quarta-feira, 12 de junho de 2013

O Primo Levi morreu em queda numa escada interior de um prédio de Turim, local onde, curiosamente, tinha nascido umas décadas antes, ele há coisas, prédio por certo respeitável e sinistro, como são todos os prédios com escadas interiores mal iluminadas, uma morte estúpida, ele há coisas, e isto umas boas décadas depois de um épico regresso a Turim escapando à morte com fúria e determinação, ele há coisas, a cavalo, a pé, num soviético comboio de mercadorias, perfurando florestas selvagens e cidades fortificadas do centro da Europa em ruínas, onde às vezes uma jovem rapariga ídiche muito bonita esperava sentada com a sua malinha e o vestido coçado da deportação, em estações desertas sob a chuva impiedosa e desumana deste velho continente, por isso, meus amigos, meus amigos, temos tempo, meus amigos, temos tempo.

Quem tiver dúvidas sobre a matéria dada pergunte à Sara Norte. Eu gosto muito de pessoas que choram na televisão. Nem sei para que serve a televisão se não for para chegar ali e nos desfazermos em lágrimas. Julgo que as velhinhas de bata e permanente (quem raio terá inventado a permanente, a maior ofensa contra as mulheres?) durante séculos votantes em António de Oliveira Aníbal Cavaco Silva Salazar, também partilham desta opinião. Há qualquer coisa de muito profundo nestas lágrimas mas não sei ainda dizer o quê. Podia ser uma samaritana enxugando com os cabelos perfumados os pés daquele judeu maltrapilho e caminhante. De qualquer modo, as lágrimas são as mesmas. A Fátima Lopes, por exemplo, é uma mulher muito bonita, maternal, atenciosa, olha com aqueles grandes olhos de sacerdotisa experimentada, há muito solitária num templo tão antigo que foi necessário atualizar a língua na qual era expresso o nome da divindade, um templo já coberto de hera. Mas a Fátima Lopes olha para os convidados e o que resta fazer aos convidados? Desfazem-se em lágrimas, claro. E a Fátima Lopes, tranquila, às vezes pega-lhes na mão, e fala muito baixinho mas de modo firme. Que faríamos nós nesta situação? Ficaríamos sem saber se lhe enfeitávamos de grinaldas o cabelo, ou derramaríamos lágrimas no seu colo ou outra coisa qualquer. Fica desde já prometido um comovido pranto na minha primeira entrevista, altura em que o leitor exclamará: com que então, o alf era este gajo? Tanta coisa para isto. Boa merda.


E o mundo continuará o vibrante enrolamento em torno de si próprio e os leitores ficarão felizes por terem descoberto o mistério das coisas, inteligentes, profundos e desconfiados perante todas as formas de intenção, muito orgulhosos perante o seu sarcástico julgamento de todas as formas de discurso ornamentado, a começar pela literatura. E olharão para as plantinhas da sala, passivas e desmaiadas com o calor do Verão, abandonadas na sua posição vegetal, e darão por bem empregue o tempo nunca dedicado a projetos de indagação interior, ou à produção de discursos comovidos sobre tragédias pessoais. Darão sardónicas gargalhadas perante as elucubrações acerca da natureza humana, e sorrirão irónicos e satíricos diante dos inquéritos em torno da essência das coisas, pois parece que o movimento e a metamorfose, e as coisas todas muito obscuras e difíceis, e aqui, normalmente, alguém muda de argumento e diz: não, de modo algum, meu caro, pelo contrário, as coisas são muito simples, muito simples, tão simples que chega a ser humilhante - e surgem as habituais objeções, as perguntas, o cansaço. Com sorte alguém nos acusa de onanismo, na pior das hipóteses somos ignorados. Mas já o senhor Deus dizia, nem um dos teus cabelos será confundido. Contudo, é estranho, porque ainda hoje o ralo da banheira ficou quase preenchido por uma pequena barragem de restos capilares indignados perante a sua sorte, e quando os vi descerem canalização abaixo sem apelo nem agravo, fiquei melancólico com as gotas do chuveiro a pingarem num fio triste e cadenciado no alto da minha cabeça estúpida e irrelevante. Caramba, que trabalheira lá nos serviços administrativos de Deus. E foi então que me deu para vir aqui dizer qualquer coisa de substancial, fazer prova de vida, dizer a todos os bravos resistentes o quanto é difícil a escalada (só ontem, foram mais dois títulos de romances marcantes e inesquecíveis lançados para os escaparates, e depois, lá dentro, o mesmo de sempre, mediocridade sem capacidade de esconder a mediocridade). Ao menos eu, procuro escondê-la, e tenho sido bastante eficaz nessa tarefa. Até ver, ninguém me pode acusar de ter publicado livros medíocres. Falta o resto. O mais difícil, o mais difícil, dirá aqui com vigor e propriedade um coro grego digno das responsabilidades que o assistem na definição dos grandes momentos dramáticos. Já vos disse que tenho um conto intitulado «Conflito com um coro grego?»

27 comentários:

Zé disse...

Tá giro o texto. Gosto imenso de ti Alf. Manda lá o conto. Ou diz onde se pode comprar que eu compro.

Abraço

Anónimo disse...

não quero ser duro, o artista aqui és tu e eu respeito-te muito alf. tal como o amigo Zé também gostava muito de ler o conto, a sério.

mas, foda-se, é isto o texto sobre o primo levi? não pode ser. fatima lopes, sara norte? se isto é um homem, se isto é um texto, se isto é um comentário, se isto é sei lá o quê. não pode ser.

a fátima lopes é uma profissional. aquilo é como a prostituição. calma. não estou a dizer que a fátima lopes é prostituta. só estou a dizer que ela e o goucha e outra que tem a voz estridente que agora está na sic mas que antes fazia na tvi o que agora faz a fátima lopes, são profissionais competentes que sabem como ganhar a vida, atrair novos clientes e perpetuar os regulares oferecendo-lhes aquilo que querem ver. tu, alf, não sendo um profissional do martírio humano nunca conseguirias fazer o que faz a fátima lopes por isso não percas tempo a pensar nisso. agirias como o animal que és de acordo com aquilo que sentes pelo animal que necessitaria ou não da tua ajuda. está tudo bem.

na segunda parte do teu texto constato que tu, tal como eu, e como todas as pessoas de bem, sofres por antecipação.

não tenho nada a dizer sobre isso.

deixa-nos ler o conto. sff.

cumprimentos,
Anónimo.

António Machado disse...

porquê esperar pela primeira entrevista?

silvia disse...

alf,

Obrigada por este press release como introdução ao anti-piegas :)

Ainda ontem, chorei a rir ao ler as descriçoes sobre os esquemas do cesaere no admirável notável livro que é "Tréguas":)

Se isto é um Homem (que homem) extraordinario :)

Obrigada por incentivaresnos na curiosidade :)))

silvia disse...

ADENDA :

Cesare (o que insuflava os peixes)

"A Trégua" :)

incentivar nos :)

silvia disse...

hehehehehhehe
por que não escreves algo mais actual como:
«conflito com o coro Granta»
caso para dizer :))) Se isto não é um homem :)))

A trégua no final lembrou-me o regresso de Aquiles :)







silvia :) disse...

ahahahahahah
deve ser das sardinhas :)))

Adenda :

queria dizer Ulisses :)

hoje estou um pouco mitomana

António Machado disse...

silvia

viu o filme tuga em que os finos comem sardinhas de luvas? :)))

silvia disse...

heheheheheeh
não :) mas deve ser giro :))))

António Machado disse...

procure por aí :)
o clip está on-line :)

Anónimo disse...

Marcovaldo e as abelhas, o resumo da banalidade do bem e do mal.
GB

alma* disse...

Para o alf.
Mas recomendo para todos, depois de lerem [Se isto é um homem e A trégua]
espantoso depois de tudo como foi capaz de escrever com tanta doçura...


António Machado disse...

alma (vou só deixar aqui mais esta) :)
não são as "experiências-limite" que mudam um Homem :)
são os Homens que mudam, em experiência, os limites :)

alma disse...

AM,
Uuii !
Palavras bonitas as suas:)
A realidade é outra,nem todos tem força e sabedoria para ultrapassar os limites mesmo com a maior experiência é preciso além de sorte uma coisa que chamava força interior :) mas o Primo Levi descreve como uma disciplina interior.
Visitei o campo onde ele esteve (já muito passado a limpo). A minha miserável homenagem foi passar por cada foto das fichas que lá se encontravam e olhar para os olhos de cada um,aprendi a observar retratos. Nalguns pelo olhar frágil denunciavam logo a falta de sorte ...





António Machado disse...

só trocadalhos (os meus) :)
lixado, o destino
contra a "falta de sorte", nada se pode

António Machado disse...

hoje disseram-me que a foto de um "candidato" em um cartaz mudava o olhar ao avançar (e rodar e passar) por ele
disse que não sabia, que desviava sempre o olhar
teria pudor em olhar esses seus retratos
acho que não saberia "encenar" a "solução final"
nem em exposição nem em livro nem em nada
recorda o que falámos sobre o "memorial" do Eisenman na capital do reich...

alma disse...

essa cena do seu cartaz só me faz lembrar um filme do woody quando ele andava em busca de uma religião :)
e vê-se um Cristo (tipo ilustração chinesa quase multimedia) daqueles com esse efeito :)))

sim, lembro-me da conversa :)
mas o mausoléu do Eise é de quem não leu o primo levi :)))

António Machado disse...

deuses psicadélicos :) deve haver disso - a piscar a piscar - em fátima :)
quanto ao eise não tenho a certeza :)
o homem tem fama de ser uma biblio ambulante :)))
recordo partes desse filme :)
tenho que procurar, agora que tenho tempo, nos tubes :)

silvia camara disse...

o eise heheheheheeh se leu :)
atirou com muita pedra mas nenhuma era a filosofal :)))

o museu judaico onde consegui entrar foi em frankfurt :) sózinha por ali gostei :)

mas os outros é passar à porta que se faz tarde :)

assustam-me

António Machado disse...

eu de frank, como sabe, só a cozinha :)))

António Machado disse...

daqui nada já estudo, obg, o seu link para o H. :)))

silvia disse...

heheheheheh
sorry;) esqueceu-se que foi em frank onde pregamos um mini susto naquele palhaço do Dias L.

António Machado disse...

não esqueci (how could i?) :)
mais 1 (grande) artista deste circo...
era encher, nas calmas, um avião e...

Anónimo disse...

o maradona fumigou a cólmeia e anda por aí um enxame de vespões anonimos prontos a fazer ninho num qualquer blog da sapo com comentários

silvia disse...

anónimo :)
tenho informaçoes de fonte segura :)
que o recreio no maradona reabre na próxima semana :)))

Vincent Poursan R. disse...


olha alf, como é que vou dizer isto, eu li pouco do primo levi. Do que leio, passado tempo só ficam ecos. Como das melodias que um dia ouvi, depois esqueci, e recordei outra vez quando um outro inesperado acaso tonal as trouxe de novo á memória. Li o teu post. E com recordei mais levi do que se tivesses produzido um ensaio de 7$50... (a preços de réis claro).

maradona continua provocando disse...

agora bota pictografias dobar do Alfa Lisboa-Porto anos 90,onde ,decididamente, entrosei algumas das converças mais intresantes dos meus 30 & tais.
Dialuguei com artistas promisores,alguns mesmo sponsored by José Viana ou MariaMatos ( ou sá da bandeira lembro mal)

Cuando el abrir a caixa,vaisse arrepender.