quinta-feira, 26 de julho de 2012

Os mestres são os que alcançam o dom de serem ultrapassados, desculpem, esta merda parece o Paulo Coelho; é o que dá um gajo tentar explicar as coisas

Se eu fosse o Henrique Raposo começaria este texto invocando a minha experiência neo-realista, onde avulta, nomeadamente, uma tia criada e residente, à moda antiga, em vivenda unifamiliar burguesa nos arvoredos solarengos da Parede, uma mãe despedida de uma fábrica de confeções pronto-a-vestir naquele vendaval histórico que consistiu na generalização dos prazeres sensuais do porco-doce e do frango com amêndoas, e um pai electricista, a quem explodiu um quadro eléctrico de uma fábrica numa inovadora tentativa para potenciar os seus rendimentos monetários através da combustão dos próprios tecidos faciais.

No entanto, nada disto me impede de olhar para a realidade com um sentido de exigência e compaixão. É verdade que por defeito profissional fui treinado para levar o raciocínio para além do que é socialmente aceitável, mas que outros não tenham recebido um treino idêntico não justifica inteiramente que se entreguem a uma espécie de repetição eterna das suas próprias limitações: veja-se o caso de Jorge Jesus ou Joe Berardo, onde cada um, canhestramente e à sua maneira, se desfaz em esforços para falar correctamente a língua portuguesa. Ora, é pegar nesse exemplo e tranportá-lo para o pensamento político: para hipnotizar essa entidade criada pelo século XVIII - a população - com um projecto político novo, é preciso pensar para além dos limites conhecidos, mesmo que isso nos exija uma ética ninja de auto-sacrifício e o manejo de estrela pontiagudas. Se toda esta artilharia moral, imprescindível para o rebetamento dos muros que erguemos à nossa volta para nos defendermos da imprevisibilidade da vida, vos parecer um exercício ridículo e cómico, posso garantir, com auxílio demonstrantivo de toda a comédia clássica e isabelina, que é três vezes mais cómico e ridículo ouvir alguém perorando repetidamente sobre os limites do seu quintal julgando estar a ultrapassar as últimas fronteiras do universo.

Pedro Passos Coelho, após ter rapado o cabelo num barbeiro em Massamá, e questionando os limites da sua incomensurável ignorância, ouve atento as explicações espirituais de Miguel Relvas, depois de este ter ficado cego ao tentar completar a leitura compreensiva de O Príncipe, de Maquiavel


Aqui neste local, o Daniel Oliveira presta-se à demonstração do singelo procedimento da indignação perante os outros, muito habitual nas pessoas bem intencionadas mas com pouco treino nas regiões inóspitas do desconhecido. Desse modo, confunde as percepções dos direitos com os mecanismos que permitem consagrar um determinado direito como legítimo. Não estou com isto a recorrer ao exausto argumento da força das circunstâncias, estou apenas a lembrar que as funcionalidades do dinheiro - para férias, para telémoveis ou para pornografia - dependem de consensos e efeitos de contágio ideológico (como a esquerda devia carinhosamente saber) assim como da própria aceitação da liberdade na distribuição das preferências, e em função de uma expressão numérica, em euros ou em dólares, ou em qualquer bem transacionável que passar a funcionar como unidade monetária. Quando se limita a distribuição dos factores de produção e dos recursos através de um processo qualitativo, acontece em geral, e como se confirma em todos os exemplos históricos conhecidos, uma forte limitação do número de participantes na decisão, e por conseguinte - citando José Guilherme Aguiar - também na democratização dos recursos. Aliás, a importância da expressão numérica é bem visível no mecanismo eleitoral da democracia que, apesar de tudo, se tem aguentado apenas porque se podem contar os votos. A introdução de critérios verbais - os famigerados valores - de justiça, equidade ou comunhão são muito mais difíceis de operacionalizar sem um instrumento de medida e geram, quase sempre, um sistema paralelo de autoridade assente sobre o mecanismo a que convencionámos chamar dinheiro.


Qualquer restrição da organização social - como a que é obscuramente proposta pelo Daniel Oliveira - implica um compromisso com a limitação destas funcionalidades do dinheiro e da sua relação com a representação da autoridade - que manifestamente tende a ser transferida para o sistema de preços nas sociedades modernas e é a principal causa do desconforto de pessoas como o Mário Nogueira. Ora, isto não significa nenhuma tragédia mas apenas a limitação relativa da liberdade, o que não devia fazer corar um socialista. Se as pessoas em vez de frequentarem programas de entretenimento na SIC fossem ler um bocadinho, chegariam à conclusão de que o falhanço rotundo de Marx foi não ter conseguido desenhar um sistema de autoridade alternativo, após um épico trabalho na demonstração da emergência do dinheiro como expressão das relações sociais.


Gisele Bündchen, a fim de que os leitores, eventualmente enfastiados com estas questões, possam descansar, por um momento, os instrumentos cognitivos.

Quando se começam a desenhar restrições políticas sobre a diabólica «economia», invariavelmente surgem palavras ou expressões como «mais democracia», «regulação», «distribuição da riqueza», sem que se perceba exactamente qual o pressuposto geral e coerente - e por isso manipulável pelo maior número de pessoas possível - capaz de fazer brotar esses maravilhosos conceitos no coração da república. Se estamos a falar da representação parlamentar deixem-me só ir ali ao canto rir um bocadinho. Se estamos a falar de outra coisa, palpita-me que temos de trabalhar mais e pensar melhor porque o que temos até agora é muito pobre. O maior erro da esquerda - e um erro que, por exemplo, Rosseau não cometeu - é subestimar o inimigo e não fazer a devida vénia à poderosa coerência interna de um sistema de autoridade sustentado, ainda que vagamente, na ideia de preço.

É preciso compreender que o capitalismo, sendo tremendamente injusto, é um sistema, e apenas será substituído por um outro sistema igualmente poderoso na sua coerência interna (como a esquerda, e a direita, já agora, carinhosamente deviam saber). Palpita-me que a força desse futuro sistema decorrerá, como sempre, do grau de legitimidade sobre os grupos que protagonizam os objectos fundamentais do desejo, e se as revoluções burguesas se legitimaram junto de banqueiros, industriais, negociantes, agricultores, um sistema mais poderoso do que o capitalismo terá que se legitimar junto destes e das classes vanguardistas. O problema está em saber quais são essas classes. Mas palpita-me que esses protagonistas não andam longe da blogosfera.

Partilho da concepção de que o país que ia em massa para a riviera Mexicana é um mau enredo de telefilme barato, mas o país que sofre a desorganização da finança, dos bancos e dos políticos corruptos é um outro telefilme quase tão mau como o prímeiro. Na verdade, não sabemos exactamente o que fazer, e muito menos alcançamos os impactos resultantes da satisfação dos nossos desejos, mas como todos queremos ir para o céu, desfazemo-nos em declarações sobre a salvação de todos e de cada um de nós, numa oratória incontrolável, à maneira dos povos pré-científicos. A crise apenas revelou o que para qualquer pessoa inteligente é uma realidade desde os primeiros contactos com o mundo dos vivos: que a direcção das coisas e o seu significado nos são completamente inacessíveis. 

Mas há uma boa notícia, pois estamos diante de mais oportunidade, não para empreender ou salvar Portugal - o excelentíssimo senhor primeiro-ministro Pedro Passos Coelho que se foda - mas para tentar de novo, e de uma vez para sempre com propósitos firmes e verdadeiros, a resposta à única pergunta a que vale a pena responder: quem sou eu?



Jean-Jacques Rosseau, a primeira pessoa a ter a coragem de ser uma pessoa.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

A psico-sociologia da problemática da problemática psico-social: tudo bem convosco?

A julgar pelo ritmo com que segue o debate psico-social neste blogue, estamos todos fodidos e sem dinheiro para divertimentos mais substanciais, e desde logo me assalta novamente o problema epistemológico da linguagem como veículo de comunicação, uma vez que se acabaram as minis no frigorífico. É preciso estar muito desesperado - como todos parecemos estar - para acreditar que chegamos a algum lado por intermédio do raciocínio não indexado a um projecto social eficientemente adaptado, por exemplo, um partido, ou uma editora de largo espectro, ou uma Igreja, e no entanto há qualquer coisa de perturbador no triunfo do relativismo cultural.

Não sei se já repararam mas não temos feito outra coisa senão cuspir nas virtudes da economia de mercado e da democracia constitucional. Longe de mim sugerir que essa não é uma actividade enobrecedora, mas preocupa-me que não consigamos colocar o problema em bases mais circunstacialmente históricas, tudo bem maradona?, uma vez que também sabemos que as problemáticas psico-sociais contemporâneas e as razões que fazem de José Luís Peixoto, João Ricado Pedro, valter filho da mãe, Rebelo Pinto, Júlia Pinheiro, enfim tutti quanti, são razões que se prendem com uma necessidade a preencher no coração do povo.

Sempre tive um particular carinho pelos jacobinos e o seu sonho de razão, mesmo que munido com a afiada precisão das lâminas (apesar das recomendações de calma da nossa comentadora Alma), mas a verdade é que as pessoas ganharam e isso devia encher-nos de alegria. No entanto, continuamos perturbados. Eu juro que quero acreditar num mundo em que os livros de Peixoto promovem a reflexão da Raquel - a nossa mais recente simpática comentadora - mas nesse mundo de pescadores e carpinteiros como autoridades da cultura há qualquer coisa que nos continuar a pertubar, a todos nós que somos filhos de pescadores, electricistas e carpinteiros. Para lá do clássico aforismo que não quer calar - não foi para isto que se fez o 25 de Abril - também não foi para isto que se fez a escola e o mercado da edição. Ou terá sido?

Toda a gente tem a liberdade de ser comentador, publicar um livro, dar entrevistas, ser um autor de referência. Porém, julgo que a nossa perturbação - a de todos aqueles que protestam contra a autoridade do real mas recusam igualmente o socialismo científico - nasce de um sentido de injustiça. Eu explico. Ainda ontem lia esse magnífico apontamento autobiográfico de Calvino, O Caminho de S. Giovanni, onde num primeiro texto se relatam as recordações de um passado traumático, narrado da perspectiva de um filho, a partir da relação com a sombra tutelar do pai, e após a grande pata da morte ter esmagado o único e frágil cone de luz que permitiria, a ambos, aceder a uma desmistificação final do problema. Estão a ver que este é justamente uma concretização por um grande escritor do tema apenas ligeiramente aflorado em Morreste-me, a obra fundadora da aventura Peixoteana. Ora, nada me move contra os leitores que se afundam privadamente na prosa incompleta e pouco esclarecida de Peixoto. Tenho pena que fiquem por aí, tal como tenho pena dos fundistas dos 10 000 metros que tropeçam na segunda volta e se estatelam na pista com aquele semblante entre a lebre esbaforida e o ladrão apanhado pela populaça em fúria. Porém, quando os meios de comunicação esmagam as alternativas de escolha e os programas escolares, os ministérios da educação, as gasolineiras, as mulheres bonitas, os cartazes histriónicos, as estações de rádio, os humoristas netos de industriais austríacos, começam todos a funcionar como um padrão automático e repetitivo, tenho sempre muitas dúvidas de que isso não represente efeitos perversos para a nossa liberdade e igualdade, para não falar da tão estimada possibilidade de escolha que parece estar na base de todo o mecanismo.

Quero dizer que a economia nos ensinou que o recurso escasso por excelência é o tempo, e se lemos Peixoto, não lemos Calvino. É verdade que a «mão invisível» devia guiar os nosso sentidos cegos de desejo, mas isso no que diz respeito a preferências do corpo. Quando falamos da lei da oferta e da procura de produtos ideológicos, será que nos podemos permitir o uso da força empresarial? Será que estamos a medir bem as consequências do abandono dos mecanismos de transmissão da cultura e do património dos nossos queridos antepassados a mecanismos de preço? Será que estamos conscientes de que não adiante financiar bibliotecas e sistemas de ensino clássico quando os mecanismos empresariais, em cujo seio se fundamenta o futuro, sabotam a cada momento esse legado com uma racionalidade baseada na ignorância da literatura? Deixar ao critério de um público não especializado a escolha dos candidatos às oportunidades de especialização na escrita não será um brincadeira que nos empobrece culturalmente? Será que a falta de sensibilidade a este problema, longe de ser uma manifestação de racionalidade democrática, não é apenas uma perda total do sentido do impacto das nossas decisões individuais na vida de todos?

 
No fundo, podemos dizer que a perturbação diante do espaço e prestígio adquirido por escritores incapazes de dialogar com a exigência e profundidade da galeria clássica, nasce de uma inquietação diante da manifestação da força bruta. O que quero dize desde o início deste post - e que a Raquel, nossa comentadora, confirma com a sua experiência, involuntária ou não - é que a ligação entre estes medíocres e a formação alargada das consciências, não só reduz a margem de manobra das pessoas, mais exigentes e cuidadosas, que em vez de se multiplicarem em livros e banalidades sobre o real, foram estudá-lo, pensá-lo, e tentar reflecti-lo antes de se pronunciarem sobre o que quer que fosse (o que significa que nós, as forças do bem, estamos a ser fodidos em termos de vantagem comparativa), como introduz um esmagamento da invididualidade que é exigente consigo própria (e que penso ser a única forma de salvar a relação entre a igualdade e a liberdade), e uma menorização total das potencialidades do diálogo do indivíduo com o passado histórico e o presente colectivo, transformando a cultura individual no simples eco das relações de mercado. Isto é, sempre me pareceu que um Peixoto, um valter filho da mãe ou mesmo um Gonçalo M. Tavares são o triunfo do escritor profissional pós-industrial e digital, isto é, o equivalente usa e deita-fora, repete, usa e deita-fora, repete, em total articulação com as formas de comunicação modernas.

Nisto, julgo que chegamos a um ponto irreconciliável entre nós, os que pensamos, e todos aqueles que compram e consomem peixotices e tavarices. Se isto é apenas uma manifestação de pedantice da nossa parte, ou um sincero grito de alerta sobre o caminho que estamos a tomar na reificação das nossas referências culturais, é o que pretendo saber de vossas excelências. O mundo não vai acabar, eu sei, mas convém que estejamos, nós os inteligentes e excluídos, conscientes do arranjinho que nos prepararam ou que nós, com a nossa teimosia, preparámos a nós próprios.

Neste sentido, apesar de ser um adepto do bucolismo estóico - tendo já preparada a minha taça de Casal Garcia com 605 Forte - não posso concordar com José Mário Bronco quando sublinha que a solução é ignorá-los. Para terminar, vou resistir à comparação com o nazismo - o que desde logo atesta a minha qualidade intelectual - e recorrer à sabedoria popular: «enquanto o pau vai e vem folgam as costas, mas se ignoras o pau abelhudo, mais tarde ou mais cedo, levas com ele pelo buraquinho ao fundo das costas».

Por falar em pós-modernismo

Quando a minha mão involuntariamente agarrou neste livro, o meu cérebro não estava à espera de uma narrativa a la José Dan Brown Rodrigues dos Santos. Mas pagar por um texto com a qualidade dos acetatos com que a autora enfastidia os seus alunos, é no mínimo aborrecido. Nem todos podem ser José Hermano Saraivas, é certo. Mas isso não desculpa os parágrafos incompletos, quando não estão fora de sítio, e as páginas inteiras a falar de Afonsos, Sanchos e Leões sem mencionar a nacionalidade ou cardinalidade.

O que no fundo faz pena. Que professoras doutoras não sejam capazes de adaptar o discurso para matarruanos como eu. Ou, o que é pior, não se darem ao trabalho exactamente pelo facto do público alvo ser uma massa informe de iletrados. Já no primeiro livro da série, o José Mattoso safou-se com uma referência da Wikipédia que eu aposto singelo contra dobrado, ter sido colocada por um aluno voluntarioso. Não é preciso, não é necessário e mete dó.

Os autocarros da Vimeca

 não foram feitos para certo tipo de livros.



sexta-feira, 20 de julho de 2012

Utilitas expressit nomina rerum

Este verso pertence a Lucrécio e sintetiza com particular acuidade - espectacular palavra deduzida de um setubalense a dizer cuidado - o problema que me tem problematizado os cornos nos últimos meses. Mas que caralho é o sistema mediático, qual o seu modus vivendi - como perguntaria logo de jacto um Pimenta Machado - e que consequências psico-sociais terá esta merda toda da comunicação de massas para todos nós, os que somos, e permanecemos, pessoas sensíveis? Todos os meus amigos me têm recomendado que aprenda a enfiar no cu a relatividade do real, ou seja, sabendo que a comunicação cultural reflecte um dado modelo-padrão (para o qual ainda não foi inventada a respectiva física de partículas) que não pode ser descrito por um critério de justiça, mérito, força ou inteligência, resta-nos, ao que parece, circum-foder-mo-nos todos em espiral nesta grande roda-vida do planeta, essa bola de lama que pelo espaço vai como a andorinha, nas palavras desse inesquecível homossexual de Leça da Palmeira, António Nobre.


Como estou particularemente cansado, recorro à própria raiz e prova do problema, anexando um texto, e recorrendo à impunidade do on-line (para citar Nuno Markl) em que se dá um significativo contributo para a resolução do problema do romance português contemporâneo, colocando de uma só vez as várias perguntas que não podem, nem querem, calar:

a) alguém me pode explicar qual o conjunto de mecanismos lógico-dedutivos que podem eventualmente impedir-me de injerir dois litros de cerveja em face da desoladora evidência constituída pelo facto de mediocridades como Luís Pedro Nunes dirigirem suplementos humorísticos em jornais de referência, e comentarem referencialmente em programas transmitidos por estações de televisão em canal aberto, e textos como o que abaixo se anexa, andarem refundidos em caixas de comentário de blogues?

b) Não teremos aqui um problema típico das teorias da revolução? Não teremos chegado ao momento em que as caves, os prostíbulos, os caixotes do lixo abundam de pessoas qualificadas e os pedestais estão repletos de ceguinhos músicos? Haverá alguma desculpa econométrica para que não tenhamos um sistema que nos permita aceder a inteligências como a de José Mário Bronco em substituição de imbecis como valter e peixoto nos nossos jornais culturais?

c) Alguém terá a tentação de me responder que para isso é necessário que os bons queiram enfrentar os maus?

d) Mas estará cada um de nós a dar o seu contributo para esta triste situação?

e) Teremos nós coragem para chamar o membro da família que oferece um mau livro e aplicar-lhe o mesmo tratamento que aplicariamos se esse familiar fizesse cócó no meio da sala?

f) Será que isto não tem importância nenhuma?

g) Tal como escreveu Duarte Nunes de Leão, em 1601, não será de pensar que tão indecente é sair da boca de um homem de alto lugar e nobre criação uma palavra rústica e mal composta como de uma bainha de ouro e rico esmalte uma espada ferrugenta?


Escusam de invocar razões de gosto médio ou mecanismos de mercado, pois não tenho feito aqui outra coisa senão demonstrar cabalmente como a explicação da política editorial e mediática com base na eficiência financeira da empresa é um dos maiores disparates desde a cura do paralítico na piscina de Silhué. Descontando o elogio à minha irrepetível personalidade - e descontando a shakespereana eficácia do broche mútuo na apreciação das personalidades, uma vez que as forças do bem precisam de unir-se - esta merda aqui em baixo é ou não é um texto de inegável gabarito?




José Mário Bronco, comentador de A causa foi modificada, a 18 de Julho de 2012 às 21:50

O maradona fez um post com muitas letras e sem fotos de desportistas nús, o alf deixou aí uma cena bem esgalhada e eu vou largar um pós-ensaio. Não é isto o sonho de qualquer contribuinte?

A imagem é uma boa imagem e eu não demorei mais de um minuto a apontar com o dedo onde ficam St. Andrews e Carnoustie. Num futuro ensaio publicarei aqui as minhas opiniões sobre o Dr. Passos Coelho, o Dr. Salazar, o Prof. Aníbal António e o General Marechal Almirante Capitão de Fragata-e-Optimist Vasco Gonçalves. Até lá, para não dizerem que vim aqui debalde, deixo-vos umas impressões sobre literatura e pós-modernidade, um tema que calha mesmo a jeito no meio desta canícula.

A literatura, no meu caso, é inversamente proporcional ao ténis. Isto é: de ténis falo muito mas não pego numa raqueta há 14 anos e 234 dias, a data em que perdi num dos campos de terra batida do Clube de Ténis do Estoril com uma gaja a quem andava a tirar as medidas, tendo que passar pela humilhação de ouvir da parte dela um “desculpas...”, depois de no fim do jogo lhe ter dito que a prática do golfe me prejudicava a competência no ténis. Já de literatura, não falo muito mas sei bastante. E é chegado o momento de não ser egoísta e partilhar com os restantes causídicos o que sei. Nesta época, os jornais que não têm nada para dizer, fazem umas secções que eu analiso sempre com muito interesse, chamadas Livros para Férias ou uma merda assim. O que não é de admirar: dadas as capacidades de expressão oral, escrita e de raciocínio da maioria dos jornalistas, está na cara e no cú que eles lêem a Danielle Steel e apenas nas férias.

Vamos ao assunto que tem sido imensamente debatido nos jornais e nos fóruns da TSF: a pós-modernidade literária. Tendo eu passado com olímpica indiferença ao lado da obra do Gianni Vattimo, aquela que todos os wannabes intelectuais balbuciam sempre que querem debitar larachas sobre pós-modernidade, nem isso me impede de ter ideias definitivas acerca da problemática. E atendendo a que a pós-modernidade literária é o tema do momento até nas capas da Bola, uma vez que este ano o Benfica não está a cumprir o seu papel de animador do mercado, mostrando-se interessado em todo e qualquer cromo que dê um pontapé numa bola, de modo a valorizá-lo para que ele até pareça jogador de futebol, vou também dar o meu contributo acerca do assunto porque isso me vai permitir praticar um dos desportos nos quais eu sou brilhante, que é dar pancada em escritores semi-analfabetos de tendência pós-moderna, categoria em Portugal muito bem representada pelo Peixoto e pelo Valter Filho da Mãe.

Os escritores pós-modernos já não têm que saber escrever. Isto não é uma MAB (metáfora à Bronco). É mesmo verdade, verdadinha. Na modernidade escreviam-se maus livros mas os escritores sabiam escrevê-los. Agora os escritores já nem têm que saber escrever. Basta ouvir o Peixoto a falar – qualquer coisa entre o electricista e o ciclista – para perceber que o gajo deve dar uma trabalheira ao desgraçado do revisor dos seus textos, para deixar aquela treta em forma de texto legível. Mas a diferença entre modernidade e pós-modernidade nem se resume apenas à escrita das letrinhas, facto recentemente confirmado pelo próprio Filho da Mãe que disse, não sei onde, que agora já usa maiúsculas. Vejam bem, no caso do Filho da Mãe, a pós-modernidade manifesta-se não só no desconhecimento da capacidade de escrever, como no desconhecimento até do modo como funciona um teclado de computador. Deve ter sido o Peixoto que lhe disse que se ele carregasse na tecla shift em simultâneo com as letras, elas depois apareciam em maiúscula no ecrã. Um dia o Peixoto ainda vai dizer isto à fERNANDA cÂNCIO. Esta malta da esquerda são todos amigos uns dos outros e tratam-se todos por tu e isso também deve servir para se ajudarem uns aos outros.

Portanto, a pós-modernidade é uma espécie de categoria que serve apenas para referir gajos que têm a mania que sabem escrever, categoria essa onde não estão apenas estes modernaços de t-shirt preta. Está lá também o Saramago, a Inês Pedrosa, 99% dos jornalistas escritores e todos os que querem ser Lobo Antunes, incluindo o próprio Lobo Antunes. É justo dizer que destes todos só li Saramago – não gostei – mas isso não altera em nada a verdade daquilo que afirmo.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Carta aberta a maradona num dia especialmente triste para o Benfica

Neste momento particularmente difícil para toda a nação, uma vez que a Igreja parece querer reentrar no circunstancialismo histórico que nos determina, não posso estar de acordo contigo, maradona, e acredita que isso me entristece, por razões que não posso agora explicitar.

Na verdade, incorres num erro típico de quem não fez estudos aprofundados de economia, e nisso estás acompanhado por Vítor Gaspar e Passos Coelho, isto é, insistes na ideia de que o circunstancialismo histórico concorre para a explicação da merda que somos. Com efeito, a menos que te tenhas tornado um corioláceo (mistura de crustáceo com Coriolano) defensor do marxismo, a economia neo-clássica de Becker e Friedman mostrou gloriosamente que as sociedades são livres para se foderem à vontade e não necessitam de ajuda da história ou de um mediocre como António José Seguro.

Ressalvas, e bem, que apenas a invenção de um sistema de previsibilidade nos poderá garantir um futuro digno de um panfleto das testemunhas de Jeová (mas apenas com as americanas loiras e boazonas e sem os leões) mas eu pergunto, porque gosto de perguntar coisas: e se a inconclusão das políticas de Passos Dias a Foder Portugal Coelho for precisamente o garante de uma situação de caos que precipite os incentivos necessários para que génios como tu passem a gastar o seu tempo com uma exacta reflexão sobre a forma de representar a previsibilidade, eliminando de uma penada os partidos, em vez de andarem a coçar os tomates na blogosfera porque se realizam profissionalmente numa outra merda qualquer que a estabilidade do sistema ineficientemente, do ponto de vista do bem comum - peço desculpa -, vai garantindo?

É bom de ver que estamos em pleno território da teoria da agência e um dos sinais de que uma teoria é boa - e deus abençoe a boa e rara teoria económica - é a sua capacidade de sendo um instrumento estar completamente esvaziada de todo o valor político, necessariamente subjectivo, personalista.
Ora, a assunção do interesse de Portugal nas tuas linhas é um desgosto que não posso deixar passar em claro, e o facto de achares que a mudança do mundo, que necessariamente não depende de nenhum circunstancialismo histórico mas apenas das leis da física, possa ficar entregue aos burros e ignorantes do 5 Dias, é um dado que me enche de melanconia, como dizem os italianos.

Na verdade, o que é fascinante na teoria económica, a verdadeira, única e anjelical, e que ninguém lê, pois está encerrada em livros dos anos 30 que não falam nem de Keynes nem de ajustamentos, é a clara separação entre as consequências dos nossos actos - por exemplo, retribuir ao mundo empresarial Passos Coelho - e o juízo político e moral sobre essas consequências. Ou isso ou alguém vai ter que explicar qual foi o circunstancialismo que explica que a Alemanha tenha produzido Bismarck, Hitler, Brant e Merkel quase no espaço de um século. Ok, não foi um bom exemplo.

Mas, em todo o caso, pelo menos, a fazer fé nesse circunstancialismo histórico, teriamos que explicar em que medida é que Salazar não foi capaz de fazer mal a Portugal para lá do seu circunstancialismo (geográfico, astrológico?) e em que medida é que o circunstancialismo de D. João II e D. Manuel lhes permitiu inspirarem uma música a Carlos Paião que conclui gloriosamente que num passado longínquo quase chegámos a ser alguém?

Como estou ligeiramente embriagado termino com uma recomendação. Não terá chegado o tempo de os indivíduos se deixaram de colectivismos e deixarem que o circunstancialismo histórico, na medida em que não determina o que quer que seja, permita que as coisas possam ser o que na realidade são, sem que estejamos sempre a tentar que as coisas sejam os que nós pensamos que são? Para isso só vejo um caminho: fazermos silêncio.

Introdução à minha teoria de que isto está finalmente a aquecer, caralho


Jack Nicholson




D. Januário Torgal Ferreira

terça-feira, 17 de julho de 2012

Introdução imagética à minha teoria dos erros imperdoáveis na especialização profissional



Vladimir Nabokov




Alberto João Jardim

Sob o manto diáfano da preguiça, a nudez forte da desistência


Um estudo encomendado por um dos departamentos deste blogue, o gabinete de relações públicas para o comércio asiático, chegou a uma conclusão inesperada: o post mais visitado versa sobre José Luís Peixoto. Isto significa que as pessoas andam desesperadamente a tentar explicar com os próprios e pobres meios de que dispõem - a Google e o Professor Doutor Marcelo Rebelo de Sousa - a origem do fenómeno literário português. Volto a estas personagens e problemas com alguma recorrência (peço desculpa aos mais urbanos e preocupados com a qualidade da atmosfera) porque também o Jornal de Letras, que cadavericamente agoniza dependurado por molas da roupa nos estendais dos quiosques, faz questão de recorrentemente brindar o público que transita pelas avenidas com as peças literárias dos referidos autores. Se os livros são maus, a cronística de hugo mãe e Peixoto é francamente monstruosa, deficiente do ponto de vista técnico, muitas vezes ilegível e imprecisa nos seus argumentos, além de assustadoramente entediante, o que se explica em duas proposições simples: a) é muito mais difícil escrever pouco que muito; b) sem a codificação imbecil do jargão psico-afectivo, toda a ignorância militante se torna uma inevitabilidade transparente e nua. Seria preciso procurar nas leis obscuras da psicologia - uma ciência morta desde os anos 30 - e na economia - uma ciência morta desde o século XVI - os vectores que empurram o jornalismo cultural para a extinção. Se a pergunta «mas quem raio compra o Jornal de Letras» fizesse algum sentido, talvez pudessemos responder que a captura da indústria do livro pelas forças do mal é um problema que espera o seu analista e Oceano Cruz parece indisponível neste momento. Aos que respondem sistematicamente com a perversão do mercado, respondo que a distribuidora dos livros de valter hugo mãe faliu recentemente e concerteza não foi por falta de visibilidade de um dos autores distribuídos. Será que os livros que por aí se vendem aos milhares são uma grande merda e não se aguentam em corridas de fundo? Será que as editoras, ao viciarem as recepções do público com a visibilidade do produto, estão agora a morrer sob o efeito doce do seu próprio veneno, pois ao suspenderem o gosto especializado e impedindo, ou não promovendo, o florescimento da crítica, neutralizaram os mecanismos lendários e ancestrais de aversão ao risco no mercado do livro? A história empresarial está cheia de pequenas anotações à teoria da galinha-dos-ovos-de-ouro e não vou aqui desenhar uma introdução à vida e morte dos mortos-vivos, isto é, o mundo editorial em papel.

Termino com uma pergunta que não me deixa dormir desde os 14 anos: será que as pessoas seguem o critério quantitativo (livros mais vendidos) para não terem que pensar sobre o que compram? Sendo assim, não será o mercado, um magnífico e espectacular i-pad político-colectivo para fugir à enlouquecedora e escolástica questão da vontade, uma vez que ter preferências, justificadas e individuais, cansa muito e exige tempo, o que dada a divisão e especialização do trabalho (a minha equivalência pessoal para o diabo), se tornou no grande problema da modernidade? Claro que sim, apenas pergunto para acordar os que possam andar por aqui a dormir. Na minha modesta opinião, continuo a pensar que a culpa é toda minha, e dos que podendo fazer melhor (sim, é esta a expressão exacta) se revelam demasiado lentos e idiossincráticos para as grandes e profundas necessidades do mundo.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Uma pechincha alf, comprei os 2 por menos de 13€

e a adorar ler o primeiro, embora com as dificuldades inerentes à leitura do texto original, não sendo eu propriamente um marinheiro. Lá chegarei ao Joyce.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Verão Irlandês

Já que estou numa ilha no atlântico norte, desejo-vos um bom fim de semana e vejam isto:



não tenham pressa, take your time.

Impunidades on-line, humor português e humoristas irritados: alguns aspectos

Vamos falar da sua história. De onde vem o nome Markl?
Da Áustria. O meu avô era austríaco, foi um dos fundadores da Tudor em Portugal. Hoje não falo nada de alemão, nem nunca fui à Áustria, embora tenha lá família.

Conhece bem os dissabores da popularidade do online. Teve de fechar a parte de comentários do site, tem clones no Twitter - pessoas que se fazem passar por si...
Penso que são sempre os mesmos, que querem enervar e desestabilizar. Bem, enquanto se mantiverem online tudo bem, só não me dava jeito que me espetassem uma faca... Vou interpor uma acção judicial, embora seja um oceano tremendo de chatices. Por isso é que muitas celebridades lá fora têm clones e já desistiram de se chatear - deixam-nos à solta. Eu decidi fazê-lo porque me irrita profundamente a impunidade do online. É preciso dar um exemplo, essas pessoas têm que aprender uma lição.

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As explicações dos fenómenos humanos baseadas em teorias de cunho geracional induzem quase sempre os analistas de vários tipos a incorrerem em erros grosseiros, nomeadamente o esquecimento de que qualquer comportamento adaptativo é condicionado pela competição entre indivíduos da mesma geração. Esta primeira frase saiu-me mal e serve aqui apenas como pretexto para uma introdução à minha teoria do humor em Portugal depois do 25 de Abril de 1974. Aliás, não é sequer uma teoria: é uma posição de fundo que assume contornos analíticos para que o leitor não fique a pensar que sou só mais um ressabiado que vem para a blogosfera descarregar o insucesso, a incapacidade de realizar projectos e uma quantidade astronómica de insultos acumulados silenciosamente em casa, no trabalho e no café. Talvez o aspecto mais enervante das figuras públicas é que explorando, justa e legitimamente, os benefícios comerciais e políticos da exposição pública, julgam-se no direito, justa e legitimamente, de recorrer ao estado policial para extrair da popularidade todos os aspectos nefastos dessa mesma exposição que lhes permite, justa e legitimamente, encher os bolsos. Eu sei, eu sei, há um código civil e penal que prevê todos os comportamentos ilegítimos. Mas todos sabemos que esse mesmo código é repetidas vezes violado pelos próprios humoristas, pelo que o problema emerge apenas quando o primo da província nos bate à porta: perdemos o humor.
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Na verdade, não consigo deixar de pensar que a genialidade de Ricardo Araújo Pereira e Nuno Markl é apenas uma espécie de equivalente lúdico do caso Miguel «Maquiavel» Relvas. É verdade que têm sido feitos esforços incomensuráveis para nos convencer de que Araújo Pereira e Nuno Markl são génios que não conhecem limites mas como o próprio Araújo Pereira já várias vezes humildemente confessou em público, talvez esta gente não passe de um conjunto de indivíduo um pouco parvos, e é bom que os portugueses comecem a convencer-se de que Araújo Pereira e Markl podem mesmo ser apenas uns tolos que descobriram uma forma pouco trabalhosa de ganhar dinheiro, fingindo que são críticos mordazes do poder. Queria relembrar toda a humanidade que estes brilhantes e geniais humoristas, e indivíduos igualmente dotados de grandeza humana - como diria valter hugo mãe - são uma espécie de Miguel «Maquiavel» Relvas da Comunicação Social com cursos técnico-profissionais de jornalismo e licenciaturas na Universidade Católica. Nada nos garante que sendo, por exemplo, Araújo Pereira licenciado em Ciência Política em Harvard, isso lhe permitiria ser mais engraçado do que Miguel «Maquiavel» Relvas, ou que sendo Markl licenciado em Engenharia pelo M.I.T isso lhe garantiria uma representação mais repugnantemente cómica do que a movimentação de lábios de Mira Amaral, mas pelo menos talvez um pouco de escolarização de qualidade fosse o suficiente para nos salvar de textos absurdos e preconceituosos como o que Araújo Pereira publicou recentemente na Visão, defendendo os salários dos Enfermeiros por comparação com as mulheres da limpeza. O que esse texto assinala é a existência de um ponto de inversão em que o humor se transforma num problema, subjugando o raciocínio político em função do mecanismo retórico, indo por vezes ao ponto de subverter o próprio pensamento do autor, como julgo ser o caso de Araújo Pereira, um manifesto adepto do socialismo, que está a tentar encontrar financiamento para fazer cantar o amanhá nos cofres da Portugal Telecom.
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Quero deixar claro que este post não pretende insultar ninguém, até porque não quero chatices com os poderosos escritórios de advogados que servem Araújo Pereira e Markl. Apenas gostaria, se me é permitido, sublinhar a dificuldade de ultrapassar os limites profissionais e a especialização do trabalho colocada pelas sociedades monetarizadas. Se Araújo Pereira se dedicar a aprender em Shakespeare (uma vez que parece ser uma pessoa que gosta de comprar e ler o seu livro, de vez em quando) e acompanhar a evolução do bobo de Rei Lear, verá que existe uma grande diferença entre o humorista mediano que é um virtuoso do pensamento - o que lhe permite exercer a independência crítica e manter-se abaixo do nível salarial médio na sociedade medieval britânica - e o humorista virtuoso mas que é um Mira Amaral do pensamento político. A solução não passa por constituir uma comissão de censura mas por reconhecermos todos que o riso, como tudo o resto, também não é uma solução para nada, e isso, por si só, dá imensa vontade de rir, e permite facturas de televisão, net e telefone muito mais baixas já que descontando os engraçadinhos, não teriamos que «pagar a propaganda», como diriam as nossas avós.
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Não quero com estas linhas entrar no debate acerca do provincianismo dos portugueses, um provincianismo supostamente assinalado, segundo voz corrente, por uma sobrestima dos cursos universitários, popularizada na expressão «o país dos Doutores» - embora recomende a todos os leitores que consultem as estatísticas da OCDE e sustenham o espanto ao descobrir que temos níveis de licenciados abaixo da Turquia e da Grécia, dois países muito provincianos, mas muito menos do que os campeões em licenciaturas, a Inglaterra, Suécia, Dinamarca e Holanda, EUA, Canadá, etc, enfim, sociedades tão provincianas, mas tão provincianas que nem nos merecem aqui qualquer comentário. O que pretendo com estas linhas é apenas chamar a atenção para o que andamos aqui a fazer quando promovemos como líderes culturais os tolinhos da turma ao longo dos anos oitenta. Quem não se lembra de ter um Nuno Markl sentado na cadeira ao lado: o gajo filho de pais licenciados, que não fazia a ponta de um corno em virtude de um misto de irresponsabilidade e «costas aquecidas» pelo dinheiro da família, com um inegável, é justo reconhecer, sentido de auto-ironia - até porque eram gajos normalmente relativamente aproximadamente feios e um pouco toscos na abordagem ao sexo feminino (as gajas, ao contrário do mito que por aí circula, não gostam assim tanto de engracadinhos). Quem não se lembra de dar umas lambadas nos costados desses gajos, quando faziam merda num lance decisivo na final desportiva da escola, e quem não se lembra da sua capacidade para logo transformar tudo numa irrelevante gargalhada, mesmo uma goleada humilhante perante a turma de desporto, porque afinal de contas vamos todos morrer. Claro que vamos todos morrer, mas escusamos de ser goleados em vida. Ao que eles opunham que não há matéria que não possa ser desfamiliarizada da sua gravidade com um bom dispositivo cómico, até porque o homem é o animal que ri, e aqui caros leitores, emerge a cabeça monstruosa do problema.
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Afinal, quando nada o fazia prever, eis que o humorista veste a casula e começa a dar ordens sobre o que é afinal o «Homem». Ou pior ainda, sobre o que é a «mulher». Já não faltam sequer mulheres que respondem aos inquéritos das revistas sublinhando o sentido de humor como a qualidade mais apreciada num homem, o que não só constitui um insulto à masculinidade, como uma repugnante mentira. Sempre gostava de ver a reação dessas pessoas a uma piadinha do respectivo companheiro versando sobre o tema celulite, ou a uma anedota sobre as conversas sistemáticas em torno da qualidade da «relação», ou a um dichote clássico sobre comprimentos dos pés e a estrutura do lava-loiças, ou um aforismo galhofeiro sobre a altura da mulher e a sardinha. Enfim, a boçalidade cómico-pornográfica está inscrita no ADN masculino e não me parece que isso seja grandemente apreciado pelas mulheres. Na verdade, começo a ter uma sensação desconfortável perante a gargalhada constante, e julgo que não incorrerei na pena de morte, se sugerir que o humor se transformou na religião do século XXI. No momento em que a comunicação de massas e o público se transformaram nos soberanos consistentes da consciência colectiva, quem não ri, não é bom chefe de família. É verdade que o riso nos torna a vida mais fácil e constitui uma espécie de canivete suiço para qualquer problema, mas isso, também o vinho, é verdade que com mais efeitos secundários, mas respeitando mais a liberdade criativa de cada pessoa - o vinho possui a democrática capacidade de transformar Cavaco Silva num Ricardo Araújo Pereira - além de um aparente melhor desempenho na criação de emprego.
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Não quero deprimir o fim-de-semana do auditório e termino com uma invocação moralista e tão sisuda como a parenética barroca: que é o riso sistemático se não a apoteose triunfal da técnica sobre a variedade da linguagem?

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Juro solenemente comprar atempadamente uma máquina de fazer broches ao Nuno Markl

June 7
cinco para a meia noite.
foi um prazer grande estar à conversa com o nuno markl. por muitas vezes pude comprovar a sua grandeza como indivíduo e inteligência como humorista.
muito me honra o seu apreço, e muito me alegra que tenhamos gente assim nos nossos media.

valter hugo mãe prima tio pai tu aí, eh, estás a ouvir ou não, caralho?


Uma pessoa pergunta-se porque razão a grandeza dos indivíduos está tão mal distribuída quando comparada com a tendência abundante da pequenez nos mesmíssimos indivíduos. Antes que as pessoas comecem a deixar na caixa de comentários silogismos e aforismos sobre a inveja e o ressabiamento dirigidos à minha frágil e psicopata consciência, quero expressar aqui todo o meu apreço por valter hugo mãe, uma pessoa simpática, sem culpa nenhuma do que lhe está acontecer, no fundo, uma vítima da grande roda da fortuna. Quero lembrar aqui as palavras do grande secretário florentino, Miguel Maquiavel Relvas: o problema das pessoas é não saberem muito bem onde está o seu verdadeiro interesse profissional. Ou muito me engano ou valter hugo mãe seria um espectacular animador cultural de província e programador de sessões de poesia se a puta da ambição o não tivesse desviado por maus caminhos. Quem pode dizer que está completamente livre de fazer um broche a Nuno Markl uma vez convidado para essa máquina de fazer tostões, a rádio difusão burguesa? No meu caso, apenas prometo ao grande público que se o tiver que fazer, serei discreto, e não virei para o facebook tirar pelos da língua. Chorarei lágrimas amargas na solidão do meu quarto, jurando à virgem e aos santos nunca mais cometer tal pecado, enquanto afago o recibo de vendas das minhas obras completas.

Antes que os mais imbecis sejam tentados a ler isto como uma manifestação de homofobia, declaro que neste caso, a inveja das pessoas que têm sucesso se sobrepõe claramente à minha tendência para a descriminação de minorias. Também costumo nos meus tempos livres acender velas a Estaline, assaltar velhinhas, insultar africanos e profanar cemitérios judaicos, tendo ainda um considerável apreço pelo Inspector Rosa Casaco.


quarta-feira, 11 de julho de 2012

À consideração de mim próprio e de todas as pessoas que andaram enganadas durante vários anos acerca da natureza da literatura

"Poetic" statistical machine translation



Recomenda-se desde já a todas as Professoras do Ensino Secundário que mantenham a calma e telefonem urgentemente ao Dr. Mário Nogueira.

Só depois de publicado este post reparei que ao identificar o sujeito da minha ironia o fiz através do género feminino: porque não «Professores do Ensino Secundário»? É verdade que apenas por uma vez fui industriado na língua de Camões e Pessoa por um indivíduo do sexo masculino, e só durante uns poucos meses, sendo o referido indívíduo um desiquilibrado cuja única lição consistiu numa variação temática sobre a não correspondência entre laços genéticos e contratos matrimoniais, aspecto que na sua óptica justificava uma relação mais estreita com os filhos. Em todo o caso, e embora Lucien Febvre fale da importância materna na transmissão da religião, a coerção linguística parece assumir contornos traumáticos no caso das repressões serem efectuadas por indivíduos do sexo feminino. Meu Deus, teremos aqui um problema?

À consideração dos Governos democráticos de todo o mundo, com especial referência ao Partido Comunista Português

Adam Sadilek :: Publications

terça-feira, 10 de julho de 2012

Quem é, na verdade, Miguel Relvas? Será o Romeiro?



Todos conhecem a minha profunda estima pela instituição escolar e não posso, por isso mesmo, deixar de expressar a minha estupefacção perante a tempestade que se abateu sobre Miguel Relvas. Apesar da minha falta de disponibilidade para esclarecer as mentes mais ignorantes deste país, devo dizer que ainda não aprendi a manter a calma sempre que a propósito de uma qualquer outra coisa, os portugueses decidem começar a tentar pensar sobre o conhecimento e as suas instituições. Devo dizer que os portugueses, apesar de tudo, revelam muito mais sagacidade na apreciação da sardinha assada e das taxas de produtividade da terra, em cultura várias, do tomate à beterraba acuçareira, ou não fossemos nós um povo de camponeses como o caro leitor pode comprovar agora mesmo, se o desejar, consultando o album fotográfico de casamento dos seus pais e atentando no traje e tom de pele dos respectivos avós. Uns cavadores em 80% do casos. Pois é, como diria João Gilberto.

Ainda no Domingo, numa feira do livro de Verão estabelecida em tenda de lona numa falésia portuguesa, o mais famoso e recente sucesso literário, produzido pela empresa Leya, apodrecia numa mesa vazia à espera que as sucessivas ondas dos mais de 20 000 livros vendidos, fizessem chegar até ele uma qualquer adolescente sofredora, um funcionário público deprimido, ou uma professora divorciada, com um exemplar na mão, a fim de serem taumaturgicamente sagrados com as palavras divinas do autor: para fulano tal, com estima. Haverá alguma relação entre João Pedro Ricardo e Miguel Relvas para além da manifesta ignorância sobre a literatura e a vida? É esta a questão que proponho para o seminário de almoço de hoje, enquanto trinco uma chamuça oleada e sinto o caril vibrar no esófago as suas asas pontiagudas.

Na verdade, é com grande ternuna que vejo a comunidade descobrir a importância da certificação e da burocracia - uma coisa que custa dinheiro e a que logicamente a Universidade Lusófona não se presta - em mecanismos de transmissão do conhecimento e representação política. Relvas é uma pessoa que utilizou os seus recursos para comprar um produto, neste caso um título académico. Qual é o problema? Todos os dias, o conjunto definido pelas Universidades Privadas, e cada vez mais também pelas públicas, vende títulos académicos, com ou sem frequência de cadeiras, às vezes com processos de investigação e defesa de teses marketingamente incluídos. O que está em causa são os aspectos insondáveis da justiça: afinal, sempre há um problema político na igualdade, isto é, os pseudo-alunos que foram obrigados a prestar prova das suas capacidades sentem-se injustiçados na sua taxa de esforço, o que apenas demonstra a monumental ignorância dos alunos da Lusófona, e da sociedade portuguesa, em matéria de conhecimento e ciência. As pessoas continuam convencidas de que o saber se pode certificar institucionalmente, e por isso laboram num erro tão antigo como grosseiro: confundir mecanismos de segurança e previsão - a certificação de currículos e competências - com a posse do conhecimento real sobre as coisas. O que está em causa nas Universidades, desde há muito, para não dizer desde sempre, é a autorização política para exercer uma profissão, não a posse de conhecimentos. Às vezes, e por sorte, dá-se uma intersecção dos dois aspectos. Neste caso, os alunos da Lusófona, ou de outras universidades concorrentes, poderão manifestar dúvidas quanto às condições de legitimidade de Relvas para exercer cargos políticos e relações internacionais. Há na licenciatura de Relvas um problema? Claro que não, direi até mesmo que num mundo ideal, Relvas seria um catedrático de ciência política, pois sabe três vezes mais que Nuno Rogeiro ou Nogueira Pinto, quer sobre o o exercício de cargos políticos, quer sobre a política em geral. Ou afinal, a realidade não é uma boa certificadora da justiça? Meus caros, se assim é, se Relvas, sendo um ignorante sobre ciência política, consegue ser eleito e pertencer a sucessivos governos, lamento ter que informar a humanidade sobre um pequeno facto: Relvas é apenas um pequeno vigarista na mega-fraude em que todos laboramos. Se calhar, Tony Carreira não sabe cantar, Cavaco Silva não sabe economia, José Alberto Carvalho é apenas uma pessoa com o liceu que mal sabe articular dois conceitos e dirige pessimamente as entrevistas aos candidatos ao poder, José Luís Peixoto e João Pedro Ricardo são oportunistas ignorantes que exploram a analfabetismo literário e a falta de tempo dos consumidores de livros, Marcelo Rebelo de Sousa, um animador de festa que por ser filho de um político salazarista se transformou num intelectual de nomeada, etc, etc, etc.

Como não podemos ir por aí, sob pena de nos esfumarmos todos num buraco de energia negra, temos que seguir outro argumento. O que Relvas desconhece é a literatura especializada sobre a política. Mas haverá algum ser vivo capaz de demonstrar que o conhecmento do livro A ou do artigo B é condição essencial para produzir um discurso verdadeiro sobre os factos políticos e a sua respectiva análise? Claro que não. Custa ter que dizer isto num blogue obscuro, mas o tiro no pé dos mecanismos de certificação elitista do conhecimento não foi dado por Relvas, foi dado por todos nós, em geral, quando contratualizámos uma coisa chamada democracia - o acesso do povo à capacidade para governar a nau do estado (cibernética) - e a tentámos basear não no trabalho escravo mas na distribuição e divisão do trabalho a partir do lucro livre implícito num sistema de preços, bem como pela ciência política, em particular, oferecendo à comunidade uma pseudo-ciência que não passa de um série de exercícios circenses sobre uma matéria sobre a qual mantemos o mesmo nível de ignorância de há pelo menos 2500 anos, como os sucessos do século XX (do nazismo à crise das dívidas públicas) amplamente demonstram. Que possam existir professores de ciência política remunerados é que deveria merecer a nossa mais profunda e estridente gargalhada.

Mesmo dando de barato que o processo universitário e a certificação disciplinar é o melhor caminho para os propósitos de segurança e informação necessários a uma economia de mercado, deve dizer-se no entanto que há uma enorme confusão entre o papel da escola como mecanismo de transmissão de conhecimento entre gerações e o seu papel como instituição política na certificação dos saberes. Estou aliás convencido de que é precisamente desta confusão (entre legitimidade política e eficiência da transmissão nos mecanismos de auto-conhecimento, reconhecimento e adaptação ao ambiente) que resultam a grande maioria dos problemas da nossa época. É que embora a escola e as universidades mantenham o monopólio na certificação do saber, há muito que perderam o controlo sobre a memória e a transmissão - sobretudo depois da generalização da comunicação de massas, das bibliotecas públicas e da internet. Ninguém reparou mas vivemos mergulhados num mundo de tecnologia informática mas equipados com instituições de política científica que datam na melhor das hipóteses do século XVI. Neste sentido, desejo coragem e perseverança a todos os que como Miguel Relvas ou Aníbal Cavaco Silva sofrem, sofreram ou sofrerão a ira imprevisível dos deuses que é o preço a pagar por terem decidido navegar na tremenda confusão entre legitimidade política, ignorância e sucesso professional.

domingo, 8 de julho de 2012

E termómetros

Também dava jeito que o pediátrico tivesse termómetros. Ficam
as sugestões a quem de direito.

modernices

A minha filha fez hoje 8 meses, e para celebrar levou os país para a noite em
Coimbra. O hospital pediátrico é moderno, bonito e tem WiFi
grátis. Bom bom, era se tivesse mais médicos e enfermeiros
de serviço.

O tribunal constitucional, pelo que fui apanhando nas notícias,
revelou bom senso a resolver um imbróglio criado pelo governo.
Críticas à parte, não me parece razoável esperar que o tribunal
limpe as cagadas do governo. Nem que seja responsável pelas
soluções que o governo venha a encontrar para desencantar
o graveto para pagar à troika.