sexta-feira, 2 de março de 2012

Notícia de última hora: José Luís Peixoto explica finalmente porque é que os seus livros são uma merda




Quando navegava, serenamente, em busca de notícias sobre o reino das duas Sicílias no século XVII, deparei-me com uma das confissões mais extrardinárias dos últimos séculos: o brilhante e aclamado escritor, José Luís Peixoto, publicado pela Einaudi em Itália, a editora de Calvino (aqui lembro os shakespereanos quarenta invernos que nos cobrem a face, deixando triunfar todos os medíocres) explica finalmente porque razão os seus livros são uma tremenda confusão entre a banalidade e a realização arítistica. Vejamos.



É muito fácil confundir o banal com o precioso quando surgem simultâneos e quase sobrepostos.

É desta forma clara e notavelmente directa que José Luís Peixoto, cansado de ser mal intrepretado, decidiu, finalmente, revelar como o amor burguês está no coração do seu enorme sucesso, explicitando a origem da gigantesca confusão mental em que incorreram , por qualquer ingrato motivo, todos os indivíduos que, inexplicalmente, o apreciam.

Ou seja, quando se está ao longe e se vê um casal na caixa do supermercado a dividir tarefas, há a possibilidade de se ser snob, crítico literário; quando se é parte desse casal, essa possibilidade não existe.

Ou seja, quando nos afastamos de um dado problema para o pensar mais correctamente, ponderando todos os pontos de vista da questão, fazendo rodar o observador e não o objecto, como Kant recomendava na introdução à primeira edição da Crítica da Razão Pura, há a possibilidade de incorrermos num excesso de etiqueta, uma vez que fechando os olhos à inteligência, e esquecendo que somos dotados de um cérebro, conseguiremos triunfantemente confundir o nosso sentido crítico com as nossas próprias dúvidas, e poderemos todos resfolegar, eternamente, como o porco na lama, sem nunca nos depararmos com o mais pequeno vestígio de erro, culpa ou remorso, porque, gloriosos e infalíveis juízes do nosso próprio processo, ganharemos esplendorosamente em toda a linha. É, pois, com tremenda elegância que vemos Peixoto lançar-se na desmontagem dos mecanismos que têm levado as pessoas a apreciar o seu discurso larilas. Com efeito, o seu discurso é um espelho da mediocridade, capaz de amplificar o quotidiano sem contudo exercer qualquer crítica ou juízo sobre a banalidade e, na melhor das tradições jornalísticas, satisfaz o desejo mórbido das massas, confusas com a importância da actualidade, e incapazes de elevarem o seu entendimento, sedentas de orientação ou sentido, qualquer que ele seja, a troco de uns minutos de paz e sossego mental. No entanto, tenho uma má notícia para as massas: não só a repetição banal da realidade não justifica a sujidade da nossa vida, como a experiência estética, e o prazer daí resultante, não dependem de uma confusão entre o que apreciamos e o que não exige esforço, pois, no amor, como na poesia, como na marcação de pontapés da marca da grande penalidade, o prémio está sobretudo no esforço e na fruição do acto - não nos seus resultados - e por isso, qualquer anestesia, ou encurtamento do exercício de viver, ou de criar, não nos devolverá em dobro a fruição desse exercício de viver. Como já estavam cansados de saber os romanos, a beatitudade não é o prémio da virtude mas a própria virtude, e por isso, quanto mais esforço crítico e auto-reflexivo colocarmos na realização da nossa vida, tentando separar a experiência do exercício crítico sobre a experiência, mais obteremos uma posição imparcial em relação aos pequenos dramas do quotidiano. Será isso garantia de prazer? Não. Mas alcançaremos dessa forma uma superioridade moral, e um ponto de vista tão abrangente que nos permitirá realizar uma leitura estética do mundo, digna do sacríficio que está implícita na sua comunicação e capaz de atrair a atenção dos outros? Sim, e é precisamente este processo de distanciamento crítico da realidade que tem produzido vozes como a de Shakespeare ou Proust, capazes de refundar a banalidade do quotidiano, sobreviver às caixas de supermercado, bem como às toneladas de Josés Luíses Peixotos que teimam em dizer-nos que está tudo muito bem assim, que não é preciso reconfigurar nada, e que podemos continuar enlameados na replicação da banalidade, do trivial, do acaso, em suma, que podemos continuar afogados na desordem.



Pelas mãos passam-nos as compras que escolhemos uma a uma e os instantes futuros que imaginámos durante essa escolha: quando estivermos a jantar, a tomar o pequeno-almoço, quando estivermos a pôr roupa suja na máquina, quando a outra pessoa estiver a lavar os dentes ou quando estivermos a lavar os dentes juntos, reflectidos pelo mesmo espelho, com a boca cheia de pasta de dentes, a comunicar por palavras de sílabas imperfeitas, como se tivéssemos uma deficiência na fala.

Não sei como José Luís Peixoto costuma lavar os dentes mas eu não gosto de o fazer acompanhado, porque, desde muito novo, a única coisa que resgitei após décadas de missa (e sucessivos bombardeamentos de sabedoria, sobre a minha cabeça, por parte da ancestral Santa Madre Igreja, artilhada pelo martírio anónimo de resmas e resmas de celibatários com mais noites de cama do que o Cristiano Ronaldo) é que não há nada como o pudor e o recato para servir de intensificador do erotismo na vida de um casal

Ter alguém que saiba o pin do nosso cartão multibanco é um descanso na alma.

Aqui tenho que prevenir o caro leitor, pois esta é a única frase do brilhante artigo que não posso subescrever, pois a conclusão implícita nas premissas, depende da pessoa. Consideremos as várias hipóteses: a) o nosso pin está na posse do Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva - enfim, não é grave, embora não se possa dormir tranquilamente, pelo menos até ser colocada uma mensagem tranquilizadora no site da Presidência; b) o nosso pin está na posse de Vitor Gaspar - é preocupante mas não há razão para pânico, uma vez que podemos tomar rapidamente todas as medidas de segurança, recomendadas pela instituição bancária, antes de Vítor Gaspar conseguir digitar o código na totalidade; c) o nosso pin está na posse de José Socrates - esquece, já foste; d) o nosso pin está na posse de um delinquente da Brandoa - é preocupante, mas um telefonema ao José Luís Peixoto ainda pode evitar males maiores, desde que o escritor não esteja a lavar os dentes e se negue a colaborar com a polícia.

Essa tranquilidade faz falta, abranda a velocidade do tempo para o nosso ritmo pessoal. É incompreensível que ninguém a cante.


Na verdade, é incompreensível que ninguém cante a tranquilidade do quotidiano. Contudo, do alto da minha espectacular incapacidade de lavar os dentes em conjunto, tenho, inacreditavelmente, uma singela explicação. É que um obscuro escritor baptizado numa ilha filha da puta com o nome de James Joyce, já o fez, num dos livros mais lidos, traduzidos e estudados no último século, e fê-lo com tal eloquência e estrondo que a sua canção não se tem cansado de ecoar nas cabeças dos críticos e escritores, de tal modo, que se revela capaz de atravessar as grossas paredes da estupidez e chegar, em terceira mão, a analfabetos que apenas dela tiveram notícia por um murmúrio muito longinquo, mas ainda suficientemente vivo para lhes suscitar um formigueiro confuso na cabeça. De qualquer modo, é inteiramente justificável que, abandonando a perspectiva de quem olha de longe, para o estúpido casal a arrumar as suas compras de merda, num irritantemente funcional tapete rolante, impecavelmente manipulado pelas unhas rouge da quase sempre muito atraente rapariga da caixa, se mergulhe numa surdez intelectual, e de tal forma implacável que nem o rugido do elefante seria capaz de produzir qualquer estímulo auditivo.


As canções e os poemas ignoram tanto acerca do amor. Como se explica, por exemplo, que não falem dos serões a ver televisão no sofá? Não há explicação. O amor também é estar no sofá, tapados pela mesma manta, a ver séries más ou filmes maus. Talvez chova lá fora, talvez faça frio, não importa. O sofá é quentinho e fica mesmo à frente de um aparelho onde passam as séries e os filmes mais parvos que já se fizeram. Daqui a pouco começam as televendas, também servem.


Pronto. Este é o momento mais comovente de todo o texto e confesso que uma lágrima opalina rolou na cera insensível da minha face, porque José Luís Peixoto está embalado e nota-se que vai mesmo proferir a frase mais brilhante da sua carreira - «na mesinha em frente do sofá, onde se amontoam os nossos telémoveis, as chaves de casa e as embalagens vazias de iogurte, ali mesmo, junto ao livro, A yoga em sete lições, edição especial para pessoas com deficiência na fala, está um livro do José Luís Peixoto, e para o nível de confusão mental e desorientação em que estamos, qualquer merda serve». No entanto, qualquer coisa relacionado com uma humildade muito provinciana e verdadeira, impediu o famoso escritor de se auto-promover. E nós achamos bem.

Estas situações de amor tornam-se claras, quase evidentes, depois de serem perdidas. Quando se teve e se perdeu, a falta de amor é atravessar sozinho os corredores do supermercado: um pão, um pacote de leite, uma embalagem de comida para aquecer no micro-ondas.

Não sei, não sei. A falta de amor também pode ser ter de atravessar sozinho uma crónica do José Luís Peixoto, e, no entanto, de lágrimas nos olhos e a barriga contorcida de riso, aqui estou, hercúleo, olímpico, glorioso, sem pestanejar, enfrentando a morte perante o perigo de sufocar no meu próprio riso, porque julgo que a sinceridade do escritor, e a raridade do momento, assim o exigem.

Não é preciso carro ou cesto, não se justifica, carregam-se as compras nos braços. Depois, como não há vontade de voltar para a casa onde ninguém espera, procura-se durante muito tempo qualquer coisa que não se sabe o que é. Pelo caminho, vai-se comprando e chega-se à fila da caixa a equilibrar uma torre de formas aleatórias.


Uma torre de formas aleatórias é um conceito que me ultrapassa e por isso, aqui, tal como diante da obra de Frank Gerhy, tenho que suspender o meu raciocínio, mas é indiscutível que por vezes não é preciso carro ou cesto, sobretudo quando vamos em busca de uma embalagem para aquecer no micro-ondas porque não sabemos um caralho de cozinha, acampados na convicção de que a mulher iria confeccionar, et in secula seculorum, a preciosa refeição, ou, na pior das hipóteses, viviamos na dependência das competências parentais, ou ainda, na hipótese que atinge níveis insuportáveis de decadência, recebiamos o alimento devido a serviços prestados pela sogra. Não admira que aquela cena do casal tenha corrido pelo pior e a mulher do Peixoto se tenha posto a milhas: aturar livros maus, as gajas ainda aturam, agora, com franqueza, esperar da mulher refeições diárias, depois da invenção da pílula e do soutien, isso ninguém canta, porque, deus nosso senhor seja louvado, ou já nao há ou está em vias de não haver.


Quando se teve e se perdeu, a falta de amor é estar sozinho no sofá a mudar constantemente de canal, a ver cenas soltas de séries e filmes e, logo a seguir, a mudar de canal por não ter com quem comentá-las. Ou, pior ainda, é andar ao frio, atravessar a chuva, apenas porque se quer fugir daquele sofá.


Aqui não percebo: um gajo pode querer fugir do sofá e não ter necessariamente que mergulhar na chuva. Eu por exemplo costumo jogar à bola num pavilhão coberto, piso federado, balneários com água quente, tudo isto pela módica quantia de 3 euros semanais. Mas há o cinema, o café, a casa dos amigos, o teatro, as bibliotecas universitárias, a igreja, etc, etc, etc.


E os amigos, quando sabem, não se surpreendem. Reagem como se soubessem desde sempre que tudo ia acabar assim. Ofendem a nossa memória. Nós acreditávamos. Havemos de engordar juntos, esse era o nosso sonho. Há alguns anos, depois de perder um sonho assim, pensaria que me restava continuar magro. Agora, neste tempo, acredito que me resta engordar sozinho.


Também não é preciso cair neste nível de auto-punição pelo simples facto de termos constatado que estamos, de uma vez para sempre, sozinhos neste mundo confuso, onde nem a fama, nem o dinheiro, nem as paletes de livros publicados, onde figura estampado o nosso pobre nome, nem as embalagens para aquecer no micro-ondas, nem sequer Nosso Senhor Jesus Cristo, nos podem salvar de cair no ridículo. Eu diria, não sei se para consolo do José Luís Peixoto, mas certamente para tranquilidade das massas que não publicam crónicas ou livros, que, apesar de tudo, é melhor engordar sozinho do que cair no ridículo.

6 comentários:

alma disse...

Estimado Alf,
Gostaria de saber:
Quais são os seus heróis literários?
para lá da literatura de supermercado que o diverte tanto :)))


"...à conclusão bastante favorável de que se Bach não tivesse encontrado uma mama, certamente teria sofrido uma metamorfose capaz de convertê-lo num Mozart,"
Que mama é essa ???

Álvaro Serpa disse...

Haja alguém que, irónica e inteligentemente, desmonta a pseudo literatura de um dos mais ridículos e balofos escrevinhadores da nossa praça. Vê-lo despeitado no alto do seu trono literário porque A ou B não conhecem o seu excelso nome e obra incomparável foi uma das cenas mais patéticas a que algum dia me foi dado assistir.
Talvez que daqui a uns anitos, quando lhe passar o tesão iconográfico das rupestres pinturas corporais e dos pregos na tromba, ele consiga escrever qualquer coisita digerível. Mesmo assim, duvido. Além de que nessa altura, já era...

Catarina disse...

Há coisas que me parecem tão ridiculamente medíocres que não me deixam ficar inerte quando as leio. Por isso, achei que podia perder um pouco (mais) do meu tempo a expressar a minha opinião sobre esta "crónica" absurda. Espero, contudo, não ferir o ego de quem escreveu esta "notícia de última hora" e, muito menos, matá-lo de riso, mas gostaria de dizer tão somente que a sua frustração é absolutamente arrepiante!

Vá passear à chuva ou ao sol e coma desalmadamente ou passe fome, vai ver que coisas banais como essas ajudam. Ou então, faça como eu, que com a frustração de não lhe poder atirar com uma lista telefónica em cima, perdi tempo a comentar este (pseudo) blog de opinião...

PS: A última frase foi só para o animar!

Anónimo disse...

A dor de cotovelo dói.

Anónimo disse...

Não há dúvida que só quem é tão frustrado e tem tanta dor de cotovelo escreveria de tal maneira sobre um escritor que, sejamos realistas, tem o seu mérito, principalmente por não ter medo de se mostrar tal como é e não seguir aquilo que os outros achariam que devia ser e que seria politicamente correto.
Declarações como estas provocam-me pena... Há quem pense que se afirma como "escritor" fazendo estas intervenções medíocres!

Lena disse...

Nossa! Seu "recalque" é de doer as vistas... Como diria uma "pensadora contemporânea" brasileira, "beijinho no ombro para o recalque passar longe!".