terça-feira, 29 de novembro de 2016

Aquilo a que se chama a filosofia epistemológica

Kate Winslet:

Sai uma sandes de presunto e uma caneca de vinho verde (tinto) para este rapaz que se tem alimentado mal



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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Televisão em movimento


Para lidar apropriadamente com a quantidade de ideias confusas lançadas nesta prosa poética, seria preciso uma verdadeira legião de autores com o dobro do meu gabarito intelectual e o triplo da minha energia literária, mas como bem sabe o público deste blog, nunca nos negamos ao confronto.

Subscrevemos a primeira afirmação, ou seja: a Cristina Ferreira não só é uma apresentadora de programas populistas da televisão portuguesa, como é também uma apresentadora de programas populistas da televisão portuguesa, sendo que a professora doutora camarada Paula Cosme Pinto, autora do artigo acima supracitado, considera que, em verdade vos digo, a Cristina que muito prezamos Ferreira é também (e passamos a citar, portanto, abrir - perdão - aspas): «uma grande estratega e empresária» e um símbolo vivo da «meritocracia». Recomendamos, neste momento, muita calma. Não vamos referir o investimento em horas de televisão por metro quadrado de área de construção em Malveira da Serra, mas queremos, contudo, dizer algumas palavras sobre gostar ou não gostar do tipo de programa que a Cristina Empresária Estratega Ferreira faz no pequeno ecrã: a relação entre o gosto, o valor comercial de uma marca e a capacidade de gerar audiências é um problema com capacidade para fritar os neurónios à doutora Paula Cosme Pinto, o que, bem tememos, talvez tenha acontecido. O programa é direccionado às massas, massas essas que, em verdade vos digo, concorrem para o sucesso da referida apresentadora, segundo o critério de aferição do que pode considerar-se, a preços de 2016, uma apresentadora de sucesso, ou seja, uma cavalona, digamos, de qualidade estratégica. Mas quantos anos de exposição mediática de homens com bigodinho pagos por uma televisão pública com monopólio da emissão seriam necessários para gerar o referido valor da muito justamente valorizada Cristina Ferreira? Seria justo começar por aqui.

Será que isto belisca a nossa consideração pela condição, digamos, feminina? En-ten-da-mo-nos, se queremos citar o camarada Francisco Louçã, pois o público bem sabe estar, no caso da minha pessoa, na presença de um autor que, inclusivamente, frequentou o mês de Maria, rezou o terço, ajoelhou muitas vezes diante da graciosa e imortal criatura, a estrela da manhã, o berço de virtudes, a cheia de graça, farol do desejo, graciosa mãe natureza, vulgo, a mulher.

Deixando de lado a melindrosa questão acerca do reverencial respeito com que eventualmente se possa misturar chavascal e consideração, perguntamos à doutora professora engenheira Paula Cosme Pinto, de que modo se consegue a atenção de milhões de pessoas sem o recurso a um canal de televisão e à companhia de um desde já por si, apresentador com a atenção de milhões de pessoas, vulgo, Manuel Luís com todo o respeito Goucha? De modo algum queremos aqui beliscar a honorabilidade da referida Cristina Tranca Ferreira, e tudo temos feito neste blogue para a salvaguardar dos vampiros da crítica literária, mas não levemos longe de mais o esforço de justiça, transformando esta questão num problema de índole, digamos, filosófica.

Pergunta, pois, e de lágrimas nos olhos, este famigerado autor que vos fala: quantos anónimos extenuados de trabalho, empenho, profissionalismo, tenacidade, capacidade de criar uma marca em torno de si próprios, continuam a limpar casas de banho ou a levantar graciosamente tabuleiros no centro comercial - com um máximo de televisiva simpatia, eloquência, competência, apetência, suavidade - sem que isso se traduza, digamos, num centésimo do valor conferido pelo sistema de preços, vulgo, carrocel circense em que vivemos? E isto apesar do valor estratégico com que levam o detergente às imundas casas de banho, ou da cabal responsabilidade com que encaminham os hóspedes à porta de um hotel.

No fundo, o Portugal dos pequeninos é o Portugal onde os pequeninos nunca podem, contudo, exteriorizar o seu ódio em paz, ou seja, apenas podem, no fundo, utilizar os recursos democraticamente postos à disposição pelo capitalismo libertário, para fundamentar os pilares da criação de riqueza, oleados pelo ódio (e o desejo) dos referidos pequeninos (quando não incomodam ninguém), e isto num continuado ciclo sofredor que faz as delícias dos doutorados em Economia austríaca com sotaque portuense. Na minha humilde opinião, este estado de coisas tem beneficiado muito pouco o público, no sentido em que as ineficiências de mercado (geradas por tiques de autoritarismo pedante) continuam a representar uma rigidez essencialmente frígida no que ao sistema de preços diz respeito. E isto significa que a valorização dos produtos - se continuamente condicionada por organizações centralizadas, como as televisões - continua a ser cavalgada por uma hierárquica, soviética, católica, apostólica, vitoriana, concepção do público enquanto conjunto de solteironas e solteirões (somos sensíveis às questões de género) muito pouco dados a, digamos, sair das suas, digamos, posições conservadoras, ou se quisermos, dos seus sofás. Vejamos, a título de medição do empenho, um excerto diarístico, da referida Cristina vulgo Ferreira:


Isto não justifica qualquer tipo de insulto, embora revele níveis de empenho e trabalho muito reduzidos, e por isso, convidamos os leitores a pensarem esta relação entre o sucesso da «estratega e empresária» Cristina vulgo Ferreira, e os «valores do trabalho, do empenho, do profissionalismo, da tenacidade, da capacidade de criar uma marca em torno de si própria, partindo do zero».

Na verdade, caríssima psicóloga engenheira doutora juíza Paula Cosme Pinto: não serão as razões do sucesso de Cristina Ferreira bem mais prosaicas (nomeadamente, sorte e tempo de antena) apesar de inteiramente legítimas? Que os projectos comerciais promovam o ódio é justamente compreensível, sobretudo quando milhares de pessoas com o triplo da inteligência e da capacidade de trabalho da Cristina Ferreira não beneficiam das suas condições, nomeadamente, a oportunidade como apresentadora da televisão, um trabalho que consideramos um justo castigo para todas as pessoas ambiciosas. Em suma, a consideração do intervalo entre as capacidades de Cristina Ferreira e a sua remuneração (directa e indirecta) justifica moralmente a difamação? Talvez não, mas seria mais fértil avançar para um enquadramento da referida difamação que não passasse pela consideração topológica e geométrica das pessoas. Entretanto, uma vez que a referida Cristina Ferreira está longe de ser caso único, recomendo ao público calma e paciência.

Por outro lado, e em verdade vos digo, toleramos todo o género de badalhoquice ao nível das cabeças de topo nos sistemas centralizados, mas quanto à liberdade de expressão no espaço público, alto lá, insultos é que não. Entretanto, está tudo bem, a Cristina Ferreira continuará a prosperar, sem revelar especial incómodo pelo ódio da turba de inquisidores, por estar plenamente consciente - e disto estamos também nós plenamente conscientes - da importância da turba na criação do valor de que a própria Cristina vulgo Ferreira se alimenta. Pode dizer-se que a bela e simpática Cristina Ferreira será nisto de um alcance mental a que justamente podemos colocar o epíteto de estratégico. Estou certo de que a mesma compreende cabalmente os insultos que, certamente, em dado momento da sua vida, também lhe terão passado pela cabeça, ou se não passaram, isso certamente se deveu a um particular benefício dos deuses da televisão. Temos pena que neste particular não seja acompanhada por mais pessoas. Por outro lado, o ódio do público nutre-se de uma justificada consciência da exploração das fragilidades civilizacionais, o que de modo algum deve ser negligenciado pelo público, sendo que, digamos, está tudo bem. Que os medíocres colunistas do Expresso ou do Diário de Notícias julguem importante insultar o público dado a insultos, é apenas um sinal de que, digamos, também está tudo bem.

© Revista Cristina

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Tudo o que tu quiseres

A julgar pelas informações continuamente despejadas pelo Facebook sobre as nossas cabeças, os jovens escritores aclamados pela crítica fazem Like, em todos os textos de estrelas emergentes, vulgo, a Alexandra Lucas Espectacularmente Coelho, com toda a sua eloquência supostamente pop, não faltando a nossa sacerdotiza inatingível, a imortalmente bela, a doutora Inês Fonseca Santos. Temos vindo a colocar esta questão do star system, vulgo, amiguismo, seguidismo, surrealismo, sem contudo obter qualquer tipo de resposta. O que nos diz esta escassa informação sobre o mundo em que vivemos? Nada, somos apenas escritores (risos) a tentar viver das suas mais singelas capacidades, a saber, o uso da inteligência,  a saber, uma coisa tão pouco escassa quanto qualquer outro dos humanos atributos, nomeadamente, um pastor chamando as ovelhas, um taxista palitando os dentes, um bombeiro coçando a urgente micose, um lojista vendendo a sua fruta, uma produtora de televisão com os seus lábios maravilhosamente untados com bâton, se for o Curto Circuito da SIC Radical, digamos, friamente, uma bela, uma belíssima rapariga, embora desligada dos frágeis mecanismos das relações (pausa) humanas, o que só podemos compreender, perfeitamente, e em toda a sua plenitude, tendo em conta as calças de cintura (trau) subida, ou seja, os ténis dourados da referida produtora, não apagam, facilmente, o cansaço de uma vida ao serviço do sucesso.

Ocorre-me indagar, pois, qual a razão do sucesso de Pedro Chagas Freitas? Só pode ser, numa palavra, a condição tão humanamente humana das pessoas, tão humana quanto no tempo de Fernandinho Nogueira, o tótó, Pessoa (ainda assim, remetemos o leitor para a miséria do historicismo), uma época em que, tal como a nossa, os familiares da Rita Ferro - da qual ilibamos os seus descendentes humanos de inegável sucesso - estavam prestes a colaborar na entronização de uma solução política de tendência, digamos, anti-democrática, anti-popular, anti-desenvolvimentista (saudações ao camarada José Neves) e anti-digamos, PUM. E isto, sem, no entanto, beliscar o futuro comercial de qualquer projecto editorial, no fundo, aos famosos será mais fácil ter sucesso editorial do que entrar no reino nos céus, o que só pode constituir motivo de esperança para o mundo dos vivos. Seremos camelos ou não seremos. Gostamos muito de sol, aguentamos a extensão do caminho, estamos conscientes da nossa responsabilidade, a saber, constituir um acidente estatístico, ou se quisermos, um milagre, no fundo, aquilo que faz da natureza o particular atributo da natureza, a saber, um espaço contínuo onde os milagres, a preço de sangue e lágrimas, são obrigados a cavar o seu glorioso caminho.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Sentir

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Segundo consta, a autora Cristina Ferreira terá vendido 15 000 livros em três dias, uma marca considerável para o Portugal leitor. Isto, escassos dias depois de Valter Hugo Mãe ter procurado cantar um fado num programa de televisão, no Brasil, seguido por muitos milhões de brasileiros. Não estou inteiramente seguro da relação entre estes dois imponentes eventos, mas o grande livro da natureza terá algures uma linha onde se explica a relação entre o desejo das pessoas e a infinita generosidade das pessoas, uma linha passível de ser representada matematicamente, no sentido de tranquilizar as mentes mais indignadas perante o curso da história. Entretanto, recomendo calma a toda gente. Vai tudo correr bem.


Neste sentido, não há nenhuma evidência no sentido de considerar que uma pessoa gostar de ver gajas na internet seja sinal de superficialidade



Antes pelo contrário, os instintos funcionam a níveis, para utilizar linguagem freudiana, bastante profundos, ainda que não tenhamos qualquer pejo em afirmar que os instintos, por si só, nada explicam, sendo necessário colocar no terreno, para estudo empírico-teórico, toda a parafernália de experiências linguístico-mentais, a que por vezes se dá o pomposo nome de literatura. A psicanálise bem tentou colocar ordem neste albergue espanhol, mas acabou a fazer programas de rádio com mulheres maduras, por sinal, de voz bastante atraente.

Consideramos que recorrer ao conceito de superficialidade para comentar as redes sociais é uma das coisas mais superficiais de todos os tempos

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

No fundo, no fundo, o escritor contemporâneo (com sucesso junto das elites) é um gajo que não aguenta a pressão do progresso

«Chega a ser proibido
O que os meus sentidos
Me dizem em segredo
Para eu fazer contigo»

Mickael Carreira, Tudo o que tu quiseres

Vamos falar de catequese, vulgo, literatura contemporânea, elites, jornalismo cultural, investigação em letras financiada pelo Estado, vamos falar de pedantice, vamos falar de tempo livre, vamos falar de autonomia e liberdade moral, vamos falar de desorientação e ilusão, vamos falar de ideologia universitária e sobranceria moral, vamos falar de pseudo-hegemonia cultural e decadência, vamos falar de um certo descontrolo verbal, vamos falar de imediatismo e preconceito, vamos falar de amor: o mais maravilhosamente plastificado dos conceitos.





















Este excerto chegou-me numa outra rede social e pertence ao aclamado livro de Valério Romão, Autismo. Curiosamente, o autismo é uma patologia tornada visível numa civilização onde domina a cultura hipnótica, repetitiva e obsessiva do alfabeto, e da normalização da linguagem - e por isso, do comportamento - com o seu belo corolário artificial, o livro impresso. Com grande perplexidade seguimos a sinuosa prosa deste autor e não pudemos deixar de alinhavar algumas notas: pelos vistos, a segunda pergunta deste excerto, quer saber se o desejo é um atributo guiado de tal forma que um dado objecto a desejar exclui todas as outras hipóteses de satisfação. Como bem sabemos, ou deveríamos saber, o funcionamento da natureza não corresponde a uma mera repetição das limitadas capacidades humanas. Será necessário utilizar o raciocínio para fazer escolhas, mais ou menos exigentes do ponto de vista das vaginas ou dos pénis com os quais queremos relações de uma considerável, digamos com o Professor Doutor Valério, urgência.

Diria que se estas gentes «se aprontam a meter a picha onde Fellini nunca ousou meter a câmara», para além da péssima imagem, seria motivo para que as referidas gentes merecessem a nossa admiração artística. Sobre a alma, remeto o leitor e a leitora para o catecismo da Igreja Católica, não sou um especialista em metafísica, deixo isso ao critério dos poetas. Por outro lado, não vejo qual a relação entre neurotransmissores, publicidade, maquilhagem e a existência de quaisquer problemas na fornicação de fantasmas, com os quais não devemos excluir à partida o contacto físico, isto se os referidos fantasmas cumprirem os preceitos da elevada lei moral Kantiana, e corresponderem ao nosso juízo estético e moral em torno de uma, digamos, certa ideia de prazer. Mas agora é proibido manter relações sexuais sem estar devidamente apaixonado? Em que universo paralelo a paixão é um fenómeno menos artificial do que a indústria dos cosméticos? Ainda que admitamos um certo automatismo na ideia de desejo, quantas calorias serão necessárias ao trabalho da imaginação para converter uma simples e frágil impressão no poderoso império da paixão?

Apetece-nos recorrer aqui a Mickael Carreira, «O teu corpo é tudo o que vejo» sendo que a passagem das impressões do corpo a uma ideia de paixão mental, só é possível com o concurso de  todos os artificialismos morais, da família cristã ao sadomasoquismo, consoante a maravilhosa e diferenciada cabeça do apaixonado, que é sempre fruto de uma esforçada narrativa, se quisermos utilizar uma expressão cara ao engenheiro José Sócrates.  No fundo, a aclamada literatura (um produto circunstancial da derrota universitária das Humanidades) é a continuação, por outros meios, da cansativa e extenuada catequese vitoriana. Valha-nos Deus.

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Como apreciadores da beleza agressiva, gostamos imenso de livros.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Toy, Levinas ou Blanchot: isto não é uma daquelas merdas para ter piada, aqui falamos muito a sério, ou seja, metemos o nosso pescoço nos carris onde passa impiedoso o mortal comboio da história

C’est dans cette perspective que Maurice Blanchot avançait cette formule admirable de précision et de grâce : « les amants sont ensemble, mais pas encore ». L’amour semble n’offrir qu’une illusion de plénitude. Il dépouille l’Autre qui lui est de fait impénétrable. D’où le paradoxe. Moins qu’une entreprise de destruction de l’Autre, l’amour serait une vaine passion, l’amour essaye de dompter une figure opaque, insensible à la caresse. L’amour est un investissement éperdu, une étrange ascèse, une marche vers l’invisible. Le toi du « je t’aime » n’est jamais mon contemporain. Terminons avec Levinas : Je l’ai choisie pour ce qu’elle avait de merveilleux, de spécial, ou d’unique ; maintenant, « j’aime en elle non pas une qualité différente de toutes les autres mais la qualité même de la différence ». Elle a beaucoup changé.

Mas também seria possível recorrer a Herberto Helder, o poetastro:

De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.
Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo.

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo


eu morrerei contigo.

Uma espuma de crepúsculos e crateras? A fome encanta? Talvez, talvez, em todo o caso, neste final, é Toy quem triunfa, o poeta sente-se intoxicado pela pirotecnia de imagens bizarras (para não dizemos burguesas) e converte-se aos encantos da utilidade, no fundo, sente os limites da racionalidade e encara a língua de frente, assume corajosamente a sua pobre condição de pessoa que acabou a viver da única coisa que lhe foi possível manejar com uma certa distinção, a língua: «Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo eu morrerei contigo.» Ainda que não estejamos certos de que o poeta esteja disposto a morrer por uma gaja, não sabemos, apesar de tudo, o Toy parece mais convincente. Posto isto, venho informar o público sobre a espectacular sabedoria democrática das nossas vidas empurradas umas contra as outras, de onde tem resultado uma esforçada mas inequívoca marcha em sentido de um Kantiano e germânico progresso. Quer isto dizer que o caminho é fácil? De modo nenhum, se fosse fácil era para os outros. Como diria Rui Vitória, não estou nada focado nesse tipo de coisas, é preciso encarar cada jogo com seriedade e ter alegria em jogar, mas que isto não nos distraia das nossas responsabilidades, o progresso, atentos aos sinais do grupo, do colectivo, da soma desta maravilhosa espécie a que pertencemos e temos orgulho em pertencer. Como sinal e prova dos fundamentos pelos quais norteamos as nossas decisões aqui fica o exemplo. Podemos interpretar o amor à luz dos textos de Blanchot, ou podemos ouvir Toy que diz - o senhor, a natureza, a humanidade e a semiótica sejam louvados - a mesmíssima coisa de forma mais económica, mais democrática, mais transparente, mais exígua e travejada, numa palavra, de forma mais racional.

Porque é que eu vou ao teu encontro se nem me vês/ porque é que me arranjo e me apronto, fico a teus pés/ (L’amour semble n’offrir qu’une illusion de plénitude) vou fingindo que até nem percebo que te sou indiferente/ E apenas por uma palavra que tu me dirijas, eu fico contente/ Porque é que eu prometo a mim mesmo não mais te ver/ e no dia seguinte procuro me convencer/ porque ainda é possível quem sabe, voltar a ter carinho/ nessa esperança procuro falar-te mas acabo sozinho/ (Il dépouille l’Autre qui lui est de fait impénétrable) Estupidamente apaixonado (D’où le paradoxe) quem me manda ser assim/ a culpa é minha por sofrer (l’amour serait une vaine passion, l’amour essaye de dompter une figure opaque, insensible à la caresse) com a mania de viver à espera que gostes de mim/ estupidamente apaixonado 
é mais forte do que eu/ tenho a certeza vou deixar a vida inteira para te amar porque o meu coração é teu. Terminons avec Levinas (j’aime en elle non pas une qualité différente de toutes les autres mais la qualité même de la différence).

A quem explicar a diferença entre o José Maria Varia Mendes e o Pedro Chagas Freitas, ficaremos eterna e penhoradamente agradecidos e ofereceremos um disco de Toy.

A Inês Fonseca Santos (aguilhão torturante das nossas manhãs, sacerdotisa do nosso ofício de viver, farol do nosso desgovernado desejo, pináculo de todos os nossos esforços catedralícios para sermos pessoas reconhecidamente pessoas) entrevistou mais um monumento de emoção, sensação, tentação, absorção, o grande, o único, o profundo, José Maria Vieira Mendes, autor das linhas que se vão seguir:

«Prefiro assim. Detesto perceber as pessoas. As pessoas que percebes não têm piada nenhuma. Normalmente são pessoas que não são pessoas. Quer dizer, são pessoas que são assim uma imagem de qualquer coisa que elas imaginam que é uma pessoa. Pessoas que se querem fazer perceber. Não consigo perceber. Não consigo perceber essa necessidade. E portanto também não percebo essas pessoas. Se calhar é como não te perceber a ti. Mas não é a mesma coisa. É diferente, é. Não sei explicar melhor do que isto.»


sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Apesar de todos os acontecimentos histórico-histéricos, nós, os verdadeiramente derrotados, vamos continuar a manter níveis de calma em posições espectacularmente elevadas

Professor Lord's book, like the studies of Milman Parry, is quite natural and appropriate to our electric age, as The Gutenberg Galaxy may help to explain. We are today as far into the electric age as the Elizabethans had advanced into the typographical and mechanical age. And we are experiencing the same confusions and indecisions which they had felt when living simultaneously in two contrasted forms of society and experience. marshall mcluhan, gutenberg galaxy, 1962



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terça-feira, 8 de novembro de 2016