segunda-feira, 20 de abril de 2015

Contra a barbárie, meus cabrões, só a erudição.

Num exercício de auto-crítica, comiseração e manifesta estupidez, eu, benfiquista e cidadão do mundo desenvolvido, venho hoje esfregar-vos nas gloriosas fuças o meu passado de aluno num curso de humanidades, a saber, aprendiz de especialista em mudanças, ou na sua forma traduzida, pupilo na escola da demagogia científica, ou por outras palavras, aprendiz de sacerdote na interpretação de textos ultrapassados pelo tempo, ou nem isso, somente candidato a parasita, e a soldo da crise ideológica pós-marxista, pós-tecnológica, pós-moderna, e pós-caralho, salvo seja, amen.

Convicto do meu rotundo falhanço no reino das pessoas felizes, e desde a primeira semana de aulas encornado por um destino demasiado agressivo e insidioso, ficava claro para mim, o não haver mais do que arrastar a cabeça, penosamente, pelos corredores da Universidade. Eis se não quando, enveredo pela ironia patológica, escrevendo uma recensão a um livro do espetacular e infértil, se politicamente considerado, académico, Pietro Costa, a saber, Civitas, Uma história da cidadania.

Não se falava ainda de cadáveres no mediterrâneo, e o tomo publicado pela Laterza (encomendado e pago com o cartão de crédito de um amigo, a saber, o pároco sportinguista que fez capa do Record, e entretanto varreram para Macau) acabava nas considerações de Montesquieu a propósito da lei, dos romanos, e das gajas boas raptadas por arruaceiros, e só isto bastaria para ter uma noção das veredas tortas com que o Senhor se entretém a confundir os seus filhos, para matar o tempo, uma carga de trabalhos para quem está por cima da história, da matéria e dos sofrimentos.

Mas ao aluno que eu era, com dois olhos, um nariz e uma boca, ou seja, uma cara, tantas vezes mal lavada e sonolenta, com uma sensação de barata fugitiva nos subterrâneos do mundo, não restavam dúvidas de qual seria o crucial problema, às mãos do qual, soçobraria o mundo desenvolvido. As pessoas com fome e sede de pão e de justiça, vão para onde há pão e justiça. Se forem milhões de pessoas, temos aqui um problema do caralho. Simples, não é?

Passados onze anos, enquanto retiram crianças afogadas das águas do mediterrâneo, o mar que inspirou o mais belo livro de história (a um francês, que o escreveria, enquanto preso, num campo de concentração alemão) aqui venho trazer um dos emblemas do meu falhanço como indivíduo, benfiquista e académico, por razões cognitivas, morais e sentimentais, e com muito orgulho o faço, caros leitores e amigos, com muito orgulho o faço.

Começava essa pitoresca peça de avaliação universitária com a invocação da «pressão populacional dos países subdesenvolvidos, em face das complexas relações entre Cidadania e Estado, ousando colocar drasticamente diante da prosperidade dos países europeus “the pressures of those hoping to immigrate and seek asylum”».

A seguir, atando as rédeas do cavalo à sela, erguia bem ao alto um par de bandarilhas: a primeira, entusiasmado com a agressiva reacção do touro universitário, cujos cornos estão enfeitados com as grinaldas das humanidades, aludia ao filme Apríle, de Nanni Moretti, e a sua crítica ao panorama político das eleições de Abril de 1994, onde se pretendia descrever, no seio de uma reflexão sobre as limitações do sujeito em face do sistema eleitoral, uma estreita relação entre a evolução da Cidadania e o equilíbrio de poderes. 

A segunda, consistia numa ainda mais pitoresca nota de rodapé:

[ii] Moretti insere na narrativa a dramática chegada de um navio repleto de cidadãos provenientes das costas albanesas, poucos  dias depois de numa praia de Puglia, terem morrido 89 albaneses quando a embarcação em que seguiam se afundou após um acidente com um navio da marinha italiana.

E depois de 15 páginas a elaborar sobre teoria da cidadania medieval, eis o retumbante epílogo:

Civitas, ao colocar o problema da Cidadania, transporta o leitor para a história mas não foge à pergunta: qual a relação entre a ordem jurídica e o lugar do homem no espaço político? É ainda uma outra vez o retorno à problemática situação do estranho achado de súbito numa cidade que não o reconhece. Pietro Costa não deixa de sugerir discretamente a fragilidade dos vínculos entre teorização da ordem jurídico-política e os acontecimentos reais. Como se fosse necessário voltar uma outra vez ao tribunal veneziano e comparecer perante o Doge. E ecoasse no espaço da sala repleta de magistrados a suave evocação da clemência, conduzida pela voz feminina de Pórcia, transmutada em brilhante jurista, recém chegada ao complicado processo[i]. E assistir depois ao nascimento, nesse mesmo coração outrora capaz de profundidade interpretativa e misericórdia, do implacável orgulho das leis que tutelam a cidade e incarnam nas contundentes e biliosas palavras contra Shylock[ii] - o velho mercador de Veneza, estrangeiro no seio da comunidade política[iii], infortunado habitante que num ápice se vê torturado pelos estranhos lugares de um labirinto jurídico que não pode desvendar.
Civitas, não resolvendo os limites contemporâneos da Cidadania, coloca porém no primeiro plano a questão da formação histórica da identidade da Europa, que é também a dilacerante questão da identificação dos seus limites[iv].

Era óbvio que, mais tarde ou mais cedo, iria acabar por me foder.





[i] “The quality of mercy is not starin’d/ It droppeth as the gentle rain from heaven/ Upon the palce beneath. It is twicw blest/ It blesseth him that gives and him that takes./ ‘Tis mightiest in the mightiest, it becomes/ The throned monarch better than is crown/ His sceptre shows the force of temporal power/ The atributte to awe and majesty,/ Wherein doth sit the dread and fear of kings;/ But mercy is above this sceptred sway,/ It is enthroned in the hearts of kings”, Shakespeare Complete Works, Peer ALEXANDER (ed), Collins Clear-Type Press, London and Glasgow, 1951, p. 246
[ii]  “The law hath yet another hold on you./ It is enacted in the laws of Venice,/ If it be prov’d against a alien/ That by direct or indirect attempts/ He seek the life of any citizen,/ The party ‘gainst the wich he doth contrive/ Shall seize one half his goods; the other half/Comes to the coffer of the state;/And the offender’s life lies in the mercy/ of the Duke only...”, Shakespeare Complete Works ...,p. 249
[iii]A interpretação de Costa permite-nos também enquadrar este trágico limite da lei na Inglaterra Isabelina, permitindo conhecer os interstícios do debate teórico, com a sua longa permanência de estratos da tradição [o tempero da justiça com a clemência]. No sentido de uma identificação das fontes históricas no teatro isabelino ver Dominique GOY-BLANQUET, “Elizabethan historigraphy and Shakespeare’s sources” in The Cambridge Companion to Shakeaspeare’s History Plays. Michael HATTAWAY (ed), Cambridge University Press, 2002.
[iv] Numa recente entrevista conduzida por Gianluca Sacco, Pietro Costa afirmava a identidade da Europa como realidade “che cambia drasticamente a seconda che essa agisce ( e si cocepisca) come una fortezza assediata oppure come um luogo di accoglienza e di conronto” Cf. Le Storia della cittadinanza e la Costituzione Europea, http: // rivista.ssef.it.

sexta-feira, 13 de março de 2015

No fundo, o Facebook foi criado para eu tomar conhecimento destas maravilhas.

Anton Chekhov’s name appears in many reviews of your work. How do you relate to him as an artist? How are the works of Chekhov, or of any of the classic Russian writers, regarded in contemporary Russia? 

For me, Chekhov, like Pushkin (who is an absolute genius and therefore untranslatable), are dear, kindred spirits who don’t know that I exist. Russians treat these classics with unchanging passion and jealousy. Some years back, I wrote a piece about Pushkin’s death. I was engulfed by popular hatred. Within days, my piece was read by 14,000 readers. 

Ludmilla Petrushevskaya

quarta-feira, 11 de março de 2015

A ignorância e a estupidez não conhecem fronteiras nem formação académica: saudemo-nos na paz de Cristo.

Free from language the music of our vocal expression is universal and rings true across races and cultures. And not just humans, just think of the family dog.

No matter where you (and your customers)are and no matter what language they speak. In life, it’s not about what you say, but how you say it.

Portanto, e se nos é permitido, gostaríamos de enviar o autor deste artigo para a puta que o pariu, perguntado ainda, com todo o respeito, a esse burro do caralho, em que molho de bróculos tinha os cornos enfiados, quando optou por escrever um texto em vez de gravar um vídeo com a sua voz de paneleiro e se por esse singelo facto, o ter optado pelo discurso verbal, ficou assim impedido da eficácia emocional por meio do texto, o grande e excelentíssimo cabrão, eficácia essa em nada incompatível com os objectivos pretendidos, diríamos nós, que não percebemos um corno desta confusão em que estamos prestes a cair como pessoas, como sociedade e como civilização do broche institucionalizado em forma de comércio.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

homoousios vs homisios

Os mais teologicamente avançados de entre vós sabem do que eu estou a falar, os outros que descubram.

A telenovela em folhetins que têm sido as discussões entre o governo grego e a União Europeia, trouxe ao lume um problema que o cristianismo nunca foi capaz de solucionar. Isto é, como manter a comunidade quando alguns dos seus membros insistem em não a respeitar.

O governo grego tem demonstrado uma desonestidade intelectual imensa. Que o governo português toma decisões politicamente motivadas, como se a política não fosse a motivação das decisões de todos os governos. Que a Europa tem que respeitar as eleições gregas, quando quem têm que as respeitar é o governo grego e cumprir com o que prometeu e provavelmente não o vai fazer. Ou as grandessíssímas filhas putices (qual é o plural de filha putice ?) que são as tentativas colar a Alemanha de hoje ao regime nazi ou equiparar a Alemanha de 1945 com a Grécia de 2015.

E antes que me atirem pedras,  não estou a tentar associar o Syriza aos téologos gregos do século 3 DC. O que mesmo assim seria mais fácil que a permanente associação da Grécia moderna, uma cultura cristã ortodoxa moldada pela sua relação com os otomanos e o ocidente, à antiguidade clássica. Só eu já devo ter lido mais Platão e Xenofontes do que os Varoufakis e o Tsipras juntos.

Das discussões com o Arianismo, entre outras, resultaram cismas e morte e destruição qb. Por isso, e apesar de não morrer d'amores pelos Syrizas, fico contente que a União Europeia tenha tido a paciência de os aturar mais um pouco a ver se atinam. Porque ostracizar (eu sei, eu sei, antiguidade clássica coiso e tal, mas não consigo encontrar outra palavra), porque ostracizar os gregos agora seria empurrá-los para a miséria. E não tenho dúvidas de que o zelo com o Syriza e o Anel se empenharam para andar à turras com o Eurogrup, seria o mesmo com que foderiam (palavra d'origem latina, senhores, tenham lá calma), com que foderiam a população para justificar os amanhãs que cantam.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Para os mais distraídos

As melhores fotos de 2014 no melhor site do mundo. Aqui, aqui e aqui

A liberdade de expressão

Ou a importância de se conhecer a dinâmica de um sistema de segunda ordem.

Fatal como o destino, após o sarrabulho de Paris, as reacções cristalizaram em torno das categorias já comuns: "morte aos sarracenos", "condeno, mas a culpa é nossa" e, o alvo deste texto, "a liberdade de expressão é sagrada". 

As duas categorias, sendo as de mais fácil accesso intelectual, foram e continuam a ser mastigadas na comunicação social. Não vale a pena gastar largura de banda com elas. Centremos a mira da 338TP na última categoria, portanto.

D. Duarte criticou o Charlie Hebdo, subrepticiamente introduzindo o termo pasquim na discussão, um abraço e um bem haja, pasquim é claramente sub-utilizado no português moderno. Os comentários rapidamente concorreram para a necessidade de liberdade de expressão, como se fosse um fim em si mesmo. E quando aqui se bate, ao de leve e mansinho, no Papa, lá aparece o tradicional "Mas alguém disse que o Papa não tem direito a ter uma opinião livre? Ele tem o direito de ter e dar a sua opinião, e eu tenho o direito de, depois de a ouvir, ter uma opinião sobre a opinião dele, e criticá-la. Foi só isso que fiz." pelo autor do post.

A liberdade de expressão é tal qual como arrear o calhau em plena Rua Augusta. Todos temos o direito de o fazer, mas será que devemos ?

A liberdade de expressão é um meio, não um fim, e parece-me impressionante que tanta gente ainda não tenha percebido isso.Se nos ficamos pelo estúpido "não concordo com o que dizes mas defenderei o direito de o dizeres", estúpidos ficamos. Tão óbvio quanto a inaptitude para o futebol de Naby Sarr, é  o facto de a expressão da mente humana se querer livre. Porque só assim nos podemos levantar da lama primordial onde todas as outras bestas da criação chafurdam alegremente. Aceitar a discussão só porque o outro grunho tem o direito a babosar idiotices, é um puro desperdício de tempo. Mais vale ir ver  o Goucha mais a Cristina.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Vocês podem ser o Charlie Hebdo, mas

eu não sou, e tento não ser, o Charlie Hebdo. Primeiro, porque o humor é rasco e segundo, porque tem como único objectivo ofender os visados. Típico de adolescentes. E não sou o único a pensar assim, visto que antes do ataque os tipos estavam com dificuldades em pagar as contas. Parece que, ao contrário dos lamúrios do alf, o mercado das ideias ainda vai revelando alguma racionalidade. O dinheiro que os manos Kouachi gastaram em kalashnikovs e lança foguetes, era mais bem empregue a comprar o Charlie para depois mudar a linha editorial.

Esta história toda impressionou-me, não pela proximidade, mas porque pura e simplesmente não consigo compreender o que levou os tipos a fazer isto. Ou os que os camaradas deles se preparavam para fazer na Bélgica. Por partes.

As atrocidades que vão sendo cometidas na Nigéria, Síria, Iraque, Paquistão, etc, fazem todo o sentido. São senhores da guerra a tentar alargar o pátio. Não deixam de ser atrocidades, e todos, em conjunto com os débeis mentais que no Facebook colocaram a bandeira do ISIL, merecem como destino uma vala comum bem regada de cal. Mas ao menos eu percebo o que os move.

Agora os tipos que fazem estas merdas na Europa, isso já é algo que eu não consigo entender. A razão oficial é infantil: sentiram-se ofendidos com caricaturas. Poderão existir outros motivos, que eu por ignorância desconheço. Em verdade vos digo irmãos que tenho andado bem mais ocupado a ler sobre paradigmas de computação e não me tem sobrado tempo para radicalismos muçulmanos. Mas mesmo que a minha ignorância possa ser a chave da minha incompreensão, também é certo que eu nunca consegui perceber o mal.

Ou seja, eu entendo o ódio (olá José Sócrates) e o desejo de violência física contra terceiros (bom dia Paulo Portas). Mas o mal, a pura essência da maldade, essa tenho sérios problemas em compreender. Serão graves deficiências psicológicas, serão as vicissitudes da vida?

Há uns tempos tive esta discussão com autóctone, cuja tese de doutoramento em história tinha sido o comportamento dos nazis belgas no pós-guerra. Ele não percebia porque é que pessoas que tinham, não só saudado os soldados alemães como dado ainda o corpo ao manifesto na campanha, não mostravam um pingo de vergonha pelos actos criminosos que foram cometidos na época. Não chegámos a uma conclusão, em parte porque nos perdemos a tentar definir o que era o mal. E quando conseguimos, não fomos capazes de aplicar a definição.

Portanto de volta à estaca zero. O que leva esta gente a fazer isto ?

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Eu também sei fazer gráficos

para desenfastiar das mamas da Alexandra, a variação do desemprego (em % da população activa) sobreposto com o Salário Mínimo Nacional (SMN) a preços constantes. Valores do PORDATA, a base de referência é o ano de 1983:

Em mais de 20 anos, o SMN aumentou quase dez vezes enquanto o desemprego praticamente nem piou. E quando o fez foi a partir da crise mundial de 2008. Portanto ou estamos a falar de (ou a graficar) coisas diferentes ou não existe relação directa, linear entre estas duas variáveis.

O cão do valter hugo mãe (salvo seja) prepara-se para assumir finalmente ser ele (o cão) o verdadeiro autor da sua (do valter hugo mãe) obra literária, o que explicaria muita coisa (para não dizer tudo), e nos deixaria a todos muito mais descansados connosco próprios, com as coisas e com o mundo.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Com quantas palavras se descreve um problema?

Os compêndios, manuais, breviários, conjuntos de regras, bíblias, listas telefónicas, sobre as famigeradas leis da escrita perfeita têm estado na ordem do dia, não sei se devido ao triunfo comercial do modelo «se podes foder-te em companhia, para quê perder mais tempo a tentar fazê-lo sozinho?» ou se por colonização massiva do espírito computacional sobre as nossas melancólicas cabeças, a saber, uma obsessão incontrolável em reduzir tudo a um algoritmo manejável pelas máquinas, não querendo, de modo algum, cometer aqui a superficialidade de explicar o fenómeno por meio da infecciosa proliferação do grande capital.

Como alternativa, este magnífico texto apresenta uma invejável síntese do mais assustador zombie da literatura moderna, a saber, uma suposta ideia de maior verosimilhança patente no pechisbeque psicologista, ou seja, uma escrita que faz do fluxo da consciência (mas que raio é essa merda?) a única forma de retratar os abismos da personalidade humana. Não entro sequer pela crítica de uma suposta profundidade da consciência (e o sublinhado é nosso), devido às minhas evidentes limitações em topologia, mas tendo em conta o sucesso comercial dos livros de António Damásio (como todos sabem, um dos piores presidentes da história do Benfica) já seria o momento do venerável público assumir que a ideia de consciência é tão inefavelmente paneleira como a de alma ou de personalidade, no fundo, um outro nome para a nossa puta ignorância sobre nós mesmos, numa frase que poderíamos atribuir ao grego Samaris, ou a Herberto Helder, com toda a certeza, um gajo que torce pelo Sporting.

Por outras palavras, quem já se confrontou com livros de divulgação na área das neurociências (e tendo em conta que a Leonor Beleza seria em nova uma gaja com um certo nível de agressividade morfológica, de um ponto de vista do homem sensível) sabe perfeitamente como os mais reputados génios da especialidade, não fazem ponta de ideia acerca do que seja a consciência. Mesmo a descrição do seu funcionamento (pelas mãos de um Gazzaniga, gajo menos espalhafatoso do que o António Damásio - e não lhe perdoamos a contratação de Artur Jorge) corre o risco de se assemelhar mais à descrição do funcionamento de uma máquina retroprojetora de transparências (e lembrei-me agora de umas aulas sobre arte rupestre dadas pela reencarnação da Marlyn Monroe, uma gaja de quem toda a Universidade dizia ter galgado o estrado do ensino académico por motivos obscuros, digamos assim) do que à descrição de um organismo vivo, qualquer que seja a definição de organismo vivo, não me fodam agora o juízo com duas questões fodidas em simultâneo, ainda que a indústria pornográfica muito nos tenha ensinado sobre essa matéria.

Em suma, estamos a secar o terreno da ficção publicável, por estarmos todos fodidos do miolo, e não há gajo nem gaja (do Chef'sAcademy ao Factor X, do Alta Definição paneleiro Oliveira à Casa das espetaculares mamas da Sofia, sejamos rigorosos, passando pelo comentário do professor Rebelo de Sousa heil hitler) repito, não há gajo nem gaja, capaz de aguentar cinco minutos de oratória confessional televisiva sem incorrer nas lágrimas, apostando eu que isto se deve a não encontrarmos solução original para os nossos problemas, que é como quem diz, uma voz própria, foda-se, caralho, quando nada nos impediria de procurar um caminho, veja-se o caso de Tolstoi (outro merdas) que via na infelicidade da adúltera sentimental um maior emblema distintivo do aquele representado pela mulher desinibida disposta a vender o corpo de forma especializada e profissional, o que não o impediu - justiça lhe seja feita - de nos falar com uma cristalina objetividade, pelo que, pergunto, teriam os russos à época um «mestre de gramática armado com régua de madeira» em lugar de um cérebro habitado por uma consciência?

Do meu triste ponto de vista, tudo se deve à imaginação lunática de uns quantos literatos que encostados à parede pelas circunstâncias específicas da sua vida (e tanto Joyce como Proust se envenenaram o suficiente com a ideia platónica de alma) deram em ressuscitar a parafernália sentimental do cristianismo sob a forma científica e mecânica da consciência, esse esgoto a céu aberto. 

I believeit is also worth pointing out that (for some sections of the novel especially),a tweet feels like (and, tripping off the tongue, even sounds like) the idealdelivery mechanism for a fractured stream-of-consciousness monologue, an artJoyce didn’t invent but certainly cemented and codified as a literary techniqueof incredible aesthetic potential. Ulysses is, in some sense, about thefragmentation of thought and culture in the modern world — a panoramic snapshotof human minds in 1904.

Logicamente, a literatura vive da descrição das coisas, 1) por uso da inteligência, e 2) com recurso ao alfabeto, as únicas regras passíveis de serem formuladas com total segurança. Quanto ao estilo e tamanho das descrições, esperamos sempre esfomeadamente esse divino momento em que alguém, libertando-se em vertigem, tanto do medo do abismo como da consolação da esperança, decide expressar-se, mandando-vos a todos vós, venerando e respeitável público, para o caralho que vos foda.

E carnevale sia! - Vittoria Risi vista da Gino Gabrieli

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Profunda vénia a todos vós


É com tristeza que confirmo que a discussão na praça pública em Portugal continua a ser feita por adolescentes com o pito aos saltos. A propósito da TAP.

O Mário Amorim Lopes, que eu desconfio ser o nom de plume de Laura Silva Pedrosa, 14 anos, natural da Alfarelos e que está inconsolável por a Liliana ter saído da Casa dos Segredos, acha que teve azar em herdar logo à nascença e contra a sua vontade, uma posição de accionista na TAP. Realmente teve azar, se tivesse nascido no Chade, ou no Burkina Faso, não teria que carregar com este ónus e poderia passar os dias a blogar sobre a guerra civil. Um dia, quando o Mário a Laura for mais velha, gostaria de lhe poder explicar os conceitos de sociedade, liberdade e responsabilidade intergeracional.

Do outro lado da barricada, temos o António Costa. Que sugere um "aumento do capital da empresa, através da bolsa, com investimento de capital privado, sem que o Estado perca a posição de controlo fundamental para a empresa". Que ele tenha dito isto sem se rir, e que o jornalista não lhe tenha enfiado o microfone nas trombas diz muito de ambos.


Que os sindicatos têm toda a razão em fazer greve é algo que me parece da mais elementar verdade. Senão digam-me: o patrão, a seguir a ter-vos cortado o salário, anuncia que a empresa vai ser privatizada e que quase/todos os privilégios em espécie que ainda recebem, vão acabar. Vossas senhorias (i) tiravam o tubo de vaselina da gaveta enquanto baixavam as calças ou (ii) faziam birra e ameaçavam partir tudo enquanto o patrão não desse o dito por não dito ? Não compreender isto é não compreender que o William Carvalho anda a jogar uma merda.
Em verdade vos digo, o estúpido no meio disto tudo fui eu que tinha adquirido três títulos de viagem na TAP para uma das datas da greve e na passada sexta tive de os cancelar e  comprar novos títulos de viagem, devidamente inflacionados pelo livre mercado, na concorrência. Mas pronto, é a errar que se aprende e eu aprendi a não efectuar comércio com a TAP. As pitas, em vez de gritinhos esganiçados, que façam o mesmo e utilizem a concorrência. E a TAP que se lixe.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Sobre estes dias


Inserir pergunta de jornalista aqui: ..................................................

domingo, 23 de novembro de 2014

Há males que vêm por bem

Ainda bem que estou emigrado, não tenho que aturar o circo que imagino está a ser a prisão do Sócrates.

domingo, 26 de outubro de 2014

Com toda a sinceridade que é possível reunir nesta hora de aflição, o verme que sou pretende endereçar encarecidas desculpas e abraçar José Luís Peixoto, lá nas alturas onde se encontre.

Estando nós a verter dos nossos lábios ressequidos o líquido viscoso típico dos pigmeus morais, tanto por sermos recalcados enquanto pessoas odiosas, como por nisso continuarmos por inclinação e vocação, eis que uma simpática leitora oriunda da terra onde reina a Ordem e o Progresso (parabéns Dilma) veio apimentar a nossa trágica existência com uma retumbante e legítima acusação de recalque, ainda a propósito do texto mais lamentavelmente lido (de acordo com as diabólicas estatísticas) nesta nossa singela publicação O Elogio da Derrota, a saber, uma merdola qualquer e sem interesse nenhum a propósito de uma crónica do imortal José Luís Peixoto, merdola que eu próprio, num triste momento da minha vincada e original estupidez, dei a lume com tremenda frustração diante do Carnaval de parvoíces que me caracteriza, de onde gostaria de salientar, entre numerosos exemplos aqui passíveis de serem aduzidos, a minha contumaz mania de fazer do mundo um lugar melhor para todos, a começar por todos e cada um dos leitores de José Luís Peixoto, deus os ajude.

Porém, volvidos dois anos, e sendo o referido texto satírico por mim redigido, uma retumbante merda, não posso deixar de o apresentar aqui como prova da minha existência como ser vivo, e testemunho da luta sem quartel a que me entreguei nestes últimos anos, ficando este texto para a posteridade, como uma de várias dolorosas cicatrizes nesta minha ascensão ao Olimpo, não estando o referido monte dos deuses sequer à vista (Olimpo onde, segundo reza a lenda, passeiam gajas nuas de aljavas penduradas nos apetitosos flancos, mas também paneleiros, é preciso ter cuidado). Contudo, porém, e sem esquecer que no entanto, nada me impedirá de prosseguir nesta vitoriosa senda em busca de qualquer coisa melhor do que esta hora em que nos encontramos, precisamente, as 17 horas e 18 minutos de uma tarde onde é imperioso derrotar o Braga de Sérgio Conceição.

A referida prosa:

 Notícia de última hora: José Luís Peixoto explica ...

O comentário da simpática leitora Lena:

Nossa! Seu "recalque" é de doer as vistas... Como diria uma "pensadora contemporânea" brasileira, "beijinho no ombro para o recalque passar longe!". 

Lembro, contudo, aos ilustres leitores aqui trazidos por qualquer irónica curva do nosso sistema político-digital, que neste tenebroso e húmido lugar, como o próprio título indica, trata-se de elogiar a derrota, o recalque, o falhanço, a impotência, a falta de mulheres, a escassez de dinheiro, a ressaca, os golos falhados por Lima (avançado do Benfica), as noites em branco, o ranger dos dentes, o morder da almofada, o espremer da bílis, o ressentir da inveja, enfim, todas as patologias psicológicas de que o leitor, como filho (ou filha, ou filha, não esquecer) da nossa bendita medicalizada civilização, for capaz de convocar neste momento de aflição da história da cultura ocidental. Na verdade, para celebrações do génio, temos inúmeras instituições, nomeadamente, as pessoas espectaculares, o que não é, manifestamente, o meu caso, pois tenho bilhete comprado no comboio das doenças mentais, e com muito gosto, o amor de Cristo nos uniu, saudai-vos na paz de Cristo.

Apesar destes excitantes momentos de tensão quero parabenizar a simpática Lena pela sagacidade espiritual e agradecer o beijinho no ombro, tão necessitado estou de carinho neste já longo mês de Outubro, aflito com o destino da minha vida, esmagado com as previsões da minha consciência, derrotado pelos raciocínios do meu cérebro, enjoado pelos espasmos do meu sistema nervoso, inquieto pelas deambulações do meu pessimismo, queimado pelos incêndios da minha imaginação. A todos os leitores e leitoras de todo o nosso belo mundo, do Atlântico ao Pacífico, passando pelos recifes de coral e as neves eternas dos Himalaias, o meu muito obrigado por continuarem a ler O Elogio da Derrota, este imperdível bastião na luta contra tudo e todos, incluindo eu próprio.


quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Amanhã o meu dia vai ser assim

No filme "Não ou a vã glória de mandar", aquando da batalha de Alcácer-Quibir, o Luís Sintra interpreta um coxo que incentiva os soldados a irem combater com a seguinte frase (cito de memória):

Vamos ! Em frente, que foi para morrer que aqui viemos hoje !

Já não sei o que aconteceu à personagem, provavelmente lerpou junto com el-rei Dom Sebastião. Mas está tudo bem comigo.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

De que gostam, afinal, as mulheres?

This Week's Visits

Blogue Ciberescritas (http://blogues.publico.pt/ciberescritas/) da jornalista Isabel Coutinho, Ipsilon/suplemento cultural (risos, risos) do Público/ Grande Capital/Espírito Santo Finance/Sonae, SA/Tony Carreira/Instituições/As forças do mal, etc, etc.



Parece que efectivamente, contudo, morreu o companheiro de Marguerite Duras. Este tema levaria a colocar em perspectiva a ascensão da mulher no mercado do livro, quer enquanto consumidora, quer enquanto autora, quer enquanto crítica, quer enquanto unidade de potência, quer ainda enquanto força de tracção à retaguarda. No entanto, somos forçados a admitir que as coisas vão muito mal, quer dizer, vão muito bem, uma vez que nos é dado sempre experimentar a áspera e salgada língua da realidade.

Poderemos extrair de um irrelevante evento da vida da, portanto, já falecida Marguerite Duras, algo de substancial? No caso de uma potencial e impotente resposta afirmativa, poderemos, nesse caso, e efectivamente, apenas concluir alguma coisa acerca da pertinência do artigo recentemente publicado no Público pela sempre bela, helénica e atractiva (a julgar pelas fotografias) Isabel Coutinho (que esperamos, em Cristo, não ser relacionada geneticamente com a  família Pereira Coutinho, a bem de Portugal, de Fátima e da necessária aleatoriedade dos poderes cósmicos do Universo). 

http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/yann-andrea-companheiro-de-marguerite-duras-morreu-aos-63-anos-1662528
(é que já nem um link sei introduzir nesta merda)



Tentaremos neste breve intervalo da nossa tragédia profissional responder a esta elegante, pretensa e ociosa, questão: qual o interesse para o público de uma notícia sobre a morte do companheiro da escritora Marguerite Duras? Evidentemente, nenhum. Todavia, o jornalismo insiste em fazer dos suplementos culturais a coutada da sobrevivência das espécies nacionais em extinção, nomeadamente, os funcionários e colaboradores dos jornais. Se isto é iniciativa privada, venha a função pública em todo o seu vibrante esplendor, paramentada de roxo e ajaezada à Andaluza. Claro que os leitores mais versados em Paulo Coelho, ou noutra qualquer quincalharia psicológica mais sofisticada, estarão agora a arquear a felpuda sobrancelha, exclamando: este gajo (ou seja, eu) quer é ir para lá. Nada mais errado. Eu quero é que não me venham foder  a paciência com a ideia da justiça e da sustentabilidade dos projectos mediáticos, que isso sim, me inferniza a vida e a de todos os que pretendem sobreviver (sem lamber o cu ao sistema mediático-editorial) pelo uso das faculdades mentais, nomeadamente no uso inteligente do alfabeto e da narrativa.


Vi em diversos espaços culturais, sem excepção do facebook, menções aos Cavalos de Tarquínia da autoria de Marguerite Duras, livro que tenho todo o gosto em nunca ter metido as mãos. Gostaria contudo, e portanto, de muito ter sido convencido pelo artigo de Isabel Coutinho. No entanto, e infelizmente, os livros continuam a ser entendidos pelas pessoas dos livros como objectos sem  capacidade para marcar a agência noticiosa, pois a mesma encontra-se saturada pelos eventos biologicamente associados aos autores dos livros. Por outras palavras, as pessoas que vivem à custa dos livros, continuam a não estar dispostas a morrer pelos livros, razão pela qual, e não me canso de dizer isto, Cervantes já ridicularizava o romance como destino comportamental. Quer dizer que um gajo a quem a guerra e a puta da vida decepara um braço em batalha, estava disposto a sofrer, apesar de tudo, por um destino cujo fim último seria a ambiguidade, o equívoco, e depois, o esquecimento, última estação de todo o animal falante.

Contudo, os comerciantes do livro são os primeiros a enterrar as propriedades do livro num monte de contradições, contribuindo para a misteriosa evolução da natureza, sem que nenhum deles, ou mesmo nós, possamos resolver o irremediável labirinto de erros, razão que nos deveria levar a maior prudência nos actos, mas de caminho temos de almoçar. Isto é muito mais do que trágico, isto é Impulse. A bondosa jornalista Isabel Coutinho, estimulada pelo chefe, e o próprio chefe, estimulado por uma percepção dos gostos dos indivíduos, ou muito pior, a jornalista Isabel Coutinho, ela própria, convicta da importância da morte do companheiro de Marguerite Duras, decide gastar o caríssimo e acossado espaço da imprensa generalista para nos brindar com bugigangas reais (meu deus, reais, reais) a propósito da vida sexual (eventualmente, eventualmente) do companheiro da escritora Marguerite Duras, ela própria tão estimulante sexualmente como uma melancia. Bem, talvez a melancia, enfim.


Quero portanto concluir, com júbilo e ao som de trombetas, que o artigo jornalístico de Isabel Coutinho não é muito melhor do que O poder do amor, programa de entretenimento da SIC generalista, ao entronizar a realidade como produto cultural, dando-se ao jogo mortal (por fraqueza de raciocínio e homérica ignorância) de uma suposta eficácia económica baseada na visão sobre o papel dos sentidos e dos afectos nas relações de comunicação entre orgãos mediáticos e público. Claro que esta merda vai desabar a qualquer momento, mas enquanto não desaba, eu passo por maluquinho e a realidade passa por ajustada à «realidade». Ou seja, está em marcha um triunfo sensacionalista do sensualismo moderado, e seria interessante avaliar o papel das mulheres nesta evolução. Fariam os estúpidos dos homens melhor? Claro que não. Em primeiro lugar, não pretendo, deus me livre, fazer aqui qualquer apologia da relação entre sagacidade crítica e orgãos genitais masculinos. Em segundo lugar, o fenómeno é por demais complexo para que possa conferir-se às mulheres uma unidade de intenções ou uma planificação dos produtos culturais. Não pode contudo negar-se que há qualquer coisa de diverso num certo triunfo da novela/romance/amor enquanto tragédia dos afectos moderados, de longo prazo, bem como dos cálculos de segurança e previsão do lar, por oposição à novela/romance/amor enquanto tragédia do desejo apolíneo, violento, efémero, múltiplo, destrutivo, sistemático, artificial, irónico, anti-natural e anti-reprodutivo, e por isso, tido como anti-humano. 


O mais relevante, neste tipo de problemas, é a existência de uma ideia de sustentabilidade económica, de burrice estratégica, de enviesada concepção da natureza, ao entender o jornalismo da obra de ficção como sujeito às mesmas leis da comunicação de acidentes ou eventos de sociedade, em si, um sub-produto das gazetas e crónicas aristocráticas do século XVII. O livro de ficção é o contrário do jornalismo, e se isto não é claro para um jornalista, devia ao menos servir como um supositório anti-febril. Meteu-se na cabeça das pessoas que escrever sobre livros do passado não faz parte da actualidade actuante, e de caminho mergulha-se na necrologia de sub-produtos da vida mental dos escritores. Ou estão o Jornal Público e a Isabel Coutinho convictos da importância deste incidente (a morte do não sei quantos) na vida biológica mundial, ou, naturalmente, teriam de assumir a sua vocação quixotesca e analisar os problemas (o que é um texto? a quem se dirige? que instrumentos usa? que comportamentos induz? em que pressupostos lógico-científicos se baseia? propõe explicações para a tragédia da indecisão humana, etc, etc) mesmo que para tal fossem forçados a trabalhar um pouco mais a linguagem. Gostaria de lembrar que enquanto Cervantes escreveu merdolas a gosto, cirandou pelos becos, e quando escreveu a sua imortal paródia, alcançou o sucesso comercial. Não sou ingénuo ao ponto de pensar que existe um Cervantes potencial em cada jornalista/colaborador do Público. Em todo o caso, acredito na inteligência das pessoas.

Palpita-me que, como em muitas outras coisas, o problema reside neste entroncamento: o trabalho custa. Ao ser necessário introduzir mecanismos retóricos (humor, sensacionalismo) no tratamento dessas questões, para além do domínio das mesmas referidas questões (e passo a repetir: o que é um texto? a quem se dirige? que instrumentos usa? que comportamentos induz? em que pressupostos lógico-científicos se baseia? propõe explicações para a tragédia da indecisão humana) o jornalismo entende ser mais democrático entregar ao público o que o público, supostamente, já conhece, incorrendo, o referido jornalismo, na ideia de que o jornalista não é um professor mas apenas um simples e humilde mensageiro. Esta é, porém, a terrível ferida mortal por onde sangra o jornalismo: nesse caso, o jornalismo deixou de ser necessário, pois somos todos jornalistas, razão pela qual os jornais se estão a foder à grande e à francesa.

Que a política (luta pelos orçamento de Estado) incorra nesta demagogia infértil, desculpa-se com um certo conhecimento dos vários totalitarismos, um pouco de boa vontade e alguma vaselina. Que o façam os jornalistas culturais, sempre prontos a choramingar atenção diferenciada para a cultura, constitui-se como uma realidade chocante. Deste modo,  e continuando a festa, não virá ao mundo nenhuma decadência moral pelo facto de os livros desaparecerem da nossa paisagem mediática, nem sequer se forem eliminados, por completo, das nossas ferramentas digitais e dos nossos hábitos de consumo. Não incorro sequer no tremendismo das críticas ao inevitável empobrecimento da linguagem se os textos literários se virem extintos às mãos, digitalmente adestradas, de universitárias mamalhudas, cheias de sonhos e esperanças, que fazem do terrorismo ortográfico o mais doce dos cantos. Só não admito que imputem à natureza e ao progresso o que só à burrice, e à trágica liberdade, dos homens e das mulheres diz respeito.



arte etrusca

Cavalos de Tarquínia, ao que parece, fabulosa escultura etrusca, terra das imortais italianas de longas pernas e ágil língua.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Entre o conservadorismo e a Lana Del Rey, o público, graças a deus, não hesita.

João Pereira Coutinho assinou recentemente a defesa pública do conservadorismo. Mas o público, sem tempo para perder tempo com inovações (a alfabetização das massas ou a leitura de livros) pergunta desconfiado: o que é o conservadorismo? Não se pode explicar isso num minuto? Temos mesmo de comprar o livro?

Para sossego das consciências modernas, respondo: claro que não. Devo dizer, antes de mais, que é muito estimulante circular numa República onde 80% das personalidades públicas resultam de um belo efeito de conservação, sendo que não basta, a conservador que se preze, esse simples efeito de conservar a sua posição inicial de pessoa bem nascida. Não, não, de modo algum. O conservador procura por todos os meios espalhar o germe da conservação, ficando, por exemplo, o pobre republicano, socialista e laico espantado com o facto de o conservador pretender dirigir-se a um público para conservar o estado de coisas. Não seria melhor, se o objectivo é conservar, manter o silêncio? Daqui resulta um sinistro paradoxo, ao pretender o conservador alterar a situação do público em relação a uma situação inicial específica (ou seja, o conservador não convive bem com o facto de o público poder permanecer ignorante absoluto do que seja a conservação). Em geral, o conservador não se perturba com estas contradições, pois conserva também vários amigos cuja conservação o leva a escrever em jornais (esses instrumentos da conservação) e livros (objectos frutos da conservação do manuscrito) esforçados no gesto de convencer quem os rodeia de que devem conservador aquilo que a todos nos mantém de joelhos perante os conservadores.

Assim, o monumental João Pereira Coutinho, ilustre cientista (oi) político, publicou, na sua versão portuguesa, um belo manual sobre conservadorismo, não se lembrando que a simples publicação do seu livro constitui uma retumbante refutação dos méritos do conservadorismo. Como apelidar estes frutos da incapacidade de os conservadores se conservarem como estão, calados, preferindo os conservadores dirigirem-se aos outros para os convencer a não conservarem a sua ignorância sobre o que os conservadores têm para dizer? Bem, não temos resposta para esta pergunta, mas creio que as coisas na Universidade estarão cada vez mais difíceis.

Não conheço as origens específicas da família Pereira Coutinho (resistindo eu contra todas as pulsões lunáticas do meu sistema nervoso que me levariam a investigar de onde raio saiu o João Pereira Coutinho para chegar depois à landscape da conservação). O desconhecimento das origens intelectuais de João Pereira Coutinho não nos impede, contudo, de nos maravilharmos com os necessários e inegáveis méritos da conservação, pelo menos durante alguns minutos, mesmo que diante de uma certa perplexidade, tendo em conta a multiplicação de conservadores alojados nos sovacos de uma instituição conservadora, como a Universidade Católica, cuja conservação se deve a esse grande conservador, Jesus de Nazaré, um gajo com tal capacidade de conservação que resolveu pregar-se a duas tábuas cruzadas para ver quanto tempo aguentava conservado na mesma posição.


Lana Del Rey

Lana Del Rey, conservando os braços abertos em posição crística.