quarta-feira, 2 de março de 2016

A vida é curta mas não podemos recuar diante dos grandes dilemas da humanidade.

Na sequência da vaga de fundo irreprimível, vamos voltar a publicar a nossa entrevista fictícia (e satírica) e repito, entrevista fictícia, ou seja, inventada (ficou claro?) ao ilustre Henrique Raposo, mártir da liberdade de expressão.


Henrique Raposo, cronista do Expresso, licenciado em História, investigador em Ciência Política, homem desassombrado, considerado provocador, atacado pela esquerda, bastião da liberdade. Fomos entrevistá-lo a propósito do seu mais recente livro, Alentejo Prometido, no contexto desta recente polémica. A obra incendiou as redes sociais e alegadamente, um grupo de alentejanos já considerou a hipótese de invadir o local de apresentação do livro, apimentando o evento com uma carga de porrada bem distribuída, e fazendo jus à acusação de que o Alentejo é uma terra de violência, num estado de pré-guerra.

Henrique Raposo, obrigado por nos ter recebido aqui em sua casa. Antes de mais, sabendo da sua relação amor-ódio com o Alentejo, pergunto: como é viver em Lisboa?
Sabe, viver em Lisboa é excelente, as pessoas confiam imenso umas nas outras e as raparigas usam variadas vezes a palavra violação, sobretudo para descrever os preços das saladas vegetarianas.

Henrique, já que fala nisso, deixe-me ir direito ao assunto. Durante a sua polémica participação no programa Irritações da Sic Radical afirmou: «as alentejanas antigas não têm a palavra violação para descrever os abusos que sofriam. Ele chegou-se ao pé de mim e pronto».
Isso foi mal interpretado pelas redes sociais, aliás, as pessoas, burras e esquerdistas como são, neste país socialista, atrasado e cheio de alentejanos, tendem a interpretar mal as minhas lições de vida. Eu próprio, ao ser convidado para escrever este livro pela prestigiada Fundação Francisco Manuel dos Santos, fui alvo de uma experiência parecida. O gajo responsável por estes livritos (note-se, livritos vendidos praticamente ao preço do quilo da Amêijoa vietnamita, 3,15 euros, isto é quase dado) chegou-se ao pé de mim e pronto, convidou-me a escrever uma merda qualquer, desde que batesse nos comunistas. Como o Alentejo está cheio deles e a minha família é de lá, não precisava de perder tempo com esses vícios do socialismo como ler livros e exercer a crítica lógica.

Como definiria a experiência de escrever esta magnífica obra, Alentejo Prometido?
Vou dar um exemplo. Sabe, ainda em tenra idade, no monte da minha avó, um maltês pousou a pistola na mesa, e enquanto lhe eram servidos os ovos com linguiça, eu, uma criança já irrequieta, considerei aquilo uma infâmia e perguntei ao maltês se não tinha lido as obras completas de Toqueville. Ele encolheu os ombros. Irado perante o esquerdismo evidente do gatuno, quis saber se o mal-educado não tinha um Pingo Doce onde ir comprar os ovos e a linguiça.

Desculpe interromper, a esquerda é muitas vezes acusada de considerar o Pingo Doce uma instituição perversa, e considerando que o incentivo à criação intelectual deve ser controlado por instituições públicas, com critérios de selecção públicos, critérios esses passíveis de revisão por debate e mudança eleitoral.
Nem mais. Como vê, um absurdo, de outro modo, o público não teria sido brindado com a obra em apreço. Não é para me gabar, mas temos aqui um livro essencial como representação de segmentos da sociedade, descurados pela produção cultural, nomeadamente, os jumentos, mas adiante. O maltês ali estava, a mamar à conta da minha diligente e empreendedora família, quando podia perfeitamente ter adquirido os ovos e a linguiça num magnífico estabelecimento da excelente empresa Soares dos Santos. Mas não, bem pelo contrário, veio incomodar a minha família com uma pistola, dando uns tiros, e pousando a referida pistola em cima da mesa, num claro e inaceitável gesto de terrorismo regional.

Bem, é como diz, Henrique, e isso não o impediu de alcançar uma obra penetrante e arguta, sobre uma das regiões mais trágicas do país, o Alentejo.
Não, de todo, até porque ao escrever, não costumo utilizar o raciocínio lógico. Misturo umas memórias mais ou menos esfarrapadas de mau cinema americano, leio duas ou três páginas daquele velhinho meio holandês, e já um bocado tolinho, o José Rentes de Carvalho, passo a minha língua pela banda magnética do cartão multibanco, e sai-me naturalmente esta capacidade de provocar e combater os lugares comuns.

Fale-nos um pouco mais desta sua especialidade: a provocação. O Alentejo do turismo e do neo-realismo não é o verdadeiro Alentejo. Há toda uma verdade por revelar. No Programa da Sic Radical diz: «Os meus avós (avôs) não tinham carinho pelos filhos porque não tinham a palavra que afunilasse (e sublinho o afunilasse) o carinho, que é "criança"». Esta teoria de palavras capazes de afunilar conceitos, neste caso, o carinho, é algo que nestes últimos dias tem feito brado em algumas revistas de linguística, das mais prestigiadas universidades norte-americanas. Um estudioso chega a sugerir que a origem desta sua clarividente teoria, pode estar relacionada com o facto de os Alentejanos usarem muito o funil, quer para passar o azeite dos tonéis para os galheteiros, quer para passar o vinho dos garrafões para as garrafas.
Não me parece, nunca vi nenhum alentejano a utilizar o funil. A relação entre os conceitos e as palavras, no seio dos alentejanos, é uma relação feita através da faca e da pistola, razão pela qual existe tão pouca gente no Alentejo. E se pensar nisso, verá que é natural, as pessoas têm medo e vão viver para locais onde a confiança é predominante, como Rio de Mouro ou Almada, locais onde, em vez dos Malteses, os antepassados são decoradores de interiores vegetarianos e adeptos de budismo.

Algumas pessoas, tomadas pela inveja, avançam uma outra hipótese para a sua teoria do funil e da criança: a de os seus avós poderem eventualmente ter conhecimento da palavra criança, mas não se sentirem convidados a usá-la, diante de uma figura com a sua maturidade, mesmo quando tinha 6 ou 7 anos, e já lutava pela liberdade das galinhas poderem estabelecer o seu próprio sistema de saúde. Concorda?
Não concordo e vou explicar porquê. Essas pessoas devem ser todas alentejanas. O alentejano é por natureza uma pessoa desconfiada. Pense no cão, por exemplo, o rafeiro alentejano, ninguém fala nisso, mas é uma vergonha. Se chegar a uma aldeia ou vila alentejana, verá um grupo de cães a caminhar na diagonal, de um lado para o outro, em busca de um bocado de osso ou de uma cadelita onde sossegar os instintos, sem que as cadelitas conheçam qualquer latido para designar violação. São animais egoístas os cães alentejanos. Mas se chegar a Arouca ou a Vila Nova de Gaia ou a Santa Comba Dão, verá os cães reunidos em assembleia, desde rafeiros até galgos, a tocarem violino em orquestras de câmara ou reunidos em Parlamento, de onde se conclui que as escolas do norte do país, por estarem menos dependentes do socialismo do Ministério da Educação, e por serem fruto da liberdade cívica e do fervor das comunidades religiosas, até entre os cães conseguem estabelecer laços de confiança e criatividade.

Segundo afirma, os laços de comunidade são fortes no Norte e fraquíssimos no Sul.
Rigorosamente. No sul, como disse, predominaram sempre os malteses, uma espécie de cowboys, bandidos e revolucionários. Uma espécie de cruzamento entre Che Guevara, John Wayne, um cesto de coentros e umas calças de ganga. Os malteses ameaçavam incendiar as colheitas dos proprietários e com este repugnante ataque à propriedade privada, semeavam a violência, e por isso, a desconfiança. Como toda a gente sabe, os malteses são os antepassados da Mariana Mortágua. Só lhe falta ladrar.

Mas no norte, não existirá registo ou vestígio de violência similar?
Nem pense, de todo. Conheço bem o norte, tenho um primo maluco que fez a tropa em Chaves.

Mas em que dados históricos ou sociológicos se baseia?
Ora, não me diga que também é socialista. Baseio-me na minha rica e paranóica experiência em casa dos meus familiares em Santiago do Cacém. Mas deixo aqui mais uma prova irrefutável: já viu a quantidade de malucos no Alentejo? A opção de semear sobreiros ou oliveiras, espaçados entre si, decorre de uma intenção perversa. É para melhor se poderem enforcar em solidão, e com absoluta desconfiança entre si. No norte, por exemplo, predomina o pinhal e nalguns casos, o castanheiro, ou o carvalho. Em todo o caso, tudo árvores altas, precisamente devido ao facto de as pessoas não gostarem de se suicidar. No caso de se verem forçados a fazê-lo, as árvores estão todas juntinhas, o que reforça os laços de confiança.

Mas diga-nos Henrique Raposo: o suicídio é ou não um fenómeno natural no Alentejo?
É curiosa essa pergunta. Repare: ninguém contesta moralmente um terramoto ou o nevoeiro.

Depende, no estádio da Choupana, na Madeira, contesta-se o nevoeiro.
Está bem, nesse caso, sim, mas em geral, as coisas chatas acontecem e pronto. O alentejano vê o suicídio como um fenómeno natural. Olha, matou-se. O que é uma vergonha, as pessoas julgarem que podem agarrar numa corda, enrolar um ramo de figueira, fazerem um nó, e enforcarem-se, num mundo onde existem tantas maravilhas, como eu próprio, ou os livros do Pingo Doce. No outro dia, pretendia ir a um café, numa aldeia da zona, algures no Alentejo, e a senhora, olha para  mim, com um ar de alentejana e diz: está a ver aquele ajuntamento ali. Ele matou-se. E disse isto como quem diz: eu sou do Porto ou do Benfica, ou mesmo, ofereceram-lhe um livro do Henrique Raposo. Já viu bem? Isto não é admissível.

Há muitas pessoas que o consideram apenas um parvo, a quem foi dado um incrível protagonismo, ou por razões comerciais, uma vez que a raridade da sua estupidez atrai imenso público, ou simplesmente por similar estupidez de quem o convidou a escrever, incentivando a sua falta de noção perante o disparate, dando livre circulação à sua despreocupada ignorância e olímpica burrice. O que diria a estas pessoas?

Sinceramente, diria que não passam de uma cambada de socialistas e inimigos da liberdade de expressão, adeptos dos lugares comuns e dessas banalidades, nomeadamente, a crítica esclarecida, a especialização, o trabalho e conhecimento da literatura específica dos assuntos em apreço. Se dermos demasiada importância a essas pessoas, corremos o risco de acabar encurralados numa sociedade totalitária, controlada por alentejanos, sem venda retalho e sem lucros, nem Fundações, sem incentivos privados à criatividade dos verdadeiros intelectuais, num país tão necessitado dos meus conhecimentos.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

O que raio se passa com a academia portuguesa ?

1. O Mário Centeno foi apresentado ao público, e pelo Público, como sendo o campeão intelectual da esquerda. A pessoa que suportava intelectualmente o exercício da "Agenda para a Década".  Afinal o homem é doutorado em Harvard.

Não faço puto ideia o que é que se ensina em Harvard, que eu só andei por chafaricas nacionais.  Mas estou curioso em saber se em Harvard é normal argumentar que não se devem “transpor conclusões de artigos científicos para a legislação nacional, porque se tentar fazer isso é um passo para o desastre”.

Primeiro porque é falso. Prova, bastaria um exemplo, mas eu sou um tipo generoso: o plano nacional de vacinação, a saudosa RITA dos anos 90, as siglas NP e CE. A não ser que sejam catástofres nacionais o aumento da qualidade de vida da população, a existência corriqueira de um telefone fixo cá em casa ou o meu micro-ondas não ter rebentado quando aqueci a sopa da garota.

É perfeitamente normal que as conclusões de um doutorado, por exemplo em Harvard, não sejam aplicáveis ao Portugal de 2016. Porque os pressupostos que sustentam o estudo não são válidos, porque o estudo afinal tem erros, porque um paper não se resume ao abstract e às conclusões, etc....

Que o Mário Centeno, em vez de falar claro e sem preconceitos, se tenha refugiado numa desculpa esfarrapada é triste. 

2.O Paulo Pereira Trigo por seu lado é doutorado em Leicester. E consegue nos dois artigos que publicou no Observador, (no primeiro) confundir a média com a mediana e (no segundo) demonstrar uma perfeita ignorância do mundo fora da academia. O primeiro erro é lamentável vindo de quem vem, o segundo é patético. E como não é um doutorado em Harvard, termina por aqui a crítica.

3. O Porfírio Silva tem um doutoramento em filosofia, ignoro a alma mater. E lançou hoje a hipótese de que "é bem possível que a Comissão Europeia esteja a tentar tramar o governo português".

Sim é bem possível. Como também é bem possível que a Comissão Europeia se esteja nas tintas para o Costa. Outra possibilidade é a de que o mundo seja um disco, suportado por quatro tartarugas que por sua vez estão suportadas cada uma por uma baleia com um foguete a cagar lume do cú. Possibilidades, tal como os chapéus, há muitas. A estupidez essa, é infinita.


sábado, 5 de dezembro de 2015

E disse o Senhor a Caim: Onde está Abel, teu irmão? E ele disse: Não sei; sou eu guardador do meu irmão?

Apenas um pormenor me chamou a atenção do entrevista ao irmão do Abdeslam Salah, o tipo que se acobardou aquando dos atentados de Paris e se presume estar escondido em Bruxelas.

Quando a entrevistadora perguntou ao irmão se não notou nada de estranho no comportamento dos irmãos, uma vez que os dois participaram nas atrocidades do passado 13 de Novembro. E a resposta foi, que efectivamente não tinha reparado em nada de estranho e que não tem sequer a possibilidade de andar a seguir o que os irmãos faziam. Embora eu acredite que Mohamed Salah esteja a ser sincero, a frase que serve de título não está la por acaso.

A senhora da foto escreveu no ínicio dos anos noventa Islam and Democracy, em parte como catarse após a primeira guerra do Golfo. A ideia que passa é a de que as sociedades muçulmanas estão ainda na fase da adolescência. Confusas, perdidas e zangadas com tudo e todos. Bem sei que as generalizações devem ser evitadas, mas é difcíl quando se fala sobre um livro que trata ao de leve algo tão complexo como a grande comunidade muçulmana (a Umma) ao longo dos séculos.

Embora a autora revele ela própria sinais de grande confusão, acertou na mouche quando aponta um dedo às cleptocracias que geralmente ocupam o poder nos países muçulmanos e mantêm a gleba sem outra esperança que a da sobrevivência diária. O outro está apontado a nós, os ocidentais (o Edward Said que me desculpe) por pactuarmos com ditadores do outro lado do Mediterrâneo. Digo ditadores porque o livro foi escrito nos anos 90, hoje provavelmente seria a indeferença que mostramos para com os conflictos sangrentos que lá sucedem.

Fica portanto a pergunta, serei eu o guardador do meu irmão ?

domingo, 29 de novembro de 2015

Será que os terroristas são muçulmanos ?

A resposta é um inquívoco, rotundo e sólido sim. Porque primeiro, eles se definem assim. Segundo porque o Islão não é um bloco homogéneo, e existem diferentes prácticas (sunitas, shiitas, sufis, etc..). Terceiro porque o Islão não é uma religião de paz, no sentido em que os seus praticantes são pacifistas empedernidos que não fazem mal a uma mosca.

A pergunta que se coloca agora é porque é que o Islão tem o quase monopólio da produção do terrorismo. Mais abaixo, e de forma muito atabalhoada, tentei uma resposta que resumidamente se traduz nisto. Boa parte da história original do Islão, e para os fanáticos portanto o Islão na sua forma mais pura porque mais perto da fonte, é violenta.  Os tipos e tipas que se deixam seduzir pelo terrorismo encontram no Islão a justificação para o nihilismo que seguem. Não fosse o Islão, e eu estou convencido que este tipos e tipas se dedicariam ao roubo, à prostituição, ao tráfico e, os mais extroviados d'entre eles, o assassínio.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Renovada genoflexão ao Edward Said

Sendo certo que discordo em alguns pontos do cavalheiro acima retratado, estou em crer que acertou na mouche quando afirma que os orientalistas (um termo perjorativo para Edward Said) vêem no Oriente uma reflexão dos seus desejos e medos mais intímos.

Se nos séculos XIX e XX, eram europeus letrados que iam em peregrinação pelo Oriente à procura de si mesmos, agora são jovens muçulmanos nascidos e educados na Europa a procurar no Oriente a resposta às suas inquetações espirituais.

Religiões de paz

Fraternização inter-religiosa de Bordeaux (c 732), com os muçulmanos a explicarem que o Islão é uma religião de paz, a um grupo de gauleses cristãos decididamente insensíveis a subtilezas teológicas. Uns quilómetros mais acima foi a vez dos cristãos explicarem que de paz percebem eles.

Hoje na TV belga, o coordenador europeu contra o terrorismo afirmou, com a calma de quem pede um pires de tremoços, que estimava em 100 mil os cidadãos europeus que decidiram ir em excursão atè a Síria. E que cerca de um terço infelizmente (o advérbio é meu) voltou.

Para as almas mais sensíveis volto a insistir que a violência vêm em várias cores. Temos, por exemplo, o mui católico Ruwanda conseguiu eliminar À katanada, cerca de 800 mil (!) almas em menos de dois meses. Ou a profundamente protestante alemanhã que reduziu a cinzas cerca de 6 milhões de humanos.

Compare-se agora com os atentados de Boston, que mataram três (sim três) pessoas e feriram com mais ou menos gravidade outras 246. Irrelevante no que toca à quantidade, eu quero antes me focar na qualidade. Os irmãos Tsarnaev fizeram pelo menos 17 mil quilómetros (ida e volta entre Boston e Grozni) com o objectivo final de matar pessoas que, provavelmente na sua imensa maioria, não sabem sequer pronunciar Chechénia.

Ou seja, a violência dos terroristas islâmicos não é contra os vizinhos (como no Ruwanda) mas sim contra uma categoria: todos os que não são como nós. Tal como os Nazis fizeram nos anos 30 e 40, por exemplo. E os bolcheviques e mencheviques antes deles.

domingo, 22 de novembro de 2015

Profunda vénia ao Edward Said, seguida de uma oferta de explicação para os tempos que vós acompanhais pela televisão e eu tenho a felicidade de assistir quase em directo. No momento em que vos escrevo, estão a occorrer várias operações policiais, duas delas a menos de 3 km da minha excelsa pessoa e as sirenes são audíveis. Mas está tudo bem, o Islam marcou e o Sporting ganhou.

Tal como o Edward Said, eu não acredito que o que se está a passar actualmente seja um confronto civilizacional. Não me interpretem mal, a Europa e o Médio Oriente são como o dia e a noite e se (actualmente) vivem lado a lado é devido a meras contigências geográficas e históricas. Pese embora representantes das supracitadas civilizações, EUA e agora a França de um lado e o Daesh do outro, andarem a trocar mimos entre eles não deixa de ser verdade que na Síria o Daesh está a levar com a Rússia (civilização ortodoxa com sabor a comunismo e temperada com pós de KGB), o Bashar (nationalismo arábico sabor a comunismo requentado) e outros ramos do Islão que agora não me lembro. A situação é portanto mais complexa do que aparenta, e portanto deixemos o mundo de faz de conta para o Costa, Centeno e associados.

O problema com o Huntigton é que está meio certo, não acertando no alvo também não o falha completamente e isso é quanto basta para que os comentadeiros se sintam confiantes em desfilar ignorância pela tv, rádio e jornais. Pior ainda no caso de quem, como este vosso criado, efectivamente leu o "Confronto de Civilizações". O Huntington fornece uma teoria, e as ferramentas, para a trabalhar. E como o homem falha o alvo por pouco, é extremamente sedutor alinhar pela melodia do confronto de civilizações.

Olhando para o desperdício de ribossoma e demais ácidos nucleicos que andaram por Paris a espalhar destruição, constato que se trata de indivídios (passe o abuso de linguagem) com vidas profundamente antisociais. Até terem encontrado o caminho para a Síria, um dia bom consistia em foder, ganzar e beber. Chegados à Síria, continuaram como dantes mas de kalash nas mãos. Estou em crer que em condições normais, estes tipos acabavam ou presos por tráfico e roubo ou com vários tiros no lombo, cortesia do gangue rival.

E o que são condições normais ? Demos um salto até ao Brasil. Nas favelas do Rio e São Paulo, decorre uma guerra urbana entre traficantes e polícia. Estou em creer que os tipos de Molenbeek, nunca teriam encontrado o caminho para a Síria se tivessem nascido no mui cristão Brasil. Porque para a vida de miséria espiritual e material, que os tipos levavam aqui em Molenbeek e noutros quartiers de Paris, o escape social devidamente sancionado no Brasil é a criminalidade e a violência com a bófia.

Trazidos de volta a Bruxelas e Paris, podemos constatar que uma não desprezável parte da população atrás das grades são exactamente magrebinos. Dito de outra forma, a criminalidade como a válvula de escape existe por cá também. Então porque é que os tipos fizeram a merda que fizeram ?

Aqui chegados é altura de jogar a manilha de trunfo, que tínhamos guardada. Eu estou convencido que o Islão facilita e justifica a via da violência como meio de afirmaçao, e controlo territorial, de um grupo. Olhando para os tempos iniciais do Islão, vemos um pequeno grupo a tentar sobreviver num meio que lhe é hostil, matando e roubando sempre que necessário. A identificação que um terrorista fará entre a sua vida e a do profeta, parece-me fácil de fazer. Aliás, a biografia que Lawrence Wright faz de Zawahiri e Bin Laden é disso exemplo. Os tipos passaram as passas do Algarve, e muitas vezes quase tudo parecia perdido. Penso que se viam como encarnando uma versão moderna do profeta, e a forma quase miraculosa como foram escapando com vida das várias encrencas em que se meteram, apenas reforçou a esta crença.

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O irmão do Salah Abdeslam foi hoje entrevistado pela televisão belga. Prefere que o irmão seja preso antes que morto. Eu também. Já chega de morte.

Tempo de reflexão

Um comentário típico dos muçulmanos tem sido que os fascínoras de Paris (e Síria, e Nigéria, e Mali, e Afeganistão, e etc...) não são muçulmanos porque bebem, fumam e não vão à mesquita. Curiosamente ausente da lista de coisas que os muçulmanos não fazem está o matar gente indiscriminadamente.

sábado, 21 de novembro de 2015

Sobre as reacções

A reacção quase unâmine das pessoas que conheciam os terroristas, foi de espanto e incredulidade. Eram todos bons rapazes, não se percebe como e porque é que fizeram o que fizeram.

O tom dissonante é em relação à moça que se fez explodir, sobre a qual disseram o que Maomé não disse do toucinho. Não deixa de ter a sua piada. Eles bons rapazes, ela uma putéfia.

Uma outra reacção típica, no sentido Newtoniano, foi a de classificar os bairros onde viviam os tipos como sendo lugares aprazíveis, onde podemos sem qualquer problema, deixar a carteira e o telemóveis bem visíveis dentro do carro destrancado.

A última reacção que se costuma ver, classifico-a como "os muçulmanos com quem eu me dou são todos tipos simpáticos". Como é óbvio, porque se não fossem tipos fixolas não estariam no vosso círculo de amigos.


Cuidado com as falácias

Antes de tentar responder à pergunta aqui por debaixo, duas pequenas notas sobre esta discussão.

Aqui compara-se Jesus e Buda a Maomé. Indirectamente, está certo, mas a comparação está lá. Buda desconheço, mas Jesus é (para os cristãos) Deus encarnado enquanto que Maomé e Jesus são (para os muçulmanos) profetas.É natural portanto que a relação do cristianismo, nas suas várias formas, com Jesus seja distincto da relação dos muçulmanos, mas suas várias formas, com Maomé.

Termino com uma chamada de atenção para o facto de o catolicismo ter em tempos bem recentes, sujado as mãos q.b. no Ruwanda ou na Bósnia. Não pretendo com isto nivelar o campo moral, apenas sim chamar a atenção para os diferentes tipos de violência que estão em jogo. No Ruwanda, por exemplo, foi todo um grupo que se dedicou, com brio e afinco, a chacinar outro. O Daesh, tal como o Boko Haram ou a Al-Quaeda, têm como objectivo o controlo territorial e a legitimação internacional desse controlo.



Pergunta

Um dos argumentos mais ouvidos sempre que um muçulmano se explode após ter morto uma mão cheia de inocentes, é que ser muçulmano não é ser terrorista.

Pois bem, seja. O que distingue então os muçulmanos dos tipos por detrás das carnificinas de Paris, Síria, Boston, Nova Yorque, Madrid e Londres (concentrando-me apenas e só no presente milénio) ?

sábado, 14 de novembro de 2015

Paris 13Nov15

Show me just what Muhammad brought that was new and there you will find things only evil and inhuman, such as his command to spread by the sword the faith he preached.

God is not pleased by blood – and not acting reasonably is contrary to God's nature. Faith is born of the soul, not the body. Whoever would lead someone to faith needs the ability to speak well and to reason properly, without violence and threats... To convince a reasonable soul, one does not need a strong arm, or weapons of any kind, or any other means of threatening a person with death...

Manuel Paleólogo


Estou a braços com uma dissonância cognitiva. Eu sei que os muçulmanos são pessoas como eu. Mas pessoas como eu não andam a matar pessoas como eu. Portanto, será que os muçulmanos são pessoas como eu ?

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

A Faina: uma história social.

Joel Neto, A Faina



Mágoas e traições. Solidões. 
Dificuldades e tropeções. Trapalhões. 
Falta de talento e ambições. Escoriações.
Homem embriagado, ontem à noite, em Matos Cheirinhos, Abóbada.



Julgo termos já chegado aquela saborosa fase da nossa relação, em que nos podemos permitir coisas, como o não justificar a abordagem de um dado escritor, em vez de um outro qualquer. Além do mais, foi-nos pedido expressamente, na caixa de comentários, que voltássemos a Joel Neto. Pedido justo, legítimo. Contudo, não tivemos até ao momento qualquer oportunidade para desenterrar esse glorioso marco na história do jornalismo português. Nem sequer nos despertou qualquer sentimento de análise, o anunciando «regresso do grande romance aos Açores» (de onde, parece, o grande romance tinha partido, em busca de melhor vida). Hoje, porém, encontrámos, por mero acaso, uma melancólica reflexão sobre a faina, da autoria do aclamado autor insular. Como o leitor pode constatar, a crónica A Faina é uma bonita rememoração, quase Elegíaca, de um homem a braços com a sua culpa (embora também inclua cavalas e código morse, e uma senhora chamada Catarina, aparentemente, suada). Ora muito bem, eis, finalmente, um regresso a esse tema literário por excelência: a culpa, a melancólica e ocidental culpa, a culpa de não ter nada para fazer, enquanto se repuxa da minúscula cabeça o doloroso parágrafo, e enquanto os pescadores anónimos, ao longe, se preparam, alegadamente, para  pesca da cavala, espécie a que, hipoteticamente, fará mal o Outono; não sabemos, é uma ideia, apenas em tese, avançada no texto.

Joel Neto é um belo cultor da frase curta, não querendo arriscar as esquinas dos períodos mais longos, embora por vezes, a fazer fé no seu relato, procure ler morse, sem saber morse. O leitor pergunta-se: porque tenta alguém ler morse, sem saber morse? Talvez pela mesma razão que muitos se arriscam a serem escritores, sem saber escrever. Seria injusto, contudo, ficar pelo elogio da frase curta. Há nesta crónica uma panóplia de sentimentos contraditórios, desde o aguçar dos ouvidos para constatar o rumor da música pop e o marulhar das ondas, até à constatação fria, cruel, verdadeira, de que todos os Invernos morrem pescadores

A alusão às tempestades e aos pedidos de socorro imprimem no leitor um sentimento de perigo, em que logo vêm à imaginação os dolorosos naufrágios da costa portuguesa. Mas não se julgue que Joel Neto, lançando mão do sentimentalismo barato, ou à boleia do baixo jornalismo, que tão amiúde e corajosamente o nosso autor vitupera, procura tirar partido dos mais recentes e dramáticos episódios na costa portuguesa. Quando Joel Neto se refere às mulheres em casa rezando, é na paleta memorial da nação que vai molhar o seu pincel: velhinhas nazarenas ou poveiras, tão do apreço de poetas cantores como António Nobre, aparecem no carrossel de alusões de A Faina, e aí, Joel Neto, embalado pelo seu talento natural, arrisca o ritmo na sua prosa forte. O resultado de tão arriscado e profundo malabarismo, onde estão em jogo o próprio destino da arte da escrita e até a sorte de toda a zona económica exclusiva, é este bonito balançar da língua: Mágoas e traições. Solidões. Não resistimos a repetir a citação: Mágoas e traições. Solidões. O leitor que permaneça (ou fique) surdo com os encantos deste sonoro tambor, a ecoar por dentro dos miolos qual gongo chinês, pode não ter muitas certezas neste mundo, mas uma coisa podemos garantir: nunca entenderá a beleza da prosa da Joel Neto.

Além da beleza sonora, assalta-nos o provocador conteúdo da batida. Mágoas dos pescadores obrigados a deixar o seu lar, enquanto ele, Joel Neto, se senta confortável à lareira com os seus cães? E como sofre um homem comovido. Mágoas das mulheres rezando? Enquanto os seus maridos, companheiros e amantes vão para o mar arriscar a vida por uma cavala? E traições de quem? Dos que insensíveis à sorte dos homens do mar, continuam absortos nas suas vidas, incapazes de reconhecer um homem de talento como Joel Neto? E as solidões? Do mar, das varandas no Terceira-mar, dos píncaros onde vive solitário, o grande criador de parágrafos, obrigado a dominar as vagas de melancolia empurradas pelos furiosos ventos de uma sensibilidade incomparável? São perguntas com que o leitor se debate, no meio de uma profunda dor moral e de um indisfarçável prazer artístico.

Mas Joel Neto não se perturba com o sucesso da sua arte, e muito menos se deixa salpicar com a lama das emoções fáceis. No recato da sua profunda serenidade, não comenta as traições, as mágoas, ou as solidões. Refere, condoído e triste, o regresso da sua companheira de viagem (não sabemos se esposa, filha ou amante) a suada Catarina, após o justo exercício do ginásio. E aí, caros leitores, o escritor Joel Neto, esmagado pelas lutas interiores a que se entregou na varanda do bar, moído por uma inteligência capaz de comover-se com a sorte de homens infelizes, meros joguetes nas mãos do tresloucado mundo (Ouvirão esta música? Decifrarão as luzes do hotel? Que histórias contarão entre si? Que libertação, que desespero experimentarão a bordo daquele barquinho que uma onda poderia virar?) aí, o escritor Joel Neto, mortificado pela consciência de que vai em busca da lareira, dos cães e do sossego do seu lar, aí o escritor vibrante, pois sente a bondade e o conforto da cena campestre que está prestes a protagonizar, fazendo crepitar a lenha, rodeado de cães e das recordações do seu terrível e belo entardecer na varanda sobre o mar, aí, meus estimados leitores, o verdadeiro escritor não poderia nunca deixar de fazer essa dolorosa e derradeira pergunta: haverá cavala amanhã?

Não se julgue que falhamos aqui o significado profundo desta ironia. Não, Joel Neto não é desses arcádicos ocupado com jogos e flores. Joel Neto não nos atiraria com dúvidas sobre a cavala, se com o peixe não viessem também tesouros de sensibilidade. Joel Neto, ao perguntar pela cavala, insulta o desprezível modo de vida burguês, preocupado com a escassez da cavala e as virtudes do ômega 3, e desse modo, espeta no coração desta sociedade, falha de valores e de homens sensíveis, o verdadeiro aríete da revolta social, a palavra poética. Mesmo que a capitanear essa revolta social, venha uma pergunta acerca da comparência, na manhã seguinte, de uma cavala assada no forno. Qual Victor Hugo do Terceira-Mar (um product placement, que esperamos não envolva contrapartidas) Joel Neto obriga o leitor a terminar o seu texto, não o deixando partir sem lhe desferir uma vergastada no coração. 

Caríssimos leitores, poderão rir à vontade, se for esse o vosso desejo, mas a verdade é que, amanhã, ao almoçar, saberão como cada cavala despejada no vosso prato, implica o trabalho e o risco de vida de cada um dos pescadores que andou na dura faina. Saberão que foi preciso Mágoas e traições. Solidões. para que essa cavala possa agora jazer no prato entre salsa e batatinhas. Por isso, Joel Neto faz questão de nos lembrar: por cada conjunto de pescadores que arrisca o coiro, há um gajo numa esplanada a coçar a micose, enquanto espera pela Catarina, ainda suada. Quem paga estes vagares? Não sei, nem me diz respeito. Poderá esse gajo, habituado a coçar a micose na esplanada, ter hipóteses de vir a escrever algo capaz de agradar a este crítico? Não sei, mas desconfio que não tenha jeito para a faina.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Europeus: é só manter a calma e respirar fundo, vai tudo correr bem - a salvação da Europa vem a caminho.

Ferries have been chartered by the Greek government to carry more than 4,000 people from Lesbos, The Independent reported.

All member states of the European Union will be in need of labour in the near future. Three factors are decisive for this development: low fertilityrates, extended life expectancy and, in most EU countries, a baby-boomgeneration in their late 50s and early 60s that will slowly be reaching retirementage over the coming decades. It is highly probable that, after a periodof moderate growth in the present decade, the EU population will stagnateuntil 2030, decline after that date and age significantly in the whole period until 2050. 

As a consequence, EU countries will enter a phase of significantlabour shortage and will be confronted with tremendous problems in financing their social-welfare systems.

Celebration: A German volunteer holds a migrant child in the air as crowds applaud at Munich's Hauptbahnhof station where hundreds of refugees arrived on Saturday evening after a treacherous journey from war-torn countries


 Grateful: A toddler beams as he is draped in an EU flag

Young Syrian refugees bring Shakespeare to life in the desert


Syrian refugee Majd Ammari, 13, acts in the role of King Lear during a rehearsal of one of Shakespeare's great tragedies, at the sprawling Zaatari refugee camp in Jordanian desert near the border with Syria, on March 8, 2014

sábado, 20 de junho de 2015

Como é que se diz corralito em grego ?

Ou sobre a fundamental necessidade da espécie humana em dividir o mundo em bons, nós, e maus, os outros.

Um tipo com dois dedos de testa compreende que a dívida pública da Grécia é insustentável e ou é perdoada, ou paga em prestações muitíssimo mais suaves.  O mesmo tipo pode, claro está, ter como objectivo na vida ser sodomizado em simultâneo pelo duo Tsipras-Varoufakis, que não deixa de estar correcto na sua análise. Mas quanto às suas preferências sexuais, já não digo o mesmo.

Um tipo com dois dedos de testa, não necessariamente o mesmo do parágrafo anterior, reconhece também sem grande esforço que o Syriza fez asneira atrás de asneira na forma como tratou com a Európa. Basta dizer que o meu rebento de três anos se comporta de forma mais adulta que o Varoufakis. E o resultado, passados que estão cinco meses, foi que o Syriza conseguiu pôr a economia em recessão, os bancos sem graveto e daqui por uma semana vão oficializar a saída da União Europeia. Engane-se quem pensa que só vão sair do Euro.

A tragédia grega, por si só tem tido um mau guião. Mas como um mal nunca vem só, os comentários à tragédia têm demonstrado a capacidade de de muita gente em explicar o inexplicável, dependendo de quem são os seus personagens principais. E estou só a falar de gente capaz de articular duas ideias seguidas em qualquer outro domínio. Senilidades à lá Mário Soares não são para aqui chamadas.

Existem imbecilidades para todos os gostos. As duas minhas preferidas sao que a Grécia (e por arrasto nosotros) fora do Euro vai crescer a ritmos milagrosos. E que o Varoufakis tem um plano secreto para tramar a Europa. No fundo, estamos a falar de gente que compreende a enorme vala comum que os gregos estão a cavar para si próprios, mas prefere pensar que os gregos têem mas é uma relação especial pelas pás e picaretas. E chega de inuendos sexuais.

Mete dó ver um país colocar malucos no poder, mas a democracia é mesmo isto. Cada país tem o governo que merece, Joseph de Maistre dixit. Mete ainda mais dó ver a Grécia ansiosa pelo colinho do Putin. A Rússia dos nossos dias é uma ditadura unipessoal de um ex-KGB. Se isto basta para seduzir os comunas gregos, moços deixam-me que vos diga: vocês contentam-se com pouco.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

O normal funcionamento das instituições

A revista saíu há já duas semanas, e tenho que ser eu a dar conta da notícia aos estimados ouvintes. Está reposto normal funcionamento das instituições. Sem mais assunto por agora, despeço-me com o melhor elogio à derrota do ano de 2016



segunda-feira, 20 de abril de 2015

Contra a barbárie, meus cabrões, só a erudição.

Num exercício de auto-crítica, comiseração e manifesta estupidez, eu, benfiquista e cidadão do mundo desenvolvido, venho hoje esfregar-vos nas gloriosas fuças o meu passado de aluno num curso de humanidades, a saber, aprendiz de especialista em mudanças, ou na sua forma traduzida, pupilo na escola da demagogia científica, ou por outras palavras, aprendiz de sacerdote na interpretação de textos ultrapassados pelo tempo, ou nem isso, somente candidato a parasita, e a soldo da crise ideológica pós-marxista, pós-tecnológica, pós-moderna, e pós-caralho, salvo seja, amen.

Convicto do meu rotundo falhanço no reino das pessoas felizes, e desde a primeira semana de aulas encornado por um destino demasiado agressivo e insidioso, ficava claro para mim, o não haver mais do que arrastar a cabeça, penosamente, pelos corredores da Universidade. Eis se não quando, enveredo pela ironia patológica, escrevendo uma recensão a um livro do espetacular e infértil, se politicamente considerado, académico, Pietro Costa, a saber, Civitas, Uma história da cidadania.

Não se falava ainda de cadáveres no mediterrâneo, e o tomo publicado pela Laterza (encomendado e pago com o cartão de crédito de um amigo, a saber, o pároco sportinguista que fez capa do Record, e entretanto varreram para Macau) acabava nas considerações de Montesquieu a propósito da lei, dos romanos, e das gajas boas raptadas por arruaceiros, e só isto bastaria para ter uma noção das veredas tortas com que o Senhor se entretém a confundir os seus filhos, para matar o tempo, uma carga de trabalhos para quem está por cima da história, da matéria e dos sofrimentos.

Mas ao aluno que eu era, com dois olhos, um nariz e uma boca, ou seja, uma cara, tantas vezes mal lavada e sonolenta, com uma sensação de barata fugitiva nos subterrâneos do mundo, não restavam dúvidas de qual seria o crucial problema, às mãos do qual, soçobraria o mundo desenvolvido. As pessoas com fome e sede de pão e de justiça, vão para onde há pão e justiça. Se forem milhões de pessoas, temos aqui um problema do caralho. Simples, não é?

Passados onze anos, enquanto retiram crianças afogadas das águas do mediterrâneo, o mar que inspirou o mais belo livro de história (a um francês, que o escreveria, enquanto preso, num campo de concentração alemão) aqui venho trazer um dos emblemas do meu falhanço como indivíduo, benfiquista e académico, por razões cognitivas, morais e sentimentais, e com muito orgulho o faço, caros leitores e amigos, com muito orgulho o faço.

Começava essa pitoresca peça de avaliação universitária com a invocação da «pressão populacional dos países subdesenvolvidos, em face das complexas relações entre Cidadania e Estado, ousando colocar drasticamente diante da prosperidade dos países europeus “the pressures of those hoping to immigrate and seek asylum”».

A seguir, atando as rédeas do cavalo à sela, erguia bem ao alto um par de bandarilhas: a primeira, entusiasmado com a agressiva reacção do touro universitário, cujos cornos estão enfeitados com as grinaldas das humanidades, aludia ao filme Apríle, de Nanni Moretti, e a sua crítica ao panorama político das eleições de Abril de 1994, onde se pretendia descrever, no seio de uma reflexão sobre as limitações do sujeito em face do sistema eleitoral, uma estreita relação entre a evolução da Cidadania e o equilíbrio de poderes. 

A segunda, consistia numa ainda mais pitoresca nota de rodapé:

[ii] Moretti insere na narrativa a dramática chegada de um navio repleto de cidadãos provenientes das costas albanesas, poucos  dias depois de numa praia de Puglia, terem morrido 89 albaneses quando a embarcação em que seguiam se afundou após um acidente com um navio da marinha italiana.

E depois de 15 páginas a elaborar sobre teoria da cidadania medieval, eis o retumbante epílogo:

Civitas, ao colocar o problema da Cidadania, transporta o leitor para a história mas não foge à pergunta: qual a relação entre a ordem jurídica e o lugar do homem no espaço político? É ainda uma outra vez o retorno à problemática situação do estranho achado de súbito numa cidade que não o reconhece. Pietro Costa não deixa de sugerir discretamente a fragilidade dos vínculos entre teorização da ordem jurídico-política e os acontecimentos reais. Como se fosse necessário voltar uma outra vez ao tribunal veneziano e comparecer perante o Doge. E ecoasse no espaço da sala repleta de magistrados a suave evocação da clemência, conduzida pela voz feminina de Pórcia, transmutada em brilhante jurista, recém chegada ao complicado processo[i]. E assistir depois ao nascimento, nesse mesmo coração outrora capaz de profundidade interpretativa e misericórdia, do implacável orgulho das leis que tutelam a cidade e incarnam nas contundentes e biliosas palavras contra Shylock[ii] - o velho mercador de Veneza, estrangeiro no seio da comunidade política[iii], infortunado habitante que num ápice se vê torturado pelos estranhos lugares de um labirinto jurídico que não pode desvendar.
Civitas, não resolvendo os limites contemporâneos da Cidadania, coloca porém no primeiro plano a questão da formação histórica da identidade da Europa, que é também a dilacerante questão da identificação dos seus limites[iv].

Era óbvio que, mais tarde ou mais cedo, iria acabar por me foder.





[i] “The quality of mercy is not starin’d/ It droppeth as the gentle rain from heaven/ Upon the palce beneath. It is twicw blest/ It blesseth him that gives and him that takes./ ‘Tis mightiest in the mightiest, it becomes/ The throned monarch better than is crown/ His sceptre shows the force of temporal power/ The atributte to awe and majesty,/ Wherein doth sit the dread and fear of kings;/ But mercy is above this sceptred sway,/ It is enthroned in the hearts of kings”, Shakespeare Complete Works, Peer ALEXANDER (ed), Collins Clear-Type Press, London and Glasgow, 1951, p. 246
[ii]  “The law hath yet another hold on you./ It is enacted in the laws of Venice,/ If it be prov’d against a alien/ That by direct or indirect attempts/ He seek the life of any citizen,/ The party ‘gainst the wich he doth contrive/ Shall seize one half his goods; the other half/Comes to the coffer of the state;/And the offender’s life lies in the mercy/ of the Duke only...”, Shakespeare Complete Works ...,p. 249
[iii]A interpretação de Costa permite-nos também enquadrar este trágico limite da lei na Inglaterra Isabelina, permitindo conhecer os interstícios do debate teórico, com a sua longa permanência de estratos da tradição [o tempero da justiça com a clemência]. No sentido de uma identificação das fontes históricas no teatro isabelino ver Dominique GOY-BLANQUET, “Elizabethan historigraphy and Shakespeare’s sources” in The Cambridge Companion to Shakeaspeare’s History Plays. Michael HATTAWAY (ed), Cambridge University Press, 2002.
[iv] Numa recente entrevista conduzida por Gianluca Sacco, Pietro Costa afirmava a identidade da Europa como realidade “che cambia drasticamente a seconda che essa agisce ( e si cocepisca) come una fortezza assediata oppure come um luogo di accoglienza e di conronto” Cf. Le Storia della cittadinanza e la Costituzione Europea, http: // rivista.ssef.it.

sexta-feira, 13 de março de 2015

No fundo, o Facebook foi criado para eu tomar conhecimento destas maravilhas.

Anton Chekhov’s name appears in many reviews of your work. How do you relate to him as an artist? How are the works of Chekhov, or of any of the classic Russian writers, regarded in contemporary Russia? 

For me, Chekhov, like Pushkin (who is an absolute genius and therefore untranslatable), are dear, kindred spirits who don’t know that I exist. Russians treat these classics with unchanging passion and jealousy. Some years back, I wrote a piece about Pushkin’s death. I was engulfed by popular hatred. Within days, my piece was read by 14,000 readers. 

Ludmilla Petrushevskaya

quarta-feira, 11 de março de 2015

A ignorância e a estupidez não conhecem fronteiras nem formação académica: saudemo-nos na paz de Cristo.

Free from language the music of our vocal expression is universal and rings true across races and cultures. And not just humans, just think of the family dog.

No matter where you (and your customers)are and no matter what language they speak. In life, it’s not about what you say, but how you say it.

Portanto, e se nos é permitido, gostaríamos de enviar o autor deste artigo para a puta que o pariu, perguntado ainda, com todo o respeito, a esse burro do caralho, em que molho de bróculos tinha os cornos enfiados, quando optou por escrever um texto em vez de gravar um vídeo com a sua voz de paneleiro e se por esse singelo facto, o ter optado pelo discurso verbal, ficou assim impedido da eficácia emocional por meio do texto, o grande e excelentíssimo cabrão, eficácia essa em nada incompatível com os objectivos pretendidos, diríamos nós, que não percebemos um corno desta confusão em que estamos prestes a cair como pessoas, como sociedade e como civilização do broche institucionalizado em forma de comércio.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

homoousios vs homisios

Os mais teologicamente avançados de entre vós sabem do que eu estou a falar, os outros que descubram.

A telenovela em folhetins que têm sido as discussões entre o governo grego e a União Europeia, trouxe ao lume um problema que o cristianismo nunca foi capaz de solucionar. Isto é, como manter a comunidade quando alguns dos seus membros insistem em não a respeitar.

O governo grego tem demonstrado uma desonestidade intelectual imensa. Que o governo português toma decisões politicamente motivadas, como se a política não fosse a motivação das decisões de todos os governos. Que a Europa tem que respeitar as eleições gregas, quando quem têm que as respeitar é o governo grego e cumprir com o que prometeu e provavelmente não o vai fazer. Ou as grandessíssímas filhas putices (qual é o plural de filha putice ?) que são as tentativas colar a Alemanha de hoje ao regime nazi ou equiparar a Alemanha de 1945 com a Grécia de 2015.

E antes que me atirem pedras,  não estou a tentar associar o Syriza aos téologos gregos do século 3 DC. O que mesmo assim seria mais fácil que a permanente associação da Grécia moderna, uma cultura cristã ortodoxa moldada pela sua relação com os otomanos e o ocidente, à antiguidade clássica. Só eu já devo ter lido mais Platão e Xenofontes do que os Varoufakis e o Tsipras juntos.

Das discussões com o Arianismo, entre outras, resultaram cismas e morte e destruição qb. Por isso, e apesar de não morrer d'amores pelos Syrizas, fico contente que a União Europeia tenha tido a paciência de os aturar mais um pouco a ver se atinam. Porque ostracizar (eu sei, eu sei, antiguidade clássica coiso e tal, mas não consigo encontrar outra palavra), porque ostracizar os gregos agora seria empurrá-los para a miséria. E não tenho dúvidas de que o zelo com o Syriza e o Anel se empenharam para andar à turras com o Eurogrup, seria o mesmo com que foderiam (palavra d'origem latina, senhores, tenham lá calma), com que foderiam a população para justificar os amanhãs que cantam.