sábado, 31 de março de 2012

Realidade (3)

O rapaz que me leva onde preciso ir, aqui onde me encontro, contou-me que o presidente (dono do pais, palavras dele) tem centenas de casas. Acabou a suspirar que queria apenas um quarto, enquanto se desviava do carro em contra mão. Aqui o BPN é brincadeira.

quinta-feira, 29 de março de 2012

A escola é quem mais ordena


Nada me repugna mais do que a velha e batida técnica de vendas, muito utilizada por Charles Dickens, que consiste, precisamente, em enredar uma dada informação na promessa de que a próxima informação, essa sim, será digna da atenção do leitor e revelará, final e consistentemente, ao que vem o autor de uma referida técnica de vendas. Este recurso desaba preocupantemente para a tautologia, e transforma-se, em 99% dos casos, numa recurva vigarice. Acontece que sou forçadoa fazê-lo, tendo em conta as incontroláveis forças da actualidade. Na verdade, toda a minha iminente obra tem como objectivo, e corolário, não uma entrada para os programas currículares do ensino da língua portuguesa, questão que parece ser o ponto de honra das várias agremiações universitárias e associações portuguesas de autores de expressão escrita, mas sim uma demolição total e consistente de todas as instituições convencionais de embrutecimento, mais conhecidas por escolas.
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Como está careca de saber qualquer pessoa que ultrapassou a fase incial de utilização programática e cibernética do seu sistema nervoso central, a escola é uma merda, e a esmagadora maioria dos professores, apesar da sua nobre e vertical função no sistema constitucional democrático, não passa de um conjunto de pessoas engolida pela sua própria confusão intelectual, totalmente incapaz de domar o problema do conhecimento, que se vê, à semelhança dos sacerdotes, de quem derivam, forçados a um calvário torturante da sua própria existência, que depois resulta em todas aquelas conhecidas jeremiadas sobre a sua importância como educadores e cimento das sociedades do conhecimento. É aliás curioso que não se perceba - e este é o meu comentário à greve geral - que a polícia, quando comparada com a violência institucional de um professor numa sala de aula, é apenas uma pequena e ridícula amostra dos verdadeiros mecanismos que sustentam a suposta violência do capitalismo e da sociedade burguesa.
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Daí que seja curioso verificar (e nisto estou tão distante deste post como de todos os escolásticos) que os críticos do recém e ridiculamente aprovado exame da 4ª classe não tenham suficiente coragem intelectual para levar o exercício de raciocínio até às suas consequências lógicas, concluindo que se os exames e a percentagem de chumbos dos jovens até aos 15 anos é um autêntico genocídio de potência intelectual, o desempenho dos professores no interior dessa mega casa de correçcão e suprema fraude intelectual chamada escola, é uma das mais repugnantes aplicações de energia humana de toda a história da humanidade. A única coisa que não se faz na escola é aprender e a única actividade que é violentamente censurada é a aquisição de conhecimento crítico. De outro modo, como seria possível manter hierarquizada a relação professor-aluno ou como seria possível sustentar uma rede indeferenciada de pensamento que agremia pessoas do ponto de vista das disciplinas do saber? Disciplinas? Avaliação? Professor? Professor de quê ou de quem? É precisamente porque o conhecimento se generalizou e democratizou que a escola se vê obrigada a utilizar todos os meios terroristas de que dispõe para continuar a fingir que responde à necessidade de conhecimento. Apenas as diferentes velocidades de hominização e as regressões primatológicas explicam que haja pessoas, tais como o Nuno Crato, convencidas de que a televisão e as «tecnologias da informação» são compatíveis com a escola e seus métodos medievais de certificação da ignorância generalizada.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Doce morte, irmã do sono.

Um dia ainda hei-de explicar porque razão é perfeitamente natural e correcto que a literatura se tenha metamorfoseado em merdas como esta. Como qualquer mecanismo selectivo, a comunicação escrita tem vindo a perder parte do seu impacto distintivo com o facto da maioria dos animais em competição ter aprendido a tornar-se «escritor». Imediatamente, a institucionalização do disposivitivo autor começou a perder a sua funcionalidade, e depois de um período de ouro, entre finais do século XVIII e meados do século XX, digamos, entre Swift e Virginia Woolf, em que o autor se confundiu com a distinção, neste momento, parece estar a processar-se, com a redução do custo de produção dos meios de comunicação, um fenómeno de aceleração da banalização da autoria, e já não faltará muito para que apareçam anúncios no jornal a pedir candidatos desesperados para desempenharem o papel de autores em literatura.
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Claro que a relação entre a qualidade da maioria dos jogadores e os jogadores de top é muito complexa, e tal como a idolatria de Cristiano Ronaldo é directamente proporcional aos milhões de crianças que jogam futebol em todo o mundo, também na escrita foi precisamente a massificação do autor que começou a tornar o escritor numa vedeta. Porém, tal como na maravilhosa vida orgânica, em qualquer nascimento, estão já presentes as sementes da destruição, razão porque Horácio dizia, com propriedade, que há lágrimas na Natureza e uma profunda tristeza no âmago das coisas. Como a função autoral nasceu como experiência particular e exercício de autoridade, ou de técnica específica no domínio do expressão escrita, não vejo como se integrará um desejo de individualização («a voz própria» de que mistico-gasosamente falam os autores que nada têm para dizer e por isso precisam de voz própria) com o movmento centrífugo da indústria de massas.
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Todas as fracturas, em torno da oralidade na escrita e da cristalização de modos abjectos, ordinários e democráticos de discurso, que aqui temos abordado, não é mais do que a confusão entre autores que querem ser eles próprios mas que não deixam de querer chegar ao maior número possível, à puta universal a que se chama de forma elegante, um clássico. Porém, o que este autores de merda desconhecem é que o clássico, é precisamente o que contraria o universal do seu tempo (penso que era isto que queria dizer quando me referia ao génio maldito) e por isso se torna referência crítica para o futuro. A sisudez com que qualquer autor auto-consciente enfrenta o processo de «publicação» da sua obra é a mais clara manifestação deste problema, de Melville a Pessoa, passando por Joyce e Proust ou se quiserem Calvino e apostaria o olho restante de Camões em como qualquer escritor fértil e inteligente a quem fosse dada a possibilidade de subsistir, sem se preocupar com bens de primeira necessidade, fornecendo-lhe uma renda digna, não publicaria uma palavra mas deixaria, arrumadinhos e atados com um cordel, em cima de uma magnífica mesa de trabalho, todos os seus manuscritos, prontos para enfrentarem o único e verdadeiro tribunal dos discursos humanos, aquele que é constituído pelas diferentes gerações de escritores brilhantes, ao longo dos séculos.

terça-feira, 27 de março de 2012

Realidade (2)

Um papel impresso tem mais valor que mostrado no ecrã do computador. Que o diga o segurança onde estou.

Realidade (1)

Por falar em realidade, ontem vi aqui três crianças no meio do lixo. Pareciam felizes.

Cada jornalista vergastado representa um bem inestimável.


Sou mais uma vez forçado, contra minha vontade, a derramar uma explicação cabal da estupidez que graça no país. Mas antes de mais, atiremos pela janela o argumento antero-queirosiano, isto é, deitemos fora o argumento da decadência geográfico-social. Já ninguém suporta o parasita do Eça de Queiroz (de luneta e cabelo oleoso a mendigar secretarias para, numa invejável posição a que quase mais ninguém em Portugal depois dele teve acesso, numa tão grande proporção de talento e tempo, desperdiçar essa oportunidade com uma produção gigantesca onde apenas se salva um obra prima «A Ilustre Casa de Ramires», uma obra assim-assim «Os Maias», um grande livro «A Relíquia», e o principal monumento em prosa portuguesa «os textos jornalísticos», a que estupidamente chamaram Cartas de Londres e de Paris, para os esvaziarem da sua dimensão política), sim, repito, já ninguém suporta Eça de Queiroz, uma espécie de antepassado da parva da Maria Filomena Mónica, apenas dela divergindo no talento, porque a reprodução das relações com os livros estava naquela época muito mais liberta da influência da reprodução das relações com a distinção social, sendo, desse modo, largamente possível que uma pessoa genial tivesse acesso aos meios de comunicação, pois os labregos, os inúteis e abjectos, filhos da classe alta, e da classe média alta, estavam todos entretidos com tarefas ainda consideradas nobres, tais como a política, o exército e a agricultura. Na verdade, não existe entre nós nenhum processo de decadência: existe apenas a tranquila e gloriosa continuação secular de um território político-jurídico formado com o patrocínio moral da Igreja Romana (só podia dar merda) encaixado numa faixa atlântica que pratica uma economia de subsistência pouco especializada, com condições climáticas favoráveis, e poucos e maus meios de comunicação (uma tragédia a que somos alheios - dada a nossa pouca responsabilidade no alinhamento das cordilheiras, rede hidrográfica e depressões - e que veio a desembocar nas tão famosas auto-estradas).
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Portugal é uma formulação histórica que corresponde a movimentos tão complexos que dificilmente conseguimos saber do que falamos quando falamos de Portugal, à semelhança de qualquer comunidade nacional, e daí parte da crise de coordenação entre a produção de instrumentos técnicos, de proveniência muito variada), e os sistemas de negociação de direitos de propriedade (definidos pelas antigas fronteiras políticas, constituições, rede de tribunais, escolas). A confiança que depositamos na nossa capacidade de afectar a escolha colectiva, quando essa escolha há muito depende de forças que ainda não compreendemos bem, é da mesma natureza da criança que acha que por efectuar uma determinada acção vai obter, em qualquer caso, o objecto do seu desejo, sem se preocupar com eventuais problemas de causalidade. Eu, que detesto particularmente toda a obra de Wittgenstein, lembro que o austríaco demonstrou logico-formalmente que a causalidade é uma superstição, e que não existe nenhuma necessidade demonstrável na sucessão de acontecimentos. Ora, isto devia ser suficiente para calar de uma vez por todas, pessoas que estando lunaticamente convencidas de que são o Alexandre Herculano, como o Miguel Real, se referem à fortíssima classe média no tempo dos decobrimentos (foda-se, caralho, cona da tia) ou do ímpeto vital no tempo do ouro de D. João V (foda-se, foda-se, fodaaaaaaaa-se). Não existe sequer a mais pequena ideia de como se estrutura a monetarização de um espaço político, muito menos das consequências do alargamento da utilização da moeda nas relações de troca, ou das consequências de alterações da política monetária da Coroa, por exemplo, nos planos de divisibilidade e quantidade da moeda em circulação, que o ouro do Brasil introduziu, quanto mais qualquer tipo de percepção das relações entre os efeitos de um metal precioso e a estratificação social. Claro que estas pessoas não têm um mínimo de vergonha nas hediondas faces, e à semelhança dos sacerdotes, fazem do sermão a sua actividade especializada, baseando-se numa olímpica ignorância da realidade e num desconhecimento ciclópico da produção escrita sobre os assuntos que, sem qualquer sombra de dignidade ou respeito por quem lê, comentam despudoradamente.
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Ontem, tive o azar de, na esperança de ver novamente a repetição do fabuloso golo de David Simão, marcado em Braga ao serviço da Associação Académica de Coimbra, me deparar com Miguel Real, Nilton, Herman José, uma freira, e um analfabeto a que chamavam professor, afanosamente envolvidos na tentativa de identificar os problemas culturais do país. Parece que padecemos de uma crise de valores e Miguel Real chega mesmo a apontar a descristianização da Europa como uma das causas da actual «crise de valores», foda-se, caralho, cona da tia. Se bem me lembro, um valor é uma substância simbólica que estrutura uma rede de comportamentos e por isso, se todos somos consumidores de pornografia - e como tem subido de qualidade esta bela indústria que todos devemos agradecer de joelhos e lágrimas nos olhos a Rosseau e Jesus Cristo, os seus dois criadores simbólicos - daí não advém nenhuma crise de valores mas uma metamorfose dos valores, quando muito. Se uma crise apenas difere de uma metaforse devido à nossa percepção mais evoluída da genealogia das categorias de bem e de mal, constitui um problema a que nos deviamos entregar antes de utilizar o conceito de crise. Claro que discutir problemas dinâmicos é coisa que tanto Miguel Real como as freiras têm dificuldade em fazer. Já Herman José continua a demonstrar porque é que atingiu níveis de sucesso pirinaicos sem com isso perder o auto-domínio, e conseguindo, de forma notável, com a pouca leitura que tem, furtar-se quase sempre a frases imbecis, mostrando-se rápido e observador, com um sentido crítico capaz de espremer qualquer personalidade que se apresente diante de si, com uma eficiência de fazer inveja a qualquer máquina de sumo.
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Na mais recente adaptação cinematográfica de Shakespeare, Ralph Fiennes assina uma interessante actualização de Coriolano. O crítico de cinema Jorge Mourinha, que aplaudiu de pé «Sangue do meu Sangue», produziu uma crítica no Público em que, não dizendo mal do filme (era o que faltava) o considera mediano, referindo a dado momento, sem que se perceba o que quis insinuar, os «floreados da linguagem de Shakespeare», uma expressão vil e torpe em que, perante olhos esclarecidos, Mourinha expõe eloquentemente porque razão não faz a mínima ideia do que está a fazer. Pronto. É isto. Quem quiser saber o que se passa com Portugal, basta abrir os olhos. As evidências estão por todo o lado e julgo que ficou claramente demonstrado porque razão a estupidez se multiplica: multiplica-se porque a maioria de nós continua a fazer opções estúpidas. Agora não me peçam é que estabeleça relações causais entre os colhões de D. Afonso Henriques e a pilinha do Tony Carreira.

sexta-feira, 23 de março de 2012

O sporting enquanto filosofia de via

Antes da greve geral, que de greve ou geral nada teve, vi espalhados pelo burgo cartazes de gente a anunciar que ia ocupar o parlamento, incendiar esquadras, mandar abaixo o regime. E isto era apenas o programa da manhã.

No próprio dia, tiveram um gostinho de violência, mas lá está, na desagradável posição de recebedores. Agora andam a queixar-se. Mas de quê ? Não queriam violência ? Estaremos nós a assistir à sportinguização dos movimentos radicais ?

quinta-feira, 22 de março de 2012

A realidade, o que é?

Numa daquelas coincidências borgianas, eis senão quando, após ter aqui aludido ao problema da oralidade na literatura, e recém-chegado a casa após um competitivo jogo de futebol num pavilhão periférico, onde se realizam campeonatos de lançamentos de setas, com pessoas vestidas de gravata, munidas de computador portátil ao redor de uma mesa quadrangular, dou de caras com essa mega-instituição fílmica da actualidade, intitulada Sangue do meu Sangue. Sentei-me, senti uma dor aguda emergir na região densamente musculada dos gémeos, isto na perna esquerda, abri o sexto, definitivo, e genial volume de Proust, A Fugitiva, de modo a poder refugiar-me em caso de inapelável insulto estético à minha sensibilidade, depositei o comando ao alcance da mão, e esperei.
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Naturalmente, o filme é uma merda, o que não surpreende, uma vez que a indústria cinematográfica portuguesa é o que temos de mais semelhante a uma Igreja protestante neste nosso país de hegemonia católica. Tinha lido com atenção um entrevista de João Canijo, na altura do lançamento, e quase cai da cadeira de um autocarro da carris, quando o realizador, elaborando sobre a procura do real implícita no projecto, referiu o importante papel da filha da sua empregada, ao abrir as portas de um bairro manhoso qualquer. Note-se que o estúpido do Canijo, enquanto dissertava sobre a neo-realidade de pessoas que ai, e de pessoas que ui, não se dignou sequer a referir o nome da empregada que, no entanto, se revelou de extrema importância no processo criativo. Ora ali estava, logo o notei, um daqueles flagrantes exemplos de lamentável confusão entre a realidade e o cérebro de pessoas que, no momento em que acham que podem reproduzir a realidade, com uma ridícula convivência familiar dos actores numa casa, tentativa de imitar o calão, e outras actividades circenses, se afastam total e irremediavelmente da realidade, afundadas na sua desorientação artística, que é um nome elegante para a total ausência de experiência individual, única e perene fonte da arte, como bem viu Nietzsche, quando afirmou que os poetas são impúdicos para com as suas vivências, uma vez que as exploram. Como Canijo não sabe explorar as suas vivências - talvez porque a vida tenha sido fácil demais - decidiu explorar as vivências da sua empregada. Resultado? Uma trágica e estereótipada fotografia da realidade que João Canijo pensa ser a realidade, com todo o habitual cortejo de lugares comuns sobre o bairro social, figurão que veio substituir o bairro operário dos neo-realistas italianos. Quem já esteve num bairro social, sem ser para filmar a realidade, sabe que, em muitos e dramáticos casos, o respeito pela gramática é assinalável. Porquê ofender a arte quando se quer ofender o Estado? Se o objectivo é ofender a língua - o que é sempre uma legítima forma de mandar o Estado para o caralho - então ofenda-se directamente, e não por meio de um artíficio tosco, à semelhança do discurso jornalístico.
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Num dos momentos mais hilariantes do filme, Canijo procura esmagar o espectador com uma sardinhada em casa da família sofredora e como eles dizem muitas asneiras, e gritam uns com os outros, Canijo acha que isso é suficiente para subir a temperatura dramática da cena. Mas as frases desconexas que são produzidas reproduzem ideias sobre as batatinhas, o azeitinho, e o tomatinho, e as qualidades de assador de carapaus da figura masculina partenal, que, alegadamente, não é pai do delinquente protagonista, caralho, e chega mesmo a decorrer uma troca de gritos por causa das dúvidas de identidade de um suposto indivíduo que terá mexido no telemóvel da filha da mãe sofredora, onde se invoca a figura de Maria Santíssima, pela enésima vez. Rita Blanco, Maria Santíssima, entre «estou fodida» e outras caralhadas, produz a dado momento a expressão «por maioria de razão», revelando o pântano onde se afunda todo aquele que resolve utilizar a linguagem, não para expressar uma ideia de autor, através de uma figura dramática (aprendam alguma coisa com Fernando Pessoa, caralho) mas para caracterizar um dado ponto na escala social.
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Outro dos momentos hilariantes é quando, numa cena de amor, os amantes, professor e aluna, trocam versos tão canhestros, supostamente gritos surdos e reais, nascidos nas entranhas da sua real existência social, que parecem decalcados das obras completas de António Ramos Rosa, de tão maus e obscuros e mal ditos, numa confrangedora ausência de talento na sua profissão específica, que é dar forma real a um texto e não fazer de conta que estão mesmo a foder um com o outro, porque isto já temos abundantemente na internet, e de forma gratuita. Esmagado, desliguei a televisão, e fui deitar-me. Mas tive dificuldade em adormecer, pois a puta da realidade costuma aparecer-me em sonhos, envergando um manto cinzento e de olhos flamejantes, chorando lágrimas de fogo. Cada um escolhe as coisas que quer trazer na cabeça. Se o João Canijo acha que vale a pena partilhar com o seu público uma viagem ao seu jardim zoológico imaginário, e apresentá-lo a partir de uma estratificação social, desenhando os contornos da família sofredora, pejada de mediocriades, elaborações sobre a falta de higiene, implantes mamários, batatinhas e azeitinho, frases de vão de escada, delinquentes a fumar brocas e coisas do género, quem sou eu para o criticar? Não me venha é falar de realidade, Maria Santíssima, não me venha é falar de realidade.

quarta-feira, 21 de março de 2012

O que fazem um português, um sueco e um irlandês ao almoço, em Madrid?

Discutem economia e politica, como é óbvio.

Se por um lado, a vida está mais complexa, por outro, Jorge Jesus está a falar muito melhor.

Tive um cão que tinha medo de ciganos, por exemplo.
Tolan, escrito na terça feira, 20 de Março de 2012,
véspera do Benfica (3) - Unidos da Areosa + Hulk (2)
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Para que ninguém pense que estou esquecido das minhas origens, venho por este sórdido meio comentar as justas palavras de Tolan no post oração. Como walter hugo mãe, José Luís Perdigoto e João «Fernando» Tordo não suscitam qualquer discussão sobre o problema da indústria do livro impresso, temos que ser nós, anónimos ressabiados da blogosfera, a colocar as questões essenciais para o sucesso do povo português e a destacar a importância das formas de tratamento na definição da competitividade e inovação das micro, pequenas e médias empresas (e não estou a brincar). Tolan, a dado momento, refere, no seu meta-discurso directo, a sua dificuldade afectiva com frases escritas que não tenham sido produzidas pela rolante, recurva e húmida língua, enquanto organismo vivo responsável pela parte sonora do nosso pobre mundo de significados. Aqui, permito-me a mim próprio discordar de mim próprio, pois uma parte significativa do meu corpo concorda totalmente com esta rejeição da artificialidade da gramática escrita (logo eu, que das várias professoras de português que tive, nem uma era digna de registo sexual, o que me privou de todo um imaginário pornográfico que funde a protuberância mamária com a arqueologia do discurso). No entanto, a parte mais elevada do meu ser diz-me que este é talvez o efeito mais deprimente e nefasto da pseudo-literatura contemporânea, pois, levada na enxurrada do neo-neo-neo-realismo, carregada nos braços da verosimilhança que vê em cada empregada doméstica uma fonte fecunda de sofrimento psicológico, e forçada pela democratização do consumo de livros (que já aqui abordei) caiu num tremendo engano: o de que as pessoas falam de uma determinada maneira. Ora, eu já ouvi conversas entre estudantes universitários de Santa Iria da Azóia com mais erudição que alguns dos tristes episódios do Câmara Clara, da mesma maneira que já escutei mais palavrões e indignidades a engenheiros-fiscais da classe média, na descontração de um cerveja em mesa de fórmica (cumprimentos ao leitor AM) do que em muitas conversas entre guineenses forçados a trabalhar ao sol possante do meio-dia.
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Isto leva-nos a uma das mais fascinantes questões técnicas da literatura, se os caros leitores tiverem paciência para largar um bocadinho a porcaria da actualidade que tanto nos suja os dedos e de forma tão injusta. Proust percebeu que as personagens ganhavam vida se as modulasse através de um visão dinâmica, não só relacionada com um novo protagonismo do tempo psicológico no interior da narrativa, mas também ligada à multiplicidade de olhos que podem caracterizar essas personagens, também elas múltiplas, dos dois lados do espelho, isto é, tanto do «lado de fora», nas imagens mentais que os outros delas vão cristalizando ao longo da vida, como do «lado de dentro», na sua variável constituição psicológica que é, em parte, uma resposta às referidas cristalizações que outros vão fazendo. Isto é maravilhosamente expresso na linguagem comum, quando acusamos o nosso parceiro de posições sexuais de nos estar a rotular ou quando choramos lágrimas amargas porque ele ou ela (ou eles, não sejamos preconceituosos) nos não permitem abandonar uma impressão demos, e que por isso ficou dada num dado tempo, de uma vez para sempre.
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Acontece que quando escrevemos, estamos vivos, e o que importa, como Shakespeare bem sabia, quando se referia jocosamente ao assassinato de Marlowe numa taberna, é o que o autor tem para dizer sobre a realidade. O erro mais comum é cometido por todos aqueles que, diante deste dilema, choramingam a pobreza da vida e da realidade perante o sonho e a riqueza luxuriante da ficção (uma das coisas que me provoca mais vómitos, logo a seguir às entrevistas enjoativamente vaidosas, charlatonas e pseudo-intelectuais de Gonçalo M. Tavares) pois esquecem-se de que tanto o escritor como o seu indomável poder significativo, bem como a sua fulgurante fúria linguística, também fazem parte da realidade, pois nada mais existe senão a realidade, não havendo nenhuma separação entre realidade e ficção, mas apenas escritores que escrevem livros, sendo uns melhores, mais belos, inventivos, fecundos, e duradoiros, que outros, sendo este aspecto da função da língua no interior do discurso um daqueles maravilhosos alçapões, que permitem às pessoas verdadeiramente geniais distinguirem-se das que se pensam que são ou são julgadas como geniais.
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Eu diria que precisamos de uma outra ruptura: não só as personagens são plásticas nos seus sentimentos ou resultados afectivos como o seu discurso depende das situações onde se encontram e das pessoas que se apresentam, oscilando a língua húmida de cada um, num dado campo de visão, e de acordo com situações dramáticas também elas diferentes. Os grande ecritores sabem que as línguas - da empregada de mesa até ao médico premiado - só servem para uma única coisa: expressar aquilo que o autor quer expressar e da forma mais rigorosa e concreta que o seu engenho, cultura, sensibilidade e inteligência, permitam. As vicissitudes do movimento específico de cada língua socialmente codificada, fazem a originalidade de cada escritor e bastaria analisar a impetuosa poesia de Flastaff, um taberneiro e sargento, beliscador relapso do rechochudo rabo de velhas prostitutas, mas cuja voz - e para citar um filósofo anómimo - coloca no bolsinho pequeno das calças, quer em erudição, quer em eloquência, grande parte dos tratados literários dos séculos XIX e XX, para verificar como os livros que demoram mais tempo a morrer são apenas aqueles onde só os autores falam, e não a personagem A ou B. Por isso, e terminando triunfalmente este momento de generosidade sem limites, é bastante simples concluir que ao contrário do que pensam os maus literatos - que a ficção é mais rica do que a realidade e de que a diferença entre a ficção e a realidade é que a ficção tem de ser credível, e essas merdolas - o problema da oralidade na escrita, revela apenas uma percepção desconexa e confusa do grande princípio: só existe a realidade, e dentro dela, os escritores que sobrevivem são os que não se deixam levar pelas ficções pífias que os espíritos mais pobres produzem sobre a realidade, afirmando quea sua caracterização tem de ser feita desta ou daquela maneira.
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Não é preciso ser um Marcelo Rebelo de Sousa para notar que nem mesmo a escolaridade garante em absoluto uma estratificação da competência linguística, fenómeno que, não obstante os valorosos esforços do esquerdalho Chomsky, continua a encerrar um grande dose de mistério - a poesia de Frederico Lourenço, Nuno Júdice ou Teresa Rita Lopes, é, a título de exemplo, uma grandessíssima merda. A minha tia, que gardou cabras metade da vida, e foi criada de servir no outro terço, se excluirmos a infância, é muito mais rápida e eloquente (a caracterizar uma dada personalidade ou a pintar com cores fortes uma dada situação dramática) do que Vitór Gaspar ou o reverendíssimo Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva. Quem não tentou já impressionar uma italiana com citações de Dante, se por acaso está interessado em medir-lhe as ancas, mesmo tendo em fundo um toldo sujo da Sumol? E quem não modela o seu vocabulário se por acaso é levado a produzir as suas impressões sobre a salvação de Portugal no primeiro jantar em casa do provável-sogro, que por acaso é professor catedrático? E quem não mandaria para o caralho um escritor português muito vendido, se a peixeira do bairro, que por acaso é uma pessoa inteligente, sugerisse que o referido escritor é um vaidoso e um inútil?

terça-feira, 20 de março de 2012

A vertigem da listas, foda-se

Uma pessoa vê-se obrigada a lutar contra a realidade de punhos ensanguentados, olhos fulmíneos (uma das minhas palavras preferidas das mais preferidas palavras de Italo Calvino) e sonhos injectados de púrpura, quando, por sua vez, a aristocracia está altamente organizada e às dezenas, como pode constatar-se pelo espectacularmente espectacular blogue Senatus, uma tal agremiação de cérebros por metro quadrado que já não se via em território nacional desde as cortes de Lamego, aquelas onde forjaram um merda qualquer que afinal não era a verdade, mas que foi suficientemente verídica, ao tempo, para resolver um qualquer problema grave, na época, bem entendido. Esta porcaria de blogue é mais um daqueles sítios onde se prolonga a esterilidade da discussão política portuguesa, pois é próprio de qualquer discussão política que nada se diga fora dos termos da comunicação normalizada, o que me faz gostar tanto de palavrões, caralho. Deixo uma lista das pessoas a quem não devemos dar ouvidos, para que não falte nada aos estimáveis leitores que acompanham as minhas obras completas na blogosfera (enquanto não saiem as outras) sendo certo que os últimos indicadores macro-económicos nada revelam sobre o país, e que o verdadeiro indicador do desenvolvimento, bem mais consistente e fiável, seria se de uma vez por todas, surgissem nas livrarias portuguesas, impressos em língua portuguesa, da autoria de cérebros portugueses, livros como o que se apresenta na figura que encabeça este post.

Anexo 2
Senadores, isto é, pessoas a quem não devemos dar ouvidos: Ana Rita Bessa André Matos Faria António Andrade de Matos Diogo Duarte Campos Diogo Santos Nunes Filipa Correia Pinto Filipe Matias Santos Francisco Beirão Belo Gonçalo Delicado Helena Costa Cabral Hilario Caixeiro da Cunha Inês Pinto da Costa José Bourbon Ribeiro José Meireles Graça José Miguel Pereira João Lamy da Fontoura João Monge de Gouveia Mafalda Sobral Marcos Teotónio Pereira Margarida Bentes Penedo Nuno Cunha Rolo Nuno Santos Silva Rosário Coimbra Ruben Eiras Sophia Caetano Martin Tiago Pestana de Vasconcelos
Faço notar os sonantes apelidos das varonis famílias, sempre prontas a dar o seu contributo para engrandecimento do espaço público e esclarecimento das suas próprias vidas. É pena que esse contributo seja uma boa merda.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Os filhos da puta não têm pátria, nem língua: são filhos da puta.

Quando as Províncias Unidas, ao subir do pano do século XVII, por razões que terão que pesquisar na wikipédia porque eu não posso fazer tudo, começou a aumentar a capacidade para obter canhões de guerra, feitos em ferro - os de bronze eram mais leves mas menos eficazes - e nos fodeu literalmente as nalgas nas chamadas East Indies, apareceu um senhor chamado Hugo Grotius com uma capacidade notável para convencer, por meio de repetidas petições, os indivíduos que constituíam os Estados Gerais (responsáveis pelas decisões conjuntas das diferentes comunidades políticas a que hoje chamamos Holanda) a dotar a Companhia das Índias Orientais com navios de guerra suficientes para continuar o seu trabalho criminoso. Mas Grotus, que era casado com uma mulher horrível, Maria van Riegersberch, como não me deixa mentir o retrato gravado em 1640*, filha de um burgo-mestre do porto de Veer (uma merda de profissão que não faço a mínima ideia do que seja), foi capaz de redigir diversos tratados montado numa merda chamada direito natural asseverando que os contratos eram para cumprir, fazendo questão de demonstrar, através das mais espectaculares cambalhotas jurídicas, que o mar era livre e que quem cortasse primeiro a cabeça ao adversário é que tinha razão. Mas, em todo o caso, as Provincías Unidas eram habitadas por pessoas que não só sabiam ler como tinham bom gosto, compravam livros e levavam as merdas a sério e não só esfolaram (literalmente) vivos vários líderes políticos ao longo do século XVII como chegaram mesmo a prender Grotius, que iniciou o seu mais famoso livro De Juri Bellis ac Pacis, na prisão de um castelo.

Esta erudita introdução, que ilucida o leitor sobre o quilate intelectual da mente com quem, inacreditavelmente e de forma totalmente gratuita, dialoga neste momento, apenas está aqui para demonstrar cabalmente como aquilo que as pessoas dizem não tem valor absolutamente nenhum, a menos que essas pessoas sejam qualquer um dos indivíduos que agrupo no anexo 1, colocado no final deste post, para uso pessoal dos respeitáveis leitores deste blogue.

Por outras palavras, as pessoas falam em primeiro lugar para não se afundarem no gigantesco abismo da sua irrelevância e, em segundo lugar, para obterem um determinado efeito compensatório, que é a versão elegante da procura desesperada que todos, uns mais do que outros, empreendemos, diariamente, pelo nosso almoço. Claro que nem sempre o cálculo feito pelas pessoas tem os efeitos desejados, e, por isso, o mundo está como sempre esteve, uma tremenda confusão, mas não deviam já restar dúvidas, pelo menos nas mentes alfabetizadas, sobre o facto de não obtermos nenhuma impressão absoluta ou universal da realidade, por meio do retrato efectuado pelos nossos queridos semelhantes. No entanto, pasme-se, o Henrique Raposo acha que a Cristina Casalinho explica o que está a acontecer a Portugal, sendo que os dois acreditam que está tudo muito bem, da mesma forma que achavam que antes estava tudo muito mal. Pois eu digo aos dois que está tudo uma tremenda foda, e desde há muitos séculos, mas não pelas razões que eles pensam.

Claro que o raciocínio implícito neste versão laica e moderna da Salvé Rainha, preconizada por pessoas que pensam que sabem alguma coisa, é que uma economista chefe do BPI, como a burra da Cristina Casalinho, totalmente envolvida na perseguição dos seus interesses particulares, está particularmente habilitada para salvar Portugal, pois a defesa do seu interesse, na medida em que depende da saúde dos interesses de todos nós, espelha, de forma transparente, não só a verdade dos factos (risos) como um desejo de salvação colectiva (aplausos). Enlevado nesta bonita prece, o palhaço do Henrique Raposo esquece que as pessoas perseguem os seus interesses e nessa perseguição, olá, metem por caminhos errados, pisam poças de lama, esfarrapam o casaco novo num galho recurvo, são atingidas por relâmpagos, confundem o pio da coruja com o silvo do comboio sulcando a noite, assustam-se com espectros ululantes quando é apenas o casaco de um velho pastor insuflado de ilusória vida pelo vento indomável.


Nem mesmo a matéria técnica vale um minuto da vida do caro leitor. Casalinho acha que estamos prestes a entrar, «espera-se», diz ela, «num novo período da economia nacional» (risos, risos, risos), «no qual o motor de crescimento se reorienta de procura interna para externa e de
produção de bens não-transaccionáveis, como restaurantes e cabeleireiros, para bens transacionáveis, como sapatos e transístores». Foda-se, caralho, cona da tia. Se isto fosse assim tão elementar, até o Professor António Borges seria capaz de resolver o problema dda economia nacional (risos, risos, risos). Questões como o tamanho das organizações, como os incentivos não monétários, como o efeito das oscilações comportamentais nos padrões de consumo, são variáveis que a burra da Cristina Casalinho congela, sem, contudo, utilizar as palavras mágicas (mantendo todas as outras variáveis iguais ou the rest equal, como diria Lauro António.

Eu não gosto particularmente da poesia da Sophia de Mello Breyner, por razões que explicarei noutra ocasião, mas fica sempre bem lembrar aqui, a titulo de exemplo, o que a Meditação do Duque de Gandia na morte de Isabel de Portugal recomenda aos seus leitores: que nunca mais deveriamos servir a quem pudesse morrer, o que é uma forma sucinta de dizer que a termos que ouvir alguém, convém que sejam pessoas que ou estejam vivas para sempre ou não morram com facildiade, e a mim parece-me que Raposo e Casalinho, embora mais velhos do que eu, nem sequer chegaram a nascer.


Anexo 1
Grupo das pessoas a quem podemos dar ouvidos
Homero
Eurípedes
Sófocles
Dante
Shakespeare
Camões
Melville
Gogol
Tchekov
Pessoa
Joyce
Proust
Kafka
Calvino

* Martine Julia Van ITTERSUM, Profit and Principle: Hugo Grotius, Natural Rights Theories and the Rise of Dutch Power in the East Indies, 1595-1615 (Brill's Studies in Intellectual History) (Brill's Studies in Itellectual History), 2006, p. xxi

sexta-feira, 16 de março de 2012

«Não facem ondas», diz-se na Nazaré, segundo dizem.


Ainda antes do Álvaro Santos Pereira atingir o problema central da sua existência enquanto ser humano que é, o que dada a humilhação a que ele próprio se tem submetido pelo exercício impúdico da sua falta de inteligência e manifesta desilegância congénita, não levará muito tempo a ocorrer, em verdade vos digo que o Xandão não tomará banho no balneário do Sporting sem que o Sá Pinto conheça a divina câmara do insucesso. Isto não quer dizer que Sá Pinto não tenha potencial, antes pelo contrário, quer apenas sugerir que como Sheley bem notou na sua defesa da poesia, o doce prazer que retiramos da mágoa - e da derrota - é bem mais profundo e gratificante do que aquele que retiramos da vitória. Parece que até o Antigo Testamento já dizia: mais vale frequentar a casa enlutada do que a casa onde há banquete. Naturalmente não estou apenas a falar para adeptos do Sporting, mas para todo aquele que ainda não lavou as suas próprias cuecas.

Se não têm o que fazer, leiam Rosseau, caralho.

Uma das mais importantes decisões de política cultural do meu governo de sonho seria obrigar cada pessoa que pronunciasse, com objectivos jocosos, a expressão «o bom selvagem» a enfiar uma banana no cu* e estou a lembrar-me, a título de exemplo, de Nuno Crato, que escreveu um livro absurdo denegrindo a memória de um dos mais ilustres botânicos do século XVIII apenas com o intuito de dizer que a escola portuguesa é uma merda e que os professores encaram cada aluno como «um bom selvagem»: cá está, era banana certinha. Claro que os custos de aplicar esta política seriam altíssimos porque não só seria obrigatório policiar o cumprimento da pena - que seria repetidas vezes aplicada, não tenho a mais pequena dúvida - como a curva de procura de bananas sofreria uma deslocação tão veloz e significativa que não seria de estranhar ver, na televisão, o panaleiro do arquitecto Ribeiro Telles com diversos planos para o cultivo de bananeiras nos jardins Gulbenkian.
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Vem isto a propósito de um ensaio do Professor Doutor e o caralho Pedro Lomba que hoje, no Público, ensaia uma tentativa de nos explicar não se percebe exactamente o quê, uma vez que à boa maneira dos franceses - que Lomba não aprecia - e ao contrário dos ingleses - por quem Lomba se baba - o autor não introduz o leitor no que vai fazer, não relaciona o assunto com qualquer tradição ou debate intelectual e nem uma pobrezita conclusão nos ilucida sobre a razão de preencher duas folhas de um jornal de referência com uma cagadela de referência sobre os mecanismos constitucionais do semi-presidencialismo. Ora, apesar de Lomba não o referir explicitamente, a perversidade do seu raciocínio é clara: as pessoas querem é malandragem porque como Rosseau perversamente viu e recomendou, somos todos muitos bonzinhos e o camandro - cá está, era bananinha sem espinhas - e por isso, esta merda do semipresidencialismo funciona mal já que em vez de termos governo com chicote na mão, anda tudo a governar para a popularidade, isto é, as sondagens.
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Enfim, não vou perder tempo com as complexas relações entre populismo, popularidade e governo do povo, porque sabemos que Lomba está completamente perdido quando se refere ao problema com as seguintes palavras: «Com 35 de anos de prática já vai sendo tempo de avaliarmos como é que a coisa tem funcionado». Isto é, a necessidade de análise decorre do tempo, o que é um argumento de caserna ou de sacristia: como chegou o tempo, toca a marchar ou a ajoelhar. E o que resolve fazer o intelectual Lomba para enfrentar este desafio titânico? Afirma que para entender a «geometria instável» da falácia representativa «temos de recuar às origens». Motivos de força maior impedem a escalpelização que o Professor Doutor e o caralho Pedro Lomba mereceriam, pelo que, num esforço económico de grande alcance, fico apenas por uma simples identificação dos erros mais grosseiros.Lomba aventura-se num exercício historico-político na boa tradição mais que bolorenta do pensamento jurídico, confundido legitimidade com antiguidade e eficácia com tradição. Mas isto não seria grave se não existisse aqui um problema mais profundo e de consequência mais nocivas. É que Lomba supreende-se, depois de duas páginas de revisitação a figuras tão monstruosas como Sá Carneiro, Ramalho Eanes ou Aníbal Cavaco Silva - foda-se - com o facto do semipresidencialismo ser para nós o regime das sondagens. Extraordinário!
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Um professor doutor e o caralho, que consagra toda a sua vida ao Direito Constitucional, consegue elaborar sobre a arquitectura institucional do sistema político supreendendo-se com o facto de uma democracia utilizar mecanismos de sondagem de opinião para avaliar o que pensam as pessoas sobre quem as govenra, e consegue não mencionar uma única vez um problema que Rosseau já tinha visto, enquanto fazia filhos, entrava para a história da literatura, copiava partituras musicais, partia os dentes a fugir de uma carroça, estreava óperas na Corte francesa, e coçava os tomates na estrada de Vincennes; a saber, que a representação constitucional é uma anedota tão fulgurantemente mal contada que só quem está a dormir é que não entende que a democracia não pode funcionar sem «cenas de choque», «deslealdade» ou «manobras para prejudicar o outro» isto para utilizar terminologia cara ao Professor Doutor e o caralho Pedro Lomba. Mas se quisermos ser mais rigorosos diremos que Rosseau já tinha entendido - e publicado de forma explícita - que a democracia é uma tentativa absurda e canhestra de mecanizar as complexas relações de conflito entre indivíduo e sociedade através do brinquedo estragado da ligação entre representante e os representados. E mais: mesmo dando de barato que Lomba é ignorante - o que não constitui uma originalidade - tinha pelo menos obrigação de saber que em qualquer sociedade que hoje coabite com sistemas de comunicação modernos, mesmo em algumas ditaduras, aí reinará, imperetrivelmente, um «império das sondagens».
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Em suma, o que continua a ser lamentável neste nosso mundo - e eu não me canso de o repetir -, é que a especialização científica - que nos saberes ditos naturais tem a abençoada presença da física e da matemática - se reveste nas humanidades da mais violenta boçalidade, pois não há o mínimo esforço para compreender um problema segundo a sua estrutura funcional e não de acordo com o que o dito problema revela perante o nosso senso comum, e isto porque as humanidades estão convencidas de que tratam matéria mais humana do que a Física ou a Matemática, disciplinas que há muito aceitaram a positiva derrota da limitação de todo o conhecimento. Se o Professor Doutor e o caralho Pedro Lomba fosse menos ambicioso, e em vez de tentar avaliar o funcionamento da coisa, recuasse até à utilidade da coisa, se, no fundo, fosse menos cientista e mais jurista, teria provavelmente mais probabilidade de, sendo um bom jurista, se aproximar da ciência que é a sua, em vez de fazer de conta que fala de geometria, e depois bolsar conceitos deduzidos da mais mal cheirosa retórica jurídico-política, chegando mesmo a chamar Jorge Sampaio intelectual, o que penso ser uma tentativa de insulto, e diz bem do tipo de argumentação política que os pseudo-hobesianos tiram do bolso a cada tentativa de raciocionar.
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Jean-Jacques Rosseau, meu cabrão, que falta nos fazes.

* Quero agradecer esta recomendação a Maradona que a tinha sugerido como pena específica ao josé Manuel Fernandes, mas que utilizo aqui com intuitos mais generosos e abrangentes.

Aguenta coração disse um dia um cantor foleiro

Depois do jogo de ontem, lembrei-me do que li há dias:

«O que levamos desta vida inútil
Tanto vale se é
A glória, a fama, o amor, a ciência, a vida,
Como se fosse apenas
A memória de um jogo bem jogado
E uma partida ganha
A um jogador melhor»

e mais não é preciso dizer. obrigado alf por teres mostrado o texto.

quinta-feira, 15 de março de 2012

A propósito do evento desportivo em Manchester

Jogou mais futebol o Pereirinha sentado com o cú no relvado do que o Baloteli e o Aguero a correrem os 90 mais 5 minutos. Agora com licença que tenho que ir dar o biberão à minha garota.

Dei-te o melhor de mim, mas tu fodeste-me na mesma

Porque razão inquirirem-se sobre a minha origem? Como a das folhas, assim são as humanas gerações. Para o chão as lança o vento, mas a fecunda floresta a outras dará nascença, e a primaveril estação logo regressa; assim também a raça dos humanos nasce e vai passando Ilíada

Ontem, hipnotizado pelo padrão especialmente rebuscado de uma toalha branca de linho, e envolvido na melancólica estupefacção que nos atinge durante um almoço de fim de Inverno, sobretudo se, para nos furtarmos à sorte de Guy Debord, vamos evitando as doenças que o vinho sempre traz, fui despertado, subito - como dizem os italianos, isto é, rapidamente - por uma pessoa licenciada em filosofia que, a dado momento, me colocou a seguinte e pertinente questão: o que é um livro de sucesso? Naturalmente, tendo eu lido todo o Guy Debord antes dos 14 anos, devorado o impressionismo mediático de Lipovetsky, antes dos 16, e estando já pelos 19 num tal estado de náusea psicológica que não suportava Deleuze ou Walter Benjamim - juntamente com Agamben duas das maiores fraudes de todos os tempos - senti uma certa tendência, até pelo facto do Benfica ter reentrado na luta pelo título, para me refugiar numa decomposição das várias camadas arqueológicas implícitas no conceito de «sucesso». Mas não fui por aí, pois, apesar de muitos erros, má fortuna, amor ardente, assimilei Aristóteles e matemática suficiente para não me perder com mariquices. Não fui por ali, nem por qualquer outro lado, e fiquei antes a pensar naquilo, que é a melhor coisa que podemos fazer quando nos colocam uma pergunta para a qual não temos uma resposta satisfatória.

A julgar pelo top de vendas da Bertrand, tudo vai bem em Portugal. Contudo, não vou mergulhar no costume marreta de pintar com tintas escuras as forças de mercado, mesmo que ninguém possa dizer o que isso seja. Nem sequer Christopher Pissarides, pelo facto de ter decomposto os fundamentos micro-económicos da dinâmica de curto-prazo Keyneseana e Neo-clássica, conseguiu esclarecer totalmente como o nosso conhecmento imperfeito, dos salários e do preço do trabalho, concorre para manter em desiquilibrio, um sistema que permite demasiado desemprego involuntário, e digo isto só para verem que não ando aqui a brincar. Na verdade, a lista que se segue, longe de implicar qualquer decadência das humanidades, das hierarquias sociais ou da qualidade do intelecto dos pretugueses, revela apenas que a dita cultura padece dos mesmos problemas do mercado dos combustíveis - conhecimento imperfeito, ou na forma mais Manuel Luís Goucheana de dizer o real: a cultura padece de burrice.

1- Ágape", Padre Marcelo Rossi
2- "O Espião Improvável", Daniel Silva
3 - "Últimas Notícias do Sul", Luis Sepúlveda
4 -"O Cavaleiro de Olivença", João Paulo de Oliveira e Costa (eh, eh, eh, eh, uh, uh, uh)
5- "O Céu Existe Mesmo", Todd Burpo
6 -"Uma Fazenda em África", João Pedro Marques
7 -"A DívidaDura", Franscisco Louçã (ah, ah, ah, ah, ah, ah)
8-"O Último Segredo", José Rodrigues dos Santos
9-"Dei-te o Melhor de Mim", Nicholas Sparks (ui)
10- "Ainda Sonho Contigo", Fannie Flagg (uiiiiiiiii)

Qual será a misteriosa penetração do espírito divino, entrando com suavidade na lama bruta da nossa condição, capaz de explicar porque razão as santas pessoas que compram o livro do Padre Marcelo Rossi compram, na verdade, o livro do Padre Marcelo Rossi? Poderíamos tentar responder que: tendo as pessoas um conhecimento limitado das suas preferências, e informação ainda mais limitada, sobre a forma como as suas preferências se relacionam com os benefícios de um produto que não conhecem, e para agravar tudo isto, sendo as pessoas totalmente ignorantes do valor relativo destes produtos, por uma olímpica ignorância do que o mercado tem para oferecer a mais baixo custo (Moby Dick ou O Barão Trepador custam menos do que quase todos estes títulos) as pessoas convencem-se de que estão extactamente a comprar aquilo que a sua soberana capacidade de julgar a realidade lhes diz que é o melhor para elas, naquele ponto específico e irrepetível da sua existência num altamente complexo conjunto de cruzamentos e bifurcações, padrão de possibilidades que constitui o ilusório e sempre animado mundo dos desejos e das suas satisfações. Todavia, não vamos responder desta forma. Vamos responder de uma outra maneira, totalmente diversa.

As pessoas compram o livro do padre Marcelo Rossi porque a informação altamente eficiente contida na capa do livro revela que as pessoas tendem a comprar (e compram) repetidamente o livro do Padre Marcelo Rossi. E se as pessoas compram esse livro é porque deve ser bom, de outro modo, as pessoas não o comprariam, tautologia que não deixa de relevar uma parte importante da verdade. Mas o livro do Padre Marcelo Rossi é bom exactamente em quê? Aqui é que a porca torce o rabo, como bem sabem todas as pessoas que já tentaram apertar móveis do Ikea sem ferramentas apropriadas.

O livro do Padre Marcelo Rossi cumpre um desejo e uma carência de um significativo conjunto de seres humanos - desejos e carências que não vou tentar descodificar, da mesma maneira que não costumo procurar sentidos ocultos nos desejos das pessoas que em vez de comprarem Ferraris, compram Fiates Punto. Logicamente, a literatura cómico-sociológica fala aqui de distinção ou na forma mais hilariantemente obscura - símbolo. Mas quem lê Joyce, que outra coisa pretende senão um símbolo bem dourado e legível na lapela do seu casaco? O que é curioso é dar conta da dificuldade que existe, numa grande parte dos sistemas nervosos, em percepcionar que o livro de Rossi, ou o maravilhoso «Dei-te o melhor de mim», de Sparks, são percepcionados como Ferraris e não como triciclos sem rodas, e aqui reside o ponto que gostaria de sublinhar neste dia em que o céu celebra a minha vinda ao mundo com uma magnífica trovoada.

Com efeito, a culpa de as pessoas burras percepcionarem um livro intitulado «Dei-te o melhor de mim» como um Ferrari e, por sua vez, olharem para «Moby-Dick» como um skate de plástico, deve-se a toda uma mitologia de relativismo democrático, que Walter Benjamim, e outros, pensaram dever-se à industrialização e massificação da arte, cometendo o habitual erro marxista - que eu tantas vezes gosto de cometer - confundido a causa com o efeito. Ninguém viu isto tão bem como Nietzsche, um filósofo que por conhecer os gregos tão bem como a amplitude do seu bigode, estava paneleiro de saber que a democracia industrial, no seu esforço para dotar a vida das classes baixas de conforto, traz no plano da cultura - e aqui não há distinção entre arte ou parafusos - uma fatura pesada, que consiste na dificuldade que os melhores e mais geniais sofrem para não se afogar num mar de pessoas como o walter hugo mãe. Toda a gente já experimentou este problema quando se tratava de escolher uma equipa de futebol competitiva e o professor obrigava a incluir as raparigas. Na verdade, o desejo de igualdade e libertação redundou na mediania constituída pelo desejo da maioria - e a indústria é consequência e não causa, caralhos me fodam -, bem como na desorientação sobre a objectividade dos mecanismos retóricos - que podem ser tão rigorosamente analisados na sua potência como um motor - para não falar da metafísica da complicação que escritores ridículos como Faulkner ou Virgínia Woolf vieram introduzir na estrutura mental dos produtores de ideias. Assim, na maravilhosa tendência democrática do mercado do livro, foram as elites a enterrar a espada no seu próprio coração, ao destruírem uma hierarquização da cultura baseada nos mecanismos clássicos, numa tentativa desesperada para combater o sucesso de livros bons, mas portadores de ideais democráticos, como Moby Dick, ou mesmo Ulisses, livros que, curiosamente, venderam sempre muito pouco.

Um livro de sucesso é um livro que leva menos tempo a morrer, um livro que sobrevive tanto aos Walteres Benjamim como aos walteres hugos mãe, e eu apostaria dois dedos da minha mão esquerda, ou um dos testículos (mas só o entrego depois dos 90 anos) em como desta lista aqui em cima, nenhum livro sobreviverá ao ano 2014. Um livro de sucesso é um livro como a Ilíada, uma cuspidela de raiva, de refulgente claridade, coberto de sal e duro como pedra, limpo de fulgurante beleza, um livro que sobreviveu ao rolo manuscrito, ao pergaminho, ao incunábulo, ao impresso, ao computador e vai sobreviver espectacularmente tanto ao Ferrari como à tabulete, coisas que, como toda a gente com cabeça sabe, mais parecem concebidas por um macaco do que por uma inteligência humana, mesmo que esta, a inteligência humana, não seja muito mais do que uma espécie de macaco, mas em Ferrari.
Um livro de sucesso é um livro que diz a verdade e não tem medo de ninguém, nem do seu próprio fracasso.

terça-feira, 13 de março de 2012

***

Como é do domínio público, as bibliotecas universitárias em Portugal são insuportavelmente silenciosas, ao contrário dos nossos incrivelmente elegantes centros comerciais que são espantosamente barulhentos, e na medida em que isto é verdade, e desse facto dou testemunho, vi-me obrigado a ler e a anotar The Stones of Venice, de John Ruskin, numa esplendorosa mesa de mármore negro colocada involuntariamente para esse efeito, num democrático estabelecimento da Macdonald's, a mais importante realização comercial do homem depois da espingarda de repetição. Mas a dado momento, vários pré-adolescentes, enquanto trincavam estridentemente o alimento do seu espírito e se insultavam com vitalidade e cortesia, começaram a evidenciar comportamentos histéricos e temi que a Alemanha tivesse finalmente desembarcado na doca de Santos, com a sua retórica forjada em aço e os seus oficiais louros, cobertos por longas gabardines de napa preta. No entanto, era só a Daniela da «Casa dos segredos», conforme consegui apurar, interrogando violentamente, entre estaladas, uma adolescente que não conseguia travar repetidos guinchos de sofrimento e êxtase, contorcendo-se espasmodicamente com revoluteios de fazer inveja a Bernini. Enquanto esta horda de trabalhadores mal-remunerados a curto-prazo se precipitava para os ombros de Daniela, uma espécie de Ruud Gullit mas em natural de Chelas, não consegui evitar que me rodeassem a mesa, pois treparam cadeiras e sofás, qual matilha de cães raivosos, como se não houvesse amanhã, e tudo isto sob o olhar impassível das esteticistas que respondiam pelo nome de professoras, chegando mesmo uma das hediondas criaturas a tocar, com os pés imundos, a minha edição de The Last Leopard. Vai daí, resolvi retaliar com três dias de silêncio, privando Portugal da minha sagacidade. Vão lendo este poderoso título, referenciado aqui em cima, que eu não demoro muito.

Resumo da humanidade


há sempre alguém que nos morde o cu

sexta-feira, 9 de março de 2012

Nova teoria da reprodução das relações de produção

Como levaria muito tempo a justificar porque razão não tenho o mais pequeno interesse no conflito israelo-palestiniano, e além disso, a maioria dos leitores não está familiarizado com a terminologia da advanced macroeconomics, fico-me por uma singela pergunta e respectiva especulação argumentativa ou tentativa de resposta.
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A julgar pelos estilhaços publicados pela autora, Alexandra Jacinto do Eduardo Prado Lucas Coelho, ao longo destes últimos anos no jornal Público, quanto vai uma aposta que este livro é uma grandessíssima merda?
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Na verdade, vai por aí uma gigantesca feira de argumentos estéticos, roubados por hábeis ciganos de camisa preta, em frias madrugadas violeta, às mais contrafeitas e avulsas teorias do romance, e depois transportados à pressa em carrinhas brancas igualmente furtadas, argumentos saltitantes entre calças de sarja, camisas de flanela xadrez e sandálias douradas; de modo que a discussão literária chega ao comércio legítimo interpretada por conceitos já tão manuseados por tudo quanto é ganso patudo mediático, que o pobre espectador da vida portuguesa é obrigado a franzir o sobrolho e a tamborilar os dedos, ao descobrir que se encontra capturado no interior de um romance de José Rodrigues dos Santos. Ainda há bem pouco tempo, a parva da Hélia Correia, que afirma ter um problema com a luz do sol - mas insiste em permanecer num país onde há 9 a 10 meses, em cada ano, de uma sistemática e possante luz branca-incandescente - justificava a merda de livros que insiste em publicar com o facto de apenas escrever quando chove. Já Miguel Sousa Tavares, enquanto procurava não ser tocado pelo incrivelmente larilas Daniel Oliveira, invocava uma especial relação de cumplicidade com um casaco de malha, artefacto que, segundo afirmou, «o inspira». E agora, sem apelo nem agravo, um romance de Alexadra Jacinto do Eduardo Prado Lucas Coelho, versando o amor proibido entre um belga e uma catalã, perpetrado em plena faixa de Gaza, e protagonizado por pessoas que não só não nutrem qualquer instinto assassino como ainda fazem o favor de manter as duas pernas, os dois barços e os dez dedos das mãos. Mas que interesse pode ter isto? A autora defende-se, dizendo que hesitou em publicar o romance e que ainda não descobriu de todo a sua forma de romance, e assim, o pobre espectador da vida portuguesa fica sem entender porque razão foi dado a lume (bela expressão) pela Alexandra Jacinto do Eduardo Prado Lucas Coelho, esta preciosa obra que hesitou em publicar: foda-se, mas o que é esta merda? Uma conspiração contra o bom senso? Uma tentativa de me encurtar a existência? Um ataque aos mais sagrados princípios da liberdade de expressão? Terrorismo intelectual?
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A autora de «e roda a noite» confessa hoje em entrevista ao suplemento psiquiátrico do Público que pretendeu trabalhar sobre a construção da realidade e diz que Ana Blau é ela mas não é ela, uma vez que «e roda a noite» é uma «manta de bilros» - isto digo eu, citando São José Almeida - em que concorrem aspectos autobiográficos e os sempiternos impulsos imaginativos da ficção, em que, alegadamente, o romance, com a sua puta capacidade de abrir as pernas a todos os factos da vida, desempenha um papel de primeiro plano e se vê obrigado a entretecer (sic) todos estes estilhaços da vida de Alexandra Jacinto do Eduardo Prado Lucas Coelho, onde avultam coisas tão decisivas como a falta de sensibilidade autêntica, a ausência de reflexão sólida e leitura extensa - o tempo, como bem sabem os economistas neoclássicos é o recurso mais escasso - uma escabrosa ascensão determinada por cunha familiar, uma total incapacidade de desenvolver um sentido crítico sobre a própria história do romance, uma completa esterilidade metafórica, etc, etc, etc, etc, etc, e mais bilros.
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Como diz Fernando António Nogueira Pessoa, quando alguém escreve um poema, convém que se note que existiu Homero. No caso de Alexandra Jacinto do Eduardo Prado Lucas Colheo, apenas se nota que existiu muita coisa para fazer mas nenhuma dessas coisas teve a mais pequena relação com a leitura, o pensamento e a escrita. E isto, caros leitores (cumprimentos à desaparecida Alma) é uma coisa que me entristece. Juro, desde a ponta dos pés até às minhas serpenteantes pupilas, e por todo este nosso imenso Portugal onde a aristocracia continua a reinar, que isto me entristece profundamente. Profundamente.
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Portugal: aquele país onde ser filho de um electricista e de uma costureira (que acabou a sua fulgurante carreira a limpar o cu a generais dementes, após duas décadas de salários baixos na agora tão saudosa indústria têxtil) tem como corolário inevitável: a) o alcoolismo acéfalo; b) a imbecilidade crónica; c) a lobotomia intelectual motivada por auto-protecção; d) o ressentimento-diamante incrustrado em fracassos de ouro.
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O sub-conjunto d) é o grupo onde, como é bom de ver, se insere o lamentável autor deste post.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Nova teoria do suor de raça negra

É com um profundo sentimento de pesar e uma sincera tristeza a balançar no fundo da mente que vou proceder a um insulto de Miguel Real: foda-se, caralho, cona da tia. Então não é que um gajo licenciado em Filosofia e autor de mais de 3 milhões de títulos sobre cultura portuguesa, capaz de equilibrar na ponta do nariz cursos sobre o romance português no século XX (estará por aí o ilustre comentador AM?) e inúmeras recensões-lambidelas a livros tão ingurgitáveis (palavra que aprendi com Rubem Fonseca, essa merda de autor), dizia eu, capaz de lambidelas a livros tão ingurgitáveis como os de Patrícia Reis, não é que, dizia eu, Miguel Real resolveu publicar, resolveu mesmo publicar, uma nova teoria do mal? Ouviram bem: uma nova teoria do mal. Partindo do príncípio de que existia uma velha teoria do mal nas ideias assimiladas por Miguel Real, o que duvido, uma vez que o livro não tem sombra de cultura científica e nada se encontra por ali de significativo (e bastaria, a título de exemplo, ter lido a literatura de divulgação de Konrad Lorenz) o livro de Miguel Real não pode passar sem um tremendo «caralhos me fodam». A verdade é que, devo confessar, não passei da página 20 e passo a explicar porquê.


a) há alguns anos que estabeleci como aferidor da qualidade de qualquer trabalho filosófico a capacidade do seu autor ultrapassar as primeiras vinte páginas sem recorrer ao argumento relaxado de comparar os seus adversários a qualquer dos vários e numerosos oficiais nazis à disposição, pessoas que por acaso, por um simples acaso que não quero aqui analisar, nasceram na Alemanha, pátria contemporânea da filosofia; b) não suporto a hipocrisia de alusões ao suor de pessoas de raça negra que lavam retretes em centros comerciais, pela simples razão de que ou o autor dessas alusões nunca beneficiou dos serviços, mal pagos, oferecidos por indivíduos de raça negra, ou o autor trocou toda a sua fortuna para se dedicar a ensinar os homens a serem pescadores de homens e nesse sentido não restaria tempo ao autor para elaborar novas teorias do mal: ou seja, em qualquer dos casos, a alusão redunda numa ausência de verticalidade mais conhecida por canalhice intelectual. E passo a explicar a explicação.

Miguel Real não consegue ultrapassar a página 20 sem uma comparação completamente imbecil entre uma decisão de Paulo Macedo sobre a política cirúrgica dos hospitais públicos e a banalidade dos campos de concentração. Caro Miguel: do fundo do coração, um pouco mais de calma. Se é verdade que chamar filho da puta ao Manuel Forjaz pode ser considerado um destempero, o que dizer desta comparação entre Paulo Macedo e Adolf Eichmann?


Em segundo lugar, preocupa-me esta alusão a pessoas de raça negra que, alegadamente, partilham a linha suburbana de Sintra com o ilustre filósofo e cujo cheiro o ilustre filósofo diz ser objecto de contemplação estética, no mesmo momento em que se revela desgostoso por não poder replicar as camisas suadas nas páginas que deu a público, porque, nas próprias palavras do autor, se o tivesse conseguido fazer, essa duplicação do cheiro a suor, tornaria o livro inútil e a sua mediação desnecessária, pois o leitor teria directamente acesso às camisas encharcadas em catinga e já não precisaria de pensar sobre uma nova teoria do mal. Foda-se, caralhos me fodam, cona da tia. Caro Miguel: do fundo do coração, e aqui entre nós, um pouco mais de inteligência. Se Miguel Real se preocupasse minimamente com essas pessoas, não só não seria o Miguel Real, como em vez de redigir livros de merda, meteria conversa com essas mulheres suadas e trabalhadoras e aprenderia mais sobre a vida, o mundo, o afecto, o sacríficio, a ironia, e até a lavagem de retretes, tudo coisas bastante mais relevantes do que digitar mediocridades no seu portátil. Julgo que não será necessário elaborar muito mais sobre este ponto.


Por outro lado, devo dizer que é fácil replicar esse suor, basta Miguel Real dedicar-se a trabalhar, uma vez que o referido suor não será muito diferente do seu, apenas é muito mais mal pago. Ou Miguel real está convencido de que o que faz é muito melhor do que limpar retretes? Eu - e esse é o meu grandíssimo problema - não tenho tanta certeza sobre o facto da minha vida não ser uma grande retrete a precisar de limpeza. Com efeito, o facto de o suor referido resultar da lavagem das retretes por mulheres negras, constitui um problema político e económico que implica entrar num labirinto onde habita um touro (o discurso mistificado da economia neo-clássica) cujos cornos assustam de tal forma Miguel Real que este (totalmente ignorante da matemática e da lógica) se vê obrigado a ir esconder-se, bem quentinho, por trás das rudes tábuas da camaradagem étnica e da teoria avulsamente pós-moderna.


Deixo-vos com um excerto da recensão de S. José Almeida sobre esta Nova Teoria do Mal, onde se pode constatar de forma hilariante a indignação moral contra «os políticos que governam Portugal há trinta anos» - eleitos por marcianos guiados por Adolf Eichmann - uma crítica almejada em papel reciclado e publicado pela «D. Quixote/Leya» uma instituição eleita democraticamente e sem qualquer responsabilidade no governo Portugal, deus seja louvado, hossana, aleluia, aleluia. Imprimam em papel mole e leiam, porque se o papel for duro - e para citar um médico anónimo - nem para limpar o cu serve.

A Nova Teoria do Mal, editado pela D. Quixote/Leya (eh, eh, eh, eh), é também surpreendentemente um livro de paradoxos. Por um lado, prospectiva o futuro e analisa e sistematiza o passado da Europa de um ponto de vista filosófico, histórico, científico, racional, estudado (prolongado riso de Alf), reflectido, amadurecido, feito como uma renda de bilros ou como um mecanismo de um relógio (como?). Por outro lado, é um grito de desespero, uma rejeição visceral do statu quo (eh, eh, eh, eh), um vómito de recusa de uma forma de gerir a sociedade, uma opção angustiada de corte com o mundo (ui, ui), de recusa de país, de redução assumida a cidadão de Sintra.
(...) E acusa: “Não são políticos os nossos governantes de hoje, mas economistas (os falsos profetas do século XXI)
(falsos profetas? eh, eh, eh, eh, uh, uh, ah, ah,ah) técnicos, robots substituíveis uns pelos outros (e os robots? Não são cultura?), possuindo o mesmo vocabulário, aplicando invariavelmente o argumento da eficiência de custos e proveitos, totalmente desacompanhados de uma dimensão cultural e espiritual para a sociedade.” (p. 18/19)

(eh, eh, eh, eh, eh, eh, eh, eh, risos, risos, risos, risos)


Uma dimensão cultural e espiritual para a sociedade? Foda-se, caralhos me fodam, cona da tia.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Notícia de última hora: José Luís Peixoto explica finalmente porque é que os seus livros são péssimos


Quando navegava, serenamente, em busca de notícias sobre o reino das duas Sicílias no século XVII, deparei-me com uma das confissões mais extrardinárias dos últimos séculos: o brilhante e aclamado escritor, José Luís Peixoto, publicado pela Einaudi em Itália, a editora de Calvino (aqui lembro os shakespereanos quarenta invernos que nos cobrem a face, deixando triunfar todos os medíocres) explica finalmente porque razão os seus livros são uma tremenda confusão entre a banalidade e a realização arítistica. Vejamos.


É desta forma clara e notavelmente directa que José Luís Peixoto, cansado de ser mal intrepretado, decidiu, finalmente, revelar como o amor burguês está no coração do seu enorme sucesso, explicitando a origem da gigantesca confusão mental em que incorreram , por qualquer ingrato motivo, todos os indivíduos que, inexplicalmente, o apreciam.

Ou seja, quando se está ao longe e se vê um casal na caixa do supermercado a dividir tarefas, há a possibilidade de se ser snob, crítico literário; quando se é parte desse casal, essa possibilidade não existe.
Ou seja, quando nos afastamos de um dado problema para o pensar mais correctamente, ponderando todos os pontos de vista da questão, fazendo rodar o observador e não o objecto, como Kant recomendava na introdução à primeira edição da Crítica da Razão Pura, há a possibilidade de incorrermos num excesso de etiqueta, uma vez que fechando os olhos à inteligência, e esquecendo que somos dotados de um cérebro, conseguiremos triunfantemente confundir o nosso sentido crítico com as nossas próprias dúvidas, e poderemos todos resfolegar, eternamente, como o porco na lama, sem nunca nos depararmos com o mais pequeno vestígio de erro, culpa ou remorso, porque, gloriosos e infalíveis juízes do nosso próprio processo, ganharemos esplendorosamente em toda a linha. É, pois, com tremenda elegância que vemos Peixoto lançar-se na desmontagem dos mecanismos que têm levado as pessoas a apreciar o seu discurso larilas. Com efeito, o seu discurso é um espelho da mediocridade, capaz de amplificar o quotidiano sem contudo exercer qualquer crítica ou juízo sobre a banalidade e, na melhor das tradições jornalísticas, satisfaz o desejo mórbido das massas, confusas com a importância da actualidade, e incapazes de elevarem o seu entendimento, sedentas de orientação ou sentido, qualquer que ele seja, a troco de uns minutos de paz e sossego mental. No entanto, tenho uma má notícia para as massas: não só a repetição banal da realidade não justifica a sujidade da nossa vida, como a experiência estética, e o prazer daí resultante, não dependem de uma confusão entre o que apreciamos e o que não exige esforço, pois, no amor, como na poesia, como na marcação de pontapés da marca da grande penalidade, o prémio está sobretudo no esforço e na fruição do acto - não nos seus resultados - e por isso, qualquer anestesia, ou encurtamento do exercício de viver, ou de criar, não nos devolverá em dobro a fruição desse exercício de viver. Como já estavam cansados de saber os romanos, a beatitudade não é o prémio da virtude mas a própria virtude, e por isso, quanto mais esforço crítico e auto-reflexivo colocarmos na realização da nossa vida, tentando separar a experiência do exercício crítico sobre a experiência, mais obteremos uma posição imparcial em relação aos pequenos dramas do quotidiano. Será isso garantia de prazer? Não. Mas alcançaremos dessa forma uma superioridade moral, e um ponto de vista tão abrangente que nos permitirá realizar uma leitura estética do mundo, digna do sacríficio que está implícita na sua comunicação e capaz de atrair a atenção dos outros? Sim, e é precisamente este processo de distanciamento crítico da realidade que tem produzido vozes como a de Shakespeare ou Proust, capazes de refundar a banalidade do quotidiano, sobreviver às caixas de supermercado, bem como às toneladas de Josés Luíses Peixotos que teimam em dizer-nos que está tudo muito bem assim, que não é preciso reconfigurar nada, e que podemos continuar enlameados na replicação da banalidade, do trivial, do acaso, em suma, que podemos continuar afogados na desordem.



Pelas mãos passam-nos as compras que escolhemos uma a uma e os instantes futuros que imaginámos durante essa escolha: quando estivermos a jantar, a tomar o pequeno-almoço, quando estivermos a pôr roupa suja na máquina, quando a outra pessoa estiver a lavar os dentes ou quando estivermos a lavar os dentes juntos, reflectidos pelo mesmo espelho, com a boca cheia de pasta de dentes, a comunicar por palavras de sílabas imperfeitas, como se tivéssemos uma deficiência na fala.
Não sei como José Luís Peixoto costuma lavar os dentes mas eu não gosto de o fazer acompanhado, porque, desde muito novo, a única coisa que resgitei após décadas de missa (e sucessivos bombardeamentos de sabedoria, sobre a minha cabeça, por parte da ancestral Santa Madre Igreja, artilhada pelo martírio anónimo de resmas e resmas de celibatários com mais noites de cama do que o Cristiano Ronaldo) é que não há nada como o pudor e o recato para servir de intensificador do erotismo na vida de um casal

Ter alguém que saiba o pin do nosso cartão multibanco é um descanso na alma.
Aqui tenho que prevenir o caro leitor, pois esta é a única frase do brilhante artigo que não posso subescrever, pois a conclusão implícita nas premissas, depende da pessoa. Consideremos as várias hipóteses: a) o nosso pin está na posse do Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva - enfim, não é grave, embora não se possa dormir tranquilamente, pelo menos até ser colocada uma mensagem tranquilizadora no site da Presidência; b) o nosso pin está na posse de Vitor Gaspar - é preocupante mas não há razão para pânico, uma vez que podemos tomar rapidamente todas as medidas de segurança, recomendadas pela instituição bancária, antes de Vítor Gaspar conseguir digitar o código na totalidade; c) o nosso pin está na posse de José Socrates - esquece, já foste; d) o nosso pin está na posse de um delinquente da Brandoa - é preocupante, mas um telefonema ao José Luís Peixoto ainda pode evitar males maiores, desde que o escritor não esteja a lavar os dentes e se negue a colaborar com a polícia.

Essa tranquilidade faz falta, abranda a velocidade do tempo para o nosso ritmo pessoal. É incompreensível que ninguém a cante.


Na verdade, é incompreensível que ninguém cante a tranquilidade do quotidiano. Contudo, do alto da minha espectacular incapacidade de lavar os dentes em conjunto, tenho, inacreditavelmente, uma singela explicação. É que um obscuro escritor baptizado numa ilha filha da puta com o nome de James Joyce, já o fez, num dos livros mais lidos, traduzidos e estudados no último século, e fê-lo com tal eloquência e estrondo que a sua canção não se tem cansado de ecoar nas cabeças dos críticos e escritores, de tal modo, que se revela capaz de atravessar as grossas paredes da estupidez e chegar, em terceira mão, a analfabetos que apenas dela tiveram notícia por um murmúrio muito longinquo, mas ainda suficientemente vivo para lhes suscitar um formigueiro confuso na cabeça. De qualquer modo, é inteiramente justificável que, abandonando a perspectiva de quem olha de longe, para o estúpido casal a arrumar as suas compras de merda, num irritantemente funcional tapete rolante, impecavelmente manipulado pelas unhas rouge da quase sempre muito atraente rapariga da caixa, se mergulhe numa surdez intelectual, e de tal forma implacável que nem o rugido do elefante seria capaz de produzir qualquer estímulo auditivo.


As canções e os poemas ignoram tanto acerca do amor. Como se explica, por exemplo, que não falem dos serões a ver televisão no sofá? Não há explicação. O amor também é estar no sofá, tapados pela mesma manta, a ver séries más ou filmes maus. Talvez chova lá fora, talvez faça frio, não importa. O sofá é quentinho e fica mesmo à frente de um aparelho onde passam as séries e os filmes mais parvos que já se fizeram. Daqui a pouco começam as televendas, também servem.


Pronto. Este é o momento mais comovente de todo o texto e confesso que uma lágrima opalina rolou na cera insensível da minha face, porque José Luís Peixoto está embalado e nota-se que vai mesmo proferir a frase mais brilhante da sua carreira - «na mesinha em frente do sofá, onde se amontoam os nossos telémoveis, as chaves de casa e as embalagens vazias de iogurte, ali mesmo, junto ao livro, A yoga em sete lições, edição especial para pessoas com deficiência na fala, está um livro do José Luís Peixoto, e para o nível de confusão mental e desorientação em que estamos, qualquer merda serve». No entanto, qualquer coisa relacionado com uma humildade muito provinciana e verdadeira, impediu o famoso escritor de se auto-promover. E nós achamos bem.


Estas situações de amor tornam-se claras, quase evidentes, depois de serem perdidas. Quando se teve e se perdeu, a falta de amor é atravessar sozinho os corredores do supermercado: um pão, um pacote de leite, uma embalagem de comida para aquecer no micro-ondas.

Não sei, não sei. A falta de amor também pode ser ter de atravessar sozinho uma crónica do José Luís Peixoto, e, no entanto, de lágrimas nos olhos e a barriga contorcida de riso, aqui estou, hercúleo, olímpico, glorioso, sem pestanejar, enfrentando a morte perante o perigo de sufocar no meu próprio riso, porque julgo que a sinceridade do escritor, e a raridade do momento, assim o exigem.

Não é preciso carro ou cesto, não se justifica, carregam-se as compras nos braços. Depois, como não há vontade de voltar para a casa onde ninguém espera, procura-se durante muito tempo qualquer coisa que não se sabe o que é. Pelo caminho, vai-se comprando e chega-se à fila da caixa a equilibrar uma torre de formas aleatórias.


Uma torre de formas aleatórias é um conceito que me ultrapassa e por isso, aqui, tal como diante da obra de Frank Gerhy, tenho que suspender o meu raciocínio, mas é indiscutível que por vezes não é preciso carro ou cesto, sobretudo quando vamos em busca de uma embalagem para aquecer no micro-ondas porque não sabemos um caralho de cozinha, acampados na convicção de que a mulher iria confeccionar, et in secula seculorum, a preciosa refeição, ou, na pior das hipóteses, viviamos na dependência das competências parentais, ou ainda, na hipótese que atinge níveis insuportáveis de decadência, recebiamos o alimento devido a serviços prestados pela sogra. Não admira que aquela cena do casal tenha corrido pelo pior e a mulher do Peixoto se tenha posto a milhas: aturar livros maus, as gajas ainda aturam, agora, com franqueza, esperar da mulher refeições diárias, depois da invenção da pílula e do soutien, isso ninguém canta, porque, deus nosso senhor seja louvado, ou já nao há ou está em vias de não haver.


Quando se teve e se perdeu, a falta de amor é estar sozinho no sofá a mudar constantemente de canal, a ver cenas soltas de séries e filmes e, logo a seguir, a mudar de canal por não ter com quem comentá-las. Ou, pior ainda, é andar ao frio, atravessar a chuva, apenas porque se quer fugir daquele sofá.


Aqui não percebo: um gajo pode querer fugir do sofá e não ter necessariamente que mergulhar na chuva. Eu por exemplo costumo jogar à bola num pavilhão coberto, piso federado, balneários com água quente, tudo isto pela módica quantia de 3 euros semanais. Mas há o cinema, o café, a casa dos amigos, o teatro, as bibliotecas universitárias, a igreja, etc, etc, etc.


E os amigos, quando sabem, não se surpreendem. Reagem como se soubessem desde sempre que tudo ia acabar assim. Ofendem a nossa memória. Nós acreditávamos. Havemos de engordar juntos, esse era o nosso sonho. Há alguns anos, depois de perder um sonho assim, pensaria que me restava continuar magro. Agora, neste tempo, acredito que me resta engordar sozinho.


Também não é preciso cair neste nível de auto-punição pelo simples facto de termos constatado que estamos, de uma vez para sempre, sozinhos neste mundo confuso, onde nem a fama, nem o dinheiro, nem as paletes de livros publicados, onde figura estampado o nosso pobre nome, nem as embalagens para aquecer no micro-ondas, nem sequer Nosso Senhor Jesus Cristo, nos podem salvar de cair no ridículo. Eu diria, não sei se para consolo do José Luís Peixoto, mas certamente para tranquilidade das massas que não publicam crónicas ou livros, que, apesar de tudo, é melhor engordar sozinho do que cair no ridículo.

***



«Vou tentar explicar-me uma coisa: a literatura de viagens é uma cena impossível. Ou as pessoas escrevem bem, ou viajam. Porque, lamentavelmente, não basta escrever bem e ter uma imaginação que surpreenda, também é preciso possuir um olhar que nos seja particular; ora, ter um olhar assim não é tão fácil como escrever bem, e a disciplina de não deixar a imaginação e o conhecimento alhear o olhar específico que eventualmente tenhamos aprende-se na biblioteca, não na estrada. "Então, caralhos ma'fodam, para aprender a escrever sobre uma viagem que façamos não se pode viajar, caralho?", inquirirão vocês. Exactamente.»



Maradona in A Causa foi modificada, Quinta-feira, 1 de Março de 2012, às 00:09.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Génio

Em justa e sentida homenagem aos meus leitores anónimos, de hoje em diante, irei empreender denodados esforços para seccionar em elegantes parágrafos todas as minhas ideias, sendo que, em passagem, tentarei seccionar, de igual modo, frases que me parecem estúpidas, e começo, desde já, por esta

Os queridos comentadores que resistem com heroicidade a toda a concorrência desleal feita pelo Mário Crespo, pelo Mário Monti ou outro qualquer actor premiado pela academia, deixaram sentidas perguntas e frases de conforto e estímulo nas nossas alvíssimas caixas de comentário que, como terríveis baleias brancas, estão aqui apenas com o propósito de serem arpoadas. Sobre a obra de Frank Gehry: devo dizer que não espero muito de uma pessoa especializada em problemas estéticos mas que se revela incapaz de compreender, por uma rápida e simples mirada do cabelo oleante de Santana Lopes, estar na presença de um vigarista desiquilibrado. Sobre a sua obra teria que empreender vastas leituras e estou empenhado em inscrever o meu nome no muro imortal da literatura.

Já o problema do romantismo toca num orgão sensível da minha poderosa orquestra. Entendamo-nos: aquilo que seguramente «já era» é o sentido do progresso em que umas coisas se sucedem às outras numa marcha triunfal a caminho da parusia - um conceito que me ficou das inacreditáveis leituras das obras completas de D. José Policarpo. Já era para quem? Para o olhar silencioso de deus que, como «o juiz na meta da corrida», torce os dedos angustiado por saber se seremos ou não capazes de chegar ao fim? Para os meios de comunicação demencial? Para o covil de sacerdotes que responde pelo nome de Universidade? Para o (risos) mercado? As coisas não estão legitimadas pelo tempo e uma consciência crítica deve estar preparada para se medir com Aristóteles e não apenas para decepar a frágil cabeça de Deleuze ou Fukuyama, o que seria demasiado fácil. Génio maldito é, na verdade, um belo pleonasmo, pois o conceito que melhor caracteriza o génio é, por antonomásia, maldito.

A minha seriedade obriga a repetidas lambidelas de cu ao Maradona, sobretudo porque isso significa um manifesto contínuo de que o génio se revela na indiferença perante o público, e se o faço, daqui relevam duas coisas: 1) o meu total desinteresse material e afectivo em todas as expressões da minha consciência doente e maldita; 2) a afirmação de um problema - o anonimato de um génio - que é ao mesmo tempo a afirmação estética de um programa de vida - a beleza e a profundidade intelectual está onde menos a procuramos. Não será necessário citar Blake para que todos nos convençamos de que a sabedoria se troca num mercado pouco frequentado. A razão pela qual este princípio não sofre grandes mudanças, explica-se pela própria constituição da grandeza, que sempre necessitou da vertigem do falhanço, inerente a toda a realização que confronta os limites do conhecido, como das planícies solitárias do desejo, que só a dificuldade e o insulto permitem frequentar. Quando Shakespeare arrumava os cavalos dos espectadores londrinos, à porta de um teatro, acumulava quantidades suficientes de ressentimento e fúriapara que mais tarde, com os instintos já domados pela inteligência, produzisse as toneladas de setas de fogo que haviam de dobrar a rainha de Inglaterra aos seus pés.

Não fez mamadas ao governo mas obrigou o governo a repetidas e prolongadas mamadas: eis um epitáfio que estão autorizados a gravar na placa xistosa do meu túmulo.