sábado, 23 de março de 2013

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O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo -
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.

Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.
Pessoa, Ulisses

Quis o destino que a eleição do novo Papa coincidisse com a leitura do capítulo sobre a religião do The World Until Yesterday. Um livro que começou bem, mas rapidamente se limitou a contar historietas pessoais do autor.  Para quem leu o Guns, Germs and Steel, o novo livro fica muito aquém das expectativas.

Em particular o capítulo sobre a religião é, ao nível dos argumentos, de uma pobreza franciscana que mete dó. Resumindo, a crença no supernatural é irracional e própria de mentes ainda não tocadas pelo esplendor absoluto da ciência. Mas como o sentimento religioso é ubíquo a todas as culturas humanas, então é porque deve forçosamente trazer vantagens evolutivas. Naturalmente, o passo seguinte é torturar os factos observáveis até que eles concordem em suportar a teoria das vantagens evolutivas da religião.

Ora, para mim chamar ciência a algo em que as conclusões são determinadas a priori e as observações interpretadas como dá mais jeito, não é ciência coisa nenhuma. E a ser, então Suma Teológica de São Tomás de Aquino também terá forçosamente que ser considerada ciência. De qualidade, a julgar pelo pouco que conheço.  

Em paralelo tive a telenovela da eleição do papa, latino, jesuíta e preocupado com a pobreza. O barulho que se gerou à volta destes acontecimentos espantou-me, não me lembro de nada comparável quando Bento XVI foi eleito e se "descobriu" o seu passado Nazi.

Um interregno, para declarar que na minha juventude gamei fruta ao coberto da noite e a maior parte foi utilizada como arma de arremesso contra os comparsas . Nunca se sabe se um dia destes não dou por mim na cadeira de São Pedro.

Escutei que um papa preocupar-se com a pobreza é hipocrisia, sobretudo se vier da campeã das hipocrisias e desigualdades que é a América-Latina. Ouvi que os jesuítas são a personificação do mal e cospem ódio ao papa. Li que a Igreja deve é promover o bem-estar económico em vez de se preocupar em vestir os nus e dar pão a quem tem fome.

É muita coisa em tão curto espaço de tempo, e até um tipo calmo e pacato como eu perde a calma.

Jesuítas a esmagar uvas em 1910. Ksara, Líbano
 

2 comentários:

alf disse...

Não acho que um Papa preocupar-se com a pobreza seja hipocrisia, a palavra adequada é talvez especialização. Também não acho que os Jesuítas odeiem o Papa, embora a historiografia da Companhia de Jesus esteja povoada por tentativas de desvaticanização da Teologia (Teilhard à cabeça), sendo que do ponto de vista da Teoria das organizações os Jesuítas são uma espécie de Sporting com sucesso.

A minha posição sobre a Igreja é simples:como filho do homem tocado pela queda, estou a caminho de Jerusalém. Apenas paro de vez em quando, tal como S. Agostinho, para me divertir um bocadinho, no meu caso, e na falta de outros meios, opondo o meu circo mental ao circo mental que constitui todo o magistério da Igreja, isto antes de repudiar a mulher, a descendência, e abandonar o mundo sensual, dizendo, Senhor, Senhor, Senhor...

Se a Igreja pretende vestir quem tem frio, dar de beber a quem tem sede, e de comer a quem tem fome, sugiro o contacto imediato com o Continente S.A. e o Pingo Doce pois fazem isto de forma mais eficaz. Uma contemplação rápida pela história da Europa rapidamente revelaria que foi quando a Igreja foi remetida ao quintal das traseiras que se deu, milagre dos milagres, um recuo da fome, da sede e do frio em geral.

Não custa muito adivinhar que resultados similares podem ser obtidos em África e na América Latina, assim fossemos capazes de fazer recuar a Igreja nesses benditos locais, Igreja que não sendo exclusivamente responsável por todo o obscurantismo mundial, possui no entanto uma parte importante dos direitos de autor nesse domínio. Não substimemos o valor das palavras. Dar voz aos burros pode provocar danos irreversíveis: a Europa do Sul que o diga.

A Igreja é o principal demónio do mundo? Não, não é. A Igreja representa uma irracionalidade política e um instrumento de adaptação ao ambiente totalmente desadequado face ao momento tecnológico, demográfico e psicológico da humanidade? Sim.

A Igreja representa um insulto à correcta compreensão das nossas fragilidades, dúvidas e potencialidades, uma mistificação tão insultuosa como qualquer outra cosmogonia do médio oriente antigo transplantada para a civilização às custas de uma romanidade moribunda e decadente, cavalgando o medo, o regresso da ruralidade feudal, e da política de risco mínimo e humilhação máxima nas relações humanas? Sem dúvida.

A correção sobre a tipologia do vinho é pertinente e procede, embora eu prefira em grande medida verde tinto, Ponte de Lima.

Abraço e temos que discutir mais isto.

silvia disse...

alf,

Dizem que o culpado és tu :)
fui identificada ao balcão de uma livraria ao atrever-me a pedir:)
As cidades invisiveis-do Calvino.
heheheheh

numa próxima terei de ter cuidado e pedir baixinho:)