segunda-feira, 16 de março de 2015

Do terrorismo islâmico como problema do caralho.

Ultrapassado o período higiénico capaz de nos garantir uma apropriada blindagem, em face dos variados e nefastos malefícios da atualidade, chegou o tempo de refletirmos sobre as profundas razões que terão levado dois franceses, repito, dois, e de ascendência argelina, com nome de gadjet japonês, a comprarem metralhadoras russas para assassinar, aparentemente, sem pestanejar (isto é possível?) a quase totalidade dos membros de uma redacção de um jornal francês. Nesta como em quase todas as questões, a solução é muito simples: qualquer resposta depende do que pretendemos fazer com ela (a resposta).

O leitor terá reparado como lançando mão da utilidade (e de um simples mecanismo funcional) acabei por fugir ao problema dos fins últimos: pois justamente, fugir aos fins últimos das mais filosóficas das questões, eis o que não paramos de fazer desde há cerca de três séculos, e por experiência própria, posso garantir-vos que quanto menos fugirmos a este tipo de problemas mal colocados, mais hipóteses temos de acabar confrontados com um vendedor de metralhadoras russas.

Inúmeros comentadores chamaram a devida atenção para a complexidade do problema, e invocaram assuntos tão interessantes como o bombardeamento do Líbano, o urbanismo francês dos anos 70, Le Corbusier, a importância do humor, a protecção inviolável da liberdade de expressão, a distribuição de pessoas com barba nos subúrbios de Bruxelas, o número de gajas boas que, alegadamente, esperará os turras nos portões do paraíso (70 é um número simbólico, as gajas são infinitas, disse-me o profeta) enfim, todo um sem número de manifestações de erudição. Mas temo bem que o retrato acerca do evento terrorista se tenha ficado pelo sentido de importância que atribuímos à liberdade de expressão e à protecção da pessoa humana perante a violência, o que sendo um emblema da história autorizada e oficial do Ocidente, e apesar da sua origem sombria (o conceito de pessoa passa por mentes tão perturbadas como Platão, Paulo de Tarso ou Agostinho de Hipona, olé putas e vinho verde), está longe de ser um assunto consensual, e tendo a questão envolvido a execução sumária de um conjunto de humoristas franceses (em si mesma uma coisa terrivelmente irónica) o problema, rapidamente, adquiriu foros de escândalo moral: se fossem pretos e mineiros, tudo seria normal.

A propósito desta nuance em concreto do assunto em específico, chegámos a confrontar-nos, naqueles dias, com uma defesa jornalística do jornalismo (não me lembro agora da pessoa humana responsável pelo argumento), onde se defendia que sendo normal os europeus comoverem-se mais com a raridade, por exemplo, do terrorismo em Madrid ou em Londres, e sendo mais raro o metralhar de pessoas em Paris do que, digamos, em Cabul, era inteiramente justificado o tratamento noticioso de excepção conferido às vítimas do terrorismo dos irmãos Kouachi. Estamos, portanto, diante de mais uma manifestação do extremamente interessante princípio muito apreciado pelas pessoas de sucesso: a realidade acontece por ter acontecido a realidade, e nada mais nos é pedido, senão o reconhecimento dessa mesma realidade que nos fez o favor de ter acontecido. Julgo que para isto não são necessários jornais, jornalistas ou cientistas políticos ou comentadores, para isto, já temos os apresentadores de televisão, entre os quais a mamalhuda Cristina Ferreira, uma pessoa que, não obstante os dotes de empresária, tenho vindo a apreciar morfologicamente cada vez menos, não sei exatamente explicar porquê.

Numa linha semelhante, fomos confrontados com a tentativa de paródia ao relativismo moral, da autoria do escritor, jornalista e pessoa espectacular, embora com peso a mais, Rui Cardoso Martins, no fundo, um texto em que procura denegrir todos os que não alinham por uma defesa corajosa, imperturbável e sem sombra de hesitação,da mais que provada supremacia moral das pessoas convictas em matérias que definem as pessoas espectaculares em todos os sentidos, manifestando-se ruidosamente Cardoso Martins contra todo aquele que tem um «ADN, ora cauteloso, ora cobarde, ora radicalmente paranóico.» Sim, sou eu, obrigado.

O nosso estimado Rui Cardoso Martins chega mesmo a apresentar dados acerca da importância (os ocidentais, quando mortos, têm sempre imensa importância) do evento, nomeadamente, e a saber, os milhões de manifestantes naquele saudoso Domingo (foi a um Domingo?). Contudo, coloco a pergunta retórica, tão ao gosto do povo: mas onde é que isso já vai? Ou por outras palavras, quem se lembra hoje, ainda nem um ano passado, desse minúsculo átomo de pintelho na púbis de Clio, a musa da História?

Beijando o cu a Heraclito, é imperioso deixar passar as águas do rio, no sentido de ganhar distância sobre as coisas, mesmo que, e citando o inigualável Brodsky, o recuo perante a temperatura interpretativa possa significar uma aparente manifestação de apatia moral. Contudo, meus caros colegas e amigos, muito antes pelo contrário, é para ferver no cadinho de uma interpretação alimentada pelas fornalhas de um raciocínio bem temperado, e de constituição inquebrável, que se impõe, tantas vezes, a distância. Faz agora uns séculos que teve início essa linhagem de sistemas nervosos que, pondo-se a caminho na poeira da estrada e com lágrimas nos olhos, mas sem o relâmpago divino, aprenderam a atacar as academias de Genebra, ou os jornalistas institucionalizados, sempre que estes, apesar da abundância de recursos, facilitam, e se negam a considerar os mais prementes problemas da humanidade.

De nada nos servem, portanto, os jornais na compreensão da realidade, e sobre as convicções morais, eu diria que estamos conversados, que é como quem diz que está tudo por conversar. Se perguntássemos à/ao leitor/a porque decidiu estudar isto e não aquilo, porque razão se juntou com esta mulher/homem e não com aquela/e outro/a, porque motivo deixou de ir à missa ou abraçou a prática do aeromodelismo, estaríamos diante do mesmo tipo de problemas, a absoluta obscuridade perante a decisão e o funcionamento da mente, uma coisa que continuamente declaramos já ter compreendido, e a cada momento fazemos prova de não fazer a mais pequena ideia de como funciona.

Em face da ignorância, e num hábito muito humano, este complexo problema do terrorismo dos irmãos Kouachi aparece-nos como mais um elementar aspecto da existência orgânica dos seres vivos, onde se impõe uma decisão moral, e como tal, recorremos à biologia, neste caso particular, o ódio ao competidor/inimigo, que faz (ou pelo menos fez, durante séculos, já não digo milénios) parte do arsenal instintivo dos animais e de forma tão vincadamente humana quanto o cuidado dos velhinhos, o nosso gosto por ferramentas, ou o amor aos nossos recém-nascidos. A única coisa que é preciso explicar será então: como foi possível o Charlie Hebdo transformar-se no inimigo destes turras (fácil); como foi possível dois jovens terem caído nas malhas de um maluquinho que vê no Charlie Hebdo o inimigo (fácil); como foi possível o maluquinho ter-se transformado num maluquinho (fácil).

Só depois nos damos conta do quanto desconhecemos sobre cada um destes pontos, sendo que num só minuto, já dizia Romeu apaixonado, pode caber a vida inteira, e uma vida inteira cheia de  injustiças, incompreensões, pulsões incontroláveis, limitações nervosas, enganos, ambições, faltas de honra, o que é o mesmo que dizer, ora foda-se, a racionalidade é um labirinto do caralho, e não adianta passar a vida a importar modelos lineares (sejam políticos ou económicos) e depois, quando acontecem as merdas, despejar coragem, valores e proclamações histéricas para cima dos problemas chamados humanos. Este é um aspeto onde, em geral, os cientistas e os humanóides, por norma, se dividem, embora, no meu caso, mantenha um posição de ambiguidade estratégica, pois não partilhando da sonolência, rasta no cabelo, e do cheiro a fogueira, da maioria dos defensores do pós-modernismo, também não partilho do excesso de simplificação e modelagem em argila matemática, ou se quiserem, do excesso de vetorização mental aplicado, com vaselina, pelo cientista, a problemas complexos ou, muito pior, mal formulados.

Assim sendo, e despedindo-me por hoje, a caminho de um saudável exercício físico em pavilhão da periferia, gostaria de uma vez mais, relembrar, e porque recordar é viver, como sabemos muito pouco acerca do mundo, e ainda menos sobre nós próprios, e quanto mais tempo ignorarmos este facto, mais longe estaremos de um dia vir a compreender alguma coisa.

Zinédine Zidane.

Como bibliografia de apoio recomendo a muito fértil leitura deste paneleiro, com revisitação aqui.

sexta-feira, 13 de março de 2015

No fundo, o Facebook foi criado para eu tomar conhecimento destas maravilhas.

Anton Chekhov’s name appears in many reviews of your work. How do you relate to him as an artist? How are the works of Chekhov, or of any of the classic Russian writers, regarded in contemporary Russia? 

For me, Chekhov, like Pushkin (who is an absolute genius and therefore untranslatable), are dear, kindred spirits who don’t know that I exist. Russians treat these classics with unchanging passion and jealousy. Some years back, I wrote a piece about Pushkin’s death. I was engulfed by popular hatred. Within days, my piece was read by 14,000 readers. 

Ludmilla Petrushevskaya

quinta-feira, 12 de março de 2015

A escolha entre gajas entendida como ambiguidade sociológica.

O problema não é a existência de fenómenos de massas como a Cristina Ferreira, e a sua Revista Cristina, pois, apesar de tudo, e valha-nos deus, acreditamos estar na presença de um sintoma altamente positivo, a saber, gajas boas, para não falar desse singelo facto, a saber, as mamalhudas burrinhas terem passado a acreditar no poder cultural, financeiro, mediático e erógeno do raciocínio escrito (e mesmo contando com a hipotética quantidade de imagens, e a reduzida - ainda bem - quantidade de texto da referida revista), pensando nós, aqui e agora, nas consequências que todos adivinhamos no domínio das transformações ao nível da economia da informação, sendo inevitáveis os ganhos para todos os que, irmãos em Cristo e, iluminados pela filosofia do século XVIII, confiam no alastramento da exigência computacional, que todos temos necessidade de manter uns perante os outros, especialmente na articulação da vasta gritaria de que somos feitos, nós e o nosso vasto mundo moderno, acreditando ainda, pelo menos nós (e não querendo falar pelo mundo moderno, deus nos livre) que a Revista Cristina pode ser o esperançoso sinal desse amanhã cantante, na ultrapassagem do mais sabujo dos cepticismos, a saber, a steineriana ideia de que a cultura é compatível com a barbárie (não é, caralho, não é) assunção amplamente desmentida pelo autor de Os que Sucumbem e os que se Salvam, a quem a experiência do campo de concentração (mesmo numa versão moderada pela migração casual para um laboratório químico) não anestesiou a sentido analítico, desmentindo o saudoso escritor italiano o perigoso mito de que os oficiais das SS tocavam Schubert e liam Goethe - mas como, caralho, como? - e afirmando, claro está, como os oficiais nazis eram estatisticamente e em geral, humana e previsivelmente, emocional e artisticamente, uns burros do caralho (e aí está a confusa e paneleira obra de uma Hannah Arendt para confirmar a absoluta estupidez congénita do oficial típico do III Reich).


Repito: o problema não é a a existência em Portugal de pessoas como a Cristina Ferreira, o problema é a não existência em Portugal de pessoas mediáticas e intelectualmente estimulantes como a Maria Konnikova, e com isto, o leitor adivinhou, estou precisamente, de forma consciente, consistente e congestionada, a declarar a minha profissão de fé no aforismo tantas vezes aqui repetido, defendido e proclamado: libertem o povo, guilhotinem as elites, e teremos democracia, riqueza, saúde, cultura e gajas boas com neurónios na televisão, nos jornais e nas revistas.



It’s elementary

Deus nos ajude, pois, nesta paciente espera.

quarta-feira, 11 de março de 2015

A ignorância e a estupidez não conhecem fronteiras nem formação académica: saudemo-nos na paz de Cristo.

Free from language the music of our vocal expression is universal and rings true across races and cultures. And not just humans, just think of the family dog.

No matter where you (and your customers)are and no matter what language they speak. In life, it’s not about what you say, but how you say it.

Portanto, e se nos é permitido, gostaríamos de enviar o autor deste artigo para a puta que o pariu, perguntado ainda, com todo o respeito, a esse burro do caralho, em que molho de bróculos tinha os cornos enfiados, quando optou por escrever um texto em vez de gravar um vídeo com a sua voz de paneleiro e se por esse singelo facto, o ter optado pelo discurso verbal, ficou assim impedido da eficácia emocional por meio do texto, o grande e excelentíssimo cabrão, eficácia essa em nada incompatível com os objectivos pretendidos, diríamos nós, que não percebemos um corno desta confusão em que estamos prestes a cair como pessoas, como sociedade e como civilização do broche institucionalizado em forma de comércio.