sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Apesar de todos os acontecimentos histórico-histéricos, nós, os verdadeiramente derrotados, vamos continuar a manter níveis de calma em posições espectacularmente elevadas

Professor Lord's book, like the studies of Milman Parry, is quite natural and appropriate to our electric age, as The Gutenberg Galaxy may help to explain. We are today as far into the electric age as the Elizabethans had advanced into the typographical and mechanical age. And we are experiencing the same confusions and indecisions which they had felt when living simultaneously in two contrasted forms of society and experience. marshall mcluhan, gutenberg galaxy, 1962



the-complete-works-of-william-shakespeare-parody

terça-feira, 8 de novembro de 2016

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A pedido de um comentador anónimo (tendo em conta o nosso já lendário respeito pelo público trauliteiro e enigmaticamente genial deste blog) vimos por este meio esclarecer quem é a Inês Fonseca Santos

Resultado de imagem para inês fonseca santos


O texto é do Manuel António Pina (mas o sublinhado é nosso).

An allegory of the defeat, ou seja, o Elogio da Derrota, a espalhar magia desde 2007 ou uma cena assim, já não me lembro quando decidimos fundar este bastião em defesa do esclarecimento, da felicidade e da concórdia humana. Devo ainda informar que a referida autora tem um poema onde alude a Jonas, no nosso entender, uma prefiguração epifânica do goleador brasileiro - com frequência da licenciatura em Farmácia - e actual atleta do Sport Lisboa e Benfica, por sinal, instituição que ocupa o primeiro (e mais distinto) lugar da Liga Profissional de Futebol em Portugal, Viva a Poesia.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Nesta mensagem encriptada está o segredo da vida e da morte, do centro e da periferia, da construção do ser em si, para ti e para mim, no fundo, para todos nós, os tocadores de bombo

Peço desculpa aos leitores pelo que vai seguir-se, a saber, a Sinopse de um livro recentemente publicado, o Dançarino Subtil, e sem mais, trau:



O leitor sente-se bem? Procure uma cadeira, feche os olhos, dentro de momentos voltará a sentir a normalidade do mundo em que vivemos. Talvez por enquanto sinta ainda uma forte vertigem, como se uma mão invisível o tivesse agarrado pelo pescoço. Um vertigem, sem dúvida, podemos mesmo falar num certo efeito de absorção ao contrário, ou melhor dito, numa espiral de ideias e propostas de leitura em que a pessoa desprevenida é agitada, que digo eu, é sacudida de cabeça para baixo, até avistar círculos concêntricos centrais e periféricos, com patinadoras francesas a recitar o Levítico em grego, altura em que aparece um poeta alemão do século XVIII, nu da cintura para baixo, declarando a morte do realismo, recomendando a depuração da morte (com soda cáustica ou ácido muriático) ou no caso de não ser possível depurar a morte (a morte às vezes está indisponível a tricotar umas meias para os netos) recomendando ao leitor uma modificação da identidade (por uns módicos 17,91 euros) ou se o leitor quiser pagar mais, um memento ético-religioso, o que não recomendamos por causa do fígado.

Respiremos fundo e tentemos em primeiro lugar lidar com o conceito de autoimunidade da democracia: portanto, a democracia seria um sistema com tendência para utilizar mecanismos imunitários contra agentes do próprio sistema. Mas quais mecanismos? Os legítimos ou ilegítimos? Partimos do princípio que ilegítimos se utilizamos aqui uma patologia, o que nos obrigaria a lidar com o conceito de normalidade ou saúde em sistemas políticos, e estaríamos com um pé no fascismo, pelo que a autora deste livro, como se vê pela sinopse, não faz a mínima ideia do que pretende dizer. Não bastaram 2500 anos de más metáforas biológicas a lançar a confusão sobre a política, embora nessa época, servisse de desculpa o estado incipiente dos conhecimentos em Biologia. Agora temos analfabetos científicos (tanto em Biologia como em Política) a fazerem salada russa de conceitos, vendendo esta refeição estragada por 17,91 euros. 

Não vou entrar na apreciação crítica da obra de Gonçalo M. Tavares e já por diversas vezes considerei ser justo reconhecer a Tavares um mérito razoável, não por qualquer relação com um suposto desafio da racionalidade ou confronto com a cultura científica mas porque revela preocupação com o rigor da metáfora, embora esse rigor não esteja ao serviço de coisa nenhuma a não ser o carrinho de compras repleto de banalidades filosóficas que vai buscar a intelectuais pós-modernos, sendo esse - na minha humilde opinião - o seu grande problema. Tavares é filho da confusão que pretende combater. Não se conseguiu orientar no pensamento, formou-se no pechisbeque filosófico contemporâneo (razão pela qual foi parar à Motricidade Humana e não à Filosofia). Tavares é um tipo a quem tudo correu socialmente bem (emprego, fama) e por isso, não há sombra de protesto (para utilizar a imagem de Tchékov) e por isso, é incapaz de assumir ou alimentar uma ideia política, acabando por se dedicar por inteiro à descrição do vazio (o que seria um projecto legítimo e até aliciante) se não fosse vendido como lucidez, mas sim apresentado como sátira de si próprio (um académico violentamente publicado que diz ter perdido o mapa). Contudo, caros amigos, é preciso muita confiança no próprio sistema nervoso para abraçar um projecto de auto-satirização, e por isso, a literatura acontece tão raramente (e digo isto para o leitor não ir daqui de mãos vazias). 

Talvez essa descrição pomposa (e até pedante) do vazio filosófico e literário contemporâneo (as boas cabeças vão quase todas atrás de bons empregos para cursos de base tecnológica e científica), seja a razão do grande interesse suscitado numa legião de académicos com ambições literárias mas sem qualquer talento para escrever (como é o caso da autora em apreço) uma multidão de intelectuais excluídos e desorientados em face do triunfo económico e político da tecnologia e da ciência modernas, intelectuais incapazes de se voltarem para uma literatura mais comprometida com o sofrimento por lhes cheirar a neo-realismo. 

Na verdade, há uma legião de intelectuais que adora o glamour tecnológico mas não compreendendo a beleza da ciência, cospem no prato onde comem, ladrando todos os dias contra o comboio, incapazes de perceber que se aprende mais sobre a crítica da tecnologia e da ciência numa página de Kant ou Rousseau do que em toda a obra de Gonçalo M. Tavares. Mas para quem abandonou a matemática no 9º ano, a prosa de Tavares cheira a «ciência» social, e no terreno da «escrita» e da errância (onde não há regras formais) talvez seja possível finalmente vencer um (ao menos um) combate contra o sistema.

A finalizar, um exemplo de como Tavares laborava (esperemos que já não labore, o texto é de 2004) numa espécie de filosofia do gajo privilegiado que se julga muito inteligente:

E o que me parece é que só podemos treinar e desenvolver a lucidez em tempos tranquilos, afastados portanto da guerra ou das grandes tragédias. Porque nestas situações limite temos de agir com urgência. Agir. Todos nós temos então de agradecer não sermos obrigados a agir constantemente em situações limite. E uma forma de agradecer é aproveitarmos bem esse tempo. Treinar a musculação da lucidez é uma boa hipótese para aproveitar o tempo, parece-me.

Portanto, nada mais claro. A literatura é para quem anda tranquilo, ou seja, é para o académico, porque não precisa de agir. Guerras ou grandes tragédias não são compatíveis com lucidez, sendo que aproveitar bem o tempo, é treinar a musculação da lucidez, contando que alguém vai lavar a roupa e fazer a comida, despejar o lixo, aturar as crianças na escola, ocupar os balcões das lojas, as linhas de montagem das fábricas, os andaimes da construção.

Quando à sinopse, talvez tenha sido escrita pelo editor (embriagado) e a autora não tenha culpa. Ora, tomem lá mais um excerto da autora de O Dançarino Subtil:

O Senhor Gonçalo M. Tavares é um poeta que parece não necessitar mais, minimamente, de qualquer ideia de verso ou de linha ou de frase, esta discussão não é mais a sua. É um poeta que sugere, contra e com o cogito, a hesitação e a emergência. A sua questão, ou propósito, é emergir o espírito livre na figuração errante de um dançarino sutil em meio a uma escrita oscilante, errante, que se pretende uma dança investigativa das conexões mais equivocadas e certeiras entre a existência e a linguagem.

Meus caros amigos, o sublinhado é meu, e deixa-me deprimido, preocupado com o que andamos todos aqui a fazer, contra e com o cogito. Boa sorte a todos os que entre a hesitação e a emergência, gostando de livros, ainda precisam de investigar as conexões entre o saldo bancário e as contas a pagar.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Humanidade de Humano, isto é, coisas que por vezes nos retiram do enquadramento racional pelo qual pautamos toda a nossa existência


Alegadamente esta prosa poética (trau) é do grande camarada Gonçalo M. de Maricas Tavares e estou fodido com esta merda, apenas por minha culpa, minha tão grande culpa e peço à virgem Maria que venha esclarecer o auditório sobre a seguinte questão, a saber, dois pontos, ou seja (:)

Então a Matemática tem possibilidade de acertar muito? Saberá o senhor teu Deus quantas horas de estudo e trabalho são necessárias até se produzir alguma coisa de relevante reconhecidamente conhecida e consagrada no reino da matemática? As possibilidades da Matemática acertar não são melhores, nem piores, são mais difíceis, pelo menos num universo cuja unidade de medida sejam as calorias consumidas em actividade intelectual a dividir pela quantidade de tempo, isto é, na Matemática é mais raro aparecer um gajo com alguma coisa de novo para dizer, devido à estrutural e utilitária natureza desse mesmo saber, havendo mais gado no curral, os bodes são obrigados a trabalhar mais e melhor, isto não excluindo a natureza natural do ponto de partida (ou seja, o povo diz, o jeito) sendo que muito ou pouco são conceitos relativos, quer dizer que a cada um a sua cruz, ou seja, quer dizer que raridade é o contrário de abundância, abundância de bunda, isto é, cus de judas, escambal, ou o caralhinho, ou seja, cena difícil de suportar, como sabemos, Judas enforcou-se por trinta dinheiros, um valor de peso e quantidade indeterminada (dada a natureza entrópica do tempo) cuja solução, análise, incluiria um grupo de competências matemáticas e científicas, a fim de obter uma equivalência de custo em dólares de 2016. Já a escrita (escrita de escrever, de foder, de errar, de bajular) permite errar muito, ou seja, é o reino dos coitadinhos, é o país dos gajos que tendo qualquer coisa de inteligência, não chega a ser o suficiente para enriquecer em paz de espírito e comer as gajas suficientes sem ser necessário andar a visitar todas as capelas.

A ideia de mapa é uma ideia de utilidade social, olha o gajo, julgando que estamos todos a dormir, o gajo perdeu o mapa e é traduzido em trinta línguas, finalista do prémio Femina e professor senhor doutor catedrático na Universidade, então quanto aos gajos que como eu andam aos coices com o Orçamento de Estado a mendigar euros, perderam o quê? Perderam a dignidade, a humanidade, a qualidade de pessoas especializadas em parecer pessoas.

Quanto aos instintos mereceriam outra nota explicativa mas calma camaradas, eu bem sei quanto de mim neste momento arde de ressabiamento - naturalmente mais natural do que o instinto, a raiva, a raiva é muito humana - ou de inveja, ou de inclinação (infantil, adolescente, decadente) agressiva - talvez por infelicidade, talvez por coragem mental, talvez por indigência disciplinar, talvez por defeito de fabrico, talvez por casual bebedeira, talvez por que me apetece, talvez porque faça falta animar a malta, talvez porque sagradas são as armas quando só nelas reside  a esperança, talvez porque é preciso esmagar os orgulhosos, talvez porque seja importante o amor, talvez porque o que importa não é a literatura, mas chamar o gerente e dizer, senhor gerente este galão está frio, talvez porque esteja tudo bem, quando os mestres convocam os seus discípulos para a oração, talvez porque o reino de Deus esteja próximo, talvez porque no fundo, no fundo, para lá de quem me ama, privadamente, intimamente, sei bem que não preciso da literatura, nem dos vomitórios, não quero discípulos, nem festas de conjunto e tenho horror a celebrações, isto é, sou um gajo que gosta de acertar.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O Hamlet não existe, o Capitão Ahab não existe, o D. Quixote não existe, mas a gente gosta deles na mesma

Na inauguração de uma loja Fnac num conhecido centro comercial da periferia de Lisboa, este autor que vos escreve teve o privilégio de ir representar uma agremiação associativa, juntamente com outras forças vivas da terra, bombeiros voluntários e junta de freguesia, um evento, confesso, um tanto bizarro. Foi como transladar uma procissão do Senhor dos Passos com andor, bandeiras, meninas vestidas de anjinho e bombeiros de capacete reluzente para o Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia do senhor engenheiro, o camarada António Mexia. Na verdade, os padrinhos culturais da dita loja Fnac foram a bonita e simpática Carminho e o inteligente e feíssimo Mário de Carvalho, que a dado momento, instado a falar, produziu uma vistosa peça de oratória, do alto do seu ar inquisitorial: «o livro não é um produto mas uma criação do espírito humano». Este autor ia caindo ao chão. Ora, afinal, a literatura não é um negócio, não é uma arena de luta encarniçada pelo reconhecimento, não é um concurso de reputação, a literatura é um diálogo a bem da paz no mundo e da erradicação da fome em África.

Depois das variadas Igrejas e Seitas consequentes, ninguém como os escritores e respectivos coitos, as editoras, tem feito tanto pela mistificação dessa tragédia humana: a selecção sexual por via da carteira recheada. O problema não é tanto a carteira recheada, pois a carteira dos escritores anda quase sempre vazia, o problema é a facilidade com que o escritor, sempre que por acaso se enche a sua carteira, perde a cabeça e se atira para uma qualquer oração piedosa, correndo a esconder - esmagado pela vergonha - a natural parte de saudável negócio em tudo isto. O escritor podia poupar-se a estas figuras se, antecipadamente, compreendesse o quanto o livro (e sobretudo o Romance), seja no formato material, seja no formato semântico, é o resultado de mais de cinco séculos de próspero comércio.

Com efeito, o caso de Elena Ferrante merece ainda duas ou três palavras. Elena Ferrante estabeleceu um contrato quando assumiu uma personalidade falsa e resolveu desaparecer, no momento em que os seus livros eram colocados à venda nos mais variados locais de comércio livre e comentados nos mais diferenciados meios de comunicação. O público pagante - não consta que os livros tenham sido oferecidos - acorreu à chamada e entrou no jogo: se alguém se esconde, instiga imediatamente o instinto da caça, mecanismo (como já dissemos) sobejamente conhecido e legítimo. Se Elena Ferrante não queria ser importunada, bastava não publicar os seus livros, nem se dirigir a um público. Outra hipótese seria assinar em nome próprio e ainda hoje estaria, provavelmente, a fazer traduções obscuras algures em Roma. Acontece que Ferrante estava metida no negócio da literatura até à ponta dos cabelos, conhecia provavelmente editores e jornalistas, críticos e apresentadores de televisão, proprietários de livrarias e cabeleireiros com interesse na literatura e quis forjar uma persona, solitária, lutadora, angustiada, desinteressada, fora desse mundo intelectual odiado pelo cidadão comum, o que apenas demonstra uma profunda inteligência e uma certa desconfiança na capacidade dos seus livros se aguentarem publicamente sem uma encenação. Ferrante sabia naturalmente como estaria condenada ao desastre, mal fosse apresentada como literata. Não haveria «história» para vender o livro, e sem «história», o livro e o autor estariam provavelmente condenados ao fracasso durante várias décadas. James Wood mordeu o isco e forjou a história: Ferrante, a mulher mistério. Plim, plim, plim, plim.

Passemos então ao jogo da encenação em concreto e o que nos diz sobre a absoluta falência da literatura, no fundo, sobre o declínio da mentira. Têm sido muitos os textos publicados em defesa da privacidade de Ferrante e poucos os textos a arriscar uma interpretação lúcida do que está em jogo. Na verdade, os leitores/críticos/escritores adeptos de Ferrante correram angustiados em defesa do direito da escritora à sua privacidade. No fundo, parecem crianças a quem um adulto cruel contou a verdade sobre as vassouras voadoras das bruxas. Com efeito, já ninguém acredita na literatura, desde a patologicamente entediante e estéril empresa levada a cabo pelo cabeludo norueguês, Karl Ove Knausgård, até este lamentável caso Ferrante. Importa tudo menos a arte de dizer coisas com interesse de forma interessante.

Muitos críticos mostram-se chocados pela exposição pública da encenação Ferrante, mas se o livro é uma criação poderosa não vejo em que possa ser prejudicado pelo facto de sabermos que Ferrante afinal é uma senhora de meia-idade com aspecto de quem gere uma retrosaria e anda a comprar casas de milhões em Roma. Ou se calhar, Ferrante, no fundo, pratica auto-ajuda para pessoas com licenciatura, e os seus leitores poderão não gostar de saber que, afinal, não vai tudo correr bem, pois Ferrante não é uma mulher deslumbrante magoada pela vida. É uma ligeiramente obesa tradutora de literatura alemã - que ninguém leu - e nada em dinheiro. Mas não sejamos tão básicos.

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Elenas Ferrantes, à escolha dos estimados leitores.



Tudo isto é pueril, tudo isto é fado, tudo isto é Bruno de Carvalho vintage, tudo isto é até um pouco ridículo. Não vejo porque razão não conseguirá Ferrante escrever sem anonimato. Se Ferrante quiser aceitar um conselho do velho Alf, é muito fácil: invente um outro pseudónimo. Ou publique utilizando o mesmo pseudónimo, entrando em diálogo com a sua própria identidade: talvez aí aconteça literatura. Em que medida o facto de o público saber quem é Elena Ferrante prejudica o acto criativo da personagem Elena Ferrante? Como é evidente, não tem como prejudicar. Ora, com tanto choro, parece-me que há aqui publicidade a mais e poder literário a menos.

There’s an essay by TS Eliot from 1919 called “Tradition and the Individual Talent”. He talks about personality – and how creative work is a means of escaping personality. This is the I Not I that is difficult to explain. You lose yourself, yet you are most clearly yourself in the creative act.

Outro argumento deprimente. A diferença entre fuga da personalidade, heterónimos e ficção da autoria é do tamanho da Oceania, caso contrário os malucos seriam todos sucessos literários. Há até quem cite Fernando Pessoa. Nada mais absurdo. O nosso famoso empregado de escritório criava personagens num jogo de imaginação e até os publicou em vida, mas não consta que tenha feito qualquer esforço em se esconder da sua autoria, até me parece bem o contrário, que o pobre coitado Fernando Nogueira teria dado tudo para conseguir viver do seu trabalho literário. Daí ter tentando criar uma editora, logicamente, um rotundo falhanço. Mas precisamente porque o interessava o artifício na página e não o folclore extra-discurso, os heterónimos eram expressões da imaginação, e o Fernandinho nunca sentiu necessidade de gastar demasiado tempo com o protocolo literário, ou a fugir da suspensão da incredulidade. Era demasiado bom escritor para ficar dependente de um artifício típico do burlão rural. Com efeito, os heterónimos não perderam nada da sua eficácia pela descoberta do seu autor real, pois foram preenchidos com uma personalidade, ao contrário de Ferrante que encheu a sua dupla vida com relatos de novela das oito. Pessoa era, com todas as suas forças trágicas intensificadas pelo álcool, um puro literato e não - por paradoxal que pareça - um vendedor especializado em marketing de vendas. Ou seja, vendia metáforas e artifícios de linguagem com recurso ao alfabeto, não vendia livros ou mistérios com recurso a críticos e entrevistas. O artifício literário sobrevive ao mecanismo de produção da verdade. Ou melhor, o mecanismo literário cria a sua própria verdade, não precisa do mundo para nada.

Sobre a questão do interesse público da revelação da fortuna de Elena Ferrante: desde há muito, os grandes sucessos literários são procurados, investigados, escrutinados, por interesse comercial e por um genuíno interesse do público. Se é relevante conhecer a conta bancária de Ferrante? Bem, inclino-me para uma posição geral de abolição do sigilo bancário e não vejo razões para os escritores beneficiarem de protecção especial. Há quem tenha seguido uma linha de defesa mais elaborada, não vendo em que medida o estudo da literatura beneficia com estes conhecimentos.

Scholars work with books over centuries; I don’t believe the study of literature needed Gatti’s help.

Meus amigos e irmãos em Cristo, ainda recentemente, foram publicadas as cartas íntimas de Nabokov para a sua mulher, para dar um exemplo. Postumamente, é certo. Contudo, é curioso notar como se exige tanto dos políticos e dos banqueiros e tão pouco de outras profissões, a começar pelos escritores, quando poucas coisas existem tão carregadas de significado político como uma autora que facturando milhões, opta por não utilizar a influência da sua persona na vida pública da sua comunidade. Foi a este estado de infantilidade moral que chegámos meus caros amigos.



Bem, percebemos agora porque aparece esbaforida e a correr, tanta a gente de mãos na cabeça, perante o fim do mistério, e suspeito que a última das suas preocupações seja a literatura. Basta pensar na indigência dos argumentos utilizados.

Her anonymity has been a protest against those who can no longer read books as works of fiction. What’s interesting about novels isn’t that they imitate life, but that the ways in which they perform reality aren’t the ways in which real reality works.

É exactamente o contrário, meus caros leitores. Se os romances não funcionam como a realidade, qual a razão de convocar a suposta existência real de uma Elena Ferrante para justificar a coerência interna ou a pertinência artística dos seus romances? Respeitemos o público! A encenação de Ferrante é como uma gigantesca cavilha cravada no coração da literatura, como se o discurso não fosse suficiente para mover a imaginação dos leitores, como se a mera declaração de um outro nome já não tivesse a força necessária para colocar em marcha um novo mundo, como se as palavras impressas na página já não fossem capazes de levantar um cenário convincente, como se a linguagem tivesse perdido o poder de inventar personagens mais reais que o mundo real. Ferrante não acreditou o suficiente na literatura, precisou de um enredo falso para intensificar a sua mensagem e com isso, não cometeu crime nenhum, antes pelo contrário, jogou precisamente com as regras de todos os dias, inventou uma treta real, ou seja, feriu de morte a literatura. Aos autores pede-se maior coragem para aguentar a indiferença do mundo perante o discurso. Ferrante quis furtar-se a esse derradeiro teste, quis ignorar o esvaziamento dos discursos escritos às mãos dessa superabundância de ecrãs e imagens, e cavalgando o discurso mediático, venceu pela meta-literatura. Não considerou a personagem «Elena Ferrante» com força suficiente para se aguentar para lá da charada barata da sua autora. Foi porque Ferrante quis passar como autora confessional, foi porque, sem avisar o leitor, Ferrante quis apresentar a ficção como um livro de memórias real, que paga agora este preço, embora o dinheiro, graças a deus, já não seja um problema para ela.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

O sofrimento, as emoções, a sensibilidade, o trabalho da linguagem, uma grande narradora contemporânea, paga aí a minha tosta mista

Vamos contar a história resumida em cinco actos, para quem não tem tempo para os anestesiantes meandros do nosso pobre meio editorial. Era uma vez uma gaja alegadamente chamada Elena Ferrante, uma desenxabida escritora como milhares de outras: 


Portanto, quase não vendeu, passou completamente despercebido. Nada de novo, acontece.


Não vamos agora citar Kant e o seu famosíssimo artigo «O que é o Iluminismo» onde se pergunta logo a abrir e sem merdas: o que significa controlar o próprio entendimento? Significa ter calma, e não correr logo à livraria quando um crítico qualquer, numa revista chegada pelo paquete vinda dos países civilizados, recomenda uma qualquer fulana, por ser estimulante (quanto a estímulos não recomendo ao leitor o recurso à literatura) chamando a atenção para o carácter privado da sua existência. Ou seja, num mundo onde os escritores fazem figura de urso em tudo quanto é meio de comunicação, o interesse em Elena Ferrante decorreu em 99% do facto de ninguém saber quem diabo era a Elena Ferrante, como prova o excelente artigo de Annalisa Merelli, «Elena ferrante's writing is better in english than italian». Todavia, o truque é antigo, é permitido, é inteligente e dá dinheiro. Só podemos lamentar não termos, pois, a fortuna de Ferrante no nosso bolso, restando-nos continuar a trabalhar, Domigo a Domingo, incluindo toda a semana e grande parte dos feriados.


Aqui meus caros leitores, começam os apuros. Quando o escritor em vez de proclamar um sonoro «não me fodam o juízo» e acrescentar: «leiam os livros, façam bom proveito e paguem o que devem», se põe antes com justificações infantis, arriscando passos no pântano fétido da filosofia política. Enlameou-se o escritor, pois claro. Se os estimados leitores podem passar sem os meios de comunicação, já Ferrante não passaria, nem passará, sem os meios de comunicação, como bem sabemos. Aliás, os meios de comunicação querem caras, personagens, protagonistas excêntricos. Sim, tal como os editores e os escritores, por isso, Ferrante e os seus editores ajudaram a criar o totalmente lateral e desinteressante mistério acerca da identidade da autora, provavelmente, um anonimato inicialmente devido ao medo do estrondoso insucesso - que começou por verificar-se - medo do insucesso ainda mais assustador quando a cabeça do autor é a de alguém ligado profissionalmente à edição e aos livros.


Passemos esta cornucópia, cujo interesse é apenas o de comprovar como a literatura ainda não entrou no século XXI, ou como diria um homem do povo, não me roubem o pão. Moral desta moralizante história:


The best way to read:

Elena Ferrante, algures na Arábia Saudita.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Agora que o alf voltou achei por bem pôr isto aqui


do não menos espectacular scorpion dagger

A Bíblia grega e a economia das mordidelas

Numa aliança cósmico-deprimente o universo em todos os sentidos e extensões conjugou-se numa semana fundamentalmente triste. Este autor foi obrigado a ter conhecimento de uma belíssima entrevista onde valter josé antónio hugo saraiva mãe se queixa do poeta Vasco Gato, pessoa sensível em todos os sentidos, caracterizada literária e academicamente por ser um jovem poeta e ser humano muito promissor, isto vai para mais de vinte anos. Não vou entrar em pormenores sobre o incidente, tendo em conta que nessa mesma entrevista (e aviso todas as adolescentes com ligações ao Opus Dei) o referido escritor das Caxinas (terra de Fábio Coentrão) aparece integralmente nu a passear a mangueira num corredor. Também não quero com isto ser acusado de homofobia, adoro homens - Grimaldo, Lindelof, Pizzi (este também já fotografado, embora acidentalmente, em nu integral), só para referir três exemplos morfológicos muito distintos - mas considero lateral à arte da literatura a exposição pública dos órgãos genitais, no fundo, sou um gajo que apenas gosta de livros.

Por outro lado, a entrevista, e sem ponta de reprocessamento, é uma entrevista interessante, quanto mais não seja por vermos um gajo que fala de coisas, e não se esconde apenas em tópicos de neuromarketing acerca do sofrimento humano. Deve ter sido a primeira vez que um autor falou do preço de um livro e se acertaram contas com quem de direito, sobretudo com gajos que fazem as vezes de sofredores e devem ser uns gajos sofredores com muita capacidade de comercializar o seu sofrimento, pelo que temos todos a agradecer ao valter josé antónio hugo saraiva mãe, o facto de ir a jogo com mexericos da sua própria lavra, metendo os colhões no lume, e não invocando qualquer auxílio do reino dos mortos. Os meus parabéns. Só falta começar a escrever bons livros.

Por outro lado, o cervejeiro amador, Afonso Cruz, foi agraciado com 15 000 euros, na sequência do prémio literário Fernando Coitado Namora, cuja verba foi arregimentada pelo Estoril Sol, yeah, e com um júri presidido pelo boneco embalsamado, Guilherme de Oliveira Martins, uma pessoa que deve a sua carreira a um remoto grau de parentesco com um amigo do cônsul de Portugal em Paris, José Maria o Espertalhaço Eça de Queirós, júri esse onde se conta ainda um membro da Associação Portuguesa de Críticos Literários (com francas relações de amizade com a Associação Portuguesa de Protecção da cabra do Gerês). O valor pecuniário em apreço, 15 000 euros, é bastante simpático, sobretudo por se ter anunciado que a cabeça de Salman Rushdie só vale cerca de 500  mil euros, segundo os ai-atolas do Irão, o que eu desconhecia em absoluto, caso contrário, talvez tivesse considerado uma outra saída profissional. Justa, portanto, esta menção ao autor de Flores, Afonso Cruz. A literatura, o turismo, a cerveja e todos os escritores de simpatia marxista a quem já só resta um nome, estão de parabéns.

A encerrar esta improvável sequência de acontecimentos bastante prováveis, José Tolentino Mendonça escreve sobre a tradução do livro mais estafado de todos os tempos, a Bíblia. Como é comum no nosso quintal, Frederico Lourenço meteu-se no quintal do vizinho e foi agraciado com o chamado cartão amarelo, pois segundo o vice-reitor da Universidade Católica, «é bom não morder a mão que nos dá o pão» isto pelo singelo facto de Frederico Lourenço, um católico convicto, se ter arriscado a dizer a impossível máquina de perversidades que se transcreve em seguida:


E remata Tolentino Mendonça, ponta de lança da interpretação organizada num colégio com voto de castidade, a Igreja: «Cada um tem direito à sua naiveté e às ilusões que quiser, mas entendamo-nos: não existe “a tradução” da Bíblia.» Com isto, crava uma rebrilhante e franjada bandarilha no cachaço taurino de Frederico Lourenço, ponta de lança da interpretação organizada num colégio sem voto de castidade, a Universidade.

Pois é caros leitores, saudemos a festa da vida e celebremos o facto de termos vivido o tempo suficiente para vermos um teólogo oficial da Igreja Católica, a invocar a pluralidade das interpretações, para se defender do contra-ataque universitário das Humanidades, desta feita, Humanidades decadentes e forçadas a disputar o parco alimento disponível no campo da auto-ajuda, pois que já só isso resta. Quando são muitos os cães a disputar um naco de pão, já muito velho e bolorento, é normal acabar tudo à dentada, pelo que apenas posso recomendar ao avisado leitor: cuidado com os dedos, quando for alimentar cães demasiado esfomeados.

Conheça algumas das principais doenças que afectam os cães

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Os livros

A Inês Fonseca Santos introduziu um novo problema na literatura, a saber, como é que um gajo se constitui cidadão de pleno direito no mundo das pessoas sensíveis: boa noite, bem-vindos aos livros, são 14 euros e 50 cêntimos: Pim. De igual modo, no fim da ceia tomou o cálice, e apresentou o livro de Valério Romão, com toda a certeza uma natureza (trau) sofredora com as suas experiências pessoais e públicas (Pim), pois só um gajo traduzido nas mais diversas línguas (incluindo a Suiça), pode aspirar a dizer alguma coisa sobre a natureza humanóide, embora a língua da Inês Fonseca Santos deva estar fora de um texto que se quer credível, responsável, profundo (trau) e mais que tudo, decente. Em defesa da literatura, dos livros, e do mundo em geral, só posso dizer-vos: TRAU.

Crianças, Hospitais e patologias, ora aí estão três tristes temas que fazem a eleição dos intelectuais de esquerda e das medicinas alternativas, mas longe de mim entrar numa polémica em torno do sofrimento de cada um (Milton Friedman já o disse, a cada um a sua filha da putice), mas como diria esse cabrão de Turim, Frederico o Grande filho da puta Niezzscchzhese (viva o acordo Ortográfico) os poetas - esses filhos da puta - são impúdicos para com as suas vivências, e se são impúdicos, ora bem (trau) terão de levar com a crítica crítica, pois Marx - cuja filha se matou de pobreza, miséria e desejo de ser grande - passou as passas do Algarve e Além Mar para conseguir elaborar uma teoria lógica e sistemática do capitalismo (incluindo os filhos da puta dos escritores) onde - hoje em dia - todos mijam sem qualquer noção do mijo. Não quero com isto dizer que os livros são um comércio como outro qualquer, pois é muito pior quando os livros, não sendo um comércio, acabam como substitutos da palavra divina, uma teologia da palavra voando sobre as águas sujas do estruturalismo, uma panaceia para as dores espirituais, um substituto da catequese, uma versão de auto-ajuda revista e alegadamente (pela Inês Fonseca Santos - a grande cavalona) melhorada, isto é, a cura dos paralíticos, a lição parabólica do rabi palestino - esse terrorista árabe educado no judaísmo chamado Jesus - quando colocando dois dedos no lodo, os esfregou nos olhos do cego: senhor, senhor, lembra-te de mim quando vieres como o teu reino (trau). Pois a literatura, não é mais que religião privatizada e vendida em fascículos.

A relação entre uma relação em ruínas e o incumprimento de um sonho - segundo Valério Romão (um homem traduzido na Suiça) ou ainda mais, segundo a princesa egípcia (desculpem) e torturadora do nosso sono, a Inês Fonseca Santos - são o grande tema deste excerto da cultura ocidental, o programa Os Livros, onde se fala de silêncio, incapacidade, medo, e incongruências das instituições - essas costas largas da civilização moderna (e que são sempre pau para toda a obra) - um programa apresentado pela incomensuravelmente sábia, porque talvez distante (Deus nos ajude), Inês Fonseca Santos, pois da instituição da literatura (essa antologia de santos laicos forjados pela nova religião, a sensibilidade, dada à estampa por esse grande maricas e abandonador de crianças, o Jean-filho-da-puta-Jacques-e-muito-meu-amado-Rousseau) ninguém trata das incongruências ou medos (trau) pois que é ganha pão de muito malandro. Pim. Pam, Pum.

Mas queria mesmo era falar dessa trilogia das paternidades falhadas, se paternidade falhada estiver relacionada com a doença - que espreita sempre ao virar da esquina - pois não estou a ver bem onde reside a diferença entre o livro Autismo e o Prometo Falhar do Pedro Chagas Freitas, a não ser no facto de não termos os nosso livros lidos pela boca ululante e pacificadora da bela e monstruosamente bela, Inês Fonseca Santos, a de olhos decapitadores da nossa tranquilidade. Pim. Dizia eu que, pois claro, se a doença e a eterna patologia da denúncia (os terapeutas são santos que nos falham) vão facturando o lucro das nossas fragilidades (sem ensinar nada ou arriscar nada), a paternidade falhada é uma coisa que nos não deve merecer muitas lágrimas, se tivermos coragem para nos foder todos uns aos outros (o que é o motor do progresso), sendo fiéis ao silêncio sobre a nossa privacidade e combatentes jihadistas desse acidente estatístico que é a doença - grande ganha pão da nossa contemporânea idade - à qual (doença) não desculparemos nada, pois que estamos apostados em contrariar a natureza do poder e o poder da natureza. No fundo - o leitor já adivinhou - este alf é um gajo com inveja do Romão (voilá) sendo muito justamente a inveja que move os portugueses e o mundo, e eu assim me confesso invejoso de não ser violentamente criticado (com chicote e napa) pela Inês Fonseca Santos, mesmo que economicamente isso não fosse grandemente favorável, embora, dito de outro modo, a vontade de poder passe pelo domínio do eterno feminino, razão pela qual existem hospitais, crianças e autismo: no fundo, quem nos fode são as mulheres: o senhor seja louvado, bem dito seja o senhor Deus.

Basta ouvir esse guerrilheiro mexicano, o Valério Romão, para não descortinar qualquer diferença com um mau episódio de uma novela da TVI - a não ser preferirmos gajas boas afogadas no drama a dramas sem gajas boas e relatados pela boca de um guerrilheiro mexicano. «Intensidade e profundidade» - diz a Medusa letal que leva no seu abençoado colo a cabeça apaixonada de Perseu, ou seja, a minha - repito, intensidade e profundidade (trau, trau, trau) que «Valério Romão explora a seu favor, isto é, a favor da história que cria, através de recursos como a linguagem que acelera e abranda ao ritmo das personagens e da estrutura narrativa que dispensa regras», isto diz a Inês Fonseca Santos (daqui em diante IFS, ou seja, Isto Foda-se Só-se-chorando, mas já assentámos que não, como diria o Vergílio Ferreira). Também nós dispensaríamos todas as regras num mundo onde a Inês Fonseca Santos nos pudesse conduzir por corredores de bibliotecas com livros e livros e livros, e onde o confessionalismo das personagens fosse apenas um pretexto para criticarmos cada centímetro do seu corpo mediático (salvo seja a vossa vontade, assim na terra como na biblioteca) corpo mediático explorado por uma política de educação pública paga pelo Orçamento devidamente vigiado pela Unidade Técnica de Apoio ao Orçamento, mas ainda assim, política largamente compensadora de todos os sacrifícios feitos pelo povo português desde a crise financeira de 2008; «O aviso está escrito, não dá para escapar. Até aos próximos livros». 

E a Inês Fonseca Santos (trau) devolve o livro às prateleiras, indiferente ao seu poder de acumulação da poupança, uma mulher criada nesse espaço perverso das ligações entre a cultura, a Escola de Frankfurt e a alocação de recursos públicos, e a gaja - do alto da sua autoridade literária - avisa cada um de nós (e cada um de vós, leitores deste blog) que no caso de um dia aspirarmos ao banquete dos eleitos, teremos de colocar o nosso chapéu de guerrilheiro mexicano, e invocar esse supremo calcanhar de Aquiles da nossa civilização - o sentimentalismo -, no fundo, somos todos habitantes da Casa dos Segredos a quem os pais - por benefício da economia de mercado - pagaram estudos superiores de letras, embora no nosso coração, sagrado, sejamos tão iguais como todos esses anónimos leitores de Pedro Chagas Freitas (embora  Teresa Guilherme no Domingo tenha empurrado as mamas - um pouco já decrépitas - contra um vestido de lantejoulas) o que em nada, por ser a TVI uma empresa de direito privado, deve perturbar os contribuintes (iguais em esperança e caridade) que pagam os Hospitais (essas instituições medonhas) onde não se tem em conta a economia específica do autor, para grande pena nossa, pois cada dia sofremos horrores por não poder fazer feliz e habitar (cada um dos centímetros de toda a falha) que porventura possa perturbar a Inês Fonseca Santos, et in saecula saeculorum, sabendo, todavia, como no fundo, gostaríamos era de estar no lugar mediático, topográfico e erótico do Valério Romão, autor muito justamente consagrado e constrangido, a quem, e desde já, desejamos - com toda a sinceridade - muitas e muitas felicidades.

A literatura como saída profissional.

Ora aí está uma coisa que pode sempre acontecer:

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Aproveitando a onda de emoções positivas que a Seleção nos proporcionou


deixo aqui o meu honesto e sentido desejo de que os editores e livreiros do país vencedor do Euro16 sejam enrabados por todos os jogadores, técnicos, massagistas e roupeiros das selecções perdedoras. Duas vezes.

Lojas online em que raros são os livros a custarem menos de 15€, sendo que alguns clássicos não se ficam por menos de 25€ ! Sites absurdos, pensados para analfabetos, com um catálogo éxiguo. E como se não bastasse, na confirmação do processo de compra sou brindado com um "ocorreu um erro, tente mais tarde". Tento mais tarde, o caralho ! (Éderzito, 12 de Julho de 2016)

Como é que é possível tamanha incompetência e azelhice no século XXI ?!


domingo, 27 de março de 2016

A f. fez barda da grossa, eis porquê

É importante perceber porque esta cagada é efectivamente uma cagada.

Porque todo o texto tem um sabor a reportagem antropológica sobre uma tribo perdida na Amazónia, feita enquanto a autora matava tempo até abrirem as lojas do Sablon e da Avenue Louise. É uma falta de respeito por quem lá vive.

Porque é uma caricatura de um bairro e como tal, apoia-se em esterótipos e preconceitos. É tão idiota caracterizar Molenbeek como um viveiro de terroristas, como é dizer que aquilo é tudo gente de bem. Para criticar certo tipo de esteótipos, a Fernanda Câncio limita-se a utilizar outra classe de estereótipos.

No 40 miutos que estive na Bourse, com um custo monetário de 2.30€ em estacionamento, fui entrevistado pela CNN para a América Latina, estiveram estes marmanjos a gritar e a fazer confusão, nas escadarias da Bourse discursava um senhor, presumo que, paquistanês, ao meu lado estava uma tuga a cortar na casaca de uma colega de trabalho e atrás estava um negro a beijar o BI belga enquanto uma criança loirinha desenhava a giz corações no alcatrão. Para além da minha presença na Bourse e os 2.30 € por 40 minutos de estacionamento, que mais poderemos dizer sobre estes 2400 segundos que não sejam absolutas banalidades sociológicas ? Não será antes preferível o reconhecimento da nossa ignorância, seguido por um esforço continuado em atenuar a dita ?

quarta-feira, 23 de março de 2016

Vénia profunda a Dostoievski, um dos poucos que sabe escrever sobre a locura

O mais difícil para mim, neste dia pós atentado, tem sido eu descobrir em mim uma sede de sangue, de vingança. Passo o tempo a discutir comigo próprio, porque não agarrar numa kalash e varrer Molenbeek a chumbo. Ou então, ir esta sexta-feira largar granadas numa das mesquitas de Bruxelas. Ou fazer uma visita aos familiares dos terroristas. Ou....

Eu sei que é errado. Eu sei que provavelmente seria até contraproducente. Eu sei que depois de derramado o sangue, não é possível voltar atrás. Mas não consigo calar esta sede de sangue.

Também sei que daqui a uns dias, volto à normalidade. Foi assim em Novembro, quando Bruxelas foi fechada durante um fim-de-semana fechada. Foi assim aquando os ataques de Paris. Mas até lá cohabita em mim um ser medonho.

quarta-feira, 9 de março de 2016

A Anglo-Saxónia é onde um homem quiser.



Fiz aqui promessa de não voltar ao assunto. E não voltarei ao assunto. Voltarei, contudo, ao problema (mais profundo e preocupante) implícito no assunto, a saber, a ignorância (potenciada pela vaidade e a falta de contraditório) de uma quantidade muito relevante da nossa imprensa. Há quem ainda não tenha conhecimento do investimento (público) educativo, numa população cada vez menos disposta a ler bovinamente os nossos cronistas, uma população com capacidade para zurrar o seu desagrado, sempre que lhe apetece, o que tem sido considerado uma suprema infâmia. É este, em suma, o problema das redes sociais. Os chamados «imbecis» sempre existiram, mas antes não sabiam sequer ler ou escrever. Podiam ser facilmente calados, ou pelo aparelho de Estado ou pelo sufoco financeiro. Por isso, os intelectuais do regime podiam elaborar com livre trânsito, sem sofrer o incómodo da aguadeira, do almocreve, do professor retorcido, ou do empregado de escritório deprimido e proto-revolucionário. Agora, a populaça não só escreve, como manifesta indignação, atrevendo-se a chamar nomes aos bastiões da propaganda.

Será sempre muito mais fácil, depois da criação das redes sociais, alguém encontrar o tempo e a vontade, para mandar algum cronista ir ler um livrinho e moderar o alcance do disparate. Se pensarmos bem, o problema é profundo. Numa época de especialização, o cronista, e mesmo o autor publicado, ao querer iluminar a multidão sobre os mais variados assuntos, logicamente, perde em toda a linha, pois haverá, em quase todos os domínios, alguém mais qualificado. Os jornais (e pelos vistos, as Fundações) não perceberam muito bem isto. Ou perceberam mas não querem perceber. Quanto ao cronista, ferido no seu orgulho de relíquia desqualificada pela modernidade, não gosta de ser contrariado pela plebe, ainda mais a partir de uma coisa grátis, e acessível a toda a gente, de forma escandalosamente igualitária. Como se pode tolerar isto? Só lhes resta despejar livros pagos pelo Alexandre Soares dos Santos sobre as cabeças da multidão.

Interessa-me para já a rara capacidade de João Miguel Tavares, ao introduzir numa mesma crónica uma penalização da crítica ao disparate, para logo em seguida, o mesmo João Miguel Tavares se multiplicar no esforço de defesa do próprio disparate. Sem ter entendido o problema implícito na publicação de Alentejo Prometido, João Miguel Tavares parte do princípio de que as pessoas não leram o livro. Nem precisavam. A indignação nasceu da boçalidade das declarações de Raposo na entrevista e não da leitura do livro, tortura psicológica a que felizmente, muito poucos se entregaram ou entregarão. Henrique Raposo não é odiado por ser cronista de direita. Por exemplo, Lobo Xavier é de direita, fala todas as semanas na televisão, e não é odiado. Não quero justificar os efeitos virais da chacota. Mas é estranho que não passe pela cabeça de João Miguel Tavares que possa, por vezes, existir um levantamento popular de indignação com boas razões, nomeadamente, a incrível estupidez da pessoa alvejada (salvo seja), mesmo sendo de direita. No fundo, isto mostra bem a cultura democrática dos nossos «anglo-saxónicos». O povo sim, tudo bem, mas caladinho, direitinho e na ordem.

Se a filiação política não deve ser motivo de descriminação, também não deve servir de escudo perante a crítica ao disparate. João Miguel Tavares também é, sem o querer, um perigoso indignado, a quem a indignação dos outros incomoda, apenas por ser muito pouca indignação, como no caso Sócrates. Um pouco mais de inteligência lógica, se faz favor.

Passemos então ao estilo, colocando no mesmo saco dois exímios praticantes do chamado caterpillar lógico (uma actividade caracterizada pela terraplanagem da complexidade, de forma a construir uma avenida entre o modelo de realidade pré-concebido e a explicação da própria realidade). Aquilo a que João Miguel Tavares (e outros parolos) chamam estilo cru, provocador, estimulante, não passa, na maior parte dos casos, de disparates ditos com muita força. Isto é, disparates sem argumentação, fundamentação empírica ou encadeamento lógico. Basta tomarmos como exemplo a defesa do livro de Raposo. Criticando os críticos do livro (por não o terem lido) Tavares escreve uma crónica em que, precisamente, não usa um único argumento (empírico ou lógico) para defender o livro, nem sequer invoca qualquer argumento apresentado pelo livro (o que, convenhamos não seria fácil de encontrar). Tavares, um liberal, alérgico a sebentas, recorre, pasme-se, ao argumento de autoridade. Ou seja, não gostando de sebentas, vai refugiar-se debaixo das saias da professora.

A autoridade, portanto, de Maria Filomena Mónica. Interessa-me sobremaneira esta apologia da brutalidade como factor de sedução. Gritar muito alto, utilizar afirmações tremendas e aforismos definitivos, apresentar certezas inabaláveis e juízos grandiloquentes. Mas eu diria que isto não é inventivo (todo o taxista tem uma mundividência semelhante a Raposo e Filomena Mónica, feita de tremendismo e provocação, e por vezes, ódio aos comunistas). Ora, no caso de Raposo e Filomena Mónica, e sobretudo, no caso de João Miguel Tavares, o «arrojo interpretativo» e a «provocação» não são a marca do estímulo intelectual, e muito menos da sabedoria, mas um sinal de provincianismo e pouca leitura. Onde devia estar a ponderação das diferentes posições de quem estudou o caso, está uma ideia arrojada, tida ao pequeno almoço entre o croissant e a leitura do Expresso, e onde devia estar uma análise racional e comparativa dos problemas, está a ideia de Portugal como choldra, pocilga, degeneração (caso do Alentejo de Raposo) a que os provincianos recorrem desde há vários séculos.

Uma escrita que mistura a autobiografia com o ensaio é uma tradição anglo-saxónica que ainda não entrou nas cabecinhas nacionais. Sobre isto, nem sei o que diga, pois revela tudo sobre a cabecinha de João Miguel Tavares e muito pouco sobre as cabecinhas nacionais, aliás, um conceito revelador dos méritos analíticos do autor. As cabecinhas nacionais são um conjunto de 10 milhões de sistemas nervosos. Não é muito, mas é alguma coisa. Não me vou dar ao trabalho de provar como na tradição anglo-saxónica existe tanto a qualidade como a indigência, normal, onde há abundância de autores. A diferença relevante entre Portugal e a Anglo-Saxónia, em termos de cultura editorial, não está tanto no estilo dos livros publicados, como na crítica e rigor analítico na recepção dos maus livros publicados. Em Portugal foi o povo, nas redes sociais, a indignar-se. Na Anglo-Saxónia, Raposo seria dizimado por cronistas e críticos de referência. Curioso, não é?

Uma segunda nota para o aparelho ideológico do Estado no que à soberania dos neurónios de João Miguel Tavares diz respeito. É sintomático como recorre ao conceito de inteliigentsia, quando Maria Filomena Mónica e Henrique Raposo e o próprio João Miguel Tavares, se enquadram muito mais, e com menos entorse lógico, na dita inteliigentsia. Como não tenho tempo para explanar aqui esse ponto, consultem a wikipédia.

No fundo, importa ainda lembrar que o estilo (biografia + ensaio) do qual o pobre João Miguel Tavares não encontra melhor filiação nacional do que a Professora Doutora Maria Filomena Mónica, e que parece não ter entrado nas cabecinhas nacionais, teve muitos outros praticantes, mais cultos, mais equilibrados, mais conhecedores das mais diversas disciplinas, e com maior domínio da gramática. Talvez João Miguel Tavares esteja esquecido, devido ao facto de as cabecinhas nacionais serem agora deixadas à mercê de intelectuais públicos como Maria Filomena Mónica e Henrique Raposo. Contudo, repito, essa «inovadora» junção (biografia+ensaio) sempre teve cultores em Portugal, não é preciso ir fazer doutoramentos a Oxford para o saber, bastaria ter lido um bocadinho mais algumas cabecinhas nacionais, ou mesmo consultar os catálogos das bibliotecas, uma actividade capaz de provocar o bocejo, compreendo.

Já não vou a Almeida Garrett ou a Alexandre Herculano e presumo que será escusado falar de Francisco Manuel de Melo. Contudo, bastaria pensar, por exemplo, em dois livros editados no século XX, dois livros com um discurso claro e rigoroso, ou se quisermos ser pedagógicos, e utilizar a língua dos intelectuais Pingo-Doce, dois livros de estilo «anglo-saxónico», além dos mais, ainda disponíveis nas livrarias: Carlos de Oliveira, O Aprendiz de Feiticeiro, ou Fernando Namora, Diálogo em Setembro. São comunas, eu sei, mas isso não dispensa João Miguel Tavares de conhecer o campo e o «estilo», sobre o qual pretende dar lições acerca do que faz falta (à malta) ler. O desconhecimento absoluto da realidade nacional, como rampa de lançamento para uma provinciana subserviência anglo-saxónia, é sintomático de uma certa cultura Pingo-Doce, a que não gosto de passar atestados de menoridade, mas que se revela extremamente irritante, quando pretende escolarizar, sem saber o que é a scola. Em muitos casos, essas lições são possíveis, por lhe terem oferecido, na parvónia onde tanto cospem, cátedras universitárias ou colunas de jornais. Até porque essas espectaculares pessoas não encontraram lugar para exercer a sua competência na Anglo-Saxónia da liberdade e da sabedoria.

Como o próprio João Miguel Tavares reconhece, o risco do erro está lá, e está lá em doses cavalares. O arrojo interpretativo está sempre muito próximo do delírio, e da própria estupidez, conforme nos ensinou o sábio de Milão, desaparecido há pouco tempo. Para separar o delírio do arrojo interpretativo, convém recompensar os críticos, ou o sono da razão produzirá os seus monstros. Quanto ao bocejo do papagueio, tudo depende da espécie a que pertencemos. Os papagaios, por certo, encontram elevado estímulo no papaguear das papagaias, e vice-versa. Que os jumentos bocejem perante o canto dos rouxinóis, é normal, afinal de contas não entendem nada daquela doce melodia. Mas a Academia, e a crítica pública, foram criadas para estudar o comportamento dessa selva tribal e agressiva, submetendo-a à razão universal. Seria bom não desistirmos assim tão facilmente da análise, refugiados no coito da «biografia» ou da «liberdade de expressão». Se alguém se levanta para falar, é bom que seja tomado a sério, e é bom que o clima de crítica às ameaças e insultos, não sirva para dar livre trânsito ao disparate encartado, e à propaganda política, paga pelos jornais e as fundações, e apresentada ao público mascarada de literatura.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Carta aberta à minha própria estupidez.

Aos desiludidos com o silêncio retroactivo sobre o assunto do momento, tenho respeitosamente a declarar a minha falta de jeito para as simplificações. A partir do momento em que começo a ser arrastado para a lama, fruto da estupidez sempre galopante em todas as matérias consideradas virais, reservo o direito de subir à minha torre de marfim, e apagar qualquer vestígio sobre tão deprimente figura e assunto. Fizeram de um parvo, publicamente agressivo contra pessoas e instituições, e atrevidamente ignorante, um mártir da liberdade de expressão. Com que então, um cronista de um dos jornais de maior tiragem, com acesso a televisões, financiado por uma das instituições culturais mais ricas do país, alçado a combatente pela liberdade, passou a ser apresentado como intelectual perseguido e silenciado? Ao que chegamos. Só nos últimos dois dias, já vi três novos textos do referido «silenciado» em três órgãos de comunicação social de grande tiragem (para não falar dos directores de jornais, televisões, revistas, políticos, jornalistas, almirantes, poetas, empresários, farmacêuticos, que logo correram a fazer soar as trombetas do alarme, em solidariedade com a vítima do povo em armas). Para isto, contribuiu uma incrível falta de inteligência, a começar por mim, mas sobretudo de todos os que. estupidamente, correram a insultar e a ameaçar a figura, da forma mais desajeitada e selvagem possível, incluindo na caixa de comentários deste blogue.

De um simplificador boçal e cheio de si mesmo, fizeram um herói da coragem literária e da biografia pessoal. Pois bem, não contribuirei mais para essa inacreditável perversão dos factos. Por estar nos antípodas do estilo e substância de um autor como Henrique Raposo, só posso vir a público reconhecer o meu erro. Quem sabe não terei ajudado, fruto da ironia mal compreendida, a incendiar algumas consciências. Quem sabe não terei contribuído para as tristes ameaças e insultos, e muito pior, para a construção do mártir. Só posso nesse caso fustigar a minha própria burrice e incapacidade.

A melhor forma de combater os estúpidos, é ignorar a estupidez, eis um princípio estrutural de uma boa vida, que teimo em não aprender. O controlo (e a proeminência) no espaço mediático pertence invariavelmente aos brutos, insensíveis e ignorantes. Os mais críticos de si mesmos, inteligentes, sensíveis e delicados com os outros e os seus problemas, afundam-se na incapacidade de resistir ao caos, à falta de sentido do mundo. Os mais cuidadosos e responsáveis acabam torturados pela sua consciência, perdidos e assustados no labirinto de consequências e desastres criados no seio da sua poderosa (desgovernada?) imaginação. Hesitam até à paralisia, diante da enorme variedade dos imprevistos humanos, receosos de terem prejudicado indevidamente alguém, triturados na máquina de esconder a injustiça a que chamamos realidade.

Talvez se possa chamar a isto cobardia. Ou cansaço de viver.

quarta-feira, 2 de março de 2016

A vida é curta mas não podemos recuar diante dos grandes dilemas da humanidade.

Na sequência da vaga de fundo irreprimível, vamos voltar a publicar a nossa entrevista fictícia (e satírica) e repito, entrevista fictícia, ou seja, inventada (ficou claro?) ao ilustre Henrique Raposo, mártir da liberdade de expressão.


Henrique Raposo, cronista do Expresso, licenciado em História, investigador em Ciência Política, homem desassombrado, considerado provocador, atacado pela esquerda, bastião da liberdade. Fomos entrevistá-lo a propósito do seu mais recente livro, Alentejo Prometido, no contexto desta recente polémica. A obra incendiou as redes sociais e alegadamente, um grupo de alentejanos já considerou a hipótese de invadir o local de apresentação do livro, apimentando o evento com uma carga de porrada bem distribuída, e fazendo jus à acusação de que o Alentejo é uma terra de violência, num estado de pré-guerra.

Henrique Raposo, obrigado por nos ter recebido aqui em sua casa. Antes de mais, sabendo da sua relação amor-ódio com o Alentejo, pergunto: como é viver em Lisboa?
Sabe, viver em Lisboa é excelente, as pessoas confiam imenso umas nas outras e as raparigas usam variadas vezes a palavra violação, sobretudo para descrever os preços das saladas vegetarianas.

Henrique, já que fala nisso, deixe-me ir direito ao assunto. Durante a sua polémica participação no programa Irritações da Sic Radical afirmou: «as alentejanas antigas não têm a palavra violação para descrever os abusos que sofriam. Ele chegou-se ao pé de mim e pronto».
Isso foi mal interpretado pelas redes sociais, aliás, as pessoas, burras e esquerdistas como são, neste país socialista, atrasado e cheio de alentejanos, tendem a interpretar mal as minhas lições de vida. Eu próprio, ao ser convidado para escrever este livro pela prestigiada Fundação Francisco Manuel dos Santos, fui alvo de uma experiência parecida. O gajo responsável por estes livritos (note-se, livritos vendidos praticamente ao preço do quilo da Amêijoa vietnamita, 3,15 euros, isto é quase dado) chegou-se ao pé de mim e pronto, convidou-me a escrever uma merda qualquer, desde que batesse nos comunistas. Como o Alentejo está cheio deles e a minha família é de lá, não precisava de perder tempo com esses vícios do socialismo como ler livros e exercer a crítica lógica.

Como definiria a experiência de escrever esta magnífica obra, Alentejo Prometido?
Vou dar um exemplo. Sabe, ainda em tenra idade, no monte da minha avó, um maltês pousou a pistola na mesa, e enquanto lhe eram servidos os ovos com linguiça, eu, uma criança já irrequieta, considerei aquilo uma infâmia e perguntei ao maltês se não tinha lido as obras completas de Toqueville. Ele encolheu os ombros. Irado perante o esquerdismo evidente do gatuno, quis saber se o mal-educado não tinha um Pingo Doce onde ir comprar os ovos e a linguiça.

Desculpe interromper, a esquerda é muitas vezes acusada de considerar o Pingo Doce uma instituição perversa, e considerando que o incentivo à criação intelectual deve ser controlado por instituições públicas, com critérios de selecção públicos, critérios esses passíveis de revisão por debate e mudança eleitoral.
Nem mais. Como vê, um absurdo, de outro modo, o público não teria sido brindado com a obra em apreço. Não é para me gabar, mas temos aqui um livro essencial como representação de segmentos da sociedade, descurados pela produção cultural, nomeadamente, os jumentos, mas adiante. O maltês ali estava, a mamar à conta da minha diligente e empreendedora família, quando podia perfeitamente ter adquirido os ovos e a linguiça num magnífico estabelecimento da excelente empresa Soares dos Santos. Mas não, bem pelo contrário, veio incomodar a minha família com uma pistola, dando uns tiros, e pousando a referida pistola em cima da mesa, num claro e inaceitável gesto de terrorismo regional.

Bem, é como diz, Henrique, e isso não o impediu de alcançar uma obra penetrante e arguta, sobre uma das regiões mais trágicas do país, o Alentejo.
Não, de todo, até porque ao escrever, não costumo utilizar o raciocínio lógico. Misturo umas memórias mais ou menos esfarrapadas de mau cinema americano, leio duas ou três páginas daquele velhinho meio holandês, e já um bocado tolinho, o José Rentes de Carvalho, passo a minha língua pela banda magnética do cartão multibanco, e sai-me naturalmente esta capacidade de provocar e combater os lugares comuns.

Fale-nos um pouco mais desta sua especialidade: a provocação. O Alentejo do turismo e do neo-realismo não é o verdadeiro Alentejo. Há toda uma verdade por revelar. No Programa da Sic Radical diz: «Os meus avós (avôs) não tinham carinho pelos filhos porque não tinham a palavra que afunilasse (e sublinho o afunilasse) o carinho, que é "criança"». Esta teoria de palavras capazes de afunilar conceitos, neste caso, o carinho, é algo que nestes últimos dias tem feito brado em algumas revistas de linguística, das mais prestigiadas universidades norte-americanas. Um estudioso chega a sugerir que a origem desta sua clarividente teoria, pode estar relacionada com o facto de os Alentejanos usarem muito o funil, quer para passar o azeite dos tonéis para os galheteiros, quer para passar o vinho dos garrafões para as garrafas.
Não me parece, nunca vi nenhum alentejano a utilizar o funil. A relação entre os conceitos e as palavras, no seio dos alentejanos, é uma relação feita através da faca e da pistola, razão pela qual existe tão pouca gente no Alentejo. E se pensar nisso, verá que é natural, as pessoas têm medo e vão viver para locais onde a confiança é predominante, como Rio de Mouro ou Almada, locais onde, em vez dos Malteses, os antepassados são decoradores de interiores vegetarianos e adeptos de budismo.

Algumas pessoas, tomadas pela inveja, avançam uma outra hipótese para a sua teoria do funil e da criança: a de os seus avós poderem eventualmente ter conhecimento da palavra criança, mas não se sentirem convidados a usá-la, diante de uma figura com a sua maturidade, mesmo quando tinha 6 ou 7 anos, e já lutava pela liberdade das galinhas poderem estabelecer o seu próprio sistema de saúde. Concorda?
Não concordo e vou explicar porquê. Essas pessoas devem ser todas alentejanas. O alentejano é por natureza uma pessoa desconfiada. Pense no cão, por exemplo, o rafeiro alentejano, ninguém fala nisso, mas é uma vergonha. Se chegar a uma aldeia ou vila alentejana, verá um grupo de cães a caminhar na diagonal, de um lado para o outro, em busca de um bocado de osso ou de uma cadelita onde sossegar os instintos, sem que as cadelitas conheçam qualquer latido para designar violação. São animais egoístas os cães alentejanos. Mas se chegar a Arouca ou a Vila Nova de Gaia ou a Santa Comba Dão, verá os cães reunidos em assembleia, desde rafeiros até galgos, a tocarem violino em orquestras de câmara ou reunidos em Parlamento, de onde se conclui que as escolas do norte do país, por estarem menos dependentes do socialismo do Ministério da Educação, e por serem fruto da liberdade cívica e do fervor das comunidades religiosas, até entre os cães conseguem estabelecer laços de confiança e criatividade.

Segundo afirma, os laços de comunidade são fortes no Norte e fraquíssimos no Sul.
Rigorosamente. No sul, como disse, predominaram sempre os malteses, uma espécie de cowboys, bandidos e revolucionários. Uma espécie de cruzamento entre Che Guevara, John Wayne, um cesto de coentros e umas calças de ganga. Os malteses ameaçavam incendiar as colheitas dos proprietários e com este repugnante ataque à propriedade privada, semeavam a violência, e por isso, a desconfiança. Como toda a gente sabe, os malteses são os antepassados da Mariana Mortágua. Só lhe falta ladrar.

Mas no norte, não existirá registo ou vestígio de violência similar?
Nem pense, de todo. Conheço bem o norte, tenho um primo maluco que fez a tropa em Chaves.

Mas em que dados históricos ou sociológicos se baseia?
Ora, não me diga que também é socialista. Baseio-me na minha rica e paranóica experiência em casa dos meus familiares em Santiago do Cacém. Mas deixo aqui mais uma prova irrefutável: já viu a quantidade de malucos no Alentejo? A opção de semear sobreiros ou oliveiras, espaçados entre si, decorre de uma intenção perversa. É para melhor se poderem enforcar em solidão, e com absoluta desconfiança entre si. No norte, por exemplo, predomina o pinhal e nalguns casos, o castanheiro, ou o carvalho. Em todo o caso, tudo árvores altas, precisamente devido ao facto de as pessoas não gostarem de se suicidar. No caso de se verem forçados a fazê-lo, as árvores estão todas juntinhas, o que reforça os laços de confiança.

Mas diga-nos Henrique Raposo: o suicídio é ou não um fenómeno natural no Alentejo?
É curiosa essa pergunta. Repare: ninguém contesta moralmente um terramoto ou o nevoeiro.

Depende, no estádio da Choupana, na Madeira, contesta-se o nevoeiro.
Está bem, nesse caso, sim, mas em geral, as coisas chatas acontecem e pronto. O alentejano vê o suicídio como um fenómeno natural. Olha, matou-se. O que é uma vergonha, as pessoas julgarem que podem agarrar numa corda, enrolar um ramo de figueira, fazerem um nó, e enforcarem-se, num mundo onde existem tantas maravilhas, como eu próprio, ou os livros do Pingo Doce. No outro dia, pretendia ir a um café, numa aldeia da zona, algures no Alentejo, e a senhora, olha para  mim, com um ar de alentejana e diz: está a ver aquele ajuntamento ali. Ele matou-se. E disse isto como quem diz: eu sou do Porto ou do Benfica, ou mesmo, ofereceram-lhe um livro do Henrique Raposo. Já viu bem? Isto não é admissível.

Há muitas pessoas que o consideram apenas um parvo, a quem foi dado um incrível protagonismo, ou por razões comerciais, uma vez que a raridade da sua estupidez atrai imenso público, ou simplesmente por similar estupidez de quem o convidou a escrever, incentivando a sua falta de noção perante o disparate, dando livre circulação à sua despreocupada ignorância e olímpica burrice. O que diria a estas pessoas?

Sinceramente, diria que não passam de uma cambada de socialistas e inimigos da liberdade de expressão, adeptos dos lugares comuns e dessas banalidades, nomeadamente, a crítica esclarecida, a especialização, o trabalho e conhecimento da literatura específica dos assuntos em apreço. Se dermos demasiada importância a essas pessoas, corremos o risco de acabar encurralados numa sociedade totalitária, controlada por alentejanos, sem venda retalho e sem lucros, nem Fundações, sem incentivos privados à criatividade dos verdadeiros intelectuais, num país tão necessitado dos meus conhecimentos.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Em defesa de Pedro Chagas Freitas (e sem ter ingerido qualquer bebida alcoólica).

Desde há muito tempo nos perguntamos: quem são os nossos inimigos? A fazer fé no jornalismo desportivo, temos para nós ser fundamental a constituição de um menu de inimigos, seja por razões de coesão interna (e sabe deus como precisamos de um antídoto para a dispersão mental dos nossos supersónicos interesses) seja por razões de eficiência estratégica (e sabe deus a dificuldade das pessoas em calcular os efeitos de uma decisão neste mundo onde reinam os pivots da Correio da Manhã TV). A fazer fé nesse épico freudiano-ó-militar, Coriulanus, a natureza ensina quem são os nossos inimigos. Mas nós desconfiamos da natureza (já pisámos demasiadas vezes cocó de cão, aleatoriamente deixado num passeio de calçada à portuguesa, sem nada disto ter sido assinado por Joana Vasconcelos).

Assim sendo, somos forçados a utilizar o poder computacional da nossa cabeça. No mundo da literatura (vamos para já assumir este conceito operacional, imaginemos, sei lá, uma jaula de macacos) não há entendimento claro sobre o valor estético de uma obra, e ainda assim, há consensos. Quase todos os conhecedores, críticos, treinadores de bancada, leitores especializados, massagistas, escolheriam, por exemplo, Gonçalo M. Tavares como um digno representante da «grande literatura». O crítico marxista-leninista-jornalista António Alexandre Lucas Guerreiro chega mesmo a dizer como Tavares vale por uma literatura inteira.

Todavia, contudo, temos cada vez mais interesse em pessoas menos dotadas de antecedentes metafísicos, pessoas limitadas, mas com capacidade para potenciar de forma quase milagrosa os seus parcos conhecimentos, colocando-os ao serviço ninguém sabe de quê. Pensemos no edificante exemplo de Abel Xavier, antigo futebolista internacional português e atleta de vários prestigiados clubes, sem ter chegado a saber o que era uma bola. Quando um escritor como Chagas Freitas, do alto do seu talento para inventar títulos (assim como dos alçapões do seu absoluto desconhecimento da mecânica da metáfora ou da narrativa) inventa um império comercial, ao estabelecer a Lamecholândia (como o próprio ironicamente afirma) como derradeiro destino da natureza humana, está a ser de uma sinceridade atroz. Estamos seguros em reconhecer como o público (no meio da sua comovente burrice mas também entronizado pela sua soberana capacidade produtiva e falta de tempo) corre a premiar esta sinceridade, este galopante desejo em comunicar, esta leveza estilística, para utilizarmos um conceito caro a Italo Calvino. Que as obras de Chagas Freitas sejam tão leves ao ponto de não levar nada dentro, é fenómeno merecedor de todo o interesse, e não se julgue que estou a brincar. Naquele rendilhado mecânico, naquela matemática sentimental (com variáveis reduzidas quase ao absurdo do binário gosto/não gosto e amo/não amo) onde o mais ignorante leitor consegue encontrar alguma coisa da sua tragédia mental, há um gosto pela engenharia de paradoxos (Prometo Falhar e Ou é tudo, ou então não vale nada) bastante mais interessante do que a acrobacia aristocrática (e plastificada) do professor universitário Gonçalo M. Tavares. Os jogos a que Chagas Freitas se presta na sua relação comercial com os livros, são de uma inteligência refinada, directamente proporcional à sua enciclopédica ignorância dos grandes textos, o que permite a Chagas Freitas dormir sossegado (isto em princípio, nunca - deus nos livre - compartilhámos a cama) mesmo depois de produzir milhares de páginas de uma falta de inteligência atroz.

Mas quem pretende inteligência pura, recorrerá à literatura? Duvido. Ou melhor, antes de sermos agredidos por deputadas do Bloco de Esquerda (o que muito nos agradaria, ao contrário de Pedro Arroja) clarifiquemos este ponto. Os territórios da razão lógica e da especulação matemática onde Tavares julga arriscar um lugar de prestígio, estão muito para lá das capacidades do mesmo Tavares, e esta propriedade sobre um olho em terra de cegos, é uma coisa para a qual me falta saúde, paciência e dinheiro. Quem passar os olhos pelas páginas da obra de Tavares (e o mais difícil será escolher por onde começar dada a prolixidade do génio) e tiver frequentado, pelo menos, o currículo de Matemática do 12º ano, não leva nada de significativo em termos de capacidade operativa, curiosidade ou conhecimento dos belíssimos labirintos do pensamento exacto. Quem tiver lido os sonetos de Camões nesse mesmo 12º ano da era da sua própria escolarização, também, convenhamos, ficará muito insatisfeito com as experiência emocionais proporcionadas pela obra de Tavares, à parte um livro onde a acção começa com um pequeno-burguês a «fazer» a criada. Já o despreocupado e pouco exigente leitor de Chagas Freitas, também não atingirá os terrenos obscuros dos fundamentos da matemática ou das lógicas não lineares, nem a sofisticação emocional do carrossel camoniano (ora com lágrimas correndo no rosto, ora desejando a morte do dia do nascimento) mas terá pelo menos a experiência de contacto com a mente de uma pessoa com algum conhecimento dos seus limites (e sabe deus a falta que isso nos faz nos dias de hoje) uma pessoa, e falamos de Chagas Freitas, note-se, com a coragem (inteligência?) suficiente para desvalorizar a literatura na era dos computadores e dos bombardeamentos da Síria.

Que Gonçalo M. Tavares chame repetidamente a si mesmo o papel de guardião da consciência moral e impute à (sua) literatura a função de despertador, ao contrário de uma literatura supostamente com propriedade soporíferas, é um sinal bastante claro, de como o mesmo Tavares se permite destacar a raridade da sua inteligência, e apresentar-se como um pilar da cultura, desconhecendo como o futuro se rirá da superficialidade académica das suas brincadeiras vocabulares, tal como hoje, todos nos rimos das academices de Filinto Elísio. Eis-nos pois chegados ao nosso resultado. No momento de sermos chamados a escolher (diante de um pelotão de fuzilamento) um titular da nossa herança mental e guardião dos nossos manuscritos, não hesitaríamos em escolher Chagas Freitas, uma pessoa consciente de que em primeiro lugar, vem a nossa paixão pelas mulheres/homens/cães/gatos/bananas/objetos de borracha (riscar o que não interessa) e só depois, as nossas construções programáticas e holográficas sobre o mundo. Sim, podemos afirmar corajosamente: não hesitaríamos em escolher Chagas Freitas, não só por estarmos com uma venda nos olhos (e não termos de olhar para a sua cara) não só por estarmos prestes a entrar no reino da morte, mas também pelos seus notáveis dotes de organização comercial e empreendimento, uma pessoa, creio, consciente de que os livros servem para ganhar dinheiro e prestar um serviço, e isso da literatura, é um lugar onde só os chamados têm entrada.