segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Progressista - escrito como quiserem! Ricardo Araújo Pereira e os perigosos inimigos invisíveis.

Ricardo Araújo Pereira (RAP) é um homem inteligente, deixemos desde já estabelecido este ponto, como serviço aos leitores que, militantes na causa das vitórias garantidas, já afiam os dentes na áspera lima das suas mórbidas expectativas, e partem do princípio que vamos aqui atacar o talento humorístico ou a capacidade estratégica do maior humorista português dos últimos, digamos, vinte anos. Contudo, caros camaradas, a inteligência é uma propriedade fisiológica, não um método infalível. E sendo uma propriedade fisiológica, tendo em conta o que julgamos conhecer quanto à estrutura evolutiva do nosso ecossistema, enfrenta crescentes desafios, consoante o ambiente se torna aparentemente mais dócil para o indivíduo na sua progressão, íamos a dizer labuta, diária. O que hoje constitui uma deliciosa facilidade, pode revelar-se a horrorosa tragédia do amanhã: eis a grande lição de mais de dois mil e quinhentos anos de literatura estóica. Acontece, todavia, aos melhores, o serem amolecidos pela aclamação precoce. Creio que foi (e é) esse o caso de RAP no seu último livro, Reaccionário com Dois Cês, Rabugices sobre os Novos Puritanos e Outros Agelastas, Tinta da China.

Para poupar os leitores a uma análise fastidiosa, vou abordar o texto impresso na badana do livro, até pelo poder simbólico que representa na economia do sistema editorial.



No texto que serve de aperitivo ao perspicaz livro de compilação das suas Crónicas, RAP constrói uma situação absurda, em que pretende revelar a pouca inteligência dos utilizadores das redes sociais. Vejam bem, falamos aqui dos utilizadores das redes sociais, isto é, nós mesmos, que somos tolinhos e não atingimos o significado oculto das nossas acções populistas, demagógicas e pouco esclarecidas. Utilizadores que, na sua boçal compreensão das coisas, sujeitam os corajosos, sensíveis e espectaculares produtores de conteúdos de valor cultural reconhecidamente excelente, a um rol de interpretações delirantes. E que faz RAP para erigir esta crítica sobre o delírio da internet? Resolve teletransportar Shakespeare para os nossos dias, submetendo-o à violência bárbara e obscurantista de uma alegada italiana farmacêutica, natural de Verona e utilizadora do Facebook. Percebemos perfeitamente onde RAP pretende chegar e estamos solidários com a sua luta. E isto apesar de por vezes cometermos o nosso imperdoável pecado, a saber, sermos detentores de uma opinião crítica sobre a realidade, baseada em, digamos, valores «politicamente correctos».

Acontece que o absurdo da situação se revela relativamente pouco absurdo, na nossa modestíssima opinião. E quase temos vergonha de o dizer, caros leitores, para não melindrarmos a liberdade de expressão de ninguém.

Sobre o facto de a simpática farmacêutica italiana de Verona - imaginada por RAP - ter ficado indignada com a facilidade de aquisição do veneno, comprado por Romeu a um pobre Boticário, deve assinalar-se que o próprio Shakespeare foi bastante cuidadoso com esse aspecto. Podemos dizer, com a coragem que nos caracteriza, que o poeta e autor de Romeu e Julieta chegou mesmo a ser, digamos, «politicamente correcto». Pois deixa bem claro no texto da peça, pela própria boca do Boticário, como a lei de Mântua punia com a morte quem vendesse ao público aquele veneno letal. Eram cuidadosos os cidadãos de Mântua. E vergonhosamente, politicamente correctos. Se Shakesperare fosse utilizador das redes sociais, talvez, ele mesmo, considerasse uma infâmia não se ter esclarecido o público sobre esse curioso aspecto.

Que a página do Globe Theatre fosse invadida por centenas de mensagens, também não nos parece uma situação insólita. Na época tinham métodos bastante mais eficazes para expressar o politicamente correcto, nomeadamente, o encerramento do teatro, a prisão dos autores e dos actores, ou simplesmente a monumental vaia, a interrupção da peça, ou o civilizado pontapé directamente aplicado ao rabo dos artistas.

Sobre a mensagem negativa de Romeu e Julieta, quanto ao universo problemático dos jovens adolescentes, que a preocupada mãe de Verona e farmacêutica - imaginada por RAP - julgou necessário noticiar nas redes sociais, para aviso dos futuros amantes, julgamos que, sobretudo neste aspecto, não andará a bela italiana de Verona longe das intenções de Shakespeare ao escrever a peça.

Antes de mais, um ponto de ordem. Se estamos realmente na posse das nossas faculdades mentais (o que não é garantido) julgamos ter compreendido o sentido da ironia do nosso inteligente humorista, RAP. A histeria crítica do nosso tempo - a que alguns chamam o integrismo ou puritanismo do «politicamente correto» - se existisse na época do bardo inglês, teria inibido o poder criativo de Shakespeare. Teria implicado com os poderes artísticos do maior poeta de todos os tempos. Dito de outro modo, se Shakespeare existisse hoje, talvez a sua gloriosa imaginação estivesse (esteja) a ser reprimida por esses infames inquisidores do «politicamente correcto».

Contudo, sou forçado a dizer (embaraçosamente) que Romeu e Julieta é - precisamente - uma peça sobre o «politicamente correcto» e não precisamos de ser escravos da preocupação com as redes sociais para interpretar cabalmente o assunto.

A peça começa com um edital ou a publicação de uma Lei - como muitas das peças de Shakespeare - na tentativa de estabelecer a ordem, perante o desconcerto do mundo. O que revela, desde logo, uma certa ansiedade com a repressão dos comportamentos. Ou seja, Shakespeare era um homem preocupado com o «politicamente correcto». Qualquer pessoa que participasse em distúrbios ou confrontos públicos na cidade de Verona, seria punida com a morte. Shakespeare estaria preocupado com a escalada de violência na sociedade em que vivia, e fez decorrer a acção sobre o absurdo irracional de todos aqueles que, desobedecendo à lei, consideravam os interesses de família, direito e propriedade, superiores ao amor  selvagem entre duas mentes rebeldes. Ou muito me engano, ou isto soa um bocado «politicamente correcto». Mas estamos contigo, RAP, e não nos deixaremos perturbar.

Resultado de imagem para Claire Danes juliet

Vamos deixar de lado o facto de Shakespeare ter escrito Titus Andronicus (1592-1594) antes de Romeu e Julieta (1594-1596) pois são pormenores eruditos que não interessam à luta pela liberdade. Com efeito, são muitos os temas que na Lamentável Tragédia de Romeu e Julieta, poderiam ter sensibilizado RAP a construir uma reflexão sobre o mundo em que vivemos. O ataque à luta feudal entre duas poderosas famílias - considerando que as dinastias familiares e os seus fetiches de poder (que o diga a Sonae) já não serviam como fundamento da realidade, numa sociedade cada vez mais entusiasmada com o comércio e os direitos dos indivíduos. Mas RAP não quis abordar o mundo diurno da lei, dos livros e da autoridade, com as suas regras de conduta rígidas, crescendo ameaçador sobre os sonhos de prazer da juventude. Nem mesmo a forma como o velho Capuleto ameaça a sua filha, se esta continuasse a rejeitar a autoridade do pai e a recusar o casamento com Paris, arriscando Julieta, nada mais, nada menos do que a expulsão de casa, da protecção e do conforto, com a multiplicadora violência que esta ameaça lançava sobre uma jovem mulher. Curiosamente, caros leitores (e contra mim falo, de lágrimas nos olhos) Romeu e Julieta - tal como o debate que hoje ameaça engolir-nos - é sobre o direito das mulheres exercerem a sua justa parte num mundo governado por homens. Homens com poder, quase sempre, com alguma tendência para serem parvos e abrutalhados.

Photo of Claire Danes from Romeo + Juliet (1996)

Em todo caso, Shakespeare - e lamento desiludir RAP - está bastante preocupado com as mensagens negativas em torno dos adolescentes, tal como a farmacêutica de Verona, utilizadora do Facebook. Se estivermos atentos à peça, veremos que a criada de Julieta faz menção de recordar - irónica e provocadoramente - como tinha perdido a virgindade aos doze anos. Na verdade, Julieta vê-se confrontada com uma decisão de casar com um homem indesejado, ainda antes de fazer catorze anos. Se RAP estivesse um pouco mais atento (embora compreendamos que a sua luta é exigente e monopolizadora) teria percebido que esse é precisamente o tema central da peça.

Dirão os corajosos defensores da liberdade contra os esbirros do politicamente correcto: «a ironia de RAP pretende apenas denunciar como a deriva inquisitorial dos bons costumes corre o risco de inibir ou reprimir, ou até impedir, a expressão artística no seu mais elevado nível de realização». Certo, estaremos todos de acordo, embora, do meu ponto de vista, os critérios que permitem uma elevada realização artística dificilmente podem ser relacionados com o aumento ou a diminuição da liberdade de expressão, com muita pena o digo.

Ricardo, se me está a ouvir, deixa-me dizer-te: Romeu e Julieta é uma peça sobre o conflito de gerações e a incapacidade de compreender os riscos e a beleza das paixões (aparentemente irracionais) dos novos tempos e dos seus mais frágeis filhos, os mais jovens. A geração mais velha, presa nos seus livros, na sua sabedoria arcaica (e muitas vezes elitista) nos seus direitos de propriedade, nos seus feudos, revela-se quase sempre incapaz de compreender a nova realidade e as suas circunstâncias, a começar por novas formas de amor (pois é, pois é).

leonardo dicaprio baz luhrman GIF

claire danes dicaprio GIF

leonardo dicaprio best films ever GIF

Imagem relacionada

leonardo dicaprio GIF

claire danes dicaprio GIF
Romeo + Juliet (1996) de Baz Luhrmann com Claire Danes (Julieta) e Leonardo DiCaprio (Romeu). 

Compreendemos que a manutenção de poder dos meios de comunicação de massas seja um tema caro a quem ganha a vida nos meios de comunicação de massas e teme a boçalidade da multidão. Shakespeare também viveu essa angústia, mas revelou-se progressista, abraçou o mercado do teatro isabelino, onde a concorrência era forte e o público soberano, por isso o bardo se apressa a dizer, logo no Prólogo de Romeu e Julieta: «se quiserem ouvir com benévola atenção, o nosso zelo há-de esforçar-se por corrigir o que na peça acharem digno de emenda». Inaceitável contemporização diante do público. Mas perdoemos Shakespeare, pois era um homem «politicamente correcto».

Compreendemos que um humorista como RAP não possa perder tempo com estas ninharias, ocupado a enfrentar multidões perigosas furiosamente teclando nos seus computadores, multidões que vandalizam com horrorosa cacofonia as páginas de Facebook das editoras, dos jornais de referência e das televisões e chegam mesmo a fazer ameaças perturbadoras como: «isso que o senhor disse é machismo». Quem pode resistir a ataque tão violento como este? Quem pode ficar impassível quando os valores da liberdade são atacados por mulheres sensíveis e alfabetizadas?

Compreendemos que RAP tenha de enfrentar irascíveis cardeais munidos com caldeiras de água benta, e donas de casa católicas, frequentadoras dos cursos espirituais dos jesuítas, e perigosas associações de pais de liceus prestigiados, e ameaçadoras advogadas de associações de protecção às vítimas, e selváticas e perigosas jornalistas do Diário de Notícias, e membros de coros alentejanos, e agremiações defensoras da moral pública, com o seu tentacular poder, e ferozes membros da associação dos amigos dos animais, e militantes de grupos activistas defensores da macrobiótica. O número de oponentes cresce todos os dias. Os idosos e reformados já se posicionam para atacar a liberdade e defender os bons costumes. Todos os braços são poucos para travar esta perigosa luta. O inimigo multiplica as suas forças, gerando milhares de pequenos balões de mensagens nas letais caixas de comentários.

Felizmente, temos homens como RAP. Homens que nunca deixarão de lutar em favor da liberdade, apesar de apenas podermos ouvir a sua voz nos frágeis e ameaçados espaços de informação como a TVI24, a Sport TV, a TSF, a Visão ou a Rádio Comercial. Apesar de frágeis, continuarão o seu corajoso trabalho. Não deixarão pisar a dignidade ortográfica da língua.

Guerras, injustiças, desigualdade económica, poder mediático das televisões e dos grandes grupos de comunicação, violências sobre as mulheres, racismo? Que são todas essas ninharias perante a escandalosa supressão de uma consoante surda?

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

A Estranha Ordem das Coisas e a bizarra preguiça intelectual de António Damásio

A ciência está a entrar na sua fase totalitária - o que é uma pena, mas talvez seja uma fase inevitável de qualquer projeto cultural agressivo - e o novo livro de António Damásio, A Estranha Ordem das Coisas, aí está para o provar. 60% do livro (o que não consiste em descrições seguras da biologia evolutiva do cérebro) é formado por banalidades, lugares comuns (e algumas imprecisões) a propósito das culturas humanas. Não tenho por hábito diabolizar a ciência, antes pelo contrário, prefiro diabolizar as Humanidades, mas desta vez julgo que atingimos a fase imperialista do cientismo.

É como se o Boaventura Sousa Santos publicasse um livro resumindo - de forma tosca, rápida e atrapalhada - os últimos 50 anos de publicações nas neurociências, mas omitindo ou lendo apressada e erradamente o contributo dos principais cientistas, e perante esse facto insólito, toda a gente baixasse reverentemente a cabeça. Não pretendo policiar o direito dos neurocientistas dizerem banalidades sobre a cultura. Eu próprio vivo da publicação de algumas banalidades sobre todos os assuntos disponíveis, incluindo a pesca do atum. Já me parece mais preocupante que ninguém até ao momento (que eu saiba) - nem sequer os antropólogos - tenha reagido publicamente a um livro cuja ambição não me parece minimamente adequada às capacidades reveladas pelo autor ao longo do livro. Deixo apenas um exemplo.

Uma parte do que é apresentado como novidade - a precedência (ou pelo menos a enorme relevância) dos sentimentos na criação das culturas humanas (e só esta expressão já faz corar de vergonha uma pessoa educada) - é um problema profundamente discutido, sem conclusões definitivas, na Antropologia, sobretudo desde os artigos de Cliford Geertz, publicados nos anos 70 e 80, para não falar em Levi-Strauss que Damásio arruma numa nota de rodapé, citando bizarramente um único trabalho L'Anthropologie face aux problèmes du monde moderne. Já não refiro Michel Foucault – que o autor despacha sem qualquer referência concreta e ainda dizendo que o seu título (A Estranha Ordem das Coisas) nada deve à publicação em inglês de As Palavras e As Coisas, traduzido como The Order of Things, sendo que Foucault pouco mais fez do que escrever, durante trinta anos, sobre a armadilha das simplificações, na interpretação biológica da natureza, bem como sobre a manipulação cultural dos sentimentos, ou seja, sobre a dificuldade de os interpretar fora de uma ordem (relativa) discursiva.

Resultado de imagem para beautiful woman + pre historic

Damásio refere que a linguagem e a sociabilidade desfilam na história cultural mas não os sentimentos. Talvez por ser difícil dizer mais do que banalidades funcionais sobre os sentimentos, sem recorrer à linguagem. Eu, que sou um ignorante, tenho a ligeira sensação de que a formação da mente cultural é associada pela tradição da história natural (e pelas Humanidades) à linguagem, precisamente por se identificar que o salto qualitativo e significativo, não se compreende sem a linguagem e a complexidade descritiva (dos estados interiores e da relação com o ambiente) implícita na quase infinita gama de possibilidades permitida pela linguagem (e não pela maquinaria biológica básica sentimental). Podemos explicar por sinais (e analisar como fez Darwin) as expressões faciais, mas isso não permite avançar um milímetro na compreensão da evolução das culturas humanas. Como o próprio Damásio reconhece várias vezes, varrendo a contradição para baixo do tapete, as origens da maquinaria sentimental são humildes e comuns a outros animais. Eureka! Daí os cientistas sociais e biólogos terem escolhido a linguagem (e não uma coisa tão difícil de interpretar como os «sentimentos») para momento chave na evolução cultural. Além do mais, a linguagem é a porta (por excelência) para a análise dos sentimentos, como o próprio Damásio reconhece também, invocando a importância da literatura, e definindo Shakespeare como o maior especialista na sua área. Não se percebe então, para lá da graçola nos jornais, a razão de não ter recorrido a Shakespeare para estruturar o seu livro. Seguramente, a coisa tinha corrido melhor, na forma e no conteúdo.


Cave Woman Costume,$58.99

Sobre a novidade implícita no livro.

Deixo um excerto de Geertz (inteiramente ignorado no livro, talvez trocado por coisas mais actuais, mas serôdias - o primeiro erro do cientismo é considerar a novidade cronológica como valor em si) com respectiva citação, para os interessados pesquisarem depois, se quiserem, e confrontarem com algumas das banalidades escritas por Damásio (quando fala de cultura e história cultural) e para os desconfiados a quem passa pela cabeça neste momento a hipótese de eu ser um pobre pedante, sem noção dos meus limites e indiscutível estupidez, por descrever nestes termos o trabalho do senhor professor doutor António Damásio.

«And therefore, the development, maintenance, and dissolution of "moods," "attitudes," "sentiments," and so on - which are "feelings" in the sense of states or conditions, not sensations or motives - constitute no more a basically private activity in human beings than does directive "thinking." The use of a road map enables us to make our way from San Francisco to New York with precision; the reading of Kafka's novels enables us to form a distinct and well-defined attitude toward modern bureaucracy. We acquire the ability to design flying planes in wind tunnels ; we develop the capacity to feel true awe in church. A child counts on his fingers before he counts "in his head"; he feels love on his skin before he feels it "in his heart." Not only ideas, but emotions too, are cultural artifacts in man. Given the lack of specificity of intrinsic affect in man, the attainment of an optimal flow of stimulation to his nervous system is a much more complicated operation than a prudent steering between the extremes of "too much" and "too little." Rather, it involves a very delicate qualitative regulation of what comes in through the sensory apparatus ; a matter, here again, more of an active seeking for required stimuli than a mere watchful waiting for them. Neurologically, this regulation is achieved by efferent impulses from the central nervous system which modify receptor activity.» 

Geertz, The Growth of Culture and the Evolution of Mind, The Interpretation of Cultures, Basic Books, 1973, pp. 81-82.

 Esta "novidade" foi publicada em 1973.


Camaradas! Não se trata aqui de esgrima sobre notas de rodapé. Trata-se de uma guerra pelo estatuto e mais uma prova de como as Humanidades estão em irreparável perda, em parte por culpa própria, por ignorância, cobardia e situacionismo dos senhores professores doutores em Humanidades. Todo este ensaio de Geertz é impressionante - e fundamental para o tema abordado por Damásio - e posso garantir que dificilmente lerão algo tão rigoroso e profundo, no que respeita à relação entre sentimentos, evolução, mente e cultura, no livro de António Damásio. O livro A Estranha Ordem das Coisas merecia uma estranha discussão à altura da terraplanagem nele contida, mas suspeito que o silêncio vai reinar como uma imperatriz asiática.

Isto é decisivo para o ponto principal desta minha esfusiante indignação: Damásio parte de uma ideia - a de que os sentimentos são um motor decisivo das culturas - apresentando-a como novidade, ou seja, lançando para o caixote das irrelevâncias três séculos de estudos em Humanidades. O que dizer do total silêncio a que vota Rousseau, um homem para quem, até às suas dolorosas lágrimas derramadas na estrada de Vincenne, a enorme preponderância dos sentimentos não tinha sido tida em conta na análise da cultura, das artes e das ciências?

Não resisto a brindar o leitor com uma entusiasmante novidade:

«Pretende-se que a linguagem dos primeiros homens corresponda à língua dos geómetras, mas o que nós vemos é que ela tem antes que ver com a língua dos poetas. E assim deve ter sido. Não se começa por raciocinar mas por sentir. Diz-se que os homens inventaram a fala para exprimir as suas necessidades, mas esta opinião parece-me insustentável. (...) Qual seria então a sua origem? As necessidades morais, as paixões. (...) Não foram nem a fome nem a sede mas sim o amor, o ódio, a piedade ou a cólera que pela primeira vez soltaram a fala dos homens. (...) Os frutos não nos fogem das mãos, podemo-los comer calados; é também em silêncio que se persegue a presa que se pretende abater - mas para conseguir comover um coração ainda inocente ou afastar um agressor injusto é a natureza que nos dita os seus acentos, exclamações ou lamentos.» 

Esta simples conclusão acerca da importância dos sentimentos na história cultural - apresentada por Damásio como novidade - foi escrita por Jean-Jacques Rousseau, no Ensaio sobre a Origem das Línguas, provavelmente, entre 1753 e 1756 e publicada apenas postumamente em 1781. (edição portuguesa, 1981, Estampa, pp. 47-48)

Isto acontece, apesar de António Damásio referir logo no prefácio como as Humanidades são importantes. Sim, importantes, sobretudo como público comprador dos seus livros e consumidor da sua ciência, e para utilizar como emblema na lapela do casaco, citando Shakespeare, pois a forma olímpica como Damásio contorna a biblioteca das Humanidades, o que empobrece o seu trabalho, é verdadeira e espetacularmente, digamos, acrobática. 

Halloween Cavewoman Costumes Plus Size HalloweenCostumes4u.com

Com a exceção de Hume, Marx, Durkheim, Freud e o inclassificável William James, Damásio praticamente não considera relevante abordar as ideias de autores provenientes da tradição histórica, filosófica e antropológica. Chega a falar da forma como se tem negligenciado o intestino como fenómeno de equilíbrio homeostático, quando para além dos gregos (não exijo o conhecimento de toda a tradição peripatética) por exemplo, Nietzsche escreveu e muito sobre o tema. E o que dizer da lateralização de Adam Smith e das suas impressionantes tentativas de circunscrever uma teoria dos sentimentos morais? A leitura de Smith teria impedido Damásio de escrever os confrangedores parágrafos a propósito de lucro celular, lucro social e ganância.

Para os mais desatentos, o que Damásio acaba por fazer, mesmo involuntariamente, prolongando um imortal debate, é defender a precedência de uma natureza universal (neste caso sentimental) sobre a cultura, com tudo o que isso significa de homérica ignorância sobre a força do hábito, e das segundas naturezas, e sobre as armadilhas dos projetos educativos e éticos, baseados em coisas tão imprestáveis como o conceito de virtudes clássicas. Como já dizia Tucídides, «sagradas são as armas quando só nelas reside a esperança». Talvez Damásio queira explicar a sua teoria educativa aos terroristas, quer os árabes, quer os cristãos, ou talvez os considere como ignorantes, a precisarem de ser educados, ou doentes mentais, a precisarem de internamento, ou talvez reconheça que o contexto das culturas humanas evolui sobre as manipulações da linguagem, a retórica e a escultura dos «sentimentos» e que a compreensão das coisas implica sempre uma certa violência sobre as coisas.

Como não sou um guru académico, não vou cair na tentação de me pronunciar sobre o tema, e fujo cobardemente para a minha irrelevância, mas não deixo de vislumbrar - e este é o sentido deste longo, desagradável e aborrecido post - um certo facilitismo da parte de António Damásio. O que me custa, num autor pelo qual sinto (lá está) um certo respeito.

Deixo uma prova final com a retumbante conclusão a que Damásio chega depois de milhões de anos de análise do caldo de bactérias até às sinfonias metafóricas do Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, com que nos brinda para nos elucidar – como se fosse preciso, valha-nos Deus - sobre a complexidade da relação entre sentimentos e consciência:

«A educação, no sentido mais vasto do termo, é o caminho óbvio a seguir. Um projeto educativo a longo prazo que tenha como objetivo criar ambientes saudáveis e socialmente produtivos terá de destacar comportamentos éticos e cívicos e de encorajar as virtudes morais clássicas - honestidade, bondade, empatia e compaixão, gratidão, modéstia.» A Estranha Ordem das Coisas (p. 307).

Saúde e Produção. Ética e Cidadania. Valha-nos Deus, pela segunda vez! Se isto é o que um especialista sobre a Vida, os Sentimentos, as Culturas Humanas (um tema supermodesto, note-se) tem para nos dizer, estamos perdidos. Consta que no Médio Oriente tentaram este projeto educativo, há cerca de 2000 anos, e não tem corrido muito bem. Em parte devido à nossa propensão (Ocidental) para a saúde e a capacidade produtiva.

 Walking to school in  Syria via 

No fundo, António Damásio prescreve como modelo para a educação da humanidade o professor doutor António Damásio.

Bem sei, o professor doutor António Damásio trabalha respeitosamente dentro das disciplinas mas quer dinamitar os limites das disciplinas. Contudo, não se pode ter sol na eira e chuva no nabal, como bem diz o povo, que não vai à escola, mas tem sentimentos.