quarta-feira, 7 de novembro de 2012

We all gonna die someday!!!

Há muitos anos, na casa humilde, vincada e perpetuamente humilde do meu avô materno, a matança do porco organizava-se cuidadosamente, porque rara, porque diferente do dia-a-dia. Penso que seria assim em muitos lares do Portugal dito profundo dos anos 50 e 60 do século passado. Aí não há originalidade. Centro-me, por isso, numa singela singularidade: a Amélia. A Amélia, a cigana do tempo em que os ciganos eram ciganos, do tempo dos ciganos, Kusturicamente falando, pressentia por artes até agora não descortinadas, a matança do bicho. Talvez fosse o espetáculo que hoje é visto como bárbaro, mas na época, e entre dias de fome, assemelhava-se, certamente, senão à mais genial, pelo menos à mais bela ópera de Mozart, como se uma flauta mágica alertasse a cigana, atravessando com os seus sons os húmidos campos em cenário de margaça e lama.
 
E a Amélia chegava a horas. Sentava-se numa pequena pedra que ficava à frente da porta da cozinha, debaixo do minúsculo e improvisado alpendre. E esperava, esperava um bom par de horas. Depois de morto é preciso musgar o animal, queimando-lhe os pelos e a pele, depois abria-se-lhe a barriga usando uma afiada faca que desapertava como um zipper que se abre, e fazia revelar-ser uma janela de vapor e cheiro inqualificáveis, uma imagem muito parecida com a abertura de um cozido que se retira dos pequenos buracos do calor da terra açoriana. Só a imagem, claro.  
 
Sabe-se que do porco, morto pela fome, tudo se aproveita. Os presuntos para a salga; as tripas para os enchidos; as patas para o grão; as orelhas para a brasa, assim como a entremeada. A cigana, embrulhada em saias e sujidade, lá conseguia a parte pela qual esperara durante horas, o piçalho do porco, quando a sorte não lhe trazia porca, claro. Nunca se soube o que fazia a Amélia com o piçalho; mas não sejamos ingénuos: um piçalho vale só por si!!!

 
***
 
Há em Obama algo que se assemelha àquelas mulheres que cozinham, cozinham muito bem, aliás. Mas nunca almoçam, nunca jantam e na verdade nunca vemos sentadas à mesa. Depois de cozinharem a melhor iguaria e de perfumarem a casa com ela, ceiam apenas uma maçã, um pouco de pão ou unicamente insignificâncias. Enche-as a criação terminada, alegra-as o trabalho concluído, assim, sem objetivo maior do que a sua própria realização.
 
Obama para mim é isto. Alegra-se com a simples realização, com o ser e não com o fazer; como uma cozinheira que não come. Não é difícil de imaginar, embora não seja saudável fazê-lo, o que disse Obama a Michelle quando a comia por celebração durante a madrugada de ontem: “foda-se Michelle, we did it again. Já está!! “, se falasse português.  E fica-se assim. Obama olha para o ser presidente americano como eu olho para as mamas que o Alf constantemente nos oferece aqui: são mamas pelas mamas, mamas vistas no objetivo maior de apenas ver mamas. Obama é presidente não para ser, mas por ser presidente, um fim conseguido no título, no dia da eleição. Obama, não tendo que esperar pela matança do porco, também não era o filho do porqueiro, teve de conquistar a sua própria refeição. Ainda por cima num mundo de poder branco. Ele terá sido sempre o menino magro e preto que desde menino se fechava à noite no quarto e dizia, para sobreviver ”yes I can”!! E lá foi ele, o primeiro dia de escola, depois para a América, depois a melhor universidade, depois as lutas regionais e depois a presidência. Que mais era preciso fazer? Ser presidente? Fazer presidente? Nahhh, o melhor é ir com a Michele e as meninas comer um hambúrguer na tasca da esquina, que faz o mesmo efeito que ajudar a Europa e sair da crise ou resolver as nossas próprias crises.
 
Obama é assim um bom exemplo do sonho americano: emigrante, preto e com um toque muçulmano, ainda por cima, venceu por si, pelo seu estudo e astúcia de vencer na vida. Podia ser um vendedor de sucesso, mas chegou a presidente. A presidência como troféu, como um piçalho, o piçalho da Amélia, lembram-se? Saúde-se, na esquerda portuguesa: ele conseguiu o seu piçalho, depois de tanto esperar!!! E já conseguiu dois!!!! Mas todos temos direito a conseguir o nosso. Yes We Can!! Até Passos conseguiu o dele!!!  E haverá razão menos clara para o Seguro não terá direito ao seu piçalho também? Claro que não, há um piçalho à espera dele também, terá apenas de esperar com paciência, mas não muita. Afinal, todos temos direito ao nosso piçalho, mesmo que não saibamos o que fazer com ele!

6 comentários:

Izzy disse...

Oh Shor Barao Trepador, com o devido respeito (claro que vem insulto a seguir) isto que V.Exa. aqui escreveu eh uma valente porcaria (ou malarkey, como diz o Joe Biden do meu coracao). Exceptuando a parte da matanca do porco e da cigana, isso tudo bem, mas agora o resto? Nao. Entao o Obama nao fez nada? Dou-lhe so um exemplo: passou a reforma da saude. Acha pouco? Outros tentaram antes dele e nao conseguiram. E isso, como lhe sussurrou ao ouvido com microfone aberto o Joe Biden do meu coracao, "it's a big fucking deal". Podia ter feito mais? Podia. Nao fez, em grande parte, por causa dos cabroes republicanos do congresso subjugados ao tea party e ao Grover Norquist, cujo objectivo desde a primeira hora era derrotar o Obama em 2012, e nao servir o povo. Foderam-se.
O seu post foi uma posta de pescada mal arrotada, desculpe a franqueza. Mais lhe valia ter comidos uns enchidos, ou uns rojoes, arrotava melhor de certeza. Cheers.

Barão Trepador disse...

Caro Izzy
O post original começava com uma declaração de intenções que era mais ou menos esta "se eu fosse americano teria votado Obama". Depois tirei. Não sou americano, não sei em quem votaria. E, foda-se, não ficaria bem com piçalhos!!!
Concordo que o Obama fez mais que a Amélia, e fez muito; mas muito do que fez é reversível, vamos ver onde vão ser os cortes para o equilíbrio das contas (espero que não seja reversível). O problema é que, provavelmente, muito do que não fez poderá ser irreversível, sobretudo no campo da diplomacia económica. É um presidente demasiado voltado para o seu quintal e para o seu espelho. Mas o espelho é normal, em tempo de tele/net-democracia. Mas vamos ver

Izzy disse...

Barao,

Tudo eh reversivel, haja vontade e o tribunal constitucional aprove. A unica coisa irreversivel eh a morte do Bin Laden (se eh que ele realmente morreu ;)

Quanto aos cortes, ha o aumento de impostos para quem ganha mais de $200.000, acabar com subsidios as petroliferas, cortar no orcamento da defesa... Claro que nao vai chegar para tudo mas para isso o Ben Bernanke tem bom remedio: mais umas rondas de quantitative easing. Show me the money!

E mais lhe digo, esta treta do republicanos e dos tea partiers, principalmente, de querer acabar com o defice eh uma valente estupidez. Este pais pede dinheiro emprestado desde que nasceu.

E fico-me por aqui que esta conversa dava pano para mangas, mas tenho que me certificar que nao ganho mais do que $199.000 este ano, e isso, parecendo que nao, da trabalho.

P.S. - Izzy eh gaja.


























Barão Trepador disse...

Cara Izzy (assim está melhor) ´

Não leve a mal, mas não há nada irreversível, nem o género.

A questão Obamiana é que o homem muitas vezes parece um misto entre a Lady Gaga e ua qualquer personagem do Parenthood, distribuído entre a família ou o estrelato pelo estrelato.O estilo do homem irrita-me, sobretudo porque tenho a sensação que a história o vai julgar por não ter percebido que o mundo em que estava precisava de um presidente americano interventivo da política internacional. Mas os Democratas andam muito gurmet na política externa, só seleccionam o que lhes interessa

Izzy disse...

Nao sei Barao, nao vejo Parenthood. Mas ja ouvi dizer que eh uma serie jeitosa.

Olhe ja eu prefiro uma America menos interventiva. Embora tambem lhe digo, se tem que haver uma potencia imperialista, prefiro a America ah China. Ao menos fazem boas series de televisao nao acha?

Barão Trepador disse...

Penso que o desejo é um boa pêndulo para percebermos qual o povo que colocaríamos ou não no n.º 1 do pódio. É uma coisa irracional, verdadeiramente irracional. E os chineses não são sexys, salvo as raras excepções. Não os desejo. Assim, prefiro os americanos (as americanas, e isso é irreversível) a entrarem-me casa a dentro todos os dias.

Parenthood é novela com boa música que se vê enquanto se faz o jantar. Sabe bem por isso