quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Terá sido o neo-realismo uma forma política artísticamente pobre ou o mais elevado ideial estético do século XX? Uma breve introdução em 5 pontos.

1.
Queria começar por me dirigir a um anónimo cuja manifestação da estima se dirige a «blogueres» que permanecendo no anonimato, por serem génios incompreendidos, nada percebem do mundo da edição. Não sei se estava a falar comigo, peço perdão, mas engana-se duplamente se era esse o  caso, pois não só o meu génio é totalmente compreendido, tanto por mim como pelo mundo em geral (ao contrário de outros fenómenos que descendendo de Carlos Magno falam como participantes de A Tua Cara Não Me É Estranha, e espero que tenham assistido ao edificante espetáculo que ontem a Rádio Televisão Angolana transmitiu a propósito de José Rodrigues «Rei David» dos Santos - o homem tem antepassados bíblicos ficou demonstrado) como tenho muito orgulho em não perceber nada do mundo da edição (embora haja imensa gente que percebe, a começar pelos editores, daí os poderosos índices de leitura e consumo de livros dos portugueses, bem como a respetiva saúde financeira do dito negócio) pois se há coisa que me tem animado neste 34 anos de vida é a vontade congénita de me manter afastado de coisas bolorentas, ultrapassadas ou mafiosas, três categorias que enquadram quase todo o fenómeno editorial, com duas ou três honrosas excepções.
 
 
2.
Motivos de força maior têm afastado de mim o tempo necessário para escrever o sucinto ensaio em que se demonstra que o Neo-realismo foi o mais ambicioso projeto literário dos últimos dois séculos, tão carregado de densidade poética e artilharia política que acabaria mesmo por dinamitar-se a si próprio ainda sem ter levantado vôo, deixando um rasto de luz e poeira sobre a terra, o que é apanágio apenas dos grandes projetos. Como Calvino escreveria na sua magistral introdução ao seu romance de juventude O Atalho dos Ninhos de Aranha, romance parido num sotão de Turim a tiritar de frio ainda com os ecos dos disparos partigiani a assombrar as suas orelhas, «as leituras e as experiências da vida não constituem dois mundos mas um só». Os elogios ridículos de Pedro Mexia e Henrique Raposo (isto para citar dois exemplos da geração mais próxima da minha) à prosa de autores como Eduardo Pitta, a par de um consistente, latente e ignorante vituperar da prosa neo-realista, esbarram com as suas declarações, também sistemáticas, acerca da escassez de bons prosadores e narradores portugueses no século XX. A confusão que vai na cabeça das pessoas.
 
 
3.
O mais triste e ignóbil elemento de toda esta situação crítica, diga-se e sem rodeios, é que o sarcasmo com que se cobrem obras como a de Alves Redol e Manuel da Fonseca, a de um homem de um só e belíssimo livro, Soeiro Pereira Gomes, ou mesmo a de um Almeida Faria e Carlos de Oliveira (dois notáveis casos de um esforço estético e filosófico de consistência) o sarcasmo, repito, e os dichotes de salão com que se cobrem autores como estes aqui citados são fruto de uma mistura explosiva e letal, tanto para as inteligências como para a elegância dos produtos críticos, entre a olímpica ignorância acerca da literatura portuguesa em geral, entretanto substituída por contemporâneos ingleses e americanos de qualidade mais que duvidosa, e um preconceito político inaceitável em indíviduos que se querem reconhecidos pela coragem intelectual (risos, risos, risos). Podemos incorrer na importação das toneladas de estupidez que quisermos, isso é com cada um. O que não podemos é ironizar sardonicamente sobre a metafísica experimental dos autores portugueses (pensando apesar de tudo nos últimos 20 anos e esquecendo, por motivos que ultrapassam a minha compreensão, os muitos e bons narradores dos primeiros 80 anos do século XX) para depois louvar a síntese narrativa e a economia do frasear fundada numa simplicidade de processos, mas isto enquanto se cospe sobre os mais conseguidos exemplos disto mesmo, note-se, seja em português ou em italiano, e vou evitar agora o name dropping que nos levaria demasiado longe. O engenho humano até na estupidez é maravihoso de contradições e inventividade.
 
 
4.
Regressando ao sempre incomparável Calvino, «cada experiência da vida, para ser interpretada, apela a determinadas leituras e funde-se com elas». Era este o príncipio neo-realista e estava absolutamente correto. Não se deve julgar o neo-realismo por excesso de compromisso político (uma tautologia das mais ridículas de todos os tempos) uma vez que o que faltou aos neo-realistas, além de sofrimento interior, foi, isso sim, selecionar exemplos de qualidade literária indiscutível que pudessem servir de candeia à tentativa experimental etnográfica. Cunhal ainda apontou para Shakespeare mas era demasiado burguês e pouco inteligente para captar a temperatura poética e o magnetismo filosófico das situações dramáticos do bardo inglês. Deste modo, o neo-realimos caiu no alçapão do interesse, à semelhança de outros estilos menos organizados, tal como o estilo que caracteriza, por exemplo, o próprio Eduardo Pitta, de que me ocuparei em breve. Só que o facto de indivíduos como Pitta, Mega Ferreira ou outros autores menores, cairem individualmente, tem como consequência que o estrondo da queda seja menor. Mas que ninguém duvide: os resultados do falhanço artístico são em muitos casos bastante mais deprimentes e ridículos do que alguns dos neo-realistas citados. Apenas o facto de os ne-realistas cairem em conjunto acentuou a barulheira, chamando a atenção dos estúpidos,  dos mirones e dos abutres críticos. 
 
 
5.
Que os livros nasçam sempre de outros livros é uma verdade só aparentemente em contradição com a outra que diz que os livros nascem da vida prática e das relaçõs entre os homens. Outra vez o subtil Calvino a acertar em cheio. Mas o escritor italiano beneficiava do esplendor cultural italiano, da alfabetização das suas elites, ao contrário das elites portuguesas, indigentes, burras, desde o alto dos rolos da cabeleira até à fivela dos sapatos. A Itália nunca se fechou o suficiente de forma a que não pudesse receber os raios de sol do progresso (isto parece um hino soviético e fica aqui bem) nunca enterrou a cabeça na lama da sua ruralidade e pobreza, ou pelo menos, se não podemos falar por toda a Itália, sabemos que Calvino nunca enterrou a cabeça o suficiente, de forma a que fosse impedido de entender que o neo-realismo estava esgotado no momento em que foi inventado, a saber, nesse pináculo do experimentalismo literário universal, onde se juntam o sangue dos oprimidos e a fúria incontrolável do desejo e das qualidades corrompidas do homem, onde a emergência da maldade se harmoniza com a mais extraordinária tapeçaria metafórica que foi dado ao mundo conhecer depois de Shakespeare, esse momento em que a política foi fundida com a beleza. É claro, caros leitores, estou a falar do momento em que Herman Melville escreveu Moby-Dick. 
 
Henri Cartier-Bresson
Irão. Mazadaran. 1950.

21 comentários:

alma disse...

Muito Bem :)
Passo a seguir :) ler o Alves Redol

Anónimo disse...

caríssimo porquê "blogueres" e não "bloguistas" ou "blogueiros"? É que eu também sei consultar o Ciberdúvidas, sabe? Basta ter acesso à net...peço desculpa, à internet.
Mas passando ao seu ponto 1 que está cheio de alarvidades: primeiro existem realmente muitas pessoas que percebem do mundo da edição, tenho pena que as não conheça ou não conheça o seu trabalho; agora responsabilizar editores pelos "poderosos índices de leitura" é que é de uma desonestidade intelectual sem paralelo. Segundo, não tome a saúde financeira das Leyas e outras casas editoriais pela saúde financeira do "mercado literário", não tome as "choradeiras" de livreiros e editores pela real saúde do "negócio". Num país que se está a desfazer posso-lhe dizer que a queda no mercado literário é muito pouco acentuada; se não conhece os números informe-se antes de escrever o que escreve.
Para terminar congratulo-me com a sua "vontade congénita" de se manter afastado do mundo editorial (que apelida de bolorento, ultrapassado e mafioso, espero que essa sua vontade se mantenha e se possível, se reforce, para que as prateleiras das nossas livrarias se mantenham livres de um livro seu.

António Machado disse...

um pouco menos mal que o habitual dou-lhe 9, pelo esforço
e pela foto
recomendo doses, maççiçças, de Zeca

alma, não leio Alves Redol desde os 10

António Machado disse...

escreve-se "terá o NR sido" ou (feio * seja como for) terá sido o NR?
baixei a nota para 6

* a língua portuguesa sabe a feia na boca do alf

António Machado disse...

alma,

vai ler o Redol antes ou depois de ler o Silvio
eu preciso de saber estas coisas

Anónimo disse...

que caralho (mesmo assim, tou farto de punhetas filosóficas [ahahah, punheta filosófica.. houve um ensaísta qualquer lá na causa que falou disto e eu {que sou um plagiador} tive de copiar] que não servem para nada) vem a ser esta merda de post?

eu gosto deste blog porque isto parece o jardim zoológico. há sempre animais novos para ver! sim, eu sei, eles estão sempre lá, coitados, presos nas suas jaulas, longe do seu habitat natural, mas mesmo assim não deixa de ser engraçado.

António Machado disse...

este blogue vale pelos anónimos
p. secas, salvo erro

alma disse...

AM,
primeiro os estrangeiros despois os da casa :)

portanto amanhã já vou passar pela fnac e compro o silvio :) gosto de cenas passadas na prisão :)

hahahah nunca é tarde para ler o Alves Redol :)

António Machado disse...

por isso é que o país está como está :) somos melhor a acolher que com a colher propriamente dita :)

António Machado disse...

eh eh, feira do livro camarada na sociedade euterpe
se o tejo é o rio da minha aldeia?
that was a long long time ago :)

alf disse...

Caro anónimo inicial e especialista em assuntos de edição:

1) faça-me a justiça de reconhecer que eu reconheci que existem toneladas de especialistas no mundo da edição, só que em geral não costumam dizer nada de muito interessante, mas posso estar enganado, sabe, acontece por vezes.

2) não me dirigi a nenhuma editora em particular mas ao panorama geral, reonhecendo as 2 ou 3 (ou 3 ou 4) editoras que procuram a quadratura do círculo, ou seja, continuar a fazer um trabalho aceitável dentro de um sistema de autoria caro e ineficiente, com uma legião de parasitas intermediários.

3) a questão é de maior profundidade, com todo o respeito. É a tecnologia, aquela cena dos engenheiros.

4) já sabemos que os editores não têm responsabilidade sobre os índices de leitura, a culpa é do Ministério da Educação e do governo, do Papa e do Jorge Jesus, isto desde tempos imemoriais, como aliás tudo o que acontece em Portugal.

5) se a queda no mercado literário não é acentuada (o que eu não disse, disse é que o mercado literário está sempre a chorar com temor da queda)ainda se confirma mais o escândalo dos preços a que os livros são comercializados. Já era tempo dos editores começarem a fazer qualquer coisa que se aproveite, tipo escrever um livro. É que a malta já tem computadores pessoais e pode, não sei se está a ver, organizar aqui uma cena. Claro que nunca chegará aos pináculos do mundo da edição em papel, mas dava para as pessoas se divertirem com alarvidades próprias, como é o meu caso. É mais barato, a vida está cara.


6) congratulo-me também pelo espírito censório que procura manter pessoas indesejáveis (como parece também ser o meu caso, não nego, não nego) afastadas das prateleiras das livrarias, onde a qualidade é de tal ordem que um livro meu seria sem dúvida uma mancha irreperável e um insulto à pureza da língua, aos fundamentos do negócio e à moralidade universal de todos os editores, livreiros, pastorinhos de fátima, sacerdotes e bispos auxiliares, poetas, bem como de todas as pessoas da cultura (vénia) em geral.

alf disse...

Agradecimentos ao AM pela correcção. Com efeito, assim fica melhor.

Cumprimentos também à alma e já agora ao estimado anónimo especialista em assuntos de edição, as críticas são sempre apreciadas neste lugar raro e arejado.

Anónimo disse...

então e eu, anónimo intermédio, não merece um elogio? uma palavra amiga? bolas!

alf disse...

Tens toda a razão. O trabalho de orações subordinadas é meritório.
Cumprimentos.

Ernesto O. Gibbons disse...

Não consigo compreender como é que alguém desse longínquo universo editorial, (existirá certamente aqui uma distância intransponível que compreenderá anos-luz, não me devo alarmar... mas, contudo, não se fiem demasiado nela, na luz, cuidadinho, essa marota, volta e meia, provoca um choque eléctrico, causa um arrepio, deixa-vos os cabelinhos em pé) é capaz de atacar o alf, como todos sabem um leitor ávido, um consumidor de produtos impressos em máquinas desse mundo de mundo de papel incalcinável.

Anónimo disse...

ernesto...

entre a merda que se encontra em qualquer biblioteca municipal e as merdas que já encontrar online (como os filmes) um gajo só gasta dinheiro se quiser.

alma disse...

alf,

Ontem deixei o link no capt.
hoje, o AM pertinente como sempre aconselhou-me a deixar também para si :)))

http://www.facebook.com/photo.php?fbid=541422965888223&set=o.139137839567204&type=1&theater



Anónimo disse...

o pedro mexia apresenta os livros todos?

António Machado disse...

não, o prof. martelo também apresenta alguns

alma disse...

alf :)
Se por acaso não esteve ontem lá.
O Mexia é uma rapaz educado mais fraquinho que aquilo que aparenta:)

o Eduardo Lourenço ou é parvo ou é outra coisa

Senti compaixão pelo senhor que é o Almeida Faria, deve ter sido penoso estar ali a ouvir o E.L. elogios parvos à augustina e outros trastes Lool
e sobre a obra dele quase nada ...

enfim.

O Mexia gosta de mexer é só isso :) dali só sai maionese :)

nAnonima disse...

Henri Cartier-Bresson, O Mestre...