quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Epístola de são alf explicada aos comentadorissenses

No post aqui colocado ontem, enquanto procurava condensar a potência policial dos colhões parados de um padre qualquer, qualquer um que fosse - o que sempre constitui uma boa imagem da ineficiência moral - emergiu no meu sistema nervosa central a figura torturada do padre Amaro, tornando implícita a sempre obrigatória referência queirosiana, mas neste caso a partir de um romance totalmente falhado e cuja estrutura dramática, sensacionalista e paroquiana não tem deixado de apaixonar os portugueses, um pouco à semelhança do pobremente conseguido Os Maias, uma tragédia incestuosa que parece uma mistura swingada entre Almeida Garrett e Margarida Rebelo Pinto, sobretudo quando toda a gente sabe que A Ilustre Casa de Ramirez, A Relíquia, as Cartas de Londres, Crónicas de Paris e as Prosas Bárbaras são o que de melhor o algures na sua atribulada vida cônsul de Portugal em Newcastle nos legou como assistência espiritual possível neste pobre mundo.
 
 
Ontem passei a tarde a fotocopiar textos impressos, e isto no século XXI, ao serviço galante de uma prestigiada instituição comprometida na busca do conhecimento, o que faz de mim uma pessoa com uma acumulação incomparável de experiência transcendental. Os professores saíam e entravam nos gabinetes, as alunas saíam e entravam ao telemóvel da sala dos alunos, o sol resvalava nos prédios, depois nos toldos das mercearias, depois nos vidros das montras, e a fotocopiadora, implacável, em espasmos de luz verde, fazia o seu trabalho meticuloso: manobrar a minha consciência de acordo com um plano previamente elaborado nos gabinetes do destino. Não ocorreu nenhum episódio doloroso, não me cruzei com nenhuma face odiosa, nem com militares, nem pessoas de bicicleta, nem velhinhas de saco, nem adolescentes de lágrimas irrepremíveis (isso tinha sido na véspera). Apenas produzi fotocópias. E devo confessar que existe qualquer coisa de inefável em sentir a utilidade inconsciente de cumprir um plano previamente determinado. Se o leitor conseguir descodificar o título do livro aqui aduzido é porque já é Quinta-feira e, portanto, está tudo bem.
 
 

4 comentários:

Maria D Roque disse...

" the invention of the written word transformed us into a linear society" - And yet he wrote a book...

Izzy disse...

"Ontem passei a tarde a fotocopiar textos impressos" Isto explica tanta coisa...

Anónimo disse...

"Ontem passei a tarde a fotocopiar textos impressos, e isto no século XXI, ao serviço galante de uma prestigiada instituição comprometida na busca do conhecimento, o que faz de mim uma pessoa com uma acumulação incomparável de experiência transcendental. Os professores saíam e entravam nos gabinetes, as alunas saíam e entravam ao telemóvel da sala dos alunos..."


trabalhas numa biblioteca universitária?

Ex-V.P. disse...

oh anónimo, tás afonsino pá!

a pergunta a fazer não é onde trabalha, mas se trabalha!!!