quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
A liberdade de expressão
Ou a importância de se conhecer a dinâmica de um sistema de segunda ordem.
Fatal como o destino, após o sarrabulho de Paris, as reacções cristalizaram em torno das categorias já comuns: "morte aos sarracenos", "condeno, mas a culpa é nossa" e, o alvo deste texto, "a liberdade de expressão é sagrada".
As duas categorias, sendo as de mais fácil accesso intelectual, foram e continuam a ser mastigadas na comunicação social. Não vale a pena gastar largura de banda com elas. Centremos a mira da 338TP na última categoria, portanto.
D. Duarte criticou o Charlie Hebdo, subrepticiamente introduzindo o termo pasquim na discussão, um abraço e um bem haja, pasquim é claramente sub-utilizado no português moderno. Os comentários rapidamente concorreram para a necessidade de liberdade de expressão, como se fosse um fim em si mesmo. E quando aqui se bate, ao de leve e mansinho, no Papa, lá aparece o tradicional "Mas alguém disse que o Papa não tem direito a ter uma opinião livre? Ele tem o direito de ter e dar a sua opinião, e eu tenho o direito de, depois de a ouvir, ter uma opinião sobre a opinião dele, e criticá-la. Foi só isso que fiz." pelo autor do post.
A liberdade de expressão é tal qual como arrear o calhau em plena Rua Augusta. Todos temos o direito de o fazer, mas será que devemos ?
A liberdade de expressão é um meio, não um fim, e parece-me impressionante que tanta gente ainda não tenha percebido isso.Se nos ficamos pelo estúpido "não concordo com o que dizes mas defenderei o direito de o dizeres", estúpidos ficamos. Tão óbvio quanto a inaptitude para o futebol de Naby Sarr, é o facto de a expressão da mente humana se querer livre. Porque só assim nos podemos levantar da lama primordial onde todas as outras bestas da criação chafurdam alegremente. Aceitar a discussão só porque o outro grunho tem o direito a babosar idiotices, é um puro desperdício de tempo. Mais vale ir ver o Goucha mais a Cristina.
A liberdade de expressão é um meio, não um fim, e parece-me impressionante que tanta gente ainda não tenha percebido isso.Se nos ficamos pelo estúpido "não concordo com o que dizes mas defenderei o direito de o dizeres", estúpidos ficamos. Tão óbvio quanto a inaptitude para o futebol de Naby Sarr, é o facto de a expressão da mente humana se querer livre. Porque só assim nos podemos levantar da lama primordial onde todas as outras bestas da criação chafurdam alegremente. Aceitar a discussão só porque o outro grunho tem o direito a babosar idiotices, é um puro desperdício de tempo. Mais vale ir ver o Goucha mais a Cristina.
domingo, 18 de janeiro de 2015
Vocês podem ser o Charlie Hebdo, mas
eu não sou, e tento não ser, o Charlie Hebdo. Primeiro, porque o humor é rasco e segundo, porque tem como único objectivo ofender os visados. Típico de adolescentes. E não sou o único a pensar assim, visto que antes do ataque os tipos estavam com dificuldades em pagar as contas. Parece que, ao contrário dos lamúrios do alf, o mercado das ideias ainda vai revelando alguma racionalidade. O dinheiro que os manos Kouachi gastaram em kalashnikovs e lança foguetes, era mais bem empregue a comprar o Charlie para depois mudar a linha editorial.
Esta história toda impressionou-me, não pela proximidade, mas porque pura e simplesmente não consigo compreender o que levou os tipos a fazer isto. Ou os que os camaradas deles se preparavam para fazer na Bélgica. Por partes.
As atrocidades que vão sendo cometidas na Nigéria, Síria, Iraque, Paquistão, etc, fazem todo o sentido. São senhores da guerra a tentar alargar o pátio. Não deixam de ser atrocidades, e todos, em conjunto com os débeis mentais que no Facebook colocaram a bandeira do ISIL, merecem como destino uma vala comum bem regada de cal. Mas ao menos eu percebo o que os move.
Agora os tipos que fazem estas merdas na Europa, isso já é algo que eu não consigo entender. A razão oficial é infantil: sentiram-se ofendidos com caricaturas. Poderão existir outros motivos, que eu por ignorância desconheço. Em verdade vos digo irmãos que tenho andado bem mais ocupado a ler sobre paradigmas de computação e não me tem sobrado tempo para radicalismos muçulmanos. Mas mesmo que a minha ignorância possa ser a chave da minha incompreensão, também é certo que eu nunca consegui perceber o mal.
Ou seja, eu entendo o ódio (olá José Sócrates) e o desejo de violência física contra terceiros (bom dia Paulo Portas). Mas o mal, a pura essência da maldade, essa tenho sérios problemas em compreender. Serão graves deficiências psicológicas, serão as vicissitudes da vida?
Há uns tempos tive esta discussão com autóctone, cuja tese de doutoramento em história tinha sido o comportamento dos nazis belgas no pós-guerra. Ele não percebia porque é que pessoas que tinham, não só saudado os soldados alemães como dado ainda o corpo ao manifesto na campanha, não mostravam um pingo de vergonha pelos actos criminosos que foram cometidos na época. Não chegámos a uma conclusão, em parte porque nos perdemos a tentar definir o que era o mal. E quando conseguimos, não fomos capazes de aplicar a definição.
Portanto de volta à estaca zero. O que leva esta gente a fazer isto ?
Esta história toda impressionou-me, não pela proximidade, mas porque pura e simplesmente não consigo compreender o que levou os tipos a fazer isto. Ou os que os camaradas deles se preparavam para fazer na Bélgica. Por partes.
As atrocidades que vão sendo cometidas na Nigéria, Síria, Iraque, Paquistão, etc, fazem todo o sentido. São senhores da guerra a tentar alargar o pátio. Não deixam de ser atrocidades, e todos, em conjunto com os débeis mentais que no Facebook colocaram a bandeira do ISIL, merecem como destino uma vala comum bem regada de cal. Mas ao menos eu percebo o que os move.
Agora os tipos que fazem estas merdas na Europa, isso já é algo que eu não consigo entender. A razão oficial é infantil: sentiram-se ofendidos com caricaturas. Poderão existir outros motivos, que eu por ignorância desconheço. Em verdade vos digo irmãos que tenho andado bem mais ocupado a ler sobre paradigmas de computação e não me tem sobrado tempo para radicalismos muçulmanos. Mas mesmo que a minha ignorância possa ser a chave da minha incompreensão, também é certo que eu nunca consegui perceber o mal.
Ou seja, eu entendo o ódio (olá José Sócrates) e o desejo de violência física contra terceiros (bom dia Paulo Portas). Mas o mal, a pura essência da maldade, essa tenho sérios problemas em compreender. Serão graves deficiências psicológicas, serão as vicissitudes da vida?
Há uns tempos tive esta discussão com autóctone, cuja tese de doutoramento em história tinha sido o comportamento dos nazis belgas no pós-guerra. Ele não percebia porque é que pessoas que tinham, não só saudado os soldados alemães como dado ainda o corpo ao manifesto na campanha, não mostravam um pingo de vergonha pelos actos criminosos que foram cometidos na época. Não chegámos a uma conclusão, em parte porque nos perdemos a tentar definir o que era o mal. E quando conseguimos, não fomos capazes de aplicar a definição.
Portanto de volta à estaca zero. O que leva esta gente a fazer isto ?
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
Eu também sei fazer gráficos
para desenfastiar das mamas da Alexandra, a variação do desemprego (em % da população activa) sobreposto com o Salário Mínimo Nacional (SMN) a preços constantes. Valores do PORDATA, a base de referência é o ano de 1983:
Em mais de 20 anos, o SMN aumentou quase dez vezes enquanto o desemprego praticamente nem piou. E quando o fez foi a partir da crise mundial de 2008. Portanto ou estamos a falar de (ou a graficar) coisas diferentes ou não existe relação directa, linear entre estas duas variáveis.
Em mais de 20 anos, o SMN aumentou quase dez vezes enquanto o desemprego praticamente nem piou. E quando o fez foi a partir da crise mundial de 2008. Portanto ou estamos a falar de (ou a graficar) coisas diferentes ou não existe relação directa, linear entre estas duas variáveis.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
Com quantas palavras se descreve um problema?
Os compêndios, manuais, breviários, conjuntos de regras, bíblias, listas telefónicas, sobre as famigeradas leis da escrita perfeita têm estado na ordem do dia, não sei se devido ao triunfo comercial do modelo «se podes foder-te em companhia, para quê perder mais tempo a tentar fazê-lo sozinho?» ou se por colonização massiva do espírito computacional sobre as nossas melancólicas cabeças, a saber, uma obsessão incontrolável em reduzir tudo a um algoritmo manejável pelas máquinas, não querendo, de modo algum, cometer aqui a superficialidade de explicar o fenómeno por meio da infecciosa proliferação do grande capital.
Como alternativa, este magnífico texto apresenta uma invejável síntese do mais assustador zombie da literatura moderna, a saber, uma suposta ideia de maior verosimilhança patente no pechisbeque psicologista, ou seja, uma escrita que faz do fluxo da consciência (mas que raio é essa merda?) a única forma de retratar os abismos da personalidade humana. Não entro sequer pela crítica de uma suposta profundidade da consciência (e o sublinhado é nosso), devido às minhas evidentes limitações em topologia, mas tendo em conta o sucesso comercial dos livros de António Damásio (como todos sabem, um dos piores presidentes da história do Benfica) já seria o momento do venerável público assumir que a ideia de consciência é tão inefavelmente paneleira como a de alma ou de personalidade, no fundo, um outro nome para a nossa puta ignorância sobre nós mesmos, numa frase que poderíamos atribuir ao grego Samaris, ou a Herberto Helder, com toda a certeza, um gajo que torce pelo Sporting.
Por outras palavras, quem já se confrontou com livros de divulgação na área das neurociências (e tendo em conta que a Leonor Beleza seria em nova uma gaja com um certo nível de agressividade morfológica, de um ponto de vista do homem sensível) sabe perfeitamente como os mais reputados génios da especialidade, não fazem ponta de ideia acerca do que seja a consciência. Mesmo a descrição do seu funcionamento (pelas mãos de um Gazzaniga, gajo menos espalhafatoso do que o António Damásio - e não lhe perdoamos a contratação de Artur Jorge) corre o risco de se assemelhar mais à descrição do funcionamento de uma máquina retroprojetora de transparências (e lembrei-me agora de umas aulas sobre arte rupestre dadas pela reencarnação da Marlyn Monroe, uma gaja de quem toda a Universidade dizia ter galgado o estrado do ensino académico por motivos obscuros, digamos assim) do que à descrição de um organismo vivo, qualquer que seja a definição de organismo vivo, não me fodam agora o juízo com duas questões fodidas em simultâneo, ainda que a indústria pornográfica muito nos tenha ensinado sobre essa matéria.
Em suma, estamos a secar o terreno da ficção publicável, por estarmos todos fodidos do miolo, e não há gajo nem gaja (do Chef'sAcademy ao Factor X, do Alta Definição paneleiro Oliveira à Casa das espetaculares mamas da Sofia, sejamos rigorosos, passando pelo comentário do professor Rebelo de Sousa heil hitler) repito, não há gajo nem gaja, capaz de aguentar cinco minutos de oratória confessional televisiva sem incorrer nas lágrimas, apostando eu que isto se deve a não encontrarmos solução original para os nossos problemas, que é como quem diz, uma voz própria, foda-se, caralho, quando nada nos impediria de procurar um caminho, veja-se o caso de Tolstoi (outro merdas) que via na infelicidade da adúltera sentimental um maior emblema distintivo do aquele representado pela mulher desinibida disposta a vender o corpo de forma especializada e profissional, o que não o impediu - justiça lhe seja feita - de nos falar com uma cristalina objetividade, pelo que, pergunto, teriam os russos à época um «mestre de gramática armado com régua de madeira» em lugar de um cérebro habitado por uma consciência?
Do meu triste ponto de vista, tudo se deve à imaginação lunática de uns quantos literatos que encostados à parede pelas circunstâncias específicas da sua vida (e tanto Joyce como Proust se envenenaram o suficiente com a ideia platónica de alma) deram em ressuscitar a parafernália sentimental do cristianismo sob a forma científica e mecânica da consciência, esse esgoto a céu aberto.
Do meu triste ponto de vista, tudo se deve à imaginação lunática de uns quantos literatos que encostados à parede pelas circunstâncias específicas da sua vida (e tanto Joyce como Proust se envenenaram o suficiente com a ideia platónica de alma) deram em ressuscitar a parafernália sentimental do cristianismo sob a forma científica e mecânica da consciência, esse esgoto a céu aberto.
I believeit is also worth pointing out that (for some sections of the novel especially),a tweet feels like (and, tripping off the tongue, even sounds like) the idealdelivery mechanism for a fractured stream-of-consciousness monologue, an artJoyce didn’t invent but certainly cemented and codified as a literary techniqueof incredible aesthetic potential. Ulysses is, in some sense, about thefragmentation of thought and culture in the modern world — a panoramic snapshotof human minds in 1904.
Logicamente, a literatura vive da descrição das coisas, 1) por uso da inteligência, e 2) com recurso ao alfabeto, as únicas regras passíveis de serem formuladas com total segurança. Quanto ao estilo e tamanho das descrições, esperamos sempre esfomeadamente esse divino momento em que alguém, libertando-se em vertigem, tanto do medo do abismo como da consolação da esperança, decide expressar-se, mandando-vos a todos vós, venerando e respeitável público, para o caralho que vos foda.

Logicamente, a literatura vive da descrição das coisas, 1) por uso da inteligência, e 2) com recurso ao alfabeto, as únicas regras passíveis de serem formuladas com total segurança. Quanto ao estilo e tamanho das descrições, esperamos sempre esfomeadamente esse divino momento em que alguém, libertando-se em vertigem, tanto do medo do abismo como da consolação da esperança, decide expressar-se, mandando-vos a todos vós, venerando e respeitável público, para o caralho que vos foda.

A deslumbrante leitora de Marcel Proust, Vittoria Risi.
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
Profunda vénia a todos vós
É com tristeza que confirmo que a discussão na praça pública em Portugal continua a ser feita por adolescentes com o pito aos saltos. A propósito da TAP.
O Mário Amorim Lopes, que eu desconfio ser o nom de plume de Laura Silva Pedrosa, 14 anos, natural da Alfarelos e que está inconsolável por a Liliana ter saído da Casa dos Segredos, acha que teve azar em herdar logo à nascença e contra a sua vontade, uma posição de accionista na TAP. Realmente teve azar, se tivesse nascido no Chade, ou no Burkina Faso, não teria que carregar com este ónus e poderia passar os dias a blogar sobre a guerra civil. Um dia, quando o Mário a Laura for mais velha, gostaria de lhe poder explicar os conceitos de sociedade, liberdade e responsabilidade intergeracional.
Do outro lado da barricada, temos o António Costa. Que sugere um "aumento do capital da empresa, através da bolsa, com investimento de capital privado, sem que o Estado perca a posição de controlo fundamental para a empresa". Que ele tenha dito isto sem se rir, e que o jornalista não lhe tenha enfiado o microfone nas trombas diz muito de ambos.
Que os sindicatos têm toda a razão em fazer greve é algo que me parece da mais elementar verdade. Senão digam-me: o patrão, a seguir a ter-vos cortado o salário, anuncia que a empresa vai ser privatizada e que quase/todos os privilégios em espécie que ainda recebem, vão acabar. Vossas senhorias (i) tiravam o tubo de vaselina da gaveta enquanto baixavam as calças ou (ii) faziam birra e ameaçavam partir tudo enquanto o patrão não desse o dito por não dito ? Não compreender isto é não compreender que o William Carvalho anda a jogar uma merda.
Em verdade vos digo, o estúpido no meio disto tudo fui eu que tinha adquirido três títulos de viagem na TAP para uma das datas da greve e na passada sexta tive de os cancelar e comprar novos títulos de viagem, devidamente inflacionados pelo livre mercado, na concorrência. Mas pronto, é a errar que se aprende e eu aprendi a não efectuar comércio com a TAP. As pitas, em vez de gritinhos esganiçados, que façam o mesmo e utilizem a concorrência. E a TAP que se lixe.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2014
terça-feira, 9 de dezembro de 2014
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
terça-feira, 25 de novembro de 2014
domingo, 23 de novembro de 2014
Há males que vêm por bem
Ainda bem que estou emigrado, não tenho que aturar o circo que imagino está a ser a prisão do Sócrates.
sexta-feira, 31 de outubro de 2014
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
domingo, 26 de outubro de 2014
Com toda a sinceridade que é possível reunir nesta hora de aflição, o verme que sou pretende endereçar encarecidas desculpas e abraçar José Luís Peixoto, lá nas alturas onde se encontre.
Estando nós a verter dos nossos lábios ressequidos o líquido viscoso típico dos pigmeus morais, tanto por sermos recalcados enquanto pessoas odiosas, como por nisso continuarmos por inclinação e vocação, eis que uma simpática leitora oriunda da terra onde reina a Ordem e o Progresso (parabéns Dilma) veio apimentar a nossa trágica existência com uma retumbante e legítima acusação de recalque, ainda a propósito do texto mais lamentavelmente lido (de acordo com as diabólicas estatísticas) nesta nossa singela publicação O Elogio da Derrota, a saber, uma merdola qualquer e sem interesse nenhum a propósito de uma crónica do imortal José Luís Peixoto, merdola que eu próprio, num triste momento da minha vincada e original estupidez, dei a lume com tremenda frustração diante do Carnaval de parvoíces que me caracteriza, de onde gostaria de salientar, entre numerosos exemplos aqui passíveis de serem aduzidos, a minha contumaz mania de fazer do mundo um lugar melhor para todos, a começar por todos e cada um dos leitores de José Luís Peixoto, deus os ajude.
Porém, volvidos dois anos, e sendo o referido texto satírico por mim redigido, uma retumbante merda, não posso deixar de o apresentar aqui como prova da minha existência como ser vivo, e testemunho da luta sem quartel a que me entreguei nestes últimos anos, ficando este texto para a posteridade, como uma de várias dolorosas cicatrizes nesta minha ascensão ao Olimpo, não estando o referido monte dos deuses sequer à vista (Olimpo onde, segundo reza a lenda, passeiam gajas nuas de aljavas penduradas nos apetitosos flancos, mas também paneleiros, é preciso ter cuidado). Contudo, porém, e sem esquecer que no entanto, nada me impedirá de prosseguir nesta vitoriosa senda em busca de qualquer coisa melhor do que esta hora em que nos encontramos, precisamente, as 17 horas e 18 minutos de uma tarde onde é imperioso derrotar o Braga de Sérgio Conceição.
A referida prosa:
Notícia de última hora: José Luís Peixoto explica ...
O comentário da simpática leitora Lena:
Nossa! Seu "recalque" é de doer as vistas... Como diria uma "pensadora contemporânea" brasileira, "beijinho no ombro para o recalque passar longe!".
Lembro, contudo, aos ilustres leitores aqui trazidos por qualquer irónica curva do nosso sistema político-digital, que neste tenebroso e húmido lugar, como o próprio título indica, trata-se de elogiar a derrota, o recalque, o falhanço, a impotência, a falta de mulheres, a escassez de dinheiro, a ressaca, os golos falhados por Lima (avançado do Benfica), as noites em branco, o ranger dos dentes, o morder da almofada, o espremer da bílis, o ressentir da inveja, enfim, todas as patologias psicológicas de que o leitor, como filho (ou filha, ou filha, não esquecer) da nossa bendita medicalizada civilização, for capaz de convocar neste momento de aflição da história da cultura ocidental. Na verdade, para celebrações do génio, temos inúmeras instituições, nomeadamente, as pessoas espectaculares, o que não é, manifestamente, o meu caso, pois tenho bilhete comprado no comboio das doenças mentais, e com muito gosto, o amor de Cristo nos uniu, saudai-vos na paz de Cristo.
Apesar destes excitantes momentos de tensão quero parabenizar a simpática Lena pela sagacidade espiritual e agradecer o beijinho no ombro, tão necessitado estou de carinho neste já longo mês de Outubro, aflito com o destino da minha vida, esmagado com as previsões da minha consciência, derrotado pelos raciocínios do meu cérebro, enjoado pelos espasmos do meu sistema nervoso, inquieto pelas deambulações do meu pessimismo, queimado pelos incêndios da minha imaginação. A todos os leitores e leitoras de todo o nosso belo mundo, do Atlântico ao Pacífico, passando pelos recifes de coral e as neves eternas dos Himalaias, o meu muito obrigado por continuarem a ler O Elogio da Derrota, este imperdível bastião na luta contra tudo e todos, incluindo eu próprio.
Porém, volvidos dois anos, e sendo o referido texto satírico por mim redigido, uma retumbante merda, não posso deixar de o apresentar aqui como prova da minha existência como ser vivo, e testemunho da luta sem quartel a que me entreguei nestes últimos anos, ficando este texto para a posteridade, como uma de várias dolorosas cicatrizes nesta minha ascensão ao Olimpo, não estando o referido monte dos deuses sequer à vista (Olimpo onde, segundo reza a lenda, passeiam gajas nuas de aljavas penduradas nos apetitosos flancos, mas também paneleiros, é preciso ter cuidado). Contudo, porém, e sem esquecer que no entanto, nada me impedirá de prosseguir nesta vitoriosa senda em busca de qualquer coisa melhor do que esta hora em que nos encontramos, precisamente, as 17 horas e 18 minutos de uma tarde onde é imperioso derrotar o Braga de Sérgio Conceição.
A referida prosa:
Notícia de última hora: José Luís Peixoto explica ...
O comentário da simpática leitora Lena:
Nossa! Seu "recalque" é de doer as vistas... Como diria uma "pensadora contemporânea" brasileira, "beijinho no ombro para o recalque passar longe!".
Lembro, contudo, aos ilustres leitores aqui trazidos por qualquer irónica curva do nosso sistema político-digital, que neste tenebroso e húmido lugar, como o próprio título indica, trata-se de elogiar a derrota, o recalque, o falhanço, a impotência, a falta de mulheres, a escassez de dinheiro, a ressaca, os golos falhados por Lima (avançado do Benfica), as noites em branco, o ranger dos dentes, o morder da almofada, o espremer da bílis, o ressentir da inveja, enfim, todas as patologias psicológicas de que o leitor, como filho (ou filha, ou filha, não esquecer) da nossa bendita medicalizada civilização, for capaz de convocar neste momento de aflição da história da cultura ocidental. Na verdade, para celebrações do génio, temos inúmeras instituições, nomeadamente, as pessoas espectaculares, o que não é, manifestamente, o meu caso, pois tenho bilhete comprado no comboio das doenças mentais, e com muito gosto, o amor de Cristo nos uniu, saudai-vos na paz de Cristo.
Apesar destes excitantes momentos de tensão quero parabenizar a simpática Lena pela sagacidade espiritual e agradecer o beijinho no ombro, tão necessitado estou de carinho neste já longo mês de Outubro, aflito com o destino da minha vida, esmagado com as previsões da minha consciência, derrotado pelos raciocínios do meu cérebro, enjoado pelos espasmos do meu sistema nervoso, inquieto pelas deambulações do meu pessimismo, queimado pelos incêndios da minha imaginação. A todos os leitores e leitoras de todo o nosso belo mundo, do Atlântico ao Pacífico, passando pelos recifes de coral e as neves eternas dos Himalaias, o meu muito obrigado por continuarem a ler O Elogio da Derrota, este imperdível bastião na luta contra tudo e todos, incluindo eu próprio.
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
Amanhã o meu dia vai ser assim
No filme "Não ou a vã glória de mandar", aquando da batalha de Alcácer-Quibir, o Luís Sintra interpreta um coxo que incentiva os soldados a irem combater com a seguinte frase (cito de memória):
Vamos ! Em frente, que foi para morrer que aqui viemos hoje !
Já não sei o que aconteceu à personagem, provavelmente lerpou junto com el-rei Dom Sebastião. Mas está tudo bem comigo.
Vamos ! Em frente, que foi para morrer que aqui viemos hoje !
Já não sei o que aconteceu à personagem, provavelmente lerpou junto com el-rei Dom Sebastião. Mas está tudo bem comigo.
segunda-feira, 8 de setembro de 2014
terça-feira, 26 de agosto de 2014
sexta-feira, 11 de julho de 2014
De que gostam, afinal, as mulheres?
Blogue Ciberescritas (http://blogues.publico.pt/ciberescritas/) da jornalista Isabel Coutinho, Ipsilon/suplemento cultural (risos, risos) do Público/ Grande Capital/Espírito Santo Finance/Sonae, SA/Tony Carreira/Instituições/As forças do mal, etc, etc.
Parece que efectivamente, contudo, morreu o companheiro de Marguerite Duras. Este tema levaria a colocar em perspectiva a ascensão da mulher no mercado do livro, quer enquanto consumidora, quer enquanto autora, quer enquanto crítica, quer enquanto unidade de potência, quer ainda enquanto força de tracção à retaguarda. No entanto, somos forçados a admitir que as coisas vão muito mal, quer dizer, vão muito bem, uma vez que nos é dado sempre experimentar a áspera e salgada língua da realidade.
Poderemos extrair de um irrelevante evento da vida da, portanto, já falecida Marguerite Duras, algo de substancial? No caso de uma potencial e impotente resposta afirmativa, poderemos, nesse caso, e efectivamente, apenas concluir alguma coisa acerca da pertinência do artigo recentemente publicado no Público pela sempre bela, helénica e atractiva (a julgar pelas fotografias) Isabel Coutinho (que esperamos, em Cristo, não ser relacionada geneticamente com a família Pereira Coutinho, a bem de Portugal, de Fátima e da necessária aleatoriedade dos poderes cósmicos do Universo).
Poderemos extrair de um irrelevante evento da vida da, portanto, já falecida Marguerite Duras, algo de substancial? No caso de uma potencial e impotente resposta afirmativa, poderemos, nesse caso, e efectivamente, apenas concluir alguma coisa acerca da pertinência do artigo recentemente publicado no Público pela sempre bela, helénica e atractiva (a julgar pelas fotografias) Isabel Coutinho (que esperamos, em Cristo, não ser relacionada geneticamente com a família Pereira Coutinho, a bem de Portugal, de Fátima e da necessária aleatoriedade dos poderes cósmicos do Universo).
http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/yann-andrea-companheiro-de-marguerite-duras-morreu-aos-63-anos-1662528
(é que já nem um link sei introduzir nesta merda)
Tentaremos neste breve intervalo da nossa tragédia profissional responder a esta elegante, pretensa e ociosa, questão: qual o interesse para o público de uma notícia sobre a morte do companheiro da escritora Marguerite Duras? Evidentemente, nenhum. Todavia, o jornalismo insiste em fazer dos suplementos culturais a coutada da sobrevivência das espécies nacionais em extinção, nomeadamente, os funcionários e colaboradores dos jornais. Se isto é iniciativa privada, venha a função pública em todo o seu vibrante esplendor, paramentada de roxo e ajaezada à Andaluza. Claro que os leitores mais versados em Paulo Coelho, ou noutra qualquer quincalharia psicológica mais sofisticada, estarão agora a arquear a felpuda sobrancelha, exclamando: este gajo (ou seja, eu) quer é ir para lá. Nada mais errado. Eu quero é que não me venham foder a paciência com a ideia da justiça e da sustentabilidade dos projectos mediáticos, que isso sim, me inferniza a vida e a de todos os que pretendem sobreviver (sem lamber o cu ao sistema mediático-editorial) pelo uso das faculdades mentais, nomeadamente no uso inteligente do alfabeto e da narrativa.
Vi em diversos espaços culturais, sem excepção do facebook, menções aos Cavalos de Tarquínia da autoria de Marguerite Duras, livro que tenho todo o gosto em nunca ter metido as mãos. Gostaria contudo, e portanto, de muito ter sido convencido pelo artigo de Isabel Coutinho. No entanto, e infelizmente, os livros continuam a ser entendidos pelas pessoas dos livros como objectos sem capacidade para marcar a agência noticiosa, pois a mesma encontra-se saturada pelos eventos biologicamente associados aos autores dos livros. Por outras palavras, as pessoas que vivem à custa dos livros, continuam a não estar dispostas a morrer pelos livros, razão pela qual, e não me canso de dizer isto, Cervantes já ridicularizava o romance como destino comportamental. Quer dizer que um gajo a quem a guerra e a puta da vida decepara um braço em batalha, estava disposto a sofrer, apesar de tudo, por um destino cujo fim último seria a ambiguidade, o equívoco, e depois, o esquecimento, última estação de todo o animal falante.
Contudo, os comerciantes do livro são os primeiros a enterrar as propriedades do livro num monte de contradições, contribuindo para a misteriosa evolução da natureza, sem que nenhum deles, ou mesmo nós, possamos resolver o irremediável labirinto de erros, razão que nos deveria levar a maior prudência nos actos, mas de caminho temos de almoçar. Isto é muito mais do que trágico, isto é Impulse. A bondosa jornalista Isabel Coutinho, estimulada pelo chefe, e o próprio chefe, estimulado por uma percepção dos gostos dos indivíduos, ou muito pior, a jornalista Isabel Coutinho, ela própria, convicta da importância da morte do companheiro de Marguerite Duras, decide gastar o caríssimo e acossado espaço da imprensa generalista para nos brindar com bugigangas reais (meu deus, reais, reais) a propósito da vida sexual (eventualmente, eventualmente) do companheiro da escritora Marguerite Duras, ela própria tão estimulante sexualmente como uma melancia. Bem, talvez a melancia, enfim.
Quero portanto concluir, com júbilo e ao som de trombetas, que o artigo jornalístico de Isabel Coutinho não é muito melhor do que O poder do amor, programa de entretenimento da SIC generalista, ao entronizar a realidade como produto cultural, dando-se ao jogo mortal (por fraqueza de raciocínio e homérica ignorância) de uma suposta eficácia económica baseada na visão sobre o papel dos sentidos e dos afectos nas relações de comunicação entre orgãos mediáticos e público. Claro que esta merda vai desabar a qualquer momento, mas enquanto não desaba, eu passo por maluquinho e a realidade passa por ajustada à «realidade». Ou seja, está em marcha um triunfo sensacionalista do sensualismo moderado, e seria interessante avaliar o papel das mulheres nesta evolução. Fariam os estúpidos dos homens melhor? Claro que não. Em primeiro lugar, não pretendo, deus me livre, fazer aqui qualquer apologia da relação entre sagacidade crítica e orgãos genitais masculinos. Em segundo lugar, o fenómeno é por demais complexo para que possa conferir-se às mulheres uma unidade de intenções ou uma planificação dos produtos culturais. Não pode contudo negar-se que há qualquer coisa de diverso num certo triunfo da novela/romance/amor enquanto tragédia dos afectos moderados, de longo prazo, bem como dos cálculos de segurança e previsão do lar, por oposição à novela/romance/amor enquanto tragédia do desejo apolíneo, violento, efémero, múltiplo, destrutivo, sistemático, artificial, irónico, anti-natural e anti-reprodutivo, e por isso, tido como anti-humano.
Contudo, os comerciantes do livro são os primeiros a enterrar as propriedades do livro num monte de contradições, contribuindo para a misteriosa evolução da natureza, sem que nenhum deles, ou mesmo nós, possamos resolver o irremediável labirinto de erros, razão que nos deveria levar a maior prudência nos actos, mas de caminho temos de almoçar. Isto é muito mais do que trágico, isto é Impulse. A bondosa jornalista Isabel Coutinho, estimulada pelo chefe, e o próprio chefe, estimulado por uma percepção dos gostos dos indivíduos, ou muito pior, a jornalista Isabel Coutinho, ela própria, convicta da importância da morte do companheiro de Marguerite Duras, decide gastar o caríssimo e acossado espaço da imprensa generalista para nos brindar com bugigangas reais (meu deus, reais, reais) a propósito da vida sexual (eventualmente, eventualmente) do companheiro da escritora Marguerite Duras, ela própria tão estimulante sexualmente como uma melancia. Bem, talvez a melancia, enfim.
Quero portanto concluir, com júbilo e ao som de trombetas, que o artigo jornalístico de Isabel Coutinho não é muito melhor do que O poder do amor, programa de entretenimento da SIC generalista, ao entronizar a realidade como produto cultural, dando-se ao jogo mortal (por fraqueza de raciocínio e homérica ignorância) de uma suposta eficácia económica baseada na visão sobre o papel dos sentidos e dos afectos nas relações de comunicação entre orgãos mediáticos e público. Claro que esta merda vai desabar a qualquer momento, mas enquanto não desaba, eu passo por maluquinho e a realidade passa por ajustada à «realidade». Ou seja, está em marcha um triunfo sensacionalista do sensualismo moderado, e seria interessante avaliar o papel das mulheres nesta evolução. Fariam os estúpidos dos homens melhor? Claro que não. Em primeiro lugar, não pretendo, deus me livre, fazer aqui qualquer apologia da relação entre sagacidade crítica e orgãos genitais masculinos. Em segundo lugar, o fenómeno é por demais complexo para que possa conferir-se às mulheres uma unidade de intenções ou uma planificação dos produtos culturais. Não pode contudo negar-se que há qualquer coisa de diverso num certo triunfo da novela/romance/amor enquanto tragédia dos afectos moderados, de longo prazo, bem como dos cálculos de segurança e previsão do lar, por oposição à novela/romance/amor enquanto tragédia do desejo apolíneo, violento, efémero, múltiplo, destrutivo, sistemático, artificial, irónico, anti-natural e anti-reprodutivo, e por isso, tido como anti-humano.
O mais relevante, neste tipo de problemas, é a existência de uma ideia de sustentabilidade económica, de burrice estratégica, de enviesada concepção da natureza, ao entender o jornalismo da obra de ficção como sujeito às mesmas leis da comunicação de acidentes ou eventos de sociedade, em si, um sub-produto das gazetas e crónicas aristocráticas do século XVII. O livro de ficção é o contrário do jornalismo, e se isto não é claro para um jornalista, devia ao menos servir como um supositório anti-febril. Meteu-se na cabeça das pessoas que escrever sobre livros do passado não faz parte da actualidade actuante, e de caminho mergulha-se na necrologia de sub-produtos da vida mental dos escritores. Ou estão o Jornal Público e a Isabel Coutinho convictos da importância deste incidente (a morte do não sei quantos) na vida biológica mundial, ou, naturalmente, teriam de assumir a sua vocação quixotesca e analisar os problemas (o que é um texto? a quem se dirige? que instrumentos usa? que comportamentos induz? em que pressupostos lógico-científicos se baseia? propõe explicações para a tragédia da indecisão humana, etc, etc) mesmo que para tal fossem forçados a trabalhar um pouco mais a linguagem. Gostaria de lembrar que enquanto Cervantes escreveu merdolas a gosto, cirandou pelos becos, e quando escreveu a sua imortal paródia, alcançou o sucesso comercial. Não sou ingénuo ao ponto de pensar que existe um Cervantes potencial em cada jornalista/colaborador do Público. Em todo o caso, acredito na inteligência das pessoas.
Palpita-me que, como em muitas outras coisas, o problema reside neste entroncamento: o trabalho custa. Ao ser necessário introduzir mecanismos retóricos (humor, sensacionalismo) no tratamento dessas questões, para além do domínio das mesmas referidas questões (e passo a repetir: o que é um texto? a quem se dirige? que instrumentos usa? que comportamentos induz? em que pressupostos lógico-científicos se baseia? propõe explicações para a tragédia da indecisão humana) o jornalismo entende ser mais democrático entregar ao público o que o público, supostamente, já conhece, incorrendo, o referido jornalismo, na ideia de que o jornalista não é um professor mas apenas um simples e humilde mensageiro. Esta é, porém, a terrível ferida mortal por onde sangra o jornalismo: nesse caso, o jornalismo deixou de ser necessário, pois somos todos jornalistas, razão pela qual os jornais se estão a foder à grande e à francesa.
Que a política (luta pelos orçamento de Estado) incorra nesta demagogia infértil, desculpa-se com um certo conhecimento dos vários totalitarismos, um pouco de boa vontade e alguma vaselina. Que o façam os jornalistas culturais, sempre prontos a choramingar atenção diferenciada para a cultura, constitui-se como uma realidade chocante. Deste modo, e continuando a festa, não virá ao mundo nenhuma decadência moral pelo facto de os livros desaparecerem da nossa paisagem mediática, nem sequer se forem eliminados, por completo, das nossas ferramentas digitais e dos nossos hábitos de consumo. Não incorro sequer no tremendismo das críticas ao inevitável empobrecimento da linguagem se os textos literários se virem extintos às mãos, digitalmente adestradas, de universitárias mamalhudas, cheias de sonhos e esperanças, que fazem do terrorismo ortográfico o mais doce dos cantos. Só não admito que imputem à natureza e ao progresso o que só à burrice, e à trágica liberdade, dos homens e das mulheres diz respeito.
Palpita-me que, como em muitas outras coisas, o problema reside neste entroncamento: o trabalho custa. Ao ser necessário introduzir mecanismos retóricos (humor, sensacionalismo) no tratamento dessas questões, para além do domínio das mesmas referidas questões (e passo a repetir: o que é um texto? a quem se dirige? que instrumentos usa? que comportamentos induz? em que pressupostos lógico-científicos se baseia? propõe explicações para a tragédia da indecisão humana) o jornalismo entende ser mais democrático entregar ao público o que o público, supostamente, já conhece, incorrendo, o referido jornalismo, na ideia de que o jornalista não é um professor mas apenas um simples e humilde mensageiro. Esta é, porém, a terrível ferida mortal por onde sangra o jornalismo: nesse caso, o jornalismo deixou de ser necessário, pois somos todos jornalistas, razão pela qual os jornais se estão a foder à grande e à francesa.
Que a política (luta pelos orçamento de Estado) incorra nesta demagogia infértil, desculpa-se com um certo conhecimento dos vários totalitarismos, um pouco de boa vontade e alguma vaselina. Que o façam os jornalistas culturais, sempre prontos a choramingar atenção diferenciada para a cultura, constitui-se como uma realidade chocante. Deste modo, e continuando a festa, não virá ao mundo nenhuma decadência moral pelo facto de os livros desaparecerem da nossa paisagem mediática, nem sequer se forem eliminados, por completo, das nossas ferramentas digitais e dos nossos hábitos de consumo. Não incorro sequer no tremendismo das críticas ao inevitável empobrecimento da linguagem se os textos literários se virem extintos às mãos, digitalmente adestradas, de universitárias mamalhudas, cheias de sonhos e esperanças, que fazem do terrorismo ortográfico o mais doce dos cantos. Só não admito que imputem à natureza e ao progresso o que só à burrice, e à trágica liberdade, dos homens e das mulheres diz respeito.

Cavalos de Tarquínia, ao que parece, fabulosa escultura etrusca, terra das imortais italianas de longas pernas e ágil língua.
quarta-feira, 9 de julho de 2014
Embora os nossos leitores se estejam a borrifar para a nossa sorte, como mandam as regras da boa comunicação e da aprendizagem não conspurcada por interesses monetários, afetivos, afectivos ou mesmo afefoditivos (para o caralho tantos os defensores como os críticos do acordo ortográfico) faço notar ao grande público que não estamos assim tão mal.
Blogue da Revista LER http://ler.blogs.sapo.pt/
Blogue O Elogio da Derrota
terça-feira, 8 de julho de 2014
quarta-feira, 2 de julho de 2014
Entre o conservadorismo e a Lana Del Rey, o público, graças a deus, não hesita.
O João Pereira Coutinho assinou recentemente a defesa pública do conservadorismo. Mas o público, sem tempo para perder tempo com inovações (a alfabetização das massas ou a leitura de livros) pergunta desconfiado: o que é o conservadorismo? Não se pode explicar isso num minuto? Temos mesmo de comprar o livro?
Para sossego das consciências modernas, respondo: claro que não. Devo dizer, antes de mais, que é muito estimulante circular numa República onde 80% das personalidades públicas resultam de um belo efeito de conservação, sendo que não basta, a conservador que se preze, esse simples efeito de conservar a sua posição inicial de pessoa bem nascida. Não, não, de modo algum. O conservador procura por todos os meios espalhar o germe da conservação, ficando, por exemplo, o pobre republicano, socialista e laico espantado com o facto de o conservador pretender dirigir-se a um público para conservar o estado de coisas. Não seria melhor, se o objectivo é conservar, manter o silêncio? Daqui resulta um sinistro paradoxo, ao pretender o conservador alterar a situação do público em relação a uma situação inicial específica (ou seja, o conservador não convive bem com o facto de o público poder permanecer ignorante absoluto do que seja a conservação). Em geral, o conservador não se perturba com estas contradições, pois conserva também vários amigos cuja conservação o leva a escrever em jornais (esses instrumentos da conservação) e livros (objectos frutos da conservação do manuscrito) esforçados no gesto de convencer quem os rodeia de que devem conservador aquilo que a todos nos mantém de joelhos perante os conservadores.
Assim, o monumental João Pereira Coutinho, ilustre cientista (oi) político, publicou, na sua versão portuguesa, um belo manual sobre conservadorismo, não se lembrando que a simples publicação do seu livro constitui uma retumbante refutação dos méritos do conservadorismo. Como apelidar estes frutos da incapacidade de os conservadores se conservarem como estão, calados, preferindo os conservadores dirigirem-se aos outros para os convencer a não conservarem a sua ignorância sobre o que os conservadores têm para dizer? Bem, não temos resposta para esta pergunta, mas creio que as coisas na Universidade estarão cada vez mais difíceis.
Não conheço as origens específicas da família Pereira Coutinho (resistindo eu contra todas as pulsões lunáticas do meu sistema nervoso que me levariam a investigar de onde raio saiu o João Pereira Coutinho para chegar depois à landscape da conservação). O desconhecimento das origens intelectuais de João Pereira Coutinho não nos impede, contudo, de nos maravilharmos com os necessários e inegáveis méritos da conservação, pelo menos durante alguns minutos, mesmo que diante de uma certa perplexidade, tendo em conta a multiplicação de conservadores alojados nos sovacos de uma instituição conservadora, como a Universidade Católica, cuja conservação se deve a esse grande conservador, Jesus de Nazaré, um gajo com tal capacidade de conservação que resolveu pregar-se a duas tábuas cruzadas para ver quanto tempo aguentava conservado na mesma posição.
Para sossego das consciências modernas, respondo: claro que não. Devo dizer, antes de mais, que é muito estimulante circular numa República onde 80% das personalidades públicas resultam de um belo efeito de conservação, sendo que não basta, a conservador que se preze, esse simples efeito de conservar a sua posição inicial de pessoa bem nascida. Não, não, de modo algum. O conservador procura por todos os meios espalhar o germe da conservação, ficando, por exemplo, o pobre republicano, socialista e laico espantado com o facto de o conservador pretender dirigir-se a um público para conservar o estado de coisas. Não seria melhor, se o objectivo é conservar, manter o silêncio? Daqui resulta um sinistro paradoxo, ao pretender o conservador alterar a situação do público em relação a uma situação inicial específica (ou seja, o conservador não convive bem com o facto de o público poder permanecer ignorante absoluto do que seja a conservação). Em geral, o conservador não se perturba com estas contradições, pois conserva também vários amigos cuja conservação o leva a escrever em jornais (esses instrumentos da conservação) e livros (objectos frutos da conservação do manuscrito) esforçados no gesto de convencer quem os rodeia de que devem conservador aquilo que a todos nos mantém de joelhos perante os conservadores.
Assim, o monumental João Pereira Coutinho, ilustre cientista (oi) político, publicou, na sua versão portuguesa, um belo manual sobre conservadorismo, não se lembrando que a simples publicação do seu livro constitui uma retumbante refutação dos méritos do conservadorismo. Como apelidar estes frutos da incapacidade de os conservadores se conservarem como estão, calados, preferindo os conservadores dirigirem-se aos outros para os convencer a não conservarem a sua ignorância sobre o que os conservadores têm para dizer? Bem, não temos resposta para esta pergunta, mas creio que as coisas na Universidade estarão cada vez mais difíceis.
Não conheço as origens específicas da família Pereira Coutinho (resistindo eu contra todas as pulsões lunáticas do meu sistema nervoso que me levariam a investigar de onde raio saiu o João Pereira Coutinho para chegar depois à landscape da conservação). O desconhecimento das origens intelectuais de João Pereira Coutinho não nos impede, contudo, de nos maravilharmos com os necessários e inegáveis méritos da conservação, pelo menos durante alguns minutos, mesmo que diante de uma certa perplexidade, tendo em conta a multiplicação de conservadores alojados nos sovacos de uma instituição conservadora, como a Universidade Católica, cuja conservação se deve a esse grande conservador, Jesus de Nazaré, um gajo com tal capacidade de conservação que resolveu pregar-se a duas tábuas cruzadas para ver quanto tempo aguentava conservado na mesma posição.

Lana Del Rey, conservando os
braços abertos em posição crística.
terça-feira, 1 de julho de 2014
Ai então a verdade é isto?

Rapariga natural de Famalicão, comprometida com vários cursos sócio-profissionais, incapaz de conjugar diversos verbos regulares, algo ressentida por um caso mal resolvido com um bombeiro de Fafe, muito cedo apaixonada por animais domésticos (sobretudo gatinhos listados) e unhas de gel (vermelho sangue raiado a ouro, rosa estriado de amarelo sol-em-fogo), portadora de uma vastíssima experiência (com pelo menos um assédio implícito num toque de mão e duas reclamações inflamadas, uma protagonizada por mãe-solteira) em lojas de telefones móveis, e pessoa a quem a avó (histórica devota analfabeta militante do partido do governo) confeccionou, numa semana, o vestido do crisma (com pano comprado na retrosaria de um retornado alcoólico) acompanhada aqui por um gordo de merda de um serralheiro barrigudo de Quiaios (coleccionador de latas de refrigerantes e discos de vinil de bandas americanas inteiramente ultrapassadas) e além do mais, segundo consta, amigo de infância do Hugo Almeida, incompreensível profissional de futebol internacional ao serviço da República Portuguesa).
De sentimentos detalhados, emoções profundas, fluxos da mente, e várias outras merdices contemporâneas, não falo. Ao quotidiano, essa divindade para todos os confusos e atormentados corações modernos, atribuo o meu mais profundo desprezo.

Lana Del Rey, uma pessoa comprovadamente real.

Queriam literatura? Claro, claro, é para já, isto se o cruel destino me não foder os cornos antes.
quarta-feira, 18 de junho de 2014
terça-feira, 3 de junho de 2014
O sportinguismo visto pelo benfiquismo de um ponto de vista do conflito entre qualidades dos objetos e explicação do real - o duelo que faltava na história da literatura portuguesa (pronto, basta o título, o leitor escusa de ler o resto).
«a objetividade, esse andrógino fantasma jornalístico»
Rogério Casanova, Trabalhos de Casa
I
A primeira e devida vénia prestada em forma de pastiche, aquele que julgo ser o segundo maior autor de língua portuguesa vivo, corresponde ao reconhecimento de que precisamos uns dos outros, nomeadamente, para continuar a alimentar esperanças sobre a vital e impreterível importância da criatividade humana; e isto, por si só, constitui a negação da mais estafada e cantada cantilena da modernidade: a discrição (em termos matemáticos) da vontade individual como explicação da história.
Com efeito, ou nos salvaremos juntos ou morreremos juntos, é esta a nossa terrível maldição como muito bem têm ensinado as Tribos, as Igrejas, as Universidades, os Partidos Políticos, os Ranchos Folclóricos e os Clubes de Futebol. Como notará o leitor erudito deste blogue, abre o presente texto com subliminar referência às maravilhas do cruzamento genético, ainda que com romântica ascendência, entre o fervoroso adepto do Sporting, tão só envergando como defesa a tatuada historiografia do seu sofrimento, e os efeitos nefandos, por epidémica multiplicação, dos presidentes sportinguistas oriundos do grande capital, nomeadamente a banca. Sendo o Sporting um clube cuja génese e existência se deve, essencialmente, à sobrevivência das camadas socio-monárquicas do nosso «tecido no vale do ave social», parece-me que estamos, portanto, e lamentavelmente, na presença de um perturbante e perigoso, para a epistemologia portuguesa, equívoco.
Quero antes de mais, se me for permitido, deixar uma nota prévia de interesse declarado, ainda antes de se me acabar a vontade de vos dizer alguma coisa. Tenho na minha família populares pessoas infectadas com o lamentável vírus do sportinguismo (irmã e tio ex-combatente da guerra colonial) pelo que estou habilitado a incorrer em território inimigo, escolhendo para o efeito um texto de maradona sobre Bruno de Carvalho, sem prejuízo de um outra referência diversa.
A crítica do inconfundível estilo de maradona deve começar por destacar, desde logo, como fazendo uso do fluxo da consciência (joyceano) o referido maradona optou por abandonar a narrativa, invadindo o registo jornalístico, com notáveis realizações e fecunda originalidade. Passemos em revista alguns aspectos formais pelo que contêm de iluminador para as letras portuguesas.
A qualidade das metáforas utilizadas por maradona asseguram ao leitor aquilo a que Calvino chama o uso especializado de códigos metafóricos, sejam o geográfico, o futebolístico ou o religioso. O que conta sempre em maradona é a eficácia da mensagem, como quando se compara com pertinência o campeonato do mundo a uma «celebração que se reacende» ou quando se referem «a verdade profética da mensagem» e a «natureza apostólica da batalha» de Bruno de Carvalho, duas qualificações bem ritmadas de ressuscitação do aparato instrumental da linguagem bíblica. Por outro lado, ninguém ignorará que a maior virtude dos textos de maradona (mas também de Sérgio Gouveia e Rogério Casanova) se prende com a desfamiliarização, não das metáforas, mas do protocolo da linguagem formal da ciência, que é meticulosa, objectiva e procedimental.
No caso de maradona, o escritor desloca, transforma, rebenta, em suma, reconstrói, a torto e a direito, a própria arquitectura gramatical, sugerindo como um cientista pode também, ou sobretudo, expressar conhecimento com os cacos do laboratório que acaba de partir, fazendo uso de um martelo; a dificuldade está em dispor os cacos de forma a reconstruir o conteúdo semiótico de uma mensagem, tornando-a ainda mais original, rigorosa e pessoal, do que seria possível fazendo uso dos equipamentos vulgares da experiência convencional utilizando um laboratório intacto. Ao utilizar a analogia da demolição do laboratório, quero apontar para uma linguagem «partida», precisamente porque é num contexto aparente de escombros sintácticos, que maradona recupera a nobreza da comunicação com uma convicta fé no poder expressivo da língua como veículo capaz de albergar tanto os perigosos poderes da beleza como a generosa fecunidade do conteúdo. Isto só confirma como maradona está familiarizado com o problema da poesia depois de Auschwitz, e como também está absolutamente convicto da irrelevância, ou pelo menos da esterilidade, dos dramáticos debates causadores de vãos esgotamentos nervosos, a jovens e belas estudantes de filosofia que apertam contra o peito uma obra de Wittgenstein; maradona não ignora como podem ser mortais os pântanos fumegantes da ambiguidade, cada vez mais húmidos e lamacentos a cada nova leitura de uma frase difícil; simplesmente acredita que se poderia ter dado melhor uso a tão torturados peitos.
Considere-se o seguinte excerto referente aos presidentes do Sporting anteriores a Bruno de Carvalho:
pessoas que (por fim) refletem cientificamente sobre a filiação clubística que um adepto do futebol sente pelo seu clube em termos puramente de evidência - a que estamos condenados e a que não podemos fugir -; pessoas destas, queria eu estar a dizer, pró caralho, ou seja, isso mesmo.
O que à partida parece uma construção encavalitada não é mais do que uma experiência da própria capacidade de ultrapassar a incomunicabilidade da linguagem, precisamente o contrário do que o texto parece sugerir. Expliquemos melhor este relevante mecanismo. A ideia da incomunicabilidade é um terrível vício do século XX, já execrado pelo fabuloso, nobre e sempre elegante Primo Levi. Se as mais trágicas exterminações da história podem ser alvo de uma expressão pública dos seus efeitos, em termos de linguagem, e com inegáveis virtualidades de compreensão, porque razão não se poderá expressar a seguinte ideia: que o aparente discurso racional da qualidade da gestão, que não era mais, no caso do sporting, do que um prolongamento da famigerada teoria da escolha racional aplicada ao fenómeno desportivo, pode ser combatido (esse discurso frio e científico de um amor ponderado e racional pelo sporting, mantido como mero intervalo de uma vida concentrada na acumulação de capital) pode ser combatido, dizíamos nós, pela demolição das próprias regras locutórias, utilizando o elenco frio, cirúrgico e formal da linguagem científica, tanto no conteúdo como na forma, ilustrando como a inteligência nos pode proteger da infelicidade decorrente de uma paixão descontrolada, e isto como anestesiando o leitor, após tê-lo conduzido pela mão entre os corredores desinfectados, para o precipitar em seguida, numa morgue repleta de horrores, mostrando como se queria no fundo, e desde o início, enviar as pessoas defensoras de tais teorias «pró caralho», sendo a vida também feita de imponderabilidades e imprevistos, paixões, decisões abruptas e inexplicavelmente inexplicáveis.
Como diria um filósofo que não aprecio particularmente, Paul Ricoeur, a solidão da vida é aí (nessa expressão pública de uma vertiginosa linguagem, invulgar e imprevisível, oriunda do movimento de uma inteligência) iluminada, por um momento, pela luz comum do discurso, transferindo a corrente de uma consciência particular para muitas outras correntes de consciência, tornando o sentido um objeto público, passível de crítica, e pronto a entrar na memória colectiva, pelo trabalho crítico da comunidade, de forma a constituir uma memória mais alargada dos instrumentos e formas possíveis da arte de comunicação, a serem utilizados por futuros expressionistas da sua consciência. Se fossem necessárias citações académicas para assinalar a qualidade textos de maradona (mas também dos outros participantes no blogue que aqui se comenta, Rogério Casanova e Sérgio Gouveia), bastaria invocar o conceito de qualidade artística apresentado por Umberto Eco (e isto para voltarmos a autores italianos, os principais candidatos à vitória em qualquer campeonato do mundo, e a nação onde as mulheres provocam o desfalecimento de qualquer mortal só por se inclinarem ao balcão e pedirem um copo de água) nomeadamente, a qualidade artística como decorrente da baixíssima frequência de redundâncias e de um altíssimo grau de imprevisibilidade da informação. Passo a exemplificar com a resposta de maradona a uma pergunta, onde se arriscava uma comparação entre o equipamento da selecção e um pijama, notoriamente uma péssima comparação, sendo que a resposta comporta toda uma teoria aristotélica da analogia como uma arma, objectiva e eficaz, para identificar semelhanças e produzir novo e acutilante conhecimento sobre a realidade:
A comparação com
“pijama” para denegrir uma determinada indumentária fez-me lembrar as
sequências de tesouras que o Denilson proferia sobre a bola quando se sentia
pressionado a tentar relembrar a audiência da razão porque, num dia pretérito e
louco, foi considerado um grande jogador em potência; assim como a fadiga das
tesouras inconsequentes estupidamente me alergizaram contra toda a dança que as
recordasse, também a saturação da analogia “pijama” me leva ao instinto de
imediatamente me seduzir a ideia de andar de pijama pela rua, o que sucederá de
seguida quando for despejar o lixo de quatro dias e três cabeças de pescada.
II.
Quer isto dizer que a invocação de um sportinguismo mais profundo, mais verdadeiro, mais democrático, mais santo, mais digno, mais fraterno, mais gay, mais socialista e de esquerda, mais popular e mais autêntico, por parte de um clube cuja força decorre (como a de todos os outros clubes, diga-se em passagem) da shakespereana capacidade de construir um inimigo, dificilmente pode suceder em sucesso, utilizando apenas as mesmas e cuspidas armas envergadas pelo mesmo, isto é, o inimigo, e a saber, o amor popular, incondicional e santo que as camadas ululantes e totalmente ensandecidas nutrem pelo Sport Lisboa Jhavé e Benfica. No entanto, não lembraria a ninguém justificar as derrotas ou vitórias de um clube de futebol, sujeito às leis de um jogo, com as qualidades etnográficas dos seus presidentes (já sei, já sei), pois isso seria ignorar aquela lei fundamental da vida: a absoluta ausência de relação entre as qualidades de um indivíduo e o seu sucesso, desesperante conclusão, perturbadora evidência, diante da qual a maioria foge atemorizada, e que como todos sabem é o grande amor da minha vida.
Não ignoro que preside ao elogio de Bruno de Carvalho a ideia de que o sportinguismo do presidente foi e é necessário, para levar de vencida a escassez de sportinguismo dos restantes presidentes, ou de que a ausência de rendimentos outros transforma Bruno de Carvalho num mártir comprometido com a única grelha onde, por meio da sua fritada carne, poderá ascender aos céus. O problema é a extrema pobreza desta lógica apresentada em opa de ouro roçagante, gemas várias e luminosa pedraria. Os caros leitores aprenderão que aqui se trava um combate mortal contra todos os vícios de linguagem: os da pobreza e os da riqueza, não fazemos acepção de pessoas.
Estou portanto a tratar de um doloroso tema, nomeadamente, a forma incauta, irresponsável, gigantonte e vaidosa, como o sportinguista se prepara para a sua fase demagógica e suicida, movido pelo desejo e a paixão (esse ídolo da actualidade pós-concílio do Vaticano II) convencido de que pisa os tijolos dourados a caminho de Oz, o que não implica (aliás, tal como pode suceder ao suicida, a quem a sorte eventualmente reverteu o cognome) um irremediável (olé) caminho de infelicidade. Temos a norte do mondego uma agremiação a quem a fase demagógica, étnica e estruturalmente fanática guindou aos mais elevados sucessos, incluindo a construção do, morra o Dantas morra, sucesso internacional e tudo, pum, bem como a uma metódica recolecção de várias experiências humanas, femininas, e estéticas, por parte do seu ilustre, reverendíssimo, boçal, notável, digno e corrupto presidente. Contudo, a ideia de que a paixão é por si só uma garantia de deleite estético humano (ao contrário dos altíssimos critérios de verdade e método impostos em matéria de ciência), oferecendo-se a espontaneidade do gosto e a opinião como estrada escancarada do paraíso, está para a nossa época como os homens do lixo estão para a higiene urbana, o que nada nos diz sobre os méritos da higiene na história da salvação evolucionista (o mecanismo não é finalidade, até quando vai ser necessário ilustrar os analfabetos das ciências naturais sobre este singelo ponto? Obrigado).
A ideia de que Bruno de Carvalho compreende o desporto futebol, na sua natureza (oi) ao contrário da «paneleiragem que abunda no Sporting (...) em que se mitifica um sportinguismo primevo (...) que depois se desenvolve na compreensão do desporto e do futebol» (e logo nos vem à imagem o doutor Rui Eduardo Rogério Oliveira e Costa Barroso Alves) não representa muito mais do que chamar burros a um conjunto de pessoas, afirmando a burrice e a compreensão da natureza do futebol como dados essenciais na distinção entre um bom e um mau jogador de futebol. No mínimo estamos diante de uma pobre tautologia. No máximo, estamos na presença de um hediondo acto de fé.
Não lembra portanto às mais competentes individualidades do nosso meio físico e social (e estou no pináculo de sinceridade deste curto interregno do meu gandiano silêncio) que qualquer forma de dedução lógica (mesmo a naturalista, darwinista e, o senhor vos abençoe, a liberal-libertária) implica um pilha de pratos racio-dedutivos que a dado ponto da sua altitude se escaqueiram num mar de falácias, quando não de contumazes irrelevâncias. Por isso, ou somos convictos da nossa atracção pelo holocausto filosófico, e vamos para o caralho que nos foda, embrulhados num honroso silêncio, ou teremos que enfrentar as acusações de produção espontânea de catecismos (pejados de erros) implícita em qualquer acto locutório. Considerar que um homem se revela apropriado e catalisador de alegrias afetivas, pela simples constatação da sua paixão pelo objecto que lhe permite a notoriedade (e da nossa paixão por ele, em face do nosso amor pelo objecto, de onde decorre a aparente e referida notoriedade do nosso referido homem) além de uma incomensurável paneleirice, não passa de uma pura perda de virilidade metafísica, à la Emanuel Kant esteja connosco. Os resultados promissores alcançados por esse referido homem, Bruno de Carvalho, quanto a mim, não qualificam de forma alguma o futuro como passível de classificações, o que não só assinala como a força do Benfica deriva de uma total indiferença pela racionalização dos aspectos administrativos do jogo como confirmam fatalmente como não ligo a mínima importância aos sinais da realidade, razão pela qual tenho o dobro do cuidado ao atravessar linhas ferroviárias.
O que eu preconizo como estilo de vida e como filosofia do ambiente é uma definitiva e cabal constatação da nossa limitada condição intelectual (uma espécie de castidade argumentativa, no sentido de varrer o ruído dos nossos descontrolados impulsos) cabendo aos mais responsáveis, porque mais dotados de atributos críticos e mentais, uma posição de coragem, uma nobreza, uma anti-espanholada contenção diante dos exércitos do prazer, e da proclamação, ainda que espantosamente ornamentada, dos nossos gostos, e nessa medida, julgo ser urgente o reconhecimento de que (penso eu) pelo menos desde a invenção da máquina de Turing, estamos sob uma terrível ameaça: a ideia de que o conteúdo de uma mensagem é indiferente. Isto só é verdade para efeitos de transporte, tal como não importa se um camião está cheio de cópias de Moby-dick ou da perene obra Prometo Falhar se o objectivo é considerar o tempo de deslocação entre duas cidades.
Não sei até quando vamos continuar a querer manter a nossa ignorância sobre as origens dos nossos de gustibus non est disputandum mas a criação de repúblicas constitucionais, liberais e animadas pelo centralismo democrático, devia ser matéria suficiente para se deixar de considerar que os estímulos mentais apresentados como realidade, como aliás as séries estatísticas econométricas (cuja amplitude nenhum filha da puta de Piketty ousou estudar na sua significância histórica, ou não poderia encher os benditos cornos capitalistas com o maior número de vendas de sempre da Bendita Harvard Belknap University Press) são suficientes para projectar o futuro, e muito menos justificam que consideremos que o gosto é um problema individual. A liberdade com que dizemos tolices devia ser o combustível para nos pormos a caminho de criar filtros, construídos pelo maior número possível dos tolos que somos nós todos, com que filtrar as referidas tolices, sob pena de nos atulharmos todos no lixo (porque isto, ilustres leitores, depende tanto de «nós» como das acções espontâneas do colectivo, entendendo nós por espontâneas as acções que não compreendemos e era bom que começássemos a compreender ou ainda acabamos muito mal; não esquecer além do mais que a grande maioria dos gajos que pariu o transgénero filosófico chamado liberalismo, acreditava na ordem natural e no criacionismo da natureza com especial referência ao paneleiro do ser humano, como se o universo estivesse preocupado connosco). Daqui resulta que: a) sim, a escolha de um processo de coordenação (por exemplo, um presidente de um clube de futebol) pode ser de elevada importância para a sobrevivência da colectividade; b) a sua paixão pelo clube não o qualifica como mais habilitado, não negando eu que possa coabitar em Bruno de Carvalho a paixão com as capacidades críticas; c) o acerto da estratégia, de acordo com as nossas previsões, é apenas uma tentativa que não assegura eficácia final, em face de imponderabilidade do mundo, razão pelo qual estamos metidos neste sarilho filosófico há mais de 200 anos.
Julgo que a construção, em acto, de uma hierarquia estética (essa tão injustiçada atriz pornográfica) é o dever de todo o escritor, filósofo, palhaço, defesa-esquerdo, ou artista, pelo menos do artista que não teme a turba, a história, o tempo, a poeira cósmica, o pecado, os dinossauros, os buracos negros, a evolução, o mercado, o anonimato, a democracia constitucional, a fama, a perda dela, ou qualquer outros dos demónios de papel, apresentados, desde sempre, para nos atemorizar, impedindo-nos de trilhar um caminho em defesa da nossa espécie nesta perigosa brincadeira. Isto não significa que até na descontrolada criatividade metafórica de Bruno Carvalho não existam elementos clamando por um juízo capaz de aguentar um cenário de generalização, derrubando as falsas barreiras entre juízo estético (resultante do efeito do objecto no sujeito) e juízo de conhecimento (decorrente das características do objecto), mesmo que, muito erradamente, nos pareça ser o estilo e a forma, e portanto a beleza, uma matéria do domínio da consciência individual. Falta demonstrar, o que espero fazer antes de ingressar num forno crematório, que a arte também é um objecto com características das quais é possível deduzir conhecimento sobre os seus efeitos no sujeito, hossana nas alturas.A razão pela qual Bruno de Carvalho foi constituído como mecanismo soteriológico pelos adeptos do sporting prende-se com a crença nas possibilidades salvíficas da racionalidade humana, o que está certo. Só falta convencer as pessoas em geral a considerarem uma política do juízo estético que não se restrinja à simples opinião embrulhada em papel de celofane.
No fundo, vale tudo, menos colocarmo-nos do lado da natureza. Sabemos que já os romanos sujavam as suas cansadas e nobilitadas mãos nas vísceras das aves e era espectável que tantos séculos depois nos mostrássemos capazes de fazer melhor. Que esse velho e cansado sonho continue a ser uma quimera, só demonstra como as séries estatísticas são um franco auxílio no nosso cada vez mais artilhado (e talvez por isso pesado) cérebro. Apesar das constantes provas de fé na ciência, continuamos a acreditar demasiado na nossa inteligência individualmente considerada, e nem as laudes ao advento da idade tecnológica nos impedem de mergulhar, quem sabe cada vez mais furiosamente, na demasiado frágil iluminação fornecida pelas nossas intuições biológicas (individualmente consideradas) pobremente tocadas por impulsos cuja origem ignoramos (mas gostamos de esconder que ignoramos), confiando a sorte do corpo aos espasmos cinzentos da nossa rede neuronal (individualmente considerada), com uma parda vaidade de que podemos com a esponja cinzenta, o que não tem sido possível com o estômago e os intestinos, esquecendo que a descoberta da evolução e da complexa submissão das populações a efeitos imprevistos, nos deviam empurrar para esforços de raciocínio mais sistemático, abandonado as robinsonadas do mercado e a ideia de que a acumulação espontânea dos nossos gostos, constitui uma ponte de ferro entre o mérito, o trabalho, a qualidade e o sucesso de vendas ou as vitórias de um clube de futebol.
Agora que temos computadores, ao invés de trabalharmos em conjunto para limitar os impactos dos nossos erros, forjando um sistema capaz de misturar a liberdade de escolha com a crítica da escolha, aproveitando os baixos custos da comunicação, insistimos nas maravilhas do individuo, para depois proclamar em seguida que o indivíduo está racionalmente condenado à irracionalidade onde o enjaulámos. De tal modo que não há maneira de nos contentarmos com a nossa ignorância, graças a deus.

segunda-feira, 26 de maio de 2014
quarta-feira, 14 de maio de 2014
No fim dos tempos, faremos as contas.
As artes elocutivas são a eloquência e a poesia. Eloquência é a arte de exercer um ofício do entendimento como um jogo livre da faculdade da imaginação; a poesia é a arte de executar um jogo livre da faculdade da imaginação como um ofício do entendimento.
Emanuel Kant, Crítica da Faculdade do Juízo, citado por Frederico Nietzsche no seu Curso sobre Retórica.
Emanuel Kant, Crítica da Faculdade do Juízo, citado por Frederico Nietzsche no seu Curso sobre Retórica.
terça-feira, 13 de maio de 2014
Lazar Markovic como exemplo da narrativa combinatória, espelhando a incerteza da vida, e dando alento aos que fundamentam a sua esperança no casamento entre a beleza e a eficácia.

O elogio da derrota orgulha-se de ser consistente com a verdade dos factos, nomeadamente a inexistência de capacidades de previsão sobre o futuro (e mesmo descontando as merdices do libanês Nassim Taleb) afirmando, nomeadamente, e também, a total ausência de instrumentos que nos permitam identificar logicamente, ou pelo menos demonstrar, a trajetória dos carris onde se desloca, insidiosa e vertiginosamente, o comboio da realidade, um meio de transporte demasiadas vezes atrasado. Se eu fosse uma mulher e a natureza fosse ainda mais flexível do que tem mostrado ser, teria encontrado finalmente o sentido da minha vida: casar com Lazar Markovic; acontece que o mundo é muito mais interessante.

A vida custa muito mas para medir o custo da vida seria necessário estar na posse de meios de comparação apropriados, o que desde os comentários de David Ricardo aos Princípios de Economia Política do reverendo Malthus, um gajo a quem o sexo fazia impressão, se tem provado tarefa mais complexa do que marcar Lazar Markovic (e veja-se, nomeadamente, aqui, o efeito da aliteração, ou da anáfora, ou alguma coisa desse género, nunca soube essas merdas, nos testes de português interessava-me sobretudo o caminhar dos relógios, objetos onde se esconde a morte, segundo Andrei Béli).

O facto de figurar no título deste blogue o vocábulo derrota torna-nos especialmente habilitados para compreender a complexidade do mundo. No entanto, não pretendemos vigarizar o leitor com receitas para comer menos e dormir melhor, pois como diria Marcel Proust, não estimamos demasiado a vida, ou só a estimamos na justa medida em que nos permite controlar a dor e estar diante da beleza como Santa Teresa diante do espírito de Deus (e vamos na segunda alusão a paixões homossexuais, a nossa homenagem ao inacreditável paneleiro recentemente vencedor da Eurovisão). Para que não restem dúvidas sobre a magnitude da nossa (humana) ignorância, apresentamos aqui um belíssimo conjunto de fotografias, onde a referida complexidade do mundo está bem patente, nomeadamente nos resultados, decorrentes da reunião entre: a ebulição balcânica, que tem sido para a ciência política o que o supositório representava no passado para o homem com febre, e os efeitos socio-económicos da especialização do trabalho, nomeadamente, quando situada em contexto desportivo de alta-competição, sobretudo depois da vandalização jurídica, por meio da lei Bosman, da virtude específica de cada função humana, neste caso, a violação das idiossincracias (palavra que detesto) do futebol baseado em clubes regionais, de onde se destaca o mais do que evidente choque entre a escala e os interesses das comunidades étnicas, tribais e outras, as unidades políticas formais, e a circulação de capitais (confrontar aqui a República de Platão e a interessante discussão entre Sócrates e Trasímaco sobre a virtude específica de cada função humana em relação com o binómio justiça/injustiça).

Não quero avançar com efabulações dickensianas sobre as reviravoltas do destino, alçando o meu olhar agudo de felino sobre os múltiplos e imundos altares dos ídolos, onde se derrama o sangue dos inocentes (frase que ouvi há pouco nos comentários às pornográficas cerimónias de Fátima) nem pretendo fazer chorar as adolescentes sonhadoras, as professoras infelizes e as viúvas solitárias, com as peripécias de uma qualquer criança resistente aos golpes da sorte, e muito menos embarco em apologias do trabalho, do esforço e da coragem, para gáudio do empresário bronco, do merceeiro vigarista ou do gestor lunático. O meu propósito é muito mais simples. Embora na literatura se tenham travado obscuras batalhas sobre as razões últimas do sucesso individual (esquecendo que a análise devia incidir antes de mais sobre as características semióticas do texto e a economia da informação) e tendo em conta que o próprio Samuel Johnson se pronunciou a favor do dinheiro como objetivo último de todo o escritor (preposição por mim violentamente aplaudida) está por descodificar quais os meios que em última análise favorecem uma vida tranquila ao profissional da combinatória com uso do alfabeto (um dos vários domínios onde a fama restabelecerá o tempo que me foi tirado em vida). Na ausência de certezas, temos defendido que ao autor, como a todo o ser vivo, em geral, dotado de um sistema de representação dos problemas, isto é, um sistema nervoso integrado, não resta outro caminho senão inventar a sua própria narrativa, contando que só importa o sucesso em dotar essa máquina (a narrativa) das mais acabadas competências (uma hipótese aqui servida apenas como exemplo, o caro aprendiz, por favor, não se deixe esmagar e construa o seu próprio caminho, resistindo, até à tortura se preciso for, aos cursos de escrita criativa dos analfabetos que por aí circulam) competências sintetizadas por Calvino nos cinco esplendorosos valores: leveza, rapidez, exatidão, visibilidade e multiplicidade, curiosamente, características que fazem de Lazar Markovic uma concretização biológica dos princípios universais da arte.
O que é bonito, e assustador, é que desde tempos imemoriais parecemos ignorar que o mundo pouco mais é do que um violento e mortal combate entre narrativas, dominando a tendência cíclica para formar rebanho em redor da narrativa vencedora. Há entre nós pessoas (se é que os economistas clássicos, os liberais, os socialistas, os sociais democratas e os marxistas são pessoas) convencidas de que as narrativas vencedoras dependem da compreensão das regras, ou seja, da capacidade dos jogadores em tirarem partido dessas regras na construção das suas narrativas, vencendo o jogo. Quanto a mim, estou convencido de que não havendo qualquer coerência ou relação determinada entre as regras e o sucesso das narrativas, pois as regras, meus caros leitores, estão sujeitas ao próprio jogo humano, resta aos jogadores a construção artificial das suas próprias regras, e das respetivas narrativas adaptadas (ou expondo) essas novas regras, nomeadamente, a capacidade de convencer os outros jogadores de que estamos a respeitar as mesmas regras. Isto não significa negar os limites físicos do mundo, significa compreender que muito pouco do que conta para os humanos se prende com a mera descrição e utilização dos limites físicos do mundo. As narrativas vencedoras são em grande medidas as que têm capacidade de fundar novas regras, inventando um novo jogo. Os limites não são dados pela natureza mas limitados pelo desejo dos outros em construírem máquinas e ambientes, restando-nos chegar a um acordo onde predominem valores universalmente pirosos e espectaculares como o belo, o bem, de acordo com a ética kantiana, etc, etc, etc.

A razão pela qual o jogo nos tem atraído, nas suas mais variadas formas (e deixaremos por agora as razões que explicam a predominância de uns jogos sobre outros, nomeadamente a adaptação da sua escala, onde evoluem as possibilidades combinatórias, aos limites dos meios de comunicação de massas, sobretudo os de controlo único) decorre em grande medida da imprevisibilidade. O facto de o maior e mais promissor avanço da economia moderna, que como até saberão os adeptos do Sporting, geralmente gestores de bancos e outros bastiões do grande capital, se ter devido ao casamento feliz e fecundo da teoria clássica do mercado com a aplicação da teoria das probabilidades ao esquema do jogo, tendo sido erigido sobre a base da imprevisibilidade, resultante da escalada infinitesimal dos efeitos do cálculo mental sobre as jogadas do adversário (e por isso necessariamente paralelo, analógico e muito limitado e não necessariamente serial e rigoroso) devia ser suficiente para não estimular a arrogância das pessoas sobre o horizonte aberto do futuro, nomeadamente ao nível dos jogos onde estão inseridos (um conceito espetacularmente introduzido por Jorge Jesus) muito mais do que dois jogadores, e onde por isso a escalada de complexidade ameaça tornar qualquer projeção de resultados numa rábula humorística.
Os ambíguos e perturbadores acontecimentos desta época futebolística, nomeadamente a cavalgada fulgurante de uma mundialmente famosa equipa de futebol, esfarrapando impiedosamente as mais claras e férreas previsões dos analistas, sobretudo depois do auspicioso mergulho nos abismos do insucesso, da derrota e até, o senhor seja louvado, da humilhação, servem, por si só, o propósito público deste blogue (na minha perspetiva) e a saber, a consagração da vontade humana, quando guiada pela sabedoria e a beleza, como o único fundamento lógico do futuro, e por isso, negando qualquer possibilidade de discursar sobre esse mesmo futuro, pois como futuro que é, encontra-se sempre submetido a vontades individuais múltiplas e a tão complexas relações de causalidade, impossíveis (até ver) de determinar num único ponto de vista (nem sequer com modelos computorizados) razão pela qual me tenho abstido de falar, além de estar cada vez mais convencido, tal como aqui foi sugerido pelo ngonçalves, que os meus amigos deviam começar a pagar pelas toneladas de sabedoria, fruição estética (e trabalho, note-se) aqui fornecidas gratuitamente para pornográfico e escandaloso enriquecimento injusto e ilícito dos merdosos que por aí andam a vender as tecnologias de comunicação digital como uma democracia de oportunidades.
Abrindo um importante parêntesis, gostaria de relembrar às crianças que certamente nos lêem com rejubilante afinco, como a transformação da tecnologia e as suas consequências na organização do ambiente humano não têm, por si só, nenhuma relação com a percepção do sofrimento e muito menos com a realização da justiça, se essas tecnologias (tão democráticas como a carta ou a imprensa mecânica) não forem submetidas a uma crítica sobre os seus custos de acesso, dados os evidentes entorces (sempre) implícitos no livre (aleluia, aleluia) funcionamento de qualquer acção humana (a começar na lei da gravidade), nomeadamente, a velha confusão entre a aparente consulta da maioria e a verdadeira convicção da maioria (a informação caracteriza-se por ser imperfeita, ou numa linguagem mais técnica, comporta ruído) para não falar de que tal como as ovelhas, a maioria também comete erros ou segue caminhos errados (errados), devendo todos os sistemas inteligentes (como muito bem têm demonstrado os engenheiros) possuir um alerta contra os erros de apreciação, sejam eles decorrentes da minoria ou da maioria, o que implica confiar na repetição de processos críticos, e na ampla e profunda avaliação das decisões. Seria de ter sempre em conta o ambicioso projeto do iluminismo kantiano, uma coisa que ou dá nazismo, ou dá a paz perpétua universal, dilema trágico que não representa motivo para fugirmos, sem mais, e com o rabinho entre as pernas a buscar conforto nestas semi-orientalices da democracia selvagem e do sistema de representação baseado, como se sabe, em avultadas quantidades de trabalho escravo além da decapitação intelectual de uma significativa parte dos representados. Fecho aqui este importante parêntesis.
De um ponto de vista da minha obra como escritor que não se rebaixa à estupidez, a verdade é que o mais potente motor dos sucessos imortais, se constrói com válvulas engenhosamente desenhadas pela humilhação, alimentando-se desse combustível precioso, a derrota. Como o próprio e grande Simon Leys referiu, aquando da recepção de um qualquer prémio, é bem provável que o maior escritor não estivesse ali a ser agraciado, mas tivesse ainda pela frente uma ou duas décadas de humilhação em busca de editor (e não me venham agora com as potencialidades tecnológicas do computador, isso é outra técnica relativamente à qual os jovens do futuro, assim o queiram, forjarão a sua própria literatura). Farto da remuneração simbólica (os marxistas e os antropólogos que se fodam) e muito adepto da liberdade combinatória e descritiva das unidades de pagamento monetário em base decimal, pretendo um ambicioso casamento entre as altitudes de um texto que seja uma máquina narrativa original, fulgurante, bela e eficaz (à semelhança de Lazar Markovic) e os meios de subsistência suficientes para me poder rir, com tranquilidade, sempre que me chegar aos ouvidos a consagração de um qualquer piolhoso, que acossado pelo medo tenha escolhido um caminho mais atrapalhado, feio, interesseiro, obscuro e dependente das forças malignas e irracionais do ambiente.
Permitam-me que finalize com uma citação longa, a ver se ao menos levam daqui alguma coisa:
Lucrécio via na combinatória do alfabeto o modelo da impalpável estrutura atómica da matéria; hoje cito Galileu que via na combinatória alfabética («as várias combinações de vinte pequenos caracteres») o instrumento insuperável da comunicação. Comunicação entre pessoas afastadas no espaço e no tempo, diz Galileu; mas temos de acrescentar: comunicação imediata que a escrita estabelece entre todos os seres existentes ou possíveis.
Como em cada uma destas conferências me propus recomendar ao próximo milénio um valor que me seja especialmente caro, hoje o valor que pretendo recomendar é precisamente este: numa época em que triunfam outros media rapidíssimos e de raio de acção extremamente amplo, arriscando-se a reduzir toda a comunicação a uma crosta uniforme e homogénea, a função da literatura é a comunicação entre o que é diferente pelo facto de ser diferente, não embotando mas sim exaltando essa diferença, de acordo com a vocação da própria linguagem escrita.
Italo Calvino, Seis Propostas para o próximo milénio, p. 61
O Senhor vos abençoe.
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