segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Austerlitz e a ressurreição da narrativa europeia.

 
 
 
1.
Num tempo em que se discute a ascensão da Alemanha como baleia branca, o federalismo como Frankenstein, e a moeda europeia como utopia, não devemos deixar de nos congratular com o desconhecimento olímpico da obra de Sebald, nem com a honrosa excepcional porcaria de uma ou outra reportagem comemorativa, tal como a vergonhosa elegia turística que o Público ofereceu aqui há uns meses a propósito do aniversário da morte do autor, em que um jornalista desorientado procurou seguir nos passos do escritor pelas vilas pescatórias do norte de Inglaterra, invocando os temas recorrentes da obra, oferecendo-nos assim um tenebroso mas útil e meticuloso diagrama sobre as diferenças entre uma mente educada, culta e genial (W. G. Sebald) e os estertores nervosos de um parvo pseudo-sensibilizado qualquer (o jornalista de que não me recordo o nome).
 
 
2.
A partir desse extraordinário momento que foi o aparecimento do livro Austerlitz em 2003, publicado poucos anos depois pela Teorema e agora pela Quetzal, e vertido para o nosso entendimento no português esplendoroso de Telma Costa (uma pessoa que muito injustamente nem eu nem ninguém conhece, ao contrário da multidão de tolos agraciados com várias e diversificadas tipologias de prémios, tais são as tragédias deste mundo) o que logo distingue Sebald de todos os outros escritores, é a clareza com que assume a reconstrução da narrativa sobre os escombros da tolice sentimental pequeno-burguesa,  bem como a salvação do narrador moribundo, quando este havia sido morto e enterrado por Walter Benjamim, num texto sobre a obra de Leskov, já editado pela Relógio de Água e recentemente reeditado como prefácio ao livro, O Peregrino Encantado. Logo nas primeiras páginas de Austerlitz, o leitor sabe ao que vem, quando lhe são apresentados vários animais em cativeiro, em especial um «urso sentado junto de um riacho com uma expressão severa no focinho, lavando repetidamente o mesmo bocado de maçã» e após considerações várias, onde, implicitamente, a forçada humanização destes seres encerrados no seu ciclo biológico ridiculariza a descrição dos cenários naturais no romance contemporâneo, aqui denunciados como uma herança tosca e inconsciente do romantismo alemão.


3.
Sebald desenha depois uma comparação entre a animalidade mortal e instintiva dos olhos dos mochos europeus com «os olhos dos filósofos e pintores, que com recurso à pura observação e ao puro pensamento procuram penetrar nas trevas que nos cercam» (p. 10). Em vão, claro, o que fica obviamente sub-entendido nas imagens penetrantes de dois pares de olhos aduzidos ao texto pelo próprio Sebald. O leitor passa a transportar um nó na garganta, atado pela consciência de saber que irá ser envolvido por tonalidades onde volteiam os sons soprados pelos mais trágicos instrumentos do nosso tempo: o cruzamento entre a sensibilidade individual e as vagas aparentemente incontroláveis da história, os limites biológicos da humanidade e o calvário de um sistema nervoso central que desconhece em absoluto as razões da sua condenação.
 
 
4.
É um granda livro, caralho.


5.
Sebald encontra Austerlitz numa sala da estação ferroviária de Antuérpia e ali permanecem os dois durante várias horas, até ao fecho do bar, onde da forma mais elegante e discreta se expõe uma das melhores sínteses sobre o desenvolvimento dos transportes, a organização do tempo numa linha que permite unir a simultaneidade dos vários pontos do espaço o que permitiu tornar reais fenómenos bizarros como o comércio internacional, com tudo o que isto originou na monumentalidade dos grandes edifícios seculares da cultura urbana moderna (p. 18). Os comboios são logicamente os nossos mais terríveis fantasmas, Ana Karenina que o diga, mas a abertura de Austerlitz confia na força do imponderável e na identificação da cruel beleza que o indivíduo pode construir em sua própria honra, mesmo quando esmagado por máquinas de ferro. 
 
 
6.
Lentamente, guiados por uma mão fria, como num sonho, penetramos no mundo de Austerlitz. Os encontros entre o narrador e Austerlitz são sempre fortuitos, quase sempre em viagens nunca planeadas, seja num bairro industrial a sudoeste de Liége, ou no regresso ao centro de Londres, ou mesmo num barco suburbano vogando sobre o mar do norte, e de onde se avistam «as fachadas altas dos prédios de habitação implantados nas dunas onde tremeluzia, curiosamente instável e fantasmagórica, a luz azulada dos televisores» (p. 34). Estamos no reino da precariedade, da combustão e do desaparecimento progressivo, do arrefecimento gradual e da entropia crescente, estamos no lugar de onde se avista a morte da nossa civilização, com tranquilidade, note-se. Tal como diziam de Mozart, o génio é a manutenção da calma e do rigor no desespero profundo.
 
 
7.
Depois de 45 páginas de um distanciamento gélido, de uma visão panorâmica e vertiginosa sobre a história europeia e a evolução (estranhamente) biológica dos seres vivos, depois da apoteose da arquitectua capitalista, uma consulta oftalmológica, uma chegada de comboio a Londres ultrapassando cemitérios, estádios de futebol, velhas e abandonadas pistas de cães, o leitor recebe a primeira vibração mágica, uma capacidade só ao alcance de grandes artistas como Mozart ou Shakespeare, quando Sebald após manter suspensa a observação e a narrativa numa estranha instabilidade entre memória individual e destino planetário, Austerlitz cala-se, ficando de olhar perdido e diz, finalmente: «Desde a infância e a juventude que não sei verdadeiramente quem sou» (p. 45). Esta frase seria totalmente desprovida de impacto na primeira página mas transportada pelas mais frias, meticulosas e sábias especulações descritivas, ergue-se diante dos nossos olhos como uma frágil e deslumbrante embarcação de duas velas atirada para a altitude de um precipício de ondas no meio de uma tenebrosa tempestade.
 
 
8.
É neste momento que Austerlitz inicia um relato pausado mas fluente, quase cantado, da sua infância, levando o livro a abrir duas poderosas asas para nos erguer acima da mediocridade, da convulsão, do caos absurdo, da falta de signicado, ordenando todas as coisas de acordo com a prodigiosa mente que nos fala. Na página 59, o leitor encontra talvez uma das maiores realizações técnicas da história literária, quando Austerlitz, tal como a personagem do desajeitado Vergílio Ferreira em Manhã Submersa, é enviado para um colégio interno, muito austero e melancólico, severo mesmo. Embora todos quisessem fugir daquela escola despótica, ficamos a saber que para Austerlitz tudo era melhor do que regressar à casa onde tinha crescido até aos doze anos, e orientando-se na «ilegalidade carnavalesca» diz ter sido miraculosamente favorecido. Sebald consegue ser profundamente triste sem uma só manobra barata: diz Austerlitz que cedo, ainda um pré-adolescente, se distinguiu no râguebi «talvez porque devido a uma dor surda, sempre latente em mim, rompia caminho através das fileiras adversárias como nenhum dos meus colegas» justificando o seu prestígio, apesar da timidez, «pela temeridade demonstrada nos recontros sempre disputados, sob um céu frio de inverno ou chuva torrencial» (p. 60).
 
 
9.
A colocação do problema natural quer levar mais longe o lirismo já desbotado do século XVIII, que ainda sobrevive na literatura contemporânea, mas numa forma invertida e ingénua. «A maior parte de nós, disse Austerlitz, não sabe nada das traças a não ser que abrem buracos nos tapetes e na roupa e por isso devem ser combatidas com cânfora e naftalina, quando elas são na verdade uma das mais antigas e admiráveis linhagens de toda a história da natureza» (p. 86) e passa depois a elencar uma série de prodigiosos espécimes, o turbilhão silencioso em redor da luz, formando por «ziguenas do trevo e da filipêndula, falenas de Espanha, auroras ruivas e casadas, saturnídeas, vanessas negras, cabeças-de-morto e mariposas-dos-espíritos». Mas Sebald não é um panteísta ingénuo e sabe que para aquele que comeu da árvore do conhecimento o paraíso foi perdido e quando o amigo de infância de Austerlitz, enumera as características das borboletas, repara que essas pequenas maravilhas voadoras parecem usar «colares de pérolas e capas como os cavalheiros e damas distintos a caminho da ópera», onde desponta um festival de cores que só pode ser descrito com os matizes da indústria humana: o branco acetinado, o brilho metálico do latão e do ouro pulverizado» (p. 87), estranha e dolorosa confirmação de que não temos regresso possível ao jardim das delícias.
 
 
10.
Como o leitor já deve ter reparado, a minha capacidade de substituição da obra em análise é francamente escassa, e à medida que este texto vai correndo para o seu final, a minha intervenção vai sendo esmagada pela esplendorosa prosa de Sebald, de tal modo que apenas posso suspender esta sugestão de leitura com a transcrição da análise feita por Austerlitz a propósito das borboletas voadoras com «os seus rastos de luz que pareciam deixar atrás de si em toda a espécie de rodopios, manobras e espirais, e que na realidade não existem, apenas o seu traçado fantasma produzido pela preguiça da nossa vista, que crê ver um certo pós-reflexo no sítio de onde já partiu o insecto que a luz da lanterna iluminou somente uma fração de segundo. É a fenómenos destes, absolutamente irreais, uma súbita incursão do irreal no mundo do real, determinados efeitos da luz na paisagem que temos pela frente, ou nos olhos de uma pessoa amada, que se inflamam os nosso sentimentos mais profundos ou pelo menos o que tomamos por tal» (p. 88). Não há melhor justificação para a nossa vida, desde os livros que escolhemos, até às pessoas amadas que julgamenos escolher. Ilusão, dor e beleza: o resto são pequenas e instáveis luzes a caminho da extinção.

10 comentários:

Izzy disse...

Eh impressao minha ou esta excelente critica literaria foi escrita em portugues?

alma disse...

Notável :)
Compreendo a dúvida da Issy :)))

António Machado disse...

pediram-me para ler só a última frase
não gostei :)
depois passei em diagonal pelo resto da baba
a frase: «os olhos dos filósofos e pintores, que com recurso à pura observação e ao puro pensamento procuram penetrar nas trevas que nos cercam» não me diz nada
os olhos dos pintores... ai os olhos dos pintores e as trevas... LOL :)))
em uma das minhas bilios (públicas) só há um livro do se balde :)))
agora está aqui comigo em minha casa à espera de (vez para) ser atendido :)
é um tal de "campo-santo" que ou muito m'engano ou não vai chegar ao fim :)))

António Machado disse...

biblios, não bilios :)))

António Machado disse...

a notícia da morte da narrativa europeia (olá li-o-tarde) foi grandemente exagerada :)))

alma disse...

AM,
normalmente não se gosta quando não se percebe :)))

António Machado disse...

puff :)
isso ou o seu contrário :)))
o que há mais é malta a dizer que laika muito do que nada percebe :)))

António Machado disse...

pe gare ou lar gare, eis o tube:

http://www.youtube.com/watch?v=FldvBIsc_Io

o se balde na blogo não durava 24 horas :)))

Tolan disse...

Um belo livro. Mas achei-o completamente inerte, um zero na escala de Huckleberry. Tenho francas dificuldades em sentir empatia por livros com baixo teor de Hucks.

António Machado disse...

tenho, apesar do bom desempenho do Jackson M., mais saudades do Falcão :)