sexta-feira, 31 de maio de 2013

Paciência que este artista, enquanto jovem, frequentou uma vez um curso espiritual dos Jesuítas onde entrou para fazer silêncio e descobrir o altíssimo dentro de si, mas saiu em lágrimas de amor não correspondido por uma rapariga de Santarém.

1.
Como devem calcular, por motivos relacionados com a organização do trabalho mas também devido aos critérios de racionalidade exigidos por todas as pessoas de bem apostadas em não vigarizar os seus leitores com mariquices culturais, a minha personalidade não tem tido tempo para se expressar numa obra épica seccionada em estrofes tal como Uma Viagem à Índia, o poema cantado em prosa do mais prolixo escritor da sua geração, Gonçalo Albuquerque de Sousa Tavares, uma pessoa que gosta de encontrar antigos alunos e sentir que, de alguma forma, os marcou, uma coisa que a mim me horroriza profundamente. Antes pelo contrário, no meu caso sinto um profundo orgulho quando numa Universidade de inegável credibilidade pública e ampla vigarice administrativa, descortino o andar de uma antiga aluna que do alto do seus saltos agulha me fita com um desprezo monstruoso, sacode as longas madeixas descoloridas pelo mar atlântico misturado com aquelas ceras que os sufistas untam nas suas também longas pranchas, e tirando um maço de tabaco num fulminante golpe da mão direita (as mulheres estão a fumar mais) se empoleira ainda mais nos orgulhosos sapatos de carmim, brilhantes e provocadores; uns sapatos que fazem dela uma mulher tão distante mas tão distante da minha obscura colaboração com a instituição referida, e cavando ainda mais entre nós tais diferenças de ambição, classe, estatuto social, extrato bancário aos 21 anos, sítios de frequência, amigos, pratos preferidos, gostos, vocabulário, que a mim apenas me resta escapulir-me rapidamente para um qualquer vão de escada, antes do embaraço me devorar com as suas mandíbulas felpudas e destruidoras, agradecendo aos deuses por não ter sido reconhecido. Aí, no silêncio palpitante e soturno das divisões vazias dos grandes edifícios, deixo nascer no rosto um sorriso orgulhoso, pois fui competente na forma insinuante mas discreta como passei pela nossa nojenta seita formada para a decapitação intelectual da juventude, intitulada sistema de ensino. Graças a deus, já passou.


2.
Estou em falta para com o auditório mas motivos de força maior requerem toda a atenção que me é possível disponibilizar após uma das maiores hecatombes emocionais da minha vida e não acrescento mais pois é do domínio público. Nomeadamente, ainda não consegui decidir se compro as Cartas de Calvino em inglês, uma vez que ainda não as adquiri em italiano e os volumes ultrapassam já os vários milhares de páginas do mais estimulante cultor da língua de Dante (viram esta rima? Em que outro lugar se verseja articulando Dante com estimulante?). Bem, alguém me ajude, pois gostaria de retomar em breve as noites de sono tranquilo: comprar em inglês e já ou apenas depois, e em italiano, no momento em que a Einaudi expulsar o grande José Luís Peixoto, por descobrir que existe em Portugal um autor digno dos seu pergaminhos de sagrada instituição, ofertando-me a correspondência completa do seu antigo editor? Lamenta-se também o facto de nas últimas semanas, aproveitando a fragilidade física deste autor que vos escreve, e a braços com problemas que a prática médica costuma atribuir à endocrinologia, a New York Review of Books andar a copiar escandalosamente os temas de referência deste blogue. Tranquilos, pois o texto sobre Primo Levi já está a caminho, bem como a renovação de Jorge Jesus (um homem que durante mais de dois anos - mais precisamente, desde os 5-0 no Dragão, e há testemunhas disto - desejei correr ao pontapé do Benfica mas que agora, como diria Santo Inácio de Loyola, defendo com todo o meu coração e entendimento).



 
 

7 comentários:

Anónimo disse...

“Um Kafka por­tuguês”, chamou-lhe nas pági­nas da “Le Figaro”

eu gosto muito do gonçalo m tavares. a sério, sem ironia. também gosto muito de kafka. ainda mais. mas não percebo um cú destas merdas e, por isso, foda-se, acho que são exactamente o oposto um do outro mas não o consigo justificar. um é pedra, o outro é areia. é o melhor que consigo fazer. faz sentido? um é duro que nem cornos o outro passa-nos por entre os dedos, quando pensamos que conseguimos agarrar uma quantidade significativa, cai-nos tudo por entre os dedos, temos de começar outra vez. mas gostamos sempre que recomeçamos.

seja como for, tu dás aulas alf? foda-se. foda-se não por ti, foda-se. em geral. neste tempo todo de anonimato nunca pensei estar a falar com o professor universitário. mas está tudo bem. vivam as universidades. da faculdade de motricidade humana só não gostei do refeitório. parece que estamos enjaulados, caralho. sou meio claustrofóbico. problema meu.

foda-se.

venha de lá a porra do texto do primo.

estás em falta.

António Machado disse...

onde estão (perdidos?) os ponto 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11 e 12 desta posta!?
tinha tirado 92 minutos da minha vida para ler isto e agora fiquei sem saber o que fazer...

alma disse...

Talvez ler a obra epistolar do calvino me faça mudar a opinião :)
até agora o Primo ganha ao calvino pelo peso especifico :)

alma disse...

adenda:
lata não me falta :)
o Calvino é demasiado etereo para o meu gosto :)

quanto ao rapazinho Gnão sei o quê T.,pode ficar descansado :) haverá sempre alunas que precisam de passar :)))

alma disse...

respondendo à questão
ler em italiano para bom entendedor não é dificil :)

primo do lévi disse...

foda-se..

já nem digo nada..

mas prontos pá.. ficamos à espera

silvia disse...

alf,
Agradeço do fundo do coração :)
que estejas a preparar um post sobre o Primo Levi :)
ainda, só li dois livros mas vou lê-lo na totalidade.