sexta-feira, 31 de maio de 2013

Paciência que este artista, enquanto jovem, frequentou uma vez um curso espiritual dos Jesuítas onde entrou para fazer silêncio e descobrir o altíssimo dentro de si, mas saiu em lágrimas de amor não correspondido por uma rapariga de Santarém.

1.
Como devem calcular, por motivos relacionados com a organização do trabalho mas também devido aos critérios de racionalidade exigidos por todas as pessoas de bem apostadas em não vigarizar os seus leitores com mariquices culturais, a minha personalidade não tem tido tempo para se expressar numa obra épica seccionada em estrofes tal como Uma Viagem à Índia, o poema cantado em prosa do mais prolixo escritor da sua geração, Gonçalo Albuquerque de Sousa Tavares, uma pessoa que gosta de encontrar antigos alunos e sentir que, de alguma forma, os marcou, uma coisa que a mim me horroriza profundamente. Antes pelo contrário, no meu caso sinto um profundo orgulho quando numa Universidade de inegável credibilidade pública e ampla vigarice administrativa, descortino o andar de uma antiga aluna que do alto do seus saltos agulha me fita com um desprezo monstruoso, sacode as longas madeixas descoloridas pelo mar atlântico misturado com aquelas ceras que os sufistas untam nas suas também longas pranchas, e tirando um maço de tabaco num fulminante golpe da mão direita (as mulheres estão a fumar mais) se empoleira ainda mais nos orgulhosos sapatos de carmim, brilhantes e provocadores; uns sapatos que fazem dela uma mulher tão distante mas tão distante da minha obscura colaboração com a instituição referida, e cavando ainda mais entre nós tais diferenças de ambição, classe, estatuto social, extrato bancário aos 21 anos, sítios de frequência, amigos, pratos preferidos, gostos, vocabulário, que a mim apenas me resta escapulir-me rapidamente para um qualquer vão de escada, antes do embaraço me devorar com as suas mandíbulas felpudas e destruidoras, agradecendo aos deuses por não ter sido reconhecido. Aí, no silêncio palpitante e soturno das divisões vazias dos grandes edifícios, deixo nascer no rosto um sorriso orgulhoso, pois fui competente na forma insinuante mas discreta como passei pela nossa nojenta seita formada para a decapitação intelectual da juventude, intitulada sistema de ensino. Graças a deus, já passou.


2.
Estou em falta para com o auditório mas motivos de força maior requerem toda a atenção que me é possível disponibilizar após uma das maiores hecatombes emocionais da minha vida e não acrescento mais pois é do domínio público. Nomeadamente, ainda não consegui decidir se compro as Cartas de Calvino em inglês, uma vez que ainda não as adquiri em italiano e os volumes ultrapassam já os vários milhares de páginas do mais estimulante cultor da língua de Dante (viram esta rima? Em que outro lugar se verseja articulando Dante com estimulante?). Bem, alguém me ajude, pois gostaria de retomar em breve as noites de sono tranquilo: comprar em inglês e já ou apenas depois, e em italiano, no momento em que a Einaudi expulsar o grande José Luís Peixoto, por descobrir que existe em Portugal um autor digno dos seu pergaminhos de sagrada instituição, ofertando-me a correspondência completa do seu antigo editor? Lamenta-se também o facto de nas últimas semanas, aproveitando a fragilidade física deste autor que vos escreve, e a braços com problemas que a prática médica costuma atribuir à endocrinologia, a New York Review of Books andar a copiar escandalosamente os temas de referência deste blogue. Tranquilos, pois o texto sobre Primo Levi já está a caminho, bem como a renovação de Jorge Jesus (um homem que durante mais de dois anos - mais precisamente, desde os 5-0 no Dragão, e há testemunhas disto - desejei correr ao pontapé do Benfica mas que agora, como diria Santo Inácio de Loyola, defendo com todo o meu coração e entendimento).



 
 

quinta-feira, 30 de maio de 2013

gajos com colhões grandes



fez ontem 60 anos. O melhor site do mundo mostra aqui

Well, George, we knocked the bastard off.
— Edmund Hillary, first words to lifelong friend George Lowe on returning from Mount Everest's summit

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Sem título que é para ficar com ar mais intelectual como aquelas cenas daquela gorda esquisita

enquanto esperamos pelo Alf e o seu texto sobre o Primo Levi, deixo aqui um vídeo que dedico a todos aqueles que já foram ou que vão ser pais.


quinta-feira, 23 de maio de 2013

Mas quem raio é Georges Moustaki?

É supreendente que um raro leitor da blogosfera como eu tenha sido assaltado inapelavelmente por desejos contínuos de visitar blogues nos últimos dias, tal é o desvario do mais recente caso na viral propagação de irrelevâncias que caracteriza, ou parece caracterizar, a era digital, e refiro-me aos comentários à singela e simpática troca de palavras entre a cansativa Raquel Varela (pinta-se mal e fala muito, é uma pena) e Martim Neves (um tolinho que se caracteriza por estar a levantar Portugal da crise económica com uma receita soprada ao ouvido pelos ciganos de Carcavelos) e não consigo, juro que não consigo compreender um fenómeno cuja magnitude devemos respeitar: a capacidade das pessoas se ridicularizarem a si próprias com retumbante estrondo e um infinito esforço de fazer cansar a mais zeloza das formigas. Se é verdade que no tempo das tabuinhas de argila, os custos de interiorização do alfabeto cuneiforme impediam fenómenos de replicação em série, é bem provável que já a idade do manuscrito, com a sua propagação epistolar, tenha sido capaz de transformar qualquer paixoneta adolescente num tema não digo de pertinência nacional, que as nações estavam ainda em formação a tiros de canhão em Austerlitz e feridas amorosas na Corte imperial russa, mas ao menos de forte incidência regional, polémicas de cordel atadas por fiozinhos, destruindo corações juvenis, irritando recatadas senhoras bordadeiras à lareira de mansões rurais, enfurecendo zelosos e responsáveis pais burgueses, afundados em jornais financeiros e relações de preços das principais praças coloniais do império.


O ódio manifestado entre os apoiantes de ambos os contendores revela a indigência mental do chamado público português, deus nos valha. A verdade é que o assunto me tem paralizado de tal forma que nas horas disponíveis me vejo incapaz de redigir o prometido post sobre a economia clássica e a degradação humana em Primo Levi, pois só me ocorre refletir biliosamente sobre o empreendorismo tendeiro e o pragmatismo serôdio nos Lusíadas. Oxalá o dia de amanhã nos permita o esquecimento. Perseverança caros leitores, perseverança.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

São onze contra onze e no fim ganha o futuro.

Um pequeno interlúdio antes do anunciado post sobre Primo Levi; sim, um interlúdio, porque isto dá trabalho ou pensam que eu sou o José Luís Peixoto?

Mal eu sabia que o choque titânico entre o empreendorismo e o parasitismo intelectual apaixonaria a opinião pública durante o dia de ontem, de hoje, e sabe-se lá mais quando. Juro que não sabia, não sabia, se não, nunca teria dedicado o texto a um assunto desta magnitute; pensei que era única pessoa a assistir ao programa, e nem sequer pude ver em directo a já famosa intervenção da estimada Raquel Varela, pessoa que passa neste momento pelas esquinas da vergonha pública, sem poder contar sequer com a simpática protecção do Daniel Oliveira. Mas há algo de perturbador em tudo isto: a Raquel Varela é doutorada, um dos alvos preferenciais da dinâmica turba habitante das caves digitais. Fosse a Raquel Varela uma simples analfabeta, como a grande maioria dos habitantes das caves digitais, e nada disto teria acontecido. Já sabemos que um doutorado pode ser um analfabeto funcional, mas fosse a Raquel Varela, repito, uma analfabeta sem títulos académicos, e nada disto teria acontecido, uma vez que nada há de tão entranhadamente detestado pela cultura portuguesa quanto a vida universitária, e com uma certa razão, diga-se, ou não fosse este o país onde a inenarrável Universidade de Coimbra reinou durante séculos sobre os escombros de qualquer possibilidade crítica. Ou não fosse este o país onde os Professores Universitários parecem ou curandeiros de aldeia, fechados sobre os seus estranhos e obscuros projectos, ou sindicalistas acossados, acorrentados às necessidades de proteger a sua própria reprodução em cativeiro.


O exemplo também serve para as pessoas de bem, que por acaso pertencem aos quadros do raciocínio académico, entenderem que não devem entrar em diálogo no contexto de climas perigosos, sejam as feiras quinzenais nos terreiros de vila realengas, como Ponte de Lima ou Estremoz, ou em programas de televisão de grande audiência, como o Prós e Contras ou as Tardes da Júlia, a não ser que estejam dispostos a fazer parte da ficção que nos domina porque sempre nos dominou. Porque não publicam antes livros de qualidade a baixo preço estimulando boas editoras universitárias? Bem, vamos ao que interessa.

O que apaixona em todo este episódio é a exemplaridade dramática do caso, a sensação de que nenhum dos dois, Raquel e Martim, tinha grande escolha, pelo facto da vida os ter levado até aquela arena, onde deviam ser consistentes com todo um plano trágico: ser um ganda maluco, despachado, certeiro, voluntarioso, cool, no caso do Martim, ser uma abnegada mártir, obstinada e convicta, mais afectiva do que lógica, um animal político das causas justas, no caso da Raquel Varela. Por isso, o encontro violento, do qual emergem os guinchos da dor pública, tem qualquer coisa de mítico, onde os tipos sociais realizam as suas possibilidades, obrigando-se ao combate para não trair o jogo dramático que dá sentido à existência de ambos. Duas categorias fragilizadas mas em ascensão, o jovem prático e a intelectual mulher, defrontam-se no palco do mundo, e jorra o sangue do prestígio e da chacota social. Ganhou a juventude mediatizada e habituada à pressão de comunicar, porque sempre mais amada pelos deuses. Pena não ter sido uma «Constança» contra um «Fernando Rosas» e eu próprio teria dado pulos de alegria e vivas ao futuro em pleno sofá.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Um gajo tem que ver as coisas como elas são!

O futuro de Portugal está nas mãos das mulheres, ninguém duvide. Tive o privilégio de assistir à transmissão de uma exemplar sessão do consagrado programa Prós e Contras, e desde logo devo comunicar que se debateu, com grande profundidade e detalhe, o papel dos jovens na salvação de Portugal, do mundo, das moléculas de carbono, dos genes como catalizadores de proteínas. Vou passar, de subito, como dizem as belas italianas, ao âmago deste texto, uma vez que me foram apontadas mortais tendências para a dispersão, uma coisa que me ficou desde que em 1992 assisti - ainda escuteiro adolescente, e na época especialmente interessado num grupo de gajas da cidade de Aveiro, também escuteiras como eu - a uma desinteressante conferência informal do actualmente nomeado cardeal patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, naquele dia envergando camisola castanha com flor-de-lis negra, e calças de ganga americanas, e estando na posse do seu inconfundível estilo mortalmente entediante, versando sobre um assunto qualquer de fundamental interesse se bem me lembro, ou pelo menos foi o que pude notar quando o sol rasou os pinheiros da gândara, momento em que me deu para observar as dunas de Cantanhede, e o rumorejar atlântico das ondas, revolvendo as pedrinhas e conchas no fundo mar, deus guarde sua alteza real, o rei D. João V que nos dotou com um patriarcado à semelhança de Veneza, cidade dormente, circundada pela sua formosa laguna.



Regressados ao ano de 2013, noticio aqui que as duas bancadas do programa televisivo de ontem foram representadas por duas moderadamente atraentes mulheres, Raquel Varela e Bárbara Rosa, curiosamente, as duas entaladas entre dois ridículos exemplos masculinos (que me dispenso de caracterizar por motivos endócrinos), sendo que foram as duas mulheres, sem margem para dúvidas, quem mais se destacou em termos de clareza dos argumentos, exemplaridade intelectual e, mais importante que tudo, na performance oral. Discutiram-se modelos sociais. Para grande tristeza minha (e digo isto do alto do meu jarro de tinto bebido agora mesmo numa pitoresca rua de Lisboa, mais concretamente a rua de S. Paulo, Restauramente O Gaiteiro, exemplo máximo da excelência gastronómica magrebina de baixo-custo) tanto a Raquel Varela como a Bárbara Rosa prolongam o modelo ético-católico da mulher portuguesa e oferecem como solução financeira para as contas públicas, nada mais, nada menos do que o controlo das virtudes cívicas. Caramba, como são brutas e dolorosas as patas da desilusão mugindo no túnel do destino, Alexandre O´Neil salvai-nos e salvai Portugal, terra das sardinhas decapitadas no azeite.


O problema pátrio, segundo as duas intelectuais em crescendo mediático, não passa de um défice ético-moral, político-institucional, sistémico-estrutural, e logo agora que estava mesmo convencido (depois de ontem ter lido duas páginas de um opúsculo de Alain de Botton sobre a sexualidade) de que o problema de Portugal era o sub-desenvolvimento da sua indústria pornográfica. Segundo o aclamado filósofo britânico, a pornografia on-line está a constituir-se numa instituição destruidora, manipuladora da atenção dos adolescentes, voraz devoradora do nosso tempo de produção e do nosso potencial criativo. Botton dá o feliz exemplo de que uma coisa é oferecer a leitura de Tchekov numa noite nevada, quando os custos de substituição implicam percorrer a pé os vinte quilómetros da casa mais próxima de um amigo, e outra coisa é oferecer a mesma leitura quando os custos de substituição implicam clicar no computador para abrir uma janela visual onde se agita uma voluptuosa e desnuda trintona russa. Como solução, o filósofo britânico propõe uma fusão entre pornografia e erudição, com o intuito de promover a educação do intelecto através do vector desejo, utilizando as pulsões naturais dos adolescentes como driver político, desde que os enredos do chavascal possam incorrer em deambulações aristotélicas, versando paralelismos entre a beleza renascentista e a humildade das posições na cópula, o ensino da afectividade e o respeito sexual pela mulher, especialmente a boazona, isto por intermédio da mistura entre conteúdos filosoficamente ricos e situações de sexo explícito. É um caminho, ninguém duvide, e é Alain de Botton quem o defende, não sou eu. Sim, porque a minha pessoa, leitora atenta da inolvidável obra de Adam Smith, Teoria dos Sentimentos Morais, está bem alertada para os efeitos de elasticidade nos mercados do prazer, o que desde logo me sensibiliza perante as diferenças vincadas entre graus de aversão ao risco, manifestados, respectivamente, por indivíduos masculinos e femininos, quando se trata de ajavardar, ou em linguagem depurada, intensificar o comércio sexual, qualquer que seja a modalidade da intensificação (muitas vezes com a mesma pessoa, poucas vezes com diferentes pessoas, muitas vezes com diferentes pessoas, poucas vezes com a mesma pessoa). Uma coisa é o efeito de satisfação pessoal (cuja magnitude só tem leitura definitiva em séries temporais longas) e outra a alocação do tempo e dos capital físico em face das expectativas futuras (Keynes, Teoria Geral, Cap. 9) o que constitui um incentivo para ler Tchekov, ou arranjar um bom rendimento mensal, em vez de consumirmos a maior parte do tempo a esgalhar, isto se não queremos ficar para todo o sempre e irremediavelmente a esgalhar. Como literatura de apoio recomendo o clássico instantâneo: Egalitarianism, Housework, and Sexual Frequency in Marriage.


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A certa altura do estimulante programa apareceu um jovem tolo intitulado Martim, responsável por um projecto de venda de camisolas da (pseudo)moda a baixo preço, e que tem gerado a indignação moral de muitas pessoas parecidas com a Raquel Varela. O Martim, segundo consta, não precisou de bater punho, foi a expressão utilizada pelo blog de referência entre os profissionais da indignação justiceira, pois, alegadamente, o Martim convenceu as miúdas mais giras da escola a envergar as suas camisolas. Não vou sequer perder tempo com a importância de saber se o facto de o Martim estar convencido de que sabe quem são as miúdas mais giras da escola (ignorando os problemas implícitos sobre a informação incompleta na definição da sua curva de vendas de camisolas) não poderá ditar a sua falência em breve, o que seria suficiente para entender que estando os profissionais da indignação tão indignados, pouca clarividência lhes resta para evitarem padecer dos mesmos erros da economia clássica que tanto pretendem combater. Prefiro antes dizer que é perfeitamente injusto acusar o Martim de não bater punho, pois é bem provável que um rapaz de 15 anos, apostado em comercializar camisolas a baixo preço, ande a bater o punho até demais, e como se não existisse amanhã, pois até eu, que era como adolescente uma versão de S. Francisco de Assis mas em melhor defesa esquerdo, já tinha com essa idade ultrapassado parte dos problemas de punho, o que me retirava tempo para comercializar camisolas e me obrigava a ler a obra poética de Almeida Garrett, uma cena que, nunca compreendi porquê, tinha grande saída entre as adolescentes da minha geração.


Contudo, tanto a Raquel Varela como a Bárbara Rosa acham que vivemos um problema de polícia, de vigilância dos comportamentos, uma dificuldade na disciplina do desejo e isto é muito triste porque me lembra quanto desperdício de energia o século XVIII levou a cabo para demonstrar que o homem é um aglomerado de indecisões e que a informação incompleta e as limitações da razão (ou seja, os problemas que julgámos durante muito tempo associados à mordidela na maçã) explicam quase tudo sobre a nossa infelicidade. Mas do ponto de vista das duas bloguistas, o problema é o da limitação forçada das opções, uma (Raquel Varela) defendendo a colectivização do poder (Parlamento democrático com eleição popular directa) a outra (Bárbara Rosa) defendendo a transparência e a denúncia dos atropelos jurídicos (elegendo as decisões Parlamentares como critério ético). Em ambos os casos, e para limitar a acção do mal (sem que curiosamente se tenha definido o mal) privatize-se a banca (Raquel Varela); ensinem-se as virtudes da cultura cívica (Bárbara Rosa); nacionalizem-se os recursos (Raquel Varela); combata-se a corrupção (Bárbara Rosa); evitem-se as rendas e monopólos privados (Raquel Varela); puna-se a prevaricação perante o direito público (Bárbara Rosa). Minhas caras pessoas e mulheres de bem: menos estardalhaço e mais estudo, ora aí está uma boa receita moral, pois a limitação das opções, seja feita por incentivos monetários, reguadas do professor ou cacete da polícia, tem inevitavelmente um custo. E este custo, como bem viram os senhores de cabeleira de rolos, sapatos de fivela e casaca de seda, pode ser reduzido ou através da punição ou através do incentivo, mas em qualquer dos casos, estaremos sempre a falar de um custo social que precisa de ser medido e imputado a alguém, se possível com distribuição do esforço e esta merda é que é muito difícil de fazer; chorar todos sabemos, já nascemos a guinchar e se não guinchamos, levamos uma palmada, e zás, problema resolvido. A corrupção, a parasitagem no Orçamento de Estado, ou a rentabilização privada de monopólios naturais, prendem-se com a dispersão de objetivos humanos, ou como diria Herbert Simon, um homem da ciência da computação, prendem-se com a separação física entre os diversos sistemas nervosos centrais, separação onde se revela o ponto crítico do problema pelo qual deviamos manifestar mais respeito, isto se o queremos resolver. Mas será que queremos? Não sei, não sei.


Claro que tanto a Raquel Varela como a Bárbara Rosa já nos abandonaram neste ponto da discussão pois estão mais ocupadas a ganhar a vida segundo a tradicional militância empenhada da responsabilidade cívica (risos) e o empunhar das bandeiras válidas e disponíveis segundo as regras vigentes do jogo monetário (ainda mais risos), onde se cavalgam as famosas e estafadas condições naturais do homo politicus ou economicus: muita indignação perante as injustiças da realidade (pela qual ou não somos responsáveis de modo nenhum, ou somos inteiramente responsáveis com grande contrição e reconhecimento de culpa). A política do século XX está baseada na esperança da perfeição, quase sempre ou por meio do cárcere e do julgamento ou por meio da transparência das relações num mercado. Eu, como sabem, uso o computador para colocar problemas, e digo às duas estimáveis meninas a figura ridícula que ambas fazem, mas sem defender as algemas para qualquer uma delas, e muito menos processos judiciais para todos os abençoados prevaricadores que nos lembram o passado recente da humanidade.

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Se dúvidas existissem (e agora volto-me particularmente com especial caridade para a figura da Bárbara Rosa, aquela que julgo mais perniciosa porque mais sofisticada) basta saber duas coisas: que a autora abandonou a profissão jurídica, segundo a própria, porque se sentiu impotente perante a burocracia (mas quer agora ensinar-nos o que é uma «má despesa pública», sem antes ter conseguido resolver os problemas clássicos do que é um mau sistema de justiça) e vá de ganhar a vida a explorar a nudez do rei, a saber: a incapacidade do sistema político monitorizar a sua despesa ou clarificar os impactos nominais e os custos sociais das suas políticas e despesas públicas. Além do mais, a estimada Bárbara Rosa tem como editora deste estapafúrdio projecto, a burra da Zita Seabra, uma pessoa que oscila, como o bêbado da aldeia, entre duas das maiores parvoíces da história da humanidade, o comunismo e o catolicismo. Utilizar a raiva e o descontentamento de funcionários, públicos e privados, para obter informação sobre contratos e publicar essa informação, é um negócio lucrativo e quem sou eu para julgar formas de ganhar a vida reconhecidas pelo Estado de direito. Agora, refletir sobre processos e sistemas de controlo sobre a execução orçamental na sua relação com a distribuição de rendimentos e os incentivos necessários a uma eficiente alocação do trabalho e dos produtos, isso fica para blogues obscuros e isentos de publicidade como o Elogio da Derrota.


O simples facto de a Bárbara Rosa e a Raquel Varela estarem a experimentar a animosidade do público, ao entrarem nesta discussão geral, serve como exemplo eloquente do que está em jogo: o problema não são apenas os recursos escassos, pois a imaginação humana tem poderes muito amplos de potenciar recursos, o problema é a nossa necessidade de encontrar um contraste para definir um objecto de desejo. Sem inimigos, como demonstraremos as nossas virtudes? Tanto faz que o inimigo seja a banca ou o poder político, precisamos de um inimigo, e a forma como definimos esse inimigo, define a unidade de medida do nosso papel político. Falta construir uma política segundo este princípio geral, eu agora não tenho tempo, desculpem. Sobretudo porque tenho muita dificuldade em encontrar inimigos e talvez por isso ainda não me tenham chamado à televisão. Aqui não sujamos a mãos em batalhas de sobrevivência e muito menos no mercado (assumimos a nobreza da nossa condição e ganhamos a vida recorrendo ao Orçamento de Estado) e se falamos da Raquel Varela e da Bárbara Rosa é só com o intuito de introduzirmos o importante tema do próximo post: «a economia clássica e a degradação humana segundo Primo Levi».

sábado, 18 de maio de 2013

Leiam isto e amanhã falamos.

«For me a work of fiction exists only insofar as it affords me what I shall bluntly call aesthetic bliss, that is a sense of being somehow, somewhere, connected with other states of being where art (curiosity, tenderness, kindness, ecstasy) is the norm. There are not many such books. All the rest is either topical trash or what some call the Literature of Ideas, which very often is topical trash….»

Citação de Vladimir Nabokov na extraordinária recensão de várias obras sitas nas estantes da minha casa e que só agora, muito mas muito tardiamente, a New York Review of Books leva a cabo com a consistente peça Is Humbert Humbert Jewish?, desenvolvendo algumas ideias já amplamente explanadas neste blog. Julgo que é razão suciente para os leitores sentirem a alegria da frequência (não digo graciosamente, pois há muito abandonámos a ideia da despesa monetária como critério fundamental da medição do custo) das maravilhas civilizacionais do primeiro mundo. Só para que não restem dúvidas.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Os mortos são fodidos.

Guttman
 
Tras un efímero regreso al Honved y un breve paso por Brasil, donde entrenó al Sao Paulo, Guttman aterrizó en 1958 en Portugal para hacerse cargo del Oporto, equipo al que condujo a la victoria del campeonato de Liga 1958/59. Para entonces el entrenador de Budapest ya era reconocido por haber instaurado el 4-2-4, una revolucionaria táctica que sería llevada a la perfección por el arrollador Brasil del 58. El buen trabajo de Guttman en el banquillo portuense no pasó inadvertido para los directivos de su máximo rival, el Benfica, que lo ficharon con el objetivo de recuperar el título de Liga, algo que conseguiría en su primer año.
 

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Volta a Portugal em Caixão.

Tolan 


1.
É curioso como num dos episódios mais significativos da minha biografia literária, a ser publicada lá para o ano 2089, a cargo de uma esbelta italiana meridional, nascida entre Nápoles e Palermo, cabelo ruivo e perna longa, muito mas muito apaixonada pela minha póstuma obra e pela estúpida língua portuguesa, quintal de todos os falhados, constará o momento em que ainda a braços com a selva emocional da minha mente, procurei, num dia cinzento de Maio do triste ano de 1998, esboçar um poema, inspirado pelo imortal texto de Woodsworth, e no meu caso pobremente sulista intitulado Ode a uma caixão português. Qual não é o meu espanto quando dou de caras com este fenómeno de almas gémeas irmanadas na dor de terem nascido neste singular país onde se morre devagar, isto segundo o consagrado António Lobo Antunes, e onde é depressa a mágoa e a saudade. Mas vamos ao que interessa, pois é meu triste costume espalhar erudição em introduções muito longas e indigestivas. Shakespeare era, além de um grande "filha da puta" que deixou mulher e filhos à deriva, um extraordinário inventor de palavras, e pode mesmo dizer-se que era um chato, porque como os meus leitores sabem, a língua é o produto constitucional e sociológico de uma comunidade em movimento, e os individuos a quem sinistramente mordeu o bicho da escrita (os bichos mordem e devoram, infectam, não são simpáticos, nem habitam graciosamente dentro de nós, ouvistes ó parolos de todo o mundo?) tendem para a recriação/libertação das regras da gramática, assim como para o contumaz incumprimento da economia da expressão, como bem sabem os comentadores deste blogue.


2.
O assunto que hoje aqui me trás é a famosa e urgente questão amplificada por todas as revistas e telenovelas da moda, a saber, qual a verdadeira explicação para o facto de Franz Kafka ser tão abundantemente mal citado quanto incompreendido por todas as pessoas do mundo cultural. As primeiras páginas de Amerika, o romance preferido de Italo Calvino, e isto devia colocar de sobreaviso qualquer pessoa de bem, são uma das mais eloquentes demonstrações da impossibilidade de um escritor se fazer à força da disciplina e do trabalho. Um escritor é um acontecimento forçado e provinciano, localizado numa série temporal irregular, um erro no código, um produto acidental da República, uma foragido da escola, e um foragido da contra-escola, o escritor é um foragido entre os foragidos, ou seja, é um alinhado consigo mesmo, sem saber muito bem o que isso seja. Ora, o protagonista do livro Amerika esquece (tudo esquece tão cedo, tudo é tão cedo inacessível) o chapéu de chuva dentro do navio que o trouxe da Alemanha para a terra da liberdade, terra onde num mar vibrante de movimento e actividade comercial brilha resplandecente entre as brisas e os ventos do futuro, uma mamalhuda de tocha na mão e ombros atléticos, e quem não iria ao encontro deste desígnio, respondei-me ó senhores? Contudo, mal o protagonista pisa o cais, caramba, vem à mente uma sensação de falta e de ausência, o guarda-chuva!, e então, deixando com um amigo a mala de viagem, decide voltar ao navio, uma decisão estúpida: trocar a mala por um guarda-chuva; um português jamais incorreria neste erro grosseiro e carregaria com ele a mala, o garrafão e a marmita, tropeçando nos seus próprios pés e incomodando todos à passagem. Contudo, este mancebo de cultura germânica, o protagonista Karl, ao regressar à murmurante carcaça do navio, encontra fechada, pela primeira vez, uma passagem que muito teria encurtado o seu trajecto, o que provavelmente tinha a ver com o desembarque dos passageiros.


3.
Como é possível não ver aqui todo um programa literário? Uma pessoa esquece-se de um instrumento de proteção contra a chuva e quando recorre à memória para reencontrar esse instrumento, zás, leva com a multidão a encerrar passagens. É curioso como as pessoas do norte da Europa parecem dar-se mal com as multidões (Kieerkgaard chegou mesmo a escrever que a multidão é a mentira) e por isso inventaram o indivíduo, mas aqui no sul, onde há raparigas bonitas que nos beijam com paixão e nos consagram o melhor da sua juventude, e ajoelham a sua virgindade diante do nosso desejo, e prendem nos cabelos flores do campo, e humedecem os lábios vermelhos para atrair os melhores, e nos esculpem sulcos de dor na face quando nos abandonam por um partido mais consistente e proprietário, aqui, meus caros amigos, a multidão é a forma mais feliz de anonimato, a girar nas festas com sardinha assada, a circular nas praças com música estridente e o cheiro dos corpos, a percorrer as ruelas de olhos comovidos sob o peso de uma escultura sagrada, coroada de flores, um sintoma da pobreza e da irresponsabilidade, um pulsar de vida ao sol, vida embriagada por gritos frescos de vivacidade e o clima ameno das laranjas e dos limões, enfim, aqui é a terra que Goethe dizia amar mais que todas, e que fazia a inveja dos comerciantes da Baviera, local soturno para onde a vetusta e dolorosa República de Veneza, indisposta com a sua condição de pântano e fronteira da infelicidade, despachava os seus piores vinhos no longínquo ano de 1579.


4.
Como é do domínio público, passei grande parte dos meus primeiros meses estivais escondido no coração de Portugal, entre a urze e o tojo, a chupar leite quente no úbere das cabras, a fugir das investidas dos bodes, a rir-me dos brutos filhos dos camponeses, incapazes de articular uma frase, a estacar perplexo diante das flores amarelas das mimosas, a rasgar os joelhos no xisto da serra, a temer as velhas esguias trajadas de preto e sempre com murmúrios esquisitos em torno dos chafarizes e dos cemitérios, a correr com os meus irmãos ao longo de velhos sistemas de rega, estendidos por levadas e represas entre os socalcos de uma cultura que Orlando Ribeiro (o famoso geógrafo) dizia estar para o homem do mediterrâneo como o canto está para o cisne: uma despedida dos seus dias mais trabalhosos mas felizes. Passei esses anos a ver mineiros cairem de mota sob os alvores da madrugada a caminho da mina, já embriagados, e a acompanhar os camponeses que passavam a caminho dos riachos para soltar a água ou construir uma nova represa, camponeses burros e generosos entre os quais seguia esta criança assustada. Os camponeses ajudavam então esses mineiros a levantar-se das valetas, empuleiravam-nos nas lambretas, quem sabe alemãs, e a seguir lá iam eles serra acima a caminho do coração das trevas, um coração e umas trevas cavados durante quarenta anos, impulsionados por um segundo conflito mundial onde o volfrâmio, segundo consta, animou significativamente os mercados bolsistas e indústria de guerra, e há-de ter tido a sua importante contribuição sistemática para a mortandade que hoje se imputa apenas à Alemanha. Nesse grupo de camponeses seguiam muitas vezes as minhas tias, consistentes devotas de Fátima, que indo trocar flores dentro das Igrejas, se ajoelhavam diante de estátuas pirosas, pondo toda a sua vida em lamentos sibilantes, e afagando os pés descalços da Senhora, com o coração arrependido e com lágrimas nos olhos, o que me tem desde então impedido de soltar as minhas mais violentas gargalhadas diante da ignorância do povo, o povo, esse conjunto de  figuras semióticas que no fim dos tempos há-de coroar-me com o louro dos atletas, muito depois do dia da minha morte.


5.
Desculpem o interlúdio, mas o que nos trazia aqui era o regresso de Karl, o protagonista de Amerika, de Franz Kafka, ao interior do navio ancorado em Nova Iorque, se não me engano, partido de Hamburgo uns meses antes. Mal desembarca no espectacular porto da cidade, Karl, regressado do mar, perde-se numa infinidade de pequenos compartimentos, corredores, passagens, que a todo o momento mudavam de direção, assim é a vida, breves lanços de escada, sucedendo-se uns aos outros, continuamente, continuamente, e Karl, à semelhança de Ismael, o protagonista de Moby-Dick, é um sacerdote da desorientação, e Nova Iorque a cidade representante da vida desorientada, onde os dois jovens atribulados, com o intervalo de poucos anos, se consomem em busca de um tempo perdido. Dentro do navio, Karl, um rapaz que seguramente teria chegado a engenheiro (tal como eu, se tudo tivesse corrido bem, profissão que me evitaria o embaraço das minhas tias que, por me verem sempre com livros nas mãos, acham de há muito que estou desempregado desde os 18 anos, e na verdade estou) encontra Franz Butterbaun, um fogueiro do navio que entre outros atributos sabe bem como as Universidades americanas, muito mais do que as velhas academias europeias, protegem o mérito intelectual e a pura lógica. Embora Karl se sinta desmotivado, e sem dinheiro para estudar, recorda o pedaço de salame de Verona enviado pelos pais, e sobretudo o esmero com que a sua amada mãe procurou aparar os golpes que o cruel destino sobre ele abate, passando a ferro o fato e preparando a roupa, e assim, sem se preocupar com questões de direito, como sabemos, tão caras a Kafka, a narrativa prossegue mais algumas páginas, o que significa um sacríficio superior da sua vontade, a vontade do escritor, e também de Karl; lá estamos nós outra vez aprisionados na noite dos tempos.


6.
A partir das pp. 25-26 da tradução portuguesa, publicada sob o estúpido título O Desaparecido, vemos como o fogueiro, que entretanto Karl encontra no interior do navio, se afunda na sua pobreza, na sua indignação, no seu sentido da injustiça, sem conseguir ponderar a forma mais correcta de organizar a informação do seu protesto, falando dos maquinistas e serventes ao comandante do navio, mas tratando essas figuras pelo nome próprio, como se fossem figuras destacadas da política alemã ou americana, e isto para grande surpresa e enfado dos oficiais graduados da marinha mercante. Mas aqui, o sentido de injustiça política não se perde com manifestações católicas de exuberante reciprocidade a partir das taxas de sofrimento de cada um, taxas por si só muito dificeis de determinar, até por deus, e mesmo eliminando os erros de Excel. A mestria com que os factos vão alterando o retrato de cada uma das personagens é o mais claro elemento da bela arte de Franz Kafka, uma criança encerrada pelo pai numa exígua varanda, sujeita ao frio da madrugada por um pai demasiado cedo apanhado pelas garras do sofrimento, e apostado em multiplicar esse sofrimento  nos ossos e músculos do filho, procurando perpetuar na sua descendência biológica o mais fiel garante da qualidade comercial da sua loja, para grande desespero de Kafka que não quis saber nem de vendas, nem de encomendas, e a quem apenas a irmã protegeu dos golpes paternais do destino. Kafka vai alinhando cada novo elemento psicológico das personagens do seu falhado romance, segundo a ignorância que tinha dos verdadeiros motores das acções humanas, pois Kafka era demasiado inteligente e com suficientes golpes na arca da sua memória para se deixar enganar por ideias estáticas/estéticas sobre as coisas e por isso, tudo o que quer é manter uma actividade continuada do seu sistema nervoso, a única forma de se furtar ao disparos disparados (ops) contra si próprio e mesmo assim, quase conseguia liquidar-se sem piedade, não fosse o seu amigo Max Brod ter crescido numa casa onde certamente abundavam a estupidez e a generosidade.


7.
Essa ignorância começa por ser para Kafka uma necessidade sinistra de travar o carrocel de sensações diante dos outros, uma necessidade vital de organizar a informação recolhida pelos sentidos impressionados por outros humanos. Que o herói de Amerika não saiba o que fazer com a sedução imposta pela mais vibrante mulher da história da literatura, Joahanna Brunner (criada de servir, trinta e cinco anos, responsável por uma bela carta de recomendação ao tio do famigerado Karl, e sedutora do mesmo jovem Karl, onde numa primeira cena de pornografia madura, meticulosamente descrita, a mulher agarrando sem hesitações o jovem mancebo, o leva a penetrá-la) demostra bem como Kafka se encontrava já perdido de si próprio, algures aprisionado entre o preconceito das belhas mulheres situadas abaixo da sua classe social, e incapaz de se aproximar da pose maquinal, integrada e automática das suas pretendentes educadas numa sociedade checa de cultura alemã, sociedade de quem me disse o ano passado, no Porto, uma jovem mãe checa, ligeiramente magoada pela vida, ser um produto complexo mas interessante, justamente aquilo que todos pensamos de nós próprios. Pois claro. Mas nós meridionais gostamos de fingir que a vida é simples e bebemos vinho para aguçar o apetite, que o sol a prumo, nos quentes meses de Verão, nos quer roubar com crueldade, e ingerimos pimentos e alface, melões e melancia, vestimos camisas brancas, porque lavámos  durante demasiado tempo a nossa roupa sobre a pedra, esquecemos a origem antiga da nossa miséria, apostámos tudo no prestígio inamovível das nossas conversas, beijámos a morte civilizacional em cada dia, somos de um outro tempo e estamos aqui como um actor mal seleccionado para uma peça ultrapassada e muito antiga, da qual já ninguém reconhece as paixões, sequer os utensílios domésticos das personagens.


8.
As minhas tias beijavam os pés das estátuas com devoção e enchiam os olhos de lágrimas perante a beleza adolescente da jovem rapariga em quem depositavam a esperança e o sentido do seu sofrimento, uma jovem mulher com poderes de levitação sobre os tufos de carrasco e as azinheiras, segundo os alemães, os carvalhos das pedras. Porquê duvidar de uma mulher acima das mulheres, e que ao contrário de deus, ou do sacerdote, as feria com a beleza dos seus olhos escuros e tristes, o seu manto de linho, a cabeça coberta, o rosto recolhido e o porte contido, de mãos tranquilas, as mesmas mãos puras capazes de tecer raminhos de alfazema para perfumar os lençois na arca, e os mesmos pés talhados pelos caminhos, uma mulher versada na utilização da mesma roca de fiar, nos mesmos gritos guturais para conduzir os jovens cabritos, desajeitados e irresponsáveis, sempre a saltitar nos penhascos, uma mulher animada pelos mesmos ritmos das colheitas, e as mesmas disputas familiares, o mesmo horror perante a perda da virgindade, a mesma doce destreza a ordenhar as mesmas cabras magras, a mesma sabedoria pressionando as mesmas alavancas dos teares, lavando a mesma roupa de lã grossa, uma mulher esculpida pelas mesmas dores de todas as mulheres portuguesas do século XX. E agora, o que fazer com isso? Esquecer ou vingar?

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Bom fim de semana e que ganhe o dentista do Proença


Para quando uma Revista Literária com este programa eleitoral? Dizei-me, ó comentadores, leitores e anónimos, qual coro grego da minha fulgurante ascensão como senhor escritor.

Em Portugal, a importância que se atribui ao livro é meio mística e inversamente proporcional aos magros hábitos de leitura. De facto, só é possível mistificar algo com que não se contacte assim muito. A maior parte das entrevistas a escritores na tv tem invariavelmente perguntas sobre a sociedade, a economia de mercado (sempre desumanizante, como se sabe), a reflexão sobre os nossos tempos de relações virtuais da internet em que não conhecemos o vizinho, a condição humana, a pátria que é a língua, o subúrbio neo-realista, a inevitável piscadela de olho ao Brasil e à lusofonia, a importância de ler, a importância do livro, a importância de ler livros, o papel do livro, o livro de papel. O que acha, senhor escritor, do livro hoje em dia? O senhor escritor responde que o livro existirá sempre, embora de outras formas, que é para não ser velho, mas dirá que nada substitui o objecto papel, que é para ser clássico, arrancando sorrisos ternos ao espectador, uma vez que os escritores também se querem como referências afectivas e conservadoras. As perguntas têm como resposta algo que não foge muito ao registo do jogador de futebol que fala na importância do colectivo e de continuar a trabalhar escrevendo e lendo para o mister literatura, disposto a carregar a cruz de viver à margem da vida e coisas que tal.

(o sublinhado é nosso)

Tolan, ontem à tarde, sensivelmente à mesma hora em que este autor que vos fala se martirizava numa auto-flagelação político-institucional de grande gabarito académico.

Robótica clássica.

César Brito marcou dois golos em 1991 e o Benfica fez a festa nas Antas (foto ASF)

segunda-feira, 6 de maio de 2013

A Arte é para as massas, tudo o resto é para o verdadeiro artista.

Atenção estudiosos de todo o mundo: tivemos recentemente o privilégio de viver mais um desses raríssimos dias, em que a realidade se oferece a si própria uma oportunidade para testar, sobre o seu próprio corpo e substância, perigosas teorias sobre as obscuras e misteriosas relações entre a comunicação de massas, a baixa intensidade da performance intelectual e a formação de instrumentos de felicidade estética, e sempre tendo em conta a incidência da estupidez auto-imune, ou seja, aproveitemos esta soberana oportunidade, esta rejubilante manifestação de sinceridade dos vilões do sistema capitalista (que fundados na informação incompleta, nas limitações da escolha racional e na cegueira do sentido mínimo da decência, parasitam o ambiente geral em prol do seu desenvolvimento individual) para constatarmos com toda a profundidade possível o curso selectivo do progresso, um progresso que não conhece éticas particulares ou especializadas (e não nos comovamos, por favor, não nos comovamos), um progresso que não conhece critérios parciais ou pontos de vista subjectivos, mas responde apenas e tão só aos estímulos da vida, a forte, bela e imponderável vida, a vida, sempre guiada pela obnubilação sistemática das partes (e por isso a metáfora da máquina é tão imprecisa) sempre animada pela coordenação funcional e mutável dos sistemas celulares, cujas instáveis fronteiras tornam a decomposição do humano uma tarefa tão monstruosa quanto os relatos de Mary Shelley no seu definitivo Frankenstein.

Ó grande Ovídio que viste na metamorfose a chave da nossa substância e na mutação sentimental o frágil mas fabuloso alfobre da glória, fábrica infernal de todos os nosso sofrimentos: contudo, caros amigos e leitores, temos andados cegos desde Newton, temos andado cegos com a mecânica e os estados das relações entre as partes, cegos para o néctar da evolução e para o elemento central do funcionamento da natureza, no fundo, cegos para a vida, a animada e intepenetrável vida, caramba, a multi-factorial e variável vida, a sempre fugidia e disfarçada vida, factor justificante e autor da existência das formas: aleluia, curvilíneas formas, aleluia, suplícios do desejo, aleluia, instintos da beleza, capazes de nos resgatar de todas as misérias discursivas, de todos os desertos morais, de todas as corrupções artísticas, de todos os ócios auto-inflingidos, aleluia correspondência entre partes, aleluia suspensões do tempo mortal, capazes de fazer de nós aquilo que somos: deslumbrantes máquinas de reprodução de nós próprios.

Bem se vê, senhoras e senhores, como seria um insulto querer ver aqui uma abjeta queda no criacionismo: nada mais contrário ao meu intelecto, nada mais contrário às infinitas doses de confiança por mim colocadas na engenharia, a real e a metafórica, e na teleologia, a mental e a carnal, colunas que fazem de mim um escritor singularmente confiante na realidade da mente - desde que devidamente colocada em seu trono: o deslumbrante corpo. Na verdade, estamos apenas a colocar o dedo no lado trespassado e bem real da selecção cega, o lado de onde escorre a selecção anómina, a selecção desgovernada, a selecção determinada por vectores e não por estados, em suma, estamos apenas a centrar o olho da mente observadora nos nossos bem aventurados corpos e nos seus sublimes movimentos. Mergulhemos pois no material com a serenidade dos audazes.


Podem falar-me de uma Fernanda Fragateiro, de um Julião Sarmento ou de um Pedro Calapez. Todos eles nomes sonantes, mas nenhum com o mesmo reconhecimento da Joana Vasconcelos. Culpa dela? Claro que não! Ah, mas ela faz peças populares! E?? Não é (ou deveria ser) o objectivo máximo de cada artista trabalhar para o público? Para ter a máxima visibilidade? E, já agora, para vender? Ou só fazem peças para si próprios e para os amiguinhos do círculo intelectual, todos super eruditos, todos capazes de ficar três horas a olhar para uma peça absolutamente abstracta, arrancando-lhe rasgadíssimos elogios? (...) Não tenho conhecimentos artísticos suficientes para dizer se as peças são tecnicamente bem executadas ou não. Mas sentir um arrepio ao ver o Coração Independente (feito de talheres de plástico) a rodopiar, enorme, numa sala do Palácio da Ajuda ao som de Amália Rodrigues, é coisa que me toca. E, para mim, isso chega.


Na gloriosa terça-feira, dia 30 de Abril, o espécime de referência Ana Garcia Martins (mais conhecida como Pipoca mais doce) no seu local de expressão e no âmbito da sua ecologia própria redigiu um precioso post intitulado Arte para as massas, e forneceu assim, com total generosidade científica, amplo e original material de estudo, oferecendo-nos um pretexto irrecusável para que aqui nos debrucemos sobre o mistério da formação do gosto. É pois o momento de envergar a nossa bata branca, fazer uso de pinças e de caixinhas de vidro, e claro, do inevitável microscópio da nossa poderosa mente, a fim de compreendermos o ambiente onde perigosamente nos movemos. Eis os princípios sintéticos deduzidos desse exótico material:  1) O reconhecimento é fundamental para o artista: procuremos pois o reconhecimento e não a arte; 2) O artista não é culpado do seu sucesso, e por isso também não é responsável pelo seu falhanço; 3) A arte serve o público, não o artista ou os seus amigos; 4) Vender implica desagradar aos amiguinhos, especialmente os eruditos, o que desde logo fornece um passaporte para a chatice a todos os meus amiguinhos; 5) Servir o público não deve confundir-se com necessidades de que o público fique três horas a olhar para a arte do artista, pelo que vender produtos significa formar fila indiana, usar e seguir jogo, já que a vida moderna não se compadece com três horas de contemplação estética, não esquecer que o tempo se apresenta como o recurso mais escasso; 6) A ténica artística serve o arrepio; 7) O arrepio é o critério decisivo da qualidade da arte. Ensinamentos sagazes, meus amigos, ensinamentos sagazes e perigosamente parecidos com muito do que por vezes aqui se larga na caixa de comentários deste blogue, comentários supostamente a cargo de pessoas eruditas, o que nos leva a colocar algumas importantes hipóteses por ordem de importância:

a) Mesmo os mais estúpidos dos bem sucedidos mediocres são sempre escravos das ideias de um qualquer brilhante erudito já morto e enterrado, o que nos deve levar a maiores índices de compaixão em relação a todas as pessoas em geral.

b) É com a devida humildade que sou obrigado a reconhecer que sou inteira e justamente merecedor da irrelevância que toda a ampla realidade me vota e reconhe com total propriedade e legítima indiferença; procurarei desde agora aprender com as pessoas livres, sensatas, alegres e bem sucedidas, pessoas que no fundo foram capazes de suspender toda a sua vida mental autónoma em função da sobrevivência biológica, não priveligiando o sistema nervoso em detrimento de outras funções vitais do seu organismo como o sistema digestivo, endócrino, circulatório ou excrector.

c) O arrepio, elemento crítico de toda a evolução dos nossos princípios naturais do gosto (ver ponto 7), é uma função da sensibilidade de ajustamento entre a informação fornecida pelo ambiente (o coração idependente de Joana Vasconcelos, por exemplo) e a informação do próprio organismo da observadora (neste caso, A Pipoca). Ora, a economia fornece aqui contributos decisivos, numa daquelas reciprocidades fascinantes da história intelectual, sabendo nós que durante mais de um século a Economia nascente e titubeante foi alimentada pela Sistemática Biológica (a galeria de exemplos é infinita, mas pensemos em Malthus, talvez o mais brilhante intelectual do século XIX, embora apenas pessoas igualmente brilhantes, como eu próprio, o percebam em toda a sua plenitude).

d) Note-se que o ajustamento destes dois fluxos de informação (ambiente e movimento interno do organismo) estão longe de constituir processos economicamente eficientes. O corpo, quando lê o arrepio, convoca os dados sensíveis da emoção interna, mas interpreta-os segundo os próprios limites do sistema. Por outras palavras, não só existe uma duplicidade de fluxos, os externos e internos (o que aumenta a probabilidade de erro) como os fluxos internos são em primeiro lugar uma função das rotinas do organismo em processos similares, o que significa que o processo eficiente é aqui inimigo do processo adaptativo a novos processos. Não sei se estão a ver as consequências disto. Eu explico.

Se o ambiente fornece, por exemplo, um verso de Shakespeare, há uma grande probabilidade de a reposta da Pipoca ser nula devido aos limites do próprio sistema, com um tal gasto de energia numa oscilação dolorosa entre descodificar a informação do ambiente e a leitura dos estados internos. Além desta diferença na história neuronal, existe todo um conjunto de diversidades neurológicas estruturais, agravadas pelo facto de o sistema nervoso central, ao contrário do que se pensava, ser altamente plástico e por isso dependente da função tempo, ou como diria um bom economista, o custo de oportunidade da Pipoca mais doce desempenha um papel central na evolução do seu cérebro, colocando a cada mudança um preço relativamente elevado na obtenção de informação sobre alternativas aos seus arrepios estéticos. Se um artista recorre a estímulos presentes na memória colectiva nacional (Amália, filigrana minhota, tachos e panelas) ou civilizacional (corações gigantes, cores quentes, música étnica) existe uma grande probabilidade estatística de obtenção de arrepios nem que seja em camionistas do Carregado. Aliás, eu diria que a exposição de um leitão assado a rodar num espeto ao som de Amália Rodrigues atingiria provavelmente entre 91 e 95% dos mesmos efeitos obtidos com o gigante coração vermelho de Joana Vasconcelos.

e) Para um artista o conflito entre a sobrevivência biológica e a sobrevivência cultural é a principal fonte da sua arte, e motivo pela qual os grandes artistas padecem de uma sobre-determinação da importância do sistema nervoso central no funcionamento geral da sua vida, o que induz o sobejamente conhecido problema de comunicação com um público, tal é a hesitação do artista entre aceitar os critérios de recepção do seu trabalho ou continuar a construir os impérios de consequências simbólicas, por si imaginados, no decurso de uma épica histórica íntima, no processo para se tornar dono e senhor do tumultuoso mundo em constante transformação dentro da sua infinita mente. Simplificando, o artista é um especialista em arrepios e por isso não se arrepia com qualquer coisa, nem lê qualquer informação interna como um arrepio, razão pela qual demos ponderar a magnitude dos arrepios numa relação funcional entre características dos corpos arrepiados e potência do ambiente onde se produzem objetos de arrepio, sendo que tudo se complica sabendo nós que o artista é também um cultor de arrepios apostado em modificar o ambiente e toda a economentria geral dos arrepios, pelo que temos aqui um problema fascinante e merecedor de um esforço de ensaio estatístico sobre mais amplos materiais a recolher. Se as Anas Garcias Martins fizerem o favor de enviar anotações com dia, hora, objeto, intensidade e local dos arrepios sentidos, comprometemo-nos, desde já, aqui e agora, a elaborar um estudo sistemático e definitivo sobre esta importante matéria. Até lá, boa sorte a todas as pessoas capazes de se manterem vivas, inteligentes, positivas e animadas perante o desabar de todas as hierarquias estéticas que fizeram durante mil e quinhentos anos as despesas gerais da produção artística ocidental. Mas confiamos no futuro, confiamos no futuro, pelos deuses, confiamos no futuro.



Selena Gomez, Vanessa Hudgens, Ashley Benson, Rachel Korine em Spring Breakers de Harmony Korine, 2013.

O meu nabokov, numa televisão perto de si

"I don't want to be a celebrity, I don't want to be on the telly, I don't want to do any of that sort of stuff," O'Sullivan said. "I don't want to be a billionaire, I don't want to rule the world. I want to have a purpose in life and there are other things out there that I'd like to do and I'm excited by it."


quinta-feira, 2 de maio de 2013

Desconto de tempo!

 


Tal como o sol suspenso no altar do meio-dia, também a longa consideração do nosso próprio movimento nos pode cegar com uma dor incerta, incandescente. Significa isto que a velha metáfora do rei-sol se metamorfoseou, fazendo de cada um de nós uma superfície onde é refletida a luta impiedosa entre senhor e servo? É bem possível e com trágicas consequências. A escrita transformou-se num espelho multiplicador da nossa triste imagem, revelando do pensamento humano uma degeneração a que o indivíduo parece não poder (ou querer) resistir por muito tempo. Há mesmo qualquer coisa de perturbador na especialização do pensamento sobre o próprio pensamento, diria mesmo, e para utilizar duas belas metáforas caninas, que há no indivíduo que se volta para a escrita qualquer coisa do cão que morde a própria cauda numa enlouquecida rotação circular, ou traços comportamentais do triste cão bíblico a quem se recomenda em vão que não retorne ao próprio vómito. Se existe a possibilidade, ou ao menos a utilidade, de dividir os escritores numa sistemática, podemos defender com moderada segurança a existência de dois grupos: os fulgurantes, vitalistas e clássicos (para quem o discurso se deve apoiar numa arquitectura desenhada segundo uma física da credibilidade, e para os quais a retórica serve a construção de um público - Platão, Dickens, Stevenson, Conrad, Nabokov - e veja-se o moderado reconhecimento e longevidade destas carreiras); e por outro lado, os recursivos, barrocos e auto-punitivos (para quem o discurso é uma estratégia exasperante e dolorosa para se furtarem à vida em comum e uma armadilha constante ao seu próprio raciocínio - Shakespeare, Melville, Joyce, Proust, Kafka, Sebald - e veja-se o terminar abrupto destas carreiras, a ambiguidade da sua situação profissional ou a retirada para a província ou para a morte, que é uma outra forma de vida provinciana). A bem da verdade, devo dizer que esta divisão é em si mesma uma prova da doença gradualmente progressiva neste autor que vos fala, sendo escusado confessar a sua vigorosa vontade de inclusão no segundo grupo, o que o anima a continuar com esta inútil e febril actividade.




Se venho aqui fazer considerações sobre tão desinteressante matéria é porque muitas vezes me vejo acossado pela necessidade de responder à pergunta fundamental: escrever e publicar para quê? Não pode descartar-se a sede de fama e seria pouco consistente com o vigor analítico demonstrado neste blogue não reconhecer o que nisto se deve a uma sede de glorioso reconhecimento, mesmo que esta sede de fama venha filtrada pela nobre contaminação da distinção ao jeito romano, e não por uma simples valorização do conforto trazido pelo sucesso (aspecto de que pode duvidar-se de pronto), ou do desejo mórbido perante o afecto do «povo» (qualquer coisa que nunca me inspirou senão sentimentos de repulsa, pois desde criança as viagens às feiras eram para mim um carrocel de horrores). Por outro lado, não só existe nesta bizarra actividade, e tendo em conta as características auto-reflexivas já assinaladas, uma clara perseguição de territórios insondáveis (seja o belo, o efeito mágico de verdade presente na analogia eficiente, ou o transe atingido pelo amplo domínio técnico) como há muitas, mais confortáveis e eficientes formas de atingir a galeria do sucesso nesta sociedade plena de prazeres, e que temos a sorte de habitar.


WG Sebald


Em suma, não pode sobretudo negar-se o que nisto de escrever se deve a vicissitudes várias da vida, à célebre e tantas vezes involuntária tentativa e erro que nos vai adaptando ao que o mundo espera de nós, ao invés de sermos nós a forçar a mundo às nossas ambições. Ao considerar a economia geral do meu desenvolvimento passado (apesar do humilde e pobremente cultivado berço que viu nascer o autor enquanto criancinha) vejo aqui e ali emergirem os sinais de um claro prémio, colocado pela realidade sobre os atributos do raciocínio especulativo materializado na qualidade/velocidade da produção escrita sobre mim próprio, razão que deve explicar este momento a que somos chegados, e é este o lugar para reconhecer que neste particular tanto o desejo sexual como o desarme perante a beleza feminina desempenharam o seu clássico papel de compensar com a inteligência  discursiva o que a mota ou o blusão de marca (ou a beleza física, reconheçamos com humildade) não permitiu garantir. Tão pouco nobres são as voltas deste mundo mas ao mesmo tempo tão naturalmente embelezadas por essa escultórica seleção das formas a que nem Darwin conseguiu dar inteira explicação.


Darwin in old age
 

Nenhuma das metáforas dualistas (paraíso/inferno, terra/céu, carne/espírito) consegue dar conta da ambiguidade presente no impulso da escrita e muito menos da publicação e palpita-me que neste como em muitos outros casos, permaneceremos nas trevas, pois a nossa vida, pelo menos para já, não obedece a nenhuma intenção computável em números. Se eu fosse uma personagem narrativa, o que por vezes sou, seria possível identificar uma lógica fechada e moderamente computável numa boa metáfora, mas tal como Lampedusa dizia dos protagonistas de Otelo (nenhum deles representa símbolos ou categorias, projectos ou causalidades; são apenas pessoas que como todos nós nascem, debatem-se e morrem) também nós, humanos, não representamos nada que não seja variável e fugidio, e julgo por isso que o nosso caso é muito pior, pois que não nos está sequer reservada a conturbada mente de um génio ou o tablado de um palco Isabelino. Debatemo-nos cruelmente com um projecto profissional de satisfação das nossas precárias e equívocas necessidades sociais (com o dinheiro como equivalência de todas as coisas à cabeça do que julgamos ser o conjunto dos nossos desejos mas nem isto é certo) e encaminhamos esse projecto o melhor que podemos de acordo com os estilhaços das nossas sensações mentais, ou para sintetizar isto numa categoria realmente cómica, de acordo com a nossa personalidade. Veja-se o seguinte exemplo, por mim recolhido na procura de saber o que sou e que eu próprio apresento aqui como um exemplo transparente desse ridículo processo:


INTERVIEWER
What place, if any at all, does delirium have in your working life?

ITALO CALVINO
Delirium? . . . Let’s assume I answer, I am always rational. Whatever I say or write, everything is subject to reason, clarity, and logic. What would you think of me? You’d think I’m completely blind when it comes to myself, a sort of paranoiac. If on the other hand I were to answer, Oh, yes, I am really delirious; I always write as if I were in a trance, I don’t know how I write such crazy things, you’d think me a fake, playing a not-too-credible character. Maybe the question we should start from is what of myself do I put into what I write. My answer—I put my reason, my will, my taste, the culture I belong to, but at the same time I cannot control, shall we say, my neurosis or what we could call delirium.


Aqui está um escritor na plena posse das suas faculdades, dizendo tudo e não dizendo nada, brincando com a forma e o conteúdo, apresentando uma ligação melancólica com a história que o precedeu mas concedendo espaço a um futuro a que é preciso dar consistência, desenhando um sentido para quem vem a caminho, mas enquadrando os fantasmas do passado; aqui está um escritor deixando pistas sobre esse difícil trabalho de recolher pedaços da vida mental alheia para dar coerência ao trágico mundo da sua vida interior, ensaiando um bailado sinistro e elegante entre desespero e esperança, um casamento entre as sentinelas da ordem e os invasores da doença, esconjurando, ou escondendo, que a doença deve ter a sua ordem, tal como a razão deve ter uma parte de delírio, e tal como um mecanismo de controlo deve por certo ser também constituído por pequenos circuitos de rebeldia. A verdade é que publicar textos escritos deve ser uma estratégia muito particular e desesperada para salvar a unidade mental que o indivíduo, a partir de determinado momento do seu longo caminho por esta selva escura (e não garanto que tenha sido a meio), sentiu ameaçada, uma unidade digna de se chamar humana, merecedora da atenção e do esforço dos outros (e isto, meu deus, sabendo o quanto há de rídiculo nisto, quando nós próprios estamos exaustos pelo cansaço de nos expormos a nós mesmos) já não pedimos um trono, e muito menos uma Corte, já não pedimos um sentido para morte, nem sequer um beijo da Gogoliana e juvenil rapariga, pedimos ao menos três minutos de atenção numa página, alguém que nos considere dignos dos impostos despendidos com o Parlamento, a Polícia, os Tribunais, os sinais de trânsito, enfim, pretendemos apenas uma coerência para as coisas onde vamos obtendo o mínimo de paz, segurança e previsão dos nossos movimentos, o que estando a matar qualquer coisa da nossa animalidade intensifica ainda mais a necessidade de uma forma de convívio qualquer que substitua os grunhidos em redor da fogueira no interior da gruta. Escusado será lembrar com Sebald (o homem que reinventou a literatura do futuro por ter visto com especial precisão a que ficou reduzido o escritor e o seu trabalho público) o que de trágico e absurdo existe neste esforço de produzir uma página, as toneladas de melancólica auto-destruição presentes nesta irmandade de construtores de códigos e charadas, neste grupo de exploradores da sua própria vida, de mercenários dos seus próprios sentimentos, nesta seita de obcecados com símbolos e as suas possíveis utilizações, escusado será lembrar o que existe de mortal neste esvoaçar soturno de corujas, com olhos cansados pela letra miudinha, e que só ao anoitecer levantam vôo.

Marcel Proust - typescript and revisions
 

quarta-feira, 1 de maio de 2013

O problema é que o ministro da educação já foi um menino de 9 anos.

 «I'll never Be such a gosling to obey instinct, but stand,
As if a man were author of himself And knew no other kin».
Shakespeare, Coriolanus (5.3.37-40).


Peço desculpa por só agora chegar a mais esta manifestação de sociologia real. Após muitos e variados anos da minha adolescência e juventude passados no convívio serviçal com mães preocupadas com o destino psicológico da sua futura população doméstica, entregando os mais espectaculares, tontos e viris anos do meu crescimento à beleza, criatividade e genorosidade mas também traquinice, rabujice e por vezes idiotice de singelas crianças em ascensão (razão pela qual estou a desfrutar de umas férias da paternidade que espero durem até à terceira idade) estou em condições de vos garantir que um (mas não o único) dos factores típicos da crise económica ocidental se deve ao que tenho chamado a degeneração materna do ponto de vista do sofrimento necessário. Aliás, parte da estupidez política atribuida a Vítor Gaspar (para os leitores internacionais, estou a falar do Drácula Financeiro ao serviço do governo de Portugal) depende em grande medida deste singelo problema que é o facto de todos os pais acharem que deram à luz príncipes da Dinamarca, para descobrir com horror, mais tarde ou mais cedo, que existem milhões de príncipes da Dinamarca a reivindicar cuidados semelhantes, o que significa que os pais deram à luz cidadãos, o que não tem nada de mal, antes pelo contrário, mas por uma razão sinistra (que agora não posso desenvolver em detalhe) os pais e mães acham que as crianças não podem ser tratadas de acordo com este príncipio geral e belo, mas devem antes ser interpretadas e reverenciadas como raridades excepcionais ao funcionamento geral das coisas, aspecto que multiplicado por duzentos (pensemos numa escola com 200 alunos) resulta numa espectável confusão, seguida de gritaria e troca de insultos. Na verdade, esta é a razão pela qual a ascensão das economias de tipo moderno é proporcional ao crescimento do prémio pela redução do número de filhos por família (e nisto há uma aliança perfeita entre a emancipação da mulher, a transferência dos príncipios da Oikonomia para as Finanças Públicas, e a desorientação demagógica, de recorte ateniense, a que temos votado a educação das nossas crianças coitadinhas).

Não quero chegar ao ponto de com Medina Carreira (para os leitores internacionais, estou a falar do nosso Marreta com experiência militar) recomendar banhos frios até à primeira pívia, mas caramba, já chega de confundir o ponto de vista do indíviduo com o mínimo denominador comum da comunidade. Reconheço (escusam de bufar) que há no elo da paternidade estratosferas de amor, afecto e realização pessoal insubstituível e particular, a que a minha alma sem filhos ainda não chega mas o amor filial não pode justificar a nossa cegueira perante um dos mais penetrantes e disruptivos problemas do nosso Contrato Social (quer nas leis da hereditariedade do capital sub-tributado, quer na partilha das despesas de produção e reprodução de pessoas adultas); a verdade é que não fazemos a mais pequena ideia do que fazer com a vida (e já agora com a possibilidade de reprodução ou controlo concepcional) e transferimos para as incertezas do futuro das crianças todo o nosso complexo de culpa em relação à nossa incompetência política, toda a ansiedade doentia em relação ao que um filho espera de nós, e todo um desejo patológico de segurança e controlo, agravado pela facilidade de informação e comunicação da vida contemporânea. A educação representaria, se fosse possível, um elo mínimo com o que a comunidade impõe, ou devia impor, como uma divisão de vantagens entre a oportunidade de perseguir a felicidade (lado direito da assembleia nacional constituinte de 1789) e a obrigação de responder aos desejos de igualdade da República (lado esquerdo da assembleia nacional constituinte de 1789) mas isto se as pessoas pretendessem utilizar o cérebro para começar a tentar, pelo menos tentar, resolver problemas políticos globais, o que está completamente fora de questão pelo que tenho visto.

Segundo o comentário da Palmier Encoberto, Está tudo de cabelos em pé... atenção ao cabeçalho que eles vão ter de preencher na prova. Onde diz escola, têm de escrever, não o nome da escola onde andam, mas o do agrupamento onde vão fazer o exame. Para além disso, têm de saber qual é o número de identificação civil - no B.I ou cartão de cidadão, para preencher devidamente o cabeçalho... tudo coisas que os meninos de nove anos fazem no seu dia-a-dia escolar...

Não sei se repararam mas isto era uma ironia da autora. Com efeito, pedir a uma criança de 9 anos que quebre o seu dia-a-dia escolar e inscreva o nome de uma escola onde está a fazer um exame (nome da escola que pode estar escrito, por exemplo, num quadro diante de todos); pedir a uma criança de 9 anos que copie o seu número de identificação civil (essa aberração republicana muito mais nesfasta, inútil e pesada do que toda quantidade de informação que aos 9 anos a grande maioria das crianças já decorou à saciedade, como por exemplo qualquer programa de tarefas do mais elementar jogo de computador) é de facto uma tarefa ciclópica, uma aventura torturante e perigosa, um acto de tal desgaste mental que até parece impossível que tenha sido aprovado num Estado de Direito.

A todas as mães martirizadas com a preocupação gerada na mente dos filhos como resultado das diversas situações de vida geradas pelas diversas situações de vida (atenção, o mundo existe mesmo, e é real) quero enviar uma mensagem de conforto e de esperança, pois é nesse sofrimento (ligado ao medo do mundo e à separação do ventre onde outrora se encontrou o sono e o alimento) que está a esperança de salvação dos vossos filhos. Feliz aquele sobre quem os pais e as mães não tiveram total domínio porque dele é a possibilidade de não vir a ser um tolinho e um menino da mamã desses que uma vez no governo nos fodem a vida como se não houvesse amanhã.