terça-feira, 27 de junho de 2017

O homem pré-histórico, a dor emocional e João Tordo

Nada tenho contra o autor multi-premiado João Tordo, e digo isto com toda a sinceridade que me é possível, tendo em conta o facto de me terem sido concedidos, no atrapalhado e aleatório processo de evolução, um sistema nervoso, competências sociais e linguagem natural dotada com o poder da ambiguidade, mas as reacções apaixonadas dos leitores, e acreditando na escassez de intencionalidade individual implícita na natureza humana, levam-me a esta torturante e infinita missão de compreender os para mim desesperantes enigmas do comportamento em rede, e dou por mim a ler críticas literárias de jovens mulheres, no GoodReads, tal como a que vai seguir-se:


Ser-se português implica carregar todo um legado emocional. Se é verdade que o sentimento saudade só tem palavra definida na nossa linguagem, também é verdade que existem pequenas particularidades que parecem ser encontradas só na nossa gente. A literatura portuguesa tem-se mostrado, nos grandes romancistas, recheada de uma profundidade que é raro encontrarmos na literatura estrangeira. Não falo de complexidades ou genialidades, falo antes de uma capacidade em explorar emoções e locais intrincados da mente humana no que toca ao relacionamento do eu consigo mesmo e do eu com os outros. Estreei-me na escrita de João Tordo com Biografia Involuntária dos Amantes e não demorei muito a aperceber-me que estava perante um escritor com essa capacidade. O luto de Elias Gro, embora num registo diferente, confirma esse talento nato, de alguém já amadurecido na escrita e capaz de enfrentar as suas próprias sombras.

E remata com um excerto do referido livro, O Luto de Elias Gro da autoria do próprio João Tordo:

"Parece que o lugar onde estamos nunca é suficientemente agradável. Deixa-me ver se acolá se está melhor. E, quando lá chegamos, percebemos afinal que a vida também estava a acontecer onde estávamos. Mas agora já estamos acolá e não podemos regressar, porque a vida também acontece acolá."

Vamos deixar por agora esta variação primária, da autoria de João Tordo, sobre um tema original de António Variações, Estou Além, e concentrar a nossa atenção sobre o que nos diz esta simpática leitora que vou manter no anonimato. Quero sublinhar uma afirmação da jovem leitora, quando na posse de uma invejável lucidez diz: Não falo de complexidades ou genialidades, falo antes de uma capacidade em explorar emoções e locais intrincados da mente humana no que toca ao relacionamento do eu consigo mesmo e do eu com os outros. Apetece-me assinalar aqui a enorme generosidade das mulheres, como dizia Vinicius de Morais, colocadas no mundo «só para sofrer pelo seu amor e ser só perdão», não creio que restem dúvidas sobre isso.

Queridos leitores, não quero ser mal entendido! Nesta altura do campeonato já não tenho saúde, idade ou peso para condenar a experiência psico-motora dos meus concidadãos quando se sentem democraticamente representados na página de um livro. A minha perplexidade é sincera, fruto de uma intratável curiosidade mórbida pelo amor gratuito e injustificado, e decorrente de um filtro lógico (imposto à minha mente por um misto de disciplina escolar e recusa da autoridade) viciado em compreender padrões de adesão à realidade. 

Bem sei que um teste sobre a cultura literária (e as competências analíticas e linguísticas dos leitores) nos desvendariam, com excruciante simplicidade, a chave destas problemáticas relações sociais de produção de gajas e gajos apaixonados por livros cheios de tralha sentimental, sem ponta de compreensão sequer da ponta de um corno de um touro de Benavente, quanto mais sobre os locais intrincados da mente humana no que toca ao relacionamento do eu consigo mesmo. Uma das características do eu na relação consigo mesmo é a incapacidade de saber de que forma o eu dos outros se relaciona com eles mesmos. Neste domínio, recomendo um vídeo de Gustavo Santos.

Sabemos bem como tudo isto resulta da liberal desigualdade na distribuição de motores de busca adequados à procura de sentido para o absurdo medo do mundo em que vivemos, num tempo em que a religião deixou de ser socialmente aceitável. As pessoas (e bem) ficaram entregues a si próprias, e invadiram desesperadas as livrarias, em busca de um texto onde a sua incapacidade de subjugar os outros pela inteligência (ou o poder profissional e financeiro) encontre o justo (e generoso) correlato de uma cura para as dúvidas sobre as suas próprias inseguranças. 

Em cima de uma linguagem saturada de palestinianos pescadores de sandálias e platonismo filtrado pelo voluntarismo semita (repetida incansavelmente aos nossos ouvidos durante dois milénios) os sacerdotes descentralizados da pós-modernidade (os cultores da palavra impressa) já muito encostados à parede pela jargão da psicologia popular (os lugares emocionais, as feridas da memória, os amores feridos) vão agora, esfarrapados e esfomeados, recolher pobres leitores perdidos nesse gigantesco subúrbio formado pelos corações atribulados da sociedade do (risos) conhecimento. Sofrem as mulheres (em maior número, na medida em que sempre foram o público mais dotado em capacidades de organização do tempo e interesse pelo que os homens confusos têm a dizer) e sofrem os homens apanhados nas garras da sentimental-literatura-premiada pelo desejo de negociar em espécies raras.

Será justo libertar o riso por cima desta Tragédia? Sim, pois não se trata de uma tragédia mas da vida de todos os dias, em que é necessário respeitar o adversário, mas não dar tréguas à ignorância, ao oportunismo e à falta de respeito pelas pessoas, mesmo, ou sobretudo, as que não devem ser tratadas como atrasadas mentais só porque não possuem um Doutoramento em Sociologia dos Transgénicos Pouco Apreciados por Tatuados Comedores de Saladas Biológicas Com Familiares Afro-Ameríndios. Claro que a reacção mais evidente será a de recusar um discurso, neste caso, o meu, assente na expressão eventualmente grosseira de um julgamento (eventualmente sobranceiro e cruel) sobre a trapalhada sentimental em que labora o projecto literário de João Tordo. Afirmativo, como dizem os agentes da autoridade, é essa a beleza de sermos todos diferentes (em diversa relação com o nosso eu e com o eu dos outros) onde acresce o facto de eu ser um gajo particularmente irritante (muitas vezes em desacordo com o meu eu) e apostado em diversificar a fauna do nosso mundo literário. Nesse sentido, queridos amigos, vou partilhar convosco um texto de trabalho, acompanhado por materiais didácticos.

 Aos 4 minutos e 54 segundos do instrutivo vídeo que o estimado leitor pode ter a oportunidade de visualizar no link abaixo, o companheiro de luta João Tordo profere as seguintes afirmações, e passo a citar:

«Como é que eu lido com o sofrimento? Quando eu escrevi o livro percebi alguma coisa sobre o sofrimento que eu não tinha percebido antes, no sentido em que, quando eu terminei o romance... (pausa, confusão mental, curto-circuito, bzzzzzzz, prossegue em esforço) Nós temos uma relação física com a dor que é muito óbvia, quando eu parto um braço (João Tordo agarra o pulso) ou se me dói aqui (João Tordo aponta para o ombro esquerdo) eu vou ao médico e trato o braço, ou trato aqui (João Tordo, um pouco atordoado, aponta para o ombro esquerdo, já visivelmente aterrorizado pela trapalhada em que se meteu) e sei instintivamente que o sítio onde está a dor física é o sítio onde a dor se cura (bzzzzzzz, pfrrrrrrrrr, válvulas em alta pressão, perigo de colapso na cabeça do João Tordo, ó rodas e engrenagens rrrrrrrr eterno! e prossegue em esforço) ou tem a possibilidade de chegar à conclusão. (João Tordo faz nova pausa, olha para o infinito, e de uma forma decidida, corajosa, autoritária, impenitente, remata para a conclusão). Na dor emocional a coisa é muito diferente. Porque na dor emocional, na dor emocional a nossa resposta é a fuga (pausa para pensar, pânico, dúvida existencial, e prossegue). E isto é assim, desde sempre (riso embaraçado, encolher de ombros, pânico, dor física no intestino, vontade de fuga, mas prossegue) Já se falava, já se falava dos homens, do, dooo, doooo, os homens pré-históricos, o homem pré-histórico reagia assim também, os, os, os, tinham três comportamentos, luta (com as mãos abertas, querendo agarrar a fugidia ideia pelos cornos) fuga e paralisia  (olha para o entrevistador como se tivesse avistado um búfalo agressivo, mas retomando a sua posição de estadista, prossegue) E a paralisia surge quando, quando há um fenómeno de tal maneira, de tal maneira, aaaaaaa, estranho ou que cause tanto sofrimento que a nossa única resposta é paralisar (sensação de alívio na cara de João Tordo por ter chegado ao fim da paralisia) E essa nossa reacção que se foi propagando geneticamente (João Tordo faz um gesto de espiral, simbolizando um esforço neuronal no limite das suas possibilidades sinápticas) chegou até hoje, portanto, a nossa resposta perante a dor emocional é fugir». 

Imagem relacionada

quarta-feira, 29 de março de 2017

Uma simpática interpelação (e não estou a ser engraçado, a interpelação é mesmo simpática) merece resposta digna dada a importância do assunto

Deixemos de lado o assunto sobre a correcta redacção das quotas ou cotas, sou daqueles para quem a ortografia é como a regra do fora de jogo, o que interessa é que a bola (da minha equipa, claro) entre na baliza. Assumo desde já a minha culpa, pelo facto de o texto ter sido escrito num certo estado de embriaguez, não clarificando cabalmente a minha posição. Quero dizer com toda a frontalidade: sou favorável às cotas para mulheres (isto ao som de uma fanfarra com duas bonitas bombeiras a rufar caixa logo na dianteira - peço desculpa). As cotas resolverão um importantíssimo problema: o da diversidade no acesso ao poder, não o da qualidade no exercício do poder. Mais: a justificação das cotas para mulheres com base num alegado aumento do mérito e da competência - e esse era o meu ponto - enfraquece o principal esteio na fundamentação das cotas, a saber, a justiça e a paridade no acesso a cargos de poder. E isto parece-me claríssimo como água, e foi precisamente isto que a jornalista Fernanda Câncio não compreendeu, seduzida pela força da pseudo-lógica e da autoridade do argumento científico e do sacrossanto princípio da (risos) meritocracia no mundo contemporâneo.

É precisamente pelo facto de as coisas poderem correr mal que a decisão será bonita, progressista, humana e absolutamente desejada. Se a clarificação deste ponto ofende a causa, calo-me de imediato, mas tenham paciência, estou devidamente enfadado quanto à fundamentação de valores políticos com base na eficiência. O julgamento do valor deve ser livre, e a política serve, como aliás julgo que defende a nossa leitora, para obter consensos sobre o que deve ser imposto pela força por ser moralmente desejável (como a protecção da vida ou a necessidade de abolir a saúde privada, temos pena) e por isso, impenetrável a qualquer fundamentação mecânica de ganhos materiais ou (risos), incluindo ou sobretudo, qualquer ideia de mérito ou de superioridade da inteligência.

Clarifiquemos os princípios metafísicos do nosso raciocínio. Diz a leitora e autora do blogue Um jeito manso:


Afirmações muito interessantes mas problemáticas. A ousadia na utilização de um termo como medíocre é comum talvez em pessoas habituadas a cargos de chefia. O que é um medíocre? O que é um medíocre sobrevivente? Eu tenho uma ideia: uma pessoa num cargo de chefia. É precisamente por existir um conflito entre evolução e sobrevivência, por um lado, e valor moral, justiça, mérito ou mediocridade, por outro, que a imposição de um princípio «artificial» à evolução natural, nada nos diz sobre os benefícios para a evolução desse artifício. Como a sobrevivência não garante a bondade ou inteligência do sobrevivente mas a sua existência, não podemos fundamentar as nossas decisões políticas em termos de benefícios para a evolução, até porque, caramba, quantas vezes temos de repetir, nós não sabemos para onde vamos. Temos ao nosso lado, outros ilustres doidos varridos como Philip K. Dick ou Emanuel Pimba Kant: a capacidade de alterar as respostas em virtude da estupidez dos resultados obtidos é precisamente o que nos caracteriza como humanos, mas isso nada nos diz sobre a nossa relação com a natureza, pois, senhoras e senhores deputados, nós não sabemos onde termina a natureza e começa o artifício. Mais: a ideia de mérito tem uma relação muito problemática com a evolução e ainda mais com a inteligência, e julgo que nisto também estamos de acordo. Vamos então pensar se andam entre nós andróides, ou seja, pessoas estúpidas e mentecaptas.

Como é evidente, não vos sei dizer, mas posso eventualmente tentar responder onde andam pessoas maldosas - seguramente, muitas, nos cargos de chefia das organizações - e essa é talvez a ideia mais bonita da literatura em geral, sobretudo na obra do não devidamente apreciado e já referido autor, Philip K. Dick. Todavia, tenho cada vez mais dificuldade em qualificar as pessoas como estúpidas, não pela inexistência de estupidez, mas por nos estarem vedados, quer as razões da estupidez dos outros, quer o contributo dessa estupidez para benefícios eventualmente gerais mas invisíveis no momento. Sei como isto me aproxima perigosamente de um qualquer budista californiano neste momento pedrado com canabis e a babar-se algures em S. Francisco, no meio de uma pilha de livros de Tagore, mas como leitor de Cervantes (meu amado mestre) não posso trair a minha natureza de pessoa com uma certa coragem para enfrentar a realidade.

Na verdade, estou convicto de que a infinita beleza e especificidade do ser humano reside precisamente no facto de as pessoas mentecaptas poderem reconverter-se e sei muito bem como a autora de Um jeito manso pensa como eu, ou não teria perdido tempo a dirigir-me a palavra, tentando reconverter um engraçadola que não tem qualquer experiência sobre a dificuldade de ser mulher. E por isso, aconteceu aqui um daqueles bonitos momentos tão comuns nas redes sociais, mas a que os aparelhos ideológicos do Estado não conferem a devida importância: foi-nos apontada cordialmente uma outra perspectiva, com base numa comunicação simples, e nós aceitamos o reparo. Ou seja, a minha estupidez tem obviamente limites e não me julgo muito melhor do que a esmagadora maioria das pessoas. Vou então refazer o meu raciocínio - agora sem alusões indirectas - reforçando uma conclusão radicalmente diferente. Peço paciência para quem me acompanhar.

Sim, é verdade, o poder de sobrevivência nada tem a ver com o mérito ou a mediocridade, posso sobreviver e isso resultar num rotundo falhanço da minha inteligência, aliás, posso sobreviver precisamente por ser um bocado estúpido. Estamos portanto de acordo. E pode dar-se o caso de as mulheres eleitas para cargos de poder, precisamente por estarem, na sua formação, sujeitas a um ambiente muito adverso, serem ainda mais estúpidas do que os homens chegados de forma «natural» aos cargos de poder. Teríamos de analisar cada caso, pois em assuntos humanos, é muito perigoso aplicar princípios gerais em assuntos como o mérito: e este, repito, era o meu ponto. Creio que continuamos a usar a selecção natural e a teoria da evolução sem uma cabal compreensão do equivalente à hereditariedade genética em termos de reprodução em cargos de relevância social. Ou seja, não conhecemos muito bem a economia humana na articulação entre autoridade, prestígio e género sexual, caso contrario, já estaríamos todos no paraíso. Vamos então à adaptabilidade do mecanismo das quotas no sentido de garantir o triunfo sobre a mediocridade. Senhoras e senhores, aqui começam os problemas. 


A autora refere «não acreditar» na inexistência geral de uma mulher pelo menos tão competente quanto o menos competente dos homens nessa comissão, mas a sua crença e a sua experiência pessoal são argumentos, se me permite, muito frágeis, pois eu diria que depende muito da organização, do número de mulheres a trabalhar nessa organização e sobretudo, dos critérios de quem escolhe os colaboradores. Não subestimaria a hipótese de a mulher escolhida ser pior do que o pior dos quatro homens (e pior em quê?), tudo depende do conjunto, e sobretudo dos critérios, repito, dos critérios com que foram seleccionados os homens e as referidas mulheres. A autora de um jeito manso diz que, em geral, em níveis mais baixos das organizações, há normalmente muitas mulheres e esse é um dado em que tenho de confiar, mas é um dado no mínimo vago. Na verdade, um dos problemas das cotas, será a obrigatoriedade de estender a obrigatoriedade de um mínimo de mulheres escolhidas, em todos os níveis da organização, caso contrário, o efeito pode ser um bocado pífio, e resultar precisamente no contrário aos objectivos pretendidos, um fenómeno aliás, estatisticamente muito comum na política. 

Creio que no afã de suportar uma causa justa (e a causa é justa, relembremos) estamos a esquecer que o mesmo raciocínio poder servir para um caminho inteiramente diverso. E por isso, a argumentação do meu post anterior: se o machismo é dominante e se os homens estão em franca maioria (e não me parece que apenas no cargos de chefia, depende das profissões, e por isso, teremos de, em seguida, passar ao problema das profissões «masculinas»), a pressão de competição entre os homens será maior, e talvez a injustiça, em termos relativos, quanto a nomeações por competência nos cargos de chefia, seja até maior no caso dos homens. Não vejo por isso qualquer relação entre a determinação de cotas para mulheres e o aumento da competência nos cargos de chefia - e este era o meu ponto. A obrigatoriedade de cotas para mulheres no topo das organizações pode, pelo contrário, demonstrar uma «falsa» inaptidão da mulher para cargos de chefia, ao recrutar num ambiente menos numeroso, mas muito adverso, e isso seria mortal para o argumento da competência e da meritocracia. Todavia - e agora as bombeiras começaram a rufar as caixas - isto não tem qualquer interesse para o argumento da paridade no direito da mulher obter um cargo de chefia, seja mais ou menos incompetente do que os seus colegas homens. 

Talvez o meu erro tenha sido argumentar sobre um assunto onde, concedo, a urgência de garantir a igualdade deve preceder considerações de ordem meritocrática, até porque as organizações, as empresas, os clubes de futebol, estão cheios de homens estúpidos e incompetentes. Nesse sentido, tenho o prazer de anunciar que concedo inteiramente este ponto. Talvez não seja o tempo de cobardes considerações teóricas sobre os equívocos da meritocracia em termos de selecção dos cargos de chefia (até porque em geral as pessoas escolhidas, i.e., os sobreviventes, serão, com toda a certeza, lamento, os piores de nós). Talvez seja, sim, o tempo de conceder a igualdade de acesso às mulheres no comando da sociedade. Quanto aos resultados, logo se vê.

Resultado de imagem para Blad runner

terça-feira, 28 de março de 2017

Novels are about other novels — and how they make us suffer

Felizmente, ainda há pessoas preocupadas com o nosso entretenimento. Saiu o novo livro da fabulosa Elif Batuman. Aqui.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Era no tempo em que os escritores ganhavam dinheiro

The editors of the Post agreed to the idea of a series, but suddenly there was a problem. Faulkner discovered that his plan would not work with just the three additional stories he had in mind. H e needed to provide a bridge; he had to use some of his material to get him from what he called "the War-Silver-Mule business"" to the Reconstruction. Then another problem developed. Graeme Lorimer, of the Post's editorial staff, would not offer as much for the series as Faulkner wanted. At this juncture the flirtation from Hollywood turned into a contract offer from Hawks: Universal Studios would hire him at $1,000 on a week-to-week basis. He may have been relieved to leave the stories for the time being, and he made plans to fly out.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Um dos mais impressionantes inícios da literatura do século XX recusado por todas as editoras

I am made out of water. You wouldn't know it, because I have it bound in. My friends are made out of water, too. All of them. The problem for us is that not only do we have to walk around without being absorbed by the ground but we also have to earn our livings.

Actually there's even a greater problem. We don't feel at home anywhere we go. Why is that?

The answer is World War Two.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Convosco, Dorsa Derakhshani, uma personagem imortal, criada por Roberto Bolaño








quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Gentil Senhora Ferrante, estarei apaixonado por si?

Nem sempre é fácil resumir cabalmente o papel desempenhado por este blog. A crítica raramente pode ser excessiva ou injusta, pois quanto aos escritores de escasso talento, consagrados pelo afecto pessoal, a Academia e o mandarinato, sempre insidiosos e manipuladores, a enviar likes e beijinhos a figuras destacadas do meio literário (e falo de casos reais), será sempre difícil neutralizar a sua estratégia medonha em tempo útil, e muito menos nos anima qualquer espírito inquisidor. Tenham muitas felicidades, convençam os júris formados por cinco velhinhos/as e um galã literário, e alcancem todos os prémios possíveis, mas não nos peçam para apoiar (e silenciar) a venda a céu aberto de gatinho rafeiro estufado, nas vezes da lebre de coentrada.

Quanto aos escritores, aqueles a quem justamente podemos qualificar como tal, esses terão sempre a última palavra, sem precisarem de mais do que a página do livro, e triunfarão sobre a inveja, a maldade, a sobranceria ou a severidade das apreciações. Por isso, nem um ano passado sobre um azedo tratamento do seu anonimato, sou forçado a partilhar o momento em que a gentil senhora Elena Ferrante (Escombros, p. 40) me agarrou pelos testículos e me obrigou a ajoelhar, para grande prazer da minha inteligência, aliás, sempre pronta a declarar-se derrotada, se para tal existem razões e méritos literários.

«A pergunta é a seguinte: porque é que, apesar de ter lido o meu livro há um ano, apesar de o ter apreciado como diz, concretizou a ideia de entrar em contacto comigo só agora, depois de ter sabido que vai ser feito um filme baseado em Um Estranho Amor?
Se tivéssemos, não digo de fazer uma entrevista, mas de ter uma conversa amigável, eu discutiria consigo sobretudo as razões para ter levado tanto tempo, partindo por exemplo de uma observação sua. Escreve você, mas menos brutalmente do que eu resumo: o seu livro diz-me alguma coisa mas o seu nome não me diz nada. Pergunta: se o meu livro não lhe tivesse dito nada e o meu nome lhe tivesse dito alguma coisa, teria levado menos tempo a pedir-me uma entrevista?»

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Shakira e Literatura: alguns aspectos


António pessoa ungida pela sagacidade Guerreiro in Público

As mães do Pedro Nunes nunca terão lido Breton e Robbe-Grillet (dois gajos que não chegaram a ver a França campeã do mundo) mas daí até as mães do Pedro Nunes (como entidade institucional) desconhecerem as contradições implícitas no admirável e litúrgico mundo do pinanço em espetacularidade, vai uma distância do tamanho que for mais adequado à satisfação de cada um. Ou seja, o senhor general e almirante António Guerreiro, no seu confuso texto, comete um erro típico, várias vezes aqui aludido (e também por nós praticado, pois gostamos de meter a mão no prato com pecadores e publicanos) isto é, toma a realidade pelas coisas lidas nos livros, uma cena que já alegadamente motivou a má fama do Quixote.

Isto não significa privilegiar a experiência em relação à teoria (deixámo-nos disso desde que o António Veloso falhou um penalti em Estugarda) mas apenas reconhecer o gigantismo da nossa ignorância sobre a realidade, dada a amplitude da sua complexidade e a sua natureza amplamente precária, para não falar da problemática relação entre a realidade e os ponteiros do relógio. Esta ignorância não exclui um razoável domínio daquilo a que as pessoas em geral (e cremos que o Jorge Gabriel também) chamam a Literatura. Antes pelo contrário, a Literatura (bem como a fixação escrita de todas as linguagens) é precisamente uma forma de esconder a ignorância sobre as coisas em geral, e a arte de bem cavalgar toda a ignorância através da linguagem, implica conhecimentos técnico-táticos em múltiplos domínios, mas não nos detenhamos por agora em assuntos demasiado perigosos. Quero com isto dizer que não desdenharia visitar a vida sexual das mães do Pedro Nunes.

Com efeito, o António Guerreiro (com uma reacção à perda fortíssima e por isso mesmo, exagerando, no referido texto, as consequências extraídas do sucesso sociológico da angeologia no meio literário português) devia contudo saber que, precisamente, e em geral, o tipo de «alma» criada na Travessa da Lapa e na censura da porcalhice é também muito fértil em potência criativa ao nível da mesma e referida porcalhice, tal como já todos devíamos saber por intermédio desse vulto da pornografia doméstica, o arquitecto Tomás Taveira. António Guerreiro talvez pretenda, contudo, sublinhar isso mesmo. As mães do Pedro Nunes são umas porcalhonas mas não querem os filhos a serem iniciados na porcalhice. Uma posição aliás legítima. Se bem entendo, o caso é simultâneamente mais clássico e mais infelizmente esquerdalho, ao nível dos preconceitos culturais: António Guerreiro mostra-se tentado a afirmar que as burras das mães do Pedro Nunes são precisamente parte do grupo responsável pelo sucesso do Valter, mas somente enquanto o retrato público do Valter foi o da superficialidade mediática do curador de almas, transmitida pelo jornalismo, uma vez que só o António Guerreiro lê livros. Mas quando o referido Valter resolve mostrar o seu lado caxineiro, as mães do Pedro Nunes, segundo António Guerreiro, entraram em histeria existencial. O mundo é mais complicado, e estaremos todos de acordo, não se aprende sobre as relações entre erotismo e pornografia na Travessa da Lapa, mas muito menos se aprendem essas relações em Breton ou Robbe-Grillet, e com isto, já não estaremos todos de acordo. Talvez as mães do Pedro Nunes não pretendam que seja o Valter a explicar o mundo aos seus filhos, ainda que por aí tenham aparecido teorias sobre a importância da leitura, como se recomendar Valter Hugo Mãe a adolescentes, não fosse precisamente o mais directo caminho para erradicar da juventude todo o prazer da leitura. Nisto, estou com as mães do Pedro Nunes, com todo as minhas forças morais, talvez não pelas mesmas razões das mães do Pedro Nunes, que aliás desconheço, mas não desdenharia conhecer.

Não sei até quando será necessário repetir: a literatura não pode representar utilidade universal na vivência do mundo, como já acima se referiu quanto à supracitada tragédia do mais famosos leitor de romances. Por outro lado, e alegadamente, até o Diabo teve um passado ligado à Travessa da Lapa e à angeologia. Quanto a eventuais problemas de adequação literária às estratégias pedagógicas, confesso o meu desinteresse conjuntural no tema. No fundo, a Shakira também é mãe e deve estar para inscrever os filhos numa Travessa da Lapa qualquer, e não estou a vê-la a apreciar a literatura do valter hugo mãe, mas isto é por certo um preconceito da minha visão estética do mundo.

Resultado de imagem para Shakira hot

Lamentavelmente, somos forçados a regressar a um assunto encerrado. Valério Romão voltou à carga num artigo publicado no famoso e aclamado periódico, Hoje Macau. Afinal, as ideias expostas no excerto criticado não são dele mas de uma personagem que expõe «atabalhoadamente a sua visão redutora das relações». O ponto, contudo, não é esse, nem podia ser, pois nesse caso, Valério Romão devia estar orgulhoso por ter conseguido enganar os leitores, é o sonho de qualquer autor. Mas como bem sabe o professor doutor Valério Romão, está em causa, precisamente, a falta de talento para ser atabalhoado e fingir uma visão redutora das relações que não seja diretamente contaminada pelas ideias do escritor. Está em causa, sobretudo, e se me é permitido ter opinião (muito obrigado), o direito constitucional de considerarmos os seus textos e temas terrivelmente desinteressantes, pois são, precisamente, os temas da moda. Pior do que isso, a literatura de Valério Romão é em geral uma revisitação de António Lobo Antunes (e isto é um elogio), mas com maior ruído e desacerto metafórico, muita cornucópia dispensável, muita irónica referência a marquises e ao tupperware. Mais concretamente, reservamos o direito de considerar o elemento bizarro no referido excerto, pois (parece-nos) uma personagem atabalhoada, a primeira coisa em que pensa, é em relacionar, de forma redutora, a câmara de Fellini com as relações amorosas, envolvendo nisto a pila de alguém. Tenhamos paciência.

Quando à ideia da intermediação da personagem, então, mais uma vez, o doutor Valério escorrega na sua própria casca de banana, pois nesse caso, não será o rapaz da internet, também ele (eu) quem? apenas e tão somente uma pirandelliana desdobragem ficcional neste grande teatro do mundo? Para quê considerar como sujeito real uma persona qualquer a escrever sobre literatura? No fundo, talvez seja uma personagem atabalhoada a descrever redutoramente as suas opiniões sobre o grande escritor Valério Romão? Para quê tomar pelo valor facial um texto assinado por um extraterrestre num blogue obscuro?

Na verdade, tanto o senhor doutor Valério como o excelentíssimo senhor Valter esforçam-se por representar o papel de mártires da liberdade expressão, perseguidos pela fúria indignatória desses dois pólos da perversidade universal, as redes sociais e as mães do Pedro Nunes. O caso é tanto mais ridículo se pensarmos que as alusões ao texto de Valério Romão, foram lançadas em campo estético e as críticas apenas dirigidas ao autor, e nem poderia ser de outro modo, pois não temos o prazer de conhecer a pessoa. Ou muito me engano, e eu engano-me muitas vezes, o senhor professor doutor Valério Romão insiste em fazer aos outros o que considera inapropriado quanto à sua pessoa (e peço-lhe para voltar a considerar o que escreve quase mensalmente sobre escritores menores como Chagas Freitas ou líderes espirituais como Gustavo Santos). Na verdade, talvez se aprenda alguma coisa com Gustavo Santos, quanto mais não seja, a não ter medo de lavar as próprias cuecas. Reciprocidade: ora aí está uma coisa que se aprende consumindo boa pornografia, um campo socio-cultural onde uma boa cena implica a experiência mutuamente recíproca de cada centímetro corporal lambido. Somos pois chegados a um universo paralelo, onde um escritor acusado de ser mediano e literáriamente conservador (replicando temas e estratégias estafadas e exauridas na obra de Lobo Antunes) responde acusando os seus críticos de censura, e invocado o direito a utilizar palavrões. A vitimização, sobretudo em figuras privilegiadas pelos órgãos mediáticos e pelos centros de difusão nacional da cultura, é dos espectáculos mais lamentáveis a que temos assistido.

Bem sabemos como o mártir da liberdade de expressão é uma tipologia weberiana que está para a carreira literária como o pau de Cabinda para as mães do Pedro Nunes, basta pensar naquele autor perseguido e que semanalmente é forçado pela opressão de um valor monetário a escrever copiosas crónicas no Expresso. Na verdade, colar a este blog o epíteto censório (e para utilizar um famoso delírio da percepção) é o mesmo que confundir a experiência de amar uma mulher fumadora com uma lambidela a um cinzeiro. Meus amigos, é preciso mais concentração, pois, como já por diversas vezes referi, não andamos todos aqui a dormir.

Imagem relacionada

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Ando com uma vontade de arrebentar com isto tudo

Instruções

1. carregar no play do video
2. reclinar-se na cadeira e apreciar



PS: o devido mérito e vénia ao Insónias em Carvão por ter apanhado este momento de nosso senhor salvador JJ.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Senhoras e Senhores, convosco, o Pai Natal

Proclamação: «Mesmo os livros de Llansol, na sua atemporalidade, e ainda que remetam para a história humana, não deixam de tocar a história portuguesa.»

Comentário: Os livros da Maria Gabriela Lençol parecem saídos da imaginação torturada de uma adolescente problemática com dislexia (peço desculpa a toda a gente) sendo que, remetendo para a humanidade da história humana, e apesar de uma primeira abordagem da história dos pinguins, Maria Gabriela Lençol limitou-se a deixar paletes de folhas manuscritas lá no sótão da casa em Fontanelas, ou na Praia das Maçãs ou em Colares, agora não tenho presente, terão de consultar a obra crítica do Pai Natal.


Proclamação: «O mesmo aconteceu com a poesia em grupos como o do Cartucho (Joaquim Manuel Magalhães, João Miguel Fernandes Jorge, Helder Moura Pereira,António Franco Alexandre) que obrigaram a poesia a um regresso ao real. Mas um real que espelhava o novo Portugal, urbano, fortemente desencantado,profundamente melancólico, mesmo se irónico. É aqui que encontramos também poetas como Vasco Graça Moura, Fernando Pinto do Amaral, Luís Miguel Nava, Al Berto…»

Comentário: A poesia - contrariada - lá se dispôs a regressar ao real.


Proclamação: «A importância das escritoras para a renovação da literatura portuguesa é algo que já vem dos anos 60 mas que se vai solidificar nos anos 80e 90. Quer no romance, com Agustina, Lídia Jorge, Maria Velho da Costa,Teolinda Gersão, quer no conto com Maria Judite Carvalho, Teresa Veiga, Luísa Costa Gomes, quer em obra sem género definido como são os livros de Llansol ou Hélia Correia, foram as mulheres que mais arrojaram em termos temáticos, estilísticos. Elas introduzem uma desordem, com a polifonia, a meta-narrativa, a intertextualidade, uma nova ordem do simbólico que se manifesta na forma como usam os tempos, a auto referencialidade, a subjetividade. Nas escritoras a busca de uma voz é a busca de um sentido e, nesse caminho, elas fizeram uma rebeliãocontra o discurso masculino que dominava a ficção portuguesa.»

Comentário: Aprende, aprende humildemente, o velho é que a leva direita. Gostava entretanto - se me é permitido - de dizer (com todo o respeito) duas ou três palavras: Carlos de Oliveira. Tem pilinha, mas alegadamente, de um ponto de vista da «desordem, polifonia, meta-narrativa, intertextualidade, uma nova ordem do simbólico que se manifesta na forma como se usa o tempo, a autoreferencialidade e a subjetividade» parece-me indiscutivelmente que. Quanto ao referido grupo, tenho dificuldade em, digamos, expressar o meu sentido crítico por motivos, digamos, autoreferenciais, mas note-se: a Hélia Correia não gosta de sol e tem como principal atributo o coleccionismo de memorabilia em torno de uma ou duas notas de rodapé da história da literatura decadentista. Alegadamente, também leu os clássicos, mas lamentavelmente, nunca a vi no estádio da Luz, pelo que, não pode ser. A Teolinda Gersão também sabe alemão, de resto, é uma pessoa espetacular que tenho o prazer em desconhecer absolutamente. A Lídia Jorge diz que a literatura é o prolongamento da infância, uma coisa a todos os títulos de uma originalidade infinita. A Maria Judite de Carvalho não sei quem é. A Teresa Veiga confundo com uma pessoa que vive na Madeira, mas se calhar é a mesma. A Luísa Costa Gomes, calma camaradas. A Agustina é chato, é rural, é exótico, é psicótico, é Camilo com peso a mais.


Proclamação: «A literatura e a poesia são sobretudo um trabalho deestruturação de um olhar sobre o mundo e depois a colocação desse olhar sob aforma de linguagem. Uma linguagem que não se limite a contar factos (isso, láestá, é o que fazem os media) mas que dê a ver o invisível através do visível.»

Comentário: Ôéó-ó! Ôéó-ó, Ôéó-ó-ó-ó-ó, Ôéó-ó-ó-ó-ó!


Proclamação: «A imposição do romance quase como sinónimo de literatura apagando a poesia e o conto, o realismo de cariz conservador e banal, a pobreza da linguagem, são sintomas de um mundo sem memória, onde a cultura, a arte e aliteratura se regem por paradigmas economicistas. O único lugar onde ainda existem valores é na Bolsa. A vida das pessoas gira em torno do consumo e das vivências do corpo mas apenas na sua perspetiva hedonista. Logo, o simbólico, aletra, a palavra saem a perder. A tecnologia apaga a palavra. A literatura foi totalmente contaminada pela acumulação de a tualidade, de informação, abdicandodo espaço da História, da memória. Obriga-nos a um eterno presente onde imperam as imagens.»

Comentário: A confusão é de tal ordem que temos dificuldade em desatar este novelo de disparatada oração ao Santíssimo Sacramento da Literatura. Se o romance é uma forma comercial e metiaticamente apetecível (tal como o era o teatro grego na antiguidade ou o drama isabelino no final do século XVI ou o folhetim, depois romance em fascículos no século XIX) que tem isso a ver com a qualidade (risos) e a originalidade do conteúdo (olé) veiculados por essa forma? E se a mesma é apreciada por um público disposto a pagar a liberdade do artista, onde está a relação linear entre as preferências do público e a suposta falta de qualidade do produto consumido para fins de edificação mental? Paradigma economicista? Mas agora somos forçados ao paradigma economicista das Universidades centralizadamente financiadas com impostos onde todo o respeitável e reputado escritor deve inexoravelmente ir ajoelhar? O simbólico clube de Portugal está em crise? Mas não estão os estádios cheios? Mas estaremos aqui a ignorar a revitalização do salto-agulha? Professor, doutor, camarada, Barrento, o excelentíssimo professor possui apenas 76 anos, não os transforme, com todo o respeito, em 1776 anos.

Vejamos a seguinte ilustração simbólica do paradigma economicista-consumista numa dimensão, digamos, hedonista de satisfação do corpo enquanto vivência ou quisermos, enquanto delinquência moral, embora, como diria Anselmo Ralph, nem lhes tocamos, apesar de serem duas, a dançar ao som de um torturado e bem-aventurado mancebo, prestes a ser introduzido no maravilhoso mundo da tragédia masculina. Em que gaveta do seu esclerosado instrumentário de apreciação do mundo coloca o senhor professor doutor este conjunto poético-comercial de estímulos mentalmente simbólicos no que à produção da linguagem diz respeito?

Resultado de imagem para dolce & gabbana


Proclamação: «Há agora também a moda da violência espetacular de um autor de quem já gostei mas que hoje não acho nada interessante que é o Paulo José Miranda. Na mesma linha li um livro do Valério Romão e achei que apesar de tudo ele tem mais recursos. De entre estes novos e mediáticos escritores o único cuja obra eu considero original é o Gonçalo M. Tavares. É um escritor douto,capaz de abarcar um largo espectro de temas, de formas de linguagem, é imensamente culto e consegue trazer essa cultura para dentro dos seus livros.»

Comentário: Calma, não se zanguem. Está tudo bem.


Proclamação: «Penso que, recentemente, há a redescoberta de uma certa fé na poesia aliada a um olhar crítico e irreverente que muito me agrada e que está a acontecer com os poetas muito novos, na casa dos 20/30 anos. Entre eles destaco dois grupos: os criaturistas, Diogo Vaz Pinto, David Teles Pereira e Golgona Anghel ligados à revista Criatura que depois se transformou na editoraLíngua Morta. E os Apócrifos, um conjunto de poetas muito jovens ligados àrevista Apócrifa, cuja primeira antologia vai sair em breve com prefácio meu.Também prefaciei, a pedido da editora [Maripoza Azul], o livro Groto Sato de Raquel Nobre Guerra. Era um bom livro. Infelizmente este novo dela, Senhor Roubado, já achei fraco. Mas o que importa é fazer.»

Comentário:
Imagem relacionada

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Neste sentido, não há nenhuma evidência no sentido de considerar que uma pessoa gostar de ver gajas na internet seja sinal de superficialidade



Antes pelo contrário, os instintos funcionam a níveis, para utilizar linguagem freudiana, bastante profundos, ainda que não tenhamos qualquer pejo em afirmar que os instintos, por si só, nada explicam, sendo necessário colocar no terreno, para estudo empírico-teórico, toda a parafernália de experiências linguístico-mentais, a que por vezes se dá o pomposo nome de literatura. A psicanálise bem tentou colocar ordem neste albergue espanhol, mas acabou a fazer programas de rádio com mulheres maduras, por sinal, de voz bastante atraente.

Consideramos que recorrer ao conceito de superficialidade para comentar as redes sociais é uma das coisas mais superficiais de todos os tempos

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Apesar de todos os acontecimentos histórico-histéricos, nós, os verdadeiramente derrotados, vamos continuar a manter níveis de calma em posições espectacularmente elevadas

Professor Lord's book, like the studies of Milman Parry, is quite natural and appropriate to our electric age, as The Gutenberg Galaxy may help to explain. We are today as far into the electric age as the Elizabethans had advanced into the typographical and mechanical age. And we are experiencing the same confusions and indecisions which they had felt when living simultaneously in two contrasted forms of society and experience. marshall mcluhan, gutenberg galaxy, 1962



the-complete-works-of-william-shakespeare-parody

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Agora que o alf voltou achei por bem pôr isto aqui


do não menos espectacular scorpion dagger

A Bíblia grega e a economia das mordidelas

Numa aliança cósmico-deprimente o universo em todos os sentidos e extensões conjugou-se numa semana fundamentalmente triste. Este autor foi obrigado a ter conhecimento de uma belíssima entrevista onde valter josé antónio hugo saraiva mãe se queixa do poeta Vasco Gato, pessoa sensível em todos os sentidos, caracterizada literária e academicamente por ser um jovem poeta e ser humano muito promissor, isto vai para mais de vinte anos. Não vou entrar em pormenores sobre o incidente, tendo em conta que nessa mesma entrevista (e aviso todas as adolescentes com ligações ao Opus Dei) o referido escritor das Caxinas (terra de Fábio Coentrão) aparece integralmente nu a passear a mangueira num corredor. Também não quero com isto ser acusado de homofobia, adoro homens - Grimaldo, Lindelof, Pizzi (este também já fotografado, embora acidentalmente, em nu integral), só para referir três exemplos morfológicos muito distintos - mas considero lateral à arte da literatura a exposição pública dos órgãos genitais, no fundo, sou um gajo que apenas gosta de livros.

Por outro lado, a entrevista, e sem ponta de reprocessamento, é uma entrevista interessante, quanto mais não seja por vermos um gajo que fala de coisas, e não se esconde apenas em tópicos de neuromarketing acerca do sofrimento humano. Deve ter sido a primeira vez que um autor falou do preço de um livro e se acertaram contas com quem de direito, sobretudo com gajos que fazem as vezes de sofredores e devem ser uns gajos sofredores com muita capacidade de comercializar o seu sofrimento, pelo que temos todos a agradecer ao valter josé antónio hugo saraiva mãe, o facto de ir a jogo com mexericos da sua própria lavra, metendo os colhões no lume, e não invocando qualquer auxílio do reino dos mortos. Os meus parabéns. Só falta começar a escrever bons livros.

Por outro lado, o cervejeiro amador, Afonso Cruz, foi agraciado com 15 000 euros, na sequência do prémio literário Fernando Coitado Namora, cuja verba foi arregimentada pelo Estoril Sol, yeah, e com um júri presidido pelo boneco embalsamado, Guilherme de Oliveira Martins, uma pessoa que deve a sua carreira a um remoto grau de parentesco com um amigo do cônsul de Portugal em Paris, José Maria o Espertalhaço Eça de Queirós, júri esse onde se conta ainda um membro da Associação Portuguesa de Críticos Literários (com francas relações de amizade com a Associação Portuguesa de Protecção da cabra do Gerês). O valor pecuniário em apreço, 15 000 euros, é bastante simpático, sobretudo por se ter anunciado que a cabeça de Salman Rushdie só vale cerca de 500  mil euros, segundo os ai-atolas do Irão, o que eu desconhecia em absoluto, caso contrário, talvez tivesse considerado uma outra saída profissional. Justa, portanto, esta menção ao autor de Flores, Afonso Cruz. A literatura, o turismo, a cerveja e todos os escritores de simpatia marxista a quem já só resta um nome, estão de parabéns.

A encerrar esta improvável sequência de acontecimentos bastante prováveis, José Tolentino Mendonça escreve sobre a tradução do livro mais estafado de todos os tempos, a Bíblia. Como é comum no nosso quintal, Frederico Lourenço meteu-se no quintal do vizinho e foi agraciado com o chamado cartão amarelo, pois segundo o vice-reitor da Universidade Católica, «é bom não morder a mão que nos dá o pão» isto pelo singelo facto de Frederico Lourenço, um católico convicto, se ter arriscado a dizer a impossível máquina de perversidades que se transcreve em seguida:


E remata Tolentino Mendonça, ponta de lança da interpretação organizada num colégio com voto de castidade, a Igreja: «Cada um tem direito à sua naiveté e às ilusões que quiser, mas entendamo-nos: não existe “a tradução” da Bíblia.» Com isto, crava uma rebrilhante e franjada bandarilha no cachaço taurino de Frederico Lourenço, ponta de lança da interpretação organizada num colégio sem voto de castidade, a Universidade.

Pois é caros leitores, saudemos a festa da vida e celebremos o facto de termos vivido o tempo suficiente para vermos um teólogo oficial da Igreja Católica, a invocar a pluralidade das interpretações, para se defender do contra-ataque universitário das Humanidades, desta feita, Humanidades decadentes e forçadas a disputar o parco alimento disponível no campo da auto-ajuda, pois que já só isso resta. Quando são muitos os cães a disputar um naco de pão, já muito velho e bolorento, é normal acabar tudo à dentada, pelo que apenas posso recomendar ao avisado leitor: cuidado com os dedos, quando for alimentar cães demasiado esfomeados.

Conheça algumas das principais doenças que afectam os cães

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Os livros

A Inês Fonseca Santos introduziu um novo problema na literatura, a saber, como é que um gajo se constitui cidadão de pleno direito no mundo das pessoas sensíveis: boa noite, bem-vindos aos livros, são 14 euros e 50 cêntimos: Pim. De igual modo, no fim da ceia tomou o cálice, e apresentou o livro de Valério Romão, com toda a certeza uma natureza (trau) sofredora com as suas experiências pessoais e públicas (Pim), pois só um gajo traduzido nas mais diversas línguas (incluindo a Suiça), pode aspirar a dizer alguma coisa sobre a natureza humanóide, embora a língua da Inês Fonseca Santos deva estar fora de um texto que se quer credível, responsável, profundo (trau) e mais que tudo, decente. Em defesa da literatura, dos livros, e do mundo em geral, só posso dizer-vos: TRAU.

Crianças, Hospitais e patologias, ora aí estão três tristes temas que fazem a eleição dos intelectuais de esquerda e das medicinas alternativas, mas longe de mim entrar numa polémica em torno do sofrimento de cada um (Milton Friedman já o disse, a cada um a sua filha da putice), mas como diria esse cabrão de Turim, Frederico o Grande filho da puta Niezzscchzhese (viva o acordo Ortográfico) os poetas - esses filhos da puta - são impúdicos para com as suas vivências, e se são impúdicos, ora bem (trau) terão de levar com a crítica crítica, pois Marx - cuja filha se matou de pobreza, miséria e desejo de ser grande - passou as passas do Algarve e Além Mar para conseguir elaborar uma teoria lógica e sistemática do capitalismo (incluindo os filhos da puta dos escritores) onde - hoje em dia - todos mijam sem qualquer noção do mijo. Não quero com isto dizer que os livros são um comércio como outro qualquer, pois é muito pior quando os livros, não sendo um comércio, acabam como substitutos da palavra divina, uma teologia da palavra voando sobre as águas sujas do estruturalismo, uma panaceia para as dores espirituais, um substituto da catequese, uma versão de auto-ajuda revista e alegadamente (pela Inês Fonseca Santos - a grande cavalona) melhorada, isto é, a cura dos paralíticos, a lição parabólica do rabi palestino - esse terrorista árabe educado no judaísmo chamado Jesus - quando colocando dois dedos no lodo, os esfregou nos olhos do cego: senhor, senhor, lembra-te de mim quando vieres como o teu reino (trau). Pois a literatura, não é mais que religião privatizada e vendida em fascículos.

A relação entre uma relação em ruínas e o incumprimento de um sonho - segundo Valério Romão (um homem traduzido na Suiça) ou ainda mais, segundo a princesa egípcia (desculpem) e torturadora do nosso sono, a Inês Fonseca Santos - são o grande tema deste excerto da cultura ocidental, o programa Os Livros, onde se fala de silêncio, incapacidade, medo, e incongruências das instituições - essas costas largas da civilização moderna (e que são sempre pau para toda a obra) - um programa apresentado pela incomensuravelmente sábia, porque talvez distante (Deus nos ajude), Inês Fonseca Santos, pois da instituição da literatura (essa antologia de santos laicos forjados pela nova religião, a sensibilidade, dada à estampa por esse grande maricas e abandonador de crianças, o Jean-filho-da-puta-Jacques-e-muito-meu-amado-Rousseau) ninguém trata das incongruências ou medos (trau) pois que é ganha pão de muito malandro. Pim. Pam, Pum.

Mas queria mesmo era falar dessa trilogia das paternidades falhadas, se paternidade falhada estiver relacionada com a doença - que espreita sempre ao virar da esquina - pois não estou a ver bem onde reside a diferença entre o livro Autismo e o Prometo Falhar do Pedro Chagas Freitas, a não ser no facto de não termos os nosso livros lidos pela boca ululante e pacificadora da bela e monstruosamente bela, Inês Fonseca Santos, a de olhos decapitadores da nossa tranquilidade. Pim. Dizia eu que, pois claro, se a doença e a eterna patologia da denúncia (os terapeutas são santos que nos falham) vão facturando o lucro das nossas fragilidades (sem ensinar nada ou arriscar nada), a paternidade falhada é uma coisa que nos não deve merecer muitas lágrimas, se tivermos coragem para nos foder todos uns aos outros (o que é o motor do progresso), sendo fiéis ao silêncio sobre a nossa privacidade e combatentes jihadistas desse acidente estatístico que é a doença - grande ganha pão da nossa contemporânea idade - à qual (doença) não desculparemos nada, pois que estamos apostados em contrariar a natureza do poder e o poder da natureza. No fundo - o leitor já adivinhou - este alf é um gajo com inveja do Romão (voilá) sendo muito justamente a inveja que move os portugueses e o mundo, e eu assim me confesso invejoso de não ser violentamente criticado (com chicote e napa) pela Inês Fonseca Santos, mesmo que economicamente isso não fosse grandemente favorável, embora, dito de outro modo, a vontade de poder passe pelo domínio do eterno feminino, razão pela qual existem hospitais, crianças e autismo: no fundo, quem nos fode são as mulheres: o senhor seja louvado, bem dito seja o senhor Deus.

Basta ouvir esse guerrilheiro mexicano, o Valério Romão, para não descortinar qualquer diferença com um mau episódio de uma novela da TVI - a não ser preferirmos gajas boas afogadas no drama a dramas sem gajas boas e relatados pela boca de um guerrilheiro mexicano. «Intensidade e profundidade» - diz a Medusa letal que leva no seu abençoado colo a cabeça apaixonada de Perseu, ou seja, a minha - repito, intensidade e profundidade (trau, trau, trau) que «Valério Romão explora a seu favor, isto é, a favor da história que cria, através de recursos como a linguagem que acelera e abranda ao ritmo das personagens e da estrutura narrativa que dispensa regras», isto diz a Inês Fonseca Santos (daqui em diante IFS, ou seja, Isto Foda-se Só-se-chorando, mas já assentámos que não, como diria o Vergílio Ferreira). Também nós dispensaríamos todas as regras num mundo onde a Inês Fonseca Santos nos pudesse conduzir por corredores de bibliotecas com livros e livros e livros, e onde o confessionalismo das personagens fosse apenas um pretexto para criticarmos cada centímetro do seu corpo mediático (salvo seja a vossa vontade, assim na terra como na biblioteca) corpo mediático explorado por uma política de educação pública paga pelo Orçamento devidamente vigiado pela Unidade Técnica de Apoio ao Orçamento, mas ainda assim, política largamente compensadora de todos os sacrifícios feitos pelo povo português desde a crise financeira de 2008; «O aviso está escrito, não dá para escapar. Até aos próximos livros». 

E a Inês Fonseca Santos (trau) devolve o livro às prateleiras, indiferente ao seu poder de acumulação da poupança, uma mulher criada nesse espaço perverso das ligações entre a cultura, a Escola de Frankfurt e a alocação de recursos públicos, e a gaja - do alto da sua autoridade literária - avisa cada um de nós (e cada um de vós, leitores deste blog) que no caso de um dia aspirarmos ao banquete dos eleitos, teremos de colocar o nosso chapéu de guerrilheiro mexicano, e invocar esse supremo calcanhar de Aquiles da nossa civilização - o sentimentalismo -, no fundo, somos todos habitantes da Casa dos Segredos a quem os pais - por benefício da economia de mercado - pagaram estudos superiores de letras, embora no nosso coração, sagrado, sejamos tão iguais como todos esses anónimos leitores de Pedro Chagas Freitas (embora  Teresa Guilherme no Domingo tenha empurrado as mamas - um pouco já decrépitas - contra um vestido de lantejoulas) o que em nada, por ser a TVI uma empresa de direito privado, deve perturbar os contribuintes (iguais em esperança e caridade) que pagam os Hospitais (essas instituições medonhas) onde não se tem em conta a economia específica do autor, para grande pena nossa, pois cada dia sofremos horrores por não poder fazer feliz e habitar (cada um dos centímetros de toda a falha) que porventura possa perturbar a Inês Fonseca Santos, et in saecula saeculorum, sabendo, todavia, como no fundo, gostaríamos era de estar no lugar mediático, topográfico e erótico do Valério Romão, autor muito justamente consagrado e constrangido, a quem, e desde já, desejamos - com toda a sinceridade - muitas e muitas felicidades.