quarta-feira, 17 de junho de 2009

A educação do meu umbigo seguida da educação do meu cérebro para variar um bocadinho

O problema da educação lembra-me uma brincadeira de crianças, numa tarde de Agosto, junto ao mar: escavar buracos na areia a fim de que água, multiplicada em ondas, chegue e permaneça, aprisionada, circular, manipulável, na sua força telúrica, pela mais frágil das criaturas terrestres, num lugar impossível de sustentar. A água terá necessariamente que voltar a percorrer o seu ciclo e o mar apagará na areia todas as nossa veleidades, mesmo aquelas que pretendem formar abrigos para os barcos que regressam fugindo das tempestades. Paulo Guinote, o professor que se transformou em bandeira desfraladada ao vento, escreveu recentemente: «Mas há muito mais no relatório Talis que o ME faz por obscurecer, relevando só um ou outro detalhe. Ainda sobre a formação contínua de professores, repare-se como os professores portugueses (p. 65) são dos que menos apoio recebem para a sua formação. E os dados são de 2007/08. Nem suplemento salarial, nem tempo disponível, nem custos pagos. os professores portugueses são dos que mais pagam a sua formação, usando o seu tempo pessoal e sem qualquer estímulo salarial.» O problema é que Guinote, como muitos outros professores, não perceberam ainda que não alcançarão qualquer benefício da sua dignidade enquanto continuarem a construir um discurso do tipo: os taxistas portugueses, os talhantes portugueses, os empreiteiros portugueses, os mecânicos portugueses, os gestores portugueses, quando, no fundo, existe muito pouco a unir a performance profissional destes subconjuntos. Porque não sugerir questões concretas como, por exemplo, que tipo de formação deve ser financiada pelo Estado, qual a exigência mínima a colocar aos professores para definir novos estímulos salariais, como avaliar os professores estabelecendo, de acordo com a sua experiência, resultados que possam ser observáveis. Mas talvez seja muito mais fácil alimentar um blogue educativo largando ao vento contra-tecnocracia.

O chamado problema recorrente

O blogue de Paulo Pinto Mascarenhas é como um passeio pelas áreas desmatadas da Sertã num dia tórrido de Agosto: os lábios ficam secos, engelha-se a pele, o cérebro é invadido por um frémito húmido, primeiro, e depois, lentamente, começa a encortiçar-se, causando uma estranha sensação de vertigem, até que já nada faça sentido e o caminhante implore, erguendo as mãos ao céu, o fim da viagem e o regresso a territórios mais verdejantes. Acontece que, não obstante o filão de ideias, preciosidades analíticas e discussões ponderadas, bem pesadas e densamente percorridas por dados originais e milagrosos, este ilustre comentador, ladeado pelo filósofo Paulo Tunhas, acaba, invariavelmente, a praticar o desporto preferido do pensamento conservador português: maldizer as eleições, a propaganda eleitoral e as campanhas políticas. Isto não é, de forma alguma, anti-democrático. Anti-democrático seria, por exemplo, decretar subidas de impostos progressivas em relação ao rendimento. Considere-se a seguinte afirmação de Baldaia, um estimado jornalista, subscrita por Pinto Magalhães: «Como director de um órgão de Comunicação Social, apelo ao senhor presidente da República para marcar as Legislativas para o mesmo dia em que o engenheiro José Sócrates marcar as Autárquicas. Rádios, televisões e jornais pouparão muito dinheiro. Os partidos pouparão muito dinheiro. E o país será poupado a um tempo infinito de campanhas, habitualmente pouco esclarecedoras.» Paulo Baldaia, director da TSF». Como é evidente, as campanhas dos partidos são pouco esclarecedoras, sobretudo quando comparadas com aqueles programas repletos de erudição e preciosidades políticas da TSF onde pontificam figuras de maior relevância como Ricardo Araújo Pereira, um indivíduo que está precisamente a entrar naquela perigosa fase que antecede o cansaço; Pedro Mexia, um candidato a Júlio Dantas do século XXI, ou João Miguel Tavares, aquele sujeito dos rrrs e barba rolha de cortiça style. Na verdade, os portugueses são tontos, sempre que deixam de considerar a inutilidade das campanhas eleitorais. Há que poupar dinheiro, a fim de comprar mais um automóvel importado, com rádio topo de gama, importado, onde possamos ouvir as decisões editoriais - irrepreensiveis - tomadas por Baldaia. Pinto Magalhães é, com efeito, um homem prudente, sobretudo quando nos chama a atenção para a irrelevância do dinheiro gasto em campanhas democráticas. Uma maçada, quando Portugal inteiro podia, como alternativa plausível e eficaz, passar antes a seguir, atentamente, Paulo Pinto Mascarenhas no Twiter.

Tocando tambores

O grande Feynman:


"The adventure of our science of physics is a perpetual attempt to recognize that the different aspects of nature are really different aspects of the same thing" -- Richard Feynman

Photo
Photo B18;
Credit: AIP Emilio Segrè
Visual Archives, Physics
Today Collection

Feynman was known to be passionate about drumming, but he was irritated when people found this surprising in a famous scientist. In 1966 a Swedish encyclopedia publisher wrote asking for a photograph of Feynman "beating the drum" to give "a human approach to a presentation of the difficult matter that theoretical physics represents." This was his reply:

Dear Sir,

The fact that I beat a drum has nothing to do with the fact that I do theoretical physics. Theoretical physics is a human endeavor, one of the higher developments of human beings, and the perpetual desire to prove that people who do it are human by showing that they do other things that a few other humans do (like playing bongo drums) is insulting to me.

I am human enough to tell you to go to hell.

Yours,
RPF

Estatística

O autor deste post afirma que tem provas que houve fraudes nas eleições do Irão. Como tal ele apresenta dois argumentos:
  1. Os votos dos concorrentes (as eleições pouco mais são que concursos po esse mundo fora) decrescem ao loongo da contagem
  2. Alguns dos correntes até chegaram a perder nos seus estados de nascença
Pois bem, devo confessar que não sei ler a língua persa (suponho que seja a língua que esteja a ser utilizada, mas nem isso sei), mas posso dizer que o primeiro argumento está errado. E nem é preciso grandes raciocínios nem nada do estilo é só mesmo uma questão de senso comum. É perfeitamente possível que a percentagem (e é isso que está a ser apresentado) decresça ao longo da contagem e não é uma ocorrência nada incomum.





Uma vez que a percentagem se acha dividindo o número de votos do concorrente em questão pelo número de votos totais e multiplicando por 100:



uma maneira muito fácil disto acontecer seria por exemplo: Após a contagem de 1000 votos o concorrente da oposição tinha 200 votos dando uma percentagem de , mas após se contarem 10000 votos ele tinha 1500 votos o que dá o total de .
O que não é nada surpreendente.
Claro que se a descida ou subida de percentagens for muito acentuada as pessoas têm todo o direito de ficar admiradas e suspeitar de irregularidas, mas só o facto da percentagem subir não quer dizer nada.

A mim o que me espanta em tudo isto é a desproporção e selectividade dos media. Como o Irão faz parte do eixo do mal por ter um presidente nada manejável há que incutir nas pessoas a ideia que estas eleições foram forjadas. Eu não sei se foram ou não (e até acho provável terem havido algumas irregularidades durante o processo), mas o que eu sei é que o Ahmadinejad tem um apoio fenomenal das comunidades mais rurais do Irão e que essas mesmas comunidades são a maior parte da população do Irão

Fraudes eleitorais houve aquando da primeira eleição do Bush Jr. e não me lembro de haver tanta celeuma.
Factos muitos estranhos ocorreram aquando da segunda eleição do Bush Jr. e novamente não me lembro de haver tanta celeuma.

E viva os media imparciais!

terça-feira, 16 de junho de 2009

Alternativa credível

Escondida no meio de outras notícias, o que é especialmente reprovável no caso dos jornais desportivos, somos informados de que o Movimento "Benfica Vencer Vencer" anunciou hoje que vai propor (ou apoiar) um candidato - ainda não divulgado - para as eleições do Benfica, marcadas para 3 de Julho.
É uma boa notícia para quem - como eu - já não acreditava que surgisse uma alternativa capaz de derrotar Luís Filipe Vieira.
Não sei até que ponto o actual presidente controla a venda de bifanas na casa do Benfica de Vila Nova de Famalicão e consequentemente as estruturas do clube, (não) permitindo a mudança, mas o precendente aberto com a vitória de Manuel Vilarinho contra Vale e Azevedo, aliado a algumas opiniões que circulam pela Internet [1] [2] [3], deixa alguma esperança.

Se isto é um ensaio

Raposo continua a chamar aos seus textos ensaios. Ora, ensaio é aquele momento em que, num jogo Nova Zelândia-República da Irlanda, o ponta esquerda da equipa do trevo atravessa a linha de fundo, levando a bola presa contra a parede abdominal, e, depois de ser atingido nos dentes por uma cabeçada de um indígena da ilha da Páscoa, consegue, mesmo assim, lançar-se ao solo pressionando, ainda que escassamente, a bola contra o relvado. Esta prosa, que a seguir se publica a título de exemplo, merece quando muito o epíteto de borradela de pombo depois de alguns vôos agoniados sobre o parlamento após ter engolido um pedaço de Big Mac, por sinal repleto de salmonelas, ali perto, na calçada de Santos.
A vantagem da nossa “globalização” sobre a “globalização” que acabou em 1914 é a seguinte: a nossa “globalização” tem uma Ordem Liberal a montante. Ou seja, em 2009, temos uma ordem política (OMC, FMI, Banco Mundial, G20, etc.) que domestica as tensões entre Estados. Em 2009, as tensões continuam presentes, mas são filtradas até atingirem um grau de civilidade. Este filtro político não existia em 1913. Nessa época, os fóruns e hábitos multilaterais eram ficção científica. Ora, seguindo esse “multilateralismo”, os ocidentais têm de reajustar a ordem liberal, isto é, devem reconhecer o declínio relativo do Ocidente, e, depois, devem agir em consonância. Por outras palavras, os ocidentais devem dar mais poder aos asiáticos na grande mesa da Ordem Liberal (ex.: o FMI não pode continuar a ser “propriedade” dos europeus).
Henrique Raposo, no suplemento de economia do Expresso
Várias coisas, a saber: existe uma "nossa globalização" que tem, inequivocamente, uma vantagem sobre a globalização (deles) de 1914. A nossa tem uma ordem política a montante. O rio nasce e antes de qualquer tufo daninho, cascata, ou truta saltitando entre charcos e penedias, pumba, eis uma ordem política que disciplina a nossa globalização. Como o caro leitor já reparou, o pensamento liberal, quando insuflado pela ciência política, maneja conceitos recheados de rigor. Na verdade, maneja-os de tal forma que o rigor se espalha pelo pensamento do leitor como a ordem política se tem espalhado nesta nossa globalização, benza-a Deus. E que ordem é essa que habita, a montante, aquele grande rio da História? Nada mais nada menos do que a OMC, FMI, Banco Mundial, G20. Com efeito, isto é o que podemos chamar uma ORDEM, no sentido de ordenação, ordenamento, com especial capacidade de transformar a tensão em civilidade. Exemplo: um manifestante em Londres arremete um calhau contra a montra da mercearia do paquistanês do bairro. O que sucede? Imediatamente, vemos abrir-se no céu um intervalo temporal ( a montante) e surgir um funcionário do FMI, gravata preta de seda e casaco armani, neutralizando a pedra com o poder da sua dentadura alvi-pérola, engolindo, de seguida, o objecto granítico e transformando-o, por via intestinal, nas obras completas de Shakespeare. Mas há mais. Em 1913, os hábitos multi-laterais eram ficção científica, até porque para um estudante de ciência política o mundo começa com a declaração da independência americana, ou melhor, a pré-história do mundo começa com a grande travessia de Washington, sendo que o mundo a sério apenas começa no momento em que os ditos cientistas são convidados para comentar a mais actual eleição do presidente do EUA. Solução? Devemos reconhecer o declínio, relativo, atente-se na palavra relativo, do ocidente e agir em consonância: saltar da ponte 25 de Abril, quero dizer, António de Oliveira Salazar, e mergulhar, sorridentes, nas cansadas águas do rio Tejo: seria esta a nossa solução. Henrique Raposo arreganha o dente, dá um murro na mesa, abana a cabeça condescente, limpa o suor do rosto, prende o sobrolho e diz que não: devemos dar mais poder aos asiáticos na grande mesa da Ordem Liberal. Eu já ficava contente se, na grande Mesa da Ordem Liberal, me deixassem comer, pelo menos, meia chamuça.

Uma prenda no fim de tarde

Tenho acompanhado desde o início os The Gift e a forma como tem evoluído no panorama da música. São de certa forma um projecto inovador. Apesar do facto que nos últimos tempos se terem vendido ao capital (aquele anuncio na TV da CGD, aquela música horrível que passa nos WC’s do Centro Comercial Allegro), tem feito música que eu gosto. Para final de tarde ficai lá com o Amália hoje, o novo projecto de alguns elementos dos The Gift e outros que tal. Senhores e senhoras Gaivota:



ps chiça e que poema do o’neill. O original com Amália aqui.

À consideração de quem talvez não saiba que existem portugueses a ensinar literatura aos bifes, uma vez que não escrevem nada de jeito desde 1650

O tema do sacrifício, a que chamaremos a Via Crucis, o tempo litúrgico da História, aparece em Levantado do Chão. O caso verídico de Germano Vidigal, um dos heróis da luta popular alentejana, assassinado pelas polícias da ditadura, é contado nos passos do seu calvário entre a prisão e a morte. A descrição deste episódio acomoda-se ostensivamente às estações da Via Sacra e conforma-se com ela nos pormenores. Acentua o paralelismo entre a flagelação da vítima e o exemplo de Cristo, numa identificação que é um dos rasgos da narrativa oral popular desde tempos medievais, e tem, entre nós, o admirável precedente de Fernão Lopes nas suas crónicas. Luís de Sousa Rebelo King´s College, Londres

O feliz dia em que, enfim, Mário Crespo descobre, não sem grande emoção, as virtualidades da pólvora

Face ao clamor público e à coragem do voto contra de António José Seguro do PS, o bloco central de interesses afirma-se agora disposto a rever a legislação que aprovou. É tarde. Com esta lei do financiamento partidário, o parlamento, todo, leiloou o que restava de ética num convite aberto à troca de favores por dinheiro. Em fase pré eleitoral e com falta de dinheiro, o parlamento decidiu pura e simplesmente privatizar a democracia.
Mário Crespo, Jornal de Notícias
Também tu, Brutus, meu caro. O jornalismo de referência, depois de entrevistas alargadas, e sínteses noticiosas, pulvilhadas de neutralidade informativa, vem agora declarar que a democracia foi privatizada. Isto remete o leitor, clara e velozmente, como a água do Vimeiro descendo as encostas do Hotel Golf Mar, para a claustrofobia democrática denunciada por Paulo Rangel, assim como para o notável artigo de Pacheco Pereira, este Sábado, no Público, em que nos revelava a importância da credibilidade, um bem escasso mas objectivo, distribuído com abundância bíblica entre as hostes de Ferreira Leite. Nós agradecemos que a verdade venha já a caminho, aproximando-se das portas da cidade, coroado por louro e ladeada por tribunos e centuriões, de pé sobre o carro alegórico que cavalga para nós. Quem ganhou as eleições foi o PSD, é certo, mas é verdadeiramente escandoloso que o Maradona, mesmo perante as lectures inesquecíveis de João Gonçalves, insista em livros que são manifestamente o resultado de pouca convivência juvenil com discos de Nelson Ned. Isto é, na verdade, irrefutável, ou a sua fidelidade inalienável à lingua portuguesa, dessa convivência decorrente, não lhe permitira qualquer citação à língua de Shakespeare e dos Sex Pistols.

O maradona continua a citar o London Review of Books mesmo que os livros citados não valham um perdigoto do Júlio Isidro enquanto divulgador cultural

Neste preciso momento, inspirado por uma impressão que Vital Moreira jamais digitaria, mesmo em twiter style, digo-vos que circulo - de cu tremido - no lugar do morto de um reboque, e assiste-me o direito de uma descrição rigorosamente precisa, enquanto o meu carro, um clio branco de 1991, faz provavelmente a sua última viagem: o condutor é um especialista, análise rapidamente confirmada pela forma com que maneja a máquina e o automóvel, o braço direito no volante, tenso, onde se erguem as asas de um dragão tatuado, ao ritmo da força descarregada no peso morto do automóvel; a mão esquerda manipulando o botão automático do comando de tração, com especial destreza, a severidade rápida de um peixe invertendo a direcção no aquário, ao detectar o mínimo obstáculo, tudo isto enquanto desce sobre a tarde uma cortina de fogo. Que há de mais poético do que um carro sendo descido em cabo de aço, eixos partidos, a caminho do esmagamento ecológico que lhe está prometido desde a eternidade? Este traço da vida quotidiana mereceria algumas considerações, com especial referência à obra Market Theory and Price System, obra publicada em 1963 por dois distintos professores da New York University que desenvolveram considerações sobre a meritocracia promovida pelos mercados, sublinhando a eficiência dos serviços de reboques de automóveis inutilizados, especialmente no dealbar da Primavera, quando parte a andorinha a caminho de terras mais amenas e os seus ninhos são abandonados, primeiro aos ventos quentes de Agosto e, mais tarde, ao frio laminar que traz o Outono nos seus braços cépticos, cansados, coroados por uma tonalidade sépia. Uma vez que não sou o Paulo Rangel, não me aventurarei a forjar conceitos sobre qualquer tipo de claustrofobia - mesmo aquela produzida pela vitória de juristas manhosos a soldo de interesses comerciais e tecnocráticos bem específicos - e sigo, de olhos postos no caminho, observando através do vidro frontal do reboque, a ininterrupta frequência com que os traços descontínuos são engolidos pelo movimento dos automóveis. Recordo, como mera impressão ocasional, que as notícias da tarde sinalizam o há muito anunciado fim daquele cadáver adiado que ainda ia procriando chamado Quinta de Belgais. A Câmara não suporta dívidas nem oferece garantias bancárias a empresas ou associações. De súbito interroguei-me se isto não estará relacionado com os princípios da viabilidade económica dos projectos - os 93 milhões de euros pagos pelo Real Madrid a coberto de um vasta operação de franchising assente sobre estudos de mercado que vão até à performance económica dos miúdos na Albânia que é uma espécie de Castelo Branco da Europa. Mas logo me lembrei que não. Não existe qualquer relação e há até uma ligeira repulsão entre Quintas que distem mais de 13 km de uma estrada de alcatrão e o comportamento da gestão das marcas no contexto das experiências dos consumidores. Como li recentemente numa tese de mestrado para obtenção do grau de mestre em gestão de empresas é fundamental ter em linha de conta as restruturações estratégicas das empresas tendo em conta a importância do valor da marca, e discutir, com base no princípio da co-criação, os conceitos de marca relacional e de experiência do consumidor com a marca. Como é possível que não me tenha logo atravessado o espírito esta clara consciência da gestão integrada dos recursos! «Eu sei, tu tens razão, eu realmente.»

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Ora tomem lá, historicamente, com tecnocracia Portugal style, since 1143

As actas que constam do sítio da Assembleia da República, disponibilizadas on-line, são verdadeiras pérolas do entendimento político, mesmo que retrospectivamente. Note-se que a metáfora que inclui pérolas e entendimento não pretende apoucar as referidas actas, antes pelo contrário, pretende chamar a atenção dos incautos, que perdem tempo com a regulação da exposição solar dos trabalhadores da construção civil, para o verdadeiro choque de titãs que se verifica no largo de S. Bento, com claro benefício dos eleitores que vêm assim confirmadas as representações depositadas na urna, salvo seja. O caro leitor deve registar que não nos move qualquer intenção anti-parlamentar. Com efeito, nós não somos populistas e aos demagogos, vomitamo-los pela boca. O nosso intuito é bem distinto: pretendemos civilizar os bárbaros portugueses que desconhecem ainda momento vitais do nosso progresso, imparável, a caminho das realizações democráticas. O Estado é intervencionista? É sim senhor, mas não nos deve preocupar em demasia esse pormenor da nossa vida pública uma vez que a Sr.ª Isilda Pegado (PSD), usa da palavra parlamentar para resolver questões da maior importância. Se isto não é a democracia representativa em todo o seu explendor, não sei que tradição inglesa pode vir ensinar-nos a veia, o dote, a capacidade, a tensão, a tenacidade de tal vida pública. A nobreza das ideias trocadas dispensa os meus comentários. A Drª Isilda toma a palavra e lança para a atmosfera carregada do emiciclo: Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: Como já foi referido, celebramos hoje os 25 anos de pontificado de Sua Santidade o Papa João Paulo II. Ao Parlamento português cabe olhar o homem construtor da paz e defensor dos direitos humanos que, nestes 25 anos, chegou às sete partidas do mundo e em muitos desses lugares deixou semente que germinou profundas alterações sociais e políticas que, inegavelmente, trouxeram felicidade ao homem.Com excepção de Pedro Hispano, nunca nenhum Papa foi tão português. Bastariam as suas três visitas a Portugal para poder dizê-lo com tranquilidade; no entanto, é o próprio Papa que, nas suas palavras, liga o seu pontificado à história de Fátima e do povo português. Por isso, consagrou o mundo aos pés de Nossa Senhora de Fátima, pedindo-lhe a paz, empenhou-se na beatificação dos pastorinhos de Fátima e de Bartolomeu dos Mártires.Permitam-me, Sr.as e Srs. Deputados, que refira aqui o papel incontornável do Papa na independência de Timor, o que não exclui o papel que outra ou outras entidades terão desempenhado. Porém, com a visita a Timor e com a celebração da missa em tétum, contra os poderes instituídos, o Papa trouxe para o centro da agenda política internacional e da comunicação social a questão de Timor. Desde então, permanentemente, Timor teve enviados da imprensa internacional no seu território até à independência. O Papa tirou do anonimato a questão de Timor e colocou-a no centro da agenda política internacional, assim pondo o povo de Timor no caminho da liberdade.
O Sr. Luís Marques Guedes (PSD): - Muito bem!
A Oradora: - A descolonização portuguesa tinha esta chaga; João Paulo II apontou o caminho para a liberdade de Timor.Sr.as e Srs. Deputados: João Paulo II é o homem da modernidade que conduziu a Igreja Católica ao século XXI, congregando à sua volta católicos e não católicos. Não espanta, por isso, que a esta celebração se associem tantos cuja vida não se identifica com o Papa mas reconhecem-lhe uma grandeza humana excepcional e, sobretudo, a coragem de viver de uma forma completa até ao fim.Por isso, os Deputados da Assembleia da República que acreditam em Deus como fonte da beleza, da justiça, da paz e da verdade e aqueles que, embora não acreditando, também se identificam com esses valores vindos de fontes diversas associam-se a este voto de congratulação pelos 25 anos de pontificado de João Paulo II.

Punk is not ded

Os ultimos acontecimentos em Teerão coincidem com o facto de eu finalmente ter visto Persepolis. Para os que não sabem, o filme é baseado na novela gráfica autobiográfica de Marjane Satrapi e retrata a vida de Marjane no Irão desde pequena até sair definitivamente do país aos 22 anos, passando a revolução que levou à queda do Xá, a guerra com o Iraque e a implementação da Republica Islãmica, e todas as suas trágicas consequências no povo iraniano. Isto tudo visto por uma menina que vai crescendo ao som de Iron Maiden e se torna mulher num país impossivel para elas. Como quem procura a liberdade. Um grande filme que aconselho:



Não resisto e coloco mais um video. Já sabem, as palavras são para o Alf. Eu fico com as imagens:

O último herói

Ultimamente tem-me acontecido ver muito mais tarde os filmes de que toda a gente já viu e comentou. Foi assim com Gran Torino. E ainda bem para mim que assim foi. Pude apreciar fora da febre o que de facto é um grande filme. O ultimo herói morre finalmente. É o elogio da derrota da personagem. Uma vida amargurada pelas opções do passado na guerra que se consumam no final, numa entrega ao outro. E assim foi grande. A obra prima de Clint Eastwood. Admito. Não tenho a capacidade verbal dos meus colegas aqui no elogio. As palavras fogem-me. Restam-me as imagens.

Um jornal, um artigo, as coisas, a cabeça

O facto de vivermos num sistema assente no acto eleitoral – repare-se que a palavra acto envolve o gesto de votar numa tonalidade solene – concorre para uma certa dificuldade de manter a rotina sempre que atravessamos, como dizer, o referido acto eleitoral. Simplificando: as recentes eleições resultaram numa saraivada de declarações para a qual não temos conseguido encontrar guarda-chuva adequado. Hoje, folheando o Público, deparei com um notável artigo, assinado pela causídica Isilda Pegado, intitulado «As eleições europeias, a crise e a catequese do Povo». A associação destas três inegáveis preocupações da actualidade (Europa, Crise e Catequese) logo acendeu mim o archote da curiosiade. Além do mais, sendo um afincado admirador dos dotes argumentativos da Drª Isilda, logo me imaginei cruzando as provocadoras fronteiras do pensamento político social democrata, esses verdejantes prados, repletos de boninas, regatos cintilantes e lojas de chineses (chineses convertidos à militância politico -partidária) onde é possível encontrar as obras escolhidas de Francisco Sá Carneiro, encadernadas em plástico laranja fluorescente. O facto é que o artigo confirmou todas as minhas expectativas. Ou melhor, quase todas, uma vez que não previ, pela simples observação do título, que, durante a leitura do artigo, o beato Francisco me segredaria ao ouvido, num dardejar de asas celestes, as palavras Paz, pão, povo e liberdade, estamos reunidos no caminho da amizade, adaptação santificada do hino social democrata escrito por esse neo-liberal dos quatro-costados, Paulo de Carvalho. Mas não cedamos à tentação de montar a tenda nos territórios da ascensão divina. É necessário fazer justiça à Drª Pegado que descreve com rigor e rara exactidão os debates dos últimos meses: «o neoliberalismo era apontado como o carrasco de si próprio. Muitos foram os que catequizaram neste sentido pedindo, ou emitindo mesmo a certidão de óbtio do neoliberalismo». Com efeito, foram às paletes os comentadores, políticos, escritores, advogados, vendedores de fruta, pedintes romenos, taxistas de Alhos Vedros, ciclistas ocasionais do Cartaxo, peixeiras da Nazaré, intelectuais embriagados dos cafés de Aveiro, treinadores de Associações de futebol do Concelho de Alijó, janotas decoradores passando, por acaso, no Chiado, polícias de giro, sindicalistas filiados no Sporting, enfim, todas as mais raras espécies de habitantes portugueses, que decretaram, todos eles, a uma só voz: o neoliberalismo enloqueceu, pervertido pela arrogância epistemológica das suas próprias soluções, arruinado pelo mau whisky e pelos casinos de Las Vegas, meteu as mãos à faca da cozinha e cortou os pulsos, qual carrasco de si próprio, ali mesmo, em Wall Street, perante a indiferença dos transeuntes. Logo apareceu uma segunda multidão, versada na prática amanuense, munida de todos os requisitos burocráticos pronta a emitir a devida certidão com que se confirmou o óbito. Contudo, se o leitor está já impressionado com a vivacidade de cores com que a Drª Isilda Pegado pinta estas complexas cenas da vida moderna, devo preveni-lo de que ainda estamos à porta dos mais luxuosos palácios erigidos em honra da lógica argumentativa. Veja o caríssimo leitor a destreza com que a ex-deputada do PSD lança a sua última seta fulminante contra os teóricos do socialismo: «A catequese serôdia do Estado intervencionista tem grandes paladinos da palavra mas tem contra si o povo.» Apenas os predestinados poderiam modelar esta crítica paradoxal aos que, sendo paladinos da palavra empreendem, contudo, uma seródia catequese. Catequese, portanto, titubeante, porque defensora do Estado ilusionista, optimista, progressista, intervencionista, mesmo que revestida pelos ornamentos retóricos dos que ainda têm a ignominiosa perversão de querer escrever ou falar correctamente a língua portuguesa: canalhas, que não há outro conceito que os defina. Mas a Drª Isilda remete-os ao seu lugar de origem: a insignificância. E acrescenta: «Em matéria social o Estado é subsidiário da sociedade, isto é, só deve intervir quando a sociedade não tem resposta adequada. O Estado monopólio mata a sociedade. A Europa tem uma cultura nascida de uma experiência de 2000 anos de liberdade que não hipotecará por palavras.» Neste momento, confesso que estou lentamente a procurar erguer-me, novamente, do empedrado da esplanada onde escrevo estas notas, fulminado por esta verdade que me racha o crâneo com a lucidez de Salomão e a fúria incandescente de Paulo, e vem até mim, pela noite dos tempos, atraída pela voz firme da Drª Isilda Pegado. A Europa, essa realidade objectiva que todos sabemos onde começa e acaba, tem uma cultura - uma cultura - como tem uma só língua, uma só prática, uma só técnica, tem uma cultura que é, simultaneamente, uma experiência, no sentido em que tem uma cultura que permanece e se rectifica – objectivamente, uma vez mais, digamos – através do tempo, experimentando, bebendo o conteúdo dos factos, pelo copo cristalino da observação, a Europa tem, portanto, uma cultura experimentada com 2000 anos; mas 2000 anos porquê, porque não 2500 com Platão, ou 400 com Galileu, uma vez que tem uma experiência? A verdade é que a Europa tem um cultura com 2000 anos e, mesmo assim, não consigo, meu deus, eu não consigo parar, neste momento, de cabecear repetidas vezes a parede.

Directamente da fonte

Aqui está um blog que está a ser actualizado regularmente e faz uma descrição do que se está a passar no Irão neste momento.

E ainda temos mais este e vários recursos disponíveis via BBC.

domingo, 14 de junho de 2009

A ganância é boa

Acho que se só se pode sorrir com o princípio deste artigo (e com a restante organização do mesmo também). E o sorriso não vem do facto de estar mal escrito mas sim da spoof muito bem feita a um outro manifesto.
Gostei da leitura e recomendo a análise (e quiçá mesmo discussão.)

A specter is haunting the world—the return of capitalism. Over the past six months, politicians, businessmen and pundits have been convinced that we are in the midst of a crisis of capitalism that will require a massive transformation and years of pain to fix. Nothing will ever be the same again.

O artigo é um pouco longo, até pelos meus padrões, mas vale mesmo a pena.

Não sei se rio, se choro

Isto realmente parece-me ser um acordo bastante justo e muito de acordo com a realidade.

A cada um a sua bandeira, a cada um o seu hino, o território cedido aos palestinianos não terá controlo de espaço aéreo. (O Estado palestiniano não terá) possibilidade de fazer alianças com o Irão ou com o Hezbollah e não terá exército.

Estamos de volta

Depois de uns dias de descanso no alto Minho, onde como é normal estiveram presentes as 4 estações do ano em 3 dias. Pelo meio consegui ir dar uma volta a pé, apanhar sol, dormir na sombra. Descobri como acaba o 24:. No café do costume comi uma fatia de bolo. Também fui a Viana, uma cidade extraordinária. Ah! e ver uns filmes (Clint Eastwood no meu coração para sempre):



aqui voltarei a este tema. Absolutamente necessário voltar a Clint Eastwood.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Nunca baixamos os braços, sobretudo no mar alto, depois do naufrágio, quando o avião passa ao longe, e nós, insignificantes, a desaparecer nas ondas

O PSD cavalga a onda, de toalha ao ombro, as pernas tensas, joelhos flectidos, varrendo a praia com olhar de lince, nenhuma algarvia lhe resiste. O mais recente cartaz arrasa corações, desfaz mitos, coroa princesas, resgata pecadores, ilumina viajantes, sacia famintos, orienta embarcações, repõe usurpações, enfim, devolve à vida o seu brilho, como diria João Gonçalves, o homem de quem tinhamos feito juramento de despedida. Em todo o caso, o mais recente cartaz do PSD é, sem dúvida, um cartaz digno do elogio da derrota. Finalmente, o país começa a entender. Melhor. Rangel começa a entender. Eu, que passo 23 horas do dia a entender o país - a hora restante é dividida entre a leitura das obras completas de Henrique Raposo e RuiRamos -, estou verdadeiramente entusiamado com esta viragem: desde as 7 bolas encaixadas em Vigo, diante de uma equipa que envergava camisolas azul-bébé - que não me animava tanto com a possibilidade de uma reviravolta épica. Agora resta acreditar com muita força, comprar o Estado do Estado, forrar a cabeça com uma bandeira portuguesa, ajoelhar a caminho de Fátima e marcar o número de Jorge Jesus: em verdade vos digo, ainda antes do Verão terminar, estareis comigo no maior fandango dos últimos duzentos anos.

O Osama outra vez

Não sei porquê, mas desinformação chateia-me. E chateia-me mesmo a sério. De tempos a tempos, para se pressionar o botão do medo, lá se lembram de recitar o nome do Osama Bin Laden (ou seja lá qual for a transliteração que estejam a utilizar no momento) para nos lembrarem da guerra ao terror e que ela deve mesmo ser mantida.

Chateado como estou decidi trazar um bocado de jornalismo não soundbite, informado, e estruturado só para variar. Sim, eu sei que é uma chatice termos que ler notícias grandes e que não se limitam a transmitir as comuns banalidades de fast-news, mas faça o esforço e depois diga de sua justiça.

Eu que nada tenho a ver com jornalismo semprei achei que tinha a ver com informar. Que tinha a ver com analisar. Que tinha a ver com imparcialidade e verdade. Quão enganado estava. Enfim, inocências pueris tão próprias de jovens idealistas que depois levam umas chapadas da vida...

Ficam cá alguns trechos e no final o link para o artigo completo (bolds e itálicos devem-se totalmente a mim):

"Seven years after Osama bin Laden's last verifiable appearance among the living, there is more evidence for Elvis's presence among us than for his. Hence there is reason to ask whether the paradigm of Osama bin Laden as terrorism's deus ex machina and of al Qaeda as the prototype of terrorism may be an artifact of our Best and Brightest's imagination, and whether investment in this paradigm has kept our national security establishment from thinking seriously about our troubles' sources."

"The audio and video tapes alleged to be Osama's never convinced impartial observers. The guy just does not look like Osama. Some videos show him with a Semitic aquiline nose, while others show him with a shorter, broader one. Next to that, differences between colors and styles of beard are small stuff. "

"Nor does the tapes' Osama sound like Osama. In 2007 Switzerland's Dalle Molle Institute for Artificial Intelligence, which does computer voice recognition for bank security, compared the voices on 15 undisputed recordings of Osama with the voices on 15 subsequent ones attributed to Osama, to which they added two by native Arab speakers who had trained to imitate him and were reading his writings. All of the purported Osama recordings (with one falling into a gray area) differed clearly from one another as well as from the genuine ones. By contrast, the CIA found all the recordings authentic. It is hard to imagine what methodology might support this conclusion. "

"Lawrence noted as well that the Osama figure in the December 2001 video, which many have taken as his assumption of responsibility for 9/11, wears golden rings—decidedly un-Wahhabi. He also writes with the wrong hand."

"We do not know what happened to Osama. But whatever happened, the original one, the guy who looked and sounded like a spoiled Saudi kid turned ideologue, is no more. The one who exists in the tapes is different: he is the world's terror master, endowed with inexplicable influence. In short, whoever is making the post-November 2001 Osama tapes is pretending to far greater power than Osama ever claimed, much less exercised. "

"Osama's (late) role in Afghanistan's anti-Soviet resistance was to bring in a little money. Arab fighters in general, and particularly the few Osama brought, fought rarely and badly"

"There is a good reason why neither Osama nor al Qaeda appeared on U.S. intelligence screens until 1998. They had done nothing noteworthy."

"More important, focusing on Osama and al Qaeda distorts our understanding of what is happening in Afghanistan. The latter-day Taliban are fielding forces better paid and armed than any in the region except America's. Does anyone suggest seriously that Osama or al-Zawahiri are providing the equipment, the money, or the moral incentives? Such amounts of money can come only from the super wealthy of Saudi Arabia and the Gulf. The equipment can come only through dealers who work at the sufferance of states, and can reach the front only through Pakistan by leave of Pakistani authorities. Moreover, the moral incentives for large-scale fighting in Pushtunistan can come only as part of the politics of Pushtun identity. Hence sending troops to Afghanistan to fight Pushtuns financed by Saudis, supported by Pakistanis, and disposing of equipment purchased throughout the world, with the objective of "building an Afghan nation" capable of preventing Osama and al Qaeda from messing up the world from their mountain caves, is an errand built on intellectual self-indulgence. "

"The force of the CIA's judgments, its authority, has always come from the congruence between its prejudices and those of America's ruling class. When you tell people what they want to hear, you don't have to be too careful about premises, facts, and conclusions."


Não concordo com algumas das coisas ditas no artigo (especialmente o facto de ter deixado de fora que os Estados Unidos devem ser o país com mais cumplicidade em actos de terrorismo internacional), mas soube-me muito bem ler este questionamento da sabedoria convencional feito por uma revista conservadora dos E.U.A.


Parte I
Parte II

E viva o jornalismo imparcial

Imparcialíssimo!

terça-feira, 9 de junho de 2009

Poque será que Constança Cunha e Sá não opta por abrir antes uma casa de chá?

De acordo com a crónica da ilustre jornalista, publicada no no Correio da Manhã, 09 Junho 2009, «A verdade é que, no domingo, quando as sondagens foram ultrapassadas pelos votos, Sócrates, esse grande comunicador, foi derrotado por Manuela Ferreira Leite que, para a generalidade dos comentadores, não sabia sequer o que era comunicar.» Constança Cunha e Sá - é impossível pronunciar este nome sem recordar o aguçar dos punhais do poema de Cesário - repete que tudo era já esperado. Tudo é sempre uma confirmação dos dotes de predestinação exercidos pela estimada jornalista. O problema é mesmo ter que, depois, lidar com a língua portuguesa para expressar um pensamento. Aí a situação complica-se, turva-se o céu com as dificuldades que sobem no horizonte como as queimdas a fechar o verão, as ideias fogem-lhe, escorregam da mão como azeite no mármore, rodopiam no caixa cerebral, emigram para longe, esfumam-se. É então que Constança, suada, extenuada, prostrada sobre a secretária, acaba por enviar para a redacção os despojos da batalha mortal que trava com o seu próprio entendimento, perdido lá longe, algures entre um ramos de camélias e as obras completas de Pinheiro Chagas: «Através de Paulo Rangel, foi Manuela Ferreira Leite que foi a votos, nestas eleições. E, ao vencê-las, conquistou dois pontos fundamentais.» Temos aqui uma fusão perfeita entre pneumatologia teológica da melhor estirpe e elaborações sobre os efeitos benéficos no cumprimento das principias regras do basket. Repare-se que Ferreira Leite alcança efeitos intencionais através da acção de indivíduos habitados pelo seu espírito e obtém, com a maior naturalidade, não só um score lúdico, supomos que a partir da linha de lance livre - dois pontos - mas o dado fundamentais da existência, a saber, a vitória no jogo.

Porque sou tão sagaz?

Rodrigo Moita Deus escreveu isto: «é preciso dizê-lo com frontalidade. É rico, poderoso, faz o que quer, faz o que lhe apetece e escapa impune. E mesmo com aquela idade consegue "envolver-se em escandalos sexuais". Desculpem lá qualquer coisinha mas o meu único problema com Berlusconi é mesmo a inveja.» Mas isto é estúpido! E é preciso dizê-lo com frontalidade. Tal como em Campilho, existem aqui problemas de integração. Eu, com efeito, já suspeitava que esta malta da liberdade individual e do mercado como maximizador da eficiência e pardais ao ninho, em suma, vive apenas aterrorizada com a proibição das oportunidades de receber, via net, ou, quem sabe, com o favor de Berlusconi, talvez mesmo ao vivo, alguma gratificação estética pelo seu denodado esforço a bem da causa liberal. Que eles não façam o que querem, acho normal em indivíduos que, necessariamente, devem cultivar uma ascese mortal a fim de suportar os textos de Raposo e Ramos. Já me surpreende que se sintam tão pouco confiantes quanto às performances na curva descente da vida. Mais confiança camaradas, mais confiança nos méritos do exercício individual que a concorrência - e neste campo ela é feroz - proporciona aos mais audazes produtores de ideias.

Porque escrevo tão bons textos?

Um vôo planado pela blogosfera diminui os problemas de auto-estima de uma forma inversamente proporcional à altitude do Monte da Virgem, como sabem um acidente geográfico de algum relevo na periferia do Porto, local onde Rui Santos nunca foi perseguido por indivíduos encapuçados munidos de barrotes e calças de napa. De qualquer forma, o interessante nesta viagem, necessariamente supersónica, mas rigorosa, é que constatamos que metade da população que escreve nesta merda de suporte digital chamada Blgo, importa com alguma frequência as crónicas de Pulido Valente sobre incursões gastronómicas que acbam em sardinhadas na Figueira da Foz, bem como outras pérolas produzidas pela maior comunidade de doutorados em Oxford, que acabaram cronistas de jornais mediocres, existente à superfície do planeta. Pergunto, porque não citam um texto clássico, onde eu descrevo como saindo um fim-de-semana, pelo comboio deserto, a fim de almoçar uma sandes de carne entremeada na Venda Nova, um pouco antes de torcer o pé-esquerdo num reparação imperfeita da CML, e tecer algumas consideraçõe sobre o destino político da nação, acabei por comer um pastel de nata num snack-bar da Brandoa (há pão quente) onde acabei por ser insultado como filho da puta na sequência de um festejo efusivo de um golo do Benfica marcado de forma irregular ao guarda-redes Ricardo, não por acaso, um dos heróis nacionais, nascidos no Montijo, mais maltrados pela esquerda caviar logo a seguir ao João Gonçalves e à Drª Manuela Ferreira Leite?

E depois espantam-se

Aparentemente eu e mais uns quantos seres que andam por este globo azul não somos totalmente humanos... Parece que nos falta um qualquer sentimento transcendente...




Sinto-me transcendentemente humilhado, transcendentemente em baixo por ser transcendentemente não transcendente...

Fica também uma resposta muito mais articulada do que este senhor merece: Ainda há gente com muita paciência.

Por falar em queijos



Gloucestershire Cheese Rolling 2009 video highlights from http://www.soglos.com - filmed on Monday 25 May 2009. Every year daring competitors throw themselves down a death-defyingly steep hill in Gloucestershire, England, in a bid to win a coveted Double Gloucester cheese, and this year's event was no different - with a number of competitors incurring injuries. Local cheese rolling legend Chris Anderson won 2 of the 5 races on the day, and can be seen in the video sporting his usual bright green top and flying past the camera.

Por falar em eleições...

As eleições do Sport Lisboa e Benfica, agendadas lá mais para o final do ano, foram antecipadas para dia 3 de Julho. As candidaturas devem ser apresentadas até ao dia 22 de Junho.

Portanto, Luís Filipe Vieira, que se recandidata, dá apenas 7 dias úteis a quem quiser preparar uma lista alternativa.




Esta decisão é totalmente inaceitável em termos éticos e merece, se existir opção, ser censurada pelos associados através do voto.

Só um bocadinho e venho já aqui esgrimir argumentos nas vezes da piada ao «correr das teclas»

Isto das eleições é mesmo para levar a sério? Lamento não ter estudado ciência política, repito «ciência» política. Ciência. Política. Mas os argumentos sobre gasodutos que atravessam a Rússia, personificando as sociedades como se fossem actores de uma peça de Shakespeare, minto, como se fossem contra-regras de uma peça de Filipe La Féria, mas sem o Carlos Quintas, eram mesmo para levar a sério?

E correremos junto à praia, de mão dada, levados pela luz da esperança e o desígnio dos deuses a caminho do banquete das delícias

Despeço-me hoje de João Gonçalves. Sinto-me rendido, derrotado, desfeito, arrasado. Estou dorido. Atravessado pela excelência e pela verdade. Afirmo a minha conversão. As frases curtas de Gonçalves farpeam a esquerda caviar mas também a esquerda operária, a esquerda recolha do lixo, a esquerda proxeneta, a esquerda marialva, a esquerda lava mais branco, a esquerda snak-bar, a esquerda presunto de chaves, a esquerda chouriço de porco preto. Por isso, vou passar as próximas semanas a apanhar os bocados de mim mesmo (isto não é uma citação de Alfredo Marceneiro mas temos de reconhecer a sua influência na mais recente literatura portuguesa). Encontro-me, caro leitor, verdadeiramente espalhado pelo chão, depois de ter sido desfeito pelo humor mordaz, pela acutilânica laminar, pela ferocidade pontiaguda de Gonçalves. É triste termos que reconhecer a nossa insignificância diante de um homem que nos ofusca com as suas oscilações vertiginosas entre o rigor e a ironia. No rescaldo das eleições, afirmou: «A dra. Ferreira Leite é a grande vencedora desta noite. Anda há meses com tudo e todos - de fora e de dentro - contra ela. Esquadrões de adversários, internos e externos, fizeram tudo para a apoucar, para a reduzir a pouco mais do que nada, para fingir que ela não existia. Pois existe. Também Manuela Ferreira Leite percebeu que existe e que, finalmente, provou isso a si mesma. E o país percebeu que a verdade compensa mesmo quando é dura. Parabéns, dra.Ferreira Leite. Amanhã há sol e vida.» Com efeito. Vou aproveitar o tempo, percorrer as falésias meridionais da Costa da caparica, almoçar no restaurante o Barbas, contemplar o mar, desenhar num pequeno guardanapo as possibilidades estatísticas de Jorge Jesus ser despedido antes das invernosas comemorações da revolta contra Miguel de Vasconcelos em 1640. Entretanto levo João Gonçalves no coração. Portugal não está perdido, não sucumbirá no abismo das nações envelhecidas. Porque há ainda em Portugal um português capaz de combater esquadrões de adversários. Estivessem João Gonçalves e Manuela Ferreira Leite em Alcácer Quibir e tudo seria diferente. Na ala esquerda, de gualdrapa dourada sobre o cavalo, de aljuba pendente sobre os ombros, implacável no olhar com que varreria o campo herético, ferveria a violência no olhar de João Gonçalves. Só com a respiração, incendiada por um zelo ardente, espalharia o terror no campo muçulmano, Gonçalves, orgulhoso do seu loudel, as calças justas e soladas, a cintura, bem marcada, como todo o soldado, grande, que quer à pátria mãe - o Portugal dos pequeninos - mais que à própria vida. Ferreira Leite, na ala esquerda de D. Sebastião, os arguanéis de mulher guerreira, vestido de cinta subida, toucado composto por uma longa trança, o decote quadrado, impondo ainda mais terror ao campo muçulmano, cuspindo bolas de fogo, enquanto varreria o terreno da batalha com um olhar de trevas, prometendo o ferro e o fogo, o resgate das chagas de cristo, a devolução do chão sagrado de S. Agostinho às orações dos monges trinitários; e, claro está, a lâmina da verdade arrasando muçulmanos com foice em seara madura. Onde estaria nesse dia a lança do infiél senão prostrada no deserto? Inimigos externos e internos, qué de vós quando tão grande geração se levanta sobre os anões portugueses?

Em torno das eleições

Se a tendência se confirmar, as eleições de Domingo mudaram o panorama político-partidário português.

Os principais partidos à esquerda do PS obtiveram mais de 21% dos votos, ficando a apenas cinco pontos percentuais do partido que lidera o Governo. Quem ganhou as eleições foi, no entanto, o PSD. E ganhou com uma diferença significativa. Mesmo não ganhando muitos eleitores, parece que, no contexto actual, com uma esquerda forte à esquerda do PS, cerca de 30% pode chegar para ganhar eleições.

Se este cenário se confirmar nos próximos actos eleitorais, teremos:

Presidente da Câmara Municipal de Lisboa




(Note-se que em Lisboa o PSD teve 29,41% dos votos, contra 25,62% do PS)

Primeiro-Ministro



164 828 pessoas votaram em branco. (Leitores fieis a José Saramago)
71 116 pessoas votaram nulo. (Sem dúvida os votos mais interessantes para analisar… pedidos de emprego? ofensas? declarações de amor?)

Abstiveram-se mais de 63% dos eleitores inscritos.
Só por curiosidade, a abstenção foi de 99,5% em São Paulo (total de 28 811 eleitores inscritos), de 99% em França (total de 53 234 eleitores), de 78% nos Açores (total de 225 552 eleitores) e de 59% em Paço de Arcos (total de 13 289 eleitores).

Há três razões principais para alguém se abster, todas legítimas:
- Protesto contra a organização do sistema político e a democracia. A razão certamente menos significativa em número, mas mais relevante em termos ideológicos;
- Impossibilidade de deslocação, forçada ou provocada. Por exemplo, quem decidiu viajar durante o fim-de-semana fez uma opção e não votou. Parece-me tratar-se de uma das principais justificações para o aumento da abstenção em eleições europeias.
- Desinteresse total pelas eleições. Aqui encontramos aqueles que se abstêm sempre ou quase sempre. São democratas – ou pelo menos querem uma democracia – mas não querem ser incomodados. A frase típica destes abstencionistas é: “Eles que façam o trabalho deles que eu faço o meu”.

É preocupante que o número de pessoas que se enquadram neste último grupo esteja a aumentar gradualmente, especialmente entre os mais jovens, porque significa que a mensagem de que todos temos de ser políticos – no sentido de participação nas escolhas e, portanto, na definição das políticas – não está a passar.


Mas é legítimo não ir votar. E a maioria das pessoas que não vota identifica-se com (ou pelo menos aceita com tranquilidade) uma vitória quer do PS quer do PSD.


Neste sentido, apesar da abstenção (e porque esta significa resignação e votos repartidos entre os grandes partidos), os resultados são válidos.