terça-feira, 26 de março de 2013

O Sporting, na perspectiva dos sistemas dinâmicos não-lineares.

O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.
O que há é pouca gente para dar por isso
Álvaro de Campos



Como qualquer aluno de engenharia sabe, excepto seguramente os de civil e talvez os de naval, só porque um ciclo limite não pára quieto, não significa que seja instável. Sucede que a intersecção dos diagramas de Ven, respectivamente sportinguistas e engenheiros com compreensão básica de sistemas dinâmicos, é um conjunto com medida de Lebesgue nula. Traduzindo por miúdos, são poucos e raros mas existem. 

É portanto natural que poucos tenham compreendido o sistema dinâmico Sporting Clube há já largos anos em modo ciclo limite. Uns momentos roçando a mediocridade, noutros quase que parecendo sair disparado para uma carreira de glória europeia. Que o sistema é estável, basta fazer as contas. Oito campeonatos e uma mão-cheia de taças desde a década de 60. E até à época transacta, o único clube que terminou sempre nos primeiros 5 lugares. Até à época transacta.

Tenham ainda em atenção que nestes 50 anos, passou por Alvalade tudo e mais alguma coisa, presidencialmente falando. Se isto não é um ciclo limite, então que a secretaria do Técnico me tire o diploma e me rasgue a carta de curso.

Portanto, não me interessa que o de Portugal Sporting Clube se venha a transformar num Benfica, num Porto ou, São Bento nos guarde sãos e salvos, num Braga. Basta voltar ao ciclo limite, de onde nunca deveria ter sido empurrado, para assim os sportinguistas poderem ser pessoas que riem, sofrem e comem bifanas respectivamente antes, durante e após o futebol. Para isso, ó Bruno, basta não fazeres nada, que os ciclos limite são mesmo assim. Deixados a si próprios convergem para o seu estado estável.
 

Um livro extremamente sexy

O Ministro das Finanças da Alemanha é uma pessoa humana, tenham calma.

Nos meus estudos completos acerca da oferta de refeições em tascas da grande Lisboa, obra que estou a levar a cabo de um só fôlego durante o dia de hoje, refere-se (p. 371, nota 26) como me serviram por 9, 90 euros um pedaço de vaca prensado com bota alemã no Bar da Praia do Guincho, acompanhado por inaceitáveis pedaços longitudinais de lascas de batata frita em óleo requentado, além de uma garrafa de vinho verde (375 ml), vendida por uns escandalosos 8,50 euros, o que só isto perfaz 18,40 euros (um assalto) minutos depois do próprio e simpático empregado, de raça negra, me ter abalroado com uma bandeja, perguntando-me, logo em seguida, com ar ameaçador:
- Magoou-se?
- Não, que ideia, não vê que sou feito de aço e rebitado a parafusos de ferro? - respondi prontamente.
A verdade é que é muito difícil argumentar sobre efeitos de substituição em mercados com informação escassa e onde os consumidores reagem de forma primária a declarações do Ministro das Finanças da Alemanha, ainda para mais, sendo este uma pessoa que se desloca em cadeira de rodas.
 
Elizabeth Hardwick

 
Como devem calcular os meus eruditos e estimados leitores, a  filha do Tony Carreira prepara-se, alegadamente segundo a literatura da especialidade, para arranjar namorado durante as filmagens de mais uma série de Morangos com Açúcar, o que imediatamente me recordou os comentários de Elizabeth Hardwick acerca de Lolita,  a obra prima da imaginação ocidental. Embora várias pessoas se esforcem para fundar nos dotes superiores de observação da realidade o critério da excelência nas descrições literárias, é evidente que, segundo a autora de Bartleby in Manhattan and Other Essays, a observação das páginas dos livros também faz parte da realidade, não só os postes de electricidades, os anúncios histéricos dos motéis, as trancinhas amarradas por fios de seda das jovens universitárias, o reflexo violeta da chuva solar nos charcos oleados do alcatrão, o ondular das copas das sequóias canadianas, estendendo com paciência o seu outonal manto escarlate sobre as avenidas, continuamente pisado por rodas de carroças - efeito que Gogol utilizou para ilustrar o ininterrupto barulho das folhas nas repartições públicas da Rússia Czarista. Desse modo, são as descrições das viagens de Marco Polo pela China, em busca de um espelho onde possa encontrar o seu passado veneziano, e em busca do momento desesperado em que se descobre que este império que nos parecera a soma de todas as maravilhas é uma ruína sem pés nem cabeça, o único e exacto modelo dos exaustos artefactos do cenário americano descritos em Lo-li-ta, luz da nossa vida. É verdade que Nabokov percorreu essas estradas intermináveis num Verão escaldante, na companhia da sua aluna de Stanford, Dorothy Leuthold, que se ofereceu para guiar o exótico casal russo pelo Oeste americano, maluquice só ao alcance de uma californiana. No carro novo da jovem mulher (não havia perigo, confronte-se a fotografia na página 227 da magnificente obra de Brian Boyd, Vladimir Nabokov, The American Years, Princeton University Press, 1991) atravessaram o Tennessee, o Arkansas, o Mississippi (onde a referência de Vladimir era Chauteubriand e não Mark Twain) até chegarem ao Grand Canyon, onde, finalmente, localizaram uma nova espécie de borboleta, baptizada como Neonympha Dorothea, e avistada num carreiro de mulas a 9 de Junho de 1941.
 
 
Não sei em que fase do emaranhado de acontecimentos se encontrava a Segunda Guerra Mundial nesse preciso dia, mas sei que a Alemanha cavalgava a sua própria destruição com a ferocidade de uma adolescente apaixonada. À falta de melhores exemplos, veja-se como uma newtoniana mutação de perspectiva se torna tão inspiradora quando reveladora dos férteis territórios à disposição da consciência, pelo que deixo aqui uma demonstração de eloquência meridional (com especial referência à coordenação da linha defensiva, aos 4 segundos, a que se juntam os dois médios, aos 5 segundos, rematando-se este superior momento, de combinação estético-motora, com um soberbo pontapé - o chamado charuto em linguagem técnica -, efetuado aos 6 segundos, prosseguindo o bailado russo, com indomável vitalidade, até ao fundo das redes alemãs) movimento que é todo um programa de resistência perante as dificuldades destes dias. As pessoas devem manter a calma pois enquanto existirem livros, está tudo bem.

segunda-feira, 25 de março de 2013

A filosofia aos filósofos: Bruno de Carvalho e o problema das cenas nunca serem o que parece que são, pois de outra forma não necessitariamos de linguagem, bastaria rugir e estava tudo bem.


Ou seja, nada. Vou introduzir uma citação do Milan Kundera (de quem não gosto) porque vem mesmo a calhar: «a luta política é sempre uma luta entre a memória e o esquecimento». Os sportinguistas caracterizam-se por esquecer repetidamente o que é o Sporting. Se não, vejamos. O maradona acordou da hibernação política que o tem caracterizado, beijado por mais uma branca de neve das lideranças desportivas proféticas, Bruno de Carvalho, o taumaturgo popular e autor de um desses momentos antropológicos em que por excelência as pessoas acordam da sua hibernação mental, recordando que afinal somos «nós, o povo», os únicos detentores da chave do destino, e correm-nos as lágrimas nos olhos, não fosse a capa de A Bola dizer isto mesmo (o que só por si é já para semear a desconfiança em todo o sportinguista que se mantenha acordado). O ensaio do maradona é estimulante e saúdo o regresso do mais adestrado estilista da blogosfera mas impõe-se uma nota de moderação no que ao argumento diz respeito, sobretudo porque subjaz a esta inauguração dos novos labirintos da verdade, por onde se quer guiar o raciocínio do pobre sportinguista, uma tremenda falácia política-filosófica.  Vemos ainda uma outra vez, neste tempos nebulosos e estranhos, erguer-se em toda a sua plenitude e competência retórica, o mais extraordinário dos artíficos subsidiários a modelos de gestão do raciocínio, e sobre os quais Rosseau foi o primeiro a erguer a sua pena de avestruz, a saber, a natureza democrática do homem comum, sem que se esclareça o que acontece em todos aqueles momentos em que o homem comum escolhe o jogador de golf ou o administrador do Santander como detentor da chave dos destino coletivos.

 
 
Devo esclarecer que dificilmente obteria maiores índices de satisfação do que aqueles proporcionados por esta defenestração categórica da elite político-administrativa dos membros subsidiários da gestão da Herdade do Esporão mas o mega-embuste tecnológico no domínio do pensamento, desenhado no post do maradona, tem sido causador de muito sofrimento nos países da Europa do Sul e é preciso denunciá-lo de cada vez que ergue a sua cabeça monstruosa: estamos a falar de uma clara violação para fins obscuros do já por si só muito obscuro mecanismo de representação. Maradona baseia-se no ser-para-a-democracia como vitalidade instintiva natural do humano, erigindo-o como o contrário do artíficio (lá está, a demonização da anti-natureza) e identificando esta pseudo separação democrática entre eleitos e eleitores como o crime dos crimes (separação que não negamos ter estado presente em parte dos presidentes sportinguistas, mas que muito dificilmente se pode opor a uma hipotética devolução popular expressa na eleição de Sábado) como se essa separação, essa distância, não fosse o seguro de vida da próprio mecanismo de representação tal como o conhecemos, e ainda mais nos clubes desportivos. A identificação do elemento político nefasto  que se teria caracterizado, no caso do Sporting, por uma gestão baseada numa coreografia desportiva subsidiária de "modelos gestão", resultou, alegadamente, segundo o maradona, na distância entre o acontecer do relvado, as tragédias sempre espectantes do movimento desportivo e o palpitar vibrante dos seus impactos no organismo dos sportinguistas. Mesmo que a eleição de Bruno Carvalho não garanta maiores resultados já garantiu a vitória da vontade popular (com resultados muito inferiores de legitimidade quantitativa, note-se, em relação a esbirros aristocráticos como Bettencourt ou Soares Franco, duas figuras que abomino energeticamente, devo dizer).  Sustenta-se então no referido post que o organismo sportinguista já não colonizado por essa epidemia nascida nos camarotes, nos campos de golf e dentro dos carros desportivos oriundos das garagens situadas entre Estoril e a praia do Guincho, se vê, agora sim, soberano e livre, ligado pelo coração a uma liderança que se sente viva, verdadeira, genuína, apostada na revitalização do sentimento da bancada, na devolução ao povo dos destinos desportivos da sua agremiação porque afinal de contas, um clube de futebol vive da paixão, o que quer que isso signifique. 


Ora, este raciocínio é típico da desorientação liberal que preconiza para a organização formal da distribuição dos recursos um modelo de competição e especialização, mas sempre advogando em espaços como a religião ou o desporto (não falo da cóltura porque no caso do maradona conheço as suas posições de fundo, com as quais concordo na generalidade) a vitalidade soberana e instintiva da democracia. O instinto que nos informa da utilidade de demonstrar vontade colectiva, e onde é que devemos procurar para a encontrar e mobilizar, é o mesmo que nos informa acerca das probabilidades de satisfação de uma curvatura feminina, do retorno do investimento num livro muito publicitado ou de um parolo qualquer que se apresenta como providencial na resolução de um qualquer problema. Que eu me identifique com outros parolos nesta escolha e chegue com o meu voto a agremiar-me numa intencionalidade coletiva que tem um determinado resultado, nada nos diz sobre as razões e consequências da escolha, o que deveria levar-nos a ter mais respeito pelo labirinto político que criámos ao fazer recair a legitimidade num critério quantitativo.
 
 
 
Não será o tempo das inteligências fortes como a do maradona não facilitarem e gastarem algumas energias a procurar sair da frente deste touro que ameaça espetar-nos os cornos? Não será o tempo de fazer uma aposta clara em tentar perceber se a vontade coletiva depende da nossa identificação com o instinto? Não será o tempo de investigar com mais calma e ponderação de que forma o instinto seleciona as preferências tanto na eleição de um barão como na eleição de um salsicheiro, sabendo que o problema está em relacionar (num mecanismo mais eficaz de representação eleitoral) quer a mutação das imagens mentais, quer a dinâmica de formação de novas opiniões (do coletivo a que pertencemos) com as alterações do ambiente que a todos nos envolve e afecta? Quer isto dizer que Bruno de Carvalho falhará retundamente na sua missão de devolver o Sporting aos Sportinguistas? Não, quer dizer que não há espectáculo mais deprimente do que ver um espírito crítico facilitar perante um problema tão desafiante e carregado de consequências políticas, filosóficas e económicas como a eleição democrática de um Presidente de uma coletividade, mesmo que essa coletividade se caracterize por ter sido fundado pelo Visconde de Alvalade.

domingo, 24 de março de 2013

Prometo que é a última vez, estou só à espera que o chão por onde passei a esfregona, seque.

Tem razão sim senhor, não é uma questão de liberdade de expressão. Trata-se de impedir que um cidadão da república possa entrar na corrida eleitoral das presidenciais. Esta história do Sócrates na RTP tresanda a política made in jotas, o provincianismo dos envolvidos garante a continuação da festa enquanto o Tribunal de Contas não passar a sentença do orçamento.

Antecipadamente me penitencio por ter linkado o Blasfémias, vou já de imediato esfregar os azulejos da casa-de-banho com a escova de dentes.

sábado, 23 de março de 2013

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O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo -
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.

Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.
Pessoa, Ulisses

Quis o destino que a eleição do novo Papa coincidisse com a leitura do capítulo sobre a religião do The World Until Yesterday. Um livro que começou bem, mas rapidamente se limitou a contar historietas pessoais do autor.  Para quem leu o Guns, Germs and Steel, o novo livro fica muito aquém das expectativas.

Em particular o capítulo sobre a religião é, ao nível dos argumentos, de uma pobreza franciscana que mete dó. Resumindo, a crença no supernatural é irracional e própria de mentes ainda não tocadas pelo esplendor absoluto da ciência. Mas como o sentimento religioso é ubíquo a todas as culturas humanas, então é porque deve forçosamente trazer vantagens evolutivas. Naturalmente, o passo seguinte é torturar os factos observáveis até que eles concordem em suportar a teoria das vantagens evolutivas da religião.

Ora, para mim chamar ciência a algo em que as conclusões são determinadas a priori e as observações interpretadas como dá mais jeito, não é ciência coisa nenhuma. E a ser, então Suma Teológica de São Tomás de Aquino também terá forçosamente que ser considerada ciência. De qualidade, a julgar pelo pouco que conheço.  

Em paralelo tive a telenovela da eleição do papa, latino, jesuíta e preocupado com a pobreza. O barulho que se gerou à volta destes acontecimentos espantou-me, não me lembro de nada comparável quando Bento XVI foi eleito e se "descobriu" o seu passado Nazi.

Um interregno, para declarar que na minha juventude gamei fruta ao coberto da noite e a maior parte foi utilizada como arma de arremesso contra os comparsas . Nunca se sabe se um dia destes não dou por mim na cadeira de São Pedro.

Escutei que um papa preocupar-se com a pobreza é hipocrisia, sobretudo se vier da campeã das hipocrisias e desigualdades que é a América-Latina. Ouvi que os jesuítas são a personificação do mal e cospem ódio ao papa. Li que a Igreja deve é promover o bem-estar económico em vez de se preocupar em vestir os nus e dar pão a quem tem fome.

É muita coisa em tão curto espaço de tempo, e até um tipo calmo e pacato como eu perde a calma.

Jesuítas a esmagar uvas em 1910. Ksara, Líbano
 

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Afinal o que importa não é haver gente com fome,
que assim como assim ainda há muita gente que come.
Cesariny, A pastelaria

A ópera bufa à volta do ex-primeiro na RTP, de tão provinciana que é até irrita. Todos os intervenientes concordam entre si: os portugueses não percebem nada de política e as meninges lusitanas não foram feitas para as subtilezas da democracia. E antes do pano cair, despedem-se cantando em uníssono como eles são todos uns democratas de primeira, que pena o povo ser uma cambada de matarruanos. No coro, qual deus ex-machina das tragédias gregas, temos o Tribunal Constitucional que parece se prepara para chumbar o orçamento.
 
Adiante, de todas as petições a exigir a presença do Sócrates na RTP, a menos votada é também a que pede à Câncio para mostrar as mamas em protesto. Coincidência? Estou certo que não, e em retrospectiva percebo agora que deveria era ter escrito que fosse a Maya a exibir a prateleira. 

sexta-feira, 22 de março de 2013

O Papa Francisco vai levitar amanhã na Praça de S. Pedro mantendo em rotação três jarras da China (dinastia Ming) a discografia completa dos Beatles, enquanto equilibra com a boca uma vassoura com cabo de pinho, mantendo ainda, em perfeito balanço sub-determinado, uma pilha (com as obras completas de Inacio Larrañaga) na ponta da referida vassoura.

A imprensa internacional está a recomendar calma a toda a humanidade pois o juízo final está próximo e vai mesmo concretizar-se para escândalo de todos os malandros que não frequentaram a catequese ou que pelo menos, tendo-a frequentado, ousam reconduzir o Papa às catacumbas da história e do esquecimento, lugar onde há já muito devia estar. Agora que o mundo se prepara para entrar na sua derradeira etapa de retrocesso mental e imperialismo religioso triunfante, e a malta começa a posicionar-se em relação aos pecados materialistas forjados pelas revoluções burguesas, Voltaire, Rosseau, todos os comunistas, e claro, os famigerados sindicalistas de Saltillo, Fernando Chalana e Carlos Manuel, e outras forças maçonicas, entregando-se toda a opinião pública, com raríssimas excepções, a essa disciplina magnífica que dá pelo nome de Soteriologia, livrai-no Senhor. A Igreja descobriu, o Senhor seja louvado, as maravilhas da consistência lógica e pretende agora ensinar a todas as pessoas de bem a probidade dos ensinamentos de Pedro, livrai-nos Senhor, a pertinência de toda a escatologia conciliar, as purgas republicanas a cargo de catedrais relapsos de pirilau levantado para tudo quanto era cortesã italiana renascentista, e não nos livrai disto Senhor, embora seja disto que sempre nos livrais, devo, contudo, relembrar que Santo Agostinho foi um claríssimo adepto dos serviços de prostituição norte-africana, apreciador de vinho verde, literalmente falando e até cansar, agora sim, livrai-nos Senhor, pelo que para nós sobraram as peixeiradas metafísicas do Bispo de Hipona e de todos os Concílios, incluindo as tremendas e extraordinamriamente úteis discussões da escola de Bizâncio, isto antes do cisma, claro, e dos infinitos debates sobre as propriedades energéticas (sic) de Deus, isto antes dos Turcos rebentarem aquela cena toda, tranformando Constantinopla numa ode à boçalidade intelectual, livrai-nos Senhor, para não falar dos camiões de páginas escolásticas com a pertinente discussão em torno da concepção virginal de Maria, dado que a mesma, sendo virgem, jovem mulher segundo a terminologia grega, parece que nunca coiso e tal, embora se diga à boca cheia (grande escultor de provérbios, o povo) nos mentideros que eventualmente um soldado romano, o que em nada belisca, antes pelo contrário, a atitude digna de um José, o carpinteiro, a única figura neo-testamentária que se aproveita, trabalha, fala pouco, está onde tem de estar, abandona o local quando todos se preparam para mergulhar no mais triste sentimentalismo, sempre discreto, é homem do seu copinho de vinho, mas sem exageros, livrai-nos Senhor.
 
 
Os vários níveis de dor acumulada necessários à ultrapassagem dos círculos do inferno a caminho da salvação, defendidos em várias obras de relevo na história do conforto humano, de Santa Teresa de Ávila, a alumbrada, até Santa Teresa do Menino Jesus, a francesa que endoideceu com jejuns e falta de posta mirandesa, bem como muitas outras preciosidades do museu intelectual do Vaticano, Santa Maria Madalena, rogai por nós, não foram exercícios votados à insignificância e nesta hora de aperto para as inteligências, sabemos que não foi pois em vão que durante mais de dois mil e tal anos, alguns dias e uns quantos segundos, a Igreja laborou na conservação das coisas tal como têm de ser, contribuindo para a continuação do mundo tal como tinha sido, orando pela permanência da natureza do ponto de vista das rochas que não se movem, ou movem, para a desintegração, mas muito, muito devagarinho. Com efeito, é preciso que neste momento de jubilosa esperança nunca perder de vista o esforço continuado, meticuloso, rendilhado, ornamentado com a espada da fé e o báculo da razão, todo um caminho na obtenção de cenários apropriados a mortalidades infantis da ordem dos 1000 bebés reduzidos a anjinhos por segundo, um raciocínio espiritual sobre o qual está erigido a cátedra do pescador de homens, o que quer que isso seja (mas faz-me lembrar o Jorge Mendes) e negador profissional (o galo cantou três vezes) havendo até professores de economia de Universidades portuguesas defendendo, com toda a propriedade, que foram os monges que inventaram a contabilidade, e por consequência lógica, terão os mesmo monges de ter inventado, muito naturalmente, entre ovos, açúcar e cerveja, o capitalismo, beato Nuno de Santa Maria, rogai por nós.
 
 
É pois com a tranquilidade primaveril que nos assiste esta novidade para as dores do mundo, Sua Santidade o Papa Francisco, argentino que se prepara para não reforçar os quadros do Benfica (não se pode ser completamente perfeito) mas também e sobretudo para forjar finalmente o homem novo, aquele que atravessa, desde os séculos dos séculos, a pé enxuto, o mar entre o Egipto e a terra prometida (onde hoje o portentoso Hugo Almeida assinou mais uma olímpica exibição). O Papa Francisco, para além da resolução de todas as nossas dúvidas existenciais (não, não existe morte depois da morte, e sim, o Jorge Jesus vai renovar pelo Benfica) prepara-se para devolver ao mundo a esperança, a cura dos paralíticos, a erradicação da droga, o fim da especulação imobiliária, a exterminação das micoses nos balnerários distritais, a redenção dos cativos, o problema das formigas nos parques de merendas, a salvação dos desorientados, sem falar do controlo das dívidas soberanas, da escalada dos juros, da neutralização das máfias russas, da manutenação das redes dos nossos telefones móveis que nos garantem o contatacto com as mães, nossas mulheres, dos nossos filhos e da descoberta da vacina contra a malária. Entretanto, nas horas vagas, o Papa francisco terá desenvolvido também um sistema de esmolas on-line para financiar um nova ordem religiosa especialmente dedicada a perseguir os víruas informáticos responsáveis por uma pequena parte, mas não negligenciável, do desemprego, o que como é sabido está na origem da fome, e por consequência, da violência nos países muçulmanos, o que já terá dado matéria sobra para romances de José Rodrigues dos Santos pelo menos até à sua quarta geração de descendentes, S. Inácio de Antioquia, rogai por nós.
 
 
Está também  a ser noticiado que o Papa Francisco tem um outro plano para acabar com toda a fome mundial e que consiste em distribuir senhas pela Caritas de Roma, a fim de que os pobres possam comparecer no Santíssimo Sacramento da Eucaristia na Basílica de S. Pedro. Há até quem assegure ter visto o Papa Francisco, o Secretário de Estado do Vaticano e o porta-voz do Papa, munidos de um maçarico, um pé de cabra e vários alguidares de latão, movendo-se silenciosamente dentro da Capela Sistina, a fim de descolarem a obra prima de Miguel Ângelo para recortar, almofadar e produzir em série cobertores para distribuir aos sem-abrigo latino-americanos de Nova Iorque, para além de um processo de fundição de todos os elementos escultóricos trabalhados em ouro, nas Igrejas de todo o mundo, o que segundo as fontes mais ambiciosas poderá encher até dois mil e quinhentos milhões de baldes num valor total de cerca de um terço dos pobres da cidade do México, Roberto Bolaño, rogai por nós. No entanto, a notícia não foi confirmada e segundo assegurou Paulo Futre, o verdadeiro plano é fazer vir «chartéres» de africanos e asiáticos de países deprimidos, recebendo-os em Roma, e montando-se, subito, um mega-acampamento de refugiados, indo do Coliseu até Messina, incluindo o estreito, e as ondas azul profundo dos arredores da Ilha de Lampedusa, onde segundo consta, os mesmos africanos se têm antecipado a naufragar, morrendo como sardinhas caindo de barcos do tamanho de uma casca de noz, tal é a vontade de fugir e abandonar o mais rapidamente possível essa descristianizada Europa das Luzes, S. Marquês de Sade, rogai por nós.
 
 
 
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Culture and literature series featuring a different Scottish writer each week. In this episode author Sir Steven Runciman remembers his childhood as the son of a Cabinet Minister with aspirations to be a thief, his many travels, and his joy in keeping a diary.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Abrandar? Abrandar sim, mas devagar.

Até o ímpeto do ressabiamento tem que respeitar as leis da física, e com o passar do tempo vai perdendo momento para o atrito da falta de paciência para aturar gente idiota.

A título de exemplo, temos o sururu que rodeia a eleição de Francisco I, e o regresso aos palcos televisivos de Sócrates, José. Assuntos sérios, é verdade se bem que nenhum me preocupa tanto como a forte possibilidade da chuva e a sua amiga a neve me estragarem o churrasco que tenho planeado para este domingo.  Como nos jogos de futebol, vamos por partes.

Como não podia deixar de ser, o novo papa vai ser assunto sempre e quando se possa arranjar algo com que acender a fogueira da hipocrisia. Não sei se realmente entregou padres para serem torturados, o que eu duvido muito, ou se realmente ficou em segundo na penúltima eleição, o que ao contrário da primeira acusação, não se pode desconfirmar porque primeiro os votos são queimados e segundo os cardeais não são suposto comentar as eleições dado que a Igreja ainda não é o Sporting muito embora os resultados em campo sejam equiparáveis.

A tudo isto respondo que não sei de quem tenha deixado de ir à missa por causa do papa.Ou da Bíblia, ou das epístolas de São Paulo ou das novenas a santa Bárbara. E acrescento que aborrece ver gente grande com a catequese por fazer a papaguear frases feitas sobre a religião como se fossem os primeiros em 2 mil anos a descobrir a "verdade" por detrás da religião. Deixem-se de Dan Brownices , e para quem tem paciência, recomendo History of Christianity First Three Thousand Years, escrito por um ateu, ou a trilogia de Cristo pelo anterior papa, um católico presumo eu.

Aos outros, que se fiquem com as anunciadas homilias, suponho de que dominicais, de Sócrates, José um indivíduo com reconhecida experiência na indústria farmacêutica. Contesto, que é como se diz responder em espanhol, que o percurso do supra-citado cidadão lusitano não tem nada de novo. Atentem as meninas dos olhos nos teutões Khol e Schroeder. O primeiro recebeu uns trocados de forma menos honesta, dizem as más línguas, o segundo vendeu a alma ao grande capital russo. Ao lado destes senhores, o Sócrates é um menino de coiro limitado apenas pela tacanhez do país que lhe calhou na rifa.

Assim sendo, lanço já aqui a petição "Sócrates na RTP já !", em contra-corrente a outra que por aí circula e pede o ignóbil silenciamento do ex-primeiro de Portugal e dos Algarves, d'aquém e além mar.

Um bom fim-de-semana a todos.
 
 
 

quarta-feira, 20 de março de 2013

Sonar.

Os caros leitores terão notado que a perspicácia deste blogue abrandou. Confesso que a situação não foi premeditada e que não existe em preparação nenhuma frente revolucionária que una os cada vez mais desistentes A causa foi modificada, Pastoral Portuguesa, Tolan, Gravidade Intermédia, e este mesmo blogue,  O elogio da derrota, sendo que a ordem reflete a importância absoluta dos mesmos blogues para a resolução dos problemas gerais da humanidade e tal como na bela metáfora de David Hume, justamente colocada no final do prefácio ao seu Ensaio sobre o entendimento humano, é no final de todo o cortejo, o adequado lugar onde desfilam os bombos e as cornetas que devem encerrar qualquer honrado exército, lugar que não nos envergonhamos de ocupar na hierarquia de uma crítica que se recusa a conhecer freios, mesmo aqueles que possam vir a ser hipoteticamente colocados com o auxílio anatómico da sempre generosa Sofia Alves, a ilustre atriz que em boa hora processou uma famosa bloguer de sucesso.
 
Na verdade, este abrandamento simplesmente aconteceu, é assim, e talvez se deva confessar que uma parte do meu impulso para escrever neste local, com este limite disciplinar, e este universo temático, provém da interacção com as referidas penas (salvo seja) dos distintos autores dos blogues referidos, exemplos vivos da queda em grande estilo, e que agora se furtam a servir de inspiração aos pobres de todo o mundo, uni-vos.




 

Para contrastar com este melancólico post, comunico a todo o auditório que podem susbstituir a leitura diária deste blogue - os textos serão semanais até à finalização das minhas obras completas - pela recém editada obra prima, Speak - Memory de Vladimir Nabokov, como já devem ter notado, aquele volume verde e preto, Fala, memória, facultado pela Relógio de Água em troca de 18 euros, uma das últimas tentativas comerciais no domínio da arte no contexto do mercado português, com reimpressão da velha, mas excelente, tradução de Aníbal Fernandes. É curioso como muitas vezes as questões simples são cavalgadas por tentativas de complexidade, designadamente, como reconhecer um bom escritor. Simples, pelo ouvido. Aquilo que me tem oposto polemicamente a vários e distintos críticos da actualidade em matéria de crítica da literatura americana contemporânea, é simples e trivialmente tão americano com o mês de Abril no Arizona, para citar o inefável Vladimir Nabokov.



 
Isso mesmo foi demonstrado a semana passada, enquanto comia uma habitual chamuça e bebia a devidamente fresca imperial no café periférico, propriedade de um transmontano, instalado em Lisboa desde os anos 60 do século XX. A informação foi facultada por uma entrevista, gravada em Palermo, em Setembro de 1984, ao sempre bem humorado Italo Calvino. O autor de As Cidades Invisíveis - o mais extraordinário livro alguma vez publicado acompanhado das mais estúpidas referências e elogios na contracapa da edição portuguesa - discorreu nessa tarde deslumbrante sobre as suas preferências estílisticas, tendo por companhia a luz siciliana, essa cenógrafa brilhante, responsável por todas as nossas tragédias, sempre apostada em travar as palmeiras ondulantes, transformado-as em odaliscas ocasionais, muito quietas, vigilantes em fundo de cal, rodeadas por campânulas de buganvílias tão numerosas quantos os incapazes de compreender a beleza destas coisas.





A conversa foi depois publicada em 1987 sob o título Mal d'America - da mito a realtà, e traduzida em português pelo sempre incansável José Colaço Barreiros, no fabuloso livro de Italo Calvino, Um Eremita em Paris (Teorema): «Se tivesse de dizer qual é o autor destes anos que prefiro, e que também de certo modo me influenciou, diria que é Vladimir Nabokov: grande escritor russo e grande escritor de língua inglesa; inventou uma língua inglesa de uma riqueza extraordinária. É realmente um grande génio, um dos maiores escritores do século e uma das pessoas em que mais me reconheço. Naturalmente, é uma personagem de um extraordinário cinismo, de uma crueldade formidável, mas é realmente um grande escritor

 (O sublinhado é nosso, meu e do Jorge Jesus).


 
 
Ó eterna simplicidade do amor das coisas belas, e da nossa insuperável tragédia em não compreender a necessidade de nos opormos à desordem, esquecendo a importãncia da coragem de lutar contra o sofrimento, coragem que, no fundo, é a única razão pela qual a vida merece ser vivida.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Habemus Cardozo, além da nossa própria cabeça e entendimento, e portanto o Papa Francisco que vá brincar com a sua pilinha que ainda vai muito a tempo.

Que é a poesia mais que o boxe, não me dizes?
(...) Esperam de 1 a 10 que a gente oxalá não se levante
Alexandre O´Neil


Como garantir o espírito guerreiro, os ímpetos furiosos e a crueldade necessária à literatura? Esse é o grande desafio existencial.

Mas essa novela das gajas serem um recurso escasso e principal razão dos conflitos entre homens acho que já foi. Agora há para aí gajas a dar com um pau, e os homens passaram de predadores a presas. Acho até, na minha infinita e ignorante, porém confessa, bruteza, que a curva da procura de gajas por parte dos gajos já cruzou a de gajos por parte das gajas sendo aquela descendente(x= ay-b) e esta ascendente (y=ax+b).
Ex-Vincent Poursan, num comentário ao supracitado post do Tolan



O mais famoso zombie do audiovisual mundial, a rtp 2, passa neste preciso e exato momento um elaborado documentário sobre todas as coisas fundamentais da vida, a saber, velhinhos nadadores de vários estilos e nacionalidades mentais a elaborarem sobre livros, ópera, cinema de autor, recordações dos coitos intelectuais dos anos 60, a carta do bispo do Porto, o engarrafamento industrial de água benta, as costuras de ouro sobre verde esmeralda dos Paramentos romanos, as intraduzíveis metáforas da Patrologia grega, as razões da queda de Constantinopla, as belezas intangíveis da ladainha e outros elementos fundamentais para os desafios do século XXI, incluindo a  falta de sono das adolescente, Santa Catarina de Siena, rogai por nós. Bem se vê que estando eu em casa a esta hora, me estou igualmente a guindar aos corredores da fama com acelerado sucesso e espero um dia constar de um documentário onde pelo menos o número de velhinhas com material biográfico e anotações pitorescas sobre a minha estrondosa queda na irrelevância cultural seja superior ao número de académicos mais feios que um bode da serra da Estrela, a lacrimejar sobre hipotéticas conversas de que, deus me valha, espero nunca vir a ser participante.


Felizmente não estou (ainda) rodeado de garrafas vazias. Calma, também não estou a babar ressentimento para um alguidar de latão. Apenas precisava de conferir informações sobre contratos portugueses quatrocentistas envolvendo transporte de 50 mil quintais de pimenta, cravo e noz moscada, onde, note-se, se engana à tripa forra a prestigiada República de Veneza, e os vaidosos banqueiros genoveses: saudosos tempos em que sabiamos organizar uma bela urdidura económica. Entretanto fui derrubado por toneladas de cultura e estou neste momento a teclar deitado no tapete da sala, procurando libertar-me do incomensurável peso cultural que me esmaga a traqueia. Estão cá todos os vultos: Benard da Costa, Alçada Baptista, Agustina Bessa Luís, Vasco Pulido Valente, Guilherme de Oliveira Martins, e até um dos vários Lobo Antunes de serviço, em suma, pessoas inspiradas pela revista Sprit (um monumento intelectual do século XX, logo a seguir às obras completas de Joseph Ratzinger e aos discos de Nelson Ned) pessoas que, pelos vistos, se ofereceram em imolação num outro monumento intelectual do século XX, a revista O tempo e o modo. Não tenho nada contra isto, nada. Aliás, Jorge Silva Melo acaba de confessar que sendo uma criança já ouvira falar em João Benard da Costa, acabando (salvo seja) pouco depois por ser, parabéns, aluno do ilustre cinéfilo. Há aqui vários pontos de contacto entre Silva Melo e alf, pois nos tempos em que eu próprio era uma criança a correr nas superfícies plantadas de trigo da periferia de Lisboa, já ouvia falar em Minervino Pietra, Fernando Chalana, Tamagnini Nené, prova cabal de que Silva Melo não tem a menor hipótese numa disputa em matéria de erudição, como bem o demonstram estas referências onomásticas. Para que é que fazem estes documentários se sabem que não existe hipótese de competição com este autor? Mas quero concentrar-me no essencial.


Imagem afixada

Pineddu, Bagheria-Palermo (Ferdinando Scianna,1962).


A fotografia aduzida sintetiza todo o conjunto de teoremas a partir dos quais tenho procurado demonstrar a minha vocação de escritor, designadamente, o facto de uma pessoa pretender dar lição de trapezismo mental, em salto, e não partir os dentes. Porquê? Além de uma vontade de que não me chateiem, e de uma adenda lateral a este príncipio, isto é, a necessidade de passar o maior tempo possível a conversar, por leitura, com pessoas mortas e que, por isso mesmo, já não chateiam, a verdade é que não sei dar uma resposta consistente, é a triste verdade. Será a escrita uma encriptada busca do gajedo pestaduno?  A propósito, seria necessário uma investigação sobre os fundamentos filogenéticos desta atração pelas sobrancelhas carregadas e as longas pestanas dos indivíduos do sexo feminino: o Gonçalo M. Tavares, como adepto das investigações, estará disponível? Não creio. Teremos que prosseguir sozinhos por estes perigosos vales assombrados. Será a escrita uma forma de obter materiais com que possa disputar-se o gajedo pestanudo? A questão exige um ponto de ordem historiográfica.
 
 
Gary Becker, um neo-liberal e, por antonomásia, comedor de criancinhas ao pequeno-almoço, defensor do imperialismo americano (embora se tenha casado com uma iraniana, ao contrário do Francisco Louçã e do Fernando Rosas que não consta terem casado com pessoas do médio oriente) Gary Becker, repito, conspirador e esbirro ao serviço de todas as ditaduras latino-americanas, as reais, as fantásticas e as sonhadas por todas as revolucionárias mamulhadas leitoras de Neruda, estudou durante mais de trinta anos merdas importantíssimas a que ninguém quer prestar atenção, incluindo os estimados e aborrecidos velhinhos suecos que lhe atribuiram o nobel. A divisão do trabalho entre homem e mulher foi sempre fortemente afetada pela especialização da mulher na produção e acompanhamento do crescimento de novos indivíduos, na linguagem dos economistas (investimento em capital humano) razão pela qual, durante muito tempo, a eficiência da casa empurrava a mulher para distribuir o seu tempo e capital nesta especialização da criança e seu crescimento, por ser muito mais eficaz alimentar e cuidar da educação de crianças, quando se está à espera de crianças, por oposição a outros trabalhos fisiologicamente mais exigentes e perigosos. A redução das taxas de retorno do investimento em filhos, acentuada pela mecanização do trabalho, além de colocar um prémio na descoberta dos contraceptivos, veio lançar a organização da família num delirium tremens, situação que saudamos com júbilo, não haja margem para equívocos.


Por razões obscuras, a distribuição cromossomática também tem acentuado o crescimento do número de mulheres, mas estas (agora libertadas dos conventos, das profissões domésticas e governâncias várias, da prostituição institucionalizada, e até da enfermagem celibatária, auxiliadas pela capacidade de inibirem a bomba relógio uterina que até à descoberta da pílula os homens teimavam em involuntariamente detonar, pondo-se depois a milhas a toda a velocidade) ao substituirem os seus investimentos em filhos por trabalho remunerado no mercado, passaram a ser vítimas não-especializadas da economia familiar, pois são obrigadas a dividir-se entre reprodução e trabalho no mercado. Contudo, ganharam uma capacidade superior na escolha dos parceiros, ainda que isso não seja exatamente visível devido à feroz competição que, crescentemente, mantêm umas com as outras, o que é aliás típico dos grupos predadores. A econometria reprodutiva do pasteleiro, neste sentido, pouco difere da econometria reprodutiva do literato e não julgo que o impacto do aumento do número de mulheres/homem no mercado das relações sexuais tenha particular influência na construção mental de um escritor, a não ser como gajo que vê passar os comboios porque ganha mal e se vê, mais vezes do que seria aceitável, confundido com pessoas que preferem mulheres do ponto de vista da óptica do conselheiro e não do utilizador. Como bem lembra o Tolan, o domínio da culinária é bem mais apreciado, o que se demonstra pela explosão de homens-cozinheiros de sucesso destes últimos cinco anos, mas mesmo isto teria que ser submetido a ponderações controladas das diferentes curvas de preferência das mulheres, por idade, rendimento anual, profissão, habilitações escolares, medidas anatómicas, etc, etc, etc.
 
 
Isto para dizer que a emergência alienígena da vocação do escritor (na bela imagem de Ex-Vincent Poursan, uma febre) é também, segundo Pavese, o mentor de Calvino e tradutor de Melville, uma cena que labora misteriosamente não se sabe a partir do quê, sendo uma função de merdas obscuras como tantas outras em que por vezes na vida incorremos sem saber muito bem porquê. Porque é que Cardozo desatou a marcar golos com a classe de um Van Basten, sendo ele um dos mais acabados cepos que foi dado contemplar sobre os relvados portugueses desde Pringle? Não se sabe, é tempo de assumir com coragem. Não sabemos, pronto, não se pode saber tudo. Não escrevemos tanto para procurar gajas (o que julgo que não era o ponto do Tolan) mas escrevemos sim, para não estar quieto, ou para fazer de conta que servimos para alguma coisa, ou para sossegar o rodízio imparável da memória, ou para dar sentido a imagens antigas que magoam até ao agudo vómito de um espelho que nos devolve uma mutação horrível do rosto. Escrevemos tal como andamos meses, meu deus, às vezes anos, de cabeça perdida na perseguição de uma dada forma feminina de colocar as mãos sobre uma mesa de mármore, o acentuar estrangeiro de ondulantes sílabas, o silabar de uma boca capaz de produzir citações de Petrarca e emudecer depois durante semanas, o olhar pestanudo e transparente cujo significado não chegámos a compreender.


Imagem afixada

Jorge Luis Borges, Palermo (Ferdinando Scianna, 1984).

quarta-feira, 13 de março de 2013

Morte ao teclado AZERTY.


1. Era de esperar que a língua francesa, com a paneleirice de tantos acentos desnecessários, tivesse um teclado mais acessível. Mas a francofonia é mesmo assim, tanta mariconada só para não serem iguais aos americanos e acabam por não fazer nada de jeito.

2. Está a ser interessante a leitura "The World Until Yesterday", embora lhe falte o sumo e o potencial para gerar discussão do "Guns, Germs and Steel". Uma das ideias que volta e meia aparece, é a de que os povos recolectores-caçadores têem poucas posses de valor por oposição à população ocidental. Não sei até que ponto isto será correcto, e se não será antes a produção em massa que permite à população ocidental acumular bugigangas a um custo relativamente baixo.

A semana passada uma ninfomaníaca partiu-me a porta do meu petit studio a Bruxelles, e remexou-me a roupa interior. Para disfarçar levou-me um portátil e o cartão de crédito. Excepto ter passado um par de dias com a porta da frente rachada em dois, os danos materiais em si foram irrelevantes. O cartão foi imediatamente  cancelado, e de qualquer maneira já estava no limite da cortesia dos preços praticados pela TAP, o seguro pagou uma porta nova e o portátil, de tão usado que era, estava há meses guardado no fundo de uma gaveta. Se fosse no meio da selva do Bornéu e me palmassem o arco e as flechas, a perda seria bastante maior, em termos absolutos.

Por outro lado a educação das crianças é um tema interessante. Correndo o risco de generalizar, as tribos recolectoras-caçadoras preferem educar as crianças num laissez-faire extremo e o resultado parece ser adultos responsáveis, habilidosos e curiosos do mundo que os rodeia. O tema é interessante porque há um par de semanas conversava com um psicólogo que ia abrir uma primária escola onde as crianças tinham a liberdade de fazer o que lhes apetecia. Se querem estudar aritmética estudam, se querem ir jogar à bola jogam. Ah, e não há horários.

Independentemente das qualidades e defeitos que o método possa ter, e o homem acredita que funciona, pois colocou os seus 4 filhos em escolas deste tipo, a principal diferença destas escolas para as demais é o largo espectro de profissões que geram. Ou seja, ninguém é doutrinado para ser doutor ou engenheiro. Intrigante, a ver se convenço a esposa (que é professora) a depositar a cria numa destas escolas.

3. Ontem a neve provocou o caos, e por momentos fiquei convencido que me tinha enganado algures no caminho e fui parar à Sibéria. Nem tudo é negativo, os cinemas do Offscreen estão todos a distância caminhável e esta sexta há uma sessão dupla: "Flash Gordon" e "Queen of the Outer Space" com a Za Za Gabor. Que mais pode querer um celibatário preso no centro da europa ?

Estou há 1h a ver esta gaivota em cima da chaminé lá de Roma


e isto é melhor que o National Geographic. Sou uma pessoa muito ocupada, mesmo assim.

terça-feira, 12 de março de 2013

Deus proteja os americanos, já que no meu caso está tudo perdido.

The next pope should be increasingly irrelevant, like the last two. The farther he floats up, away from the real religious life of Catholics, the more he will confirm his historical status as a monarch in a time when monarchs are no longer believable.

Garry Wills, Does the Pope Matter?

 
 
Façamos o ponto da situação. Pedro Henriques, ilustre comentador desportivo, e ex-dispensado pelo Sport Lisboa e Benfica, acaba de produzir a seguinte frase: «a baliza do Milan é uma cómoda onde Messi, jogador do Barcelona, coloca a bola na gaveta de cima, na de baixo, enfim, na gaveta que lhe apetecer». É isto a literatura.
 
 
Entretanto, Patrícia Reis publicou um novo livro, Contracorpo, se não me engano e julgo que não me engano, se me tiver enganado, venho aqui e suicido-me publicamente. É um livro espectacular e não estou a falar de excelência mas de espectáculo, dramaturgia, movimento, voz própria, crueza, farturas a rodar no óleo, ciganos roucos a vender relógios metálicos e óculos de hastes fluorescentes a cair em cascata nas abas do casaco comprido, estendais de lâmpadas coloridas pendurados nos plátanos, e claro, cantores de feira, mas no tempo em que se faziam acompanhar por minhotas de perna gorda envolta em meia de rede, um pouco depois dos bombeiros desfilarem, o capacete reluzente, a farda engomada, e ao ombro o andor repleto de cravos.

O referido livro apresenta nas poderosas badanas recomendações de João Mário Silva, Eduardo Pitta, além da já citada pelos queridos comentadores, Maria Alzira Seixo. Estive para comprar mas deu-me uma dor na perna direita e amanhã o flanco esquerdo do meio campo-poente do pavilhão localizado na vila de A. é da minha total e inteira responsabilidade, pelo que abandonei a correr a livraria e fui enfiar-me no carro, a ler à luz baça do tejadilho, o magnífico Amuleto do cada vez mais perigoso na abordagem aos lugares cimeiros da minha galeria de ilustres, Roberto Bolaño.
 
 
O Galatasaray está a ganhar ao Schalke e só se ouvem as gargantas fanáticas dos turcos. A Turquia é um país esquisito mas a Alemanha ainda o é mais. Está tudo bem. Só ontem fui informado sobre um curso de escrita criativa a cargo de Raquel Ochoa. Agora sim, temos conversa. Confesso que estou cada vez mais imunizado perante fenómenos da sociologia da cultura, tais como a divulgação das ideias sobre a econometria da restauração e pastelaria de fabrico próprio, avançadas recentemente pela jovem promessa da humanidade, João Fernando Tordo, mas isto é outro bacalhau. Infelizmente, as inscrições acabaram dia 2 de Março. Os senhores leitores bem podiam avisar estas coisas, caramba; é o mínimo que se pode pedir em troca de prosa zelosamente gratuita com sistemática assiduidade. O curso intitulado Como escrever um romance? deve ser um festival de sensações, tendo em conta que o mais premiado romance da autora versa sobre indianos, casas em forma de comboio, Moçambique, retornados, e outras bizarrias estranhamente introduzidas no calendário cultural por uma volta mais descontrolada do planeta. Mas está tudo bem, a Raquel é gira, simpática, agradável, promissora. Se por cada Tordo existisse uma Raquel, transmutava toda a minha teoria psicanalítica do ressentimento numa defesa do amor livre, rodeado de malmequeres e barrinhas de incenso a queimar até de madrugada; em momento oportuno explicitarei as minhas ideias para restaurar a confiança das pessoas no projeto Europeu.
 
 
 
Cena que os queridos leitores não fizeram o favor de informar, muito obrigadinho.
 
 
Pessoa da cultura com Raquel Ochoa.
 
 
 
Um Ogre da floresta tenta atacar Raquel Ochoa, e esta, corajosamente, apesar do descontrolo visível, com evidente sobressalto cutâneo, mas também instabilizada ao nível do vestuário, recusa-se a entregar o estojo com o anel mágico.
 
 
 
Pessoas da cultura visivelmente incapazes na presença de Raquel Ochoa.
 
 
Pessoa da cultura...não, esfregona com casaco de veludo castanho e camisa branca ouve religiosamente Raquel Ochoa.
 
 
 
 
Raquel Ochoa numa iniciativa desse projeto sustentado, a Byblos (mas eu é que sou maluco) e na companhia do desaparecido justiceiro, Michael Knigth, um homem que.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Confesso que não percebi.

 
"The master" é suposto ser exactamente o quê? Um documentário? Uma tela onde as personagens vão construindo a sua história, mas sem nunca se preocuparem em contar uma história?

Eu não estou interessado em contos morais, a que o filme inteligentemente se esquiva, nem em finais bem atadinhos com fita de embrulho. Mas caramba, saí do cinema convencido que a Bruxelas não chegaram todas as bobines do filme.


O problema do excesso de facilidade na vida, é ficarmos surdos para as coisas fodidas.

 
 
Há qualquer coisa que me diz que não existe aqui mistério nenhum. Este é um livro imperial e soberbo, como todos os livros nascidos da admiração religiosa. Também este está cheio do zelo dos conversos, da impaciência dos que chegaram tarde, da melancolia dos que só experimentam a festa do lado de fora, dos que abrem a esfomeada garganta para as migalhas prestes a rolar da toalha de linho. Contudo, para os que resistem a esse relâmpago humilhante, a prisão do intelecto na repetição profissional do ensino, nada de mais fraterno, compreensível, familiar, do que um autor que fez da ridicularização da pose artística e da violenta crítica à pretensa profundidade da arte, a mais eloquente manifestação de inteligência. Shakespeare foi tanto mais genial quanto mais o comércio da sua desorientação interior foi rendendo os fabulosos juros do mais competente prestamista judeu, criando um incentivo à manuntenção do perigo pessoal na mesma medida em que, por interesse pecuniário, se equilíbrava, sem nunca cair, diante do abismo. Bloom falha em toda a linha quando pretende colocar todas as fichas do sucesso nas condições do destino. A vitória do carácter de uma personagem, como de um autor, depende da taxa de esforço, não das condições iniciais. Ainda não nasceu o indivíduo capaz de sintetizar as características do texto ideal, do ponto de vista da sobrevivência universal. Mas Shakespeare é um caso de articulação perfeita entre combatividade, ressentimento e elegância. Ninguém até hoje deve ter sofrido tanto com o insuportável ruído da sua própria voz. Só um ódio visceral contra a própria personalidade pode levar a expressão da linguagem a estas altitudes.
 
 

Cheguei aos 0x22 e continuamos a dar-lhe com força.


quarta-feira, 6 de março de 2013

Mergulhemos no perigoso realismo mental que me caracteriza (sendo eu um autor de origem rural com precoce desenvolvimento suburbano): no fundo, era isto que eu queria dizer aqui há uns dias.

 O Padrinho.

Monica Bellucci, Palazzolo Acreide, Sicily 1997 by Ferdinando Scianna

Monica Belluci, Palazzolo Acreide, Sicília (1997, Ferdinando Scianna).


Para os descontentes com a minha breve introdução ao problema do neo-realismo em cinco pontos venho aqui aduzir uma nova e brevíssima introdução ao mesmo problema, só que desta vez em apenas três mas longos pontos de desenvolvimento. Tenham paciência que toda a virtude exige a devida e proporcional ascese: queixaram-se da cena, agora levam com a correção. Como recompensa aos leitores persistentes faço notar que serão referidos episódios da vida de vagabundos virtuosos deportados para a Sibéria, pedaços da crítica literária do inesquecível juiz de Chicago, Richard A. Posner, paralelismos com a teoria etnográfica de Jorge Dias, panoramas serranos vários de várias zonas do país, a histeria teórica de Pasolini, o sempre presente Italo Calvino, e uma breve referência ao melhor ala direito de todos os tempos, Vítor Paneira, futebolista de elite que tal como o péssimo escritor desconhecido, Jorge Reis Sá, é natural de Vila Nova de Famalicão. Oferece-se neste blogue uma transcrição gratuita dos respetivos comentários onde os leitores identificarem as devidas ligações entre estes elementos e os argumentos desenvolvidos no corpo do texto. Boa sorte a todos. Que comecem os jogos.

1. 
A literatura de fundo etnográfico e antropológico ao pretender potenciar um património natural, perde-se muito naturalmente em sociologia amadora, para não dizer em folclore carnavalesco, a menos que seja guiada por aquela impiedosa certeza de saber que toda a operação de renúncia estilística, de redução ao essencial é um acto de moralidade literária segundo afirma Calvino na magnífica coleção de raciocínios que é Sobre o Conto de Fadas, (Teorema, 2002, p. 28). O problema é que toda a economia moral implica um renúncia e uma redução ao essencial, uma redundância que é pouco mais que um pântano metodológico, sendo a maior dificuldade a definição do algoritmo inicial que permite programar o tipo de operações de renúncia e redução implícitas  numa representação do «povo». Estas tarefas são muito dificeis de articular, sobretudo se o objetivo é manter um ponto de vista artístico, isto é, se pretendemos ordenar o discurso segundo uma coerência algures intelegível ao menos por um leitor ideal, o que não se afigura fácil, sobretudo neste caso, tendo em conta as toneladas de literatura científica, política e histórica que é preciso assimilar para representar um conceito tão injetado de substâncias venenosas como é o «povo», esse animal vário e de muitas cabeças que sempre motivou nas Cortes dos poderosos, dos eruditos e dos letrados, os mais infinitos juízos, isto para citar a Crónica da Guiné de Gomes Eanes de Zurara.


2.1.
O primeiro acto de humildade de qualquer escritor que pretende representar o povo seria ouvir os narradores do povo: razão pela qual José Saramago chegou à sua obra prima Levantados do Chão. Mas o facto de os narradores serem oriundos do povo não implica que não sejam o resultado de uma economia mais eficiente do que aquela que tem gerado autores eruditos e impressos. A ideia de que a organização económica depende de prémios monetários é um erro comum e não pretendo aqui discuti-lo, mas convém lembrar que os incentivos colocados pela atenção de uma plateia de camponeses que não tem outros critérios de preferência se não a satisfação obtida com a distribuição do seu tempo e atenção disponíveis, num contexto de custos de transação zero, isto é, o adro da igreja, a roda de uma fogueira, as pedras de uma eira numa noite de Verão, a sombra fresca diante de um milharal, é o ambiente perfeito para uma concorrência também perfeita e capaz de transferir os direitos de contar uma história para aqueles que melhor dominam as técnicas da narrativa mais agradáveis aos destinatários do processo: o povo. Resultado: fabulosos anónimos contadores de histórias anónimas emergindo sobretudo nos ambientes socialmente mais arcaicos, com maior tempo de sol disponível, no âmbito de maior predominância de formas comunitárias e informais de educação, tendo como pano de fundo as mais agradáveis paisagens exteriores, um clima ameno, e a toda a volta a muralha intransponível do mar: eis o maravilhoso reino da Sicília.




2.
Todos os que já apascentaram rebanhos de cabras num dia invernoso ou ajoelharam a rebentar de prazer no lajeado frio de uma igreja de província repleta de mulheres víuvas vestidas de negro, sabem que os melhores exemplos de contacto com o «povo» são os que decorrem do contacto com exemplos de excelência desse mesmo povo, exemplos distintos mas tipificadores. Quero dizer que todos os tipos populares de referência resultam de um processo de competição paritário e anónimo que obriga a altíssimos níveis de especialização das capacidades. Permitam-me que lembre aqui o facto de os melhores economistas ditos neo-liberais (risos) serem pessoas conscientes de que a igualdade gera maior especialização e que na economia da família, ao longo do século XX, as diferenças biológicas funcionaram como um travão do grau de especialização. Os contratos de longo-termo entre homens e mulheres, constantes de quase todas as sociedades rurais, pretendiam proteger a mulher, e esta, no contexto da sua vantagem comparativa na produção e acompanhamento dos filhos, abraçou essa especialização e divisão do trabalho. Mas os prémios no investimento em capital humano, trazidos pela industrialização, as fábricas, os empregos nos escritórios das cidades, acentuaram o conflito de interesses, o que tornou mais fácil a quebra do contrato. Nestas sociedades arcaicas e neo-realistas, digamos assim, emergiu um prémio para uma monitorização mais acentuada (controlo do corpo das mulheres) e redução da privacidade pela vigilância constante da aldeia, e somos chegados a grande parte da parafernália temática da literatura portuguesa publicada depois de 1930.


2.1.
Isto significa que os efeitos económicos do capitalismo denunciados por autores menores como Fernando Namora ou Manuel da Fonseca, e mesmo por cantores brilhantes como José Afonso, que no espectacular tema «Os Fantoches de Kissinger» refere a fome e a prostituição trazida ao largo da aldeia pelos americanos, e digo isto com lágrimas nos olhos, são no fundo pressões eruditas inconscientes em direção à industrialização, pois o meio é a mensagem. Para utilizar linguagem clássica e marxista, a desagregação da economia feudal tem na pena dos neo-realistas e nos seus projetos de escolarização a sua mais espectacular aparição, representando para a cultura popular da narrativa o mesmo que o motor a carvão representou para a cultura popular do moinho mecânico. O capital entra em cena e quem paga é a narrativa. As condições em que decorria este adestramento na capacidade oral dos povos do sul, uma capacidade combatida pelo fanático Platão, um homem doente e apostado em expulsar todos os brilhantes rapsodos de Atenas, foram tardiamente destruídas em Portugal, o que apenas comprova a indigência da nossa literatura impressa e a excelência da nossa narrativa oral popular que é preciso recuperar com urgência e não estou a falar dessas cenas de mitras analfabetos nos bairros sociais, que fique claro.


2.1.2.
Tenham paciência com as contradições desta vida. Existiu uma economia popular da narrativa oral, bastante mais competitiva e fraterna, amplamente destruída pela literatura impressa, tanto a dos neo-realistas como a outra. O próprio Calvino quando lembra o artesanato finíssimo dos contos sicilianos está a distingui-los da grosseria narrativa de outros materiais respigados em locais da Itália menos elegantes, misteriosos, hipnotizantes, materiais trabalhados por mãos de dedos grossos, ainda que justos e sofredores. No entanto, essas histórias nunca alcançaram o prestígio das narrativas geradas pela Sicília, cada vez mais pobre em capital, mas opulenta em cultura narrativa, o que prova a hipótese de um mercado popular oral muito eficiente nas zonas meridionais da Europa, em que as condições de concorrência eram mais interessantes do aquelas que presidiram à formação de clubes limitados de autores com as suas ineficientes editoras, ligados a forças políticas e económicas do mundo urbano de meados do século XX. Por outro lado, o que distinguia cada narrador popular era sempre um mundo de imaginação mais sofrido, um ritmo interior mais elaborado, seguro, cadenciado, uma paixão mais finamente recortada ou uma esperança mais profundamente contada, mesmo quando se exprimiam através da propensão coletiva para efabular. A rápida transação desses produtos orais e a facilidade da sua possível substituição entre narradores alternarivos, premiaram uma competição tremenda, um autêntico tear humano, uma impressora colectiva cujo papel era fornecido por cérebros naturalmente potentes e predispostos para recolher esses fios mágicos de significado perfeito e encantador.


2.1.2.2.
O caso citado por Italo Calvino (p. 32), coloca diante dos nossos olhos comovidos a maravilhosa criada e costureira de um grande casa de Palermo. Embora analfabeta, o seu desempenho é ilustrativo desta especialização do mercado da narrativa oral, onde emergem regras de competição quase perfeita. Sabemos que fazia uso de todos os recursos necessários à precisão retórica da narrativa e quando a economia moral da sua voz impunha que um navio viajasse, levando um príncipe de coração destroçado, um pirata apaixonado ou um mercador traído, a velha desencantava frases e termos da marinhagem, só conhecidos por gente com muita experiência do mar, e isto sem dar por isso. A expressão é de Gusieppe Pitré, ilustre intelectual, burguês rico oitocentista e recolector dos materiais, criado pela velha senhora, e demonstra a ingenuidade analítica do escritor escolarizado, isto digo eu, que sou uma pessoa não embalada pela dita criada, mas por criada da própria família, sabendo de ciência certa como funciona tipo de talento narrativo. Claro que a velha dava por isso, o estudioso de salão é que não dava pelo facto de a velha dar por isso. O que caracteriza esse dar-por-isso (esta merda parece um ensaio filosófico da Maria Filomena Molder) é uma junção da memória prodigiosa com o conhecimento consistente da realidade, ou seja, o domínio das capacidades de todo o génio narrativo. A invocação dos aspetos precisos do tecido narrativo, ainda mais numa cultura oral, demostram uma prodigiosa capacidade de convocar materiais impressos na memória testando os seus efeitos nas expressões dos ouvintes, e calculando estatisticamente quais os conceitos mais capazes de prender a atenção. Reparem no que isto significa de conhecimento adquirido, de trabalho e experimentação, de computação de probabilidades. Nós que fomos formados pela leitura silenciosa, temos a arrogância dos ascetas que julgam que os prazeres do amor se reduzem à contemplação das hóstias sagradas. Deus nos livre, deus nos livre.


2.1.2.2.1.
Se formos corajosos veremos que nada distingue esta velha de um semi-profissional da escrita como Melville, e lembro que este competiu num mercado altamente concorrencial, daí o seu adestramento. De um ponto de vista da técnica performativa, a precisão e o domínio com que Melville relata e maneja os argumentos e constrangimentos em questão no processo legal levantado pelo direito de guerra contra o protagonista de Billy Bud, o jovem, honrado e corajoso, marinheiro, são os mesmos com que a velha desfila preceitos técnicos da cozedura do pão, uma actividade altamente especializada na Sicília do século XX.



3.
O propósito económico agudiza a excelência, o que é o mesmo que dizer, através das palavras de Rosseau, sempre doces de citar, a necessidade é a mãe da indústria: o que seria de mim se tivesse nascido brilhante mas em berço de ouro? Seria um Nuno Crato, ou muito pior, um Mário Cláudio (tirando a mariquice, bem entendido), o que seria uma chatice de morte e uma perda para os estimados leitores que apreciam este blogue. Para não voltar à orientalice das Mil e Uma Noites, constatemos o exemplo dos vagabundos deportados junto ao rio Lena na Sibéria, correndo as aldeias para contar histórias, prolongando-as infinitamente para se demorarem até à hora do jantar e se possível, ficarem abrigados toda a noite, junto do fogo, quando a neve urrava lá fora lançando os seus punhos de vento gelado contra as portas de madeira dos casebres. Vem imediatamente à memória o caso de Tchekov, autor de um imenso repositório de dados etnográficos da mais fina qualidade, sem pinta de sentimentalismo ou redução política primária, e nesse sentido, a economia moral que preside à seleção daquele material é genuinamente estética no sentido em que obedece aos sentimentos de prazer que o escritor e médico retirava das suas recordações dos anos vividos entre o «povo», formando daquele fundo de pobreza onde se movia, as mais ricas tapeçarias narrativas, ornadas com as mais finas jóias da tragédia humana, e sinto-me inundado de vergonha só de pensar que um crítico como George Steiner compara os contos de Tchekov às torrentes mentais desconexas periféricas e sentimentais de António Lobo Antunes, autor de textos quase sempre injetados de protestos morais tristemente artificiais e previsíveis, totalmente decalcados de uma vontade de ser escritor, e pouco apostado em descrever as suas emoções mentais, por paradoxal que isto possa parecer aos leigos nestas coisas.


3.1.
Deste ponto de vista é curioso notar que António Lobo Antunes é uma razoável concretização (faça-se a justiça) nem sempre assumida, de uma admiração juvenil por dois escritores talentosos mas limitados, dois autores que dominaram o panorama literário português no final dos anos sessenta, Almeida Faria e Vergílio Ferreira, o que dá conta da confusão mortal em que podemos cair quando nos deixamos hipnotizar pelas questões filosóficas e metodológicas. À cabeça da vasta gama de armadilhas está a já estafadamente identificada Stream of consciousness, um dos mais lamentáveis equívocos na construção dos mecanismos de credibilidade narrativa, pois nada há de menos credível do que a realidade da nossa confusão mental quando não filtrada pelo génio, a elegância e uma verdadeira economia moral, como sabia o também genial explorador de materiais folclóricos, Mark Twain. Assim, para caraterizar o «povo» é preciso ter sido parte do «povo», tal como para caracterizar a nossa mente, é preciso ocupar pelo menos uma pequena parte da nossa mente, permanecendo aí dentro como Heitor dentro das muralhas de Tróia (tudo menos perder a elegância, o sentido da ordem e a posse de uma estratégia com que enfrentar a derrota da nossa mais do que evidente incapacidade de representar as coisas tais como são).


3.1.1.
É evidente que esta é a única forma de contornar os labirintos metodológicos e o enjôo dos estudos etnográficos, sociológicos e linguísticos, evitando soçobrar num mar de parvoíces teóricas e sentimentais. Eu diria que para cantar o camponês, o operário, o periférico e o vagabundo é preciso odiar o camponês, o operário, o periférico e o vagabundo com aquele ódio de quem foge de um destino horrível mas provável e conhecido, pelo menos tanto quanto se ama a arte e os seus essenciais dotes de observação, razão pela qual o mundo dos livros, tão detestado por toda a gente, aguarda com urgência a publicação das obras deste autor que vos fala, e que é um genuíno produto dos mais trágicos equívocos do Portugal revolucionário.

Stefania Sandrelli. Seduced and Abandoned (1964, Pietro Germi).

Stefania Sandrelli. Seduzida e Abandonada (1964, Pietro Germi).