sábado, 5 de dezembro de 2015

E disse o Senhor a Caim: Onde está Abel, teu irmão? E ele disse: Não sei; sou eu guardador do meu irmão?

Apenas um pormenor me chamou a atenção do entrevista ao irmão do Abdeslam Salah, o tipo que se acobardou aquando dos atentados de Paris e se presume estar escondido em Bruxelas.

Quando a entrevistadora perguntou ao irmão se não notou nada de estranho no comportamento dos irmãos, uma vez que os dois participaram nas atrocidades do passado 13 de Novembro. E a resposta foi, que efectivamente não tinha reparado em nada de estranho e que não tem sequer a possibilidade de andar a seguir o que os irmãos faziam. Embora eu acredite que Mohamed Salah esteja a ser sincero, a frase que serve de título não está la por acaso.

A senhora da foto escreveu no ínicio dos anos noventa Islam and Democracy, em parte como catarse após a primeira guerra do Golfo. A ideia que passa é a de que as sociedades muçulmanas estão ainda na fase da adolescência. Confusas, perdidas e zangadas com tudo e todos. Bem sei que as generalizações devem ser evitadas, mas é difcíl quando se fala sobre um livro que trata ao de leve algo tão complexo como a grande comunidade muçulmana (a Umma) ao longo dos séculos.

Embora a autora revele ela própria sinais de grande confusão, acertou na mouche quando aponta um dedo às cleptocracias que geralmente ocupam o poder nos países muçulmanos e mantêm a gleba sem outra esperança que a da sobrevivência diária. O outro está apontado a nós, os ocidentais (o Edward Said que me desculpe) por pactuarmos com ditadores do outro lado do Mediterrâneo. Digo ditadores porque o livro foi escrito nos anos 90, hoje provavelmente seria a indeferença que mostramos para com os conflictos sangrentos que lá sucedem.

Fica portanto a pergunta, serei eu o guardador do meu irmão ?

domingo, 29 de novembro de 2015

Será que os terroristas são muçulmanos ?

A resposta é um inquívoco, rotundo e sólido sim. Porque primeiro, eles se definem assim. Segundo porque o Islão não é um bloco homogéneo, e existem diferentes prácticas (sunitas, shiitas, sufis, etc..). Terceiro porque o Islão não é uma religião de paz, no sentido em que os seus praticantes são pacifistas empedernidos que não fazem mal a uma mosca.

A pergunta que se coloca agora é porque é que o Islão tem o quase monopólio da produção do terrorismo. Mais abaixo, e de forma muito atabalhoada, tentei uma resposta que resumidamente se traduz nisto. Boa parte da história original do Islão, e para os fanáticos portanto o Islão na sua forma mais pura porque mais perto da fonte, é violenta.  Os tipos e tipas que se deixam seduzir pelo terrorismo encontram no Islão a justificação para o nihilismo que seguem. Não fosse o Islão, e eu estou convencido que este tipos e tipas se dedicariam ao roubo, à prostituição, ao tráfico e, os mais extroviados d'entre eles, o assassínio.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Renovada genoflexão ao Edward Said

Sendo certo que discordo em alguns pontos do cavalheiro acima retratado, estou em crer que acertou na mouche quando afirma que os orientalistas (um termo perjorativo para Edward Said) vêem no Oriente uma reflexão dos seus desejos e medos mais intímos.

Se nos séculos XIX e XX, eram europeus letrados que iam em peregrinação pelo Oriente à procura de si mesmos, agora são jovens muçulmanos nascidos e educados na Europa a procurar no Oriente a resposta às suas inquetações espirituais.

Religiões de paz

Fraternização inter-religiosa de Bordeaux (c 732), com os muçulmanos a explicarem que o Islão é uma religião de paz, a um grupo de gauleses cristãos decididamente insensíveis a subtilezas teológicas. Uns quilómetros mais acima foi a vez dos cristãos explicarem que de paz percebem eles.

Hoje na TV belga, o coordenador europeu contra o terrorismo afirmou, com a calma de quem pede um pires de tremoços, que estimava em 100 mil os cidadãos europeus que decidiram ir em excursão atè a Síria. E que cerca de um terço infelizmente (o advérbio é meu) voltou.

Para as almas mais sensíveis volto a insistir que a violência vêm em várias cores. Temos, por exemplo, o mui católico Ruwanda conseguiu eliminar À katanada, cerca de 800 mil (!) almas em menos de dois meses. Ou a profundamente protestante alemanhã que reduziu a cinzas cerca de 6 milhões de humanos.

Compare-se agora com os atentados de Boston, que mataram três (sim três) pessoas e feriram com mais ou menos gravidade outras 246. Irrelevante no que toca à quantidade, eu quero antes me focar na qualidade. Os irmãos Tsarnaev fizeram pelo menos 17 mil quilómetros (ida e volta entre Boston e Grozni) com o objectivo final de matar pessoas que, provavelmente na sua imensa maioria, não sabem sequer pronunciar Chechénia.

Ou seja, a violência dos terroristas islâmicos não é contra os vizinhos (como no Ruwanda) mas sim contra uma categoria: todos os que não são como nós. Tal como os Nazis fizeram nos anos 30 e 40, por exemplo. E os bolcheviques e mencheviques antes deles.

domingo, 22 de novembro de 2015

Profunda vénia ao Edward Said, seguida de uma oferta de explicação para os tempos que vós acompanhais pela televisão e eu tenho a felicidade de assistir quase em directo. No momento em que vos escrevo, estão a occorrer várias operações policiais, duas delas a menos de 3 km da minha excelsa pessoa e as sirenes são audíveis. Mas está tudo bem, o Islam marcou e o Sporting ganhou.

Tal como o Edward Said, eu não acredito que o que se está a passar actualmente seja um confronto civilizacional. Não me interpretem mal, a Europa e o Médio Oriente são como o dia e a noite e se (actualmente) vivem lado a lado é devido a meras contigências geográficas e históricas. Pese embora representantes das supracitadas civilizações, EUA e agora a França de um lado e o Daesh do outro, andarem a trocar mimos entre eles não deixa de ser verdade que na Síria o Daesh está a levar com a Rússia (civilização ortodoxa com sabor a comunismo e temperada com pós de KGB), o Bashar (nationalismo arábico sabor a comunismo requentado) e outros ramos do Islão que agora não me lembro. A situação é portanto mais complexa do que aparenta, e portanto deixemos o mundo de faz de conta para o Costa, Centeno e associados.

O problema com o Huntigton é que está meio certo, não acertando no alvo também não o falha completamente e isso é quanto basta para que os comentadeiros se sintam confiantes em desfilar ignorância pela tv, rádio e jornais. Pior ainda no caso de quem, como este vosso criado, efectivamente leu o "Confronto de Civilizações". O Huntington fornece uma teoria, e as ferramentas, para a trabalhar. E como o homem falha o alvo por pouco, é extremamente sedutor alinhar pela melodia do confronto de civilizações.

Olhando para o desperdício de ribossoma e demais ácidos nucleicos que andaram por Paris a espalhar destruição, constato que se trata de indivídios (passe o abuso de linguagem) com vidas profundamente antisociais. Até terem encontrado o caminho para a Síria, um dia bom consistia em foder, ganzar e beber. Chegados à Síria, continuaram como dantes mas de kalash nas mãos. Estou em crer que em condições normais, estes tipos acabavam ou presos por tráfico e roubo ou com vários tiros no lombo, cortesia do gangue rival.

E o que são condições normais ? Demos um salto até ao Brasil. Nas favelas do Rio e São Paulo, decorre uma guerra urbana entre traficantes e polícia. Estou em creer que os tipos de Molenbeek, nunca teriam encontrado o caminho para a Síria se tivessem nascido no mui cristão Brasil. Porque para a vida de miséria espiritual e material, que os tipos levavam aqui em Molenbeek e noutros quartiers de Paris, o escape social devidamente sancionado no Brasil é a criminalidade e a violência com a bófia.

Trazidos de volta a Bruxelas e Paris, podemos constatar que uma não desprezável parte da população atrás das grades são exactamente magrebinos. Dito de outra forma, a criminalidade como a válvula de escape existe por cá também. Então porque é que os tipos fizeram a merda que fizeram ?

Aqui chegados é altura de jogar a manilha de trunfo, que tínhamos guardada. Eu estou convencido que o Islão facilita e justifica a via da violência como meio de afirmaçao, e controlo territorial, de um grupo. Olhando para os tempos iniciais do Islão, vemos um pequeno grupo a tentar sobreviver num meio que lhe é hostil, matando e roubando sempre que necessário. A identificação que um terrorista fará entre a sua vida e a do profeta, parece-me fácil de fazer. Aliás, a biografia que Lawrence Wright faz de Zawahiri e Bin Laden é disso exemplo. Os tipos passaram as passas do Algarve, e muitas vezes quase tudo parecia perdido. Penso que se viam como encarnando uma versão moderna do profeta, e a forma quase miraculosa como foram escapando com vida das várias encrencas em que se meteram, apenas reforçou a esta crença.

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O irmão do Salah Abdeslam foi hoje entrevistado pela televisão belga. Prefere que o irmão seja preso antes que morto. Eu também. Já chega de morte.

Tempo de reflexão

Um comentário típico dos muçulmanos tem sido que os fascínoras de Paris (e Síria, e Nigéria, e Mali, e Afeganistão, e etc...) não são muçulmanos porque bebem, fumam e não vão à mesquita. Curiosamente ausente da lista de coisas que os muçulmanos não fazem está o matar gente indiscriminadamente.

sábado, 21 de novembro de 2015

Sobre as reacções

A reacção quase unâmine das pessoas que conheciam os terroristas, foi de espanto e incredulidade. Eram todos bons rapazes, não se percebe como e porque é que fizeram o que fizeram.

O tom dissonante é em relação à moça que se fez explodir, sobre a qual disseram o que Maomé não disse do toucinho. Não deixa de ter a sua piada. Eles bons rapazes, ela uma putéfia.

Uma outra reacção típica, no sentido Newtoniano, foi a de classificar os bairros onde viviam os tipos como sendo lugares aprazíveis, onde podemos sem qualquer problema, deixar a carteira e o telemóveis bem visíveis dentro do carro destrancado.

A última reacção que se costuma ver, classifico-a como "os muçulmanos com quem eu me dou são todos tipos simpáticos". Como é óbvio, porque se não fossem tipos fixolas não estariam no vosso círculo de amigos.


Cuidado com as falácias

Antes de tentar responder à pergunta aqui por debaixo, duas pequenas notas sobre esta discussão.

Aqui compara-se Jesus e Buda a Maomé. Indirectamente, está certo, mas a comparação está lá. Buda desconheço, mas Jesus é (para os cristãos) Deus encarnado enquanto que Maomé e Jesus são (para os muçulmanos) profetas.É natural portanto que a relação do cristianismo, nas suas várias formas, com Jesus seja distincto da relação dos muçulmanos, mas suas várias formas, com Maomé.

Termino com uma chamada de atenção para o facto de o catolicismo ter em tempos bem recentes, sujado as mãos q.b. no Ruwanda ou na Bósnia. Não pretendo com isto nivelar o campo moral, apenas sim chamar a atenção para os diferentes tipos de violência que estão em jogo. No Ruwanda, por exemplo, foi todo um grupo que se dedicou, com brio e afinco, a chacinar outro. O Daesh, tal como o Boko Haram ou a Al-Quaeda, têm como objectivo o controlo territorial e a legitimação internacional desse controlo.



Pergunta

Um dos argumentos mais ouvidos sempre que um muçulmano se explode após ter morto uma mão cheia de inocentes, é que ser muçulmano não é ser terrorista.

Pois bem, seja. O que distingue então os muçulmanos dos tipos por detrás das carnificinas de Paris, Síria, Boston, Nova Yorque, Madrid e Londres (concentrando-me apenas e só no presente milénio) ?

sábado, 14 de novembro de 2015

Paris 13Nov15

Show me just what Muhammad brought that was new and there you will find things only evil and inhuman, such as his command to spread by the sword the faith he preached.

God is not pleased by blood – and not acting reasonably is contrary to God's nature. Faith is born of the soul, not the body. Whoever would lead someone to faith needs the ability to speak well and to reason properly, without violence and threats... To convince a reasonable soul, one does not need a strong arm, or weapons of any kind, or any other means of threatening a person with death...

Manuel Paleólogo


Estou a braços com uma dissonância cognitiva. Eu sei que os muçulmanos são pessoas como eu. Mas pessoas como eu não andam a matar pessoas como eu. Portanto, será que os muçulmanos são pessoas como eu ?

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

A Faina: uma história social.

Joel Neto, A Faina



Mágoas e traições. Solidões. 
Dificuldades e tropeções. Trapalhões. 
Falta de talento e ambições. Escoriações.
Homem embriagado, ontem à noite, em Matos Cheirinhos, Abóbada.



Julgo termos já chegado aquela saborosa fase da nossa relação, em que nos podemos permitir coisas, como o não justificar a abordagem de um dado escritor, em vez de um outro qualquer. Além do mais, foi-nos pedido expressamente, na caixa de comentários, que voltássemos a Joel Neto. Pedido justo, legítimo. Contudo, não tivemos até ao momento qualquer oportunidade para desenterrar esse glorioso marco na história do jornalismo português. Nem sequer nos despertou qualquer sentimento de análise, o anunciando «regresso do grande romance aos Açores» (de onde, parece, o grande romance tinha partido, em busca de melhor vida). Hoje, porém, encontrámos, por mero acaso, uma melancólica reflexão sobre a faina, da autoria do aclamado autor insular. Como o leitor pode constatar, a crónica A Faina é uma bonita rememoração, quase Elegíaca, de um homem a braços com a sua culpa (embora também inclua cavalas e código morse, e uma senhora chamada Catarina, aparentemente, suada). Ora muito bem, eis, finalmente, um regresso a esse tema literário por excelência: a culpa, a melancólica e ocidental culpa, a culpa de não ter nada para fazer, enquanto se repuxa da minúscula cabeça o doloroso parágrafo, e enquanto os pescadores anónimos, ao longe, se preparam, alegadamente, para  pesca da cavala, espécie a que, hipoteticamente, fará mal o Outono; não sabemos, é uma ideia, apenas em tese, avançada no texto.

Joel Neto é um belo cultor da frase curta, não querendo arriscar as esquinas dos períodos mais longos, embora por vezes, a fazer fé no seu relato, procure ler morse, sem saber morse. O leitor pergunta-se: porque tenta alguém ler morse, sem saber morse? Talvez pela mesma razão que muitos se arriscam a serem escritores, sem saber escrever. Seria injusto, contudo, ficar pelo elogio da frase curta. Há nesta crónica uma panóplia de sentimentos contraditórios, desde o aguçar dos ouvidos para constatar o rumor da música pop e o marulhar das ondas, até à constatação fria, cruel, verdadeira, de que todos os Invernos morrem pescadores

A alusão às tempestades e aos pedidos de socorro imprimem no leitor um sentimento de perigo, em que logo vêm à imaginação os dolorosos naufrágios da costa portuguesa. Mas não se julgue que Joel Neto, lançando mão do sentimentalismo barato, ou à boleia do baixo jornalismo, que tão amiúde e corajosamente o nosso autor vitupera, procura tirar partido dos mais recentes e dramáticos episódios na costa portuguesa. Quando Joel Neto se refere às mulheres em casa rezando, é na paleta memorial da nação que vai molhar o seu pincel: velhinhas nazarenas ou poveiras, tão do apreço de poetas cantores como António Nobre, aparecem no carrossel de alusões de A Faina, e aí, Joel Neto, embalado pelo seu talento natural, arrisca o ritmo na sua prosa forte. O resultado de tão arriscado e profundo malabarismo, onde estão em jogo o próprio destino da arte da escrita e até a sorte de toda a zona económica exclusiva, é este bonito balançar da língua: Mágoas e traições. Solidões. Não resistimos a repetir a citação: Mágoas e traições. Solidões. O leitor que permaneça (ou fique) surdo com os encantos deste sonoro tambor, a ecoar por dentro dos miolos qual gongo chinês, pode não ter muitas certezas neste mundo, mas uma coisa podemos garantir: nunca entenderá a beleza da prosa da Joel Neto.

Além da beleza sonora, assalta-nos o provocador conteúdo da batida. Mágoas dos pescadores obrigados a deixar o seu lar, enquanto ele, Joel Neto, se senta confortável à lareira com os seus cães? E como sofre um homem comovido. Mágoas das mulheres rezando? Enquanto os seus maridos, companheiros e amantes vão para o mar arriscar a vida por uma cavala? E traições de quem? Dos que insensíveis à sorte dos homens do mar, continuam absortos nas suas vidas, incapazes de reconhecer um homem de talento como Joel Neto? E as solidões? Do mar, das varandas no Terceira-mar, dos píncaros onde vive solitário, o grande criador de parágrafos, obrigado a dominar as vagas de melancolia empurradas pelos furiosos ventos de uma sensibilidade incomparável? São perguntas com que o leitor se debate, no meio de uma profunda dor moral e de um indisfarçável prazer artístico.

Mas Joel Neto não se perturba com o sucesso da sua arte, e muito menos se deixa salpicar com a lama das emoções fáceis. No recato da sua profunda serenidade, não comenta as traições, as mágoas, ou as solidões. Refere, condoído e triste, o regresso da sua companheira de viagem (não sabemos se esposa, filha ou amante) a suada Catarina, após o justo exercício do ginásio. E aí, caros leitores, o escritor Joel Neto, esmagado pelas lutas interiores a que se entregou na varanda do bar, moído por uma inteligência capaz de comover-se com a sorte de homens infelizes, meros joguetes nas mãos do tresloucado mundo (Ouvirão esta música? Decifrarão as luzes do hotel? Que histórias contarão entre si? Que libertação, que desespero experimentarão a bordo daquele barquinho que uma onda poderia virar?) aí, o escritor Joel Neto, mortificado pela consciência de que vai em busca da lareira, dos cães e do sossego do seu lar, aí o escritor vibrante, pois sente a bondade e o conforto da cena campestre que está prestes a protagonizar, fazendo crepitar a lenha, rodeado de cães e das recordações do seu terrível e belo entardecer na varanda sobre o mar, aí, meus estimados leitores, o verdadeiro escritor não poderia nunca deixar de fazer essa dolorosa e derradeira pergunta: haverá cavala amanhã?

Não se julgue que falhamos aqui o significado profundo desta ironia. Não, Joel Neto não é desses arcádicos ocupado com jogos e flores. Joel Neto não nos atiraria com dúvidas sobre a cavala, se com o peixe não viessem também tesouros de sensibilidade. Joel Neto, ao perguntar pela cavala, insulta o desprezível modo de vida burguês, preocupado com a escassez da cavala e as virtudes do ômega 3, e desse modo, espeta no coração desta sociedade, falha de valores e de homens sensíveis, o verdadeiro aríete da revolta social, a palavra poética. Mesmo que a capitanear essa revolta social, venha uma pergunta acerca da comparência, na manhã seguinte, de uma cavala assada no forno. Qual Victor Hugo do Terceira-Mar (um product placement, que esperamos não envolva contrapartidas) Joel Neto obriga o leitor a terminar o seu texto, não o deixando partir sem lhe desferir uma vergastada no coração. 

Caríssimos leitores, poderão rir à vontade, se for esse o vosso desejo, mas a verdade é que, amanhã, ao almoçar, saberão como cada cavala despejada no vosso prato, implica o trabalho e o risco de vida de cada um dos pescadores que andou na dura faina. Saberão que foi preciso Mágoas e traições. Solidões. para que essa cavala possa agora jazer no prato entre salsa e batatinhas. Por isso, Joel Neto faz questão de nos lembrar: por cada conjunto de pescadores que arrisca o coiro, há um gajo numa esplanada a coçar a micose, enquanto espera pela Catarina, ainda suada. Quem paga estes vagares? Não sei, nem me diz respeito. Poderá esse gajo, habituado a coçar a micose na esplanada, ter hipóteses de vir a escrever algo capaz de agradar a este crítico? Não sei, mas desconfio que não tenha jeito para a faina.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Tenham lá paciência, mas estando nós fartinhos de filhos famílias (a arrastarem o seu sofrimento metafísico em sofás de pele, e diante de estantes com livros) estamos completamente apanhadinhos por esta lufada de ar fresco chamada Joanne Rowling (por outras palavras, há quem diga sabedoria, ou seja, o que mantém viva a literatura).



I cannot remember telling my parents that I was studying Classics; they might well have found out for the first time on graduation day. Of all the subjects on this planet, I think they would have been hard put to name one less useful than Greek mythology when it came to securing the keys to an executive bathroom.

I would like to make it clear, in parenthesis, that I do not blame my parents for their point of view. There is an expiry date on blaming your parents for steering you in the wrong direction; the moment you are old enough to take the wheel, responsibility lies with you. What is more, I cannot criticise my parents for hoping that I would never experience poverty. They had been poor themselves, and I have since been poor, and I quite agree with them that it is not an ennobling experience. Poverty entails fear, and stress, and sometimes depression; it means a thousand petty humiliations and hardships. Climbing out of poverty by your own efforts, that is indeed something on which to pride yourself, but poverty itself is romanticised only by fools.

An exceptionally short-lived marriage had imploded, and I was jobless, a loneparent, and as poor as it is possible to be in modern Britain, without being homeless. The fears that my parents had had for me, and that I had had formyself, had both come to pass, and by every usual standard, I was the biggest failure I knew

Now, I am not going to stand here and tell you that failure is fun. That period of my life was a dark one, and I had no idea that there was going to be what the press has since represented as a kind of fairy tale resolution. I had no idea then how far the tunnel extended, and for a long time, any light at the end of it was a hope rather than a reality.

So why do I talk about the benefits of failure? Simply because failure meant a stripping away of the inessential. I stopped pretending to myself that I was anything other than what I was, and began to direct all my energy into finishing the only work that mattered to me.

Atenção: temos aqui literatura e eu vou explicar porquê.

gif jon stewart JK Rowling The Daily Show

gif jon stewart JK Rowling The Daily Show

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quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Sendo que só não é político, o facto de andares a mamar no mercado do livro, mamada essa só possível pelo obsceno tempo livre disponibilizado ao professor universitário pelo pobre contribuinte (e sabe Deus com que sacrifício).

Num entendimento mais etimológico da política a que o tema da sessão aludia, Gonçalo M. Tavares sustentou que “a literatura é necessariamente política, no sentido de intervir nos problemas da cidade”, e que tudo o que ele próprio escreve “é político, mesmo estando muito afastado das questões partidárias”. Rir Mais...



terça-feira, 22 de setembro de 2015

O mundo também é isto (segundo já constava no escudo de Aquiles).

Sendo a Fátima Bonifácio mais feia que um boi, oiçamos uma outra visão sombria do mundo (mas neste caso, com inteligência e conhecimento das coisas).




segunda-feira, 21 de setembro de 2015

A literatura estará sempre a bordo de um comboio de refugiados

Refugees in Croatia
Refugiados sírios a bordo de um comboio algures na Europa, em busca de uma vida melhor, ou seja, da literatura.


e não entre as páginas do paneleiro (filho de retornados franceses da Argélia de classe média alta) do Michel Houellebecq, pelo simples facto de a literatura se transmitir por incubação de cérebros inteligentes, sensíveis, educados, cultos, corajosos, moralmente rectos e com influência intelectual, e de época para época, por sobre as vastas areias do deserto do tempo, e não segundo a agenda dos burros dos jornalistas culturais e restantes pessoas convencidas de que o seu tempo (com respectivas manias, preconceitos e medos) representa mais do que um grão de areia na já longa vida deste vasto e envelhecido planeta.


Michel Houellebecq.
O paneleiro, ressentido, burro e cínico do Michel Michele Houellebecq

A religião é uma estupidez? É. A literatura é uma estupidez? É. O Islão é a religião mais abrutalhada e perigosa de todos os tempos? Não sei, as religiões são todas abrutalhadas e perigosas, já tivemos a nossa conta com o cristianismo; felizmente, enquanto reinaram os papas e cardeais, não existiam bombas, senão tinha sido o bom e o bonito, felizmente, depois, veio o iluminismo (já em curso no mundo árabe). A literatura de escândalo é o ramos mais burro, estúpido, ignorante e perigoso da vida intelectual? É. Temos medo? Não. Acreditamos nas pessoas? Sim. Gostamos do paneleiro do Michele Houellebecq? Não. Gostamos de mulheres Sírias e Libanesas? Sim. Gostamos de terroristas? Não. Temos medo? Não. Somos irresponsáveis? Talvez. Sob a ameaça de decapitação por uma cimitarra, seríamos capazes de manter este tom espirituoso? Não sei, deus nos ajude, queremos acreditar que sim. Mas isso não importa, o instinto de sobrevivência cancela muitas vezes a razão, o que não invalida a exercício da crítica, e o triunfo da inteligência, da bondade e do raciocínio ético, assim alguém venha tomar o nosso lugar, se por acaso a nossa cabeça rolar sobre as areias do deserto, combatendo com as palavras (até onde for permitido não usar bombas e helicópteros ou drones) todas as formas de obscurantismo civilizacional, não digo violência religiosa, pois toda a guerra é uma guerra religiosa, ou não fosse a nossa religião contemporânea e ocidental-europeia, a mais fanática de todas, ou seja, a tecno-democracia.

Não acreditamos no céu, mas gostamos da vida; não estamos em sofrimento, nem queremos o sofrimento, e muito menos nos verão a propagandear o sacrifício e a austeridade financeira (só advogamos a austeridade literária, o sacrifico estético e a coragem intelectual).

Vivam os povos de todo o mundo! Vivam os religosos moderados e sábios de todo o mundo! Viva a inteligência, a crítica e a razão! Viva o prazer orientado pelo sentido estético. Viva Kant e o iluminismo. Viva Rousseau com seu aríete crítico e coragem intelectual! Viva Voltaire, com sua erudição bibliotecária e bom perfume francês, a arte de bem vestir e a boa comida. Viva a oportunidade de todos virem para a Europa (e lerem Kant, e Rousseau e Voltaire, e usarem perfume francês e provarem da boa comida) e concretizarem o sonho de uma sociedade laica (com respeito jurídico pela religião privada e guerra intelectual pública ao obscurantismo religioso). Vivam as mulheres bonitas e as feias. Vivam os biquínis e os lenços negros das nossas avós, ignorantes e preconceituosas (que é preciso combater) a rezar o terço em capelas obscuras. Viva o sul da Europa (e as suas pulsões fascistas, que é preciso combater). Viva o norte da europa (e as suas pulsões nazis, que é preciso combater). Viva a Europa de Leste (cheia de gajas boas e gajos burros, medrosos e violentos, que é preciso combater). Viva Portugal (cheio de racistas envergonhados, analfabetos endinheirados e políticos medrosos, que é preciso combater).


A cantora libanesa embaixadora da boa vontade da Unicef, Nancy Ajram.

Tenhamos calma. Vai tudo correr bem.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Europeus: é só manter a calma e respirar fundo, vai tudo correr bem - a salvação da Europa vem a caminho.

Ferries have been chartered by the Greek government to carry more than 4,000 people from Lesbos, The Independent reported.

All member states of the European Union will be in need of labour in the near future. Three factors are decisive for this development: low fertilityrates, extended life expectancy and, in most EU countries, a baby-boomgeneration in their late 50s and early 60s that will slowly be reaching retirementage over the coming decades. It is highly probable that, after a periodof moderate growth in the present decade, the EU population will stagnateuntil 2030, decline after that date and age significantly in the whole period until 2050. 

As a consequence, EU countries will enter a phase of significantlabour shortage and will be confronted with tremendous problems in financing their social-welfare systems.

Celebration: A German volunteer holds a migrant child in the air as crowds applaud at Munich's Hauptbahnhof station where hundreds of refugees arrived on Saturday evening after a treacherous journey from war-torn countries


 Grateful: A toddler beams as he is draped in an EU flag

Young Syrian refugees bring Shakespeare to life in the desert


Syrian refugee Majd Ammari, 13, acts in the role of King Lear during a rehearsal of one of Shakespeare's great tragedies, at the sprawling Zaatari refugee camp in Jordanian desert near the border with Syria, on March 8, 2014

sábado, 20 de junho de 2015

Como é que se diz corralito em grego ?

Ou sobre a fundamental necessidade da espécie humana em dividir o mundo em bons, nós, e maus, os outros.

Um tipo com dois dedos de testa compreende que a dívida pública da Grécia é insustentável e ou é perdoada, ou paga em prestações muitíssimo mais suaves.  O mesmo tipo pode, claro está, ter como objectivo na vida ser sodomizado em simultâneo pelo duo Tsipras-Varoufakis, que não deixa de estar correcto na sua análise. Mas quanto às suas preferências sexuais, já não digo o mesmo.

Um tipo com dois dedos de testa, não necessariamente o mesmo do parágrafo anterior, reconhece também sem grande esforço que o Syriza fez asneira atrás de asneira na forma como tratou com a Európa. Basta dizer que o meu rebento de três anos se comporta de forma mais adulta que o Varoufakis. E o resultado, passados que estão cinco meses, foi que o Syriza conseguiu pôr a economia em recessão, os bancos sem graveto e daqui por uma semana vão oficializar a saída da União Europeia. Engane-se quem pensa que só vão sair do Euro.

A tragédia grega, por si só tem tido um mau guião. Mas como um mal nunca vem só, os comentários à tragédia têm demonstrado a capacidade de de muita gente em explicar o inexplicável, dependendo de quem são os seus personagens principais. E estou só a falar de gente capaz de articular duas ideias seguidas em qualquer outro domínio. Senilidades à lá Mário Soares não são para aqui chamadas.

Existem imbecilidades para todos os gostos. As duas minhas preferidas sao que a Grécia (e por arrasto nosotros) fora do Euro vai crescer a ritmos milagrosos. E que o Varoufakis tem um plano secreto para tramar a Europa. No fundo, estamos a falar de gente que compreende a enorme vala comum que os gregos estão a cavar para si próprios, mas prefere pensar que os gregos têem mas é uma relação especial pelas pás e picaretas. E chega de inuendos sexuais.

Mete dó ver um país colocar malucos no poder, mas a democracia é mesmo isto. Cada país tem o governo que merece, Joseph de Maistre dixit. Mete ainda mais dó ver a Grécia ansiosa pelo colinho do Putin. A Rússia dos nossos dias é uma ditadura unipessoal de um ex-KGB. Se isto basta para seduzir os comunas gregos, moços deixam-me que vos diga: vocês contentam-se com pouco.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

O normal funcionamento das instituições

A revista saíu há já duas semanas, e tenho que ser eu a dar conta da notícia aos estimados ouvintes. Está reposto normal funcionamento das instituições. Sem mais assunto por agora, despeço-me com o melhor elogio à derrota do ano de 2016



segunda-feira, 20 de abril de 2015

Contra a barbárie, meus cabrões, só a erudição.

Num exercício de auto-crítica, comiseração e manifesta estupidez, eu, benfiquista e cidadão do mundo desenvolvido, venho hoje esfregar-vos nas gloriosas fuças o meu passado de aluno num curso de humanidades, a saber, aprendiz de especialista em mudanças, ou na sua forma traduzida, pupilo na escola da demagogia científica, ou por outras palavras, aprendiz de sacerdote na interpretação de textos ultrapassados pelo tempo, ou nem isso, somente candidato a parasita, e a soldo da crise ideológica pós-marxista, pós-tecnológica, pós-moderna, e pós-caralho, salvo seja, amen.

Convicto do meu rotundo falhanço no reino das pessoas felizes, e desde a primeira semana de aulas encornado por um destino demasiado agressivo e insidioso, ficava claro para mim, o não haver mais do que arrastar a cabeça, penosamente, pelos corredores da Universidade. Eis se não quando, enveredo pela ironia patológica, escrevendo uma recensão a um livro do espetacular e infértil, se politicamente considerado, académico, Pietro Costa, a saber, Civitas, Uma história da cidadania.

Não se falava ainda de cadáveres no mediterrâneo, e o tomo publicado pela Laterza (encomendado e pago com o cartão de crédito de um amigo, a saber, o pároco sportinguista que fez capa do Record, e entretanto varreram para Macau) acabava nas considerações de Montesquieu a propósito da lei, dos romanos, e das gajas boas raptadas por arruaceiros, e só isto bastaria para ter uma noção das veredas tortas com que o Senhor se entretém a confundir os seus filhos, para matar o tempo, uma carga de trabalhos para quem está por cima da história, da matéria e dos sofrimentos.

Mas ao aluno que eu era, com dois olhos, um nariz e uma boca, ou seja, uma cara, tantas vezes mal lavada e sonolenta, com uma sensação de barata fugitiva nos subterrâneos do mundo, não restavam dúvidas de qual seria o crucial problema, às mãos do qual, soçobraria o mundo desenvolvido. As pessoas com fome e sede de pão e de justiça, vão para onde há pão e justiça. Se forem milhões de pessoas, temos aqui um problema do caralho. Simples, não é?

Passados onze anos, enquanto retiram crianças afogadas das águas do mediterrâneo, o mar que inspirou o mais belo livro de história (a um francês, que o escreveria, enquanto preso, num campo de concentração alemão) aqui venho trazer um dos emblemas do meu falhanço como indivíduo, benfiquista e académico, por razões cognitivas, morais e sentimentais, e com muito orgulho o faço, caros leitores e amigos, com muito orgulho o faço.

Começava essa pitoresca peça de avaliação universitária com a invocação da «pressão populacional dos países subdesenvolvidos, em face das complexas relações entre Cidadania e Estado, ousando colocar drasticamente diante da prosperidade dos países europeus “the pressures of those hoping to immigrate and seek asylum”».

A seguir, atando as rédeas do cavalo à sela, erguia bem ao alto um par de bandarilhas: a primeira, entusiasmado com a agressiva reacção do touro universitário, cujos cornos estão enfeitados com as grinaldas das humanidades, aludia ao filme Apríle, de Nanni Moretti, e a sua crítica ao panorama político das eleições de Abril de 1994, onde se pretendia descrever, no seio de uma reflexão sobre as limitações do sujeito em face do sistema eleitoral, uma estreita relação entre a evolução da Cidadania e o equilíbrio de poderes. 

A segunda, consistia numa ainda mais pitoresca nota de rodapé:

[ii] Moretti insere na narrativa a dramática chegada de um navio repleto de cidadãos provenientes das costas albanesas, poucos  dias depois de numa praia de Puglia, terem morrido 89 albaneses quando a embarcação em que seguiam se afundou após um acidente com um navio da marinha italiana.

E depois de 15 páginas a elaborar sobre teoria da cidadania medieval, eis o retumbante epílogo:

Civitas, ao colocar o problema da Cidadania, transporta o leitor para a história mas não foge à pergunta: qual a relação entre a ordem jurídica e o lugar do homem no espaço político? É ainda uma outra vez o retorno à problemática situação do estranho achado de súbito numa cidade que não o reconhece. Pietro Costa não deixa de sugerir discretamente a fragilidade dos vínculos entre teorização da ordem jurídico-política e os acontecimentos reais. Como se fosse necessário voltar uma outra vez ao tribunal veneziano e comparecer perante o Doge. E ecoasse no espaço da sala repleta de magistrados a suave evocação da clemência, conduzida pela voz feminina de Pórcia, transmutada em brilhante jurista, recém chegada ao complicado processo[i]. E assistir depois ao nascimento, nesse mesmo coração outrora capaz de profundidade interpretativa e misericórdia, do implacável orgulho das leis que tutelam a cidade e incarnam nas contundentes e biliosas palavras contra Shylock[ii] - o velho mercador de Veneza, estrangeiro no seio da comunidade política[iii], infortunado habitante que num ápice se vê torturado pelos estranhos lugares de um labirinto jurídico que não pode desvendar.
Civitas, não resolvendo os limites contemporâneos da Cidadania, coloca porém no primeiro plano a questão da formação histórica da identidade da Europa, que é também a dilacerante questão da identificação dos seus limites[iv].

Era óbvio que, mais tarde ou mais cedo, iria acabar por me foder.





[i] “The quality of mercy is not starin’d/ It droppeth as the gentle rain from heaven/ Upon the palce beneath. It is twicw blest/ It blesseth him that gives and him that takes./ ‘Tis mightiest in the mightiest, it becomes/ The throned monarch better than is crown/ His sceptre shows the force of temporal power/ The atributte to awe and majesty,/ Wherein doth sit the dread and fear of kings;/ But mercy is above this sceptred sway,/ It is enthroned in the hearts of kings”, Shakespeare Complete Works, Peer ALEXANDER (ed), Collins Clear-Type Press, London and Glasgow, 1951, p. 246
[ii]  “The law hath yet another hold on you./ It is enacted in the laws of Venice,/ If it be prov’d against a alien/ That by direct or indirect attempts/ He seek the life of any citizen,/ The party ‘gainst the wich he doth contrive/ Shall seize one half his goods; the other half/Comes to the coffer of the state;/And the offender’s life lies in the mercy/ of the Duke only...”, Shakespeare Complete Works ...,p. 249
[iii]A interpretação de Costa permite-nos também enquadrar este trágico limite da lei na Inglaterra Isabelina, permitindo conhecer os interstícios do debate teórico, com a sua longa permanência de estratos da tradição [o tempero da justiça com a clemência]. No sentido de uma identificação das fontes históricas no teatro isabelino ver Dominique GOY-BLANQUET, “Elizabethan historigraphy and Shakespeare’s sources” in The Cambridge Companion to Shakeaspeare’s History Plays. Michael HATTAWAY (ed), Cambridge University Press, 2002.
[iv] Numa recente entrevista conduzida por Gianluca Sacco, Pietro Costa afirmava a identidade da Europa como realidade “che cambia drasticamente a seconda che essa agisce ( e si cocepisca) come una fortezza assediata oppure come um luogo di accoglienza e di conronto” Cf. Le Storia della cittadinanza e la Costituzione Europea, http: // rivista.ssef.it.

Nós queremos é que o Futebol Clube do Porto se foda.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Do terrorismo islâmico como problema do caralho.

Ultrapassado o período higiénico capaz de nos garantir uma apropriada blindagem, em face dos variados e nefastos malefícios da atualidade, chegou o tempo de refletirmos sobre as profundas razões que terão levado dois franceses, repito, dois, e de ascendência argelina, com nome de gadjet japonês, a comprarem metralhadoras russas para assassinar, aparentemente, sem pestanejar (isto é possível?) a quase totalidade dos membros de uma redacção de um jornal francês. Nesta como em quase todas as questões, a solução é muito simples: qualquer resposta depende do que pretendemos fazer com ela (a resposta).

O leitor terá reparado como lançando mão da utilidade (e de um simples mecanismo funcional) acabei por fugir ao problema dos fins últimos: pois justamente, fugir aos fins últimos das mais filosóficas das questões, eis o que não paramos de fazer desde há cerca de três séculos, e por experiência própria, posso garantir-vos que quanto menos fugirmos a este tipo de problemas mal colocados, mais hipóteses temos de acabar confrontados com um vendedor de metralhadoras russas.

Inúmeros comentadores chamaram a devida atenção para a complexidade do problema, e invocaram assuntos tão interessantes como o bombardeamento do Líbano, o urbanismo francês dos anos 70, Le Corbusier, a importância do humor, a protecção inviolável da liberdade de expressão, a distribuição de pessoas com barba nos subúrbios de Bruxelas, o número de gajas boas que, alegadamente, esperará os turras nos portões do paraíso (70 é um número simbólico, as gajas são infinitas, disse-me o profeta) enfim, todo um sem número de manifestações de erudição. Mas temo bem que o retrato acerca do evento terrorista se tenha ficado pelo sentido de importância que atribuímos à liberdade de expressão e à protecção da pessoa humana perante a violência, o que sendo um emblema da história autorizada e oficial do Ocidente, e apesar da sua origem sombria (o conceito de pessoa passa por mentes tão perturbadas como Platão, Paulo de Tarso ou Agostinho de Hipona, olé putas e vinho verde), está longe de ser um assunto consensual, e tendo a questão envolvido a execução sumária de um conjunto de humoristas franceses (em si mesma uma coisa terrivelmente irónica) o problema, rapidamente, adquiriu foros de escândalo moral: se fossem pretos e mineiros, tudo seria normal.

A propósito desta nuance em concreto do assunto em específico, chegámos a confrontar-nos, naqueles dias, com uma defesa jornalística do jornalismo (não me lembro agora da pessoa humana responsável pelo argumento), onde se defendia que sendo normal os europeus comoverem-se mais com a raridade, por exemplo, do terrorismo em Madrid ou em Londres, e sendo mais raro o metralhar de pessoas em Paris do que, digamos, em Cabul, era inteiramente justificado o tratamento noticioso de excepção conferido às vítimas do terrorismo dos irmãos Kouachi. Estamos, portanto, diante de mais uma manifestação do extremamente interessante princípio muito apreciado pelas pessoas de sucesso: a realidade acontece por ter acontecido a realidade, e nada mais nos é pedido, senão o reconhecimento dessa mesma realidade que nos fez o favor de ter acontecido. Julgo que para isto não são necessários jornais, jornalistas ou cientistas políticos ou comentadores, para isto, já temos os apresentadores de televisão, entre os quais a mamalhuda Cristina Ferreira, uma pessoa que, não obstante os dotes de empresária, tenho vindo a apreciar morfologicamente cada vez menos, não sei exatamente explicar porquê.

Numa linha semelhante, fomos confrontados com a tentativa de paródia ao relativismo moral, da autoria do escritor, jornalista e pessoa espectacular, embora com peso a mais, Rui Cardoso Martins, no fundo, um texto em que procura denegrir todos os que não alinham por uma defesa corajosa, imperturbável e sem sombra de hesitação,da mais que provada supremacia moral das pessoas convictas em matérias que definem as pessoas espectaculares em todos os sentidos, manifestando-se ruidosamente Cardoso Martins contra todo aquele que tem um «ADN, ora cauteloso, ora cobarde, ora radicalmente paranóico.» Sim, sou eu, obrigado.

O nosso estimado Rui Cardoso Martins chega mesmo a apresentar dados acerca da importância (os ocidentais, quando mortos, têm sempre imensa importância) do evento, nomeadamente, e a saber, os milhões de manifestantes naquele saudoso Domingo (foi a um Domingo?). Contudo, coloco a pergunta retórica, tão ao gosto do povo: mas onde é que isso já vai? Ou por outras palavras, quem se lembra hoje, ainda nem um ano passado, desse minúsculo átomo de pintelho na púbis de Clio, a musa da História?

Beijando o cu a Heraclito, é imperioso deixar passar as águas do rio, no sentido de ganhar distância sobre as coisas, mesmo que, e citando o inigualável Brodsky, o recuo perante a temperatura interpretativa possa significar uma aparente manifestação de apatia moral. Contudo, meus caros colegas e amigos, muito antes pelo contrário, é para ferver no cadinho de uma interpretação alimentada pelas fornalhas de um raciocínio bem temperado, e de constituição inquebrável, que se impõe, tantas vezes, a distância. Faz agora uns séculos que teve início essa linhagem de sistemas nervosos que, pondo-se a caminho na poeira da estrada e com lágrimas nos olhos, mas sem o relâmpago divino, aprenderam a atacar as academias de Genebra, ou os jornalistas institucionalizados, sempre que estes, apesar da abundância de recursos, facilitam, e se negam a considerar os mais prementes problemas da humanidade.

De nada nos servem, portanto, os jornais na compreensão da realidade, e sobre as convicções morais, eu diria que estamos conversados, que é como quem diz que está tudo por conversar. Se perguntássemos à/ao leitor/a porque decidiu estudar isto e não aquilo, porque razão se juntou com esta mulher/homem e não com aquela/e outro/a, porque motivo deixou de ir à missa ou abraçou a prática do aeromodelismo, estaríamos diante do mesmo tipo de problemas, a absoluta obscuridade perante a decisão e o funcionamento da mente, uma coisa que continuamente declaramos já ter compreendido, e a cada momento fazemos prova de não fazer a mais pequena ideia de como funciona.

Em face da ignorância, e num hábito muito humano, este complexo problema do terrorismo dos irmãos Kouachi aparece-nos como mais um elementar aspecto da existência orgânica dos seres vivos, onde se impõe uma decisão moral, e como tal, recorremos à biologia, neste caso particular, o ódio ao competidor/inimigo, que faz (ou pelo menos fez, durante séculos, já não digo milénios) parte do arsenal instintivo dos animais e de forma tão vincadamente humana quanto o cuidado dos velhinhos, o nosso gosto por ferramentas, ou o amor aos nossos recém-nascidos. A única coisa que é preciso explicar será então: como foi possível o Charlie Hebdo transformar-se no inimigo destes turras (fácil); como foi possível dois jovens terem caído nas malhas de um maluquinho que vê no Charlie Hebdo o inimigo (fácil); como foi possível o maluquinho ter-se transformado num maluquinho (fácil).

Só depois nos damos conta do quanto desconhecemos sobre cada um destes pontos, sendo que num só minuto, já dizia Romeu apaixonado, pode caber a vida inteira, e uma vida inteira cheia de  injustiças, incompreensões, pulsões incontroláveis, limitações nervosas, enganos, ambições, faltas de honra, o que é o mesmo que dizer, ora foda-se, a racionalidade é um labirinto do caralho, e não adianta passar a vida a importar modelos lineares (sejam políticos ou económicos) e depois, quando acontecem as merdas, despejar coragem, valores e proclamações histéricas para cima dos problemas chamados humanos. Este é um aspeto onde, em geral, os cientistas e os humanóides, por norma, se dividem, embora, no meu caso, mantenha um posição de ambiguidade estratégica, pois não partilhando da sonolência, rasta no cabelo, e do cheiro a fogueira, da maioria dos defensores do pós-modernismo, também não partilho do excesso de simplificação e modelagem em argila matemática, ou se quiserem, do excesso de vetorização mental aplicado, com vaselina, pelo cientista, a problemas complexos ou, muito pior, mal formulados.

Assim sendo, e despedindo-me por hoje, a caminho de um saudável exercício físico em pavilhão da periferia, gostaria de uma vez mais, relembrar, e porque recordar é viver, como sabemos muito pouco acerca do mundo, e ainda menos sobre nós próprios, e quanto mais tempo ignorarmos este facto, mais longe estaremos de um dia vir a compreender alguma coisa.

Zinédine Zidane.

Como bibliografia de apoio recomendo a muito fértil leitura deste paneleiro, com revisitação aqui.

sexta-feira, 13 de março de 2015

No fundo, o Facebook foi criado para eu tomar conhecimento destas maravilhas.

Anton Chekhov’s name appears in many reviews of your work. How do you relate to him as an artist? How are the works of Chekhov, or of any of the classic Russian writers, regarded in contemporary Russia? 

For me, Chekhov, like Pushkin (who is an absolute genius and therefore untranslatable), are dear, kindred spirits who don’t know that I exist. Russians treat these classics with unchanging passion and jealousy. Some years back, I wrote a piece about Pushkin’s death. I was engulfed by popular hatred. Within days, my piece was read by 14,000 readers. 

Ludmilla Petrushevskaya

quinta-feira, 12 de março de 2015

A escolha entre gajas entendida como ambiguidade sociológica.

O problema não é a existência de fenómenos de massas como a Cristina Ferreira, e a sua Revista Cristina, pois, apesar de tudo, e valha-nos deus, acreditamos estar na presença de um sintoma altamente positivo, a saber, gajas boas, para não falar desse singelo facto, a saber, as mamalhudas burrinhas terem passado a acreditar no poder cultural, financeiro, mediático e erógeno do raciocínio escrito (e mesmo contando com a hipotética quantidade de imagens, e a reduzida - ainda bem - quantidade de texto da referida revista), pensando nós, aqui e agora, nas consequências que todos adivinhamos no domínio das transformações ao nível da economia da informação, sendo inevitáveis os ganhos para todos os que, irmãos em Cristo e, iluminados pela filosofia do século XVIII, confiam no alastramento da exigência computacional, que todos temos necessidade de manter uns perante os outros, especialmente na articulação da vasta gritaria de que somos feitos, nós e o nosso vasto mundo moderno, acreditando ainda, pelo menos nós (e não querendo falar pelo mundo moderno, deus nos livre) que a Revista Cristina pode ser o esperançoso sinal desse amanhã cantante, na ultrapassagem do mais sabujo dos cepticismos, a saber, a steineriana ideia de que a cultura é compatível com a barbárie (não é, caralho, não é) assunção amplamente desmentida pelo autor de Os que Sucumbem e os que se Salvam, a quem a experiência do campo de concentração (mesmo numa versão moderada pela migração casual para um laboratório químico) não anestesiou a sentido analítico, desmentindo o saudoso escritor italiano o perigoso mito de que os oficiais das SS tocavam Schubert e liam Goethe - mas como, caralho, como? - e afirmando, claro está, como os oficiais nazis eram estatisticamente e em geral, humana e previsivelmente, emocional e artisticamente, uns burros do caralho (e aí está a confusa e paneleira obra de uma Hannah Arendt para confirmar a absoluta estupidez congénita do oficial típico do III Reich).


Repito: o problema não é a a existência em Portugal de pessoas como a Cristina Ferreira, o problema é a não existência em Portugal de pessoas mediáticas e intelectualmente estimulantes como a Maria Konnikova, e com isto, o leitor adivinhou, estou precisamente, de forma consciente, consistente e congestionada, a declarar a minha profissão de fé no aforismo tantas vezes aqui repetido, defendido e proclamado: libertem o povo, guilhotinem as elites, e teremos democracia, riqueza, saúde, cultura e gajas boas com neurónios na televisão, nos jornais e nas revistas.



It’s elementary

Deus nos ajude, pois, nesta paciente espera.

quarta-feira, 11 de março de 2015

A ignorância e a estupidez não conhecem fronteiras nem formação académica: saudemo-nos na paz de Cristo.

Free from language the music of our vocal expression is universal and rings true across races and cultures. And not just humans, just think of the family dog.

No matter where you (and your customers)are and no matter what language they speak. In life, it’s not about what you say, but how you say it.

Portanto, e se nos é permitido, gostaríamos de enviar o autor deste artigo para a puta que o pariu, perguntado ainda, com todo o respeito, a esse burro do caralho, em que molho de bróculos tinha os cornos enfiados, quando optou por escrever um texto em vez de gravar um vídeo com a sua voz de paneleiro e se por esse singelo facto, o ter optado pelo discurso verbal, ficou assim impedido da eficácia emocional por meio do texto, o grande e excelentíssimo cabrão, eficácia essa em nada incompatível com os objectivos pretendidos, diríamos nós, que não percebemos um corno desta confusão em que estamos prestes a cair como pessoas, como sociedade e como civilização do broche institucionalizado em forma de comércio.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

homoousios vs homisios

Os mais teologicamente avançados de entre vós sabem do que eu estou a falar, os outros que descubram.

A telenovela em folhetins que têm sido as discussões entre o governo grego e a União Europeia, trouxe ao lume um problema que o cristianismo nunca foi capaz de solucionar. Isto é, como manter a comunidade quando alguns dos seus membros insistem em não a respeitar.

O governo grego tem demonstrado uma desonestidade intelectual imensa. Que o governo português toma decisões politicamente motivadas, como se a política não fosse a motivação das decisões de todos os governos. Que a Europa tem que respeitar as eleições gregas, quando quem têm que as respeitar é o governo grego e cumprir com o que prometeu e provavelmente não o vai fazer. Ou as grandessíssímas filhas putices (qual é o plural de filha putice ?) que são as tentativas colar a Alemanha de hoje ao regime nazi ou equiparar a Alemanha de 1945 com a Grécia de 2015.

E antes que me atirem pedras,  não estou a tentar associar o Syriza aos téologos gregos do século 3 DC. O que mesmo assim seria mais fácil que a permanente associação da Grécia moderna, uma cultura cristã ortodoxa moldada pela sua relação com os otomanos e o ocidente, à antiguidade clássica. Só eu já devo ter lido mais Platão e Xenofontes do que os Varoufakis e o Tsipras juntos.

Das discussões com o Arianismo, entre outras, resultaram cismas e morte e destruição qb. Por isso, e apesar de não morrer d'amores pelos Syrizas, fico contente que a União Europeia tenha tido a paciência de os aturar mais um pouco a ver se atinam. Porque ostracizar (eu sei, eu sei, antiguidade clássica coiso e tal, mas não consigo encontrar outra palavra), porque ostracizar os gregos agora seria empurrá-los para a miséria. E não tenho dúvidas de que o zelo com o Syriza e o Anel se empenharam para andar à turras com o Eurogrup, seria o mesmo com que foderiam (palavra d'origem latina, senhores, tenham lá calma), com que foderiam a população para justificar os amanhãs que cantam.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Para os mais distraídos

As melhores fotos de 2014 no melhor site do mundo. Aqui, aqui e aqui

A liberdade de expressão

Ou a importância de se conhecer a dinâmica de um sistema de segunda ordem.

Fatal como o destino, após o sarrabulho de Paris, as reacções cristalizaram em torno das categorias já comuns: "morte aos sarracenos", "condeno, mas a culpa é nossa" e, o alvo deste texto, "a liberdade de expressão é sagrada". 

As duas categorias, sendo as de mais fácil accesso intelectual, foram e continuam a ser mastigadas na comunicação social. Não vale a pena gastar largura de banda com elas. Centremos a mira da 338TP na última categoria, portanto.

D. Duarte criticou o Charlie Hebdo, subrepticiamente introduzindo o termo pasquim na discussão, um abraço e um bem haja, pasquim é claramente sub-utilizado no português moderno. Os comentários rapidamente concorreram para a necessidade de liberdade de expressão, como se fosse um fim em si mesmo. E quando aqui se bate, ao de leve e mansinho, no Papa, lá aparece o tradicional "Mas alguém disse que o Papa não tem direito a ter uma opinião livre? Ele tem o direito de ter e dar a sua opinião, e eu tenho o direito de, depois de a ouvir, ter uma opinião sobre a opinião dele, e criticá-la. Foi só isso que fiz." pelo autor do post.

A liberdade de expressão é tal qual como arrear o calhau em plena Rua Augusta. Todos temos o direito de o fazer, mas será que devemos ?

A liberdade de expressão é um meio, não um fim, e parece-me impressionante que tanta gente ainda não tenha percebido isso.Se nos ficamos pelo estúpido "não concordo com o que dizes mas defenderei o direito de o dizeres", estúpidos ficamos. Tão óbvio quanto a inaptitude para o futebol de Naby Sarr, é  o facto de a expressão da mente humana se querer livre. Porque só assim nos podemos levantar da lama primordial onde todas as outras bestas da criação chafurdam alegremente. Aceitar a discussão só porque o outro grunho tem o direito a babosar idiotices, é um puro desperdício de tempo. Mais vale ir ver  o Goucha mais a Cristina.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Vocês podem ser o Charlie Hebdo, mas

eu não sou, e tento não ser, o Charlie Hebdo. Primeiro, porque o humor é rasco e segundo, porque tem como único objectivo ofender os visados. Típico de adolescentes. E não sou o único a pensar assim, visto que antes do ataque os tipos estavam com dificuldades em pagar as contas. Parece que, ao contrário dos lamúrios do alf, o mercado das ideias ainda vai revelando alguma racionalidade. O dinheiro que os manos Kouachi gastaram em kalashnikovs e lança foguetes, era mais bem empregue a comprar o Charlie para depois mudar a linha editorial.

Esta história toda impressionou-me, não pela proximidade, mas porque pura e simplesmente não consigo compreender o que levou os tipos a fazer isto. Ou os que os camaradas deles se preparavam para fazer na Bélgica. Por partes.

As atrocidades que vão sendo cometidas na Nigéria, Síria, Iraque, Paquistão, etc, fazem todo o sentido. São senhores da guerra a tentar alargar o pátio. Não deixam de ser atrocidades, e todos, em conjunto com os débeis mentais que no Facebook colocaram a bandeira do ISIL, merecem como destino uma vala comum bem regada de cal. Mas ao menos eu percebo o que os move.

Agora os tipos que fazem estas merdas na Europa, isso já é algo que eu não consigo entender. A razão oficial é infantil: sentiram-se ofendidos com caricaturas. Poderão existir outros motivos, que eu por ignorância desconheço. Em verdade vos digo irmãos que tenho andado bem mais ocupado a ler sobre paradigmas de computação e não me tem sobrado tempo para radicalismos muçulmanos. Mas mesmo que a minha ignorância possa ser a chave da minha incompreensão, também é certo que eu nunca consegui perceber o mal.

Ou seja, eu entendo o ódio (olá José Sócrates) e o desejo de violência física contra terceiros (bom dia Paulo Portas). Mas o mal, a pura essência da maldade, essa tenho sérios problemas em compreender. Serão graves deficiências psicológicas, serão as vicissitudes da vida?

Há uns tempos tive esta discussão com autóctone, cuja tese de doutoramento em história tinha sido o comportamento dos nazis belgas no pós-guerra. Ele não percebia porque é que pessoas que tinham, não só saudado os soldados alemães como dado ainda o corpo ao manifesto na campanha, não mostravam um pingo de vergonha pelos actos criminosos que foram cometidos na época. Não chegámos a uma conclusão, em parte porque nos perdemos a tentar definir o que era o mal. E quando conseguimos, não fomos capazes de aplicar a definição.

Portanto de volta à estaca zero. O que leva esta gente a fazer isto ?

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Eu também sei fazer gráficos

para desenfastiar das mamas da Alexandra, a variação do desemprego (em % da população activa) sobreposto com o Salário Mínimo Nacional (SMN) a preços constantes. Valores do PORDATA, a base de referência é o ano de 1983:

Em mais de 20 anos, o SMN aumentou quase dez vezes enquanto o desemprego praticamente nem piou. E quando o fez foi a partir da crise mundial de 2008. Portanto ou estamos a falar de (ou a graficar) coisas diferentes ou não existe relação directa, linear entre estas duas variáveis.

O cão do valter hugo mãe (salvo seja) prepara-se para assumir finalmente ser ele (o cão) o verdadeiro autor da sua (do valter hugo mãe) obra literária, o que explicaria muita coisa (para não dizer tudo), e nos deixaria a todos muito mais descansados connosco próprios, com as coisas e com o mundo.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Com quantas palavras se descreve um problema?

Os compêndios, manuais, breviários, conjuntos de regras, bíblias, listas telefónicas, sobre as famigeradas leis da escrita perfeita têm estado na ordem do dia, não sei se devido ao triunfo comercial do modelo «se podes foder-te em companhia, para quê perder mais tempo a tentar fazê-lo sozinho?» ou se por colonização massiva do espírito computacional sobre as nossas melancólicas cabeças, a saber, uma obsessão incontrolável em reduzir tudo a um algoritmo manejável pelas máquinas, não querendo, de modo algum, cometer aqui a superficialidade de explicar o fenómeno por meio da infecciosa proliferação do grande capital.

Como alternativa, este magnífico texto apresenta uma invejável síntese do mais assustador zombie da literatura moderna, a saber, uma suposta ideia de maior verosimilhança patente no pechisbeque psicologista, ou seja, uma escrita que faz do fluxo da consciência (mas que raio é essa merda?) a única forma de retratar os abismos da personalidade humana. Não entro sequer pela crítica de uma suposta profundidade da consciência (e o sublinhado é nosso), devido às minhas evidentes limitações em topologia, mas tendo em conta o sucesso comercial dos livros de António Damásio (como todos sabem, um dos piores presidentes da história do Benfica) já seria o momento do venerável público assumir que a ideia de consciência é tão inefavelmente paneleira como a de alma ou de personalidade, no fundo, um outro nome para a nossa puta ignorância sobre nós mesmos, numa frase que poderíamos atribuir ao grego Samaris, ou a Herberto Helder, com toda a certeza, um gajo que torce pelo Sporting.

Por outras palavras, quem já se confrontou com livros de divulgação na área das neurociências (e tendo em conta que a Leonor Beleza seria em nova uma gaja com um certo nível de agressividade morfológica, de um ponto de vista do homem sensível) sabe perfeitamente como os mais reputados génios da especialidade, não fazem ponta de ideia acerca do que seja a consciência. Mesmo a descrição do seu funcionamento (pelas mãos de um Gazzaniga, gajo menos espalhafatoso do que o António Damásio - e não lhe perdoamos a contratação de Artur Jorge) corre o risco de se assemelhar mais à descrição do funcionamento de uma máquina retroprojetora de transparências (e lembrei-me agora de umas aulas sobre arte rupestre dadas pela reencarnação da Marlyn Monroe, uma gaja de quem toda a Universidade dizia ter galgado o estrado do ensino académico por motivos obscuros, digamos assim) do que à descrição de um organismo vivo, qualquer que seja a definição de organismo vivo, não me fodam agora o juízo com duas questões fodidas em simultâneo, ainda que a indústria pornográfica muito nos tenha ensinado sobre essa matéria.

Em suma, estamos a secar o terreno da ficção publicável, por estarmos todos fodidos do miolo, e não há gajo nem gaja (do Chef'sAcademy ao Factor X, do Alta Definição paneleiro Oliveira à Casa das espetaculares mamas da Sofia, sejamos rigorosos, passando pelo comentário do professor Rebelo de Sousa heil hitler) repito, não há gajo nem gaja, capaz de aguentar cinco minutos de oratória confessional televisiva sem incorrer nas lágrimas, apostando eu que isto se deve a não encontrarmos solução original para os nossos problemas, que é como quem diz, uma voz própria, foda-se, caralho, quando nada nos impediria de procurar um caminho, veja-se o caso de Tolstoi (outro merdas) que via na infelicidade da adúltera sentimental um maior emblema distintivo do aquele representado pela mulher desinibida disposta a vender o corpo de forma especializada e profissional, o que não o impediu - justiça lhe seja feita - de nos falar com uma cristalina objetividade, pelo que, pergunto, teriam os russos à época um «mestre de gramática armado com régua de madeira» em lugar de um cérebro habitado por uma consciência?

Do meu triste ponto de vista, tudo se deve à imaginação lunática de uns quantos literatos que encostados à parede pelas circunstâncias específicas da sua vida (e tanto Joyce como Proust se envenenaram o suficiente com a ideia platónica de alma) deram em ressuscitar a parafernália sentimental do cristianismo sob a forma científica e mecânica da consciência, esse esgoto a céu aberto. 

I believeit is also worth pointing out that (for some sections of the novel especially),a tweet feels like (and, tripping off the tongue, even sounds like) the idealdelivery mechanism for a fractured stream-of-consciousness monologue, an artJoyce didn’t invent but certainly cemented and codified as a literary techniqueof incredible aesthetic potential. Ulysses is, in some sense, about thefragmentation of thought and culture in the modern world — a panoramic snapshotof human minds in 1904.

Logicamente, a literatura vive da descrição das coisas, 1) por uso da inteligência, e 2) com recurso ao alfabeto, as únicas regras passíveis de serem formuladas com total segurança. Quanto ao estilo e tamanho das descrições, esperamos sempre esfomeadamente esse divino momento em que alguém, libertando-se em vertigem, tanto do medo do abismo como da consolação da esperança, decide expressar-se, mandando-vos a todos vós, venerando e respeitável público, para o caralho que vos foda.

E carnevale sia! - Vittoria Risi vista da Gino Gabrieli

Um bom ano

Para aqueles que não têm tempo de ler o fabuloso texto do alf aqui colocado em baixo, fica o resumo:

1. as mamas da Alexandra são boas como o caralho
2. a Alexandra escreve mal como o caralho
3. os "críticos" querem que a Alexandra lhes chupe o caralho