terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Teoria unificada das merdas todas em geral.

Como já devem ter reparado só leio dois blogues: Tolan e A Causa foi Modificada, e isto em virtude (como diria Fernando Malheiro nos seus tempos de Benfica) de uma estratégia aleatoriamente aleatória, se bem que escudada tanto na generalidade da literatura científica como em forte evidência empírica. Concordo em parte com o último e derradeiro post de Tolan sobre Sua Santidade a Papisa, Isabel Jonet, uma pessoa de alto gabarito calórico a quem apenas recomendo mais exercício (porque se é para começar a aparecer com assiduidade diante dos nossos olhos torturados, explorados, escravizados, maltratados por um sistema nervoso ávido de ritmos codificados, convém perder pelo menos 20 quilos, posto que após a devida ascese fisiológica, devo dizer que não a acho mau bife para uma caldeirada à moda antiga, ou seja, trau).
 
Em segunda virtude das más interpretações em geral - e sensibilizado pelas sugestões sensíveis - sou obrigado a clarificar que a desajeitada referência ao bife e à caldeirada antiga com a Jonet, consistia numa generosa sugestão de envolvimento sexual (as tias suscitam sempre estas fantasias nos homens de bem) pelo que longe de mim atentar contra a saúde das pessoas em geral, e sobretudo do sexo feminino em particular. Como diria Bob Marley, embora lá ficar juntos que está tudo bem.
 
Mas o assunto que aqui me demora, afastando-me melancolicamente da minha obra, é a denúncia da típica inconsistência de todas as pessoas em geral. Como bem nota o António Machado num comentário ao meu excelente e generoso convite endereçado aos leitores em torno de mais uma obra-prima, o escritor W. G. Sebald - com aquele ar de velho botânico reformado - não aguentava mais de vinte quatro horas na blogosfera. Concordo em absoluto, uma vez que nem todos podem mover-se na estratosférica concepção de ideias, televisionar épicas vitórias do Benfica em tabernas de Alhos Vedros, traduzir o Soneto 129 de Shakespeare, e ser o goleador fundamental de uma casual equipa suburbana. Tal como concordo avidamente com a sociologica prática de Tolan quando refere que neste tempo de anti-política, há que valorizar a especialização em artes marciais que o tribunal da opinião pública permite aos senhores deputados filhos da puta - aliás, opinar é a única coisa que nos resta como muito bem apontava ontem a sempre impecavelmente elegante e sedutora Sónia Brazão, a única pessoa em Portugal capaz de atravessar uma barreira de napalm, quase morrer desfigurada num acidente doméstico, ser vilipendiada pela imprensa e aparecer pouco tempo depois com o perfil de um princesa da Dinarmarca, espalhando erudição esotérica, simpatia e bem-estar.
 
 
Acontece que a crítica apontada a Sebald - um indivíduo inerte que paira acima das Jonets, dos Tolans, dos alfs, dos AMs deste mundo - esbarra precisamente no seu estilo distante, pausado, frio, composto, ordenado, elegante, sistémico, desapiedado, eloquente, culto, consciente, meu deus, consciente, e sobretudo controlado, que é em parte o atributo mais violentamente detestado pelo caldo sensualista da sociedade comercial que tenta a todo o custo, desde o século XIX, desmontar a racionalidade formal do Estado. As pessoas que sabem que Derrida e Barthes não passam de dois troca-tintas, charlatães sensíveis, estão de há muito familiarizadas com os dois grandes dualismos da cultura científica ocidental: o dualismo entre a mente e o seu exterior, por exemplo a consciência e o mundo real, e o dualismo entre o ambiente e os sistemas complexos, por exemplo os organismos e o habitat natural. Os sistemas têm sido captados pela literatura científica como um conjunto de regularidades que pertencem ao mesmo conjunto (uma merda tautológica e inconsistente que intrigou Gödel e que a todos nos intriga desde então) e têm sido descritos através dos seus diferentes «estados», mas esta brilhante ideia (sistematizar a aparente desordem) deu origem a um instrumento (a teoria dos sistemas) que permitiria a emergência da economia política nos anos 70 do século XVIII, a construção do Estado social nos anos 90 do século XIX, e juntamente com a lógiga booleana e a computação binária de Turing, iria fazer aparecer nos anos 30 do século XX a prodigiosa ciência da computação em nome do triunfo da linguagem formalizada, mistérios que hoje aqui nos reunem a todos em torno deste ecrã, amen. Aqui é que bate o ponto e a punheta, se para tanto houver alma e desejo.
 
 
O calor que tanto nos agrada na literatura de merda - cujo expoente máximo é o realismo barato, desordenado, pindérico, melodramático, telenovelesco, uma espécie de caridadezinha intelectual - é precisamente o correlato do ruralismo cristão, da espiritualidade doentia dos oprimidos, das meriodinalidades que faziam Nietsczhe (nunca sei a ordem das consoantes, caralho) sacudir os seus bigodes de guarda nacional republicano do pudor mental. A mega falácia artística que pretende representar a vida tal como ela é, procede do mesmo ventre maldito que pariu a assistência à vida das pessoas tal como elas gostam que seja, sem previsão, sem projeção, sem requinte, sem ciência, sem sistematização, e mais que tudo, sem critério de hierarquização das ações, olé. Daí que o seu extremo oposto seja precisamente a carantonha fantasmagórica e terrível do nazismo, representante máximo da cultura germânica e cuja cauda escamada, ainda que cortada, roda ainda assustadora no interior da prosa de Sebald, olá. A descrição dos estados do sistema, com todo a galáxia de erros humanos que sempre brota em toda a humana coisa, dotou a humanidade de previsão, gerou os seus adeptos e os seus reacionários, mas não me parece que restem grandes dúvidas sobre as excelência da artificialidade da solução racionalista na organização da sociedade (com todos os seus nefastos efeitos colaterais), os poderes congeladores do formalismo matemático, o reducionismo abstracto da crítica linguística e literária, bem como a assunção da filosofia como controlo do mundo: pessoas críticas e intelectualizadas de todo o mundo, uni-vos, que o inimigo carrega baterias para um final e devastador ataque.
 
 
A assunção da caridade está para a organização política como a escala estética de Huckleberry Finn com a sua linguagem vernacular colorida pelo regionalismo local na deprimente definição da extraordinária Wikipédia, está para o canon estético do Tolan, do valter hugo mãe, e de todos os adeptos da realidade em geral, que encontram satisfação nas aventuras dos filhos dos bêbados da cidade em geral, provavelmente porque nunca viveram entre a tragédia da vida em geral, e acham graça e capital literário na caracterização de pessoas que se desfazem na miséria em geral. Não por acaso, Huck é um pobre a quem a caridade amistosa de Tom Sawyer resgata do abandono selvagem, é um desajustado da sociedade, apreciado por todos os ajustados na sociedade, o que também representa a desorientação política do especialmente dotado, mas muito ignorante Mark Twain: um tipo que acabou enrolado com a secretária merece sempre o nosso mais profundo repúdio, sobretudo quando o nosso aplauso vai para os tipos que tentam enrolar-se com o máximo número de mulheres, secretárias, esteticistas, empregadas do Pingo Doce, ou outras, desde que no mesmo ponto do espaço e do tempo, sobrevivendo com elegância a essa situação, por exemplo, Ovídeo, Dante, Shakespeare, Camões, Proust, os casos são intermináveis, imortalizando depois os seus erros, fortuna e amor ardente em puras realizações estéticas, e deixando aos padres de todos os tempos a assistência caridosa e a crónica dos costumes.
 
 
 
Da esquerda para a direita: João Seabra, troglodita da terra média e autor do terrífico plano para dominar o planeta; Sua Santidade a Papisa Isabel Jonet, erguendo o pirilau de José Rodrigues dos Santos embalsamado em ouro, artefacto com extraordinários poderes metafísicos, incluindo o adormecimento da vontade de todas as pessoas de bem em geral; Braga da Cruz, sacerdote do mal, aplaudindo o plano para acabar com todas as formas de raciocínio lógico.

8 comentários:

Tolan disse...

Mas tu leste o Huckleberry Finn ou não? Hmm? É que eu li o teu Sebald, meu menino. Bom. O Huckleberry está muito longe de ser uma obra de realismo. O Huck não é uma escala de realismo caraças. O Cervantes tem 10 Hucks. O Dostoiévski tem praí 4 hucks e é realista enquanto o Gogol tem 10 hucks também e não é realista.

O Huckleberry não é um pobre. O Sawyer é o Dom Quixote e o Huck o Sancho Pança. Cervantes, outro 10 na escala de Huck. É simples, lê com o coração também, Alfie :)

Tu estás para os livros como um gangsta rapper para um subúrbio de LA :(
Tiveste de te fazer durão, matar a menina que havia em ti, nota-se. Quase que aposto que te licenciaste em letras e por isso tiveste de te endurecer pois estavas rodeado da mais abjecta mediocridade. Tinhas de sobreviver. Às vezes pareces o Chuck Norris dos livros. Ou aquele, o taxi driver, o Travis, com os punhos assim em cima do bico do gás aceso. Mas no fundo és uma pessoa terna e sensível, como o Mike Tyson agora que até tem medo de koalas :) Rende-te ao poder dos livros com elevado teor de Hucks!

alf disse...

Touchet - agora estamos a conversar.

Em todo o caso, a sensibilidade não é um valor que se oponha à dureza. Nalgum lugar perdido - como diria Mafalda Veiga - existe um tesouro para o indivíduo que volte a recolocar para o nosso mundo a condição clássica da vida: chorar a morte de Pátroclo não inviabiliza a utilização do escudo de Aquiles. Somos uns amaneirados no estilo e estamos a pagar por isso, com um triunfo da lateralização do rigor estético e uma tenebrosa ascensão do rigor prático (as comentadoras que digam de sua justiça).

A tua escala refere apenas - e muuito bem - exemplares especialmente adestrados na agudeza de pena, repara na dupla a quem atribuiste 10: Gogol e Cervantes. Um ficou maneta numa chuva de balas de canhão, em plena guerra, e o outro morreu louco a queimar tudo o que escreveu, enfraquecido por um ódio mortal contra o seu próprio corpo. Coração? Agora sou eu que pergunto se leste D. Quixote. Não me digas que criteriosamente saltaste os amplos relatos de espancamentos, insultos, troça impiedosa, esmagamento da fraqueza? Dificilmente se encontra outro livro com um tão vincado culto diabólico da crueldade na literatura ocidental.

O virus do realismo não é apenas temático, é também estilístico. Ser compreendido por «todos», atirar ao povo a misericórdia da compreensão, ser coroado pela populaça comovida perante quem a compreende, perante quem respeita, promove e exalta os seus infortúnios, o que no fundo é a mais cruel forma de poder e de domínio sobre os ignorantes e os desgraçdos. Conheço bem o género.

Tchékov (um escritor que muito admiro) e Lobo Antunes (um escritor que admirava quando tinha 20 anos) são dois tipos cuja compreensão da natureza humana, das suas perfídias, aparece como extraordinária virtude aos olhos de um ignorante da vida como George Steiner. Nada mais errado.

Tchekov é talvez o segundo mais impiedoso escritor que conheço, por isso comove, e Lobo Antunes é um comerciante da desgraça alheia, sendo ambos, maravilha das maravilhas, duas pessoas altamente impiedosas com os seus próximos, como todos sabemos.


No meu caso, só me lembro do coração quando nos sprints de 50 metros em direção à baliza, o sangue me palpita no pescoço e descubro com horror que já vou a caminho dos 35, uma bela idade para morrer de cansaço.

António Machado disse...

se isto é estratégia para me obrigar a ler as postas até ao fim desista :)

António Machado disse...

é pá, com a tua idade fui eu à faca (não é trocadalho para a chonêt)
essa conversa do realismo não sei como é entrou na posta mas não caiu nada no tema
daqui a 10 anos (ou menos, que estas coisas com a passagem do tempo aceleram) estás a dizer que o se balde foi um escritor de quem gostaste... aos 34 :)))

António Machado disse...

a última fotografia recordou-me aquela parte do little britain em que a (racista) personagem vomita para cima de toda a gente :)))

Tolan disse...

Li o Dom Quixote pois, sem grande esforço, sentado na alcatifa branca ao sol, pacientemente, aos fins de semana sobretudo :) A minha escala de Hucks é uma escala de empatia que não controlo. Nem sei quais são os critérios. E distingo muito a escala de Huck, da qualidade mais objectiva possível de uma coisa, que também sei avaliar. Nem é preciso falar do Sebald. Por exemplo, Shakespeare, Joyce ou Proust nunca me suscitaram qualquer empatia sincera, apesar de me render ao respectivo talento. Lowry, outro exemplo, achei o under the vulcano uma estucha impressionante. E tentei, de bom grado, sem preconceitos. O próprio Melville, li o Moby Dick na versão completa original... Não ando por aí a dizer que são maus. Honestamente, parecem-me apenas tipos um pouco chatos. Por outro lado, tipos menores como o Boris Vian ou o John Fante, dizem-me substancialmente mais. Não me podem acusar de gostar deles por não conhecer os outros, mas reconheço que um dia, quando foi mais sequinho, posso de repente descobrir que adoro a comparação entre a animalidade mortal e instintiva dos olhos dos mochos europeus com «os olhos dos filósofos e pintores, que com recurso à pura observação e ao puro pensamento procuram penetrar nas trevas que nos cercam». A propósito do Mark Twain, a minha adoração pelo Huckleberry Finn não é assim tão estapafúrdia, até o Borges o considera o maior romance jamais escrito.

Tolan disse...

E temos praticamente a mesma idade. Eu vou para os 36 :|

Izzy disse...

Esta uma pessoa aqui tao bem entretida a ouvir a Nina Simone enquanto espera que o Boozer e o Noah comecem a jogar e esbarra sem aviso no Alf a chamar ignorante ao Mark Twain...o Ma-rk Tw-a-in?!?! Agarrem-me que eu....(entra o solo de piano do "my baby just cares for me")... ]]qodo]\q]epepe\p[q]q]a[a[a[a[a[a[adp[pdpd[doda[loda'adld'f[fofs'al'aad'ald''a'd''d'd'd
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.... esquece, ta tudo bem.