segunda-feira, 6 de maio de 2013

A Arte é para as massas, tudo o resto é para o verdadeiro artista.

Atenção estudiosos de todo o mundo: tivemos recentemente o privilégio de viver mais um desses raríssimos dias, em que a realidade se oferece a si própria uma oportunidade para testar, sobre o seu próprio corpo e substância, perigosas teorias sobre as obscuras e misteriosas relações entre a comunicação de massas, a baixa intensidade da performance intelectual e a formação de instrumentos de felicidade estética, e sempre tendo em conta a incidência da estupidez auto-imune, ou seja, aproveitemos esta soberana oportunidade, esta rejubilante manifestação de sinceridade dos vilões do sistema capitalista (que fundados na informação incompleta, nas limitações da escolha racional e na cegueira do sentido mínimo da decência, parasitam o ambiente geral em prol do seu desenvolvimento individual) para constatarmos com toda a profundidade possível o curso selectivo do progresso, um progresso que não conhece éticas particulares ou especializadas (e não nos comovamos, por favor, não nos comovamos), um progresso que não conhece critérios parciais ou pontos de vista subjectivos, mas responde apenas e tão só aos estímulos da vida, a forte, bela e imponderável vida, a vida, sempre guiada pela obnubilação sistemática das partes (e por isso a metáfora da máquina é tão imprecisa) sempre animada pela coordenação funcional e mutável dos sistemas celulares, cujas instáveis fronteiras tornam a decomposição do humano uma tarefa tão monstruosa quanto os relatos de Mary Shelley no seu definitivo Frankenstein.

Ó grande Ovídio que viste na metamorfose a chave da nossa substância e na mutação sentimental o frágil mas fabuloso alfobre da glória, fábrica infernal de todos os nosso sofrimentos: contudo, caros amigos e leitores, temos andados cegos desde Newton, temos andado cegos com a mecânica e os estados das relações entre as partes, cegos para o néctar da evolução e para o elemento central do funcionamento da natureza, no fundo, cegos para a vida, a animada e intepenetrável vida, caramba, a multi-factorial e variável vida, a sempre fugidia e disfarçada vida, factor justificante e autor da existência das formas: aleluia, curvilíneas formas, aleluia, suplícios do desejo, aleluia, instintos da beleza, capazes de nos resgatar de todas as misérias discursivas, de todos os desertos morais, de todas as corrupções artísticas, de todos os ócios auto-inflingidos, aleluia correspondência entre partes, aleluia suspensões do tempo mortal, capazes de fazer de nós aquilo que somos: deslumbrantes máquinas de reprodução de nós próprios.

Bem se vê, senhoras e senhores, como seria um insulto querer ver aqui uma abjeta queda no criacionismo: nada mais contrário ao meu intelecto, nada mais contrário às infinitas doses de confiança por mim colocadas na engenharia, a real e a metafórica, e na teleologia, a mental e a carnal, colunas que fazem de mim um escritor singularmente confiante na realidade da mente - desde que devidamente colocada em seu trono: o deslumbrante corpo. Na verdade, estamos apenas a colocar o dedo no lado trespassado e bem real da selecção cega, o lado de onde escorre a selecção anómina, a selecção desgovernada, a selecção determinada por vectores e não por estados, em suma, estamos apenas a centrar o olho da mente observadora nos nossos bem aventurados corpos e nos seus sublimes movimentos. Mergulhemos pois no material com a serenidade dos audazes.


Podem falar-me de uma Fernanda Fragateiro, de um Julião Sarmento ou de um Pedro Calapez. Todos eles nomes sonantes, mas nenhum com o mesmo reconhecimento da Joana Vasconcelos. Culpa dela? Claro que não! Ah, mas ela faz peças populares! E?? Não é (ou deveria ser) o objectivo máximo de cada artista trabalhar para o público? Para ter a máxima visibilidade? E, já agora, para vender? Ou só fazem peças para si próprios e para os amiguinhos do círculo intelectual, todos super eruditos, todos capazes de ficar três horas a olhar para uma peça absolutamente abstracta, arrancando-lhe rasgadíssimos elogios? (...) Não tenho conhecimentos artísticos suficientes para dizer se as peças são tecnicamente bem executadas ou não. Mas sentir um arrepio ao ver o Coração Independente (feito de talheres de plástico) a rodopiar, enorme, numa sala do Palácio da Ajuda ao som de Amália Rodrigues, é coisa que me toca. E, para mim, isso chega.


Na gloriosa terça-feira, dia 30 de Abril, o espécime de referência Ana Garcia Martins (mais conhecida como Pipoca mais doce) no seu local de expressão e no âmbito da sua ecologia própria redigiu um precioso post intitulado Arte para as massas, e forneceu assim, com total generosidade científica, amplo e original material de estudo, oferecendo-nos um pretexto irrecusável para que aqui nos debrucemos sobre o mistério da formação do gosto. É pois o momento de envergar a nossa bata branca, fazer uso de pinças e de caixinhas de vidro, e claro, do inevitável microscópio da nossa poderosa mente, a fim de compreendermos o ambiente onde perigosamente nos movemos. Eis os princípios sintéticos deduzidos desse exótico material:  1) O reconhecimento é fundamental para o artista: procuremos pois o reconhecimento e não a arte; 2) O artista não é culpado do seu sucesso, e por isso também não é responsável pelo seu falhanço; 3) A arte serve o público, não o artista ou os seus amigos; 4) Vender implica desagradar aos amiguinhos, especialmente os eruditos, o que desde logo fornece um passaporte para a chatice a todos os meus amiguinhos; 5) Servir o público não deve confundir-se com necessidades de que o público fique três horas a olhar para a arte do artista, pelo que vender produtos significa formar fila indiana, usar e seguir jogo, já que a vida moderna não se compadece com três horas de contemplação estética, não esquecer que o tempo se apresenta como o recurso mais escasso; 6) A ténica artística serve o arrepio; 7) O arrepio é o critério decisivo da qualidade da arte. Ensinamentos sagazes, meus amigos, ensinamentos sagazes e perigosamente parecidos com muito do que por vezes aqui se larga na caixa de comentários deste blogue, comentários supostamente a cargo de pessoas eruditas, o que nos leva a colocar algumas importantes hipóteses por ordem de importância:

a) Mesmo os mais estúpidos dos bem sucedidos mediocres são sempre escravos das ideias de um qualquer brilhante erudito já morto e enterrado, o que nos deve levar a maiores índices de compaixão em relação a todas as pessoas em geral.

b) É com a devida humildade que sou obrigado a reconhecer que sou inteira e justamente merecedor da irrelevância que toda a ampla realidade me vota e reconhe com total propriedade e legítima indiferença; procurarei desde agora aprender com as pessoas livres, sensatas, alegres e bem sucedidas, pessoas que no fundo foram capazes de suspender toda a sua vida mental autónoma em função da sobrevivência biológica, não priveligiando o sistema nervoso em detrimento de outras funções vitais do seu organismo como o sistema digestivo, endócrino, circulatório ou excrector.

c) O arrepio, elemento crítico de toda a evolução dos nossos princípios naturais do gosto (ver ponto 7), é uma função da sensibilidade de ajustamento entre a informação fornecida pelo ambiente (o coração idependente de Joana Vasconcelos, por exemplo) e a informação do próprio organismo da observadora (neste caso, A Pipoca). Ora, a economia fornece aqui contributos decisivos, numa daquelas reciprocidades fascinantes da história intelectual, sabendo nós que durante mais de um século a Economia nascente e titubeante foi alimentada pela Sistemática Biológica (a galeria de exemplos é infinita, mas pensemos em Malthus, talvez o mais brilhante intelectual do século XIX, embora apenas pessoas igualmente brilhantes, como eu próprio, o percebam em toda a sua plenitude).

d) Note-se que o ajustamento destes dois fluxos de informação (ambiente e movimento interno do organismo) estão longe de constituir processos economicamente eficientes. O corpo, quando lê o arrepio, convoca os dados sensíveis da emoção interna, mas interpreta-os segundo os próprios limites do sistema. Por outras palavras, não só existe uma duplicidade de fluxos, os externos e internos (o que aumenta a probabilidade de erro) como os fluxos internos são em primeiro lugar uma função das rotinas do organismo em processos similares, o que significa que o processo eficiente é aqui inimigo do processo adaptativo a novos processos. Não sei se estão a ver as consequências disto. Eu explico.

Se o ambiente fornece, por exemplo, um verso de Shakespeare, há uma grande probabilidade de a reposta da Pipoca ser nula devido aos limites do próprio sistema, com um tal gasto de energia numa oscilação dolorosa entre descodificar a informação do ambiente e a leitura dos estados internos. Além desta diferença na história neuronal, existe todo um conjunto de diversidades neurológicas estruturais, agravadas pelo facto de o sistema nervoso central, ao contrário do que se pensava, ser altamente plástico e por isso dependente da função tempo, ou como diria um bom economista, o custo de oportunidade da Pipoca mais doce desempenha um papel central na evolução do seu cérebro, colocando a cada mudança um preço relativamente elevado na obtenção de informação sobre alternativas aos seus arrepios estéticos. Se um artista recorre a estímulos presentes na memória colectiva nacional (Amália, filigrana minhota, tachos e panelas) ou civilizacional (corações gigantes, cores quentes, música étnica) existe uma grande probabilidade estatística de obtenção de arrepios nem que seja em camionistas do Carregado. Aliás, eu diria que a exposição de um leitão assado a rodar num espeto ao som de Amália Rodrigues atingiria provavelmente entre 91 e 95% dos mesmos efeitos obtidos com o gigante coração vermelho de Joana Vasconcelos.

e) Para um artista o conflito entre a sobrevivência biológica e a sobrevivência cultural é a principal fonte da sua arte, e motivo pela qual os grandes artistas padecem de uma sobre-determinação da importância do sistema nervoso central no funcionamento geral da sua vida, o que induz o sobejamente conhecido problema de comunicação com um público, tal é a hesitação do artista entre aceitar os critérios de recepção do seu trabalho ou continuar a construir os impérios de consequências simbólicas, por si imaginados, no decurso de uma épica histórica íntima, no processo para se tornar dono e senhor do tumultuoso mundo em constante transformação dentro da sua infinita mente. Simplificando, o artista é um especialista em arrepios e por isso não se arrepia com qualquer coisa, nem lê qualquer informação interna como um arrepio, razão pela qual demos ponderar a magnitude dos arrepios numa relação funcional entre características dos corpos arrepiados e potência do ambiente onde se produzem objetos de arrepio, sendo que tudo se complica sabendo nós que o artista é também um cultor de arrepios apostado em modificar o ambiente e toda a economentria geral dos arrepios, pelo que temos aqui um problema fascinante e merecedor de um esforço de ensaio estatístico sobre mais amplos materiais a recolher. Se as Anas Garcias Martins fizerem o favor de enviar anotações com dia, hora, objeto, intensidade e local dos arrepios sentidos, comprometemo-nos, desde já, aqui e agora, a elaborar um estudo sistemático e definitivo sobre esta importante matéria. Até lá, boa sorte a todas as pessoas capazes de se manterem vivas, inteligentes, positivas e animadas perante o desabar de todas as hierarquias estéticas que fizeram durante mil e quinhentos anos as despesas gerais da produção artística ocidental. Mas confiamos no futuro, confiamos no futuro, pelos deuses, confiamos no futuro.



Selena Gomez, Vanessa Hudgens, Ashley Benson, Rachel Korine em Spring Breakers de Harmony Korine, 2013.

13 comentários:

condenado disse...

20/20 (aplausos)

Anónimo disse...

ok.

a pipoca mais doce gosta de leitão assado!

aposto que até come a pele.

e daí? qual o problema?

achas que a joana vasconelos produz aqueles trambolhos para quem? para mentes iluminadas como as nossas, anónimos da blogosfera?

não.

está tudo bem.

agora vou ali ver o benfica esmagar o estoril.

a grande arte à distancia de um clique.

foda-se.

António Machado disse...

sou totalmente a favor de obras de arte a oito mãos

António Machado disse...

ah sim... nabokov e o c*** e depois dá-lhe para ler as pipocas...
só por causa das m***** amanhã já vou devolver o na outra margem da memória (quem é que inventa estas traduções...) sem o ter lido!

Tolan disse...

Está muito bem dito, mas ainda há um tema a tratar: se o motivo pelo qual se dá tanta cachaporrada à Joana Vasconcelos não deriva do facto de ter sucesso e não propriamente pela falta de qualidade intrínseca do seu trabalho que, de resto, não contém de todo sementes de polémica ou provocação (como é o caso de sucessos como o de José Saramago, em que a polémica está intrínseca à obra e à técnica).

alma disse...

heheheheheh
passei pelo "trafaria" vários fins de semana :) podia ter pedido para ver :)
como não queria estragar o meu momento Zen, deixei os operários trabalharem em paz :)

alf, se uma pipoca fosse contra a corrente :) isso, sim seria caso de estudo. Agora quem usa unhas de gel é natural que goste de bimbalhadas.

Mais uma vez a compatibilidade entre o texto e a imagem é muito boa :)

quem não sabe ler que veja os bonecos :)))







o anão gigante disse...

Tal e qual o escrito, imenso no tamanho, minúsculo nos argumentos.

Ex-Vincent Poursan disse...

Os melros comuns (turdus merula) são sedentários na europa ocidental e meridional, onde se distribuem por um vasto habitat. Contrariamente aos melros dos bosques que são esquivos, os das cidades não o são. Estes, nidificam em cornijas de edifícios, blogs, ministérios, presidências e mesmo arbustos de parques e jardins, até 2 metros do solo, posts e 4 anos de mandatos. A corrente ornitológica socrática considera no entanto que mesmo estes se protegem sempre nos arbustos.
Antes de me ocupar do assunto do meu comentário, é ainda necessário que discorra um pouco sobre qualquer coisa inútil à argumentação, como por exemplo: a Tchekov eram especialmente desprezíveis os vícios pequeno-burgueses da sobranceria aos mais fracos e subserviência perante fortes, e entendia que só pode fugir desta abjecta alma pequeno-burguesa quem dela radicalmente se libertar. Feroz crítico da sua própria obra, chamou maravalha à estepe e atribuiu o prémio Púchkine ao seu talento para a pesca do camarão. O que nos autoriza a afirmar, perante o actual panorama literário português, que a solução da crise está precisamente na aposta à exportação de camarão;
Devia ainda inserir aqui umas fotos mas esta treta não permite (penso eu).

Posto isto, devo estar dispensado de contribuir com análises estéticas e éticas ou opiniões frenéticas sobre as obras do Nabokov, do Melville, do Levi, ou mesmo do Vilhena.

Por esta altura penso ter já autoridade para informar que à qualidade dos meus comentários nesta caixa não assiste erudição mas sim eructação, segundo avisado diagnóstico dum interno quintanista do hospital de santa Maria.

Pronto, cá estamos…ora onde é que eu ia?... isto de escrever muito baralha um gajo a escrever quanto mais a ler!... ah!... no teu post!... pois… much ado about nothing!!!

António Machado disse...

alma :)

quem sabe vê (as coisas em si mesmas)* :)
quem não sabe ver procura consolo, colo :) no explicador das palavras (que como se sabe nunca explicaram nem explicarão coisa nenhuma) :)))
os casos mais graves :) acabam no divã da literatura :) a debitar volumes :)))
e é tudo :)))

* desculpe :) hoje entardeci muito fenomenológico... :)))

alma disse...

AM,

Que desconsolo :)

Anónimo disse...

vocês já repararam que a única gaja que parece realmente estar a apalpar os rabos alheios é a de calções amarelos?

as outras parece que estão a fazer um frete qualquer.

a de cabelos vermelhos parece incomodada e nem sequer se deu ao trabalho de afastar os dedos.

a de calções rosa está a tentar seduzir-nos com o seu olhar e a da ponta esquerda é feia que nem cornos.

será a literatura uma forma de arte assim tão incompleta?

silvia disse...

António Machado,
heheheheh, hoje acordou assim:)
aproveite e leia o comentário do Dr. Poursan, alguma coisa aproveita :)
não faça tanto barulho por nada :)

silvia disse...

heheheheheh
Bem observado caro anónimo :)