terça-feira, 30 de abril de 2013

América.

Quando o tempo deixar finalmente de passar transformando-me numa criatura enfim disponível para as desutilidades das minhas humanas preferências, eu, doente e febril com os raciocínios da minha própria perseguição, marcado a fogo com o incandescente brasão da infância, redigirei um livro inesquecível intitulado Kafka na América: uma história dos intelectuais ressentidos, entre os quais eu próprio me incluo como autor falhado e fecho da abóbada celeste, fazendo uso de toda a violência permitida a um prazer puro e viril: o pensamento original, conciso, comovente. A primeira pista para esta relevante investigação foi lançada por Michel Foucault nessa fantástica obra pedagógica registada em cassetes de fita, nos anfiteatros apinhados do Colégio de França em Paris no final dos anos setenta, O Nascimento da Biopolítica, conjunto de lições produzidas num cenário onde conseguimos imaginar belas raparigas bretãs, vigorosas e tristes, em camisola de lã, de faces rosadas e seios juvenis, com o olhar suspenso na virtuosidade do raciocínio analógico, um raciocínio onde pela primeira vez se procurava colocar em perspectiva a prodigiosa redução do amor pós-industrial  a uma relação funcional entre dois conjuntos muito bem determinados (desejo sexual e curva de rendimentos).


Embora o livro do autor de As Palavras e as Coisas incorra na prolixidade amaneirada de quem se perdeu no labirinto das relações entre as coisas e as palavras, muito por influência da má literatura ingerida, fruto de uma escassez de instrumentos estatísticos, a verdade é que foi talvez o primeiro a tornar claro o indestrutível elo entre a emergência do monstro nazi e a fuga americana de um conjunto de extraordinários intelectuais, burocratas, engenheiros, matemáticos, nascidos no melancolicamente a caminho de se estilhaçar Império Austro-Húngaro, um grupo de ressentidos e tementes do Estado, apostados desde então numa utopicamente comunista busca de um futuro mais justo e mais fraterno. À cabeça de todos o nunca e sempre esquecido fenomenal John von Neumann (János Lajos Neuman, nome de baptismo em Budapeste, 1903). Vem a calhar verter aqui duas lágrimas por uma outra fugitiva, a mãe de Nabokov, cuja amarga viuvez exilada foi alimentada pelo governo Checo, instituição que antes de ser esmagada pela bota hitleriana e estalinista, garantiu à bondosa mulher uma velhice quase elegante, feita de passeios pelos subúrbios de Praga - levando pela encarquilhada mão uma cadela, cria neta de um casal de animais pertencentes ao Dr. António Tchekóv - e que pode muito bem ter-se cruzado com a mãe de Austerlitz, antes de esta ter sido deportada para Terezín, segundo nos conta o emigrado W. G. Sebald, e segundo o imaginamos a atravessar os subúrbios de Londres (as pistas abandonadas onde outrora se realizavam corridas de cães, os estádios pelados, os cemitérios cinzentos e as fábricas cobertas por uma nuvem de fuligem) a fim de consultar um oftalmologista, isto em meados dos anos 80 do século XX.


Children in a spinning mill in Fall River, Massachusetts, 1912.

Crianças operárias num fábrica de Fall River, Massachusetts, 1912.
Recebiam metade dos salários pagos aos adultos (Photo by Lewis Hine)

Depois de duas semanas de delírio académico e circo econométrico em tudo quanto era imprensa cor-de-rosa, o silêncio tem vindo a instalar-se na minha cabeça, e recordo a esse propósito a estúpida querela a propósito dos apelidos Reinhart, Rogoff e o programa Excel, um enredo em si próprio inspirado nos movimentos cegos e manietados do escaravelho de Kafka. Naturalmente, o apelido de Reinhart pertence a uma filha de Havana, Cuba, que em 1966 se pôs a andar por razões que agora não nos interessa analisar em detalhe mas que terão implicado as sinistras movimentações da mão do medo, sempre disfarçada e insinuante na sua luva de veludo negro. Como na altura fiz questão de lembrar em um outro orgão de comunicação social, a questão fundacional do problema do artigo académico sobre a austeridade (que é no fundo a questão do ressentimento e das suas origens) está em saber qual o estatudo da racionalidade matemática no estudo do comportamento humano. Ora, estes problemas são muito difíceis de vender juntamente com o comentário de José Luís Dantas Peixoto aos Lusíadas, pelo que temos que ser nós a tentar debelar a questão. Claro que agora ninguém pretende perder tempo com este breve mas brilhante cálculo de probabilidades perante a tentativa de controlo dos estragos da maquiavélica dupla que muito calmamente tem vindo a recentrar o debate no coração das trevas:

In some cases, we have favored more radical proposals, including debt restructuring (a polite term for partial default) of public and private debts. Such restructurings helped deal with the debt buildup during World War I and the Depression. We have long favored write-downs of sovereign debt and senior bank debt in the European periphery (Greece, Portugal, Ireland, Spain) to unlock growth. In the United States, we support reducing mortgage principal on homes that are underwater (where the mortgage is higher than the value of the home). We have also written about plausible solutions that involve moderately higher inflation and “financial repression” — pushing down inflation-adjusted interest rates, which effectively amounts to a tax on bondholders. This strategy contributed to the significant debt reductions that followed World War II.


Contudo, nenhum destes acertados e plausíveis argumentos nos impede de lembrar aqui que Reinhart trabalhou como economista no Bear Stearns, envergando na lapela do saia-casaco o bonito título de bank's chief economist, mesmo que (segundo a Wikipédia) tenha mais tarde sofrido a influência redentora do fascinante Robert Mundell. Na década de 1990 e depois entre 2002 e 2003 a foragida latino-americana Carmen Reinhart trabalhou como directora do Departamento de investigação do FMI, um sítio onde se ganham rios de dinheiro e se embrutece com a velocidade do avião a jacto. Neste momento, e quando estamos prestes a incorrer numa grave inconsistência relativamente ao nosso tema inicial, convém aqui recordar que Robert Mundell, mentor da emigrante Cubana, foi considerado o pai conceptual do Euro, um sonhador, portanto, em suma, um homem capaz de se envolver numa controversia monetária com o perigoso e incorrigível Milton Friedman(voilá). Milton Friedman, o quarto filho de Jeno Saul Friedman e de Sarah Ethel Landan, um simpático casal de origem judaica apostado em fugir às misérias da tchekoviana vila ucraniana de Beregszász, outrora propriedade do império Austro-Húngaro, e que foi parar a Brooklyn, um Distrito a crescer demograficamente naquela época de 1912 a 40,1%,  registando 1 milhão 634 mil e 351 pessoas. Milton haveria de envolver-se, portanto, com Mundell, resultando a envolvência num fértil debate a propósito da desvalorização do ouro e da quebra disciplinar de Breton-Woods, debate de onde nasceu uma das mais fascinantes leituras históricas sobre a relação entre a necessidade de financiar a guerra do Vietnam e a construção do sistema financeiro contemporâneo. Esta espantosa demonstração de eloquência mental, nobreza discursiva, coragem intelectual e desejo de conhecimento devia ser suficiente para desencorajar os estúpidos de todo o mundo a produzirem as mais nefastas aldrabices sobre as mais sensíveis questões do nosso tempo, a saber, quais os parâmetros mais indicados para construir uma taxa fixa de transacções comerciais. Em todo caso, as merdas são o que são, e o melhor é continuar a manter a calma nos momentos mais desafiantes da nossa vida porque dos estúpidos é o reino dos céus, pelo que a nós nos resta desfrutar desta bela e perecível terra.

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Underground Railroads in Forty-Second Street in Front of New Grand Central Station.
 

Nesta espantosa demonstração de esperança no futuro auspicioso dos pobres, a cidade de Nova Iorque fornece o exemplo paradigmático da nossa condição, Jerusalém das mentes racionais, e que recebia em 1912 os desesperados de todo mundo, em espasmos monstruosos, e com a velocidade silenciosa e duplicadora dos tecidos vivos, onde se tramavam espirais de conspiração, crime e eficiência, projectando as linhas de transporte subterrâneo, os cálculos das despesas, a repartição dos custos mas tudo com tal clareza contratual que é de fazer um meridional ir às mais amargas e sentidas lágrimas, chorando a rotação dos cilindros da história e o desaparecimento fatal do mediterrâneo e da sua cultura como berço da razão. A magnitude da multiplicação subterrânea, as toneladas de dólares despejados sobre o bem comum, as linhas elevadas de Manhattan vindas do passado na sua cruel perenidade, as estimativas do trânsito automóvel, podem e devem animar-nos a não desistir perante a desordem do mundo. Quem não for capaz de ver nesta nuvem de petróleo, sangue e linhas paralelas a mais resplandecente metáfora da nossa estirpe divina não compreendeu ainda de que forma a beleza da tragédia humana, embora metamorfoseada na condição e no lugar, continua a lançar as suas fagulhas resplandecentes enquanto mergulha nas trevas do esquecimento. Aproveitemos a viagem.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Dê por onde der os francófonos são incapazes de pronunciar palavras estrangeiras

A versão local da Antena 1, tem um programa "Le monde est une Village" dedicada a, advinhastes bem, à música do mundo. Na terça calhou a vez a Portugal, podcast disponível aqui. Abusaram um bocado do fado - é como o sal, tem que ser bem doseado - mas não ficámos mal na fotografia. 

O título logo decido qual será

A opereta do empreendedorismo pode ter deixado alguns a pensar que nesta casa só se pega no teclado para bater nos pobres de espírito. Em parte é verdade, mas se todos os caminhos vão dar a Roma, nem todos os pobres de espírito alcançaram o céu. E desses, cá estamos nós para nos ocupar.

Ora, se a Maria (enterremos o estereótipo do empreendedor masculino) percebe umas merdas de biotecnologia (e voltámos aos estereótipos) e consegue ver uma oportunidade para fazer uns trocados, a última coisa que ela deve fazer é pôr-se a brincar com o Excel e as 1002 páginas do Código Tributário. Por uma simples razão, a especialidade da Maria não é o malabarismo fiscal mas sim a biotecnologia (uma contradição de termos, mas isso é assunto para outro dia).

Expondo por momentos a rabadilha, o autor destas linhas anda a tentar empreender desde há anos. O esforço e a dedicação variam conforme o tempo e os humores, mas o insucesso esse é constante. Por experiência própria, posso afiançar que o empreendedorismo é uma figura geométrica com três pontos focais: o que é que vamos fazer, com que orçamento e a quem o vamos vender. Os impostos só aparecem, se aparecerem, enterrados numa secção escondida no final do plano de negócios.

Curiosa coincidência, o estado-nação onde agora me encontro tem sido palco de uma acesa discussão sobre empreendedorismo entre este que vos escreve e outros operários da empresa capitalista que se apropriou dos nossos meios de produção e nos explora sem dó nem piedade. Nesta discussão os impostos nunca foram tidos nem achados. E a taxa máxima de IRC não só é mais alta na Bélgica mas, qual cereja em cima do bolo, esta tem vindo a diminuir em Portugal. Por outro lado, os impostos sobre os indivíduos passivos têm vindo a aumentar. Se isto não é um incentivo ao empreendedorismo por parte do Estado, não sei o que será.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Uma falha colectiva da qual eu me venho penitenciar

reparei ontem, quando os olhos do mundo estavam postos no Lewandosvky, que esta casa ainda não prestou a devida homenagem ao Luka Modric, o mais próximo possível que a espécie humana consegue de um hipotético cruzamento entre o Deco e o Isaias. Saudações ao Benfas da década passada.



Mas o que me traz aqui não é a anomalia futebolística ontem sucedida em Dortmund, mas sim o post que tem uma audiência superior ao DN. Este aqui.

Se o Modric é o resultado da selecção natural aplicada aos que jogam atrás do ponta de lança, o post acima mencionado é um meme comum na blogoesfera portuguesa. Pode parecer o mesmo, mas não é. Eu explico.

É sobretudo nestas alturas de mais aperto que alguém escreve a história do Zé que é um rapaz inteligente e se lança no empreendedorismo e termina nas manápulas ensanguentadas desse monstro que é o regime fiscal lusitano. Antes de mais uma vénia à inovação, o JCD do Blasfémias fez o mesmo há um par de anos mas o rapaz na altura era o João. E agora não tenho paciência para procurar, mas aposto as chuteiras do Lewandowsky em como o Miguel Sousa Tavares, o Pedro Arroja entre outros, contaram histórias semelhantes. Que aqui sintetizo: o Zé/João é um tipo brilhante e só não inova porque o estado não deixa.


Há muito por onde agarrar, mas eu vou americamente manter os olhos no prémio e vou ao que importa. A historieta é uma falácia. Pronto, é isto.

O caminho mais provável para um empreendedor é a falência, como sabem todos os que alguma vez tentaram fazer algo na vida. Nos US of A, há uns dois ou três anos, 6 em cada 10 startups falhavam no primeiro ano. A não ser que o código fiscal americano seja igual ao português, os impostos não podem ser a causa única dos Zés e dos Joães acabarem a pedir trocados no metro do Marquês para pagar a dívida ao fisco.

Estas historietas são um pouco como os meus compadres sportinguistas que substituem a realidade por uma narrativa reconfortante. É mais fácil apontar o dedo ao Gaspar/Passos Coelho/Álvaro, do que perceber que a inovação é uma cruz que muito poucos conseguem carregar.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Como eu gosto destas coisas

A mesma pessoa que escreveu isto:

tenho que admitir que este Governo não merece o povo que governa. Os portugueses, mesmo aqueles que aparentemente dela beneficiaram, perceberam o absurdo da decisão do Tribunal Constitucional. A decisão do Ministro das Finanças de congelar as despesas mostra que, de facto, ele, embora não viva cá, deve estar de partida para outro lugar. Desejo-lhe boa viagem;

duas semanas depois é escolhida para ser secretário de estado. Isto encontrado num blog com tipos que percebem montes de tudo. Então assim está bem, não queremos cá malta sem competência. E por falar em competência, o Bayern ganhou ontem 4-0 com o árbitro ainda a ajudar o Barça. Que sirva de lição ao (meu) Sporting que em vez de se queixar devia era jogar à bola.

terça-feira, 23 de abril de 2013

A importância de se chamar Sporting, devidamente antecedida por múltiplas vénias (de frente) e um pedido de desculpas ao Oscar Wilde

O Sporting perdeu no último fim-de-semana o jogo por 2-1 como sabeis. Está agora a um ponto do primeiro lugar e será difícil levar a taça do campeonato. Mas o Sporting apesar de último no grupo está bem encaminhado e continua com os dois pés na Europa. Mas primeiro terá que passar pelo Sporting, e só se enfrentando e se superando a si próprio participará na UEFA. Tal como em Portugal, o principal adversário do Sporting é ele próprio.

Coisas tão fáceis, tão fáceis de implementar que não se compreende porque razão não foram ditas mais cedo.

Medina Carreira denunciou ontem, visivelmente perturbado, enquanto participava num debate numa estação de televisão portuguesa, como a fusão do Colégio Militar com as Meninas de Odivelas (um projecto realmente bárbaro, devo confessar) revela uma natureza pérfida e a clara e inquestionável decadência do poder político, nas suas palavras «uma coisa de paisanos» e um pouco antes de ter chamado maricas aos alunos do Liceu Camões (entre os quais se encontra, segundo julgo, Nuno Crato) em virtude de não aguentarem as cargas de ombro nos campeonatos de futebol do seu tempo (algo também comum a Viola, Capel e Wolsfswinkel) fez questão de mencionar a importância de ter sido obrigado a tomar banhos frios durante os seus nove anos de frequência do Colégio Militar. Caramba, saltei logo do sofá. Está encontrada a solução para a crise económico-financeiro-moral da nação. Pais e mães de Portugal, é mergulhar as crianças em água fria logo pela manhã, enfiar um fato castanho, espetar com um barrete parvo daqueles dos carregadores dos hotéis de luxo no alto da cabeça dos mancebos, marchar em volta da praça mais próxima pelo menos 20 minutos cada dia, e dentro de 20 anos estaremos a crescer a 20%.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Quando é a beleza a magoar a dor é muito mais profunda.

Não sendo eu um adepto do jornalismo desportivo - pois não há actividade humana mais imediata e efémera do que o futebol e por isso os atletas são hiperbolicamente remunerados, sendo justo que assim seja - não posso deixar de fazer uma incursão na psicologia social da derrota, algo em que nos temos vindo a especializar com esmero, sobretudo depois de Aníbal Cavaco Silva se ter transformado no player fundamental e duradoiro da geringonça constitucional de que fazemos parte ao menos como remadores de porão. É sobejamente conhecido por cada poro do nosso organismo animado o universal facto de sermos todos portadores de ódios particulares, intensos, resilientes, e não é pois necessário fazer prova da raiva nutrida pelo adepto sportinguista comum relativamente ao seu mais directo oponente e rival de sempre, a colectividade um dia intitulada por João Cutileiro os «Superportugueses do Sport Lisboa e Benfica» num artigo sociológico publicado nessa revista bizarra, O tempo e o modo, em que procurou fundamentar com dados empíricos, estupidamente objectivos, a abrangente fenomenologia da vitória benfiquista como mecanismo popular nos dolorosos e gloriosos anos sessenta do século XX.


Para lá das cento e dez grandes penalidades não assinaladas no jogo de ontem à noite, e colocando de parte as vinte e uma cartolinas encarnadas não mostradas diante das faces vibrantes dos atletas da Luz, o que sobretudo magoa os observadores apaixonados e adversários da equipa de Lima e companhia (equipa que lembre-se enverga camisolas da cor das papoilas saltitantes) é a espectacularidade imperial da vitória benfiquista, engalanada por um segundo golo em que o sentido da indignação e a estética moral do protesto, cozinhada em alto-forno durante quase noventa minutos de vãs esperanças, se estilhaça sem remédio perante o talento puro, a irreverência quase anárquica, a quase incompreensível e audaciosa irresponsável desorganização atacante, o controlo eficaz daquilo que conta num jogo (o golo), a harmonia frutífera e trabalhosa da correlação de esforços, o entendimento antecipado e a computação automático dos movimentos colectivos, o maquinal funcionamento com que cirurgicamente foi esmagado o pobre esforço de oposição daquela ridícula agremiação de jovens promessas lideradas pelo considerado senador do futebol português Jesualdo Ferreira (risos), ainda para mais alienados e iludidos pelas hostes portistas, injetados de entusiasmo por todos os comentadores e jornalistas durante toda a semana. O que sobretudo magoa todos os observadores e apaixonados rivais do Sport Lisboa e Benfica, somos forçados a repetir, é dinâmica corrosiva resultante do confronto com a incapacidade, a explosão violenta de impotência e o claro sinal de que nada há de mais doloroso do que o sofrimento nascido do desengano quando a realidade nos cai em cima com a sua cortante beleza. É quando os sonhos são sonhados nos cantos escuros dos quartos periféricos e húmidos, e alimentados por uma incrível pobreza de qualidades interiores e exteriores, é quando o desejo de vingança e vitória decorre de uma estratégia baixa e manhosa perante o acumular de humilhações e opções erradas, é quando a qualidade da harmonia e do equilíbrio corajoso triunfa perante todas as rasteiras estratégias de sobreviência fundadas em manobras de improviso e receio, é nesse imortal e redentor momento que as pessoas mais infelizes, frustradas e incapazes se revelam violentas e perigosas em toda a sua brutalidade. Neste sentido, foi para mim uma gratificante e refrescante shakespereana surpresa ouvir as apesar de tudo elegantes declarações de Bruno Carvalho, o homem em quem neste momento pesa toda a remota esperança de sobrevivência do Sporting Clube de Portugal. Mas temo que como em toda a organização decadente e em queda, o palco acabe sempre ocupado por pessoas da estirpe psicológica de um Rui Oliveira e Costa, apenas um apelido pendurado na parolice e no descontrolo contumaz, e pobremente um dos mais cristalinos exemplos das razões que nos trouxeram, a nós Portugal, ao triste local onde nos encontramos.

sábado, 20 de abril de 2013

Há uma primeira vez para tudo


O Wong Kar Wai lá fez um filme que não é uma história de amor. Algum dia teria que acontecer. O que tarda em acontecer é eu compreender pelo menos metade das referências dos filmes dele.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Explicação da crise infalivelmente científica calculada em folha excel à prova de vigarice.

Esta pessoa, irritantemente capaz de zombar ignobilmente de um curso intitulado História Intelectual da Europa, não estará por acaso perigosamente ao nível intelectual da Fátima Lopes com tudo o que isso significa de externalidades negativas ao nível das merdas todas com um mínimo de valor comercial? Não deveriam as pessoas moralmente irrepreensíveis, e comprometidas com uma concepção da Democracia como coordenação geral das escolhas individuais, estar neste momento perfeitamente aterrorizadas com as consequências desta perigosa pirotecnia social?

Democracia mas só até ao pescoço.

Dando seguimento à minha série de textos e colagens em torno do sistema político hodierno, e nunca abdicando de introduzir o incentivo necessário no aparelho mental de todos aqueles que ainda não lobotomizaram o seu sistema nervoso em face da insuportável dor de sustentar um raciocínio minimamente organizado, quero lembrar que é por causa destas merdas que a esquerda não consegue uma consequência relevante para os seus hagiográficos esforços de indignação. Quanto dinheiro enterra o Estado-nação em impostos na formação de uma elite médico-sanitária cujos serviços vão depois ser potenciados em 90% dos casos por interesses privados altamente especulativos e totalmente segmentados, separados, revolucionariamente desprendidos de qualquer estratégia nacional de saúde pública? Quanto do rendimento mensal do preto de Massamá não é diretamente engolido e metabolizado pelos organismos médico-dentários privados de uma classe que, por motivos óbvios, nada tem feito para democratizar dentes brancos e lavados na boca de toda a gente? Quem já conseguiu um consulta dentária no Serviço Nacional de Saúde? Eu próprio não entro num dentista há mais de cinco anos, de tal forma me sinto sodomizado por uma economia médico-terrorista que faz do medo e da vergonha o seu multiplicador de rendimento. Que pratiquem a prática na boca uns dos outros ou que vão pedir aos consultórios privados para se quotizarem que a nação, para esse peditório, já deu o suficiente.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Para quem ainda não viu uma Democracia a funcionar, aqui fica a ilustração, mas noto que é importante levantar o volume de som a fim de experimentar aquilo que em Portugal seria considerado uma intolerável selvajaria.

Aqui.

Faço votos para que todas as pessoas de bem possam um dia ser Professores Visitantes nem que seja na Cova da Moura, um local onde dava jeito que comparecesse um brilhante académico; da minha parte, já dei o meu contributo na Pedreira dos Húngaros no inesquecível e longínquo ano de 1998.

O brilhante Professor Visitante Poiares Maduro publicou em articulante camaradagem com Bruce Ackerman (de quem conheço o razoável mas algo aleatoriamente construído, The Decline and Fall of American Republic) no jornal inglês, The guardian um resumo das suas propostas de construção constitucional para a Europa, dando o ridículo e quase embaraçoso exemplo do método de elaboração utilizado na África do Sul (?). Na África do Sul? Na África do Sul.

Escolho quase ao acaso dois ilustres comentadores populares do dito brilhante e ilustre artigo publicado na imprensa de um país onde os académicos são instrumentos de raciocínio colectivo e não touros cobridores da credibilidade política.

Primeiro comentador:
1. South Africa is one country, not a collection of countries
2. South Africa is completely fucked, economically, socially and politically, hardly a shining example.


Segundo comentador:
Any European constitution should be very short and entirely comprehensible to any intelligent twelve year old. It should spell out the rights of the people, clearly. It must be a constitution for the people and the land. Not for businesses and politicians.
It should not be several dozens of pages long and incomprehensible to anyone lacking a Masters in European contract tort law and containing all sorts of exotic clauses that benefit businesses and politicians at the expense of the people and the land.
And it must be put to a referendum in every country.
Then you might have some sort of constitution worth a damn.

É simples, é fácil, é bonito.

Não é nada que me surpreenda, mas basear toda uma política no excel dá nisto:

"This error is needed to get the results they published, and it would go a long way to explaining why it has been impossible for others to replicate these results. If this error turns out to be an actual mistake Reinhart-Rogoff made, well, all I can hope is that future historians note that one of the core empirical points providing the intellectual foundation for the global move to austerity in the early 2010s was based on someone accidentally not updating a row formula in Excel.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Não podemos substituir o Pedro Lomba por este livro?

 
Is it too much to ask that members of the Obama administration turn to a dense work of ancient history to help them make good on Obama's vision of an American state that combines the resources of representative and participatory democracy?

Se me perguntam a minha opinião sobre o Senhor Professor Visitante Luís Miguel Poiares Maduro, defendo a invasão alemã de Portugal, já e em força.

Não sei se é do conhecimento geral mas algures no passado tentei aqui uma teoria da irrelevância sistemática de Miguel Relvas para o actual momento político-constitucional da nação, clarificando que no quadro de um sistema guiado pelas preferências individuais e não constrangido de forma directa pelo cacete policial, o exemplo positivo dos maiores é muito mais importante do que os pecados dos pequenitos, sendo pois que como em tudo na vida, todo o trabalho sexualmente relevante está em definir o grande e o pequenito, problema arcaico e tão fundamental que foi capaz de ocupar a mente de intelectuais mumificados como o Padre António Vieira, e que me consumiu a mim próprio até ao limite das minhas forças meta-evangélicas, durante mais de 70% dos almoços durante a faculdade, altura em que tentava clarificar, perante o estonteante e indisciplinado público de parasitas sempre larvar nas Faculdades de Ciências Sociais e Humanas,  o facto de o problema magno do Sport Lisboa e Benfica estar, nessas longínquas épocas, muito mais presente na ridícula expectativa criada em torno de atletas mediocres como Petit ou Nuno Gomes (dois jogadores claramente sobre-avaliados) do que no baixo rendimento de jogadores de quem muito justamente nada se esperava, como Bynia ou Beto (jogadores que no seu segmento de mercado simbólico - o dos gajos que estavam ali para tornar épica uma improvável vitória - podiam mesmo ser considerados muito interessantes ou até geniais).
 
 
O Senhor Professor Brilhante e Visitante em Yale, Luís Miguel Poiares Maduro, vem substituir na coordenação técnica dos membros técnicos do governo tecnológico o mais do que brilhante analfabeto em pleno desempenho da sua funcional estupidez, Miguel Relvas, no seguimento de a turba, muito justamente, ter cuspido, cantado, vilipendiado, acusado, pontapeado o relvismo para fora do espaço público com a alegria de quem cumpre uma sentença consensual e a turba viu que era bom que assim fosse, e isso era com efeito muito bom. Contudo, em vez de uma sapiencial conversão política pública em favor da qualificação dos portugueses em geral, através do nada original mas sempre eficaz derrame de sacos com dinheiro sobre todas as espectaculares cabeças que se querem dedicar a estudar os assuntos e a participar democraticamente no processo político (isto é, mais estudo para todos a juntar à já longa experiência misturada) o que temos em troca? Nada mais, nada menos do que a clássica nomeação do sábio providencial, na pessoa de um brilhante, chatérrimo e inteiramente estéril académico de salão, que é quase tão difícil de entender quanto Miguel Relvas, de tal forma vem pendurado no jargão da moda, na vénia recorrente e sistemática ao lugar comum, na veneração dos poderes instituídos em cada esquina da super-estrutura de andaimes onde estamos todos encerrados como macacos melancólicos, na capitulação perante um sudoku-constitucional de aberrações conceptuais, fundindo direito e economia de forma tão confusa que o leitor se vê vencido pelo cansaço, quando, farto de nadar em águas turvas, vai embater em horrorosos cadáveres semânticos tais como o custo/benefício da democracia, as externalidades constitucionais das democracias, ou a internalização dos impactos estrangeiros das decisõs democráticas.

 
O Professor Visitante Poiares Maduro, num artigo orgulhosamente citado pelo próprio por esse mundo fora, acha que o constitucionalismo tem como propósito, e passo a citar, installing reason in to a democracy, mas não lhe passa pela cabeça instalar a razão no seu próprio raciocínio e começa por invocar Dante e Virgílio, de forma gratuita, meus caros comentadores, confiem em mim, e só para mostrar que também leu livros, pecado que também eu cometo - é verdade -, embora com doses maciças de brilhantismo. Desde logo, o constitucionalismo, segundo o Professor Visitante Poiares Maduro, deve definir o escopo (e também o prego e a maceta, diria eu) da participação democrática, transformando-a numa democracia mais inclusiva (tautologia digna de um Miguel Relvas, note-se); deve determinar quais os custos e benefícios (que é esta merda?) a ter em conta na decisão democrática, ou seja quem deve ter uma voz (que é esta merda? não temos todos uma voz?), e que interesses devem ser tidos em conta numa decisão democrática (então o Constitucionalismo não é o garante da felicidade colectiva?), e daqui o Professor Visitante Poiares Maduro, assustado com a vertigem da secção da representação nacional em interesses particulares (salvé Rosseau, o grande) salta para a capacidade e amplo benefício da legislação europeia na capacidade de racionalizar as democracias nacionais. Ainda eu não percebi (desculpem, sou burro comó caralho) qual é o objetivo do constitucionalismo e comunicam-me que as mais nefastas externalidades democráticas são a assimetria entre o escopo de participação numa decisão democrática nacional e as comunidades afectadas por esta decisão. Profundo, luminoso, original, mas devo noticiar que Jean-Jacques Rosseau escreveu isto mesmo, de forma mais elegante e em francês, no esquecido e brilhante ano de 1754. No entanto, o brilhante académico acha por bem comunicar-nos com pompa e cornetins de Amarante que existe uma diferença de interesses entre as partes de uma nação, entre as diferentes nações e a construção de um enquadramento legal supra-nacional. Porém, o Professor Visitante Poiares Maduro, académico imparável, acha que a Lei Europeia tem forçado os estados a internalizar os impactos das suas decisões (o que é bom, segundo o brilhante académico) e avança com exemplos avulsos que são precisamente o contrário do raciocínio constitucional.
 
 
 
O tribunal de Justiça da União Europeia impede que os países controlem os seus mercados com base em tradições produtivas nacionais, impedindo a política fiscal orientada para a proteção e neste sentido, o Professor Visitante Poiares Maduro defende que as obrigações externas podem levar-nos a clarificar as nossas preferências (que é esta merda, caralho?) e como exemplo, avança com o facto de nos inscrevermos em ginásios como forma de nos obrigarmos a fazer ginástica (isto não terá sido o Miguel Relvas a sugerir?). O Professor Visitante Poiares Maduro diz-nos que as diferenças fiscais entre Estados não podem ser encaradas como uma distorção da competição uma vez que a soberania fiscal pertence (legalmente) aos Estados e, num raciocínio bizantino, avança com uma defesa da proibição de selectividade (o apoio fiscal ou financeiro dos Estados a interesses específicos) como prova cabal de que a imposição das externalidades pela lei europeia é um acto racional, quando, lembremo-nos, o Professor Visitante Poiares Maduro tinha afirmado que a Constituição serve para identificar que interesses devem ser protegidos. Agora, guiado pelo raciocínio económico, acha por bem que o interesse particular é melhor protegido com um proibição de proteger o interesse particular, prova cabal da existência desse hilariante labirinto cómico onde se introduzem as pessoas do Direito quando querem parecer modernas e vão para o lago da aldeia pescar conceitos económicos para ornamentar as suas deambulações jurídico-constitucionais.
 

Ao Professor Visitante Poiares Maduro não ocorre uma melhor argumentação, e vê-se forçado a defender que a selectividade promove a captura da decisão por interesses particulares (o que justificaria a sua proibição, sem mais), enquanto a tributação geral dispersa o risco e torna-se mais difícil de gerir politicamente. Em que ficamos? Na concorrência entre robustez empresarial (dos fracos não reza a história) ou na punição legal daquilo que impede a liberdade de acção (vinde a mim todas as criancinhas)? Caros irmãos em Cristo da Fundação Champalimaud Calouste Beleza Gulbenkian: não seria de recomendar a este indivíduo que estabilizasse uma variável a ver se a gente percebe o que se propõe? Onde se deve fundamentar a ordem do sistema constitucional? Na legalidade (risos)? Na soberania nacional (ainda mais risos)? No equilíbrio financeiro do Estado (lágrimas)? Na confiança inter-geracional? Mediante um critério jurídico, fixado textualmente, onde se registam direitos de decisão individuais e o âmbito da transferência desses direitos para um representação definida num critério geográfico? No equilíbrio de poderes, articulados proporcionalmente tendo como critério de força relativa a protecção dos direitos individuais básicos consagrados nas duas principais Declarações dos direitos humanos? Num interesse económico medido em PIB nacional, cuja base é a liberdade geral de iniciativa empresarial? No liberdade dos indivíduos poderem recusar imposições fiscais, ou endividamentos públicos, à moda do século XVIII? Num interesse económico comunitário medido em rendimento per capita como função de uma crescente integração de um espaço territorial num mercado livre? Não é de mandar vir mais cerveja para o baile?
 
 
Neste post, o Tolan fez questão de ilucidar de forma tranquilamente moderada de que maneira vários dos problemas que nos assombram poderiam ser resolvidos mediante o uso de uma coisa bizarra, perigosa e muito estranha chamada pensamento político liberal consistente, algo que certamente o Professor Visitante Poiares Maduro recusaria veementemente como ignóbil radicalismo. Mas não se pense por um só minuto de delírio que o Professor Visitante Poiares Maduro não tem ideias fortes sobre os problemas do momento. Nada disso. Para o brilhante académico, o nosso endividamento implica uma limitação da democracia, e deve ser combatido com base constitucional, uma vez que as decisões de curto-prazo podem afectar a coesão inter-gernacional. Já a disciplina orçamental em forma de corda de nylon colocada ao pescoço dos hospitais, do investimento em formação superior, do alargamento da segurança laboral, ou mesmo o enforcamento dos rendimentos salariais, são coisas que em nada, nadinha, nadica, interferem com a coesão inter-geracional, uma vez que com a redução dos rendimentos, verifica-se um ajustamente automático e as crianças, filhos ou netos, passam a ter necessidades apenas em percentagem proporcional às necessidades anteriormente verificadas e a vida torna-se automaticamente um paraíso na terra. Com fome e a morrer mas em equilíbrio perfeito.
 
 
Devemos no entanto reconhecer que o Professor Visitante Poiares Maduro termina em apoteose. Mediante estas maravilhas racionais da arquitectura constitucional supra-nacional, porquer razão se clama contra o défice democrático da União Europeia? Nada mais fácil. O constitucionalismo europeu foi vítima do seu próprio sucesso. Como? Importa-se de repetir? Elementar, este projecto garantiu de tal forma a autoridade política e legal (não sabemos para onde se evadiu entretanto a definição inicial de constitucionalismo mas o cérebro de Poiares Maduro deve entretanto ter colapsado no meio do seu inglês técnico) que reduziu o espaço para a política a nível nacional, oferecendo uma alternativa a nível Europeu. Eu pensava que a constituição servia para reduzir e disciplinar a autoridade política e legal através de um sistema de auto-anulação dos mecanismos executivos e legais, mediante um sistema de controlo mútuo colocado ao serviço dos vários interesses presentes no «demos», e no caso de ser verificar uma redução do espaço nacional, ou estadual, isso significa que o constituicionalismo não teve sucesso. Nada mais errado. Na mão do Professor Visitante Poiares Maduro, as palavras são blocos de mármore prontos a servirem o génio especulativo. Nesse caso, pergunta o cidadão desprevenido, o que vem fazer o Professor Visitante de Yale ao espaço nacional quando poderia estar a racionalizar-nos a partir de Bruxelas?


sexta-feira, 12 de abril de 2013

A democracia é isto mesmo.

Para os que nestes dias sentiram a minha falta venho por este meio fazer uma pequena interrupção no meu ascético silêncio (grande demonstração de que se vos escrevo aqui é só para confirmar a minha infinita generosidade, uma vez que isto chega a dar trabalho puxado a sacrifícios pessoais inestimáveis e retorno nem vê-lo) para declarar uma outra vez o meu amor profundo à Inglaterra, berço da liberdade, coração do fair-play, terra do primeiro e mais velho sonho de uma noite de Verão, útero da perpétua confiança na natureza humana. Meus caros leitores, quando veremos, por exemplo, na bancada do imortal estádio José Coimbra da Mota, uma horda de adeptos a cantar «Nós vamos dar uma festa quando o Cavaquinho Silva morrer?» e não se pense que isto no momento de vitalidade do dito Cavaquinho como alto dirigente da República mas sim quando o Cavaquinho Silva estiver a agonizar numa cama com os parafusinhos todos desapertados? Que grande lição democrática da democracia democraticamente anárquica. Adeus.
 
 

quinta-feira, 11 de abril de 2013

O mito.

Talvez mais, não certamente mais, que o frio e o céu permanentemente cinzento-suicída, o que me chocou mais na Bélgica foi o ambiente profissional. Vim à espera de encontrar um paraíso de profissionalismo e saber fazer, e deparo-me com Portugal um pouco mais disciplinado e metódico. Um pouco, mas não muito. E não pensem que os súbditos de Alberto II passam o tempo a coçar a micose, pois a Bélgica é um dos países mais produtivos do mundo. Mesmo fazendo o desconto da tortura dos números (a Noruega é a primeira da lista), isto não deixa de ser impressionante.

Portanto, o Ganhem Vergonha falha o alvo. O problema não reside nos estágios de borla ou nos baixos salários. São sintomas, não são causas e não vale a pena eu explicar, o Pedro Leitão já explicou. Posso acrescentar que o ideal operário do tuga desenrascado é um dos mitos que mais nos tem colectivamente fodido. Confirmo que já fui profissionalmente enrabado por quatro nacionalidades diferentes, com toda a pinta diga-se, porque tinha a mania que a desenrascar é que se trabalha bem.

Olhando para trás, bem estúpido fui eu quando me ria das burocracias do ISO-9001 ou do MISRA-C (lamento, este blogue não é só Borges e Nabokov). A institucionalização de processos de trabalho é a morte do artista do desenrascanço, mas é também o que me permite picar o ponto às 16h30 da tarde sem sentimentos de culpa por deixar o trabalho a meio.

No entanto o Ganhem Vergonha acerta num ponto; também, disparam com zagalote de 12 e nalguma coisa haviam de acertar. É incrível a falta de respeito e dignidade por quem trabalha em Portugal. E não estou a falar dos baixos salários, que são consequência da baixa produtividade, e a esquerda que vá mamar na quinta pata do cavalo. Muito pato-bravo, engravatado porque fica melhor na TV, trata os empregados abaixo de cão porque imagina que só assim os madraços dão lucro.

Da série a minha vida é uma merda


Estou de volta depois de um periodo de ressaca de ovos de chocolate


segunda-feira, 1 de abril de 2013

Sabemos que vamos no bom caminho

quando o pico do nosso fim de semana de Páscoa foi ter visto o filme da Barbie com a pequena e ter descoberto o segredo das fadas.