segunda-feira, 8 de junho de 2009

Lee Smolin sobre ciência e democracia

Quem me conhece sabe que eu tenho umas opiniões um tanto quanto subversivas no que diz respeito a Ciência, como ela avança, e o que ela significa. Para começar com a polémica devo dizer que apenas considero Ciência a Matemática e a Física (e terei todo o prazer em dizer porquê a quem quiser saber). E para continuar, o meu idealismo/realismo também não é nada mainstream hoje em dia.

Para quem não conhece existe uma coisa (não é o Berlusconi estejam descansados) chamada TED Ideas Worth Spreading. Nesta conferência dada por Lee Smolin (e quem sabe o que é Física sabe quem é este senhor) expõe algumas ideias que acho que vale a pena espalhar.

A primeira é que não existe método científico. Pois é leitores se aprenderam essa fábula no 10º/11º ano comecem a esquecê-la. Outro ponto importante que ele foca é a constante evolução das ideias em Ciência e a necessidade dessa evolução para a Ciência ser de facto Ciência.

Uma coisa que acho que convém ter muita atenção mesmo é a palavra Ciência. Convém notar que ela só começou a ser utilizada com o significado que hoje lhe damos no séc XIX. E isto não é uma questão menor. É uma questão muito séria que faz a diferença entre entender um homem como Newton (e quem diz Newton diz uma catrefada de outros grandes e pequenos nomes) e o que ele fez (fizeram), ou passar-lhe completamente ao lado.
Anteriormente o conceito vigente era o de Filosofia Natural e este era bem mais abrangente que o conceito de Ciência: abarcava por exemplo a astrologia, o estudo da bíblia (que ocupava qualquer coisa como 80 a 90% do tempo de Newton), alquimia (o que deu origem a moderna química), estudo sobre lobisomens na Royal Society...
Tudo isto (e muito mais) será devidamente tratado em futuros posts por isso perdoem a minha brevidade.

Mas sem mais delongas cá está a palestra/talk:


Ela está de volta

Porque será que eles suam tanto?

Ontem fomos bombardeados na TV com gente de camisa listada, fio ao pescoço e testas suadas, aos saltos, enquanto um novo "player" (como ele se definiu) falava num tom "agressivo" (Luis Filipe Meneses dixit da sua campanha). Poderia pensar-se que estávamos a ver a entrevista rápida a seguir ao jogo Benfica-Sacavem em hóquei em patins, mas de facto o directo era da sede do PSD com Paulo Rangel na frente e os jovens gritando atrás afirmando-se da JSD. Um espectáculo bonito, tendo em conta que o Zoo de Lisboa já estava fechado.
Ponto curioso da noite e que passou apenas em nota de rodapé foi o resultados dos votos em branco: 4,63%, quase o dobro de 2004. Quase tantos como os votos nos partidos sem candidatos eleitos. Ou seja, apesar de 62% não terem votado, daqueles que foram, quase 5% votaram em branco. Perderam o seu tempo para lá ir e votaram em ninguém. Não se vêem representados em nenhum dos candidatos. Este devia ser um sinal importante. Assim como a subida do Bloco. Não a vitória do PSD. Porque de facto não ganharam nada. Os resultados tirados daqui:

Um possível diálogo...

You are a republican."
"Republican, yes; but that means nothing. Res publica is 'the State.' Kings, too, are republicans."
"Ah well! You are a democrat?"
"No."
"What! Perhaps you are a monarchist?"
"No."
"Constitutionalist then?"
"God forbid."
"Then you are an aristocrat?"
"Not at all!"
"You want a mixed form of government?"
"Even less."
"Then what are you?"
"An Anarchist."

Segundo reza a lenda isto é fruto do wit de Proudhon.

«Acreditamos que dentro de momentos Paulo Rangel vai estar a comemorar num bar Belém», diz a jovem jornalista visivelmente incomodada pelo cérebro

O arraial de S. João chegou mais cedo. Ontem, as Juventudes reentraram no espaço mediático. Agradecimentos, entusiasmo, palavras de ordem, saltarelos, camisas de padrão listado várias, freeks, irreverência, uma incontinência visual tamanha que me obrigou a descolar da televisão a gloriosa foto de José Águas, erguendo a taça dos campeões europeus em 1961, foto que tinha colocado a fim de suportar o discurs de Paulo Rangel, agora substituída por uma rede anti-mosquitos de tom verde, especialmente eficaz contra movimentos indesejados. As eleições são um momento solene. Não me anima nenhum sentimento proto-fascista, ou proto-totalitário, porque, meus amigos, todo este festival declarativo, onde a palavra "urna" foi pronunciada 10456 vezes - facto que nos deve obrigar a retirar algumas consequências - foi devidamente coroado com a dignidade que a circunstância merecia. Como diria HerbertoHelder: «ouro por cima». Não há nada mais vibrante do que um político de 1,65 suado até às órbitas, rasgando sorrisos no momento em que acaba de lhe cair em cima um camião Luís Simões carregado de merdas para resolver. Talvez a questão seja esta: é verdade que, por vezes, se nos cola à pele uma certa desistência. Nem todos têm a fibra, a "combatividade" - como se diz agora - necessária à "vida pública - como se não tivessemos todos nós a nossa "vida pública". A pergunta que não quer calar é, sem dúvida, a que vou fazer de imediato, e me persegue desde criança, pergunta que sarapateia no meu cérebro, qual avião à espera da ordem de aterragem, e que não posso fazer antes de beijar três vezes o livro de João Gonçalves: porque será que os eleitos sorriem tanto?

domingo, 7 de junho de 2009

Eu cá sou dos que ganhou

Ah pois sou! Hoje não votei e tenho muito orgulho. Faço parte dos cerca de 63% de eleitores que não foram às urnas.

Hoje não fui à praia e não foi fruto de nenhumas mini-ferias. Foi opção consciente e premeditada.
Antes de mais sou UE-descrente. E para além disso há coisas para as quais não tenho (nem quero ter) paciência. As inutilidades pertencem a este grupo.
Podem perguntar: "Mas porquê abstenção, por que não votar em branco?" A meu ver votar em branco significa que não me revejo em nenhuma das opções disponíveis. No entanto, a minha posição é outra: não me revejo na questão (quanto mais nas possíveis respostas): Não me revejo no voto, e não me revejo nas massas que pensam que a UE e os seus subsídios servem para alguma coisa.
Alguma alma caridosa me pode dizer para que serve o Parlamento Europeu? E já agora como é que ele faz o que faz quando faz o que faz?

Não querendo cair em banalidades e platitudes digo que devemos prestar atenção ao número elevado (que aliás não é nada de novo) de pessoas que não votou. O seguinte ensaio, ainda que mais virado para outras questões, parece-me ser algo que indica bem a visão que a maior parte de nós tem de tudo isto: Your politics are boring as fuck (daí o que interessa para esta questão é quase só o título)
Por que é isso mesmo que as políticas cá no burgo são: Boring as fuck! Neste caso em concreto: durante a campanha nada de por que é a Europa importante (apenas que é) e muitos ataques gratuitos. Agora que sabemos os resultados sei que significam um cartão amarelo do povo ao governo (disseram-nos todas as forças políticas) mas continuo sem saber o que vão fazer no futuro.
É óbvio que cada vez mais há mais desinteresse e este tipo de atitudes não me parece ajudar.

Muita gente não foi votar. Urge saber-se porquê. Preguiça? Descrença? Apatia?
A ser descrença é descrença em quê? Na Europa? Na UE? Nos políticos? Na mudança?
Acho que a resposta a esta questão pode parecer ser simples à primeira vista, mas não ficava nada mal perguntar às pessoas por que é que afinal não exerceram o direito de voto. Um direito conquistado há tão pouco tempo e de maneira tão suada.

Há uma distanciamento e desconfiamento ao sistema. O erro fundamental desta atitude, a meu ver, é que as pessoas esquecem-se que fazem parte dos sistema. Esquecem-se que podem e devem tomar atitudes quando não se revêem no esquema geral das coisas.
O não votar é uma forma de protesto sim, mas outras há que podem ser ensaiadas.


Por agora congratulo-me com o facto de pertencer aos vencedores.

Acabei de fixar esta fotografia no ecrã da minha televisão a fim de que me seja possível visionar o discurso de vitória de Paulo Rangel


É um pássaro! É um avião! Não, é um post do João Gonçalves.

O caro leitor reparou decerto numa troca de galhardetes no contexto, digamos dos últimos dias, a propósito de João Gonçalves, esse “herói” da blogosfera internacional, universal, interplanetária, devidamente identificado pelo seu nome tal como consta do BI, o que na óptica do Estado de Direito e dos princípios por que se reje qualquer pessoa de bem – devidamente contabilizada com impressão digital e número de polícia - significa uma benção de credibilidade, um banho nas águas terapêuticas da autoria, um verdadeiro carimbo com o selo do património genético da genialidade. João Gonçalves, um “herói” que não se apresenta como anónimo – o próprio nome o indica: João Gonçalves, o que quer dizer um indivíduo chamado João com ascendência familiar Gonçalves – foi violentamente insultado. Não é justo. Protestamos e exigimos reparação. Porque Gonçalves sintetiza o caso português com um rigor de tal forma violento que chega a perturbar o próprio autor desta linhas. É que a assimilação da sua originalidade, a compreensão profunda da sua força vital, a absorção da clareza com que se exprime, exige capacidades cognitivas que não estão geralmente disponíveis. Isto poque os mais esclarecidos protagonistas do pensamento no espaço nacional se econtram: ou a lançar livros com nome de parque temático infantil localizado nos arredores de Coimbra ou em deslocação a caminho da Figueira da Foz para comer as sardinhas da D. Celeste, salvo seja. Daí que apenas nos reste repetir as afirmações retumbantes que postou a propósito de umas linhas infames vomitadas – desprevenidamente – por Maradona. Afirmoi Gonçalves: «Existe um "herói" anónimo na blogosfera portuguesa - que provoca, aliás, justos derrames e delíquios noutra blogosfera não anónima e, até, respeitável - que dá pelo nome de "maradona". Parece que gostava de fazer stand up comedy mas, lamentavelmente, ainda não o contrataram. Por isso escreve. E é incensado. E já sei que vou receber muitos comentários anónimos a insultarem-me por dizer mal deste grande "herói" - uma espécie retorcida e tardia do MEC dos anos oitenta sem o talento do outro quando era vivo - da blogosfera amiguista.» Passamos por cima desta analogia com MEC porque nos parece situada na estratosfera do conhecimento, uma hermenêutica transcental só alcance dos predestinados, um rasgo que qualificariamos algures entre os recursos metafóricos de Jorge Gabriel quando tenta explicar porque razão Miguel Veloso não consegue interceptar um passe sem aumentar dez quilos, ou dar duas entrevistas à TSF, e as tentativas de José António Saraiva de erigir uma obra ensaística com a mesma subtileza conceptual de Jean-Claude Van Dame após perder mulher e filha (degoladas) na sequência de um ataque súbito (e traiçoeiro) perpetrado pela máfia chinesa. Contudo, deve dizer-se que o post de João Gonçalves é um monumento. É um monumento erguido de um só golpe mas assente sobre as duas raízes fundamentais do espírito liberal: força e fuçanga Tanto pelo que revela na alta capacidade de entender aquele momento delicado em que, inadvertidamente ou não, nos antingem os testículos com um belo pontapé de moinho como por anunciar o que todos já suspeitávamos: Gonçalves conhece a psicologia humana, sabe quem o frequenta, domina os caminhos sinápticos daqueles que, envernizados por uma licenciatura em gestão ou ciência política – standardizados pela repetição dos gestos e dos gostos –, vêm beber na fonte mais uma interpretação fina da magnífica performance de qualquer político que se aproxime de um microfone e diga: mercado, trabalho, credibilidade, fundos europeus, projectos estruturantes, individualismo metodológico, estado de direito, verdade, verdadinha, arranja-me aí uma oportunidade para publicas as merdas que escrevo e que julgo importantes só porque, de acordo com as teorias da maximização do racionalidade implícita ao homo economicus, aparecem 30 tolinhos a comentar as minhas linhas. A título de exemplo, veja-se este post que acabo de verificar, fruto de uma má influência do “herói” anónimo que gostava de fazer stand up comedy mas não consegue porque se encontra vários prédios do cacém abaixo da genialidade de João Gonçaves: «Os dados recebidos aqui na Lapa apontam para uma derrota de Zapatero, aqui ao lado. Tanto Falcon para cá e para lá para nada.» Este tipo de pensamentos, pela sua densidade analítica, obrigam à rendição, ferem com a agudeza da lança de Aquiles, abrem-nos o espírito para a dimensão da levitação. Repare-se na crítica implícita à utilização politicamente inadequada dos fundos públicos inerentes ao uso de equipamento militar altamente dispendioso. Atente-se na fina ironia com que a expressão da recepção na Lapa, provável casa do varão Gonçalves, é, por este riquíssimo recurso, equiparada a uma sede institucional do pensamento. Estes rasgos justificam as publicações a que temos aludido, justificam foguetes e fogo-preso, champanhe, fitas, serpentinas, endiabradas bombinhas japonesas, fatos de dragão, ferrinhos, gigantones, tonificações, saltos, música de salão, abraços, beijinhos, concertinas, filarmónicas de província, anjinhos em dia de procissão, ginchos de minhotas em manhã de arraial, cálices de vinho verde chocando no céu da nossa terra; justificam que se façam convites em ordem à publicação das obras completas de João Gonçaves, seja pela Bertrand, seja pela revista Gina, seja por qualquer coisa onde, desesperados, e por não ter folhas de couve à distância de um braço, possamos, ó maradona, limpar, com toda a dignidade a que temos direito, o nosso gasto e precioso rabo.

Nós europeus

Já que hoje é de dia de eleições europeias e toda a gente vai falar sobre os resultados, discursos, etc, mudo aqui de assunto e deixo a representação de Portugal no festival da canção de 1999. Um dos piores resultados de sempre. Convosco Rui Bandeira:

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Passou mesmo agora um cão a caminho do portão da quinta que levava na boca uma carteira de títulos e fartíssimas poupanças

Todos pudemos obervar estupefactos as declarações do Presidente da República. É notável o facto de ainda ser possível escutar afirmações de uma figura que procura alcançar, pela suspensão natural dos seus maxilares, a performance imobilista de uma estátua do museu de cera da city. Diga-se, antes de mais, que não é possível escrever este nome sem uma certa emoção de decadência civilizacional, com elefantes, invasões bárbaras e quedas imperiais. Com efeito, temos vivido tempos interessantes. Por um lado, as televisões são acusadas de fazer reportagens neo-realistas sobre os sucessivos despedimentos, entrevistanto mulheres de bata azul acotovelando-se por três segundos de indignação. Por outro, sabemos que é absolutamente normal que o Presidente da República afirme ter uma vasta carteira de títulos, incluindo acções do BCP, BPI, EDP, Jerónimo Martins, Brisa, SONAE». Aqui, devemos sacudir a casaca, ageitar o laço, compor o monóculo, inchar as veias do pesçoco e gritar a plenos pulmões: «Populismo»! Na verdade, o leitor está enganado. Não é populismo, é um pequeno vôo sobre as sociedades por acções, incluindo shake-hands, conferências bem pagas, sebentas de finanças públicas, reviengas protocolares em comissões parlamentares, maiorias absolutas, contratações de acessores intermeadas por vinho da bairrada e presunto transmontano, carreiras fulgurantes, bastões da polícia, desbloqueio de forças várias e ainda a grande capacidade de pronunciar longos discursos evitando, cuidadosamente, qualquer ideia, como esquiador evitando bandeirinhas em performance olímpica de slalom. De acordo com um conhecido comentador, as poupanças foram o resultado de trabalho árduo. Fosse como conferencista, fosse como Professor, o Presidente da República rolou a sua pedra, lentamente, pela ladeira acima e descansou depois, após tudo declarar, com respeito pela legalidade e a devida contrição ascética dos ministérios proféticos. Desde a Figueira da Fiz que assim é: tudo acontece como um desenho estelar que fosse sendo decoberto pela dissipação da nebelina nocturna, ficando só, no céu, o caminho do enriquecimento e do serviço público, nobre e honrado. Trabalho árduo, a fazer lembrar rodas, engrenagens, suor destilado em corpos musculados, chicotes, esforço, ranger de dentes. Em todo o caso, ficamos a saber que o saldo daquelas afirmações se consubstancia numa declaração de desaparecimento das poupanças do prestigiado professor Aníbal e da sua, também professora, respeitável mulher. Pelo que aguardamos todos o rápido aparecimento dos valores referidos, para bem do equilíbrio dos mercados, paz dos consumidores e restabelecimento da confiança nas instuições financeiras, bem como para o consolo da família que zela pela estabilização da república e paira, acima da luta político-partidária, repito, da luta político-partidária, que é como quem diz que aguardamos o aparecimento das poupanças, para bem da nossa santa estupidez.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

«Como quem escreve com sentimentos»

Hoje dei provavelmente a minha última aula. Não tenho tempo. Não tenho possibilidades. Que é como quem diz que não aguento. Não tenho físico, não tenho dinheiro, não tenho culpa, não tenho competência, não tenho autoridade. Não tenho, sobretudo, autoridade, no sentido em que não sou autor, não publico, não ambiciono, não revejo textos, não frequento exposições. Nem carreira. Nem profissionalização. Não suporto o cheiro da sala. Não suporto janelas fechadas, não me agradam as salas de professores, nem as piadas sobre a ignorância dos alunos, nem os comentários dos pais, nem as recomendações sobre a eficácia dos materiais, das abordagens. Não aguento exames. Não suporto o castigo, não suporto o toque, não surporto as faltas. Odeio a avaliação. Meu deus, como eu odeio a avaliação. A redução mentecapta do real travestida de ciência dos números. Não aguento. Nem a emoção dos sorrisos, nem os cortes profundos que a ciência da explicação vai fazendo no meu crâneo. É que os professores (lembre-se que eu não sou professor, nunca serei professor e tenho mesmo uma certa raiva adolescente contra a profissionalização de todo o ensino) talvez ainda não tenham compreendido o verdadeiro perigo de ensinar. A morte espreitando em cada questão, em cada ideia puxada do fundo do poço, em cada conceito trazido à vida com a tensão do obstetra. A morte prometida em cada tópico compreendido. Em cada díscipulo que nos compreende finalmente, e sente vibrar no sangue a ambição da vida e vai já erguendo a promessa do punhal. E a nossa alegria de o ver triunfar de nós, ainda com as mãos ensanguentadas. Fechei a porta, devagar, limpei o rosto, caminhei pelo corredor, distanciando-me dos gritos, das gargalhadas, dos agradecimentos, das saudações, das troças, dos elogios, de quem me fitou profundamente quando expunha uma ideia, de quem me olhou nos olhos e percorreu comigo os caminhos da floresta, sem se perder, sem evitar os uivos, lama, a nebina da noite, a indecisão de uma clareira onde se avistam dois caminhos. Fui guiando pela mão aqueles que aceitaram vir. Enquanto caminho pelo corredor, e o portão se aproxima, vou deixando para trás esses rostos, que num movimento, suspendendo-se, permancem imóveis, seguindo-me: como a gaivota que plana sob o oceano um pouco antes da tempestade se abater sobre a costa e anuncia já, com a leve mutação do bico, as primeiras chuvas que caiem sobre a água. Os rostos sondam as palavras que deixo ecoar até ao fim da sala: a destruição das bombas da aviação inglesa nas cidades alemãs arrasadas pela destruição da guerra, o sentido que nos escapa, a forma como vamos depositando na sombra os nossos mais belos tesouros, como queimamos os nossos mais secretos desejos. Faço uma pausa e leio em voz alta «O médico que vê as doenças desenvolverem-se nos corpo compreende melhor a mortalidade do que o florescimento da vida. Prarece-lhe prodigioso durarmos sequer um dia.(...) O sol de inverno mostra-nos como logo fenece a luz nas cinzas, como logo a noite nos envolve. (...) Ligar o noem a uma obra não confere o direito a ser recordado, pois quem sabe se os melhores não terão desaparecido sem deixar rasto. A semente da papoula cresce em toda a parte, mas quando de repente a desgraça cai sobre nós, como neve num dia de verão, só queremos é ser esquecidos». Têm catorze anos e compreendem. Compreendem, os olhos mudos, que não me é possível continuar sem arriscar a vida. Deus sabe como pagarei caro a cobardia de não voltar a fitar esses rostos. De não voltar a guiar os seus olhos entre as ruínas das cidades bombardeadas, entre as filas intermináveis de sulistas que emigram para os centros urbanos em busca de trabalho, os cursos de água, a importância das montanhas na repartição da riqueza, a força da demagogia, Atenas sitiada, Platão calcando as uvas na planícies áticas, as rotas dos veleiros ingleses carregados de ouro, as batalhas da Alexandria, as tropas de Napoleão morrendo no gelo, os incêndios do Parlamento alemão, as veias inflamadas de Hitler cuspindo fogo sobre Nuremberga, as florestas plantadas contra erosão dos mares, a planificação das sementeiras, as novas cidades, os velhso tratados de paz rasgados por um rei enlouquecido, os apitos prolongados dos transatlânticos ao deixar os portos da América, os aviões despenhados nos campos da provença, conspirações, assassinatos, revoluções, a espuma que deixa vincada na água o navio que vai a caminho de Antuérpia, as procissões dos reis absolutos, os punhais palacianos, os largos silêncios dos salões onde se abanam damas com o leque encomendado de Paris, o grande silêncio sepulcral dos carvalhos da Floresta Negra depois de um tiro de canhão, a solidão do ministro que leva não mão a declaração de guerra, Maria Antonieta chorando em frente à guilhotina, os braços vibrantes do rapaz que faz rufar o tambor contra a infantaria turca, o falcão de Henrique VIII sobrevoando o parque de Windsor, emigrantes portugueses embarcados a caminho do Brasil e a chuva persistente no dia da partida. A chuva persistent, enquanto atravesso o corredor. Deus sabe como pagarei este caminho que faço sem olhar para trás. Volto ao silêncio dos livros, fecho-me, recolho ao pó e à penitência, enterro-me no trabalho da língua, penso, morro, despeço-me, ó Ruy, dessa terra da alegria.

Vão sem mim que eu vou lá ter

Depois de quatro dias cheio de trabalho tenho a cabeça em papa



ps sei bem que já pus este video aqui. mas tenho isto na cabeça. aos gritos.

Isto não interessa a ninguém

Os AC/DC conseguiram ter mais gente a vê-los em Alvalade do que adeptos nos jogos do Sporting

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Isto está mais para isto

O derrota TV foi actualizado ali ao lado com uma das piores derrotas de Portugal no mundo do futebol. A final do Euro 2004 em casa contra a Grécia. No estádio um miúdo chorou.

Eu que tenho sido cómico às criadas de hotel tenho agora que levar com o Rui Ramos e as suas interpretações oxfordianas da literatura portuguesa

O Historiador Rui Ramos assina um pequeno texto no jornal “I”, intitulado «Isto de não ser de esquerda». Partindo de uma rememoração sobre a infância, tema, aliás, bastante revisitado pelos liberais nas últimas semanas, lança-se numa elaboração vigorosa sobre escolhas adolescentes entre esquerda e direita, facto que, sem dúvida, poderá estar relacionado com o facto da crise se poder atribuir inteiramente ao socialismo estatista e nada ter a ver com as reiteradas promessas de felicidade liberal que agora se esfumam, ingratamente, sob a espuma dos dias. De qualquer forma, sopram ventos nostálgicos. O verão vai entrando com os seus serões tórridos, as searas do sul cobrem-se de tons amarelos. Secam as ervas, corta-se o trigo e Rui Ramos escreve. Escreve, para nós, um texto em que desvenda, finalmente, a razão de ser das suas latitudes políticas. Eu, que não dormia há três meses tentando interpretar, retrospectivamente, as deambulações de Rui Ramos, fiquei tranquilo, apaguei a luz, recostei-me na almofada e pude, por fim, adormecer. Quer saber o leitor o segredo desta paz? Saber que «Henry James, Borges, Nabokov não eram de esquerda. Os Estados Unidos não eram de esquerda. A rapariga mais bonita do liceu também não era, aparentemente, de esquerda.» Et voilá! Eis uma revelação que podemos, inteiramente, qualificar como profundamente política. A rapariga mais bonita do liceu não era de esquerda! Mas, em todo o caso, «o que era não ser de esquerda?» Ramos responde: «Era ler os poemas de Fernando Pessoa sem os reduzir à "expressão da angústia de classe da burguesia". Era reconhecer que o Natal não era quando um homem quisesse ou que o mundo não pulava e avançava como bola colorida nas mãos de uma criança.» Com efeito, também atravessei o tempo, acumulando recordações. Entre outras coisas que me escuso de comentar, tive um piriquito adestrado na leitura dos poemas de Fernando Pessoa que insistia muito na interpretação subjectiva de «ela canta pobre ceifeira». Por vezes, chegava até a tirar debaixo da asa direita um grosso volume de O Capital, onde cuspia repetidas vezes, enquanto pronunciava bem alto: «Ó rodas e engrenagens: r-r-r-r-r-r-r-eterno», largando depois vivas à monarquia Constitucional. Por outro lado, o Natal foi sempre para mim uma situação, como dizer, facilmente disponível. Às vezes, quando a escola terminava, e a tarde descia trazendo nas suas asas o alaranjado do poente, eu entrava no café do senhor Rodrigues, estacava diante da porta e atirava arrogante: Queria um Natal! E o senhor Rodrigues suspendia os rabiscos contabilísticos, lançados naqueles pequenos caderninhos de papel manteiga, abria a última gaveta do balcão e oferecia-me um Natal. Mas isto foi muito antes de ter tido a grande revelação. Era no começo das aulas. A chuva batia em cadência nos vidros, fazendo da sala um amplo convés de um navio que balançasse no meio da tempestade. Ventos fortes faziam girar no céu enegrecido pequenas folhas de plátano e papéis velhos. Abri a medo o livro de português, enquanto o professor explicava uma operação aritmetica, e reparei na fotografia de um homem de rosto enrugado mas com uma jovialidade que inundava toda a página. Aqui abro um parentisis para referir ao caro leitor, antes de terminar a minha rememoração, uma última característica do que, para Rui Ramos, era não ser de esquerda: «Era chamar as coisas pelos nomes e perceber os limites de tudo.» Com efeito, também nesse dia de chuva e nuvens negras eu percebi os limites de tudo e chamei as coisas pelos nomes. Chamei o céu de grande tecto anoitecido, à chuva chamei de pequenas dádivas de verdade, à tarde longa chamei a longa travessia da floresta. No livro de português – numa escola que a esquerda multiplicou e que os meus pais, de esquerda, nunca puderam frequentar – podia ler-se: «sempre que um homem sonha, o mundo pula e avança/ como bola colorida entre as mãos de uma criança.» O homem, de rosto enrugado, chamava-se António Gedeão. Tanto ele como Pessoa, ensinaram-nos os limites de tudo. É pena que Rui Ramos, agarrado a uma bandeira que se esfarrapa ao vento, nem isso compreenda. Não compreenda que Pessoa ou Gedeão, mais próximos do que julgam os nossos especialistas de Oxford, nos ensinaram os limites de tudo para que, precisamente, os pudessemos estilhaçar com os nossos sonhos.

Eu, que não pretendo publicar estas anotações tolas, gosto muito de ser pequenino, neste país onde todos são grandes

Num prefácio a mais uma obra saltitante (da blogosfera para as livrarias, das livrarias para a blogosfera) o Professor Medeiros Ferreira - o mais esclarecido comentador desportivo/ex-ministro do negócios estrangeiros,/professor universitário/militante do PS/crítico literário amador - faz a seguinte afirmação: «Considero haver algumas analogias entre um pensador como o autor de "Esta grande época ainda tão pequena" [Karl Kraus] e o nosso João Gonçalves». João Gonçlaves é o ilustre autor do Blog Portugal dos Pequeninos e lançou uma obra original e acutilante, coroada por um título inaudito: «O Portugal dos Pequeninos». Ao que parece, temos instalada em Lisboa a Viena dos anos 30, com cafés luxuosos, intrigas políticas e comentadores satíricos vomitando a sua acidez felina, castigando – com suas alfinetadas de dama – os passeantes dos corredores de S. Bento, os titulares da soberania. Ora, isto é, na verdade, tremedo. Como tremendas são as ideias de Gonçalves. No seu blog posta um figura de Lucas Pires e comenta: «O cartaz da foto recorda a extraordinária campanha de Lucas Pires nas primeiras "europeias" nacionais, em 1987. Cavaco arrebatou uma maioria absoluta no mesmo dia em que Pires, pelo CDS, obtinha um excelente resultado. Tudo o que não existe nesta campanha, passou-se nesse longínquo mês de Julho de 87. Rua, alegria, bons tempos de antena, debate, festa, multidões, punch. Agora quase toda a gente parece andar a fazer um enorme frete, um frete a que, muito apropriadamente, pouca gente liga. O calor não ajuda. Os protagonistas não ajudam. As ideias não abundam.» Com efeito, não abundam extraordinárias campanhas de líderes políticos entretanto falecidos. João Gonçalves, porque não é pequenino, não tem a tendência incontrolável de apelidar de extaordinários os nossos companheiros entretanto mergulhados na penumbra do Hades. Gonçalves é um original, um crítico de boa cepa onde abundam estas clarificações que nos falam do passado com o odor romântico dos verões de província, o cheiro a feno, as corridas pelos bosques, a alegria dos almoços debaixo da latada, em que se discutia Horácio, Píndaro, a guerra do Peloponeso e a possibilidade da União Europeia nos sagrar a fronte como cidadãos livres e irrepetíveis. Além do punch, claro. Nesse tempo sim, havia protagonistas, de gravata apropriada e rosto talhado no granito, intelectuais com fibra, de voz recortada e estilo apurado, prontos a fazer jorrar o seu sangue – qual nascente súbita – a bem da ideia da Europa. Depois veio a derrota e com ela a desilusão que a passagem do tempo acumulou sobre os nossos ombros. Gonçalves lamenta o calor, os protagonistas, as moscas, a direcção do vento, a inclinação do solo, o lado das árvores onde cresce o musgo, o facto de apenas na Nazaré existir sardinha seca à venda. Somos todos um imenso bando de condenados, fazendo o frete da política, incapazes de acender nos cidadãos os bons sentimentos da discussão pública. Impreparados, dolentes, derrotados, desistentes, tíbios, impotentes. Só nos resta mesmo rasgar as vestes, insultar a roda da fortuna, e correr à livraria mais próxima a comprar o livro o Portugal dos Pequeninos.

Isto merece o prémio nóbel da matemática aplicada a detentores de pulovers cor-de-rosa que expôem pensamentos ao correr das teclas

Food for Thought pretende tornar publicas algumas das minhas reflexões sobre o que se vai passando no mundo da comunicação e relações públicas, mas não só…pretende ser um blog de partilha de ideias e pensamentos. Próprios e alheios. Sem pretensões e sem calendário. Ao correr das teclas. Porque o exercício de pensar necessita de ser alimentado. A atenção à envolvente tem de ser exercitada, porque lubrifica os circuitos cerebrais e melhora a performance do pensamento. Obriga-nos a ter uma opinião própria sobre todas as coisas e não apenas «absorver» a opinião já formatada, muitas vezes irrelevante, mas outras, manietada.
Salvador Cunha no seu blog manhoso e totalmente dispiciendo de qualquer ligação neuronal que implique andar de metro ou fazer compras no Pingo Doce de Mem Martins, como é sabido duas actividades fundamentais para lubrificar os circuitos cerebrais, e aumentar a performance do pensamento, sobretudo daqueles que emperraram de tanto beber martinis com azeitona na recepção do Hotel Pestana Palace.

O alf passou o dia a falar do homem

Alf ajudo-te aqui e indico o local onde habita e escreve esse estranho Salvador da Cunha:

"Diz-me com quem te consultas, dir-te-ei que impacto terá na tua reputação…."

terça-feira, 2 de junho de 2009

Peço desculpa mas esta frase merece, pelo menos, uma encadernação nas colecções do Planeta Agostini acompanhada por uma garrafa de Alvarinho

O perigo residia na provável percepção de «fracasso» na carreira do Martim, que se criaria se a informação da sua saída da Sonae fosse tornada pública de forma descontextualizada e sem um projecto de fundo no horizonte. Salvador Cunha num local qualquer que me não lembra agora

Acho que o Pedro Lamy encostou primeiro e ainda havemos de ver S. Paulo fazer a volta mais rápida

As nossas sociedades não toleram a existência de Deus ou de qualquer noção de Ética transcendente. Cristo e Kant encostaram às boxes. Henrique Raposo, no Expresso
Dizem que em tempos de crise as pessoas correm a ouvir sobre finanças. Melhor é impossível: próximo Sábado o Henrique Raposo e o Luís Aguiar Santos estarão na Igreja Baptista de S. Domingos de Benfica às 19h a falar sobre "Os Cristãos e o Dinheiro". Evento de mão cheia. Publicado por Tiago Cavaco no Blog Voz no Deserto
Não há como uma aproximação intelectual à pista da aterragem religiosa para surpreender um liberal. No fundo, não acreditam na livre circulação de mercadorias ou na autonomia dos mercados. Não defendem a concorrência da gestão eficiente, lutando pela reducção de custos como o macaco luta pela sua banana. Não sustentam o livre curso da iniciativa, o explendor do empreendorismo. São singelos agnósticos, zangados com a hipocondria do mundo que os condena as saladas e parceiro sexual único. Apenas escolheram contrariar o bom senso que implicaria toda a planificação económica a fim de assinar uma Coluna no Expresso. Antes de recomendar vacina anti-fúngica aos baptistas de S. Domingos de Benfica - incluindo cafés e restaurantes da Pontinha a Telheiras - devo lembrar aos senhores doutores que «A imanência do corpo passou a ser o único templo possível», na afirmação de Raposo, porque o corpo é verdadeiramente o actor-consumidor desse grande paradigma escatológico que dá pelo nome de sociedade aberta, onde os médicos planificam uma bio-política a fim de responder às solicitações produtivas totalmente não-planificadas e abundantemente libertadoras da economia de mercado. Na hora da missa e do insenso, como na cova do lobo, a pobreza é sempre mais verdadeira, o manto diáfano da sagacidade é sempre mais escorregadio nas suas funcionalidades mistificadoras. Badalam os sinos, confundem-se as ideias na mente. Na mesma proporção em que se misturam as bolas na roda da lotaria. Soam os cifrões, arriscam-se os cupões, perde-se o tino, insulta-se o destino e entope-se, quantas vezes, o intestino como teorias sobre a imanência do corpo e mão do dinheiro, tudo isto embebido em literatura duvidosa encomendada na Amazon, através das revistas da ciência política. Como nós os compreendemos. Raposo, compra um livro em português, põe um disco de Nelson Ned, entra numa pastelaria da Brandoa, encomenda uma imperial, uma chamuça, e contempla demoradamente o rasto de luz, que deixa pelo céu desta noite em que vivemos, as tuas resplandecentes ideias sobre o mundo. Depois, envia-nos um sinal para que o nosso quotidiano não permaneça arredado dos caminhos da verdade. Ou isto, ou qualquer coisa que inclua as orelhas da Ana Drago e o sorriso neolítico do Rui Ramos.

Ora aqui está um texto interessante para o final da tarde

Como se já não bastasse um primeiro-ministro acossado, procuradores da República sob suspeita, um provedor da Justiça incapaz de ser eleito e um ex-conselheiro de Estado amnésico, só nos faltava agora um Presidente da República a fazer negócios altamente vantajosos com a empresa responsável por um dos maiores buracos financeiros na história de Portugal.

Só para ti, maradona, que publicas cagadelas de pássaro disfarçadas de pintura pós-moderna


Isto é tão estúpido que chega a ser impossível concebê-lo ou isto chega a ser impossível de conceber por ser tão estúpido

1. Martim AF abandona Sonae seis meses depois de ter entrado. (E pondera lançar um jornal com grupo de investidores); ou
2. Martim lança projecto editorial de referência com grupo de investidores (e por isso sai da Sonae)

O perigo residia na provável percepção de "fracasso" que um dilema de comunicação quase tão complexo como o do Hotel Pestana Palace poderia sugerir

Estou sim? Por acaso o grupo lena não orienta aí um emprego prá malta do Elogio? Ah sim..Pois... compreendo, a família, antecedentes...pois...claro, concerteza! Nem a servir café, fotocópias, limpeza, mudar rolos de ph, mudar ventoinhas, lavar janelas, nada? É que fui despedido a semana passada e não convinha que a malta soubesse. Dá ideia de fracasso. Uma maçada estas coisas da comunicação empresarial: a malta chafurda na lama e depois zumba, leva com o fracasso no focinho, por via da má interpretação. Por isso, convinha-me um projecto de prestígio, ou pelo menos um lugarzito nos variadíssimos projectos de prestígio no panorama da comunicação, mesmo que fosse a levar recados prestigiados ao director, encomendar prestigiadas refeições. Vá lá, qualquer coisa! Não? Agora não dá? E prá semana? Só depois da Feira do Cavalo? (ruídos)

O perigo residia na provável percepção de "fracasso" na carreira do Martim, que se criaria na eventualidade remota de isto ser importante

Em Agosto do ano passado, no rescaldo da compra do Económico pela Ongoing do Nuno Vasconcellos, fui chamado de urgência ao Hotel Pestana Palace para uma reunião com o Francisco Santos e o Martim Avillez Figueiredo. Não sabia do que se tratava. O Francisco, conselheiro do Grupo Lena, meu cliente na altura, fez questão de não levantar o pano antes de eu chegar. O Martim na altura já tinha aceite o convite para fazer um novo jornal e já tinha informado Paulo Azevedo que iria sair do Grupo Sonae, onde estava fazia muito pouco tempo.
Estávamos por isso perante um dilema de comunicação: A informação sobre a saída do Martim da Sonae estava eminente, mas não se podia falar do novo projecto. O perigo residia na provável percepção de «fracasso» na carreira do Martim, que se criaria se a informação da sua saída da Sonae fosse tornada pública de forma descontextualizada e sem um projecto de fundo no horizonte. É que a saída do Martim para a Sonae já tinha provocado um «ruído de fundo» sobre se as reais razões da sua saída do Económico seriam ou não iguais às que alguns percepcionavam. A guerra entre a PT e a Sonae, um ano antes, esteve no centro dessa polémica.
O meu alerta ao Martim foi imediato: «não podes deixar cair a informação na rua sem ter um gancho. Uma vez que já informaste a Sonae da tua intenção de sair, temos menos de uma semana antes que haja uma fuga para os jornais»
Na altura a notícia podia ser escrita de duas formas:
1. Martim AF abandona Sonae seis meses depois de ter entrado. (E pondera lançar um jornal com grupo de investidores);
ou
2. Martim lança projecto editorial de referência com grupo de investidores (e por isso sai da Sonae)
Penso que todos concordam que as interpretações seriam muito diferentes de um caso para outro. Mas, impedidos de revelar a participação do Grupo Lena pelo menos por mais duas semanas, não houve alternativa: Tínhamos de avançar para a segunda hipótese. Não era perfeita, houve quem não a entendesse, mas era o menor dos males.
Foi o que fizemos. Foi a segunda versão que saiu e desde ai que o projecto do jornal do Martim (depois apelidado de Jornal do Grupo Lena) não parou de crescer em expectativa. Hoje está na rua e na minha opinião está muito bom. Tem boas histórias, escritas por bons jornalistas, é bem editado e tem pinta. A Lift já não comunica o Grupo Lena, pelo que já não tenho qualquer ligação ao projecto. Minto: tenho lá muitos e bons amigos, que são também excelentes jornalistas. A minha expectativa continua alta.
Esta merda vem contada numa coisa on-line assinada por Salvador Cunha, de acordo com o próprio, um indivíduo que é «mais do que um ex-jornalista convertido à comunicação, um quase economista (Católica) que sempre quis ser empresário e deu de caras com o Jornalismo ainda em criança por influência materna». Porém, ninguém chegou a saber se o fracasso de Martin ocorreu na realidade, se o Jornal "I" é uma espécie de fracasso em formato Continente, ou seo Continente vai passar a distribuir, como bride anexo ao atum ramirez, o novo jornal, ou ainda se a Sonae já não comunica com palavras, passando a adoptar sinais de fumo ou mesmo a agitação, de forma sincopada, de um chouriço de Seia, isto a partir de pontos elevados como o Monte da Virgem ou a Serra do Pilar.

Jornalismo de referência

Este é só mais um exemplo do jornalismo que temos. Imagino as redacções, à espera que estas coisas aconteçam para que num ápice possam invadir-nos os olhos com reportagens, directos e especulações sobre especulações. Quanto aos aviões, eu dou uma ajuda: já o Galileu e Newton andaram de volta disso

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Com todo o respeito, existe aqui um claríssimo problema de integração social com especial referência ao sexo feminino

A leitura foi uma paixão ardente que se manifestou mal cheguei à escola. Paguei-a com a precoce condenação ao estatuto de caixa-de-óculos. A partir daí, foi sempre a descer: mau de bola, muito acne, dentes salientes e separados, boas notas… o cocktail ideal para uma adolescência miserável.
Acabei por não ter direito à tal adolescência miserável que me esperava, porque aos doze anos embarquei à descoberta da Europa. Fiquei-me por uma adolescência deprimente, à sombra das nuvens de Bruxelas. Na Escola Europeia, liceu multi-nacional por excelência, fiz-me razoavelmente poliglota… e ardentemente patriota. O que não me impediu de namorar uma francesa com lenço Hermès ao pescoço.
Ultrapassado o acne e alinhada a dentição, fui em busca de um mundo onde as boas notas e a inépcia desportiva não fossem motivo de ostracismo. Encontrei Paris. Era para passar três anos: fiquei quase dez. Estudei ciências políticas e gestão de empresas; fui consultor, vendedor e professor; vagueei muito, namorei q.b. Bem, nunca se namora q.b.
Vasco Campilho, Na secção do seu Blog intitulada: Sobre Mim
Campilho, tenha calma. Chege-se aqui um pouco, pouse o casaco, largue a mala, tire a gravata. Descanse. Você precisa de sair um pouco, largar os livros, morder sardinhas em azeite, engolir dois litros de vinho de Palmela, relativizar essa memória turbulenta de português borbulhado, de maxilares coroados por dentes tortos. Não ligue às sovas da rapaziada de Bruxelas, ninguém lhe leva a mal a inaptidão para o futebol, mesmo no momento áureo da selecção de Jean-Marie Pfaff (para que conste, 4ª classificada no México 86). Em suma, essa cavalgada em defesa do Presidente da União Europeia é uma revisitação de maus dias adolescentes, quando a rapariga mais popular do liceu lhe atirava, com o seu lânguido olhar de medusa, o desprezo de uma rainha francesa do grande império. Sossegue Campilho. Beba um gole de água, esqueça essas mágoas e sirva o seu país: como refere, foi esse o grande desígnio que o trouxe de volta a Portugal. Enterre as suas memórias no canto mais longínquo do seu jardim, juntamente com a má prosa que tem produzido, e inaugure uma nova vida, já liberta do trauma hormonal, já repleta de bons sentimentos patrióticos e muitos insultos ao bilioso nervosismo dos esquerdalhos. A eles Campilho, a eles, pois eles nunca saberão o que é ser gozado em francês.

Como é evidente, eu dormia profundamente e nem sequer precisei de comprimidos


Conceitos que todos detestamos, deus nos guarde, mas que ainda assim explicam muita coisa, entre muitas outras o facto dos cronistas serem fraquitos

Quando se dirige uma organização virtuosa, seja a Companhia de Jesus, a Sonae Sierra, a Cartuxa de S. Bruno ou o Expresso, a condição fundamental da liderança é o uso de uma bela cabeleira de rolos e sapatos de fivela, cuidadosamente urdidos, ambas os elementos, nas fabulosas casas de moda que, no século XVIII, enxameavam a Roma de Bellini. O director do Expresso, Henrique Monteiro, nosso augustíssimo convidado esta semana, não deixa os seus créditos por mãos alheias. O que nos traz o senhor Monteiro como elucidação destes confusos tempos de excesso informativo? Uma fabulosa elocubração sobre a crítica do poder: «Houve um momento em que em todo o mundo se passou a falar de um conceito que detesto: quarto poder. Aos três poderes formulados por Montesquieu em meados do séc. XVIII - legislativo, executivo e judicial - juntava-se este poder dos jornais que formavam a opinião pública.» Repare o caro leitor que o senhor director detesta o quarto poder, ou melhor, detesta que se chame à comunicação social o quarto poder. E nós que comungamos das preocupações jornalísticas do Expresso aceitamos a manifestação de desagrado. Não podemos suportar estas imprecisões conceptuais: quarto poder? Ainda se fosse quarto almoço pago pelo poder num qualquer restaurante quatro estrelas de Lisboa, ainda vá. Contudo, a indignação dá lugar à calma tranquilidade do missionário. Todos sabemos que o jornalista é um primo-direito do missionário. Naturalmente, um orgão de comunicação respeitável (que sabemos estar repleto de jornalistas zelosos) dispara em todas as direcções: abate dragões com a mesma coragem bretã de um S. Jorge, esmaga moinhos de vento com a mesma indiferença pelos resultados de um D. Quixote. Nada teme, diante de nenhuma ameaça recua, perante nenhuma contrariedade hesita: é a verdadeira reencarnação do espírito heróico de Aquiles; espalhando o mesmo terror pelos gabinetes ministeriais que o filho da ninfa Tétis espalhava pelas planícies de Tróia. Mas cuidado, estimado leitor: «Aquilo que começou por ser metáfora - na verdade jamais a CS teve poder, no sentido de soberania, que é o sentido em que Montesquieu usou a palavra para os outros três poderes - passou a ser apresentado, ora por intenção ora por facilidade, como se fosse mais um a somar àqueles três.» Na verdade, a comunicação social não tem poder. Caminha na noite, de túnica esfarrapada, mendigando a atenção dos virtuosos, sempre cega às tentações da perfídia política, sempre pronta a desvendar mais uma urdidura travada nas costas do contribuinte. Estava mesmo agora a pensar fundar um novo jornal, animado por esta prosa republicana, com referência a Montesquieu e tudo, mas, entretanto, lembrei-me que estas coisas implicam uma certa dose de pilim, que é um factor de crescimento, instrumento fundamental da economia, recurso decisivo para olear as trocas comerciais e elemento completamente, repito, completamente estranho aos corruptíveis poderes da soberania e, portanto, nada relacionado com a Comunicação Social, esse espaço onde, uma última vez, podemos respirar o perfume inebriante da liberdade.