quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Marilyn ou Joyce: a literatura como máquina de reprodução na era dos computadores - um comentário a Tolan

 
Em qualquer caso, quando somos mais cultos temos de nos esforçar para encontrar o divertido e a quantidade de coisas aborrecidas aumenta exponencialmente, o que também é uma maldição.



Tolan, Quarta-feira, 12 de Setembro de 2012


Porque me estou a cagar para a literatura, preocupando-me apenas com os livros. 
José Mário Bronco, 12 de Setembro de 2012 23:43

 
Finalmente, temos aqui um problema, sobretudo se pensarmos que tenho quinze minutos para sair de casa, e devo responder a isto, uma vez que as questões de literatura devem ser tratadas com urgência, daí a importância das listas, e mesmo sendo eu beneficiário de muito mais tempo do que tu, para ler e pensar, embora tu ganhes mais e provavelmente tenhas apalpado maior número de mamas – o que é inteiramente justo, diga-se – sempre há imprevistos e dificuldades com que não esperávamos, mesmo para um mente ágil e um corpo bem treinado como o meu.
 Começaria por fazer uma pequena homenagem à geração de bêbados e falhados norte-americanos que invocas, invertendo o argumento das mamas, e recorrendo ao sensacionalismo que foi o emblema de toda uma geração com os mecanismos sensoriais avariados: foi precisamente por não terem apalpados as mamas suficientes – ou por não terem julgado suficientes aquelas que apalparam – que escritores como Kerouac acabaram a viver com a mãe. Antes de nos afundarmos no pântano freudiano, convém dar uma pequena volta pela história da naturalização do desejo.
Julgo que a origem da literatura culta e profundamente educada não deve colocar-se em oposição à procura de mamas, pelo menos de forma radical; penso mesmo que a literatura nasce quando nos fartamos de apalpar umas e passamos – ou julgamos que passamos – a querer apalpar outras, e é então necessário colorir a mudança com uma boa narrativa emocional, para bater em retirada com o mínimo de segurança; ou quando temos que justificar a longa permanência perto de mamas amadas e queridas, ou quando não tivemos o privilégio de estar perto de mamas, ou pelo menos de algo parecido, e é necessário uma prodigiosa pirueta de autoilusão para nos despedirmos do mundo em paz. No meu caso, posso dizer em confissão que enquanto fui virgem pouco li, e foi quando desabou sobre mim o misterioso mundo do amor que a literatura surgiu em toda a sua plenitude terapêutica.
Entendamo-nos: a qualificação da cultura como maldição é quase tão antiga como a história e, longe de ser uma maldição, é apenas o resultado de um escritor poderoso, eruditíssimo e incrivelmente sedutor, chamado Jean-Jacques Rosseau. Preferiria que me caíssem todos os dentes da boca antes de pronunciar uma palavra que fosse contra esse meu mais querido mestre, mas a ideia da pulsão adolescente, como critério de avaliação da cultura, é um caminho perigoso que deu oportunidade a um sem número de imbecis, como Nuno Crato e Maria Filomena Mónica, para treslerem o problema da libertação da vida. A pulsão instintiva, como qualquer amador cientista sabe, é dos temas mais difíceis da psicologia do desenvolvimento, e apenas o poder retórico de Rosseau, um homem dilacerado pela incompreensão, foi capaz de transformar um estado adaptativo particular do desenvolvimento num sentido global para toda as etapas da vida, o que tem mantido o Ocidente debaixo de uma chuva de problemas.
 
As pulsões servem propósitos de cultura, e a cultura condiciona infinitamente o leque de pulsões e o seu significado. Até em William Wordsworth, muito bem lido por Elia Kazan, está já a incrível solução de que a vitória sobre a morte reside na recusa do envelhecimento. Mas essa psicologia do desenvolvimento, tão maldita como qualquer outra, nada diz sobre o grandioso artifício literário. É certo que tanto Kerouac como Salinger, como sobretudo Capote, sabiam que a questão se joga neste sagrado confronto, onde começa o terror e se acaba toda a esperança, para utilizar uma expressão de Dante: «não foi para morrer que nós nascemos», disse também o único crítico literário que Portugal produziu depois de Manuel de Faria e Sousa, no século XVII, e é nesta luta contra a morte que devemos procurar o critério de análise literária que pode enfim clarificar o sentido do que temos andado aqui a fazer, ganhando, e não perdendo tempo.
O triunfo da adolescência, e a vergonha de uma cultura literária densa, que nos caracteriza como civilização, tem qualquer coisa de profundamente imaturo: tal como o adolescente que sua em pesadelo com a hipótese dos pais e avós aparecerem na festa de liceu, vestidos com fazendas e xadrez, carregando a merenda, o vinho, o queijo e o pão, também nós suamos perante os antepassados que parecem enviados de um  mundo rural, lento e atrasado; mas cuidado, porque uma velhinha arisca pode ter mais a ensinar-nos do que uma adolescente apolínea de dentes brancos e pernas ágeis – Sidharta que o diga -  e os americanos, totalmente forjados na revolução setecentista do consumo do chá, do tabaco e do açucar - caiem que nem patinhos nas emoções mais fáceis, e julgando-se portadores do elixir da juventude, coitados, já vão a caminho da mumificação, julgando-se coroados para sempre pelas doces mãos das raparigas com grinaldas de flores: se queremos ser surpreendidos, abramos a porta ao inesperado, e recebamos os familiares da província – o passado – com um sorriso franco. Não nos envergonhemos dos que nos precederam só porque queremos começar de novo, só porque queremos esquecer depressa, talvez para recuperar a emoção de não saber o que vem a seguir: porque nós já sabemos o que vem a seguir, já que isso nos foi dito pelo menos um milhão de vezes, e das mais variadas formas: nascemos, debatemo-nos e morremos, e é só. Há uma tradição que vê a literatura como a arte de ensinar a morrer; eu vejo-a como a arte de recusar a morte; e atenção, porque vamos agora pisar terrenos perigosos. É favor colocar o capacete.
 A tecnologia, e à cabeça de toda a tecnologia a linguagem, constitui a extraordinária invenção que encontrámos para dominar o espaço e o tempo (os dois grandes guardiães dos portões da morte) e tal como um avião, ou um sistema informático, o mérito de um livro está na sua capacidade de vencer espaço e tempo: não precisamos de mais do que a Matemática do 9º ano para seguir caminho. 
Percebo a tua comparação entre os russos oitocentistas e os norte-americanos novecentistas mas essa analogia foi ferida por um desconhecimento parcial da história literária de cada uma das obras produzidas nesses contextos. A metáfora das guitarras elétricas foi bem esgalhada – é isso a literatura – mas relembro que não há grande artista sem domínio do solfejo, o que pode é existir um artista que não tenha frequentado a escola, o que é uma outra coisa e bem diferente. Gogol (veja-se como no Retrato põe no olhar de uma personagem a crítica da arte da criança autodidacta, impotente e decrépita, apreciada por «máquinas primitivas e não por homens») conhecia profundamente a história e a cultura da Europa, e Tchekov era um médico com uma erudição notável e Tolstoi pouco mais fez na vida do que ler filosofia; ao contrário dos norte-americanos que largaram os estudos confiando nas virtudes adolescentes da criatividade. Bem pelo contrário, os russos estavam mergulhados de corpo inteiro em Shakespeare, em Racine, nas literaturas clássicas, em problemas culturais profundos. Basta medirmos o cuidado com que as metáforas são trabalhadas nos russos e compararmos com aquela tentativa infeliz e primária de reproduzir o dialeto, os defeitos da linguagem que carateriza o folclore literário norte-americano depois de Melville.
 
Todos os grandes autores perceberam que as metáforas são um mecanismo para injetar nos textos o seu próprio cérebro, dotando o discurso de dispositivos contra o envelhecimento; a marca de roupa, de cigarros ou de carros, os nomes de políticos e artistas que ninguém conhecerá, as sensações conjunturais, os nomes de ruas onde o leitor nunca colocará o pé, tudo isso não passa de peso que nos puxa para o esquecimento, ao contrário do que julgam os escritores que se deixam capturar na insidiosa armadilha do sucesso passageiro – que é o mais belo e aterrador canto de sereia que produz o mundo na seu rodopiar infernal. O acontecimento, num futuro relativamente próximo, é talvez irrelevante, e ficará só o equilíbrio tenso dos opostos das mais belas metáforas. Mesmo Shakespeare, a quem agradavam os desfechos inesperados, respigou as suas histórias – relativamente simples na estrutura – nos livros mais populares do seu tempo. Aquele público de prostitutas e comerciantes sabia o desfecho de cor, mas ficava hipnotizado com a suspensão do tempo e do espaço que a linguagem produz.
 
A religião usurpou durante muito tempo o monopólio da imortalidade, transformando esse endurecimento perante a morte, que era o estoicismo, numa lamúria de seminaristas adolescentes problemáticos. S. Agostinho, que resfolegou entre mamas, e ancas e pernas, sabia que a única forma de convencer os humanos a embarcar na imortalidade, recusando os prazeres do corpo, era transformando o estoicismo numa religião de padres alienados por uma promessa esconsa de liberdade hologramática. Recusando os padres, os beat-niks mergulharam de olhos fechados no vício e, portanto, no precipício. Só há uma maneira de voltar atrás, sem recuperar a água suja da religião: a grande literatura, e depois dela a linguagem tecnológica, têm sido a única forma consistente de derrotar o medo e a religião, permitindo que construamos com as nossas próprias mãos a imortalidade. Quando Ovídio parecia condenado a desaparecer, 1500 anos depois, explode subitamente na pena de Shakespeare e revive, numa rede infinita de conexões. Estamos na pré-história de um novo e glorioso mundo, onde a tecnologia já esteve mais de longe da possibilidade de reproduzir o cérebro humano.
Deus sabe o que eu tenho sofrido – e feito sofrer – às mãos das mulheres, e a última coisa que gostaria de fazer era deixar ligada a minha pobre existência a uma desvalorização do desejo. Mas a reprodução sexual que tem marcado muito do que tem sido a vida da nossa mente, não é o único, nem talvez o mais eficiente mecanismo reprodutor que existe na natureza, como qualquer biólogo amador sabe. O sexo – e a procura de mamas – é uma atividade encantadora e prodigiosa, mas ler não o é menos, e tenho dúvidas sobre qual caracterize melhor a humanidade. Os Historiadores adoram politizar mas não vêm um palmo à frente do nariz: se a pílula e o preservativo libertaram a mulher, libertaram ainda mais o homem que viu reduzidos os filhos – como potenciais inimigos na partilha da atenção e da propriedade, como bem viu o em tantas outras coisas visionário, Leonardo da Vinci. Ao desligar o sexo da reprodução, a humanidade transformou o intercurso sexual, para utilizar o teu anglicismo, num instrumento de cultura que agora terá que lutar na arena com outros instrumentos de cultura, o que trará certamente algum desgaste do sexo como mecanismo instintivo no nosso equipamento reprodutor. Mas mantenham a calma, estas coisas demoram pelo menos muitos milhares de anos. Além do mais, não há problema, pois já temos uma arma: as grandes linguagens e a sua virtuosa utilização, e por isso vamos continuar a reproduzirmo-nos e a ter prazer de muitas outras formas.
Gostaria de terminar com uma invocação da maldição (julgo ter demonstrado que não é uma maldição) voraz do erudito radical. A Ilíada, talvez o mais belo livro alguma vez escrito, baseia-se numa escultura voraz da inteligência emocional, numa incrivelmente bela homenagem à nossa técnica linguística, e sobre esse pano de fundo – que é uma longa tapeçaria de associações que trazem vivos até nós, os olhos cansados e cegos de Homero - evolui um drama militar: apesar de cercados, os troianos merecem que se conte a sua história, e mesmo perante a vitória dos Gregos, Homero sabe que há qualquer coisa de grandioso na queda das muralhas de Troia. No escudo de Aquiles, que contribuirá para a morte de Heitor no canto XXII, está sintetizada a poesia e a tecnologia, todos os elementos da terra, o mar de seda e pétalas azuis, o céu pontilhado de fogo, a alegria dos casamentos entre noivos, e o antagonismo das comunidades humanas, as muralhas cercadas de uma cidade, e toda a desumanidade dos pastores, de flauta e tambor, chacinados pelos soldados a caminho do combate. É que Homero sabia que, independentemente da justiça das suas ações, todos ganhariam vida, e para sempre, por meio da sua mente, transportados por metáforas, pelo ritmo dos sucessos, pela elegância emocional das ações, e igualados nessa magnífica tapeçaria, Homero via o seu pobre mundo orgânico desaparecer com a sua dignificação dos vencidos e a humilhação dos poderosos, a destruição daquele que terá sido o mecanismo típico da evolução da nossa espécie. Homero deve ter visto, na escuridão da seu cérebro precocemente anoitecido, as cidades a arder em revoltas, os escravos em marcha, os escrivães e secretários cansados de humilhações a congeminar planos de revolta e mecanismos económicos, o disparar da vida dos mais fracos em todas as direções do planeta, o trabalhar dessa máquina que nos libertará do espaço e do tempo. Tal como diz Homero, «para que no futuro/ sejamos tema de canto para os homens ainda por nascer».
Mas não ainda, pois passou uma hora e agora, desgraçadamente, terei que correr para o comboio.

 

5 comentários:

Sans faire de bruit disse...

Post para digerir.

silvia camara disse...

Conseguiste :)
Vou ler a Ilíada, volto já ...

José Mário Bronco disse...

A escassas duas semanas do início da Rider Cup, e ainda com a minha secretária de férias, uma análise à questão da obra de arte literária na era da sua reprodutibilidade técnica, não é assunto que venha a calhar. Mas há coisas que têm que ser feitas, não podem ser adiadas.


Se meti aqui uma expressão pomposa – a da reprodutibilidade técnica – não foi para me armar em bom. Por quem sois? Tenho outras maneiras muito mais proveitosas para me armar em esperto, do que citar Walter Benjamim. Dizia eu, se vim para aqui com esse autor é porque me interessa um conceito de que ele fala – o de aura – que eu quero utilizar aqui, substituindo o da procura de mamas, avançado pelo alf.


Vejamos, já circula aí muito nome americano e só o Tolan é que chutou o do John dos Passos. Para início de conversa, atesto que o dos Passos é dos melhores americanos desde o tempo em que aquela merda era dos índios. Por outro lado, o Capote não é escritor de primeira linha – e isto não é implicação minha por ele ser maricas – é mesmo porque aquela merda tem muitas voltinhas e rotundas com estátua no meio, que só podem mesmo interessar a gajas ou a bichas. Se quiserem – atenção, metáfora à Bronco – é como escolher tecido para cortinados: podem obrigar-me a frequentar um mestrado no assunto que eu nunca dominarei essa técnica como as mulheres e os paneleiros.


Porquê a aura em vez da procura de mamas? Muitos motivos poderiam ser invocados para deslindar este tema e eu, por limite de espaço e tempo, vou-me reduzir a apenas dois.


A)) Enquanto a procura de mamas é motivo para a escrita de 3 más Ilíadas na vida de qualquer gajo que goste de gajas, assim ele saiba escrever, a aura não existe em qualquer um e nem sequer está ao alcance de qualquer um. Sendo eu um gajo com manifesta capacidade para escrever uma Ilíada e só ainda não o fiz porque não tenho tido tempo, não é a procura de mamas que me leva a isso (a procura de mamas leva-me antes a outras coisas). Comprove-se o que acabo de dizer com a seguinte constatação: na minha equipa de futebol de juvenis, jogávamos à bola motivados pela procura de mamas e não pela vontade de ganhar jogos ou vir a ganhar dinheiro. Creio que esta motivação é hoje consensual em qualquer estudo credível de psicologia da adolescência e, se não for, digam-me que eu vou lá esclarecer o problema e fechar o assunto em definitivo. Já quanto ao resto, ó meus amigos, muito poucos lá chegaram e por isso, e não só, nenhum veio a ser futebolista. E é tão filosófico quanto isto: uns têm, outros não. Há milhares de escritores bêbados, Malcolm Lowry só houve um.


B)) Se há merda de que não gosto são as correntes literárias, as tradições filosóficas, as escolas de pensamento e outros refúgios de medíocres do género. E, mais uma vez, é tão simples quanto isto: quem só procura mamas escreve, publica e faz parte de uma corrente, movimento ou geração. Esses grupos excursionistas, vertente intelectual, estão cheios de gajos que querem mamas e isso de nada lhes serve. Quem for capaz de parir uma cena de jeito – com aura, tomem lá! – tratará imediatamente de rasgar o cartão de sócio desses clubes e ir às compras sozinho. Escritores com problemas para pagar rendas e sustentar mulheres e filhos há muitos; Luíz Pacheco só houve um.


Tudo isto é muito complicado, eu sei. Mas se não compreenderem, não fiquem tristes: é possível ser ministro das finanças sem compreender porque é que um tripé tem três pés.


E, se acham que tudo isto afinal não vale a pena, desenganem-se. Não houve um gajo que disse que escrevia para o homem que está para vir? E olhem que o sacana escrevia bem.

José Mário Bronco disse...

Alf, é à tarde que me torno mais shakespeareano - "The time is out of joint." Daí a razão para alguma dislexia temporal que costumo ter a seguir ao almoço.

Anónimo disse...

Posta densa,a exigir evacuação prévia e dopagen química. Em bom português : vou enrolar um e beber uma chimay 0,33 enquanto cago. Só depois terei espasso para deglutir posta densa assim.