segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Eu não quero a minha vida de volta!!!!

Confesso que não fui à manifestação “Que se lixe a troika. Queremos a nossa vida de volta”. Fiquei em casa, fui às compras, bebi umas minis num café da minha rua, mandei uns sms a comentar o pouco da manifestação que vi na tv e fui correr ao Estádio Universitário.
Na verdade, eu não quero a minha vida de volta. E não percebo como muitos dos manifestantes entrevistados possam querer a sua vida de volta. Mas exercito uma espécie de prós-e-contras, sem berros e jornalistas que subiram na horizontal na cama de qualquer diretor da região norte de um serviço público apimbalhado que agora, perdido o sufixo no nome, grita a sua razão com a (in)tenção de que o seu barulho funda em consenso a opinião de outros. De facto, democratizar em Portugal não é mais do que um esforço contínuo de falar a uma só voz, um pulsar permanente para cristianizar o espaço público. Mas voltarei noutro post a esta ideia. Centremos a atenção no que é importante: no uníssono da manifestação, quem quer a sua vida de volta? O que perdeu o professor que gesticula? Uma ideia de ensino democratizante, na qual a escola servia de buril a desigualdades plasmáticas, contribuindo os professores decisivamente para que se extinga a reprodução de hierarquias bolorentas mas vivas, como qualquer queijo mal cheiroso? Era assim o ensino há um ano?
Não, eu não quero a minha vida de volta. Mas a empregada pública que fala, quer. Mas o que será que quer? Será a capacidade para reproduzir nos seus filhos a razão consanguínea do seu sucesso profissional? Quer as suas férias nas Caraíbas? Penso que não é razão para tanto desconforto. A troika certamente não interfere nos concursos públicos e na sua tradicional função: colocar em bons empregos alguém já conhecido do diretor que entrou na fachada de contratado até que um concurso fosse ficticiamente realizado. Calma, as cunhas não vão acabar.
Mas nesta altura a manifestação congestionou. Não deixa de ser curioso que a própria manifestação tenha produzido a melhor metáfora de si mesma. Um grupo de pessoas que não quer ir por um lado, mas que ficou sem saber onde ir, nem sequer conseguiu chegar ao local pretendido. E que mesmo chegando, nada tinha para dizer ou fazer, para além de um desfile de insultos ao bode expiatório habitual – a sério? Mas ainda ninguém percebeu que por muito estimulante que seja derrubar governos, não é fácil ter a vida de volta, absorvendo o espírito da manifestação? -  Talvez porque, metáfora das metáforas, a Praça de Espanha não seja verdadeiramente uma praça; talvez porque nos últimos 200 anos, pelo menos, a (des)urbanização do país não tenha pensado nesse antigo símbolo de espaço público. Talvez porque nem haja espaço público em Portugal, e na nova praça, o Facebook, o consenso surja em forma de “shares” e “likes” e muito pouco pensamento próprio. Isso compromete, e nós gostamos mais disto como se de uma casa de segredos se tratasse!!!  O melhor, da próxima vez, é marcar a manifestação para um local que todos reconheçamos como espaço público, um qualquer espaço comercial. Para o El Corte Inglês. Porque não?

Mas não é de espaço público que se trata, trata-se de ter a vida de volta. Que se foda isto!! Pensei. E fui às compras, mas na mercearia. É que isto de ajuntamentos e de consensos faz-me fugir de multidões. Lembram-me sempre Fátima, a praia de Armação de Pera, os corredores do Colombo ou a audiência da Casa dos Segredos. Tudo é consenso, mas pouco é espaço público. Do dia, ficaram as minis.

6 comentários:

Maria D Roque disse...

Concordo que as cunhas e corrupção a nível de Governo continuará sempre , independentemente da cor ou credo do poleiro. Também penso que chamar a atenção não é só acenar e bater palmas. E é a primeira vez que desde que um tipo veio de Stª Comba Dão com um diploma de Economia, que um governo tem poder para ditar leis. Mas ditar leis não é matar desgraçados que recebem misérias à fome. Eu tenho a minha vida, não preciso de a recuperar, só de a reorganizar (again), mas muito há que não têm como sequer comer, e não pediu dinheiro emprestado a ninguém e está a pagar por isso. Eu fui á manifestação. É uma questão de consciência social. Um Sábado quente, às 5 horas, podia ter sido tentada a ir dar uma cacholada ao Tamariz ou ir beber bejecas numa esplanada, mas não fui; nem o meio milhão que pensa como eu.

Barão Trepador disse...

Cara Maria D. Roque

Em primeiro luga, obrigado pelo seu comentário. O meu post não pretendia ser derrotista, criticando a manifestação por já estármos numa espécie de via única para um futuro sem futuro; pelo contrário, o que pretendo afirmar é que a luta política não se pode restringir a derrubar um governo. Na verdade, eles têm caído e não estamos muito melhor de ano para ano. O que defendo é uma participação política mais activa, que abranja, pro exemplo, os nossos comportamentos de consumo. Não podemos faser uma manifestação contra o governo porque causa desempego e depois comprármos o que precisamos num só só lugar, num centro comercial, por exemplo, contribuindo para que a produção nacional caia ainda mais. Acto político deve ser todo aquele que praticamos.

Maria D Roque disse...

Bom, eu não vi as coisas por aí, até porque me dou a poucas extravagâncias e tento restringir luxos ao essencial. Que não será este ou o próximo governo ou outro qualquer que irão fazer o milagre da multiplicação, acho que todos sabemos. Aqui estava em causa o princípio invertido do Robin dos Bosques, porque isto que eles querem fazer não afectará muito quem tem bastante, mas será um crime contra quem já pouco tem, para além do que , a TSU é dinheiro nosso, para a nossa velhice, não é para tapar buracos socráticos e de outros vigaristas anteriores que brincaram à D. Branca com os centavos dos que já comem pão seco. POr exemplo, havia necessidade duma frota nova de Mercedes para os governantes, carros de 200 e tal mil euros cada um ? ... E cortes orçamentais ? .. Ah, e tal, a TSU... vamos lá !...pois...

AM disse...

apenas duas ou três "notas" (duas e já gozas, segredou-me a troika agora aqui à orelha esquerda)
sou "empregado público" (se era para ofender não ofendeu)
não "entrei" (pela porta dos fundos?) por "cunha"
considero a generalização implicita na sua afirmação ofensiva (esta sim) e desprezível
imaginar os "empregados públicos" a passar férias nas caraíbas é de uma tão grande ignorância e insensibilidade (sabe que há quem receba abaixo do ordenado "mínimo"?) que não merece mais que (a minha) pessoal desconsideração
porque me dou ao trabalho então, de comentar?
porque, no dia das manifestações, dei por mim a pensar em algo de muito semelhante (ou que imagino como semelhante) ao que escreve sobre o "espaço" ("público") da ("não") praça de espanha
será o espaço da (não) "praça" de espanha uma "nova" (leia-se recente) "realidade"?
será o espaço da "quase" praça assim tão diferente dos espaços por Marx (foi em quem pensei) conhecidos...
engarrafamentos, mentais, na passagem do séc. XIX ao séc. XXI...

alma disse...

Concordo com o post :)
mais vale agir no seu dia a dia com coerência, que andar em manifestações imberbes ...

Não percebi a reação dos comentadores, sentem-se ofendidos...
Se tiverem paciência cliquem no nick
apesar de ser sobre a sociedade paulista abrange o problema global e actual.

AM disse...

não se preocupe
eu percebo perfeitamente o seu desentendimento

(paciência sim, tempo é que não... @ empregad@ pública tem um sono - ou será sonho? - a respeitar...)