terça-feira, 1 de março de 2011

Uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma

O curioso epi-fenómeno auto-denominado Geração à rasca pretende reunir malta para protestar. Era para ser no fim-de-semana que se avizinha mas como é o de Carnaval ficou para a semana seguinte. No que respeita às prioridades da organização estamos entendidos. Primeiro a folia, depois os problemas.

Um dos objectivos, parece, é uma alegre procissão até ao adro da Assembleia da República para que cada um possa entregar uma folhinha A4 com propostas para a resolução dos problemas que apoquentam a malta. Fantástico. Repito, fantástico. Eu aproveito para pedir, que não custa tal como protestar ao um  fim-de-semana não prolongado, à organização que passe pelo Campo Grande e entregue também as soluções para os problemas da agremiação desportiva que ali tem sede. Basta uma folhinha A5, nada de esforçar as meninges que a malta é jovem.

É tanta parvoíce junta que eu nem sei por onde começar. Talvez pelo início. Quaisquer que sejam as soluções para que isto melhore, uma coisa é certa. Não são de efeito imediato mas sim de médio e longo prazo. No imediato, entenda-se os próximos 10 anitos mais coisa menos coisa, vamos ter uma vida de trampa. Eu sei que isto é complicado de penetrar nas cabecinhas de quem prefere Carnaval a encarar a vida, mas é assim mesmo.

O que me leva ao ponto seguinte, as soluções em formato A4. Gente da minha terra, será que é assim tão difícil de perceber que as escolhas que enfrentamos hoje são difíceis de tomar ? Não se trata de acabar com os recibos verdes (que deviam de ser extintos mas isso é outra história) ou aumentar os salários (que são muito baixos). Ou criar emprego. (que faz falta) O Estado português assumiu compromissos que agora não pode pagar. O povo português fez empréstimos que agora não pode pagar. Ou posto de uma forma que até vocês conseguem entender. Nós e o Estado temos que decidir o que é supérfluo e o que é necessário. E aguentar a bronca que aí vem quando os credores começarem a bater à porta.

Se realmente a mundança é o que se pretende, então actualmente só existe um caminho possível. Entrar num partido, ou formar um novo, e concorrer a eleições. Mais nenhum caminho, incluíndo protestos é válido. Porque o Governo tem a obrigação de velar pelos interesses de todos os cidadãos, não apenas os que conseguem berrar mais alto. É triste, mas é a democracia. Eu suspeito que muitos no próximo dia 12 de Março vão estar a suspirar secretamente por um homem providencial que venha do nada e ponha o país na ordem, fazendo o trabalho que os manifestantes se recusam a fazer. Se é para fazer figuras tristes, vão antes em procissão até ao cemitério de Santa Comba Dão.

3 comentários:

Anabel M disse...

Subscrevo integralmente. Já faltou mais para a romaria a Santa Comba Dão. A memória é curta. É pena não poder partilhar o seu texto, publicava-o em tudo quanto é sitio.

gng disse...

Não sei onde foi arranjar a ideia que o protesto era para ser no fim de semana do Carnaval mas ficou para depois. Seja como for, do ponto de vista logístico, parece-me lógico. Fazer disso uma mensagem de "prioridades" é ser desonesto. Ou é preciso lembrar-lhe que pessoas que tenham família fora de Lisboa vão para fora nesse fim de semana, por exemplo?

Um dos objectivos é protestar contra a precariedade. Não há objectivos que "parecem". Os que há, existem, não parecem. Vá ler o manifesto: http://geracaoenrascada.wordpress.com/, encontra lá as respostas às suas dúvidas. Esse seu parágrafo é uma completa inutilidade. As folhas A4 são um acto simbólico. Se não sabe o valor que um acto simbólico tem, vá aprender História.

Mas, continuando a tão-agradável leitura:

Okay, o ngoncalves desceu à Terra e explicou, às cabecinhas que só pensam no Carnaval, que a solução, a existir, demora, no mínimo 10 anos. Obrigado. Sendo assim, vamos dizer a todos os enfermeiros que passam a vida a trabalhar a falsos-recibos verdes (apenas um exemplo) que não vale a pena irem protestar: a solução, a aparecer, é só daqui a 10 anos! Até lá, vai-se aguentando. Devemos protestar uma injustiça de acordo com o tempo que a solução demora a ser encontrada, com o intervalo de tempo a ser definido pelo ngoncalves. Ou seja, protestamos lá mais para o fim, que isto agora ainda vai demorar mais ou menos uns 10 anos!

Caro conterrâneo, pessoa da minha terra, quer-me explicar o que a precariedade - os falsos-recibos verdes, a falta de dignidade no trabalho, entre outras - tem a ver com a crise económica do país? O estado assume compromissos e, como tal, quem trabalha a falsos recibos verdes tem de continuar assim? Espectacular! Quer explicar? E é preciso explicar que a entrega de folhas A4 é uma iniciativa tão válida como outra qualquer? Que tem tanto valor como o facto do senhor escrever um post na internet a discutir o assunto? E que isso, em si, tem valor (mesmo quando escreve este tipo de asneiras)?

Realmente queremos uma mudança, mas a protestar não se vai lá, não. Segundo o ngoncalves, isto só lá vai com um partido e concorrer a eleições. Eu diria melhor, ainda: porque é que não nos pomos todos a governar, já? Isto em ditadura anda mais depressa, ao nível da burocracia e outros! Protestar? Para quê? Com protestos não se vai a lado nenhum, nem aqui... nem no Médio Oriente!

Caro, para fazer figura triste, não é preciso ir para o cemitério de Santa Comba Dão: basta ter um blog e escrever qualquer coisa!

Abraços!

Gonçalo Teixeira

binary solo disse...

sendo colega de blog do amante de santa comba dão, nao posso deixar de bater palmas aqui ao comentador gng. valha-nos a multiplicidade de pensamentos e as suas formas de o demonstrarem. seja com gritos na rua ou com assobios para o relvado.