segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Coisas realmente graves que provam que não há retribuição possível nesta vida, muito menos na outra.

Em que dimensão espacio-temporal será possível conceber que esta divina pessoa esteja a consumir os melhores anos da sua inacreditavelmente eslava beleza, e a esgotar, na ventoinha das irrelevâncias emocionais, toda a sua (pouca) energia artística, arrastada pela companhia matrimonial de um imbecil borbulhento e descabelado do norte de Inglaterra, que em vez de escrever um filme (levitando sobre um inebriante perfume meridional, e folhas de louro que lhe coroassem a merda da cabeça, animando-o a sair do pântano onde se atolou algures na adolescência, uma vez que se diz realizador, um filme que fosse um cruzamento entre Sonho de Uma Noite de Verão, de Shakespeare e o Jardim dos Finzi-Contini, de Bassani) se desdobra, ao invés, diante de nós, dolorosamente, para nosso horror e sua desgraça, em chinesices sanguinárias e em porcarias mitológicas centro-europeias?

 
 

Rádio televisão dos Pombos


Entretanto, porque hoje é segunda e não me apetece morrer em contra mão atrapalhando o trânsito, faço a apologia de um certo silêncio típico das manhãs de segunda-feira. Vamos até ao campo ouvir os passarinhos.

A RTP, essa fantástica empresa pública tão hábil a descobrir talentos em casa de colaboradores de longa data, essa instituição anti-húmus, fecundada por uma espécie de colmeia da elite intelectual portuguesa, passava ontem um programa em que o ex-médico-de-família agora designer, e uma ex-sangue-do-meu -sangue (que na verdade daria um bom título para um filme sobre a história da RTP “Sangue do Meu Sangue ou a eterna decadência de escolher pelo sangue”) exerciam uma espécie de luta ideológica entre os que cavam batatas (expressão que não faz sentido, dado que às batatas deve-se fazer tudo menos cavá-las, sob pena de apodrecerem pouco tempo depois) e os que morrem de stress lutando à batatada em Lisboa por uma vida melhor.
 
Mais uma vez, o campo foi retratado como um local idílico, com pessoas naïfs e puras, quase angelicais (apesar dos anjos se estarem a cagar para nós, os mortais) sempre prontas a ajudar o próximo, sobretudo se ele for desconhecido. Não me querendo alongar neste tema, nem querendo arriscar uma classificação das camadas de personalidades que se escondem por detrás das aparências de quem olha apenas para ideias cristalizadas, arrisco dizer que o argumentista da série ou estava bêbado, ou é geográfica e historicamente ignorante (“antropologicamente”, se calhar fica melhor aqui), ou é uma espécie de sanguessuga da RTP, bem longe da magnificência das papas de sarrabulho, não obstante a sua dimensão consanguínea ter tido aqui, certamente, um importante papel. 

O dito argumentista ou vê o campo de uma qualquer janela da sua casa em Lisboa, digital, quem sabe, ou tenta percebê-lo quando passa na autoestrada ou, acredito mais nisto, apenas tenta retratar a sua empregada doméstica. Sangue-do-meu-sangue será, senhor. Sanguessuga, subentende-se na série, é a vida de Lisboa, com o seu cosmopolitismo acelerador do tempo. A cidade está para o diabo como o campo está para os deuses. Ahhhhh (sim, pode ser lido como um grito) romantismo aquecido em micro-ondas da estupidez!!!! (isto faz-me perceber, já agora, aquela letra que diz “dançamos no teu micro-ondas”. Faz-me perceber ainda mais que a letra é uma merda, entenda-se!!!). Até pensei escrever mais sobre isto, confesso. Sobre a ideia de ignorância primária como origem da formação da conceção de campo idílico, da pacífica natureza. Mas o programa não merece mais merda de palavra nenhuma. Vou ouvir La Traviata para descontrair. Faça-se silêncio.

Da formiga dopada à cigarra invertida.

Hoje acordei com espírito de Raúl Brandão: esta merda deveria toda virar húmus, decompor-se, ou até, usando um termo recentemente “seguro”, regenerar-se. Mas depois do banho lá aquietei. Calma, só te irritaste outra vez com a porcaria do(s) jornalista (s) a dizer que 20 graus centigrados e algumas nuvens é “mau tempo”, depois de ouvires dizer durante os últimos 4 meses que 40 graus corresponde à ideia jornalística de “bom tempo”. Isto faz-me lembrar um tio meu, a quem foi dito por alguém cheio de boas intenções, quando fez 83 anos: “bonita idade”. Parado a olhar e quase paralisado por uma qualquer doença, das que os médicos se recusam a diagnosticar depois de certa idade, lá ganhou ele forças e respondeu «bonita idade, o caralho!! Cheguem aos 83 anos e depois vejam!!!!». Assim estou eu hoje: “mau tempo o caralho!!!”. Mau tempo são os 40 graus que trazem as insónias noturnas, os 40 graus que impossibilitam o prazer das caminhadas, que turvam o olhar e, enfim, até porque está na moda, que talvez sejam bons mas é para as cigarras. Mas para mim não, eu que sou uma merda de uma formiga inquieta e ansiosa que precisa de se mexer para não “encigarrar” de vez, ou até “encirrosar”, porque isto só lá vai com álcool.  Mas isto na formação da ideia do que é bom em meteorologia é igual ao resto. Vivó consenso, bem temperado, porra!!!

Mas vamos lá deixar a pornografia, por enquanto. Ah, desculpem, é que www.meteo.pt sempre me pareceu o site com o nome mais pornográfico de sempre. Mas enfim, sou eu que sou provavelmente tarado por estas coisas de nomes das coisas. Para descontrair, vamos pedalar.
 
Andar de bicicleta é para mim uma espécie de casa dos segredos invertida. Invertida não devido a qualquer preferência sexual – se fosse por isso, também não haveria problema – mas porque quando ando de bicicleta, fico com a ilusão do tempo e do espaço moldado à velocidade do pedalar. Penso que todos percebem do que falo, mas admito que talvez seja só uma sensação própria.
E este tempo degenerado, nas manhãs da rádio, entre o húmus que se forma nestes dias de Outono – Raúl Brandão continua a ser mais actual e bem mais esquecido do que qualquer escritor que pragmatize os expositores da FNAC – vamos lá fazer um estúpido exercício de analogia entre o andar de bicicleta e o desejo constante de dirigir a economia.
 
E vamos fazer isto à inglesa, tentando dar um tom de que irei falar de qualquer coisa séria, perguntando primeiro. Não é verdade que através do crédito, o endividamento público e privado foi excessivo nos últimos anos? Não é verdade que mesmo na cabeça do mais Keynesiano pensador, o que foi feito em Portugal desde a entrada na agora União Europeia nada tem a ver com investimento? Não é verdade que todos ou quase todos nos perguntávamos “onde é que caralho o nosso vizinho vai buscar tanto dinheiro?” Não é verdade que todos, os que tentam pensar, os que andamos de bicicleta, sabíamos que a coisa ia mais cedo ou mais tarde rebentar? A lista de perguntas é quase infinita, e nem vale a pena continuar.~
 
Vale sim, a pena, a verdade. A verdade, a verdade, é que nem se sabe o que é essa merda da verdade. Nem eu. Por isso só pergunto. Mas faço mais. Sugiro uma imagem. Lembram-se quando estavam a apreender a andar de bicicleta? Toda a gente letrada na coisa vos dizia "é só sentar o cú no selim e pedalar. Não é para pensar sobre isso, senão vais cair”. E lá seguíamos o conselho, pondo o veículo em movimento. E já estava. O vento, a luz, o tempo, o espaço, tudo moldado. Tudo, menos os travões. Sabíamos que não podíamos apertar o travão da frente. Mas também sabíamos que o espaço mental desenhado como seguro estava a terminar. Era necessário travar. Sabíamos aí que a queda estava próxima, nesta primeira vez. Se parássemos cairíamos; se travássemos cairíamos; mais valia seguir, não travar senão no fim. E caíamos.
 
Parece-me, mesmo que a ideia seja idiota, que o momento económico actual é muito parecido com a perda de inocência ciclística. Montamos uma certa bicicleta desenhada para andar a grande velocidade, uma bicicleta grande, difícil de parar. Sabemos que temos de continuar a pedalar senão vamos cair, mas sabemos que temos de travar para não cair no fim do espaço mental desenhado para tal; a questão que se coloca não é saber como continuamos a pedalar infinitamente sem cair; a pergunta que se coloca é se conseguimos cair e voltar a pedalar pouco tempo depois.
 
Convosco não sei, mas face à previsão de mau tempo, eu prefiro pedalar, moldar o espaço e escolher se o meu tempo é realmente assim tão mau. Tenham um bom dia.

sábado, 22 de setembro de 2012

Na primeira e a lutar para não descer, já basta o Sporting

O Filipe Vicente pode eventualmente ter acertado no retrato dos manifestantes de ontem, mas vamos entrar pelos estereótipos adentro: então porque não estender o exercício aos que estavam cercados no palácio de Belém?

Tenho pena que nenhum dos membros do Conselho de Estado tivesse tido os tomates de se dirigir à multidão e escutá-la. Sim, o mais provável era a meio caminho levar com um cocktail molotov nos cornos, mas lá está, estamos de novo a cair no estereótipo. Nem a vasta maioria do povo na manif pretende ir às fuças aos políticos, nem todos os conselheiros são homens, e logo, à partida, não possuem tomates.

Seria um belissímo exercício de cidadania, comparável à moça que abraçou o polícia no sábado passado, se os conselheiros de estado se dignassem a dialogar com o povo presente na manif. Não sairiam dalí nenhumas decisões, nem o país ia mudar, nem o Sporting passaria a jogar melhor. Mas permitiria ultrapassar os estereótipos, o que para primeiro passo, não estaria mal.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Eu próprio já disse isto, algures um dia: vocês é que estavam a dormir.

Como não tenho tempo para explicar, por agora, a não existência de um Parlamento em Portugal, vou iniciar-me numa das mais belas características das pessoas famosas, a saber: 1) transcrever textos que eu próprio já publiquei neste blogue; 2) fazer profecias em que manifestamente se comprovam a minha inteligência, coragem e sagacidade. No início de 2011, era assim.
 
 
Tenho assistido, com particular satisfação, ao derramamento de lágrimas argumentativas por todos aqueles que sempre fundaram no sucesso todo o mecanismo de aferição da verdade, lágrimas banhadas na saudade dos tempos em que a inteligência era o esteio do debate político e a nobreza de valores animava todos os interesses em confronto. Nada que se compare a estes tenebrosos tempos, em que se anunciam protestos forjados na desorientação, na irresponsabilidade, e jovens destrambelhados ganham concursos televisivos por televoto. Com efeito, a vitória dos Homens da Luta como representantes na Eurovisão (um belo conceito a recuperar, uma euro-visão), e uma anunciada manifestação para dia 12, são factos aleatórios que estão a deixar os teóricos da realidade à beira de um ataque de contradições insolúveis, daquelas que costumam motivar camionistas, talhantes e vendedores de fruta a abandonar as fileiras da civilização e a enveredar, ainda que precária e provisoriamente, pelos caminhos apontandos por intelectuais parasitas e jovens universitários decadentes; veredas atribuladas que normalmente costumam conduzir à decapitação de uma qualquer Maria Antonieta que se preste ao virar da história.
 
 
Como devem calcular, eu sou daqueles que se identifica, antes de mais, com as personagens decadentes da literatura russa. Um Laevsky nas mãos de um Tchekov, um Rudin nas mãos de um Turgueniev, ou qualquer alcoólico crónico que odeie irresponsável e parasitamente a organização e os sentimentos nobres que nos fundamentam, que é como quem diz que me estou positivamente lixando para os efeitos do colapso aparente das instituições, mesmo que depois me arrependa e venha aqui chorar copiosamente a perda dos incomparáveis privilégios que me foram concedidos pela revolução democrática de 1974; mesmo que entretanto um segundo Oliveira Salazar (apenas mais gordo e com melhor sotaque inglês), tome as rédeas da República e guie Portugal com a mesma insensatez com que, a fazer fé no que nos conta Ovídio, Faetonte conduziu o carro do sol, e seus corcéis de fogo, até à tragédia final. Ou só agora é que acordaram para as consequências trágicas do pornográfico comportamento da curva de distribuição salarial desta nossa República?


É que já Aristóteles falava nesta merda. Isto porque me parece que estaremos a falhar um ponto, nós, os eruditos, mas também todos os apreciadores de empadão de codornizes (penso aqui no varão de nobre carácter e incomparável argúcia, Miguel Sousa Tavares, mas também no anónimo Maradona, do qual discordo totalmente nesta matéria) a verdade é que tudo sempre está bem com a realidade até a realidade se transformar em Carlos Xistra e sacar dos seus cartões vermelhos. Ou seja, descobrimos agora, via Maradona, que as críticas condensadas de forma canhestra, é certo, mas condensadas, ainda assim, pela geração desorientada, não passam de interesses particulares que gritam mais alto, como se gritar mais alto não fosse o combustível de todas as instituições.Mas os desempregados com licenciatura têm mais poder reivindicativo e mais a ganhar: estágios profissionais para licenciados, bolsas de investigação para trabalhar numa universidade, um posto na Adminstração Pública. Não estão em maior número - só gritam mais.


Isto é tão comovente que chego a pensar em desistir de todos os meus ódios particulares para aderir a uma corrente budista, qualquer uma, desde que encabeçada pela Laurinda Alves. Mas desconhecerá esta pessoa que qualquer direcção social, ou gestão de empresa, se pauta não pelo maior número mas pelo que grita mais alto? Não votamos nós em representantes caracterizados precisamente por serem aqueles que gritam mais alto entre o maior número? Talvez fosse bom explicar que as instituições, desde a regulação oferta/procura dos mercados financeiros, passando pelos sistemas de preços, indo à representação parlamentar e passando pelas academias científicas, são sistemas de gritaria codificados.
 
 
Mesmo quando funcionando no ponto de eficiência máxima, nunca se trata da decisão do maior número mas dos que gritam mais alto. Até a eleição de sua excelência o Presidente da República não foi produzida pelo maior número mas pelos que gritaram mais alto nas urnas (o maior número não vota). Por outro lado, acresce à confusão geral que na falta de um contrato social intra-uterino, todos fomos postos num sistema sem que nos fosse pedida a nossa concordância, pelo que todos os cidadãos da república podem passar a defender uma revisão das instituições, até à ditadura, se for preciso, e que, por isso, convém acordar para o problema da distribuição um pouco antes da confusão estar instalada.
 
 
Sempre que, durante estes últimos dez anos, se referiam assimetrias gritantes relacionadas não apenas com dependências do ponto de partida, mas com erros no funcionamento do sistema institucional, os defensores da realidade, incluindo o Maradona, acenavam com a polícia. Ora, quando a polícia cair na rua (porque se acabou o guito para pagar salários), talvez Maradona seja dos primeiros a reivindicar uma ditadura, pelo que ditadura por ditadura, eu prefiro a marretada verbal free style, enquanto é tempo (não vou sequer argumentar perante tentativas de esvaziamento da realidade, como as que identificam a manifestação da tarde como aquecimento para a "noite" numa coisa chamada Clube Ferroviário, porque, uma vez mais, não será preciso responder a Maradona que a realidade é una, tanto para os benefícios indirectos da divisão do trabalho em Adam Smith, como para a dupla e complexa frequência de actividades tão distantes como a pedrada na cabeça da polícia - à tarde - seguida de bebedeira até ao coma - lá pela noitinha).
 
 
Com efeito, quando existem bloqueios nos sistemas de gritaria, e se produzem periferias qualificadas com poder de gritaria, não há outra coisa a fazer; os espaços institucionalizados da gritaria começam a sofrer a concorrência de outras formas de gritaria, até que se produza novo equilíbrio geral, e mesmo esse novo equilíbrio traz já dentro das suas ínfimas e múltiplas conexões novas sementes de desiquilíbrio; o que é o mesmo que dizer que vivemos em gritaria constante, numa dependência frágil, apenas se verificando o singelo facto de que nem sempre aqueles que gritam mais alto, possuem os altifalantes do sistema. O momento em que os que gritam mais alto estão fora do enquadramento institucional - e querem roubar os altifalantes - tem sido denominado revolução (mas também pode ser golpe de estado, revolta, ataque terrorista, etc) e a sua aceitação como realidade depende de múltiplos e complexos factores em que o número (ao contrário do que pensam os Pachecos Pereiras desta vida) é apenas uma das variáveis. Simplificando: para todos aqueles que sempre confiaram no número como fundamento da autoridade, avizinham-se tempos de grande angústia, pois a gritaria poderá vir a tomar conta disto, em mais um belo momento de metamorfose do diálogo (como se o diálogo não fosse sempre uma forma dissimulada de gritaria) com espaço para a criação, a originalidade e também a parvoíce, que graças a Deus, não é monopólio dos poderosos. Resta dizer que toda a minha obra aponta para a importância de dignificar, se for preciso pelo medo e pela pedrada, a multidão de indivíduos, criando nos futuros decisores uma proibição moral em torno de possíveis agressões a essa entidade abstracta, o «bem comum».
 
 
Tenho ouvido repetir que nada se resolve na rua. Lamentavelmente, tenho o dever de informar que tudo se tem resolvido na rua. Desde 1645 até 1776. Talvez não seja por acaso que os países africanos não têm manifestações massivas e que a Europa dos séculos XVII e XVIII, onde se forjaram todas as ideias que nos assistem até hoje, tinha como passatempo decapitar reis. Veremos se a ocasião será ou não aproveitada. Em todo o caso, meus caros amigos, é pegar no megafone, cerrar os dentes, e sentir o prazer de estar vivo, porque, para o mal e para o bem, nada dura para sempre.

Quando nada o fazia prever, começamos a ter comentários que comprovam a nossa gloriosa chegada à primeira divisão da blogosfera, ainda que a lutar para não descer.


Princesa Letizia disse...
 
«Eu só leio o que sai na Hola.»
 
20 de Setembro de 2012 20:18

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Agora é que ela está a bater

Eu tinha um texto longo, e lindo, sobretudo lindo, todo preparado sobre a crise, a TSU, e a estranha correlação positiva entre os resultados do Sporting e do Real.

Mas hoje fiquei a saber de mais um amigo que levou com a crise em cima. Não estou a falar de ter perdido o emprego, embora tenha sido isso que aconteceu. Sem emprego, e com alternativas que nem sequer pagam a sandocha do almoço, instalou-se o desespero. E uma raiva crescente contra tudo e todos, incluíndo ele próprio.

Infelizmente, não é o primeiro no meu círculo de amigos. Há já algum tempo que venho a assistir a este drama, pessoas que de um momento para o outro se vêem sem nada. Trabalho, esperança, vida. Passado pouco tempo, entra o desespero e relações pessoais que acreditávamos estarem sólidas esboroam-se, tal qual arribas algarvias.

Mais do que a falta de emprego, estou preocupado com a falta de dignidade que vou sentindo e vendo. Na altura em que a rede de relações pessoais é mais necessária, aquilo em que nós, tugas, supostamente somos bons, só vejo cada um pelo seu prato de lentilhas.

É altura dos cínicos, como eu, confortavelmente instalados na sua concha, como eu, irem à luta pelos outros. Como e onde, não sei. Ainda.

Que bom saber que não estamos sozinhos no mundo!

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Amanhã explicarei porque não temos um Parlamento. Bons sonhos a todas as pessoas que gostam de ler.

Por amável sugestão, deixada na caixa de comentários do post anterior, assistimos a um grande momento de animação televisiva que queremos partilhar com os excelentíssimos senhores cidadãos da República (risos). Claro que seria necessário explicar ao Paulo Morais que a razão pela qual «ninguém» faz nada em relação à corrupção, e que explica eloquentemente porque é que metade das pessoas não estão presas - como o próprio sugere, supreendentemente - se deve ao facto da outra metade das pessoas existentes neste nosso ditoso e amado território - conjunto de pessoas que o Paulo Morais não refere diretamente como responsáveis pelo problema -, ou é familiar dos ladrões, ou é empregada dos bandidos, ou prima dos gatunos, ou sócia dos delinquentes, ou cliente dos mafiosos, ou beneficia de alguma forma desta moscambilha política chamada terceira, ou quarta, ou quinta, já não me lembro, República Constitucional - quanto mais não seja pelo seu próprio olímpico desinteresse. Eu já sugeri chamarmos como chefe de uma missão externa, Sua Magestade, a Guilhotina, a fim de corrigirmos rapidamente o défice de responsabilidade social que tem sido manifestado pelo conjunto das pessoas que abraça a carreira política. Mais não posso fazer. Ou melhor, poder posso, mas tal como a vocês, não me apetece. Para fazer bem uma revolução, o revolucionário deve preocupar-se mesmo com a revolução, razão pela qual as pessoas em Portugal fazem revoluções mas só até se ouvir o primeiro tiro, altura em que todos apelam à calma e se chama um General qualquer para conduzir ordeiramente a confusão criada.

 
É que o problema reside no facto de a Democracia ser um sistema tão perfeitamente perfeito que não permite às pessoas sofrerem a casualidade da regeneração participativa sem elas próprias levantarem o cu da sala e correrem o risco sempre implícito em qualquer confronto político. Sem cidadãos não há Democracia, nem com 30 000 Paulos Morais a policiarem cada beco do bairro. Em que hipermercado poderemos nós comprar um carregamento de cidadãos? Aposto que a esta, o Paulo Morais não sabe responder, mas eu sei. Na escola , que já era congenitamente má e que agora estamos a foder a torto e a direito. Nas públicas, reina o Mário Nogueira e nas privadas, Nossa Senhora de Fátima: entre um e outro, venha o diabo e escolha, que eu não gosto nem de pessoas que falam muito alto, nem de pessoas que levitam sobre as árvores.

Se me perguntam se eu guilhotinava o Dr. Paulo Portas por causa daquela situação estranha dos Submarinos e dos sobreiros em Benavente? Sim, guilhotinava. Se me perguntam se eu guilhotinava o Dr. José Pacheco Pereira pelas suas inventivas contra a biliosa inveja e violenta boçalidade das pessoas que vão para as redes sociais - impunemente, olé - verter insultos e ameaças aos políticos? Não, não guilhotinava, porque faz sempre falta um intelectual maricas para dialogar com os radicais de esquerda quando isto aquecer.  Mas eu não sou uma pessoa violenta, e por isso vou ler um livro.
 
 
 

Papá, quero uma revolução! Mas uma em que as pessoas se não aleijem.

Desgraçadamente, os portugueses parecem não gostar de regimes democráticos e desperdiçaram a oportunidade de ouro que lhes foi dada com o PREC, construindo uma vida acima das suas possibilidades, um conceito verdadeiramente obscuro, inventado pela Universidade de Verão do PSD quando o auditório se viu na impossibilidade de concluir um exercício de Matemática do 6º ano. Se eu vivo uma vida que me é possível viver, de que forma se afere que essa vida se encontra acima das minhas possibilidades? Não me digam que é tendo como referência as férias da Cristina Ferreira em Saint-Tropez? Quem não cometeria a impossibilidade de efetuar uma mamada ao Manuel Luís Goucha para ir com a Cristina Ferreira - desde que de boca amordaçada - a Saint Tropez?


Segundo a versão daquela associação folclórica constituída pelo António Barreto (o avô Pingo Doce), o Rui Ramos (um perigoso fascista mascarado de gentleman), o Vasco Pulido Valente (um cónego de Braga mumificado em marreta), a Maria Pataroca Mónica (a avó catedrática com Alzheimer), a Fátima Bonifácio (o travesti fumador), e o João Carlos Espada (o merceeiro que caiu no caldeirão das sociedades secretas do Harry Potter) os portugueses não tinham possibilidade de irem a Porto-Galinhas (e foram), não tinham condições para ir à Riviera Mexicana (e foram), não tinham guito para ir à Jamaica (e caramba, foram mesmo). Filhos das puta dos portugueses. Não gostam de Londres.


Além disso, puseram-se a comprar camisas lavadas, casas de férias no Alentejo (quem não tem uma?) arranjaram os dentes, compraram carros alemães, frequentaram churrascos com aventais importados, aprenderam a escovar a boca depois das refeições, começaram a nascer vivos, em vez de nascer mortos e colocados em cestos ao lado das batatas que estavam a ser retiradas da terra pelo resto da família, começaram a ir à escola em vez de frequentar só a catequese, enfim, coisas que todos sabemos serem um luxo completamente dispensável na Europa do sul, quando toda a gente sabe que devíamos estar todos a trabalhar como criadas de servir, como sempre fizemos, para a família Pulido Valente e as outras dez famílias que mandavam nisto prosperarem em paz. Eu tenho uma outra narrativa. Escusam de procurar os culpados - uma velha mania católica. A verdade é que não tivemos uma revolução e agora é tarde para fazer uma. Não vale a pena penalizar as pessoas, simplesmente não aconteceu connosco. É como aquele momento em que sabemos abruptamente que a gaja mais gira e inteligente da turma acabou de beijar o gajo da mota e blusão de marca, quando nós estamos vestidos com uns calçõs confeccionados pela nossa pobre mãe, a partir de um tecido comprado na Retrosaria do bairro e que tem estampado um colorido padrão de veleiros, brancos e azuis. É que nem vale a pena chorar, estamos absolutamente proibidos de verter lágrimas enquanto envergarmos calções confeccionados artesanalmente.


É verdade que isto foi inteiramente imerecido. A Inglaterra teve Shakespeare e uma revolução pouco tempo depois (será coincidência?). Nós tivemos o chato do Gil Vicente e do Camões e ainda levamos com um regime monárquico de direito divino pelo cu acima durante mais trezentos anos. Uma revolução, eis o problema. Caramba, todos os países desenvolvidos a tiveram, e se tivéssemos que pagar juros de mora sobre o incumprimento da degola da aristrocacia portuguesa, não existiria dinheiro suficiente no planeta para nos salvar da bancarrota. Querem iniciar um peditório? Tenho aqui a moeda do momento: 1 euro. É um começo.


Por isso, quem quiser agremiar-se para montar uma guilhotina de plástico no Terreiro do Paço e testá-la no Primeiro-Ministro e Ministro de Estado e das Finanças (só até os gajos se mijarem todos), pode contar com o meu apoio e o meu talento em trabalhos necessários e pouco edificantes; agora não me venham é com o sofrimento das pessoas, porque foi exactamente o sofrimento das pessoas (onde há pessoas, há sofrimento) que nos trouxe até ao lugar onde nos encontramos.


O problema económico português, para sintetizar, e não entrar agora aqui na velha questão da facilidade de acesso a meios de pagamento, isto é, «ouro do Brasil» (porque me dá vómitos e dores de cabeça, um dia explico porquê) é apenas o resultado de um fenómeno a que um neo-clássico chamaria as externalidades do mercado de legislação pública. Nesse mercado, é determinante que os custos de transferir direitos de propriedade sejam baixos, a fim de que os ajustamentos sigam o caminho correcto (dos mais incompetentes e ricos para os mais pobres e competitivos), e para o caminho ser correcto deve estar correctamente assinalado por bandeirinhas cujo prémio é proporcional ao retorno geral para a população dessa nova estrutura de direitos de propriedade que se propõe, implicitamente, numa dada estrutura fiscal, e para que o retorno seja geral - atenção que agora vai ser dita uma coisa importante - é preciso ter instrumentos que possam medir esse retorno, isto é... isto é..., isto é...., precisamos de comprar um Parlamento. Voilá. Nós não temos um Parlamento, temos um conjunto de pessoas reunidas emiciclicamente que comentam a Gabriela, quando estreia pela primeira vez, e que comentam a estreia da Gabriela, quando estreia pela segunda vez. Numa próxima oportunidade apresentarei aqui as razões que explicam a ausência de um Parlamento, mas posso adiantar desde já que a Igreja e o Senhor Professor Doutor António de Oliveira Salazar (lamento a falta de originalidade) terão aqui um papel fundamental.


Melville (coitado, no meio disto tudo, esqueci-me dele) escreveu que os países se dividem entre aqueles que se dedicam a inventar um futuro e os que se consomem (até à destruição, acrescento eu) na tentativa de responder a um passado. Não é preciso dizer-vos em que lugar nos situamos, pois não?


Como diz o ngonçalves, esta merda vai acabar mal, mas temos a consolação de que ao menos, como já aqui disse uma vez, e apesar de termos saltado a etapa fundamental da guilhotina (achamos desagradáveis quaisquer derramamentos de sangue que não incluam espanhóis) caramba, fizemos coisas bonitas.


 

A internet, esse universo paralelo ou como estragar um momento


Ó Adriana ,tu querias que eu te enfiasse o meu "bastão",mas agora estou de serviço...

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Querem falar de rumo, falem com o Sá Pinto

"Até as reticências tem mais pontos que o Sporting", encontrado há pouco na caixa de comentários de um site qualquer.

Eu não quero a minha vida de volta!!!!

Confesso que não fui à manifestação “Que se lixe a troika. Queremos a nossa vida de volta”. Fiquei em casa, fui às compras, bebi umas minis num café da minha rua, mandei uns sms a comentar o pouco da manifestação que vi na tv e fui correr ao Estádio Universitário.
Na verdade, eu não quero a minha vida de volta. E não percebo como muitos dos manifestantes entrevistados possam querer a sua vida de volta. Mas exercito uma espécie de prós-e-contras, sem berros e jornalistas que subiram na horizontal na cama de qualquer diretor da região norte de um serviço público apimbalhado que agora, perdido o sufixo no nome, grita a sua razão com a (in)tenção de que o seu barulho funda em consenso a opinião de outros. De facto, democratizar em Portugal não é mais do que um esforço contínuo de falar a uma só voz, um pulsar permanente para cristianizar o espaço público. Mas voltarei noutro post a esta ideia. Centremos a atenção no que é importante: no uníssono da manifestação, quem quer a sua vida de volta? O que perdeu o professor que gesticula? Uma ideia de ensino democratizante, na qual a escola servia de buril a desigualdades plasmáticas, contribuindo os professores decisivamente para que se extinga a reprodução de hierarquias bolorentas mas vivas, como qualquer queijo mal cheiroso? Era assim o ensino há um ano?
Não, eu não quero a minha vida de volta. Mas a empregada pública que fala, quer. Mas o que será que quer? Será a capacidade para reproduzir nos seus filhos a razão consanguínea do seu sucesso profissional? Quer as suas férias nas Caraíbas? Penso que não é razão para tanto desconforto. A troika certamente não interfere nos concursos públicos e na sua tradicional função: colocar em bons empregos alguém já conhecido do diretor que entrou na fachada de contratado até que um concurso fosse ficticiamente realizado. Calma, as cunhas não vão acabar.
Mas nesta altura a manifestação congestionou. Não deixa de ser curioso que a própria manifestação tenha produzido a melhor metáfora de si mesma. Um grupo de pessoas que não quer ir por um lado, mas que ficou sem saber onde ir, nem sequer conseguiu chegar ao local pretendido. E que mesmo chegando, nada tinha para dizer ou fazer, para além de um desfile de insultos ao bode expiatório habitual – a sério? Mas ainda ninguém percebeu que por muito estimulante que seja derrubar governos, não é fácil ter a vida de volta, absorvendo o espírito da manifestação? -  Talvez porque, metáfora das metáforas, a Praça de Espanha não seja verdadeiramente uma praça; talvez porque nos últimos 200 anos, pelo menos, a (des)urbanização do país não tenha pensado nesse antigo símbolo de espaço público. Talvez porque nem haja espaço público em Portugal, e na nova praça, o Facebook, o consenso surja em forma de “shares” e “likes” e muito pouco pensamento próprio. Isso compromete, e nós gostamos mais disto como se de uma casa de segredos se tratasse!!!  O melhor, da próxima vez, é marcar a manifestação para um local que todos reconheçamos como espaço público, um qualquer espaço comercial. Para o El Corte Inglês. Porque não?

Mas não é de espaço público que se trata, trata-se de ter a vida de volta. Que se foda isto!! Pensei. E fui às compras, mas na mercearia. É que isto de ajuntamentos e de consensos faz-me fugir de multidões. Lembram-me sempre Fátima, a praia de Armação de Pera, os corredores do Colombo ou a audiência da Casa dos Segredos. Tudo é consenso, mas pouco é espaço público. Do dia, ficaram as minis.

Sic transit gloria mundi

A semana europeia da mobilidade começou hoje. Num esforço para educar a população a utilizar os transportes públicos, a câmara faz-me andar mais 10 minutos para apanhar o autocarro.
 

domingo, 16 de setembro de 2012

Rumo?

A manifestação deste Sábado permitiu à malta mostrar, novamente, o seu desagrado com o governo, a troika e o mundo em geral, excepto o Sá Pinto que, por enquanto, está a salvo.

A manifestação não foi capaz de transformar o desassossego em algo útil e bom, apenas fermentou mais o mal-estar que se vai sentindo. Como todas as manifestações, diga-se; ou a malta já esqueceu a manif dos "deolindas" aqui há um par de anos?

Das entrevistas que vi, o povo sente que o rumo está errado, mas confessa-se baralhado perante a pergunta sobre qual será o rumo correcto. E nada mais angustiante do que sabermos estar a ser levados para onde não conseguimos vislumbrar. Isto via-se, e sentia-se, nas caras de quem andou na manif deste Sábado.  Mais cedo ou mais tarde, a brincadeira acaba nos moldes do anterior regime.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Marilyn ou Joyce: a literatura como máquina de reprodução na era dos computadores - um comentário a Tolan

 
Em qualquer caso, quando somos mais cultos temos de nos esforçar para encontrar o divertido e a quantidade de coisas aborrecidas aumenta exponencialmente, o que também é uma maldição.



Tolan, Quarta-feira, 12 de Setembro de 2012


Porque me estou a cagar para a literatura, preocupando-me apenas com os livros. 
José Mário Bronco, 12 de Setembro de 2012 23:43

 
Finalmente, temos aqui um problema, sobretudo se pensarmos que tenho quinze minutos para sair de casa, e devo responder a isto, uma vez que as questões de literatura devem ser tratadas com urgência, daí a importância das listas, e mesmo sendo eu beneficiário de muito mais tempo do que tu, para ler e pensar, embora tu ganhes mais e provavelmente tenhas apalpado maior número de mamas – o que é inteiramente justo, diga-se – sempre há imprevistos e dificuldades com que não esperávamos, mesmo para um mente ágil e um corpo bem treinado como o meu.
 Começaria por fazer uma pequena homenagem à geração de bêbados e falhados norte-americanos que invocas, invertendo o argumento das mamas, e recorrendo ao sensacionalismo que foi o emblema de toda uma geração com os mecanismos sensoriais avariados: foi precisamente por não terem apalpados as mamas suficientes – ou por não terem julgado suficientes aquelas que apalparam – que escritores como Kerouac acabaram a viver com a mãe. Antes de nos afundarmos no pântano freudiano, convém dar uma pequena volta pela história da naturalização do desejo.
Julgo que a origem da literatura culta e profundamente educada não deve colocar-se em oposição à procura de mamas, pelo menos de forma radical; penso mesmo que a literatura nasce quando nos fartamos de apalpar umas e passamos – ou julgamos que passamos – a querer apalpar outras, e é então necessário colorir a mudança com uma boa narrativa emocional, para bater em retirada com o mínimo de segurança; ou quando temos que justificar a longa permanência perto de mamas amadas e queridas, ou quando não tivemos o privilégio de estar perto de mamas, ou pelo menos de algo parecido, e é necessário uma prodigiosa pirueta de autoilusão para nos despedirmos do mundo em paz. No meu caso, posso dizer em confissão que enquanto fui virgem pouco li, e foi quando desabou sobre mim o misterioso mundo do amor que a literatura surgiu em toda a sua plenitude terapêutica.
Entendamo-nos: a qualificação da cultura como maldição é quase tão antiga como a história e, longe de ser uma maldição, é apenas o resultado de um escritor poderoso, eruditíssimo e incrivelmente sedutor, chamado Jean-Jacques Rosseau. Preferiria que me caíssem todos os dentes da boca antes de pronunciar uma palavra que fosse contra esse meu mais querido mestre, mas a ideia da pulsão adolescente, como critério de avaliação da cultura, é um caminho perigoso que deu oportunidade a um sem número de imbecis, como Nuno Crato e Maria Filomena Mónica, para treslerem o problema da libertação da vida. A pulsão instintiva, como qualquer amador cientista sabe, é dos temas mais difíceis da psicologia do desenvolvimento, e apenas o poder retórico de Rosseau, um homem dilacerado pela incompreensão, foi capaz de transformar um estado adaptativo particular do desenvolvimento num sentido global para toda as etapas da vida, o que tem mantido o Ocidente debaixo de uma chuva de problemas.
 
As pulsões servem propósitos de cultura, e a cultura condiciona infinitamente o leque de pulsões e o seu significado. Até em William Wordsworth, muito bem lido por Elia Kazan, está já a incrível solução de que a vitória sobre a morte reside na recusa do envelhecimento. Mas essa psicologia do desenvolvimento, tão maldita como qualquer outra, nada diz sobre o grandioso artifício literário. É certo que tanto Kerouac como Salinger, como sobretudo Capote, sabiam que a questão se joga neste sagrado confronto, onde começa o terror e se acaba toda a esperança, para utilizar uma expressão de Dante: «não foi para morrer que nós nascemos», disse também o único crítico literário que Portugal produziu depois de Manuel de Faria e Sousa, no século XVII, e é nesta luta contra a morte que devemos procurar o critério de análise literária que pode enfim clarificar o sentido do que temos andado aqui a fazer, ganhando, e não perdendo tempo.
O triunfo da adolescência, e a vergonha de uma cultura literária densa, que nos caracteriza como civilização, tem qualquer coisa de profundamente imaturo: tal como o adolescente que sua em pesadelo com a hipótese dos pais e avós aparecerem na festa de liceu, vestidos com fazendas e xadrez, carregando a merenda, o vinho, o queijo e o pão, também nós suamos perante os antepassados que parecem enviados de um  mundo rural, lento e atrasado; mas cuidado, porque uma velhinha arisca pode ter mais a ensinar-nos do que uma adolescente apolínea de dentes brancos e pernas ágeis – Sidharta que o diga -  e os americanos, totalmente forjados na revolução setecentista do consumo do chá, do tabaco e do açucar - caiem que nem patinhos nas emoções mais fáceis, e julgando-se portadores do elixir da juventude, coitados, já vão a caminho da mumificação, julgando-se coroados para sempre pelas doces mãos das raparigas com grinaldas de flores: se queremos ser surpreendidos, abramos a porta ao inesperado, e recebamos os familiares da província – o passado – com um sorriso franco. Não nos envergonhemos dos que nos precederam só porque queremos começar de novo, só porque queremos esquecer depressa, talvez para recuperar a emoção de não saber o que vem a seguir: porque nós já sabemos o que vem a seguir, já que isso nos foi dito pelo menos um milhão de vezes, e das mais variadas formas: nascemos, debatemo-nos e morremos, e é só. Há uma tradição que vê a literatura como a arte de ensinar a morrer; eu vejo-a como a arte de recusar a morte; e atenção, porque vamos agora pisar terrenos perigosos. É favor colocar o capacete.
 A tecnologia, e à cabeça de toda a tecnologia a linguagem, constitui a extraordinária invenção que encontrámos para dominar o espaço e o tempo (os dois grandes guardiães dos portões da morte) e tal como um avião, ou um sistema informático, o mérito de um livro está na sua capacidade de vencer espaço e tempo: não precisamos de mais do que a Matemática do 9º ano para seguir caminho. 
Percebo a tua comparação entre os russos oitocentistas e os norte-americanos novecentistas mas essa analogia foi ferida por um desconhecimento parcial da história literária de cada uma das obras produzidas nesses contextos. A metáfora das guitarras elétricas foi bem esgalhada – é isso a literatura – mas relembro que não há grande artista sem domínio do solfejo, o que pode é existir um artista que não tenha frequentado a escola, o que é uma outra coisa e bem diferente. Gogol (veja-se como no Retrato põe no olhar de uma personagem a crítica da arte da criança autodidacta, impotente e decrépita, apreciada por «máquinas primitivas e não por homens») conhecia profundamente a história e a cultura da Europa, e Tchekov era um médico com uma erudição notável e Tolstoi pouco mais fez na vida do que ler filosofia; ao contrário dos norte-americanos que largaram os estudos confiando nas virtudes adolescentes da criatividade. Bem pelo contrário, os russos estavam mergulhados de corpo inteiro em Shakespeare, em Racine, nas literaturas clássicas, em problemas culturais profundos. Basta medirmos o cuidado com que as metáforas são trabalhadas nos russos e compararmos com aquela tentativa infeliz e primária de reproduzir o dialeto, os defeitos da linguagem que carateriza o folclore literário norte-americano depois de Melville.
 
Todos os grandes autores perceberam que as metáforas são um mecanismo para injetar nos textos o seu próprio cérebro, dotando o discurso de dispositivos contra o envelhecimento; a marca de roupa, de cigarros ou de carros, os nomes de políticos e artistas que ninguém conhecerá, as sensações conjunturais, os nomes de ruas onde o leitor nunca colocará o pé, tudo isso não passa de peso que nos puxa para o esquecimento, ao contrário do que julgam os escritores que se deixam capturar na insidiosa armadilha do sucesso passageiro – que é o mais belo e aterrador canto de sereia que produz o mundo na seu rodopiar infernal. O acontecimento, num futuro relativamente próximo, é talvez irrelevante, e ficará só o equilíbrio tenso dos opostos das mais belas metáforas. Mesmo Shakespeare, a quem agradavam os desfechos inesperados, respigou as suas histórias – relativamente simples na estrutura – nos livros mais populares do seu tempo. Aquele público de prostitutas e comerciantes sabia o desfecho de cor, mas ficava hipnotizado com a suspensão do tempo e do espaço que a linguagem produz.
 
A religião usurpou durante muito tempo o monopólio da imortalidade, transformando esse endurecimento perante a morte, que era o estoicismo, numa lamúria de seminaristas adolescentes problemáticos. S. Agostinho, que resfolegou entre mamas, e ancas e pernas, sabia que a única forma de convencer os humanos a embarcar na imortalidade, recusando os prazeres do corpo, era transformando o estoicismo numa religião de padres alienados por uma promessa esconsa de liberdade hologramática. Recusando os padres, os beat-niks mergulharam de olhos fechados no vício e, portanto, no precipício. Só há uma maneira de voltar atrás, sem recuperar a água suja da religião: a grande literatura, e depois dela a linguagem tecnológica, têm sido a única forma consistente de derrotar o medo e a religião, permitindo que construamos com as nossas próprias mãos a imortalidade. Quando Ovídio parecia condenado a desaparecer, 1500 anos depois, explode subitamente na pena de Shakespeare e revive, numa rede infinita de conexões. Estamos na pré-história de um novo e glorioso mundo, onde a tecnologia já esteve mais de longe da possibilidade de reproduzir o cérebro humano.
Deus sabe o que eu tenho sofrido – e feito sofrer – às mãos das mulheres, e a última coisa que gostaria de fazer era deixar ligada a minha pobre existência a uma desvalorização do desejo. Mas a reprodução sexual que tem marcado muito do que tem sido a vida da nossa mente, não é o único, nem talvez o mais eficiente mecanismo reprodutor que existe na natureza, como qualquer biólogo amador sabe. O sexo – e a procura de mamas – é uma atividade encantadora e prodigiosa, mas ler não o é menos, e tenho dúvidas sobre qual caracterize melhor a humanidade. Os Historiadores adoram politizar mas não vêm um palmo à frente do nariz: se a pílula e o preservativo libertaram a mulher, libertaram ainda mais o homem que viu reduzidos os filhos – como potenciais inimigos na partilha da atenção e da propriedade, como bem viu o em tantas outras coisas visionário, Leonardo da Vinci. Ao desligar o sexo da reprodução, a humanidade transformou o intercurso sexual, para utilizar o teu anglicismo, num instrumento de cultura que agora terá que lutar na arena com outros instrumentos de cultura, o que trará certamente algum desgaste do sexo como mecanismo instintivo no nosso equipamento reprodutor. Mas mantenham a calma, estas coisas demoram pelo menos muitos milhares de anos. Além do mais, não há problema, pois já temos uma arma: as grandes linguagens e a sua virtuosa utilização, e por isso vamos continuar a reproduzirmo-nos e a ter prazer de muitas outras formas.
Gostaria de terminar com uma invocação da maldição (julgo ter demonstrado que não é uma maldição) voraz do erudito radical. A Ilíada, talvez o mais belo livro alguma vez escrito, baseia-se numa escultura voraz da inteligência emocional, numa incrivelmente bela homenagem à nossa técnica linguística, e sobre esse pano de fundo – que é uma longa tapeçaria de associações que trazem vivos até nós, os olhos cansados e cegos de Homero - evolui um drama militar: apesar de cercados, os troianos merecem que se conte a sua história, e mesmo perante a vitória dos Gregos, Homero sabe que há qualquer coisa de grandioso na queda das muralhas de Troia. No escudo de Aquiles, que contribuirá para a morte de Heitor no canto XXII, está sintetizada a poesia e a tecnologia, todos os elementos da terra, o mar de seda e pétalas azuis, o céu pontilhado de fogo, a alegria dos casamentos entre noivos, e o antagonismo das comunidades humanas, as muralhas cercadas de uma cidade, e toda a desumanidade dos pastores, de flauta e tambor, chacinados pelos soldados a caminho do combate. É que Homero sabia que, independentemente da justiça das suas ações, todos ganhariam vida, e para sempre, por meio da sua mente, transportados por metáforas, pelo ritmo dos sucessos, pela elegância emocional das ações, e igualados nessa magnífica tapeçaria, Homero via o seu pobre mundo orgânico desaparecer com a sua dignificação dos vencidos e a humilhação dos poderosos, a destruição daquele que terá sido o mecanismo típico da evolução da nossa espécie. Homero deve ter visto, na escuridão da seu cérebro precocemente anoitecido, as cidades a arder em revoltas, os escravos em marcha, os escrivães e secretários cansados de humilhações a congeminar planos de revolta e mecanismos económicos, o disparar da vida dos mais fracos em todas as direções do planeta, o trabalhar dessa máquina que nos libertará do espaço e do tempo. Tal como diz Homero, «para que no futuro/ sejamos tema de canto para os homens ainda por nascer».
Mas não ainda, pois passou uma hora e agora, desgraçadamente, terei que correr para o comboio.

 

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Avô

Hoje, numa cama de um hospital de subúrbio, fechou os olhos.

Tchekov talvez seja melhor que Gogol, estou com dúvidas

Enquanto trincava uma finíssima fatia de queijo da ilha, meticulosamente cortada por um faca de serrilha e colocada lentamente entre duas fatias esquálidas de pão alentejano, eis que o emi-ciclo da República surgiu no ecrã mágico em todo o seu explendor, colorido pela franja esparsa do senhor parolo Ministro de Estado (avé) e das Finanças, Vítor Oliveira Salazar Gaspar. Portugal está agarrada pelos colhões, e de joelhos, o que talvez seja uma impossibilidade anatómica, mas não vou entrar nestes pormenores sórdidos da sociologia política.

Uma pessoa está diante do ecrã e no momento mais fácil para a oposição, em toda a história dos debates parlamentares, em mais de 2500 anos de história de reis ingleses e franceses decapitados, primeiros-ministros das Provínicias Unidas esfolados, e reis portugueses tardiamente baleados, o que sucede? Fazenda, Apolónia e Galamba puxam da sua erudição republicana, do seu vitalizante conhecimento da língua portuguesa, do seu incomparável faro estratégico, da sua gigantesca capacidade manipulatória do confronto político, da sua inabalável convicção nas causas, e disparam o original, o vertiginoso, o arrasador argumento do sofrimentos das pessoas.
Era preciso explicar que as pessoas são justamente o problema, ou não tivessem as pessoas eleito Pedro Passos Dias a Foder Portugal Coelho, com toda a tranquilidade do universo, tanto as pessoas que votaram nele, como as pessoas que nele não votaram por estarem na praia, no Continente, no A Tua Cara Não Me é Estranha, na cona da mãe delas ou flutuando numa jangada perigosamente sobre o pântano da pobreza e do desemprego, o que para efeitos do debate parlamentar é a mesma coisa, ou julgarão Fazenda, Apolónia e Galamba que as pessoas que não vão votar, e as que se afundam no Desemprego, às vezes são as mesmas, têm tempo para assistir curiosas e expectantes aos debates parlamentares? Pois se ardem em sofrimento desesperadas ou se trabalham de sol a sol como poderão assistir ao elogio épico da sua tragédia? Ou quererão Fazenda, Galamba, e Apolónia aparecer cinco segundos no jornal da noite a derramar lágrimas sobre o sofrimento? Há aqui qualquer coisa de sacerdotal, qualquer coisa típica dos grandes hípócritas. Embora os pecados da direita sejam mais graves, eu diria, com Marx e Jesus Cristo, que os hipócritas são especialmente exasperantes.


Todo o operariado, os trabalhadores, os pretos, os ciganos, os explorados que têm sido enrabados pela República Portuguesa e o seu Parlamento em toda a nossa longa história, o que espera não são lágrimas pelo seu sofrimento, pois conhecem bem esse sabor, o que espera todo o fraco e oprimido é justamente a derrota política do ignorante do Vítor Gaspar, mas desta vez com argumentos.
O ponto central da discussão sitou-se no conceito de expansão da procura. Segundo a besta Vítor Gaspar, 1,65 cm, 70 kg, a expansão articial (primeiro conceito a reter) da procura, hipertrofiou os sectores de serviços e de bens transaccionáveis nos últimos 20 anos. A economia foi distorcida (segundo conceito a reter) por rendas e margens de monopólio o que gerou um crescimento económico medíocre (o mais medíocre depois da 2ª Guerra Mundial, segundo (Vítr Salazar Gaspar) e apenas foi sustentado pelo sobre-endividamento. Ora a besta Galamba, 1,80 cm, 80 kg, apenas conseguiu indignar-se e apelidar a interpretação económica de Gaspar como fanática - um libelo que os fanáticos costumam receber como um elogio - integrando-o como membro de uma suposta escola, a neo-liberal. Caralhos me fodam, Galamba: o que é que eu disse aqui? Não vos proibi expressamente de utilizar esse conceito sem fazer o trabalho de casa? Ora, a interpretação económica de Gaspar não é fanática, é ignorante.

A rendas (free-rent) e os preços de monopólio de que Gaspar fala são, em primeiríssimo lugar, fornecidas pelo sistema político e qualquer economista neo-liberal sabujo defende que o sistema político é um instrumento que não deve atrofiar o funcionamento natural (ora aqui está) da sociedade. Gaspar, para que estás a mexer nesta merda? Deixa estar como está, foda-se, não venhas distorcer a evolução natural da curva da procura e reduz essa merda do lado da despesa, enviando para o olho da rua metade do teu gabinete, mais metade do gabinete de cada um dos ministérios, mais toda a despesa do Estado em Hospitais e Escolas Privadas, em Prisões cheias de pilha-galinhas que não fazem mal a uma mosca, mais os generais do exército e a corja de juízes que mama na teta da República. O Gary Becker não recomendou que se pagasse para não se cometerem crimes, que fica mais barato? Tem calma que eu sozinho (isto poderia dizer o Galamba) faço as contas que são necessárias, munido de lápis e caderno de capa preta, daqueles que o David Carreira diz na rádio que utilizou para escrever as suas canções e que são, diz ele, inspiradores.


Pouco depois, aparece o António Sala na televisão e diz: «cada vez que posso, compro ouro em moedas ou em barra». Belisquei-me. Foda-se, caralho, que é esta merda? Será o apocalipse? Onde estão os quatro cavaleiros e as suas espadas de fogo? Mas António Sala apressou-se a explicar: proteja-se do caos financeiro e compre ouro. Fui a correr para a cozinha e abri um garrafa de vinho do Porto.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

A ver se nos conseguimos entender antes do Passos Coelho e o Vítor Gaspar foderem esta merda toda

A todos os que revelam incompreensão na vertiginosa virtude das listas, tenho a infeliz missão de anunciar que é justamente esse o sinal de que não estão habilitados para compreender a profundidade das coisas que, por vezes - e só por vezes, porque somos só 5%, segundo o José Mário Bronco -, vos são ditas. A lista é o mais antigo e eficaz instrumento de conhecimento (listas de ovelhas, listas de exércitos, listas de receitas e despesas, listas de animais, listas de equações, listas de combinações binárias, listas de coisas que apreciamos no objeto amado, listas de tesouros que nunca mais tocaremos quando se nos acabar o tempo) e a todos os que, movidos por comovente ternura, revelam uma grande compreensão pela subjetividade da expressão individual, pela «voz» de cada autor (e relembro que o Calvino disse tudo sobre este mega embuste da invidualidade do autor num ensaio chamado «Cibernética e fantamas») ou pela qualidade diferenciada de cada sistema nervoso, a esses eu digo que cada autor escreve com uma lista de caracteres, e é da rigorosa ordenação desses símbolos, e da listagem emociada das palavras, e da hierarquização férrea das frases, e da sequenciação mórbida dos capítulos, e da megalómana sucessão de livros, que se faz aquilo que os senhores cépticos das listas e dos rankings julgam ser a flutuante relatividade da literatura e dos juízos estéticos que sobre ela podem ser produzidos.

 
Claro que valorizar listas de literatura bem feitas pode revelar-se um exercício fútil, sobretudo para aqueles que ainda não compreenderam que o tempo é o nosso recurso mais escasso, e que para qualquer mortal que encontre na literatura a salvação (Deus abençoe a Santíssima Trindade da solidão, Kafka, Proust e Pessoa) é absolutamente urgente levar a cabo uma hierarquização dos livros porque o tempo não pára, as leis da física aceleram, diante dos nosso cérebro cansado, o desgaste dos nossos (ó miséria) limitados olhos, e com a sombra da morte poisada sobre a nossa frágil existência, só podemos dizer, como o filósofo apologizado por Platão, ai de nós, os que queremos ainda saber antes de nos ser oferecida uma taça transbordante de veneno. Aprendam a viver com as limitações humanas que é o primeiro passo para que as lágrimas da plenitude se derramem no vosso rosto em perene oração pela dignidade da criatura humana (uma abraço ao paneleiro do senhor cardeal-patriarca).


Vamos ao que interessa. Porque é que ninguém (à excepção da entusiasmante esposa russa e do labrego medíocre do John Updike) compreendeu Nabokov? Precisamente por que o monumentalmente magistral escritor russo (e só vagamente associado à galáxia anglo-saxónica pelos analfabetos e os jornalistas) pertence ao minúsculo conjunto dos 5% que compreendem a profundidade das merdas. Devo dizer, antes de prosseguir, que uma das mais traumáticas razões das incompreensões mútuas que a todos nos mergulham em perdas de tempo (que poderiam ser eficazmente poupadas por listas apropriadas) decorrem daquilo a que Snow apelidou as duas culturas. A nossa sensibilidade está fundada numa especialização que é, de certa forma - e como explicou outro grande escritor de ciência Herbert Simon - um mecanismo de resolução de problemas que apenas conduz a novos problemas. Ora, Nabokov é provavelmente o único exemplo no século da bomba atómica, e da emancipação da arte como paneleirice, a caminhar no perigoso arame que sobrevoa as duas culturas: a arte e a ciência. Falar de uma ausência de calor humano em Nabokov, ou de falta de compreensão pela tragédia humana, e os seus pecadilhos e misérias, é não compreender um homem que fez da suspensão das lágrimas o mais comovente e apaixonado hino ao afecto humano, que ensaiou a mais comovente e humanizadora leitura da Metamorfose de Kafka - um texto julgado pelas pessoas que não gostam de listas como bizarro, frio e revelador do absurdo da vida, quando é sobretudo uma sensível, clara e compreensível fábula, bebida em Ovídio - provavelmente o maior de todos os tempos (mas voltarei ao tema) - onde se derramam todas as nossas belas qualidades.
 
 
Claro que parte da incompreensão a propósito de Nabokov se explica a partir dos mesmos princípios com que facilmente condenamos Dostoievsky. Em primeiro lugar, é este o momento para vestir a toga, louvar a filosofia escolástica, dar um pontapé no cu de Passos Coelho e Vítor Gaspar (que a esta hora deve estar a tentar demonstrar que sendo uma merda de político é um grande académico) e fazer um ponto prévio: para fazer boas listas é preciso conhecer as propriedades dos elementos listados.
 
 
Normalmente, quantas pessoas conhecem a fundo Dostoievsky e Nabokov? Muito poucas, uma vez que foram autores que escreveram abundantemente. Nabokov escreveu um livro intitulado Ada ou ardor que é uma obra prima até num mundo que fosse esteticamente governado pelos punhos de aço e rendas do walter hugo mãe. Que dizer de Glória? Que dizer de Pnin? Poderá um leitor atento de Pnin afirmar que não há compreensão pela fraqueza humana, que não há humildade, que não há consciência das trágicas fronteiras da inteligência e dos perturbadores limites da consciência? Quando comparado com Dostoievsky, Nabokov vence em toda a linha, até nas coisas menos conseguidas. O Jogador é um livro vertiginoso, conseguido, embora lhe falte, aqui e ali, ornamento, dissimulação, mascarada, enfim, vida, e se o colaborador do Correio da Manhã de S. Petersburgo tivesse seguido esse caminho teria provalmente chegado a um lugar bem diferente. Acontece que escrever um livro naquele estado semi-divino de pré-engate a uma gaja é um acontecimento ainda com mais baixa taxa de ocorrência do que um bronco como Mário Soares entrar para a história da Democracia Ocidental. Regra geral, os livros de Dostoievsky estão repletos de coisas que não servem para nada, sentimentos de comoção ao nível do Bispo emérito de Leiria-Fátima, elementos mórbidos, descrições, reparos, anotações que servem para embalar um leitor de baixa ou média cultura. Claro que sendo um indivíduo de talento, não escreveu maus livros (reparem que lhe atribuo um 5º lugar) mas compará-lo a Nabokov? Valha-nos a Virgem Santíssima.
 
 
Sobre Melville: é que nem sequer discuto o problema, de tão claro que é, a menos que o Tolan consiga sustentar consistentemente que há aqui um problema.
 

 
 

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Não se preocupem que ninguém lê livros

É comum entre os literatos tentarem impressionar o auditório mais ignorante com um velhíssimo truque de feira que consiste num pobre exercício de classificação das pessoas em termos de votos para melhor escritor russo de todos os tempos. Apesar de nem o tolinho do George Steiner ter escapado a esta parvoíce, a inocente comédia transforma-se perigosamente em tragédia quando os literatos apresentam os dois líderes dos sub-conjuntos: Tolstoi e Dostoievsky. Ora, toda a gente sabe que o melhor escritor russo de todos os tempos foi o ucraniano Nicolau Gogol, seguido de perto pelo igualmente ucraniano, Anton Tchekov, apresentando-se em terceiro lucar, mas a distância considerável, e muito cansado pela sua pesada linguagem e excessiva deambulação pela teoria da produção agrícola de finais do século XIX, o conde Tolstoi, logo vigiado de perto por esse velhinho maluco apreciador de pitas, Vladimir Nabokov, e só então, num nada honroso 5º lugar, esbaforido e emporcalhado por um cheiro a esgoto e a lodaçal, o jornalista chato que chegou a trabalhar no Correio da Manhã de S. Petersburgo, Dostoievsky.



A escrita de Gogol resiste inacreditavelmente à poeira do tempo, e troça mesmo do futuro, o que deveria consistir um problema intrigante para os físicos, que em vez de andarem a bricar com aquela coisa dos túneis, deviam era pegar em papel e lápis, e tentar compreender as merdas. Na verdade, «Diário de um Louco» é a maior síntese de controlo técnico alguma vez produzida por mão humana: do controlo narrativo, passando pela torrente de consciência, até à vertigem do controlo impessoal da política como máquina, está lá tudo, até o que ainda não foi experienciado pela nossa consciência a caminho da doença crónica. Quanto a Tchekov, «Enfermaria nº 6», «O monge negro» e «Casa com Mezanin», são três contos que juntos não chegam às 200 páginas mas que fazem, de uma penada, a  crónica da medicina como auto-ilusão, a crítica da filosofia como pesadelo humano, e denúncia da arte como prisão afetiva e asfixia inútil, revelando, de caminho, três vidas imoladas ao absurdo da beleza. Não vos canso mais.

 
 
O que queria mesmo dizer, é que, no meu caso, só costumo dividir as pessoas entre as que julgam que Don Delillo, Philip Roth, Paul Aster e Jonathan Frazen são grandes escritores, e as que sabem que nenhuma destas pessoas escreveu uma só página que fosse que se revele digna de nela limparmos o cu, uma vez que um escritor se distingue, se não por outras coisas mais higiénicas, ao menos pela consciência de que uma página se sustenta, não pela relação com a realidade, o tempo, ou - Maria Santíssima nos valha - os acontecimentos -, mas sim pelo engenho metafórico, a elegância, a velocidade, e a quantidade de emoção sintetizada em raciocínio, coisas que se devem extrair sem esforço, de cada parágrafo, e coisas que de modo algum se encontram nas fastidiosas obras dos quatro só por acaso norte-americanos. Depois de Melville, a vida ficou díficil, eu sei, mas tenham paciência, o tempo é um recurso escasso, e já vai sendo tempo de América fazer alguma coisa pela causa.


A verdade é que nós, os europeus, que temos obrigações morais nesta matéria, não estamos a ajudar, e temos deixado que as Alexandras Lucas Coelho deste mundo dirijam as críticas jornalísticas de literatura e convençam as pobres pessoas, que na Europa ainda compram livros baseadas em opiniões especializadas, a consumir recursos nesses pobres tristes retratos de pessoas cultas com sentimentos que passam 400 páginas, se for preciso, sem o mais pequeno estremecimento, sem a mais pequena centelha, sem fornecer o mais pequeno indício que  nos permita distinguir os 4 citados norte-americanos de um qualquer jornalista cultural fracassado.

 
 
Deixo-vos com uma curta declaração que, pelo meu profundo e grande amor à escola, não posso deixar de fazer ao país: estão absolutamente proibidos (em especial os caralhos de esquerda, mas também os filhos da puta de direita) mas absolutamente proibidos, de voltar a usar a expressão neo-liberal, sem pelo menos ter lido a bibliografia básica, A Theory of the Consumption Function. Ainda por cima, seus merdosos, nem vos assiste a desculpa do preço, pois o texto está comunistamente disponível na internet, mas para isso terão que largar o caralho que vos foda do Facebook. É que isto não é só neoliberalismo para aqui, e neo-liberalismo para acolá, e o Chile do Pinochet nos anos Setenta, e o paneleiro do Passos Coelho não sei o quê, e o Estado Social não sei que mais, que isto de ser o parasita preguiçoso do Mário Soares, só acontece uma vez na história de uma República. Nada disso, no vosso caso é preciso fazer o trabalho de casa, seus caralhos. É preciso saber que o Milton Friedman era descendente de Arménios, e que casou com uma mulher baixinha mas muito viva, e que é um escritor pelo menos ao nível de Darwin e Freud, e que o seu melhor amigo era outro economista igualmente brilhante como escritor, mas menos irritantemente pregador, chamado George Stigler (com quem Friedman esgalhou as suas lições sobre o sistema de preços) e que escreveu um magnífico artigo - Smith's Travels on the Ship of State - onde se demonstra por que é que os políticos respondem a interesses tão objetivamente porcos como qualquer Presidente da Sonae, e onde se pode compreender com profunda tranquilidade por que razão o Pedro Passos Coelho e o Vítor Gaspar são a merda que são, e fazem a merda que fazem, aproveitando para saudar o irreverente Daniel Oliveira  e o irrequieto Sérgio Lavos, recomendando aos dois, en passant, que enfiem, um de cada vez, o supracitado artigo pelo cu acima, isto no caso de serem capazes.


 

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Pode um broche ao Governo constituir um problema técnico-profissional?

Não sei se tenho insistido aqui o suficiente com o filho da puta do Pedro Lomba, uma vez que o Senhor Professor resolveu explicitar hoje mesmo, publicamente, num jornal de referência que afinal o ensino técnico-profissionalizante-mecânico-pragmático é que vai salvar as futuras gerações do desemprego e das ilusões da qualificaçao universitária? Isso mesmo, o caríssimo leitor ainda não está maluquinho, embora pouco falte se continuar a ler este blogue. Segundo o Evangelho de S. Filho da Puta do Pedro Lomba, o problema de Portugal foi ter semeado o solo pátrio, e de uma ponta à outra, com «cursos de brincadeira», deixando cair a consistente, sólida e fundamental aprendizagem de «ofícios»; pasme-se, de ofícios, um conceito que não víamos introduzido no debate público desde que um velhinho desdentado de Alhos Vedros, vindo da Idade Média a empurrar a sua banquinha de sapateiro, telefonou entusiasmado para o programa Opinião Pública da Sic Notícias e disse: «o que é preciso, caralho, é ensinar aos jovens um ofício». É fantasticamente notável que o Pedro Lomba, que é uma só pessoa, apesar de munida com a potência intelectual de 50 cabeças, incorra, num tão curto espaço de folha de jornal, num tão grande novelo de contradições, numa tão grande cambalhota psico-programática, que seriam precisos 100 anos de uma paciente Penélope para nos desenvencilharmos das suas pegajosas palavras.


1. É extraordinário, e inolvidávelmente comovente, que um filho da puta que ensina numa Universidade no âmbito de uma licenciatura em Direito, isto é, que ganha a vida no contexto de uma cultura da perversão, da confusão mental e da mistificação social (veja-se, a título de exemplo, a sua crónica de segunda-feira, sobre a importância dos factos históricos e políticos para a manutenção da liberdade, as duas únicas áreas do saber onde curiosamente, e para a manutenção da liberdade, não pode haver factos) passe uma crónica inteira a elogiar o ensino técnico-profissional, indignado pelas acusações que, movidas a impulsos de sinistra igualdade, se colaram a essa nobre instituição escolar - as escolas de apertar parafusos - quando até a Alemanha (um bastião da igualdade, e da produção de fornos crematórios, digo eu) cultiva com esmero e brilho a qualificação profissionalizante. E que faz o Pedro Lomba para sustentar empiricamente a sua tese? Dá o exemplo de um ensaista, licenciado em Filosofia pela Universidade de Chicago, que abriu uma oficina de reparação de motas, algures na terra da liberdade, no solo da mais vanguardista indústria pornográfica, uma actividade técnico-profissional que espero encarecidamente não seja esquecida pelos ambiciosos planos de revitalização do mercado de trabalho do ex-trotskista-leninista Nuno Crato.


Foda-se, Foda-se, Foda-se. Três vezes Foda-se. Então ó Pedro Lomba, diz-me lá, se és capaz, por que maravihas da imprevisibilidade pedagógica o tal gajo não foi aprender a concertar motas no caralho da escola técnico-profissional lá da terra dele? Eu sei a resposta e vou ajudar-te: é porque dessa forma estaria enfiado numa oficina da periferia de Boston ou numa floresta do Delaware, rodeado de mexicanos, talibans e gasolineiros de piça aguçada e bigode farto, e nos intervalos de umas punhetas nos lavabos da oficina, poderia até talvez encher os bolsos sabujos e oleados das calças com notas de 50 dólares, mas verdade, verdadinha, é que tu jamais em tempo algum chegarias a fazer a mais pequena das ideias acerca das ideias que circulam pelos circuitos neuronais dessa criatura, porque desse modo, a criatura, ó cabrão do caralho, não teria aprendido a exprimir conceitos e a articular ideias, pois apesar do seu gosto de sujar as aposto que imaculadas mãos nas entranhas das máquinas, o facto é que não foi de ir aprender às espectaculares escolas técnico-profissionais os segredos da mecânica aquilo de que o teu edificante exemplo se muniu, mas sim do mais inútil dos inúteis dos inutilizantes dos saberes universitários: o amor da pura e sagradamente etérea sabedoria. Ouviste, labrego do caralho?


2. Nunca será demais contemplar, e com um larguíssimo sorriso nos lábios, o facto de serem sempre universitários parasitas, que mal sabem apertar um parafuso e têm aquelas mãos terminadas em dedos finos incrivelmente imaculados de pelos, os primeiros a conceber sinfonias de aclamação aos trabalhos manuais, ao ensino técnico-profissional, às virtudes dos ofícios, ao enfileiramento das massas para o lugar a que pertencem. Que têm os cursos de merda, que para aí há às toneladas, entre eles o Direito, a ver com a necessidade de profissões técnicas? Porque não pode um Engenheiro profissionalizar-se como canalizador ou electricista? Para que vai o Estado meter-se na segmentação profissional da iniciativa empresarial? Vossa excelência não defende menos Estado?  As empresas que formem os seus técnicos. À República só cabe formar cidadãos: o resto é com a iniciativa privada. E pró caralho, reverendíssimos senhores doutores, em especial tu, Pedro Lomba.

Para um comentário civilizado e inteligente sobre o mesmo tema, e com o qual me deparei somente depois de ter escrito este belo post, carregue educadamente na seguinte expressão: litigância de má-fé

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Os ingleses dizem muitas coisas

"The man of culture is in politics," cries Mr. Frederic Harrison, "one of the poorest mortals alive!" Mr. Frederic Harrison wants to be doing business, and he complains that the man of culture stops him with a "turn for small fault-finding, love of selfish ease, and indecision in action." Of what use is culture, he asks, except for "a critic of new books or a professor of belles lettres?" Why, it is of use because, in presence of the fierce exasperation which breathes, or rather, I may say, hisses, through the whole production in which Mr. Frederic Harrison [47] asks that question, it reminds us that the perfection of human nature is sweetness and light. It is of use because, like religion,- -that other effort after perfection,—it testifies that, where bitter envying and strife are, there is confusion and every evil work.
The pursuit of perfection, then, is the pursuit of sweetness and light. He who works for sweetness works in the end for light also; he who works for light works in the end for sweetness also. But he who works for sweetness and light united, works to make reason and the will of God prevail. He who works for machinery, he who works for hatred, works only for confusion. Culture looks beyond machinery, culture hates hatred; culture has but one great passion, the passion for sweetness and light.


Para quem ainda não sabe, ficar a saber

Quando um dia rebocarem aquele hino ao verdete intitulado estátua de Fernando Pessoa no Chiado, onde as nórdicas se esfregam gloriosas de ombros nus e sorriso científico, e os brasileiros, sem distinção de sexo ou idade, fotografam a origem dos seus cérebros como se estivessem a posar para uma galeria de aberrações antropológicas, será claro para todo o Ocidente (e excluo o Oriente porque tenho noção dos meus limites) que todo o propósito da minha existência foi por mim erigido como esforço de resposta a um pergunta simples e clara: haverá alguma coisa que impeça um indivíduo de se realizar contra as tendências do ambiente sabendo nós que existe uma continuidade trágica entre a consciência e as coisas que a rodeiam?


As regras da eficácia, pelo menos de acordo com o Jorge Jesus e os taxistas de Massamá, ditam que as pessoas é que sabem o que lhes agrada aos excelentíssimos cornos, e quem sou eu para agora desatar a educar as pessoas, mas lembro que do ponto de vista da eficácia, e sobretudo numa perspectiva de engenheiro - que é aquela que a todos nos governa (para o bem e para o mal), é preciso esclarecer a partir de que teoremas físico-matemáticos deduzimos nós o conceito de eficácia. A fazer fé no ignorante e inútil do Steve Jobs, parece que as pessoas não sabem o que querem até «nós» o mostrármos. Tenho como projeto realizar a baixo custo um hino à minha própria educação, permitindo às massas conhecerem a minha nobre, profunda e incomparável mente, mas sem considerar por um só minuto que seja as ideias das massas, ou a ideia que umas pessoas que estudaram em Inglaterra fazem passar por ideias das massas, uma vez que as massas, na medida em que estão pelo menos tão desorientadas como eu, mais não são do que um conjunto de interrogações armadilhadas, pelo que o mais eficaz é mostrar o que temos, e «uns aos outros», como diria Jesus Cristo (e atenção que é segunda vez que cito Jesus Cristo no espaço de uma semana, mas garanto que está tudo bem). Parece que até o Livro dos Provérbios (29:18) regista que onde não existe uma visão, as pessoas padecem.

A sociedade aberta e os meus inimigos

Soube há pouco num almoço que às vezes também sou tratado na minha ausência por pseudo-intelectual, e reparem que eu nem sequer faço a mais pequena ideia de quem seja o Morrissey, um merdas cantor qualquer que os pseudo-intelectuais postam ininterruptamente nos seus blogues sobre a amizade. Eu, reparem, que nem sequer escrevo nos jornais e nutro até algum respeito por apresentadores de televisão. Acontece que as pessoas não me perdoam o facto de eu gostar de ler, aspeto (o autor deste post respeita o acordo ortográfico) que me tem penalizado ao longo desta magnífica mas curta jornada, tanto em questões de paridade escolar, onde o prémio da ignorância livresca é desde há muito altamente incentivador da boçalidade a que as pessoas chamam humildade, como em questões de auto-análise e escrutínio mental, uma vez que o corpo é o primeiro inimigo da cabeça, e sobre isto vão consultar o Aristóteles, de preferência em português do Brasil (o autor deste post respeita o acordo ortográfico).
 
O que eu tenho consumido de horas a cravar longos punhais prateados com cabo de marfim no lombo das minhas mais secretas ambições, o que eu tenho consumido de olhos em livros e blogues de pessoas consagradas, espumando pela boca de desejo, sedento por reconhecimento, o que eu tenho consumido, por outro lado, de moderação dos instintos e de derrota realmente interiorizada, mas realmente interiorizada, notem bem, tão interiorizada como aqueles caracóis que ficam eternos e plurimilenares, expostos em veludo negro mal iluminado em corredores de museus de história natural, encavalitados na sua própria essência, afundados dentro de rochas imemoriais, fechados sobre o tempo como um segredo terrível e vergonhoso.
 
 O que eu tenho tentado avisar as pessoas sobre a inutilidade da cor dos azulejos da cozinha. Porém, talvez isso seja, na verdade, muito relevante, mesmo a marca da pasta de dentes terá a sua primazia num mundo de dentistas brasileiras (e atenção que o autor deste post respeita o acordo ortográfico), e eu tenha estado enganado todo este tempo. Ma não é isso que distingue os génios? Uma profunda convição sobre a sua inutilidade, sobre a sua incapacidade de interpretar o mundo, ou dotar a vida de um sentido? mas convém que o façam com a mestria suficiente para que se note que não o estão a dizer, e nesse aspeto tenho falhado em toda a linha, dando a cada pirueta encarpada que o meu salto desenha no seu desenvolvimento, um grito revelador da natureza ambiciosa do salto. Não pode ser, não nos toleram tentativas de levantar os pés do chão. Temos que ser manhosos, profundos, inspiradores, secretos, impiedosos, ignorantes, silenciosos, temos que ser humilhantemente labregos, consensuais, temos que ser humanos, normais até às lágrimas, temos que ser pessoas, caralho. Só posso dizer que a mim, muito difícil tem sido sê-lo.