quarta-feira, 15 de maio de 2013

Volta a Portugal em Caixão.

Tolan 


1.
É curioso como num dos episódios mais significativos da minha biografia literária, a ser publicada lá para o ano 2089, a cargo de uma esbelta italiana meridional, nascida entre Nápoles e Palermo, cabelo ruivo e perna longa, muito mas muito apaixonada pela minha póstuma obra e pela estúpida língua portuguesa, quintal de todos os falhados, constará o momento em que ainda a braços com a selva emocional da minha mente, procurei, num dia cinzento de Maio do triste ano de 1998, esboçar um poema, inspirado pelo imortal texto de Woodsworth, e no meu caso pobremente sulista intitulado Ode a uma caixão português. Qual não é o meu espanto quando dou de caras com este fenómeno de almas gémeas irmanadas na dor de terem nascido neste singular país onde se morre devagar, isto segundo o consagrado António Lobo Antunes, e onde é depressa a mágoa e a saudade. Mas vamos ao que interessa, pois é meu triste costume espalhar erudição em introduções muito longas e indigestivas. Shakespeare era, além de um grande "filha da puta" que deixou mulher e filhos à deriva, um extraordinário inventor de palavras, e pode mesmo dizer-se que era um chato, porque como os meus leitores sabem, a língua é o produto constitucional e sociológico de uma comunidade em movimento, e os individuos a quem sinistramente mordeu o bicho da escrita (os bichos mordem e devoram, infectam, não são simpáticos, nem habitam graciosamente dentro de nós, ouvistes ó parolos de todo o mundo?) tendem para a recriação/libertação das regras da gramática, assim como para o contumaz incumprimento da economia da expressão, como bem sabem os comentadores deste blogue.


2.
O assunto que hoje aqui me trás é a famosa e urgente questão amplificada por todas as revistas e telenovelas da moda, a saber, qual a verdadeira explicação para o facto de Franz Kafka ser tão abundantemente mal citado quanto incompreendido por todas as pessoas do mundo cultural. As primeiras páginas de Amerika, o romance preferido de Italo Calvino, e isto devia colocar de sobreaviso qualquer pessoa de bem, são uma das mais eloquentes demonstrações da impossibilidade de um escritor se fazer à força da disciplina e do trabalho. Um escritor é um acontecimento forçado e provinciano, localizado numa série temporal irregular, um erro no código, um produto acidental da República, uma foragido da escola, e um foragido da contra-escola, o escritor é um foragido entre os foragidos, ou seja, é um alinhado consigo mesmo, sem saber muito bem o que isso seja. Ora, o protagonista do livro Amerika esquece (tudo esquece tão cedo, tudo é tão cedo inacessível) o chapéu de chuva dentro do navio que o trouxe da Alemanha para a terra da liberdade, terra onde num mar vibrante de movimento e actividade comercial brilha resplandecente entre as brisas e os ventos do futuro, uma mamalhuda de tocha na mão e ombros atléticos, e quem não iria ao encontro deste desígnio, respondei-me ó senhores? Contudo, mal o protagonista pisa o cais, caramba, vem à mente uma sensação de falta e de ausência, o guarda-chuva!, e então, deixando com um amigo a mala de viagem, decide voltar ao navio, uma decisão estúpida: trocar a mala por um guarda-chuva; um português jamais incorreria neste erro grosseiro e carregaria com ele a mala, o garrafão e a marmita, tropeçando nos seus próprios pés e incomodando todos à passagem. Contudo, este mancebo de cultura germânica, o protagonista Karl, ao regressar à murmurante carcaça do navio, encontra fechada, pela primeira vez, uma passagem que muito teria encurtado o seu trajecto, o que provavelmente tinha a ver com o desembarque dos passageiros.


3.
Como é possível não ver aqui todo um programa literário? Uma pessoa esquece-se de um instrumento de proteção contra a chuva e quando recorre à memória para reencontrar esse instrumento, zás, leva com a multidão a encerrar passagens. É curioso como as pessoas do norte da Europa parecem dar-se mal com as multidões (Kieerkgaard chegou mesmo a escrever que a multidão é a mentira) e por isso inventaram o indivíduo, mas aqui no sul, onde há raparigas bonitas que nos beijam com paixão e nos consagram o melhor da sua juventude, e ajoelham a sua virgindade diante do nosso desejo, e prendem nos cabelos flores do campo, e humedecem os lábios vermelhos para atrair os melhores, e nos esculpem sulcos de dor na face quando nos abandonam por um partido mais consistente e proprietário, aqui, meus caros amigos, a multidão é a forma mais feliz de anonimato, a girar nas festas com sardinha assada, a circular nas praças com música estridente e o cheiro dos corpos, a percorrer as ruelas de olhos comovidos sob o peso de uma escultura sagrada, coroada de flores, um sintoma da pobreza e da irresponsabilidade, um pulsar de vida ao sol, vida embriagada por gritos frescos de vivacidade e o clima ameno das laranjas e dos limões, enfim, aqui é a terra que Goethe dizia amar mais que todas, e que fazia a inveja dos comerciantes da Baviera, local soturno para onde a vetusta e dolorosa República de Veneza, indisposta com a sua condição de pântano e fronteira da infelicidade, despachava os seus piores vinhos no longínquo ano de 1579.


4.
Como é do domínio público, passei grande parte dos meus primeiros meses estivais escondido no coração de Portugal, entre a urze e o tojo, a chupar leite quente no úbere das cabras, a fugir das investidas dos bodes, a rir-me dos brutos filhos dos camponeses, incapazes de articular uma frase, a estacar perplexo diante das flores amarelas das mimosas, a rasgar os joelhos no xisto da serra, a temer as velhas esguias trajadas de preto e sempre com murmúrios esquisitos em torno dos chafarizes e dos cemitérios, a correr com os meus irmãos ao longo de velhos sistemas de rega, estendidos por levadas e represas entre os socalcos de uma cultura que Orlando Ribeiro (o famoso geógrafo) dizia estar para o homem do mediterrâneo como o canto está para o cisne: uma despedida dos seus dias mais trabalhosos mas felizes. Passei esses anos a ver mineiros cairem de mota sob os alvores da madrugada a caminho da mina, já embriagados, e a acompanhar os camponeses que passavam a caminho dos riachos para soltar a água ou construir uma nova represa, camponeses burros e generosos entre os quais seguia esta criança assustada. Os camponeses ajudavam então esses mineiros a levantar-se das valetas, empuleiravam-nos nas lambretas, quem sabe alemãs, e a seguir lá iam eles serra acima a caminho do coração das trevas, um coração e umas trevas cavados durante quarenta anos, impulsionados por um segundo conflito mundial onde o volfrâmio, segundo consta, animou significativamente os mercados bolsistas e indústria de guerra, e há-de ter tido a sua importante contribuição sistemática para a mortandade que hoje se imputa apenas à Alemanha. Nesse grupo de camponeses seguiam muitas vezes as minhas tias, consistentes devotas de Fátima, que indo trocar flores dentro das Igrejas, se ajoelhavam diante de estátuas pirosas, pondo toda a sua vida em lamentos sibilantes, e afagando os pés descalços da Senhora, com o coração arrependido e com lágrimas nos olhos, o que me tem desde então impedido de soltar as minhas mais violentas gargalhadas diante da ignorância do povo, o povo, esse conjunto de  figuras semióticas que no fim dos tempos há-de coroar-me com o louro dos atletas, muito depois do dia da minha morte.


5.
Desculpem o interlúdio, mas o que nos trazia aqui era o regresso de Karl, o protagonista de Amerika, de Franz Kafka, ao interior do navio ancorado em Nova Iorque, se não me engano, partido de Hamburgo uns meses antes. Mal desembarca no espectacular porto da cidade, Karl, regressado do mar, perde-se numa infinidade de pequenos compartimentos, corredores, passagens, que a todo o momento mudavam de direção, assim é a vida, breves lanços de escada, sucedendo-se uns aos outros, continuamente, continuamente, e Karl, à semelhança de Ismael, o protagonista de Moby-Dick, é um sacerdote da desorientação, e Nova Iorque a cidade representante da vida desorientada, onde os dois jovens atribulados, com o intervalo de poucos anos, se consomem em busca de um tempo perdido. Dentro do navio, Karl, um rapaz que seguramente teria chegado a engenheiro (tal como eu, se tudo tivesse corrido bem, profissão que me evitaria o embaraço das minhas tias que, por me verem sempre com livros nas mãos, acham de há muito que estou desempregado desde os 18 anos, e na verdade estou) encontra Franz Butterbaun, um fogueiro do navio que entre outros atributos sabe bem como as Universidades americanas, muito mais do que as velhas academias europeias, protegem o mérito intelectual e a pura lógica. Embora Karl se sinta desmotivado, e sem dinheiro para estudar, recorda o pedaço de salame de Verona enviado pelos pais, e sobretudo o esmero com que a sua amada mãe procurou aparar os golpes que o cruel destino sobre ele abate, passando a ferro o fato e preparando a roupa, e assim, sem se preocupar com questões de direito, como sabemos, tão caras a Kafka, a narrativa prossegue mais algumas páginas, o que significa um sacríficio superior da sua vontade, a vontade do escritor, e também de Karl; lá estamos nós outra vez aprisionados na noite dos tempos.


6.
A partir das pp. 25-26 da tradução portuguesa, publicada sob o estúpido título O Desaparecido, vemos como o fogueiro, que entretanto Karl encontra no interior do navio, se afunda na sua pobreza, na sua indignação, no seu sentido da injustiça, sem conseguir ponderar a forma mais correcta de organizar a informação do seu protesto, falando dos maquinistas e serventes ao comandante do navio, mas tratando essas figuras pelo nome próprio, como se fossem figuras destacadas da política alemã ou americana, e isto para grande surpresa e enfado dos oficiais graduados da marinha mercante. Mas aqui, o sentido de injustiça política não se perde com manifestações católicas de exuberante reciprocidade a partir das taxas de sofrimento de cada um, taxas por si só muito dificeis de determinar, até por deus, e mesmo eliminando os erros de Excel. A mestria com que os factos vão alterando o retrato de cada uma das personagens é o mais claro elemento da bela arte de Franz Kafka, uma criança encerrada pelo pai numa exígua varanda, sujeita ao frio da madrugada por um pai demasiado cedo apanhado pelas garras do sofrimento, e apostado em multiplicar esse sofrimento  nos ossos e músculos do filho, procurando perpetuar na sua descendência biológica o mais fiel garante da qualidade comercial da sua loja, para grande desespero de Kafka que não quis saber nem de vendas, nem de encomendas, e a quem apenas a irmã protegeu dos golpes paternais do destino. Kafka vai alinhando cada novo elemento psicológico das personagens do seu falhado romance, segundo a ignorância que tinha dos verdadeiros motores das acções humanas, pois Kafka era demasiado inteligente e com suficientes golpes na arca da sua memória para se deixar enganar por ideias estáticas/estéticas sobre as coisas e por isso, tudo o que quer é manter uma actividade continuada do seu sistema nervoso, a única forma de se furtar ao disparos disparados (ops) contra si próprio e mesmo assim, quase conseguia liquidar-se sem piedade, não fosse o seu amigo Max Brod ter crescido numa casa onde certamente abundavam a estupidez e a generosidade.


7.
Essa ignorância começa por ser para Kafka uma necessidade sinistra de travar o carrocel de sensações diante dos outros, uma necessidade vital de organizar a informação recolhida pelos sentidos impressionados por outros humanos. Que o herói de Amerika não saiba o que fazer com a sedução imposta pela mais vibrante mulher da história da literatura, Joahanna Brunner (criada de servir, trinta e cinco anos, responsável por uma bela carta de recomendação ao tio do famigerado Karl, e sedutora do mesmo jovem Karl, onde numa primeira cena de pornografia madura, meticulosamente descrita, a mulher agarrando sem hesitações o jovem mancebo, o leva a penetrá-la) demostra bem como Kafka se encontrava já perdido de si próprio, algures aprisionado entre o preconceito das belhas mulheres situadas abaixo da sua classe social, e incapaz de se aproximar da pose maquinal, integrada e automática das suas pretendentes educadas numa sociedade checa de cultura alemã, sociedade de quem me disse o ano passado, no Porto, uma jovem mãe checa, ligeiramente magoada pela vida, ser um produto complexo mas interessante, justamente aquilo que todos pensamos de nós próprios. Pois claro. Mas nós meridionais gostamos de fingir que a vida é simples e bebemos vinho para aguçar o apetite, que o sol a prumo, nos quentes meses de Verão, nos quer roubar com crueldade, e ingerimos pimentos e alface, melões e melancia, vestimos camisas brancas, porque lavámos  durante demasiado tempo a nossa roupa sobre a pedra, esquecemos a origem antiga da nossa miséria, apostámos tudo no prestígio inamovível das nossas conversas, beijámos a morte civilizacional em cada dia, somos de um outro tempo e estamos aqui como um actor mal seleccionado para uma peça ultrapassada e muito antiga, da qual já ninguém reconhece as paixões, sequer os utensílios domésticos das personagens.


8.
As minhas tias beijavam os pés das estátuas com devoção e enchiam os olhos de lágrimas perante a beleza adolescente da jovem rapariga em quem depositavam a esperança e o sentido do seu sofrimento, uma jovem mulher com poderes de levitação sobre os tufos de carrasco e as azinheiras, segundo os alemães, os carvalhos das pedras. Porquê duvidar de uma mulher acima das mulheres, e que ao contrário de deus, ou do sacerdote, as feria com a beleza dos seus olhos escuros e tristes, o seu manto de linho, a cabeça coberta, o rosto recolhido e o porte contido, de mãos tranquilas, as mesmas mãos puras capazes de tecer raminhos de alfazema para perfumar os lençois na arca, e os mesmos pés talhados pelos caminhos, uma mulher versada na utilização da mesma roca de fiar, nos mesmos gritos guturais para conduzir os jovens cabritos, desajeitados e irresponsáveis, sempre a saltitar nos penhascos, uma mulher animada pelos mesmos ritmos das colheitas, e as mesmas disputas familiares, o mesmo horror perante a perda da virgindade, a mesma doce destreza a ordenhar as mesmas cabras magras, a mesma sabedoria pressionando as mesmas alavancas dos teares, lavando a mesma roupa de lã grossa, uma mulher esculpida pelas mesmas dores de todas as mulheres portuguesas do século XX. E agora, o que fazer com isso? Esquecer ou vingar?

9 comentários:

silvia camara disse...

Não esquecer e sublimar ;)))

alma disse...

Sublime :)
Sem problemas de repetir me vezes sem conta :) é um prazer passar por aqui :)






Anónimo disse...

não tenho nada a declarar. vou ler o livro que ainda não li. do kafka já li a metamorfose, o processo e alguns contos.

só acho que isto "uma decisão estúpida: trocar a mala por um guarda-chuva; um português jamais incorreria neste erro grosseiro e carregaria com ele a mala, o garrafão e a marmita, tropeçando nos seus próprios pés e incomodando todos à passagem" é a prova de que tens muito que aprender. nem todos os portugueses gostam de arroz de tomate e alguns também se esquecem do guarda chuva. alguns portugueses são verdadeiros alemães. puta que os pariu.

mas calma. estás no bom caminho. todos temos muito que aprender e eu tenho aprendido muito contigo.

e que ganhe o benfica!! e já agora, o paços!

Anónimo disse...

no próximo capítulo da minha obra de anónimo comentador deste blog, vou elaborar toda uma teoria de todo um conjunto de todos os factores que provam que esta maldita posta de pescada foi o bater de asas de borboleta que levou à derrota do benfica ontem, na terra onde as putas repousam nas montras.

muito mal alf, muito mal.

António Machado disse...

qual é o minuto 92 desta posta?

Anónimo disse...

Concluo que Kafka teve um Max Brod e o nosso Alf as suas cabrinhas.

silvia disse...

AM, apesar do cinismo compreendo a graça :)
recomendo-lhe
clique no nick :)








binary solo disse...

q cena mais poderosa meteste ai o silvia. obrigado!

António Machado disse...

mt obg silvia :)
amanhã :) se tudo correr bem :)
cheke-me esta metragem :)
em troca :)

http://www.youtube.com/watch?v=dDj7DuHVV9E