se que perante a espora do desejo (presa numa bota cujo dono desconhecemos) o homem faz a singela previsão de que as meninas terão que ficar doidas para se poderem atingir alguns resultados, o que é desde logo duvidoso, e característico de uma sociedade, a brasileira, amanhada numa caldeirada de indígenas, africanos, aristocratas bovinos, belas italianas e voluptuosas germânicas, e catolicismos made in Portugal, mas adiante. Assumindo as premissas, é necessário fazer gostoso, ou seja, fazer de acordo com as intenções das meninas. Como isto é tão difícil como convencer Jorge Jesus de que não se vencem campeonatos com dois pontas de lança,  os homens são obrigados a esboçar uma ideia geral do que as mulheres consideram gostoso (os autores da epígrafe, «as minas pira», atiram-se ao dinheiro, o mais eficaz e flexível caminho para a satisfação de todos os desejos). Considera-se que perante a ação gostosa, facilitada pela disponibilidade de meios de pagamento, as mulheres virão para cima. Não desenvolverei os inúmeros perigos desta estratégia (e são muitos, são muitos) mas interessa-nos o que revela sobre o mercado editorial.

 
Partimos do princípio de que a intermediação do editor, garante ao processo de seleção de um texto, o atingir de um resultado gostoso. Como? O especialista sabe o que as meninas e os meninos gostam, e avançando com o dinheiro, garante o cumprimento de todas as tarefas mecânicas, incluindo os difíceis fretes da negociação com os meios de comunicação de massas, tal como o processo de elaboração física do livro. O pobre autor, à semelhança do macaco sovado pelo chefe do grupo, com os seus 10% debaixo do braço, vai lamber as suas feridas, satisfeito com a sua condição de pessoa de sucesso com franco acesso aos meios de comunicação, e um magrinho rendimento que o obriga a aceitar toda a espécie de tolices, incluindo cursos de escrita criativa. Não quero ser injusto. Sendo a edição uma decisão progressiva, em articulação com o esgotamento do stock nas diferentes livrarias, e uma leitura dos resultados das vendas, o editor pode ir alocando os recursos aos que mais vendem. Deste modo, estamos mais ou menos de acordo em relação à justiça do jogo competitivo entre os autores publicados, sobretudo em editoras de escala semelhante e com recursos para aceder ao mercado semelhantes (embora isto coloque desde logo petroleiros de problemas ao conceito de igualdade das condições de partida num mercado, e estou a pensar na esfíngica questão de saber se os resultados dependem realmente do mérito do livro ou de um outro qualquer fator crítico). Admitamos, em suma, que o mercado revela, com efeito, preferências reais de consumo. A questão crítica do sistema económico é outra, ou seja, os custos da matéria prima, os incentivos para diversificar a qualidade da produção de livros, e penso nos milhares de manuscritos inéditos, nunca publicados ou incentivados, e entre os quais poderão ter morrido incontáveis génios, mártires da racionalidade altamente limitada do sistema. A simples existência da rede digital não resolve o problema pois nada nos diz sobre a reputação. Para ultrapassar as editoras não basta automatizar o acesso ao texto, é preciso automatizar, em parte, a crítica. Aqui colocam-se dois bicudos problemas.


Por um lado, acreditamos que o escritor de mérito acaba por encontrar o seu editor. Nada mais falso, pois o falhanço das condições favoráveis podem levar o génio artístico às mais diversas práticas, desde a heterossexualidade à homossexualidade, passando pela criação de impérios do calçado, blogues de moda, comentário desportivo e incluindo a liderança política de grandes partidos do arco da governação. Podemos sempre dizer: temos pena. Mas neste caso, abstenham-se de falar no mercado como um elemento de justiça ou do seu serviço, nas condições atuais, à arte da escrita e ao livro. Por outro lado, as falhas de informação no processo tradicional de escolha dos autores, fazem com que os grandes editores persigam, com os seus afiados dentes, reduzir os altíssimos custos de varrer o conjunto dos potenciais manuscritos (imaginem as centenas de milhares, só em Portugal, que todos os dias enviam material inédito, algum, calculo eu, dolorosamente mau). Nada nos diz que isto tenha de ser assim. No entanto, perante a lógica de decisão instalada nas grandes editoras, os custos de análise dos candidatos (sempre a crescer com a democratização da escola) pressionam o processo de decisão e os editores atiram-se para a frente, quer pela capitulação diante de um cálculo apressado sobre o que o público gosta (sexo, espionagem, inquéritos policiais, conspirações, sentimentalismo) quer pelo recurso à visibilidade, a tão famigerada e aqui comentada plataforma (lunática) do autor. Daí a crescente solicitação a pessoas com personalidade pública firmada (na rádio, na televisão, nos jornais) para abraçarem o mundo das letras. Sem a devida crítica no processo de decisão, os editores tentam depois racionalizar as escolhas, uma das atividades cómico-trágicas a que me costumo entregar quando quero dar boas gargalhadas. Posto o processo em movimento, é difícil tirar conclusões claras sobre os fatores críticos mas não é preciso estar ao nível de Jorge Jesus para se perceber que estamos diante de um claríssimo confronto entre o conceito clássico do mercado, tendencialmente destruidor das grandes empresas (gerador de competição e de pressão sobre os efeitos de monopólio) e os esforços dessas mesmas grandes empresas para controlar a disrupção do mercado, e proteger o interesse e os lucros dos seus membros perante outros possíveis interesses presentes no comportamento dinâmico dos consumidores. Sabemos que a relação entre a escala das empresas e as dinâmicas do mercado é um dos mais difíceis temas da economia clássica mas a alternativa é continuar a galhofar perante a ideia de esgravatar, da lama, uns míseros 10% de um trabalho tão digno como qualquer outro. Não contem comigo para enriquecer o Pais do Amaral.


Uma das mais estimulantes atividades a que se pode entregar um ser humano, além da masturbação, é o sistemático combate às ressurreições inesperadas do mais arcaico e resiliente raciocínio explicativo de que há memória nos anais da evolução, ou seja, a ideia de que o indivíduo é inteiramente impotente (ui) perante o movimento da espécie.  Como corolário, vemos permanentemente ressuscitar a ideia de que a natureza encerra uma sabedoria de projeto capaz de garantir a sobrevivência dos humanos, projeto esse inacessível à racionalidade consciente de uma pessoa, ou de um pequeno grupo, ou de uma associação organizada entre todas as pessoas de modo a levar a cabo um processo de decisão. Vulgarmente, chamava-se a isto política, mas caiu em descrédito, precisamente depois das grandes ideias filosófico-científicas do século XVIII. Há também quem diga que foi a explosão tecnológica. Vamos devagarinho para que ninguém se aleije.


Para utilizar uma alegoria mitológica, quanto mais se brande a espada para decepar as mil cabeças desta hidra, mais outras mil nascem em lugar de cada uma das cabeças decepadas. Com efeito, para que uma falácia mil vezes repetida não se transforme num mistério da fé, é necessário vigilância, esforço e falsificação de hipóteses. Ao indivíduo só lhe resta uma racionalidade limitada para vencer os problemas na adaptação a um meio, por vezes hostil, e a relação entre nós, pessoas de bem, oscilará sempre entre cooperação e competição. Podemos fazê-lo à bruta, se continuarmos a esgalhar o pessegueiro da realidade, ou podemos pensar e criticar, de preferência num debate vivo e violentamente participado, sem respeito por qualquer forma de autoridade a não ser a lógica. Sabemos que o «mercado» foi um momento de fulgurante iluminação em que os filósofos de cabeleira e meias de seda avançaram mais um pouco na elegância da nossa adaptação a um ambiente, na época maioritariamente orgânico, mas temos estado de tal forma satisfeitos connosco mesmos que desde então temos assumido a postura do indígena dormitando à sombra da bananeira e continuamos a aplicar as mesmas soluções ao ambiente altamente artificial do século XXI. O problema é que uma visão superficial, e acrítica, do mercado, nada nos diz sobre os mecanismos que no próprio mercado reduzem o leque de escolhas dos consumidores e não estou a falar de teorias da conspiração. Utilizarei o próprio raciocínio da microeconomia clássica.

Desde o século XVI, os altos custos necessários para se imprimir um livro ofereceram às editoras um papel preponderante. O iluminismo setecentista é em parte o resultado do triunfo social deste mecanismo. Mais livros e mais baratos, e melhor eficácia na distribuição dos incentivos para escrever geraram qualidade e quantidade de informação, lançando sobre a crosta terrestre uma fantástica multidão de ferramentas. O livro apresentava maior proteção relativamente à replicação, rápida e a baixo custo, da informação, fortalecendo a produção de textos, e criando uma base económica para a comunicação entre as pessoas. Mas este sistema tinha limites, e esses limites foram estilhaçados pela escolarização do pós-guerra, no século XX, e sobretudo pela invenção do computador. 


O mundo digital facultou instrumentos de comunicação e facilidade de expressão, numa escala sem precedentes. O limite de textos que um leitor conseguia assimilar, ou a informação que um escritor podia produzir num dia, tinham uma aplicação direta no papel que a edição convencional (a escolha por um especialista amarrado pelo cálculo de risco) assumia na distribuição das oportunidades para escrever. E o preço a que a informação chegava ao leitor também limitava a possibilidade deste estar em contato com os textos de vários autores. Se estiverem sentados na vossa cadeira, posso afirmar uma novidade explosiva: neste momento, as editoras são o problema e não a solução. Os grandes grupos económicos com interesses na área da edição desunham-se para apertar a violência sobre direitos de copyright precisamente para travar a democratização económica, mais eficiente, do conhecimento.  Há toneladas de gordura nas editoras, e a solução passa necessariamente por organizações mais pequenas e mais eficientes, com menor taxa de lucro, e com maior remuneração dos autores, se quisermos utilizar o mercado para gerar mais competição, maior diversidade de produção de livros e uma posição económica mais estável no que respeita aos escritores, que são, em geral, filosófico-politco-económico e às vezes literariamente, tão burros como uma porta. Vendem a alma ao diabo por não acreditarem, nem durante três segundos, na força do que têm para dizer, entrando, como o burro engalanado, para esta vergonhosa procissão. Curiosamente, o único texto, em português, a que tive acesso, sobre a posição dos escritores nesta matéria, dirige o seu ataque aos autores que escrevem textos grátis (recuando medrosamente diante dos 10% pagos, em geral, pelas editoras) incapaz, compreensivelmente, de morder a mão de onde lhe chegam as migalhas. Não compreendeu o autor, apesar de economista, e pobre aliado do sistema editorial cada vez mais concentrado, que todos os autores, praticantes dos textos grátis, estão precisamente a incorrer num custo para furar a muralha de estrangulamento comunicacional montada pelos gigantes da edição.


Na verdade, o festival conceptual que dá pelo nome de mercado, quando aplicado à literatura, tem demonstrado à saciedade um volume infinito de confusões e deslocações estratégicas de teorias, pelo que, previsivelmente, os cientistas da computação resolveram desferir uma autêntico tiro de canhão contra a muralha das coisa serem o que são. Ora, um par de chinesas mais um nórdic@ resolveram cometer suicídio lógico e amandaram-se (grande palavra) à resolução destas dificuldades, e embora tenham falhado com estrondo, forneceram algumas contribuições importantes para a consideração do mais complexo problema do mundo, e começaram pelo que tem de ser, isto é, o sentido da linguagem. Peço a vossa indulgência para um citação em inglês:

Predicting the success of literary works is a curious question among publishers and aspiring writers alike. We examine the quantitative connection, if any, between writing style and successful literature. Based on novels over several different genres, we probe the predictive power of statistical stylometry in discriminating successful literary works, and identify characteristic stylistic elements that are more prominent in successful writings.


Traduzo o explosivo resumo das conclusões:

O estudo garante existirem elementos estilísticos comuns às obras de sucesso, pelo menos no âmbito do género literário, permitindo construir um modelo com surpreendentemente elevada capacidade de previsão (84%) do sucesso literário.


Isto não passa de autoilusão, como é evidente, mas veremos como as conclusões podem ser tremendas. A complexidade do problema dinamita, como é evidente, qualquer modelo estatístico de previsão do sucesso de obras literárias. A previsão aplicada a problemas desta natureza é o mesmo que tentar marrar em comboios (onde é que já ouvi isto?). O desconhecimento olímpico da semiótica e mesmo da literatura, sobre temas de linguagem e sentido, da autoria de cientistas da computação, revela alguma superficialidade na falsificação dos dados nos quais se baseia o estudo. É preciso estar um pouco cansado (pode ter sido o caso) para não identificar a gigantesca falácia implícita no estudo: a sistematização de características associadas aos melhores livros já filtrados pelo tempo, aponta, como é evidente, para confirmações do que o passado considerou como um sucesso literário. O que é muito diferente (pesar dos dados recolhidos começarem em Homero) de saber se essa estrutura de gosto, e a própria resiliência dos textos, se manterão, e se o sucesso não foi antes determinado por contextos institucionais (Universidades, Televisão e até as história editorial das próprias obras) tornando muito difícil extrair conclusões do conteúdo semiótico do texto. Para citar o exemplo mais elegante e espirituoso, Umberto Eco escreveu milhares de páginas sobre isto, e em momento oportuno voltaremos à interessante análise, apresentada no estudo, em torno de uma sistematização do «estilo de sucesso» a muito longo prazo.


Em todo o caso, este tipo de instrumentos merecem o nosso aplauso, pois expõem, de uma forma clara, o calcanhar de Aquiles do sistema editorial, isto é, o pouco investimento na procura da qualidade textual dos autores, ou seja, autores capazes de agarrar o público pela abrangência temática, versatilidade semântica, pertinência dos enredos, domínio do estilo e intensidade retórica dos textos. As editoras preferem incorrer em custos para controlar a informação, aliando-se aos meios de comunicação de massas, capazes de reduzir o risco da edição de um autor escolhido de forma semi-aleatória. Ora, este algoritmo, trabalhado pelas investigadoras da computação, poderia sintetizar o trabalho humano dos júris de concursos e dos esforçados editores (lançando ambos no desemprego e prestando assim ao país um serviço inestimável) convidando a um investimento desses recursos na edição de mais livros e no financiamento de mais autores. Não fujamos às dificuldades.


É certo que as editoras se desculpam com a sustentabilidade e por isso teremos de ser nós, pessoas de bem, a dinamitar a sua posição. Por um lado, a identificação de modelos rígidos e invariáveis poderia obrigar as editoras a descartar (ou pelo menos refrear) o elemento humano na decisão editorial, fornecendo maior competitividade, se reduzidas as distorções, sempre inevitáveis, das limitações humanas na escolha de potenciais escritores, e deixando aos consumidores uma maior parte dessa tarefa, pela convencional análise das vendas. Do mesmo modo, ao eliminar a excessiva interferência de intermediários no processo de escolha, e lembre-se que esta interferência se dá atualmente sem informação de qualidade, os autores receberiam, pelo preço de alguma preocupação com o aspeto mais comercial do processo (elaboração física e distribuição do livro) muito mais liberdade para jogarem o jogo das preferências do público, reduzindo as máquinas de produção de imagem dos escritores (propaganda). Na verdade, chega a ser embaraçoso, se não  ridículo, que os escritores se entreguem constantemente à autopromoção, e banalidades orais sobre tudo o que mexe, quando deviam sobretudo escrever textos. Ou seja, uma análise computacional transferiria a decisão, sobre os incentivos para escrever, mais diretamente para os consumidores, garantindo ao autor a marca de uma qualidade prévia (ainda que limitada, eu sei, eu sei, pelos critérios de sucesso do algoritmo) e oferecendo-lhe muito maior legitimidade junto do público. Em suma, seriam poupados avultados recursos despendidos com especialistas em edição, aprofundado a inteligência artificial do mercado. 

Duas consequências lógicas: os escritores, devido à maior rapidez e universalidade deste algoritmo para analisar os seus manuscritos, correriam a tentar um selo de garantia. Esquecendo agora as injustiças, que também existem (e talvez em maior quantidade) no modelo humano, isso geraria uma independência brutal do escritor, equivalente ao crescimento do seu poder e legitimidade para se autopublicar e não ficar apenas com 10%. Sem um algoritmo deste género, ou mais afinado, a publicação digital não representa uma solução ótima pois, no mar de informação, irá colocar nas mãos de um gigante editorial qualquer, a faca, o queijo e a broa de Avintes. A outra consequência lógica seria a tentativa de grande parte dos escritores para adequarem os seus textos ao algoritmo, de forma a passar, com boa nota, na máquina, o que abriria, por certo, uma oportunidade para massificar a verdadeira literatura popular, pois as pessoas, em critérios de exigência estética, obedecem melhor às máquinas do que a pobres autores e críticos como eu. Claro que teríamos que submeter-nos a uma máquina e não à Maria do Rosário Pedreira mas não estou certo de que: a) a segunda seja mais inteligente do que a primeira; b) a substituição seja necessariamente má.

Como eu sei que ninguém me leva a sério, chamo a testemunha nº 1 do processo, o senhor Italo Calvino:

«Neste sentido, mesmo confiada à máquina, a literatura continuará a ser um lugar privilegiado da consciência humana, uma explicitação de potencialidades contidas num sistema de signos de todas as sociedades e de todas as épocas: a obra continuará a nascer, a ser julgada, a ser destruída ou continuamente renovada pelo contacto do olho que a lê; o que desaparecerá será a figura do autor, esta personagem a quem se continua a atribuir funções que não lhe competem, o autor como expositor da sua própria alma na exposição permanente das almas, o autor como utente de órgãos sensoriais e interpretativos mais perspicazes do que a média, o autor, essa personagem anacrónica, portadora de mensagens, diretor de consciências, orador de conferências nas sociedades culturais. (...) Desapareça então o autor - este enfant gâté da ignorância -, para deixar o seu lugar a um homem mais consciente, que saiba que o autor é uma máquina e saiba como esta máquina funciona»."Cibernética e Fantasmas"

No fundo, estaremos apenas a afinar o problema de um sistema económico que sustenta a relação complexa entre a capacidade de análise de manuscritos e automatização de um juízo crítico. A extraordinária importância de incorporar uma máquina no processo prende-se com a capacidade de analisar milhares e milhares de manuscritos, minimizando as limitações de tempo e de memória do editor. Claro que o modelo dotará o processo de rigidez, mas eu pergunto se o modelo humano atual, baseado, por vezes, na total aleatoriedade, de gosto, de cálculo de probabilidades de lucro, e no peso da televisão, dos jornais e das rádios, serve melhor a consciência artística, o público e os candidatos a um rendimento na produção de textos? Claro que isto não é simpático nem para os autores comprometidos com este jogo arcaico e ultrapassado pelos computadores, nem para todos os que, na televisão, nos jornais, nas rádios, nas editoras, gravitam em torno do trabalho do autor. O problema é que o sistema está a matar a dignidade de uma atividade crítica, individual e coletiva, e é tempo de o amor à literatura, à leitura, à lógica e ao raciocínio, e à arte da escrita, desempenharem um certo papel na economia contemporânea. Estamos quase a ponto de poder dar um murro na mesa e dizer com Manuel José, treinador em terras do Egipto, e poeta popular: «ou há moralidade ou comem todos».
Julgo que o importante é continuar a questionar as limitações do atual modelo, antes de começar a vociferar contra as máquinas. Afinal de contas, não sabemos bem que espécie de máquina somos nós.
 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O «Não darei mais fôlego às trombetas» não resultou: segue-se, por isso, um contra-ataque venenoso, económico-filosófico, ou seja, tal como os gregos, diante das gloriosas muralhas de Tróia, iremos derrotar o adversário no seu próprio território.

O ruidoso momento que estamos a atravessar inaugura uma época ideal para falar e publicar o menos possível e tentar compreender melhor como são as coisas*.


Italo Calvino, «Não darei mais fôlego às trombetas», 9 de Abril de 1965, numa carta a Armando Vitelli recusando participar numa mesa redonda, com o espantoso tema, requiem pelo romance, com a participação de Moravia (ui), Pasolini (ui, ui), Arbasini (?), Sanguineti (ai, ui) e Leoneti (???).


*no espetacular português de José Colaço Barreiros, uma pessoa a quem muito devemos e a quem os jornais e as revistas literárias não costumam fazer referência.

Ao nosso novo amigo, Joel, deixo-lhe uma dica que resume aquele texto dele


como o alf disse. mais porno e menos tolentino.

Animem-se que é segunda-feira e eu só ponho coisas aqui à borla

domingo, 19 de janeiro de 2014

O Facebook é um bom exemplo

"Mas e se toda a informação que nós produzimos (e senhores, vós produzis diariamente e em quantidade) fosse propriedade nossa? E portanto, comercializada por nós os donos, como outro qualquer bem e serviço? "


Tomemos o exemplo do Facebook, que ano passado chegou uma capitalização bolsista de 100 mil milhões de doláres e menos de 6 mil empregados. Fazendo uma análise muito grosseira, ou os quase 6 mil "code monkeys" que trabalham no Facebook geram valor acrescentado de forma extraordinária ou a informação que os utilizadores lá põem vale bom dinheiro. E por informação entenda-se cusquices, fotos documentando o nosso lado bestial, os "textos" do Gonçalo Waddington e os comunicados de Aníbal Cavaco, presidente.


Parafraseando a pergunta original, e se o Facebook fosse como uma espécie de banco informático, onde os utilizadores colocam informação a render juros?

Isto pode parecer estranho, mas o modelo de negócio do Facebook é exactamente vender o conteúdo dos utilizadores a terceiros. Os termos de serviço do Facebook dizem que os utilizadores são os donos do que lá colocarem mas que o Facebook pode usar a informação sem pagar um chavo. O que estou a propor é que os utilizadores recebessem uma percentagem do lucro que o Facebook faz a vender os seus conteúdos.

Num mundo assim, o uso do Facebook não seria gratuito. Ou seria apenas para os utilizadores que cumprissem com um mínimo de posts e fotos mensais. Também é possível que o Facebook discriminasse por utilizador, cobrando mais pelo acesso aos utilizadores mais populares. Por exemplo, a leitura dos "textos" do Waddington seria paga assim que atingisse os mil "likes". Se isso seria bom ou mau, são outras conversas.

Claro que agora não existe razão nenhuma para que isto venha a suceder. O Mark Zukenberg enche-se de nota, o povo vai cuscando e o Waddington mostrando que o cérebro é acessório. Toda a gente contente, portanto. Mas só por agora. 

Voltemos ao início, e vejamos que menos de 6 mil macacos fazem funcionar uma empresa cotada em 100 mil milhões. Mesmo que cada um destes consiga suportar dez pessoas (família directa, café da esquina, etc) o que vão fazer os restantes 300 e tal milhões de pessoas nos USA? Ou dito de outra forma, como é que eles vão ter dinheiro para comprar o que os anunciantes no Facebook lhes querem vender ?

O argumento do Jaron Lanier é que o sistema actual não é sustentável, exactamente porque o valor da informação que os utilizadores colocam no Facebook não é contabilizado e lhe permite ter a capitalização em bolsa que tem pois parece criar valor magicamente. Mas não existe nada de mágico nisto, apenas os operários que não são pagos pelo trabalho deles.

Pode-se argumentar que é possível a um indivíduo fazer lucro com o Facebook, vendendo apps ou criando uma reputação que depois utiliza para vender livros/sabonetes/cd's/productos bancários.

Sim, mas o Facebook tem o poder de cancelar as contas de quem bem lhe apetecer e quando bem lhe apetecer. E só há espaço para meia-dúzia de estrelas, sendo o resto obra de graça. Em futebolês, só há espaço para meia-dúzia de Ronaldos o resto são Luís Filipes.

Ao sétimo dia, os quatro cavaleiros do Apocalipse cavalgaram o Facebook e sopraram as suas trombetas de fogo.

In sum, our analysis reveals an intriguing and unexpected observation on the connection between readability and the literary sucess - that they correlate into the opposite directions.

Ou na espantosa versão do cada vez mais espantoso tradutor do Google:

Em suma, a análise revela uma observação intrigante e inesperada sobre a conexão entre leitura e o sucesso literário - que se correlacionam em direções opostas.

Curiosamente, o tradutor não identifica readability como legibilidade (do texto), e adopta (ai) automaticamente a bela, simples e eficaz expressão "leitura", a não ser que se informe devidamente o tradutor com o conceito de legibilidade (uma palavra horrível) traduzindo a expressão, fora do contexto, o que significa que a língua portuguesa mantém, muito justamente, dificuldades com termos que em nada nos ajudam a sermos pessoas espetaculares.

Aqui fica o mote para o estimulante artigo sobre previsão do sucesso literário que nos garantirá esta semana a oportunidade para lançarmos uma estratégia de contra-fogo em relação a cursos de escrita criativa, oferecendo nós, de forma inteiramente gratuita, o nosso curso de escrita criativa em vinte minutos, a fazer circular graciosamente por esse magnífico albergue espanhol, o Facebook.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Pessoas do facebook, causas nobres, co-adopção e mangalhos: não há nada que o humor não resolva, a não ser problemas de inteligência e domínio da linguagem escrita.

Era do conhecimento mundial e inter-galáctico o facto de algumas das referências do humor nacional serem pessoas de um gabarito mental, cultural, intelectual e até mesmo coisa e tal, com prova de competência e génio cabalmente dada em todo o mundo, excluindo o estrangeiro - para citar um poeta popular minhoto - mas ninguém estava preparado para a demonstração de inteligência, classe, elegância, sabedoria política e consistência, protagonizada por dois dos mais promissores, que digo eu, dois dos mais seguros valores da comédia, que digo eu, dois dos mais estabelecidos pilares do teatro mundial. A inigualável intervenção foi feita a propósito da mais recente e fundamental polémica, o referendo (referendo) a propósito da liberdade de adopção por casais homossexuais (é isto?) aprovado na Assembleia da República pela nojenta coligação CDS-PSD.

É verdade que existem matérias controversas na sociedade, e divergência de valores relativamente a coisas absolutamente irrelevantes como a utilização das vantagens oferecidas pelos meios de comunicação de massas a certos indivíduos, mais tarde protagonistas de campanhas publicitárias a cargo de instituições financeiras que, como é do domínio público, têm sido de uma competência, justiça económica e previsão de perdas, da mais rígida e inflexível deontologia. Devo dizer que algumas dessas instituições, tanto bancárias, como de comunicação de massas, têm merecido a honrosa colaboração dos nossos jovens humoristas, que a classe média, os professores, as pessoas de cultura (pilares da nossa pátria, sustentáculos do desenvolvimento industrial, científico, e coiso e tal) seguem com humilde e generosa afeição (como em seguida se fará prova) sendo as mesmas respeitáveis, e generosas, instituições colaborantes e mecenas dos nossos promissores talentos. Os jovens atores são por isso, e justamente, financiados pelo regime fiscal da nação (onde se incluem pretos, homossexuais, ciganos, economistas, jornalistas e até sócios do Sporting) sendo as referidas instituições, tanto bancárias, como de comunicação de massas, note-se, totalmente alheias aos problemas por que passa o país, instituições que tão justamente têm sido denunciados pelos nossos jovens humoristas, é bom lembrar, nos intervalos dessas mesmas instituições financeiras despejarem as betoneiras de dinheiro no seio das referidas instituições, tanto bancárias, como de comunicação de massas, isto sim, um abençoado e gloriosamente chavascal badalhoco. Agora, aprovar um referendo popular sobre uma matéria política de interesse coletivo? Consultar as pessoas? Isto é típico do mais retorcido fascismo. Quero dizer, no entanto, que o importante aqui não é a matéria em apreciação, mas sim o estilo e a sabedoria dos nossos coerentes e vigilantes humoristas, monumentos vivos à vitalidade democrática e ao saudável culto da cidadania.


Escolho dois exemplos de esforço, competência e abnegação. Em primeiro lugar, Gonçalo Waddington - um génio da palavra e do mangalho verbal - e concluirei com uma pequena nota sobre Bruno Nogueira - o pernilonga de uma generosidade sem limites que gosta de fazer humor inteligente perante pesos pesados da nossa pátria como Margarida Rebelo Pinto ou jovens inconscientes do Facebook - e toda a gente sabe como são perigosos, poderosos e letais os jovens inconscientes do Facebook. Comecemos por esse surto viral, de uma esfusiante competência linguística, acuidade crítica, humor fino, poderoso, crítico e inteligente, espalhado por todas as pessoas de bem, nas redes sociais, da autoria de Gonçalo Waddington, um texto agraciado com 33 mil 181 likes, com o qual fui confrontado, e em muito má hora, pois desde então, deixei de chamar a mim mesmo pessoa esclarecida que escreve, pois não sou digno de passar os olhos pelo seu Facebook :


Acho que os deputados do PSD deveriam encontrar-se todos em casa de Passos Coelho e dividir-se em dois grupinhos, meninos para um lado e meninas para o outro, distribuir os peluches que haverá lá por casa (pelos ditos grupos) e brincarem aos papás e mamãs. Mas brincar à séria!, com coiso-no-coiso e cena-na-cena, e boca-no-coiso e cena-na-boca, e dedo-na-cena e coiso-na-mão.
"Afinal, não é assim tão diabólico, isto de arrefinfar com malta da mesma equipa!", dirá um. "Realmente, tens razão! Estou confusa." dirá uma laranjoca. E concluirá Passos Coelho, o flósofo: "Camaradas, eis a verdade dos factos: jogar ao tira-mete, ao saca-põe, ao toca-aqui-e-não-digas-que-é-inconstitucional, ao rega-me-com-a-lei-branca, à malha-e-esgalha, ao arrefinfa-com-pau-de-sebo-mas-não-escorregues-antes-de-mim, à barbie-badalhoca, à carlota-cambalhota, e todas essas brincadeiras que antes pensávamos serem fruto do demo, não passam, afinal, disso mesmo: brincadeirinhas.


Gosto da ideia de arrefinfar com malta da mesma equipa e é uma pena não ter sido deixado claro pela prodigiosa inteligência de Gonçalo Waddington, se aqui se refere à equipa política ou à equipa de preferência sexual, não sendo para o efeito inteiramente decisivo, pois julgo que o argumento principal é tentar imaginar a bancada do PSD a protagonizar cenas de sexo selvagem, em princípio entre pessoas do mesmo sexo, e com peluches pelo meio (eu preferiria algemas, sapatos de salto, meias até à coxa) mas reconheço que os peluches não devem ser descriminados no que respeita ao sexo e tenho-me perguntado o que será de TED, o urso, na vida adulta, dado o regime de abstinência a que tem sido submetido pela sociedade de consumo. Note-se a fineza do raciocínio lógico e a erudição histórica, quando se associam as brincadeiras alegadamente sugeridas aos  mefistofélicos deputados do PSD e o facto dos mesmos mefistofélicos, ignorantes, bezerros deputados do PSD padecerem de visões sobre a função sexual, inteiramente associadas a práticas satânicas, quando são só brincadeirinhas, sobretudo quanto metem peluches. No fundo, são só brincadeirinhas. Iluminado por esta ideia, estive durante dez minutos, com um urso na mão, a tentar convencer uma escultural funcionária de uma loja de roupa, a contribuir para uma brincadeirinha que me ocorreu, mas ela não se mostrou muito colaborativa, e, nada contente, ameaçou mesmo chamar a polícia. Das três, uma: 1) ou algo de muito errado se passa com a minha imaginação; 2) ou não se trata apenas de uma brincadeirinha; 3) ou não consegui acompanhar a argumentação do genial ator, e devia ter procurado uma escultural deputada do PSD, a fim de obter a devida companhia para a brincadeira (salvé Marco Paulo).

Isto não é para qualquer um meus amigos, isto só está ao alcance dos predestinados. A diversidade e abrangência da crítica demolidora do jovem ator não tem limites e desfaz inteiramente a repugnante decisão levada a cabo pela Assembleia da República, esse antro de malandragem.

Brincadeirinhas de seres racionais e criativos que, em tempos remotos, descobriram diferentes usos para as suas berlaitas e para as suas podengas, qual cena do 2001: ODISSEIA NO ESPAÇO, em que o primata descobre que ao bater com o osso provoca destruição. Neste caso, confirma-se que o uso das nossas espadas, (e permitam-me a piada, camaradas, "espada com espada também dá uma bela berlaitada!"), ou das nossas covas-do-amor, no caso das camaradas, (e perdoem-me a comparação bélica, camaradas, mas as vossas pachachas fazem lembrar as covas-de-lobo, armadilhas em forma de cone invertido, que o nosso saudoso Dom Nuno tão bem utilizou em Aljubarrota).

Aqui o leitor fica desarmado e sente uma vontade irreprimível de se levantar e aplaudir de pé, onde quer que se encontre, em casa ou na oficina, no estaleiro metalúrgico, com o maçarico, ou na planície alentejana, de foice na mão, no cimo do prédio em construção ou a bordo do cargueiro, é indiferente, pois quem de entre nós se lembraria de relacionar o macaco de Kubrick, agitando o osso da destruição, o poder criativo do sexo, a berlaitada, a teoria da evolução, e uma votação na Assembleia da República? E tudo isto de forma clara, objetiva e estruturada, de forma a que o argumento sobressaia com a clareza de um Shakespeare, que digo eu, Shakespeare está para Wadington tal como uma formiga está para um elefante. Mas preparem-se, preparem-se, pois quando a erudição histórica e a mestria da linguagem se juntam com a indestrutível vitalidade da indignação moral, o poder criativo dos jovens atores (animado por um claríssimo talento para a escrita) desfaz as correntes de aço deste quotidiano austero que nos amarra, e pelas mãos da arte e dos seus mártires adoradores, esvoaça pelo espaço, prometendo aos homens e mulheres injustiçados o dia da libertação. Sim, o referendo será derrotado. Mas enquanto não chega esse dia, demos alimento à nossa inteligência.

Ainda me dói o rim, e aposto que ao leitor também, em virtude dos espasmos causados por essa piada imortal : "espada com espada também dá uma bela berlaitada!". A Revista à Portuguesa, Lá Feria, Fernando Mendes, Marina Mota ponham os vossos olhos nisto, e até mesmo a defunta Ivone Silva, que se levante da tumba, pois Shakespeare não é digno deste génio: estes prodígios não se deviam conspurcar, escondendo sob a capa de um autor bolorento e ultrapassado - que nada lhes dá a ganhar - a verdadeira força criativa da sua pena, pois quem escreve assim não deve temer a cruel foice do tempo. Se não, vejamos. Não sei se notaram (isto não é acessível a todos) mas quando se referem as covas-do-amor associando-as às pachachas das senhoras deputadas (uma coisa só ao alcance dos grandes) está a querer demonstrar-se agora não me lembro o quê, e tenho pena de não estar à altura de Wadington, mas sei muito bem que a ponte analógica entre as covas-do amoras covas-de-lobo, (relembro, armadilhas em forma de cone invertido, que o nosso saudoso Dom Nuno tão bem utilizou em Aljubarrota) está muito justamente a denunciar a ligação entre nacionalismo, marialvismo guerreiro, beatice, genitália feminina, representação parlamentar do PSD, estratégia militar e a discussão pública sobre co-adopção, tudo numa saborosa e biologicamente autêntica caldeira de peixe capaz de desarmar os mais conservadores argumentos. Wadington, incansável, retoma a refrega, animado pelo exemplo de D. Nuno:

Mas, dizia eu, que estas brincadeirinhas, afinal, não nos modificam em nada, camaradas. Continuamos a ser os mesmos canalhas que éramos antes deste encontro pseudo-badalhoco. (Digo pseudo porque, afinal, não me sinto assim tão badalhoco. É pena... Mas o dogma, qual mangalho desgastado pelo exercício, também cai.) O que me leva a pensar o seguinte: Os meus filhos seriam os mesmos anormaizinhos que o são hoje, fosse eu um invertido e fossem eles adoptados. Sim, camarada Poiares Maduro!, serias o mesmo mentiroso de sempre, sendo filho de duas Safos de Lesbos ou de dois Variações. (Quem te dera, camarada!) Nunca saberemos se, ter dois pais ou duas mães, é melhor ou pior para uma criança. Mas, não podemos, à partida, assumir que é mau para os "piquenos".

Não sei se os leitores repararam mas Wadingotn, num golpe de mestre, abandona a influência Pasoliniana (não digo Sade, pois Sade era um repelente aristocrata) utilizando um tom mais introspetivo, comovendo o leitor, ao jeito do gladiador que, após vencer o mal, lambe as suas feridas, e ainda que os dentes possam ainda ranger, sob o efeito da indignação, a certeza de quem está do lado certo da história, permite assumir o canto profundo e cavernoso dos grandes momentos. E então Wadington lembra que mesmo após as mais mirabolantes cambalhotas sexuais, mesmo após termos introduzido todas as partes do nosso corpo em todas as restantes partes do corpo dos outros, nunca se tratará de badalhoquice, pois continuamos a ser os mesmos, e é bonito ver como este bonito pensamento, que em tudo se relaciona com os problemas da co-adopção, fica a ecoar nas nossas mentes: os canalhas deputados do PSD serão sempre os mesmos canalhas, mesmo que se entreguem a relações sexuais uns com os outros. Onde já se viu profundidade de raciocínio como esta, em matéria de decisão política? Aliás, é visionário o nosso ator quanto compara o dogma a um mangalho (e não entro sequer nas delícias da aliteração). Mas ó excelência da ironia, Gonçalo Waddington, o libertário, permite-me apenas destacar um tipo de mangalho que nunca se desgasta, nem quando submetido ao mais recorrente e sistemático exercício: a inteligência das pessoas ditas da cultura. Com efeito, estão sempre prontas a sacrificar os seus mangalhos criativos em defesa das causas nobres, e sempre recorrendo aos mais inteligentes e eficazes poderes da linguagem, essa matéria incandescente dos poetas, que todos amamos e na qual gostamos de nos lambusar, não fosse um isso uma enorme badalhoquice, que é, como todos sabem, um monopólio dos deputados do PSD. Depois, veja-se com que elegância chama mentiroso a Poiares Maduro, sugerindo, com pensamento de lince, a reles condição do constitucionalista (ou lá o que o gajo é, confesso que não sei) pelo facto de não ter beneficiado da convivência com pessoas escolhidas por um critério de preferência sexual. Não julgue o leitor distraído que Wadington entra aqui em contradição, incapaz de manter a consistência lógica de um raciocínio durante mais de trinta segundos. Não, está apenas a passar uma certidão de incompetência a todas as pessoas do PSD que não convivem com a poesia de Safo e a música de António Variações, uma pessoa que vestia manifestamente mal, mas seria muito incorreto entrar por aí.

Por fim, o desarme, a característica dos grandes génios: após insinuações sobre a pachacha das senhoras deputadas (algumas com idade para serem mães de Gonçalo Waddington, um pormenor neste terreno da igualdade e do combate por causas fraturantes) e sobre o mangalho dos senhores deputados, Waddington recorre à linguagem do Batatinha (como sabem, um famoso artista de circo) e sugere, com a humildade que o caracterizou ao longo de todo o texto, que não devemos à partida considerar que ter dois pais ou duas mães, é melhor ou pior para uma criança e qual Séneca do século XXI, remata com um aforismo:

 Seríamos tão mais felizes se fodêssemos mais e melhor.


Haverá leitor capaz de discordar disto? Bem, no meu caso, depende do parceiro, pois julgamos que o desespero masculino não chega a esse ponto. Em todo o caso, há um problema relacionado com rendimentos marginais decrescentes, e tenho algumas dúvidas sobre a exata localização do ponto ótimo entre o mais e o melhor no que respeita a sexo, mas uma coisa é certa: se fodêssemos mais e melhor (e encontrada a eficiência do modelo tendo em conta as variáveis a)felicidade, b) mais e c) melhor) é seguramente uma verdade indesmentível que teríamos com certeza menos paciência para irrelevâncias e artistas medíocres, o que, sem dúvida, não abona a favor da minha pessoa. Não posso terminar sem referenciar, justamente, o outro génio do teatro nacional, Bruno Nogueira, um homem capaz de envergonhar Garrett.

No seu Facebook escreveu:

A ideia de que qualquer membro da bancada PSD pode adoptar uma criança não deixa de ser constrangedora. Isso sim, merece um par de referendos.

Repare-se no fino tratamento do português, na sintética potência das ideias: duas frases como dois chifres perseguindo o nojento toureiro social democrata e democrata cristã, dois murros no sofisma político, numa palavra, um artista. Entretanto, no meio dos mais variados elogios, um aluno de Liceu, chamado Afonso, escreveu a seguinte atoarda: 

achas bem a paneleiragem adoptar crianças?

Vergonha das vergonhas, os alunos do liceu a dizerem tolices, onde já se viu? Isto é intolerável, isto merece uma correção, isto é digno de uma resposta em conformidade. Que podia fazer Bruno Nogueira senão responder à altura? Julgam que ignorou esta violenta crítica de consequências devastadoras? Julgam que respondeu de forma irónica, desmontando o insulto gratuito e a falta de educação? Julgam que respondeu de forma cordial, mas fazendo ver a injustiça e a leveza deste tipo redução patética? Não, nada disso, Bruno Nogueira, com a inteligência que o carateriza, apontou direito à cabeça da hidra, anónima e repugnante, e decepou-a:

Bruno Nogueira Oficial Afonso, acho bem pessoas como tu sofrerem de morte súbita, por exemplo.
São gostos.


Com criadores deste calibre, Portugal está salvo, e os badalhocos parlamentares não tardarão a ser confrontados com a justiça, pois é difícil encontrar um meio de comunicação de onde não saia, vigilante e generoso, um potente humorista, sempre abrangente, sempre com soluções, sempre coerente, sempre fundamentado no seu raciocínio político, sempre elegante, sempre profundo. Até admira que exista quem tenha medo do futuro.

 

Eu cá prefiro o eixo luso-soviético.


quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

O ponto do espaço e do tempo em que Portugal se encontra com a América:

é isto o luso-tropicalismo.

Oblak, Markovic e o trabalho científico de Nabokov: longa reflexão para afastar quem procura entretenimento.

Por razões que escapam ao nosso controlo estivemos envolvidos numa irrelevante troca de comentários com o cidadão Daniel Oliveira, mas cumpre notar que o sobressalto cívico responsável por esse importante choque de titãs se deveu precisamente a diferenças de visão no que respeita aos meios de comunicação de massas. Quem são as massas? Não sabemos. Mas sabemos quem são e o que representam os órgãos de comunicação. O leitor assíduo deste blogue sabe como, em primeiro lugar, o nosso propósito se confunde com a perseguição de todas as simplificações, e em segundo lugar, com uma declaração de guerra ao determinismo lógico falacioso, nomeadamente, o praticado por todas as pessoas que sendo amplamente beneficiárias da sua própria passividade crítica em relação às estruturas do meio (trau), sorridentes e obedientes em todos os locais e perante todas as pessoas capazes de garantir um mínimo de audiência, de público, numa palavra, de rebanho, aparecem depois com ambições de propriedade no domínio da crítica (da mais variada crítica, note-se, do cultivo do rabanete à distribuição do mérito no subsídio agrícola) pessoas com carteira profissional de jornalista e tudo - e já se vê que estou a generalizar de forma voluntária e excitantemente viril -, pessoas capazes de emergir em ecrãs de televisão atirando sobre os mais fracos, o povo, sabujo, serôdio, encardido, o povo, sim, o povo, que mais não faz do que aproveitar as escassas oportunidades de prazer que lhe são facultadas, contribuindo, aliás, de forma absolutamente graciosa, para o material que depois é servido pelo preço da nossa dignidade, em tudo quanto é terminal de propaganda, perdão, de informação, controlado pelos nossos estimados especialistas da mediação. Ainda ontem o graciosamente vesgo Nuno Markl (esse hino à sucessão geracional do poder) atirava pela enésima vez contra a delicada e lampeiramente elegante Bernardina. Markl, e se te metesses aqui comigo e deixasses a rapariga em paz? Mais perigoso não é? Pois é.


Perguntará o leitor, torcendo neste momento o seu nariz adunco: alf, mas os coitadinhos dos jornalistas e dos humoristas têm poder? Sim, meus amigos, sim, mais do que se pensa, e mais do que os políticos, com certeza, basta confrontar o político mais bem pago com o jornalista ou humorista mais bem pago. Ora, é importante fazer notar, a todo aquele que pretende ocupar o seu lugar solitário na corrente do mundo (e o convite fica desde já lançado a todos os senhores jornalistas) que o que não falta são esquinas abandonadas, nomeadamente, a solitária e suja esquina deste blogue, onde se pode disfrutar de um olhar melancólico, profundo, absolutamente estéril de reputação (por enquanto, graças a deus) mas assim como assim, consistente e firme, engrossando o ponto de vista de todos aqueles que sabem que o mundo é anónimo, e apenas (o que não é pouco) um imenso manicómio teatral, desconhecendo o ser humano quase todas as coisas em geral sobre o mundo (por enquanto) e quanto mais esta evidência da nossa incapacidade de compreensão for tornada dominante, mais condições teremos para desenvolver o nosso discernimento. Anónimos de todo o mundo, uni-vos.


Num livro já não muito recente, intitulado O Cisne Negro (não, não é o belíssimo filme) o grande maluco libanês, Nassim N. Taleb , fez questão de lançar uma devastadora crítica à incompetência narrativa com que os meios de comunicação (sim, sim, são os únicos culpados) e o meio Académico em geral (sim, sim, são os ogres deste nosso mundo) reduzem a complexidade do real a modelos ridículos e simplificados, ou a narrativas travestidas de travejamento lógico, com o estranhíssimo objetivo de não se sabe o quê.


Tudo começou com a generalização do mecanismo narrativo: nascimento, luta, adaptação, morte, sobrevivência dos filhos, luta, adaptação morte (e assim sucessivamente) aplicado de um forma cega e desinformada a tudo o que mexe. Como é domínio coletivo, a começar por todas as meninas que atualmente frequentam estudos secundários nos liceus deste país, a redescoberta da genética de Mendel, depois de 1900, permitiu redescobrir duas abordagens em torno da evolução, a começar pelos seres humanos, mas incluindo também os economistas, os professores de toda a índole e os jornalistas, podendo simplificar-se essas duas linhas de investigação entre: a) o estudo da sucessão dos vários organismos; b) o estudo do mecanismo que possibilita as transformações evolucionárias. As consequências deste facto dificilmente podem ser sobrevalorizadas já que esta simplificação nos possibilitou, ao longo do século XX, adaptar aos problemas humanos b) a dimensão histórica da inteligência humana; e a) a dimensão fisiológica do comportamento humano, o que para o homem inteligente deveria começar por representar a colocação da simples questão: quem sou eu e o que estou eu aqui a fazer? Bem, sabemos que o agente da mudança é a seleção natural mas entretanto, de Jorge Jesus a Daniel Oliveira, de Tolentino Mendonça a Zezé Camarinha (aliás, dois tipos do mesma espécie discursiva, a sede de beleza) todos temos uma visão da eficácia da natureza, quase sempre baseada numa síntese esconsa e rudimentar da delicadíssima filigrana de cristal que é o conceito de evolução enquanto mecanismo de explicação científica. E aqui a multidão divide-se entre a aceitação (caso do mais sabujo pensamento económico clássico, sem que se perceba o que economizam, de facto, as leis da economia clássica) e a recusa (caso de todas as religiões da lentidão, da proteção dos mais «fracos», o que quer que isto signifique, e da recusa do progresso, à proteção dos mais fortes e defesa da competição) de uma hipotética propensão do homem, do ambiente, das instituições, da natureza, para evoluir. Mas evoluir para onde e a partir de que critérios?


Foi precisamente a dificuldade em resolver problemas deste género que levou uma criança, nascida na Ucrânica em 1900, Theodosius Dobzhansky, a colecionar borboletas, primeiro, e a tornar-se depois biólogo numa Universidade Americana, procurando quebrar a tirania da química na explicação dos fenómenos para voltar a impor aos humanos uma organização teórica, estável e generalizável ao conjunto da história natural sobre as causas das formas existentes no mundo. Ora, a grande Rússia era nesta época, muito por influência do germanismo de uma parte da sua aristocracia, a grande exportadora de cérebros envolvidos no amor da natureza. Basta pensar no jovem herói, médico e estudioso de sapos, do romance de Ivan Turgueniev, Pais e Filhos, ou no alemão zoólogo que publicou vários volumes sobre uma minhoca qualquer do lugarejo onde decorre a ação do genial e inesquecível  Um sonho do tio, de Dostoiévski, ou no naturalista irritantemente alemão, sempre a moralizar em torno da disciplina dos fortes, de O Duelo de Anton Tchékhov, ou ainda no jovem revolucionário do Petersburgo de Beli, Nicolai Apollónovitch, que conhecia todas as aves e tinha lido todas as obras de Dimitri Kaigorodov. A Rússia preparava-se para o desenvolvimento da genética experimental no contexto da história natural e por isso misturava, como nenhuma outra sociedade, os conteúdos formalizados da biologia como um teoria da causalidade das formas biológicas mas este salto era, como teima em continuar a ser, um verdadeiro salto mortal onde acabamos todos por partir a espinha por não fazermos a mínima ideia acerca da relação entre a hereditariedade e a adaptação a nichos ecológicos. São muitas variáveis em movimento. É mais fácil fazer rodar copos nas voluptuosas ancas.


Dobzhansky, o melancólico compatriota de Nicolai Gogol, lembraria as espantosas viagens noturnas entre S. Petersburgo e Moscovo, curiosamente a mesma linha onde Ana Karenina colocaria um ponto final na sua atormentada existência. A razão pela qual Karenina decidiu ir ao encontro da morte podia colocar-se em termos de adaptação (mas por razões de humildade intelectual, devemos abster-nos dessas piruetas). A verdade é que os problemas da decisão de Ana Karenina continuam a mobilizar as mentes de todos os críticos profissionais, desesperados por fazerem prova da sua competência profissional, e dos leitores emocionados, desesperados por fazerem prova do tempo de leitura bem empregue, e não falo dos que buscam encontrar, na pior das hipóteses, a confirmação de uma correta decisão, ai de nós, em situação análoga, na sua própria vida. No meio do imenso barulho das nossas sociedades mediatizadas, quero reclamar do leitor um entendimento prévio: a diversidade parece ser o facto primacial da natureza e advém da dispersão das linhagens dos organismos, provocando a descontinuidade na natureza. De resto, que podemos nós saber acerca dos nossos comportamentos? Calma meus amigos, calma, pois não estamos a conseguir lidar com esse facto, e parece existir em nós uma rejeição patológica dessa evidente descontinuidade. Agarramos, de forma ridícula e imperfeita, a noção setecentista da igualdade, e teimamos em não reconsiderar o problema. Antes de ser confrontado com acusações de eugenismo, racismo, benfiquismo, e outras formas mais subtis de insulto, clarifiquemos o argumento. Ñão há razões para alarme: as variações (das mutações genéticas e cromossomáticas) são copiosas mas de pequeno efeito, porém, não aleatórias (trau). Julgo que o detonador explosivo do problema se encontra neste valioso conceito: aleatório. Depois da descoberta da mutação do mundo e do enterro das categorias aristotélicas (com o adeus à Igreja, cujos efeitos chegam até aos sorrisos ternurentos e fúnebres do Papa Francisco, até sempre metafísica cristã) estamos a tentar brincar com este novo feitiço: a aleatoriedade. Nas palavras «gregas» do grande Dobzhansky: «As tentativas para compreender as causas e a significância da diversidade orgânica têm representado esforços continuados desde a antiguidade; o problema parecer ter um irresistível apelo estético, e a biologia deve, em parte, a sua existência a este apelo».


A descontinuidade das formas foi associada à descontinuidade dos nichos ecológicos onde o organismo desenvolve a sua sobrevivência. Deste modo, e segundo os biólogos convencionais, a descontinuidade não é uma função da história mas um reflexo da adaptação topográfica sob o constrangimento da genealogia. Era esta a síntese de dois dos mais brilhantes escritores em língua inglesa na primeira metade do século XX,  Dobzhansky, no elegante e profundo Genetics and the Origin of Especies (1937) e Mayr, no enciclopédico e algo superficial Systematics and the Origin fo Species (1942). Ora, todo o trabalho científico de Vladimir Naboko surgiu precisamente na época em que se construía esta solução. No recentemente publicado Notes for talk «A Genus of Blue Butterflies», escrito em 1944, Nabokov pretende refutar o conceito de espécie desenhado poucos anos antes, regressando ao critério empírico e morfológico da tradição oitocentista. Desautoriza, sem pestanejar (mas com o zelo bizarro do especialista amador) as considerações de Mayr sobre borboletas, considerando-o um ornitólogo, como na verdade era, e recusando-se a reconhecer a Mayr direitos gerais de cátedra sobre outras realidades naturais. Nabokov, obcecado com a forma, pretendia um conceito de espécie que fosse um conceito relativo, embora respeitasse e aceitasse a massiva iluminação científica detonada por Mayr e Dobzhansky. Oiçamos o próprio Nabokov:

"(...) os autores de língua inglesa introduziam na nomenclatura modificações que resultavam da aplicação estrita da lei das prioridades e de modificações taxonómicas baseadas no estudo microscópico dos órgãos. Os alemães (e em parte os russos, acrescento eu, alf) fizeram o possível por ignorar as novas tendências e continuaram a alimentar o lado filatélico da entomologia. A solicitude que mostravam com o «colecionador vulgar, que não disseca», pode comparar-se à dos excitados editores de romances populares com o «leitor vulgar» - a quem não pedem que pense". (Fala, Memória, de Vladimir Nabokov, na magnífica tradução do magnífico Aníbal Fernandes, lembre-se, o fiel tradutor de um dos pináculos da criação literária universal, Moby-Dick).


Resumindo: a instrumentalização que julgamos fazer da realidade, recorrendo a um resumo esconso e superficial da evolução, deixa intocada a complexidade do mundo e como reação, em vez de tentarmos outra vez, arriscando-nos a reconhecer a infinidade de coisas que desconhecemos, damos por nós a construir modelos, a prever tabelas, e a interpretar o jogo, como grande metáfora da vida. Nada mais errado, as regras de um qualquer jogo são relativamente estáveis e não permitem colocar este tipo de problemas. A informática ensinou (ei, pessoal do Ipad) que a inteligência humana depende de uma capacidade limitada de computação, mas cuja força está na modificação das regras de produção de regras, logo, esqueçam os modelos e pensemos com maior jogo de cintura.


Até há pouco tempo, estava convencido de que os médicos eram os sacerdotes do século XXI. Enganei-me, pois os médicos, apesar de tudo, têm um método, e por isso, têm instrumentos, ficando menos dependentes da construção de falácias, em linguagem popular, fraude. Os verdadeiros sacerdotes do século XXI são os jornalistas e insistem em intelectualizar, domesticar (risos) o aleatório, hierarquizando a informação com base em políticas editoriais (risos) critérios jornalísticos (como?) enquanto fazem um profundo silêncio sobre todas as conquistas intelectuais consistentes e fundadas, cépticas e empíricas. Olhemos agora para esse fenómeno imortal, típico do século XX, não o amor ao jogo, não o amor aos brilhantes praticantes do jogo, não o amor ao facto maravilhoso de sermos um corpo, mas a narrativa jornalística em torno do futebol, enquanto espaço passível de atribuições de mérito ou relação causal.


O jogo de Domingo, entre os onze Eusébios e o conjunto de bonecos de cera com o uniforme do Futebol Clube do Porto, mostrou amplamente como é difícil encontrar no jornalismo, escrito, falado, filmado, qualquer frase inteligente. Cabe-nos a nós avançar algumas certezas. Lazar Markovic, o mais feminino de todos os jogadores de futebol profissional do mundo ocidental, assinou uma exibição taurina e chegou mesmo a desafiar o cigano Ricardo Quaresma para uma luta de facas, obrigando a que este recuasse, latindo silenciosamente e procurando depois a solidão da linha lateral para refletir nos limites do conhecimento humano.


Lazar Markovic, ele próprio um tratado de imprevisibilidade na relação com os corpos, parece muito pouco preocupado com a existência de lógica no futebol, enquanto atividade sujeita às leis naturais e basta observar o passe para o primeiro golo de Rodrigo, mormente, o momento em que a bola, com a mesma naturalidade com que as máquinas dos cafés libertam os brindes num soluço bizarro, é libertada dos seus pés, num efeito espiralado deslizante, bastante irregular, de tal forma que a mesma bola desacelera, depois de ultrapassar o confundido Danilo, defesa do Porto, no preciso momento em que Rodrigo, jogador do Benfica (um brasileiro espanholado, uma coisa de si já bastante esquisita) desfere um golpe violento no esférico.
 

 

No segundo momento fundamental do jogo, Joaquim Mangala, o internacional francês aduzido nesta imagem recolhida depois de um movimento estranho do próprio Joaquim (a inclinação da cabeça e uma saudação envergonhada de mão esquerda erguida contra a bola rematada por Nejmanda Matic, um internacional sérvio em forma de gigantone) dizíamos nós, Joaquim Mangala demonstra nesta imagem a grande inquietação, tentando antecipar a trajetória do esférico com pulinhos assustados e irrequietos.

 
Joaquim Mangala está num momento particularmente doloroso do jogo e tem já estampado na face o horror do confronto moral. Entre a penalidade cometida, segundos antes, ao intercetar com a mão, e infringindo as leis do jogo, o referido remate de cabeça, e sentindo que o destino vai ser severo para consigo, começa, portanto, uma queda interior, visível no estreitamente das pálpebras e no entreabrir dos lábios, isto muito antes do momento aleatório já em desenvolvimento, que irá culminar no instante em que Ezequiel Garay se atira, com rigorosa acuidade, para intercetar a trajetória da bola e aplicar, com a testa, um violento golpe de cabeça, após carambólico choque entre Helton, o guarda-redes, e o próprio Joaquim Mangala.
 


 
 Nesta sexta estação, contemplamos em silêncio o sagrado coração do maior guarda-redes a atuar em Portugal desde Costa Pereira, o cinematográfico Oblak, neste momento preparando-se para encaixar a bola com a mais desarmante tranquilidade.
 



O material aduzido, quando fotografado, e interpretado após o conhecimento das trajetórias, permite conclusões consistentes e significativas. O problema é que a vida é como um campo de futebol sem linhas laterais e finais, sem árbitro e com várias bolas, que não apenas os testículos do Ronaldo, em movimento. Analisemos agora vários tipos de indivíduos, praticantes esmerados da falácia narrativa, observados no seu ecossistema, a televisão portuguesa, entre as 18h00 e as 20h00 de Domingo. Antes de mais, uma palavra de apreço no que respeita ao génio do comentário desportivo português, Carlos Daniel. Ainda que as suas previsões sejam quase sempre envolvidas numa esmerada capacidade de relacionar os factos mais díspares, Carlos Daniel não recorre a quantificações, embora utilize expressões repugnantes do género «bloco baixo» e «entre linhas», expressões que, por qualquer motivo, remetem sempre para qualquer coisa de cariz anatómico ao nível da mulher. Em todo o caso, pode mesmo dizer-se que Carlos Daniel é o único que, de facto, arrisca previsões, expondo-se ao ridículo, e mostrando, por isso mesmo, a fibra de que é feito. A sua velocidade de raciocínio ultrapassa de longe, todos os colaboradores da Revista Ler (com a exceção do Rogério Casanova, faça-se a justiça), mas ainda assim, Carlos Daniel revela uma tendência mórbida para atribuir mérito ao sucesso desportivo, uma coisa típica de quem ganha a vida a urdir castelos de falácias, ainda que indubitavelmente rendilhados e elegantes.





Neste caso, estamos diante de um indivíduo autor de um romance espetacular, A Vida Passou Por Aqui, e note-se  a morfologia do espécime Luís Francisco, usando, em substituição do cabelo, uma resma de palha de aço comprada num prestigiada drogaria da baixa Lisboeta, por onde passou a vida mas também várias substâncias corrosivas. A dado momento teceu inteligentes considerações sobre o facto de o jogo do Benfica ser agora de uma natureza completamente distinta da natureza desse mesmo jogo do Benfica há poucos jogos atrás, num gesto de rara inteligência efetuado num programa de rara beleza, esse hino ao valor comercial do tempo televisivo intitulado Contra-golpe. O tema principal do livro de Luís Francisco, segundo o resumo oficial, é uma espécie de confirmação da teoria do efeito borboleta: porque, na teia que é a vida, sempre que alguém puxa um fio, mesmo sem se dar conta, acaba por embaraçar, mais do que gostaria, as vidas alheias… Puxemos então o fio, a ver se a teoria se confirma, e se nos chega aqui qualquer coisa, um insulto, uma ameaça, um elogio, qualquer coisita, Luís Francisco.



Descendente do ilustre médico e curandeiro involuntário, Sousa Martins, uma pessoa visivelmente perdida neste lagar do mundo. Não tenho mais comentários a fazer.


A sempre jovial menina da imagem, cujo vestuário foi encomendado no alfaiate austríaco de Música no Coração, mantém um relação atribulada com a sua condição de jornalista/apresentadora/animadora futebolística. A sua inegável boa disposição é contagiante, mas por vezes arrisca piadolas de índole narrativa, procurando manobrar a causalidade do sucesso desportivo e nessas ocasiões, Pedro Barbosa, uma pessoa que incorreu na calvície à custa da causalidade do futebol, é forçado a explicar à jovial rapariga que, ainda que as regras do futebol sejam relativamente estáveis, a interpretação não é para jornalistas.



Mulher conhecida por gerar surtos de raiva em funcionários de jardinagem do Hospital de Atenas e parceira de estratégia revolucionária em curso, liderada pelo zarolho Medina Carreira, um antigo oficial de guerra traumatizado pela explosão de um granada, conhecido pelos seus constantes avisos de perigo, quer em situações de ameaça iminente, quer em situações da mais comprovada tranquilidade. No Domingo estava visivelmente abatida. Compreendemos.


Esta senhora esteve durante todo um programa de comentário ao referido jogo (utilizado aqui como estudo de caso, lembro aos leitores que passaram diretamente às imagens) a procurar desconcentrar-me, enviando mensagens subliminares, sorrisos dúbios e convites ambíguos. A propósito, escrevi um conto sobre isto, obra prima da melancolia tecnológica, que em devido momento publicarei.


Agora as conclusões, para os bravos que aqui chegaram. Gostaria de terminar parafraseando mais uma vez Taleb, o libanês: tem-se revelado, aparentemente, mais vantajoso para nós unirmo-nos na direção errada do que mantermo-nos sós na direção certa. Bem se vê como é para mim, e digo-o com sinceridade, motivo para grande preocupação o aumento do número de visitas neste blogue. O idiota assertivo é quem gera  mais seguidores, convém não esquecer, mesmo que  seja um idiota assertivo na sua aparente fragilidade de artista. Não estou com isto a ser ingrato para os que nos seguem, mas gostaria de saber que no meio da imensa colónia de psicopatas desta sociedade da informação, este espaço é uma ilha onde as pessoas têm a coragem de dizer, apesar de muito mas mesmo muito informadas e possuidoras de títulos académicos: não sei, caralho, não me perguntes nada que eu não sei. Vão à vossa vida e sejam muito melhores do que eu, pois não é difícil.