quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Comboios, miúdas de Massamá e o pífio do Pedro Vieira, um gajo que é amigo de toda a malta buéda fixe em geral e queria ser escritor um dia mais tarde, quando o mundo fosse habitado apenas por crianças, pessoas confusas em geral e macacos de rabo pelado.

Não sei se já divulguei aqui a minha técnica para varrer a publicação massiva de novos valores no meio literário português, na medida em que convém a um gajo com ambições imperiais manter um conhecimento geral das situações mais rasteiras da vida mental, não vá aparecer um novo tipo de infeção comercial altamente contagiosa que nos imponha uma subida dos níveis de concentração no miolo do terreno. Até agora, graças a deus e à prodigiosa ignorância em geral, não há motivo para alarme: banalidades, sentimentalismos e repetições é tudo o que se encontra, com a moderada exceção de Gonçalo Manuel Albuquerque Tavares, o esforçado, promissor tardio mas algo plastificado filho de aveirenses, doutorado pela Faculdade de Motricidade Humana, com uma tese intitulada Corporeidade, linguagem e imaginação (risos), orientada pelo gigante intelectual e figura incontornável da cultura ocidental, Manuel Sérgio, também recentemente colaborador do técnico do Benfica, Jorge Jesus.


Sempre que me deparo com uma revelação literária, dirijo-me prontamente com a tranquilidade que me caracteriza, quase sempre e em geral, ao escaparate das novidades, lanço um olhar rutilante à miúda da Fnac Chiado, esperando que esta me observe com o seu ar vagamente hipie, cabelo escorrido e uma das habituais camisolas sem mangas que lhe pronuncia os braços de lavadeira, reconhecendo eu, desde logo, um perfil geral mas algo generalizadamente agradável, momento em que retiro o novíssimo livro, com assinalável cuidado, da prateleira, isto porque respeito as regras do mercado, e agarrando a lombada com dedos firmes e retesados, apoiando suavemente a capa e a contra-capa na mão direita, imobilizo a primeira página, cuja leitura integral efectuo com meticuloso registo visual, passando depois ao escrutínio do interior desprotegido da obra, fazendo uso do meu olhar impiedoso, aspirando os quase sempre parcos recursos estilísticos por meio de séries diagonais, parágrafo sim, parágrafo não, e terminando com a codificação intervalada do restante e pobre conteúdo do livro, numa operação que não pode durar mais do que 4 minutos e meio, sob pena de enfarte do miocárdio.



Os leitores deste blogue estão claramente a comportar-se abaixo das sua possibilidades entre as 2h00 e as 8h00 da manhã.


Foi desta forma que procedi quando Pedro Vieira, recentemente agraciado com o Prémio Pénis Clube de Portugal, lançou a sua obra de vulto Última Estação, Massamá. O título fazia desde logo temer o pior, o que rapidamente se confirmou quando dei de caras com uma confusão mental sem precedentes numa convocação enjoativa de ironia sobre a própria escrita, e uma constante, irritante, lamentável, adolescente, chamada de atenção para o facto de estarmos apenas diante de um livro, quando na verdade, um leitor desprevenido, como era o meu caso, podia certamente convencer-se de que se encontrava na presença da princesa da Babilónia. Mas Pedro Vieira não quer que corramos este perigo e quer relembrar a cada duas frases que estamos apenas diante de um livro e não de um pudim de maçã, de uma loira de 1m 90 cm, ou mesmo de um unicórnio branco. Que seja pois, e apenas, um livro, um pobre livro. Era pois tudo o que queriamos, mas nem isso nos foi dado.
 

 
Massamá.
 

Para que me não acusem de ser tendencioso e esquartejar instrumentalmente a bela prosa deste prodigioso autor licenciado em Publicidade e Marketing pela Escola Superior de Comunicação Social (risos) recorremos à sinopse generosamente disponibilizada pela Quetzal, um pequeno texto  que supostamente pretende destacar as qualidades do livro e agarrar com mãos sicilianas os hipotéticos compradores. Lucas e Vanessa são os protagonistas «de um amor trágico» mas isto não chegava à mente prodigiosa de Pedro Vieira. Nada disso meus lindos, queriam apenas tragédia, varandins, queriam a rosa e o nome, o nome e rosa, queriam apenas a pequeniníssima diferença entre a comédia e a tragédia - uns escassos 1 minuto e 80 segundos - que é o tempo que Julieta demora no seu sono maldito, enquanto Romeu engole o elixir da morte? Queriam apenas um livro? Nem pensar, que a fartura exuberante é o apanágio da publicidade, pois somos também congratulados com a história de «uma doença, de uma frustração que não se cura», «do fracasso das legiões de Públio Quintílio Varo», coisas várias sobre «Massamá», onde nos é dito que «acaba de ruir uma hipótese de redenção», «pessoas sem saída para lugar nenhum» (alegadamente os jovens licenciados, segundo apontam vários exegetas da obra), «uma estação de comboio, o trabalho, o vaivém daqueles que vivem de par em par com aquilo que lhes está destinado. O acaso. Crónica de uma, duas mortes anunciadas, a segunda por decisão natural de Vanessa, mulher investida de toda a autoridade. Faltam dois minutos e picos, 127 segundos, pouca-terra, pouca-terra, é só o que ela pede. Ou pelo menos que lhe seja leve.»
 

Os leitores mais experientes - que são o apanágio glorioso deste blogue - já toparam à distância a imaturidade, a confusão, a falta de sentido do ridículo, a recorrência da antiguidade descontextualizada como tentativa de dignificar o retrato jornalístico desmiolado e sem ponta de densidade literária, a pífia caracterização sociológica, a tentativa falhada de retrato psicológico, a incapacidade de comover até o Jorge Sampaio num dia particularmente cinzento, onde pela enésima vez, valha-nos deus, os emigrantes do Portugal rural, como é o caso de Pedro Vieira, um indivíduo assumidamente criado no caldo católico minhoto, se apresentam como cronistas do subúrbio provinciano de Lisboa. Nem ao menos se faculta nestas páginas um horário dos comboios Massamá-Rossio/Rossio-Massamá, o que ao menos salvaria a utilidade do livro.


Em todo o caso, o crítico Pedro Badocha Mexia, no Expresso de março de 2011, pouco depois do livro ter saído, prontificou-se a fazer o elogio desta salada russa, destacando os poderes de observação e empatia raros e com uma especial atenção ao uso da língua portuguesa, evidenciados por Pedro Vieira, um repórter nato. Segundo nos diz «Há uma verdadeira compulsão em anotar todas as expressões, clichés, corruptelas, bem como a novilíngua anglicizada, o que me deixa confuso porque se tinha acabado de fazer notar que havia uma especial atenção ao uso da língua portuguesa. Pois é, o português é uma língua viva, eu sei, eu sei, mas talvez tenha deixado de ser depois de sobre ela terem mergulhado os dentes avaros e trogloditas de Pedro Vieira. Da gestão à religião, passando pelas latitudes travestidas de sabedoria, é um festim da oralidade caótica, bizarra, inventiva, hilariante ou poética. É essa, com efeito, a grande virtude do livro, a Babel linguística que invade o texto com estribilhos, mil nove e oitenta, dá uma de lombinhos, boa continuação. Como? Confesso que não percebi. Se algum dos comentadores quiser explicar, agradeço. Para finalizar Badocha Mexia oferece um exemplo da magnificiência desta mestria babélica. E alguns dichotes são um achado, como este sobre uma rapariga que controla muito em cima o namorado: "A tua miúda parece o Baresi.""
 



Insultos é que não, tudo o que quiserem, mas não posso permitir insultos, tenham paciência. Clarifiquemos. Baresi começou a jogar futebol aos 14 anos no Internazzionale, precisamente o rival do seu clube do coração, o Milan, e sonhando ser goleador, como todas as crianças de bem que hão-de um dia transformar-se em grandes vultos da literatura mundial, Baresi como todas as crianças de talento um dia injustiçado que hão-de um dia transformar-se em grandes vultos da literatura mundial, acabou por se destacar como defesa, e aceitou com gloriosa abnegação o seu dever e destino, o que segundo a tragédia grega são uma e a mesma coisa. A Wikipédia fornece os dados impressionantes: 716 partidas oficiais em 20 anos, incluíndo as duas épocas em que ao longo dos anos 80, deambulou pelas belas cidades da velha Itália, entre as torres sépia que viram Dante chorar o exílio, os sicômoros protectores dos amantes de Verona, as praças ornadas de repuxos talhados em mármore da Roma eterna, as cinturas industriais reodeadas dos pântanos venezianos, as velhas colónias balneares do mediterrâneo napolitano, e os desertos infernais de trigo da Sicília. Neste dois malditos anos, o maior libero do futebol mundial humedeceu o chão do balneário adversário com as suas lágrimas sagradas, erguendo-se das cinzas para atacar a imortalidade com uma impressionante galeria de triunfos, note-se, quase todos posteriores a esta severa provação: seis scudetti (79, 88, 92, 93, 94 e 96), três Copas dos Campeões da Europa (89, 90, 94), dois Mundial Interclubes (89, 90), três Supercopas Europeias (89, 90 e 94) e quatro Supercopas da Itália (88, 92, 93 e 94). Numa madrugada do Verão de 1994,  eu próprio chorei pela segunda vez diante de um ecrã de televisão quando de olhos cansados, amedrontado pela madrugada, vi Baresi entrar já lesionado, e após uma lendária marcação impiedosa que obrigou o não menos lendário Romário a terminar sem golos o jogo Itália-Brasil, vi com horror o mesmo já então velho Baresi, muito perto do seu limite físico e mental, desperdiçar um penalti no desempate com o Brasil, atirando por cima da barra, o mesmo Baresi que vendo depois os seus companheiros desanimados falharem consecutivamente as suas próprias penalidades, terminou em lágrimas, de cabeça enterrada na relva como diz Ovídio que morrem os gloriosos quando caiem lado a lado na batalha. Que merda de comparação é essa ó Pedro Badocha Pífio Mexia Vieira?

 

Possível míuda inegavelmente gira que acaba de me perguntar solícita se perguntei alguma coisa, preparando-se em seguida para comprar um bilhete ferroviário na direção Massamá-Benfica, isto se para tanto existir imaginação, força, humilhação, coragem, criatividade, beleza, sofrimento, desejo, horror, inveja, sede de vingança, compaixão, no cérebro das pessoas que decidem ser pessoas em geral.

6 comentários:

Anónimo disse...

Tenho por hábito parar imediatamente a leitura de textos onde sou surpreendido com certos vocábulos, sendo "massiva" um deles. Por isso só li uma linha.

Mas tenho pena, por ser onde é.

Izzy disse...

quero muito ver Zero Dark Thirty, filme com imensas qualidades, a maior das quais eh nao ter a Keira Knightley no elenco.
"Who are you?"
"I'm the motherfucker that found this place".

Tolan disse...

Uma má crítica é uma coisa muito mais deprimente que um mau romance.

Tolan disse...

e no género "Keira", a natalie portman dá 10 a zero.

alma disse...

Estive a ler em diagonal na fnac a "viagem à India" do tal tavares e não consegui perceber tanta bajulação que vinha na contracapa)
entretanto graças ao capt.paddock descobri outro que me interessa muito mais "murmurios da ìndia" do Almeida Faria heheheh é tudo tão engraçado os bons passam entre a chuva sem se molharem amanhã lá passarei pela fnnac para o namorar:)


António Machado disse...

giro... acabei de escrever sobre os namoros à prateleira (e não, alf, não é sobre essas prateleiras...)
esta consegui ler até ao fim, mas apenas graças à batota do grande Baresi
faz hoje uma semana que peguei em meia dúzia do "gonçalo"...
nem uma linhazita... para a-levantar o leitor...
"mil nove e oitenta, dá uma de lombinhos, boa continuação" é lindo :)))
demente :) mas lindo :)))