Vamos hoje abordar um problema, digamos, delicado. Esta
recente e muito interessante entrevista serve de mote à consideração, pela
enésima vez, de um tremendo e muito generalizado equívoco, a saber, as
famigeradas ambições de um criticismo legítimo, aprendido na Academia, por
oposição ao criticismo do mercado, ou seja, falamos da injusta, sumária e
superficial condenação (enquanto sedes de juízo estético) da gaja boa ou do
troglodita que por acidente, e porque lhes apetece, decidem comprar um livro
para passar o tempo, sobretudo, quando são muitos (gajas boas e trogloditas) a
comprar livros, não nos esqueçamos das nossas raízes democráticas, amen. Não
quero com isto dizer que a invisibilidade da mão, manipulada por muita
mamalhuda e por muito avantajado, represente, por si só, uma consagração
automática do valor literário. Longe de mim defender, com uma venda nos olhos,
essas robinsonadas dos economistas austríacos. Mas quero com isto dizer, se me
é permitido, que não devia fazer-nos comichão o facto de existir uma, e passo a
citar, literatura de mercado, ou seja, literatura light (sem as típicas
gorduras dos aparelhos ideológicos de Estado, o que me parece uma elogiosa
definição) ou nesse caso, teríamos de sentir a mesma coceira pelo facto de
alguém vender a aprendizagem, a oficina, o treino, o segredo, a janela de
oportunidade, aos pobres esperançosos apostados em fugir da tenaz do lucro e em
não cair (ó clemência, ó piedade) no caldeirão infernal da famigerada
literatura de mercado, benza-os deus.
Não teria resumido melhor o equívoco. Ou seja, o diabo veio
de tenaz em punho e acabou com o tempo onde reinava uma tranquila tradição
especificamente literária, que aliás, em Portugal, produziu toneladas de génios
literários, é consultar a nossa glorioso história. Tirando Camilo e Eça
(produzidos em grande medida pelo mercado) e excepção feita a Fernando Pessoa
(que limpou o rabinho com a tradição especificamente literária) qual o escritor
digno de registo produzido pela tradição especificamente literária? Herberto
Trau Hélder? Quem? O gajo que não aparecia para melhor valorizar o produto?
Almeida o Professor Faria? O José Estúdios Cor Saramago foi produzido fora do
mercado? Lobo Antunes (com os seus 750 livros e as suas 3500 crónicas) não será
uma espectacular produção do mercado especificamente literário? O Luiz arranja
aí vinte paus Pacheco? Pensem nisto durante o Braga-Benfica.
Portanto, que seja o público, juntamente com esse grande
escultor e adepto das touradas, o tempo, a seleccionar o valor literário entre
o descomunal número de livros, é o grande pecado da literatura de mercado. É
portanto preferível que seja o amigo, de um amigo, de um primo, de um amigo, a
fazer a selecção, ainda em estado de manuscrito, e por critérios
especificamente literários, e com o risco dos custos de impressão assegurados
pelo Orçamento de Estado (ou por um primo na administração Gulbenkian)
escolhendo quem são os legítimos operários (plástica e inventivamente) da
língua portuguesa, paga aí a minha tosta mista. Claro que só podia ser um
nicho, um nichozinho, um pequerrucho nichozinho, de mãos dadas com os leitores
(sem contaminações comerciais) num Kumbaya autêntico, familiar, um verdadeiro
policiamento de proximidade ao escritor. Portanto, não lembra às pessoas
espectaculares da tradição especificamente literária que esta tradição
especificamente literária, tão próxima, tão familiar e tão autêntica, devido,
precisamente, à limitação da sua proximidade e âmbito familiar, seja o mais
directo caminho para um provincianismo estético e literário, sacrificando (se
não existisse literatura de mercado) centenas e centenas de autores com
potencial.
Além disso, pergunto: quem é o escritor que se preze,
interessado em conhecer os seus leitores? Para isso, não publicava livros, nem
imprimia esse meio de comunicação à distância, o livro. Candidatava-se a uma
vida pastoral no Seminário (por sinal, uma palavra nascida nas entranhas da
Universidade, está tudo bem).
Neste modelo familiar, autêntico, próximo, terão de ser
poucos a aceder a tão secretos e misteriosos critérios estéticos (até porque
neste modelo de literatura, as cunhas financeiras não chegam para todos, claro
está). Por certo, nos dirão que estes poucos são poucos também por selecção
natural de robustez - ah, a tradição especificamente literária - ou por
grandeza da massa cinzenta, ou por abnegação filosófica e altruísmo moral,
terão de ser poucos esses que, não vivendo da literatura (o dinheiro ganho com
os livros tem peçonha) ganham a vida com outras actividades, nomeadamente,
ensinado as especificidades da literatura, para, com efeito, poderem dedicar-se
a torcer plástica e inventivamente a língua portuguesa.
Kumbaya, my Lord,Kumbaya.
Acontece que, e em verdade vos digo, se a língua é
considerada portuguesa, é porque, com efeito, uma comunidade chamada Portugal,
cuja complexidade histórica vai da centralização manuelina (trau) passando pela
degeneração católico-monárquica (oleada por um latinismo fedorento e tardio)
até ao falhanço republicano em generalizar a leitura e os livros (que deu
origem a essa miséria moral, política e pirotécnica, chamada Estado Novo) se
foi construindo segundo critérios que não são meus, nem são teus, mas nossos. É
com a língua portuguesa que todos havemos de lamber o cu do destino, mas daí a
definir previamente quais a lambidelas mais inventivamente plásticas (que nem
sempre são as mais capazes de suscitar prazer ou introspecção) vai uma
distância do tamanho das pernas de D. Afonso Henriques.
Ora, a consciência das merdas em geral, devia tornar deveras
complicado definir, excluídos os aparelhos ideológicos do ensino da literatura
portuguesa, o que é ou deixa de ser uma invenção plástica da língua, quanto
muito, podemos definir um projecto pessoal de invenção estética de uma dada
língua (que a literatura de mercado, se deus quiser, irá submeter dinamicamente
ao juízo da mamalhuda e do avantajado, pois que, no mercado, há lugar para
todos), isto se o escritor tiver engenho para tanto, pois para mim, a
inventividade plástica pode estar mais em reproduzir a técnica de Ovídeo, ou em
glosar o calão de Margarida Rebelo Pinto, do que na mundividência
estético-mental da procissão de gurus, adestrados na tradição especificamente
literária, que fazem parte, nomeadamente, da instituição, legitimamente
promovida, na referida entrevista. E não é certo que a mamalhuda, bendito seja
o deus da criação, não prefira Ovídeo ou Shakespeare, ou se quisermos, Sebald -
para dizer um nome contemporâneo - à tradição especificamente literária da
inventividade plástica da língua portuguesa. E quanto ganhou Shakespeare,
submetendo ao mercado a tradição especificamente literária, utilizando para tal
a tenaz do lucro? As pessoas precisam de suar um bocadinho mais, se pretendem
construir um sistema de legitimação da supremacia da tradição especificamente
literária sobre a literatura de mercado. Não basta cantar o Kumbaya.
Em todo o caso, quero deixar bem claro: não condeno, nunca
condenei, nunca condenarei, quem pretenda ganhar a vida ensinando a tradição
especificamente literária, mas é de mau tom lançar do alto anátemas contra a
tenaz do lucro, só porque, aparentemente, algumas pessoas não preenchem os
critérios estéticos preconfigurados numa alegada tradição especificamente
literária. Aliás, é curioso como a legitimidade estética negada à literatura de
mercado, se revela adequada ao ensino da escrita criativa, através de um
disparatado e pseudo-científico discurso em torno do conceito de optimização
(aplausos) e de técnica de expressão (risos). Permitam-nos uma citação longa,
mas o interlocutor, justiça lhe seja feita, é estimulante.
As matérias que lecciono na EC.ON são directamente ligadas à
escrita. A designação “escrita criativa” é de origem anglo-saxónica (remonta
aos fins do século XIX, nos EUA, tendo tido um incremento muito grande depois
da década de 50 do século XX) e corresponde a uma actividade que é
genericamente vista com alguma ‘desconfiança’ no sul da Europa. Trata-se de um
preconceito, na medida em que, ao falarmos de escrita, falamos,
inevitavelmente, de um processo que promove um saber associado ao domínio da
plasticidade da linguagem. Passo a explicar porquê. Todos os processos de
escrita implicam quarto ordens: a ordem interpelativa (meramente transitiva e
instrumental), a ordem estética (aberta ao poder metafórico, combinatório e
rítmico), a ordem semiótica (ligada à capacidade metatextual) e a ordem do jogo
(no sentido da expressão enquanto desejo/inscrição). Num laboratório de
escrita, tal como acontece nos universos da química, é possível isolar cada uma
destas três ordens e testar-lhes os limites. Uma tal prática oficinal pode e
deve ser cooperativa (ou colaborativa), visando três objectivos claros:
desenvolver potencialidades, incentivar a inventividade e alimentar a expressão
própria.
Portanto, se andássemos todos aqui a dormir, não notaríamos
que ensinar a moldar uma plasticina requer um conjunto de critérios para diferenciar (esteticamente) os diferentes actos de moldagem dessa plasticina, caso contrário, uma
criança de três anos também poderia ministrar o curso. Mas esses critérios não
são revelados, a não ser por cada um dos formadores, e após pagamento da inscrição (aplausos), e segundo a subjectividade da experiência dos formadores, o que pouco aproveitará ao aprendiz (digo eu), e desde logo, reproduz a supremacia do mestre sobre o aluno, ou seja, a Universidade é um vírus muito eficaz a parasitar a actividade criativa, aparecendo agora sob novas, mais obscuras e mais decadentes roupagens. Claro que nenhum dos escritores formadores expõe publicamente esses critérios, não só por razões comerciais (prefere vender os segredos de oficina à porta fechada e em fascículos), mas também porque não faz a mais
pequena ideia do que seja um critério universal em literatura, e teria de
confessar a figura triste que anda a fazer, tão pobre de razões metafísicas (e tão eficazmente pragmático) é hoje o travejamento estético de um escritor.
Não lamentamos, contudo, nada nesta situação. Tudo isto é mercado, tudo isto é legítimo, tudo isto é
impulse, mas por isso, recomendamos menos moralização da literatura
ligth. Por outro lado, optimizar
ferramentas de expressão implica uma economia estética e uma escala de
desperdício, o que implica uma retórica universal das ferramentas literárias, o
que só pode provocar o riso. A
optimização da ferramenta narrativa utilizada por Marcel Proust (salvo seja) é um desperdício em Italo Calvino e
o processamento da expressão em Faulkner é uma cacofonia aberrante, à luz dos
processos em Marguerite Yorcenar. Entretanto, paga aí a tosta mista. O que é
legítimo, desde que não impliquem com a minha vontade de comer morcela ou
hambúrgueres americanos a transbordar de gorduras saturadas.