no meu segundo post do ano, mas volto já para o silêncio
quarta-feira, 24 de junho de 2015
sábado, 20 de junho de 2015
Como é que se diz corralito em grego ?
Ou sobre a fundamental necessidade da espécie humana em dividir o mundo em bons, nós, e maus, os outros.
Um tipo com dois dedos de testa compreende que a dívida pública da Grécia é insustentável e ou é perdoada, ou paga em prestações muitíssimo mais suaves. O mesmo tipo pode, claro está, ter como objectivo na vida ser sodomizado em simultâneo pelo duo Tsipras-Varoufakis, que não deixa de estar correcto na sua análise. Mas quanto às suas preferências sexuais, já não digo o mesmo.
Um tipo com dois dedos de testa, não necessariamente o mesmo do parágrafo anterior, reconhece também sem grande esforço que o Syriza fez asneira atrás de asneira na forma como tratou com a Európa. Basta dizer que o meu rebento de três anos se comporta de forma mais adulta que o Varoufakis. E o resultado, passados que estão cinco meses, foi que o Syriza conseguiu pôr a economia em recessão, os bancos sem graveto e daqui por uma semana vão oficializar a saída da União Europeia. Engane-se quem pensa que só vão sair do Euro.
A tragédia grega, por si só tem tido um mau guião. Mas como um mal nunca vem só, os comentários à tragédia têm demonstrado a capacidade de de muita gente em explicar o inexplicável, dependendo de quem são os seus personagens principais. E estou só a falar de gente capaz de articular duas ideias seguidas em qualquer outro domínio. Senilidades à lá Mário Soares não são para aqui chamadas.
Existem imbecilidades para todos os gostos. As duas minhas preferidas sao que a Grécia (e por arrasto nosotros) fora do Euro vai crescer a ritmos milagrosos. E que o Varoufakis tem um plano secreto para tramar a Europa. No fundo, estamos a falar de gente que compreende a enorme vala comum que os gregos estão a cavar para si próprios, mas prefere pensar que os gregos têem mas é uma relação especial pelas pás e picaretas. E chega de inuendos sexuais.
Mete dó ver um país colocar malucos no poder, mas a democracia é mesmo isto. Cada país tem o governo que merece, Joseph de Maistre dixit. Mete ainda mais dó ver a Grécia ansiosa pelo colinho do Putin. A Rússia dos nossos dias é uma ditadura unipessoal de um ex-KGB. Se isto basta para seduzir os comunas gregos, moços deixam-me que vos diga: vocês contentam-se com pouco.
Um tipo com dois dedos de testa compreende que a dívida pública da Grécia é insustentável e ou é perdoada, ou paga em prestações muitíssimo mais suaves. O mesmo tipo pode, claro está, ter como objectivo na vida ser sodomizado em simultâneo pelo duo Tsipras-Varoufakis, que não deixa de estar correcto na sua análise. Mas quanto às suas preferências sexuais, já não digo o mesmo.
Um tipo com dois dedos de testa, não necessariamente o mesmo do parágrafo anterior, reconhece também sem grande esforço que o Syriza fez asneira atrás de asneira na forma como tratou com a Európa. Basta dizer que o meu rebento de três anos se comporta de forma mais adulta que o Varoufakis. E o resultado, passados que estão cinco meses, foi que o Syriza conseguiu pôr a economia em recessão, os bancos sem graveto e daqui por uma semana vão oficializar a saída da União Europeia. Engane-se quem pensa que só vão sair do Euro.
A tragédia grega, por si só tem tido um mau guião. Mas como um mal nunca vem só, os comentários à tragédia têm demonstrado a capacidade de de muita gente em explicar o inexplicável, dependendo de quem são os seus personagens principais. E estou só a falar de gente capaz de articular duas ideias seguidas em qualquer outro domínio. Senilidades à lá Mário Soares não são para aqui chamadas.
Existem imbecilidades para todos os gostos. As duas minhas preferidas sao que a Grécia (e por arrasto nosotros) fora do Euro vai crescer a ritmos milagrosos. E que o Varoufakis tem um plano secreto para tramar a Europa. No fundo, estamos a falar de gente que compreende a enorme vala comum que os gregos estão a cavar para si próprios, mas prefere pensar que os gregos têem mas é uma relação especial pelas pás e picaretas. E chega de inuendos sexuais.
Mete dó ver um país colocar malucos no poder, mas a democracia é mesmo isto. Cada país tem o governo que merece, Joseph de Maistre dixit. Mete ainda mais dó ver a Grécia ansiosa pelo colinho do Putin. A Rússia dos nossos dias é uma ditadura unipessoal de um ex-KGB. Se isto basta para seduzir os comunas gregos, moços deixam-me que vos diga: vocês contentam-se com pouco.
quarta-feira, 17 de junho de 2015
O normal funcionamento das instituições
A revista saíu há já duas semanas, e tenho que ser eu a dar conta da notícia aos estimados ouvintes. Está reposto normal funcionamento das instituições. Sem mais assunto por agora, despeço-me com o melhor elogio à derrota do ano de 2016
quinta-feira, 14 de maio de 2015
terça-feira, 28 de abril de 2015
domingo, 26 de abril de 2015
segunda-feira, 20 de abril de 2015
Contra a barbárie, meus cabrões, só a erudição.
Num exercício de auto-crítica, comiseração e manifesta estupidez, eu, benfiquista e cidadão do mundo desenvolvido, venho hoje esfregar-vos nas gloriosas fuças o meu passado de aluno num curso de humanidades, a saber, aprendiz de especialista em mudanças, ou na sua forma traduzida, pupilo na escola da demagogia científica, ou por outras palavras, aprendiz de sacerdote na interpretação de textos ultrapassados pelo tempo, ou nem isso, somente candidato a parasita, e a soldo da crise ideológica pós-marxista, pós-tecnológica, pós-moderna, e pós-caralho, salvo seja, amen.
Convicto do meu rotundo falhanço no reino das pessoas felizes, e desde a primeira semana de aulas encornado por um destino demasiado agressivo e insidioso, ficava claro para mim, o não haver mais do que arrastar a cabeça, penosamente, pelos corredores da Universidade. Eis se não quando, enveredo pela ironia patológica, escrevendo uma recensão a um livro do espetacular e infértil, se politicamente considerado, académico, Pietro Costa, a saber, Civitas, Uma história da cidadania.
Não se falava ainda de cadáveres no mediterrâneo, e o tomo publicado pela Laterza (encomendado e pago com o cartão de crédito de um amigo, a saber, o pároco sportinguista que fez capa do Record, e entretanto varreram para Macau) acabava nas considerações de Montesquieu a propósito da lei, dos romanos, e das gajas boas raptadas por arruaceiros, e só isto bastaria para ter uma noção das veredas tortas com que o Senhor se entretém a confundir os seus filhos, para matar o tempo, uma carga de trabalhos para quem está por cima da história, da matéria e dos sofrimentos.
Mas ao aluno que eu era, com dois olhos, um nariz e uma boca, ou seja, uma cara, tantas vezes mal lavada e sonolenta, com uma sensação de barata fugitiva nos subterrâneos do mundo, não restavam dúvidas de qual seria o crucial problema, às mãos do qual, soçobraria o mundo desenvolvido. As pessoas com fome e sede de pão e de justiça, vão para onde há pão e justiça. Se forem milhões de pessoas, temos aqui um problema do caralho. Simples, não é?
Passados onze anos, enquanto retiram crianças afogadas das águas do mediterrâneo, o mar que inspirou o mais belo livro de história (a um francês, que o escreveria, enquanto preso, num campo de concentração alemão) aqui venho trazer um dos emblemas do meu falhanço como indivíduo, benfiquista e académico, por razões cognitivas, morais e sentimentais, e com muito orgulho o faço, caros leitores e amigos, com muito orgulho o faço.
Começava essa pitoresca peça de avaliação universitária com a invocação da «pressão populacional dos países subdesenvolvidos, em face das complexas relações entre Cidadania e Estado, ousando colocar drasticamente diante da prosperidade dos países europeus “the pressures of those hoping to immigrate and seek asylum”».
Convicto do meu rotundo falhanço no reino das pessoas felizes, e desde a primeira semana de aulas encornado por um destino demasiado agressivo e insidioso, ficava claro para mim, o não haver mais do que arrastar a cabeça, penosamente, pelos corredores da Universidade. Eis se não quando, enveredo pela ironia patológica, escrevendo uma recensão a um livro do espetacular e infértil, se politicamente considerado, académico, Pietro Costa, a saber, Civitas, Uma história da cidadania.
Não se falava ainda de cadáveres no mediterrâneo, e o tomo publicado pela Laterza (encomendado e pago com o cartão de crédito de um amigo, a saber, o pároco sportinguista que fez capa do Record, e entretanto varreram para Macau) acabava nas considerações de Montesquieu a propósito da lei, dos romanos, e das gajas boas raptadas por arruaceiros, e só isto bastaria para ter uma noção das veredas tortas com que o Senhor se entretém a confundir os seus filhos, para matar o tempo, uma carga de trabalhos para quem está por cima da história, da matéria e dos sofrimentos.
Mas ao aluno que eu era, com dois olhos, um nariz e uma boca, ou seja, uma cara, tantas vezes mal lavada e sonolenta, com uma sensação de barata fugitiva nos subterrâneos do mundo, não restavam dúvidas de qual seria o crucial problema, às mãos do qual, soçobraria o mundo desenvolvido. As pessoas com fome e sede de pão e de justiça, vão para onde há pão e justiça. Se forem milhões de pessoas, temos aqui um problema do caralho. Simples, não é?
Passados onze anos, enquanto retiram crianças afogadas das águas do mediterrâneo, o mar que inspirou o mais belo livro de história (a um francês, que o escreveria, enquanto preso, num campo de concentração alemão) aqui venho trazer um dos emblemas do meu falhanço como indivíduo, benfiquista e académico, por razões cognitivas, morais e sentimentais, e com muito orgulho o faço, caros leitores e amigos, com muito orgulho o faço.
Começava essa pitoresca peça de avaliação universitária com a invocação da «pressão populacional dos países subdesenvolvidos, em face das complexas relações entre Cidadania e Estado, ousando colocar drasticamente diante da prosperidade dos países europeus “the pressures of those hoping to immigrate and seek asylum”».
A seguir, atando as rédeas do cavalo à sela, erguia bem ao alto um par de bandarilhas: a primeira, entusiasmado com a agressiva reacção do touro universitário, cujos cornos estão enfeitados com as grinaldas das humanidades, aludia ao filme Apríle,
de Nanni Moretti, e a sua crítica ao panorama político das eleições de
Abril de 1994, onde se pretendia descrever, no seio de uma reflexão
sobre as limitações do sujeito em face do sistema eleitoral, uma estreita
relação entre a evolução da Cidadania e o equilíbrio de poderes.
A segunda, consistia numa ainda mais pitoresca nota de rodapé:
[ii]
Moretti insere na narrativa a dramática chegada de um navio repleto
de cidadãos provenientes das costas albanesas, poucos dias depois de numa praia de Puglia, terem
morrido 89 albaneses quando a embarcação em que seguiam se afundou após um
acidente com um navio da marinha italiana.
E depois de 15 páginas a elaborar sobre teoria da cidadania medieval, eis o retumbante epílogo:
Civitas,
ao colocar o problema da Cidadania, transporta o leitor para a história mas não foge à pergunta: qual a relação entre a ordem jurídica e o
lugar do homem no espaço político? É ainda uma outra vez o retorno à
problemática situação do estranho achado de súbito numa cidade que não o reconhece.
Pietro Costa não deixa de sugerir discretamente a fragilidade dos
vínculos entre teorização da ordem jurídico-política e os acontecimentos reais. Como se fosse necessário voltar uma outra vez ao tribunal veneziano e
comparecer perante o Doge. E ecoasse no espaço da sala repleta de magistrados a
suave evocação da clemência, conduzida pela voz feminina de Pórcia, transmutada
em brilhante jurista, recém chegada ao complicado processo[i]. E
assistir depois ao nascimento, nesse mesmo coração outrora capaz de
profundidade interpretativa e misericórdia, do implacável orgulho das leis que
tutelam a cidade e incarnam nas contundentes e biliosas palavras contra Shylock[ii] - o
velho mercador de Veneza, estrangeiro no seio da comunidade política[iii],
infortunado habitante que num ápice se vê torturado pelos estranhos lugares de
um labirinto jurídico que não pode desvendar.
Civitas, não resolvendo os limites contemporâneos da Cidadania,
coloca porém no primeiro plano a questão da formação histórica da identidade da
Europa, que é também a dilacerante questão da identificação dos seus limites[iv].
Era óbvio que, mais tarde ou mais cedo, iria acabar por me foder.
[i] “The quality of mercy is not
starin’d/ It droppeth as the gentle rain from heaven/ Upon the palce beneath.
It is twicw blest/ It blesseth him that gives and him that takes./ ‘Tis
mightiest in the mightiest, it becomes/ The throned monarch better than is crown/
His sceptre shows the force of temporal power/ The atributte to awe and
majesty,/ Wherein doth sit the dread and fear of kings;/ But mercy is above
this sceptred sway,/ It is enthroned in the hearts of kings”, Shakespeare
Complete Works, Peer ALEXANDER (ed), Collins Clear-Type Press, London and
Glasgow, 1951, p. 246
[ii]
“The law hath yet another hold on you./ It is enacted in the laws of
Venice,/ If it be prov’d against a alien/ That by direct or indirect attempts/
He seek the life of any citizen,/ The party ‘gainst the wich he doth contrive/
Shall seize one half his goods; the other half/Comes to the coffer of the
state;/And the offender’s life lies in the mercy/ of the Duke only...”, Shakespeare
Complete Works ...,p. 249
[iii]A
interpretação de Costa permite-nos também enquadrar este trágico limite da lei
na Inglaterra Isabelina, permitindo conhecer os interstícios do debate teórico,
com a sua longa permanência de estratos da tradição [o tempero da justiça com a
clemência]. No sentido
de uma identificação das fontes históricas no teatro isabelino ver Dominique
GOY-BLANQUET, “Elizabethan historigraphy and Shakespeare’s sources” in The
Cambridge Companion to Shakeaspeare’s History Plays. Michael HATTAWAY (ed), Cambridge University
Press, 2002.
[iv] Numa
recente entrevista conduzida por Gianluca Sacco, Pietro Costa afirmava a
identidade da Europa como realidade “che cambia drasticamente a seconda che
essa agisce ( e si cocepisca) come una fortezza assediata oppure come um luogo
di accoglienza e di conronto” Cf. Le Storia della cittadinanza e la Costituzione Europea ,
http: // rivista.ssef.it.
sexta-feira, 13 de março de 2015
No fundo, o Facebook foi criado para eu tomar conhecimento destas maravilhas.
Anton Chekhov’s name appears in many reviews of your work. How do you relate to him as an artist? How are the works of Chekhov, or of any of the classic Russian writers, regarded in contemporary Russia?
For me, Chekhov, like Pushkin (who is an absolute genius and therefore untranslatable), are dear, kindred spirits who don’t know that I exist. Russians treat these classics with unchanging passion and jealousy. Some years back, I wrote a piece about Pushkin’s death. I was engulfed by popular hatred. Within days, my piece was read by 14,000 readers.
Lyudmila Petrushevskaya
Aqui.
Aqui.
quarta-feira, 11 de março de 2015
A ignorância e a estupidez não conhecem fronteiras nem formação académica: saudemo-nos na paz de Cristo.
Free from language the music of our vocal expression is universal and rings true across races and cultures. And not just humans, just think of the family dog.
No matter where you (and your customers)are and no matter what language they speak. In life, it’s not about what you say, but how you say it.
No matter where you (and your customers)are and no matter what language they speak. In life, it’s not about what you say, but how you say it.
Portanto, e se nos é permitido, gostaríamos de enviar o
autor deste artigo para a puta que o pariu, perguntado ainda, com todo o
respeito, a esse burro do caralho, em que molho de bróculos tinha os cornos
enfiados, quando optou por escrever um texto em vez de gravar um vídeo com a
sua voz de paneleiro e se por esse singelo facto, o ter optado pelo discurso
verbal, ficou assim impedido da eficácia emocional por meio do texto, o grande e
excelentíssimo cabrão, eficácia essa em nada incompatível com os objectivos pretendidos, diríamos nós, que não percebemos um corno desta confusão em que estamos prestes a cair como pessoas, como sociedade e como civilização do broche institucionalizado em forma de comércio.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015
sábado, 21 de fevereiro de 2015
homoousios vs homisios
Os mais teologicamente avançados de entre vós sabem do que eu estou a falar, os outros que descubram.
A telenovela em folhetins que têm sido as discussões entre o governo grego e a União Europeia, trouxe ao lume um problema que o cristianismo nunca foi capaz de solucionar. Isto é, como manter a comunidade quando alguns dos seus membros insistem em não a respeitar.
O governo grego tem demonstrado uma desonestidade intelectual imensa. Que o governo português toma decisões politicamente motivadas, como se a política não fosse a motivação das decisões de todos os governos. Que a Europa tem que respeitar as eleições gregas, quando quem têm que as respeitar é o governo grego e cumprir com o que prometeu e provavelmente não o vai fazer. Ou as grandessíssímas filhas putices (qual é o plural de filha putice ?) que são as tentativas colar a Alemanha de hoje ao regime nazi ou equiparar a Alemanha de 1945 com a Grécia de 2015.
E antes que me atirem pedras, não estou a tentar associar o Syriza aos téologos gregos do século 3 DC. O que mesmo assim seria mais fácil que a permanente associação da Grécia moderna, uma cultura cristã ortodoxa moldada pela sua relação com os otomanos e o ocidente, à antiguidade clássica. Só eu já devo ter lido mais Platão e Xenofontes do que os Varoufakis e o Tsipras juntos.
Das discussões com o Arianismo, entre outras, resultaram cismas e morte e destruição qb. Por isso, e apesar de não morrer d'amores pelos Syrizas, fico contente que a União Europeia tenha tido a paciência de os aturar mais um pouco a ver se atinam. Porque ostracizar (eu sei, eu sei, antiguidade clássica coiso e tal, mas não consigo encontrar outra palavra), porque ostracizar os gregos agora seria empurrá-los para a miséria. E não tenho dúvidas de que o zelo com o Syriza e o Anel se empenharam para andar à turras com o Eurogrup, seria o mesmo com que foderiam (palavra d'origem latina, senhores, tenham lá calma), com que foderiam a população para justificar os amanhãs que cantam.
A telenovela em folhetins que têm sido as discussões entre o governo grego e a União Europeia, trouxe ao lume um problema que o cristianismo nunca foi capaz de solucionar. Isto é, como manter a comunidade quando alguns dos seus membros insistem em não a respeitar.
O governo grego tem demonstrado uma desonestidade intelectual imensa. Que o governo português toma decisões politicamente motivadas, como se a política não fosse a motivação das decisões de todos os governos. Que a Europa tem que respeitar as eleições gregas, quando quem têm que as respeitar é o governo grego e cumprir com o que prometeu e provavelmente não o vai fazer. Ou as grandessíssímas filhas putices (qual é o plural de filha putice ?) que são as tentativas colar a Alemanha de hoje ao regime nazi ou equiparar a Alemanha de 1945 com a Grécia de 2015.
E antes que me atirem pedras, não estou a tentar associar o Syriza aos téologos gregos do século 3 DC. O que mesmo assim seria mais fácil que a permanente associação da Grécia moderna, uma cultura cristã ortodoxa moldada pela sua relação com os otomanos e o ocidente, à antiguidade clássica. Só eu já devo ter lido mais Platão e Xenofontes do que os Varoufakis e o Tsipras juntos.
Das discussões com o Arianismo, entre outras, resultaram cismas e morte e destruição qb. Por isso, e apesar de não morrer d'amores pelos Syrizas, fico contente que a União Europeia tenha tido a paciência de os aturar mais um pouco a ver se atinam. Porque ostracizar (eu sei, eu sei, antiguidade clássica coiso e tal, mas não consigo encontrar outra palavra), porque ostracizar os gregos agora seria empurrá-los para a miséria. E não tenho dúvidas de que o zelo com o Syriza e o Anel se empenharam para andar à turras com o Eurogrup, seria o mesmo com que foderiam (palavra d'origem latina, senhores, tenham lá calma), com que foderiam a população para justificar os amanhãs que cantam.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
A liberdade de expressão
Ou a importância de se conhecer a dinâmica de um sistema de segunda ordem.
Fatal como o destino, após o sarrabulho de Paris, as reacções cristalizaram em torno das categorias já comuns: "morte aos sarracenos", "condeno, mas a culpa é nossa" e, o alvo deste texto, "a liberdade de expressão é sagrada".
As duas categorias, sendo as de mais fácil accesso intelectual, foram e continuam a ser mastigadas na comunicação social. Não vale a pena gastar largura de banda com elas. Centremos a mira da 338TP na última categoria, portanto.
D. Duarte criticou o Charlie Hebdo, subrepticiamente introduzindo o termo pasquim na discussão, um abraço e um bem haja, pasquim é claramente sub-utilizado no português moderno. Os comentários rapidamente concorreram para a necessidade de liberdade de expressão, como se fosse um fim em si mesmo. E quando aqui se bate, ao de leve e mansinho, no Papa, lá aparece o tradicional "Mas alguém disse que o Papa não tem direito a ter uma opinião livre? Ele tem o direito de ter e dar a sua opinião, e eu tenho o direito de, depois de a ouvir, ter uma opinião sobre a opinião dele, e criticá-la. Foi só isso que fiz." pelo autor do post.
A liberdade de expressão é tal qual como arrear o calhau em plena Rua Augusta. Todos temos o direito de o fazer, mas será que devemos ?
A liberdade de expressão é um meio, não um fim, e parece-me impressionante que tanta gente ainda não tenha percebido isso.Se nos ficamos pelo estúpido "não concordo com o que dizes mas defenderei o direito de o dizeres", estúpidos ficamos. Tão óbvio quanto a inaptitude para o futebol de Naby Sarr, é o facto de a expressão da mente humana se querer livre. Porque só assim nos podemos levantar da lama primordial onde todas as outras bestas da criação chafurdam alegremente. Aceitar a discussão só porque o outro grunho tem o direito a babosar idiotices, é um puro desperdício de tempo. Mais vale ir ver o Goucha mais a Cristina.
A liberdade de expressão é um meio, não um fim, e parece-me impressionante que tanta gente ainda não tenha percebido isso.Se nos ficamos pelo estúpido "não concordo com o que dizes mas defenderei o direito de o dizeres", estúpidos ficamos. Tão óbvio quanto a inaptitude para o futebol de Naby Sarr, é o facto de a expressão da mente humana se querer livre. Porque só assim nos podemos levantar da lama primordial onde todas as outras bestas da criação chafurdam alegremente. Aceitar a discussão só porque o outro grunho tem o direito a babosar idiotices, é um puro desperdício de tempo. Mais vale ir ver o Goucha mais a Cristina.
domingo, 18 de janeiro de 2015
Vocês podem ser o Charlie Hebdo, mas
eu não sou, e tento não ser, o Charlie Hebdo. Primeiro, porque o humor é rasco e segundo, porque tem como único objectivo ofender os visados. Típico de adolescentes. E não sou o único a pensar assim, visto que antes do ataque os tipos estavam com dificuldades em pagar as contas. Parece que, ao contrário dos lamúrios do alf, o mercado das ideias ainda vai revelando alguma racionalidade. O dinheiro que os manos Kouachi gastaram em kalashnikovs e lança foguetes, era mais bem empregue a comprar o Charlie para depois mudar a linha editorial.
Esta história toda impressionou-me, não pela proximidade, mas porque pura e simplesmente não consigo compreender o que levou os tipos a fazer isto. Ou os que os camaradas deles se preparavam para fazer na Bélgica. Por partes.
As atrocidades que vão sendo cometidas na Nigéria, Síria, Iraque, Paquistão, etc, fazem todo o sentido. São senhores da guerra a tentar alargar o pátio. Não deixam de ser atrocidades, e todos, em conjunto com os débeis mentais que no Facebook colocaram a bandeira do ISIL, merecem como destino uma vala comum bem regada de cal. Mas ao menos eu percebo o que os move.
Agora os tipos que fazem estas merdas na Europa, isso já é algo que eu não consigo entender. A razão oficial é infantil: sentiram-se ofendidos com caricaturas. Poderão existir outros motivos, que eu por ignorância desconheço. Em verdade vos digo irmãos que tenho andado bem mais ocupado a ler sobre paradigmas de computação e não me tem sobrado tempo para radicalismos muçulmanos. Mas mesmo que a minha ignorância possa ser a chave da minha incompreensão, também é certo que eu nunca consegui perceber o mal.
Ou seja, eu entendo o ódio (olá José Sócrates) e o desejo de violência física contra terceiros (bom dia Paulo Portas). Mas o mal, a pura essência da maldade, essa tenho sérios problemas em compreender. Serão graves deficiências psicológicas, serão as vicissitudes da vida?
Há uns tempos tive esta discussão com autóctone, cuja tese de doutoramento em história tinha sido o comportamento dos nazis belgas no pós-guerra. Ele não percebia porque é que pessoas que tinham, não só saudado os soldados alemães como dado ainda o corpo ao manifesto na campanha, não mostravam um pingo de vergonha pelos actos criminosos que foram cometidos na época. Não chegámos a uma conclusão, em parte porque nos perdemos a tentar definir o que era o mal. E quando conseguimos, não fomos capazes de aplicar a definição.
Portanto de volta à estaca zero. O que leva esta gente a fazer isto ?
Esta história toda impressionou-me, não pela proximidade, mas porque pura e simplesmente não consigo compreender o que levou os tipos a fazer isto. Ou os que os camaradas deles se preparavam para fazer na Bélgica. Por partes.
As atrocidades que vão sendo cometidas na Nigéria, Síria, Iraque, Paquistão, etc, fazem todo o sentido. São senhores da guerra a tentar alargar o pátio. Não deixam de ser atrocidades, e todos, em conjunto com os débeis mentais que no Facebook colocaram a bandeira do ISIL, merecem como destino uma vala comum bem regada de cal. Mas ao menos eu percebo o que os move.
Agora os tipos que fazem estas merdas na Europa, isso já é algo que eu não consigo entender. A razão oficial é infantil: sentiram-se ofendidos com caricaturas. Poderão existir outros motivos, que eu por ignorância desconheço. Em verdade vos digo irmãos que tenho andado bem mais ocupado a ler sobre paradigmas de computação e não me tem sobrado tempo para radicalismos muçulmanos. Mas mesmo que a minha ignorância possa ser a chave da minha incompreensão, também é certo que eu nunca consegui perceber o mal.
Ou seja, eu entendo o ódio (olá José Sócrates) e o desejo de violência física contra terceiros (bom dia Paulo Portas). Mas o mal, a pura essência da maldade, essa tenho sérios problemas em compreender. Serão graves deficiências psicológicas, serão as vicissitudes da vida?
Há uns tempos tive esta discussão com autóctone, cuja tese de doutoramento em história tinha sido o comportamento dos nazis belgas no pós-guerra. Ele não percebia porque é que pessoas que tinham, não só saudado os soldados alemães como dado ainda o corpo ao manifesto na campanha, não mostravam um pingo de vergonha pelos actos criminosos que foram cometidos na época. Não chegámos a uma conclusão, em parte porque nos perdemos a tentar definir o que era o mal. E quando conseguimos, não fomos capazes de aplicar a definição.
Portanto de volta à estaca zero. O que leva esta gente a fazer isto ?
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
Eu também sei fazer gráficos
para desenfastiar das mamas da Alexandra, a variação do desemprego (em % da população activa) sobreposto com o Salário Mínimo Nacional (SMN) a preços constantes. Valores do PORDATA, a base de referência é o ano de 1983:
Em mais de 20 anos, o SMN aumentou quase dez vezes enquanto o desemprego praticamente nem piou. E quando o fez foi a partir da crise mundial de 2008. Portanto ou estamos a falar de (ou a graficar) coisas diferentes ou não existe relação directa, linear entre estas duas variáveis.
Em mais de 20 anos, o SMN aumentou quase dez vezes enquanto o desemprego praticamente nem piou. E quando o fez foi a partir da crise mundial de 2008. Portanto ou estamos a falar de (ou a graficar) coisas diferentes ou não existe relação directa, linear entre estas duas variáveis.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
Com quantas palavras se descreve um problema?
Os compêndios, manuais, breviários, conjuntos de regras, bíblias, listas telefónicas, sobre as famigeradas leis da escrita perfeita têm estado na ordem do dia, não sei se devido ao triunfo comercial do modelo «se podes foder-te em companhia, para quê perder mais tempo a tentar fazê-lo sozinho?» ou se por colonização massiva do espírito computacional sobre as nossas melancólicas cabeças, a saber, uma obsessão incontrolável em reduzir tudo a um algoritmo manejável pelas máquinas, não querendo, de modo algum, cometer aqui a superficialidade de explicar o fenómeno por meio da infecciosa proliferação do grande capital.
Como alternativa, este magnífico texto apresenta uma invejável síntese do mais assustador zombie da literatura moderna, a saber, uma suposta ideia de maior verosimilhança patente no pechisbeque psicologista, ou seja, uma escrita que faz do fluxo da consciência (mas que raio é essa merda?) a única forma de retratar os abismos da personalidade humana. Não entro sequer pela crítica de uma suposta profundidade da consciência (e o sublinhado é nosso), devido às minhas evidentes limitações em topologia, mas tendo em conta o sucesso comercial dos livros de António Damásio (como todos sabem, um dos piores presidentes da história do Benfica) já seria o momento do venerável público assumir que a ideia de consciência é tão inefavelmente paneleira como a de alma ou de personalidade, no fundo, um outro nome para a nossa puta ignorância sobre nós mesmos, numa frase que poderíamos atribuir ao grego Samaris, ou a Herberto Helder, com toda a certeza, um gajo que torce pelo Sporting.
Por outras palavras, quem já se confrontou com livros de divulgação na área das neurociências (e tendo em conta que a Leonor Beleza seria em nova uma gaja com um certo nível de agressividade morfológica, de um ponto de vista do homem sensível) sabe perfeitamente como os mais reputados génios da especialidade, não fazem ponta de ideia acerca do que seja a consciência. Mesmo a descrição do seu funcionamento (pelas mãos de um Gazzaniga, gajo menos espalhafatoso do que o António Damásio - e não lhe perdoamos a contratação de Artur Jorge) corre o risco de se assemelhar mais à descrição do funcionamento de uma máquina retroprojetora de transparências (e lembrei-me agora de umas aulas sobre arte rupestre dadas pela reencarnação da Marlyn Monroe, uma gaja de quem toda a Universidade dizia ter galgado o estrado do ensino académico por motivos obscuros, digamos assim) do que à descrição de um organismo vivo, qualquer que seja a definição de organismo vivo, não me fodam agora o juízo com duas questões fodidas em simultâneo, ainda que a indústria pornográfica muito nos tenha ensinado sobre essa matéria.
Em suma, estamos a secar o terreno da ficção publicável, por estarmos todos fodidos do miolo, e não há gajo nem gaja (do Chef'sAcademy ao Factor X, do Alta Definição paneleiro Oliveira à Casa das espetaculares mamas da Sofia, sejamos rigorosos, passando pelo comentário do professor Rebelo de Sousa heil hitler) repito, não há gajo nem gaja, capaz de aguentar cinco minutos de oratória confessional televisiva sem incorrer nas lágrimas, apostando eu que isto se deve a não encontrarmos solução original para os nossos problemas, que é como quem diz, uma voz própria, foda-se, caralho, quando nada nos impediria de procurar um caminho, veja-se o caso de Tolstoi (outro merdas) que via na infelicidade da adúltera sentimental um maior emblema distintivo do aquele representado pela mulher desinibida disposta a vender o corpo de forma especializada e profissional, o que não o impediu - justiça lhe seja feita - de nos falar com uma cristalina objetividade, pelo que, pergunto, teriam os russos à época um «mestre de gramática armado com régua de madeira» em lugar de um cérebro habitado por uma consciência?
Do meu triste ponto de vista, tudo se deve à imaginação lunática de uns quantos literatos que encostados à parede pelas circunstâncias específicas da sua vida (e tanto Joyce como Proust se envenenaram o suficiente com a ideia platónica de alma) deram em ressuscitar a parafernália sentimental do cristianismo sob a forma científica e mecânica da consciência, esse esgoto a céu aberto.
Do meu triste ponto de vista, tudo se deve à imaginação lunática de uns quantos literatos que encostados à parede pelas circunstâncias específicas da sua vida (e tanto Joyce como Proust se envenenaram o suficiente com a ideia platónica de alma) deram em ressuscitar a parafernália sentimental do cristianismo sob a forma científica e mecânica da consciência, esse esgoto a céu aberto.
I believeit is also worth pointing out that (for some sections of the novel especially),a tweet feels like (and, tripping off the tongue, even sounds like) the idealdelivery mechanism for a fractured stream-of-consciousness monologue, an artJoyce didn’t invent but certainly cemented and codified as a literary techniqueof incredible aesthetic potential. Ulysses is, in some sense, about thefragmentation of thought and culture in the modern world — a panoramic snapshotof human minds in 1904.
Logicamente, a literatura vive da descrição das coisas, 1) por uso da inteligência, e 2) com recurso ao alfabeto, as únicas regras passíveis de serem formuladas com total segurança. Quanto ao estilo e tamanho das descrições, esperamos sempre esfomeadamente esse divino momento em que alguém, libertando-se em vertigem, tanto do medo do abismo como da consolação da esperança, decide expressar-se, mandando-vos a todos vós, venerando e respeitável público, para o caralho que vos foda.

Logicamente, a literatura vive da descrição das coisas, 1) por uso da inteligência, e 2) com recurso ao alfabeto, as únicas regras passíveis de serem formuladas com total segurança. Quanto ao estilo e tamanho das descrições, esperamos sempre esfomeadamente esse divino momento em que alguém, libertando-se em vertigem, tanto do medo do abismo como da consolação da esperança, decide expressar-se, mandando-vos a todos vós, venerando e respeitável público, para o caralho que vos foda.

A deslumbrante leitora de Marcel Proust, Vittoria Risi.
Um bom ano
Para aqueles que não têm tempo de ler o fabuloso texto do alf aqui colocado em baixo, fica o resumo:
1. as mamas da Alexandra são boas como o caralho
2. a Alexandra escreve mal como o caralho
3. os "críticos" querem que a Alexandra lhes chupe o caralho
1. as mamas da Alexandra são boas como o caralho
2. a Alexandra escreve mal como o caralho
3. os "críticos" querem que a Alexandra lhes chupe o caralho
sábado, 20 de dezembro de 2014
Literatura: a minha amante de todos os dias - compreender a incompreensível ascensão literária de Alexandra Lucas Coelho à luz da pessoa que leu mais do que dois livros.
Comentário de leitor anónimo no Diário de Notícias ao mais recente romance de Alexandra Lucas Coelho, a de magníficas mamas, isto segundo maradona (e não vejo razões para o contrariar).
Não beneficiamos dos necessários incentivos institucionais
(e monetários) para aqui e agora (embora tal missão se revestisse de suprema
importância) fundamentar o conjunto de razões porque julgamos ser esta nossa
triste república refém de um analfabetismo contumaz, que tem no pobre
jornalismo nacional (por razões históricas, económicas e médicas) uma das suas
bases mais estruturalmente estruturantes. Bem sei que talvez se espere nesta
casa demasiado do jornalismo (mais uma brilhante invenção do século XVIII) mas
num ecossistema ameaçado pelo crescimento exponencial da informação, ou o
jornalismo se põe fininho e direitinho e encontra o caminho da salvação, ou
nós, citoyens (com grande desperdício de recursos) seremos forçados a auxiliar
os fracos e oprimidos a encontrarem a saída desta selva escura e perigosa em
que se transformou a paisagem mediática, uma selva onde tanto podemos ser
abocanhados pelo prognatismo de Manuel Luís Goucha como expostos à sedução das
abençoadas e exemplares protuberâncias de assistência à reprodução de uma
Cristina Milf Ferreira, sem que exista uma profícua discussão na nossa comunidade
sobre a relação entre o sucesso comercial das empresas de comunicação
(sobretudo as que possuem antena aberta concedida pelo Estado) e as toneladas
de ignorância (repito, de ignorância) despejadas em cima das reformadas,
adolescentes e crianças, para não falar da brutalização mediática das crianças
desfavorecidas, perpetrada por bandos de malfeitores.

A forma como certas tendências irracionais insistem em colonizar o espaço da nossa vida pública, cultural e epidémica, não pode deixar de causar um enorme desconforto ao observador desprevenido, sobretudo quando pensamos no estrondoso desajuste entre as sempre enjoativas manifestações de altruísmo político dos nossos escritores e os interesses económicos dos mesmos, sem que nada se saiba (e seria muito interessante sabê-lo) acerca do círculo hipnótico através do qual certas redes de amigos, companheiros e conhecidos frequentadores de festas, lançamentos, encontros, almoçaradas, e provavelmente, alcovas, acumulam capital mediático sem a mais pequena explicação (ao menos por motivos folclóricos e higiénicos) dos critérios estéticos, artísticos, sociológicos e erógenos, que presidiram, presidem e presidirão às mesmas e referidas tendências, e pensamos aqui nessa torrente de impressões avulsas que passa, entre nós, por crítica literária, sobretudo ao nível da imprensa escrita, o que agrava sobremaneira a responsabilidade dos autores das referidas torrentes de impressões avulsas (ou seja, os paneleiros dos críticos) quando produzem juízos inteiramente subjetivos e pessoais (e é triste sermos obrigados a recordá-lo ao pobre leitor) apresentando os críticos esses juízos (às vezes com estrelinhas numericamente valorativas) sob a prestigiada forma de uma «crítica» em jornal de referência, e procurando, desta forma, implicitamente: 1) reivindicar o estatuto de especialistas (quando nada no conteúdo dessas críticas qualifica esses críticos como especialistas, nem sequer, por vezes, como pessoas capazes de interpretar a língua portuguesa) ou 2) defender uma suposta validade universal do texto avaliado, sem qualquer explicação dos critérios valorativos e estéticos (não digo morais, para não assustar ninguém) e assentando uma suposta validade universal dos textos avaliados em afirmações tão profundas, gerais, consistentes e sólidas como «Há muitos anos que não aparecia na literatura portuguesa um livro assim» ou ainda, nos casos mais patológicos, como veremos em seguida, 3) fazendo comparações lunáticas entre os livros dos seus amigos/as (escritos numa linguagem ao alcance de cerca de 95% dos estudantes de língua portuguesa das nossas escolas secundárias) e os livros de escritores tão raros e originais como Joyce ou Beckett. Não seria necessário fazer uso de um pouco de lógica e de um conhecimento, ao menos moderado, da literatura ocidental? Mas acreditarão estes críticos na generalidade congénita da estupidez como atributo do cidadão leitor de jornais, julgando-o incapaz de separar a crítica da publicidade? É uma hipótese.
Se a empresa é (na actual teoria económica espontânea) uma caixa negra, cujos preços dos produtos fornecem toda a informação relevante do ponto de vista do interesse público, não podemos deixar de manifestar as nossas mais sérias dúvidas sobre a simples aplicação deste princípio, quando o produto das ditas empresas consiste num jornal com diversos sub-produtos, incluindo a crítica literária, não sendo esta sujeita aos ditos preços e comportando, por isso, uma parasitagem de certos interesses económicos (nomeadamente das editoras), a coberto do investimento no jornal (cuidado senhor engenheiro Belmiro). Aos que remetem qualquer crítica da «crítica literária» para os resultados da performance económica dos referidos jornais (sendo esta performance definida pela decisão final de compra dos pobres leitores) eu diria que também a estrondosa desgraça económica da imprensa escrita (e de grande parte do mundo editorial), concorre para desconfiarmos de que algo vai mal no reino da crítica, e por conseguinte, no reino da imprensa escrita, seja impressa ou digital, bem como no mundo da edição, num mercado, reputado pelos próprios agentes, como cada vez mais hostil, e com margens canibais (pudera), pois cá estaremos (se não morrermos antes) para assistir às falências em cascata.
Conhecemos muitos casos de meteórica ascensão literária de autores, sem a mais pequena evidência de que a referida ascensão corresponda aos méritos do texto produzido por esses autores, quando seria natural a existência de uma certa relação entre os juízos dos leitores/consumidores e o espalhar da notícia (o murmúrio, para utilizar uma expressão de Umberto Eco) sobre o interesse de um dado livro. Todavia, mesmo sabendo como funciona o mercado, a forma despudorada como o mais recente livro de Alexandra Lucas Coelho, O Meu Amante de Domingo, colonizou a paisagem jornalística com as respectivas consequências comerciais, e sem uma justificação literária ou anatómica convincente, diz muito sobre o que ainda nos falta percorrer quando falamos da relação entre o funcionamento do mercado e a informação despejada (por obscuros critérios e com incerta origem) acerca dos produtos trocados nesse mesmo mercado. Fica contente a autora, fica contente a editora, fica contente a redacção do jornal, mas pergunto se a médio prazo, e com a galopante descida do preço da informação, não será para todos clara a manipulação do valor real do produto (sentiram isto?).
Não quero apressar-me em matéria de juízo estético, até porque a justiça deve estar separada da política, nesta como em muitas outras matérias (e veja-se o caso das magníficas mamas de Alexandra Lucas Coelho, sobre as quais, e muito injustamente, nada sabemos) e até porque as referidas críticas acerca do mais recente livro da autora, chamam a atenção do leitor para a forma enérgica e penetrante com que Alexandra Lucas Coelho trata os assuntos sexuais, nomeadamente, dando vida a uma literata (a personagem principal) praticante de ginástica sueca, e natural do Canidelo, assunto em que não tenho qualquer interesse em entrar de forma descuidada.
Diz-nos um crítico de referência acerca da protagonista da referida obra em apreço:
para logo em seguida confessar que:
Ora, consultando qualquer interposto comercial, constatamos que a sinopse do tal livro de Ricardo Adolfo, Maria dos Canos Serrados, livro e autor que temos o prazer de ignorar em absoluto, refere a história de uma moça dos arredores de Lisboa que adora a igualdade de liberdades, o seu namorado gigolô, as noites intoxicadas com as amigas e a ideia de vir a ser directora. Mas, de um dia para o outro, vê-se desamada, despedida e falida. E, entre resignar-se ou virar a mesa, Maria decide acertar contas de arma em punho. Contada de rajada na primeira pessoa, Maria dos Canos Serrados é uma história desbocada, nascida da Grande Crise. (O sublinhado é nosso).
Portanto, julgo que até o mecânico amante da personagem inventada pela adorável Alexandra Lucas Coelho seria capaz de chegar à conclusão que o último dos atributos deste livro, O meu Amante de Domingo (e não nego que possa ter muitos) é a originalidade do tema, pelo que a referida crítica começa logo à cabeça por dar prova de uma total incompetência na ponderação da singularidade do livro, apresentando o próprio crítico inequívocas provas da sua incapacidade. Como podemos classificar isto? Distracção? Ilusão de impunidade? Sonolência patológica?
Em segundo lugar, seguindo o elogio do crítico, somos
confrontados com um efeito pirotécnico de festa de aldeia, aliás, relativamente
típico dos estilhaços estético-linguísticos encontrados entre as ruínas dessa
nobre tentativa de recuperação da verdade, intitulada neo-realismo, a saber, a
recuperação dos dialectos, ou da linguagem franca e regional, representando uma
suposta psicologia humana mais próxima da terra, dos sentimentos carnais, ou
seja, deus nos valha, da natureza, esse cadáver que os poetas do século XVIII inventaram
e que o romantismo regurgitou para, qual Frankenstein, nunca mais acabar de nos
encanitar a paciência.
Segundo Riço Direitinho (quem?) a linguagem da personagem
dominante, feita de fúria e raiva, contrasta com a suposta gravata envergada
pela língua dos lisboetas (uma imagem horrível, diga-se em passagem) isto a
julgar pelos critérios da personagem, e é bonito ver como a crítica baseia a
sua análise da personagem no mundo psicológico da personagem analisada.
Também o simpático crítico-guru José Mário Silva, a quem o meio literário parece prestar uma assinalável vassalagem, em face de méritos absolutamente desconhecidos, avança com a sua leitura de fenómeno linguístico, pelos vistos, um aspecto significante no belo instrumentário estilístico associado à autora, Alexandra Lucas Coelho:
Coloquemos pois um ponto de ordem no assunto: a invocação desse horrível problema de geografia humana, o regionalismo (e veja-se a mais recente Europa a foder-se à grande com estas brincadeiras) levanta problemas graves e particulares, mas não no caso de um país, Portugal, com precoce centralização política, onde alguma coisa deve explicar a inexistência de uma nobreza ou elite económica regional, capaz de pressionar a construção de um parlamento em tempo útil (já não pedimos a decapitação de um rei) com tudo o que isso significa de artificialismo quando se pretende sublinhar em demasia o regionalismo de um país que é em si mesmo, apesar da diversidade geográfica, culturalmente uma região, e por isso, a cristalização de características regionais no caso da literatura portuguesa (e arriscaríamos dizer, em todas as literaturas) é sempre, na nossa modesta opinião, uma incapacidade de colocar problemas interessantes, por ignorância e preguiça mental, e fazemos o favor de reconhecer que no livro, ou ao menos no espírito da autora, pode estar uma vontade em tratar assuntos pertinentes, que o crítico ou não compreendeu, ou não soube interpretar, despejando em cima da cabeça do potencial comprador do livro, uma torrente de banalidades e lugares comuns, de resto, extraídos da banalidade torrencial da personagem principal do referido livro, a boazona de Gaia.
Na verdade, se o crítico tivesse ido à escola, esclareceria o leitor sobre o facto de a suposta brutalização das gajas nortenhas apontar quase sempre para uma triste generalização, típica da revista à portuguesa (triste generalização a que nenhuma citação literária, de Balzac ou Joyce, consegue disfarçar o cheiro a sardinha assada) pois que as gajas desabridas amantes de mecânicos, em princípio, não traduzem Nelson Rodrigues, quem sabe não farão antes broches a empresários do calçado, a fim de pagar o material escolar dos filhos, e esta seria com toda a certeza uma situação de muito maior interesse literário (digo eu) sobretudo se a referida gaiense e boazona, apresentasse indícios de querer esmagar o crânio ao referido empresário, por uma de várias malfeitorias, sempre possíveis de serem praticadas por homens com poder, o que não é, em princípio, o caso dos mecânicos, por muito que a nossa indignação conspire na sombra contra os autênticos assaltos praticados sob a capa de reparações por essas oficinas deste nosso Portugal.
Por outro lado, também se podia colocar a questão de a sobrevivência do dialecto ser muitas vezes sinal de resistência perante movimentos de normalização, apresentando-se como sinal de distinção em face da massificação da língua nacional, tal como ficou estabelecido no célebre debate Calvino/Pasolini a propósito da repressão educativa em torno de uma língua única, concorrendo para a ambiguidade inútil, a torpe aproximação, a vaga indiferença, a obscuridade sem profundidade da língua burocrática, tão típica dos nosso tempos, acrescentaria este pobre autor que vos fala.
Em suma, embora não seja fornecida ao leitor (pelo menos ao
leitor na posse de um sistema nervoso central) qualquer prova cabal e
inteligente para o injustificado entusiasmo pelo livro de Alexandra Lucas
Coelho, nem quanto ao enredo, nem quanto à eufonia e ritmo (a tal capacidade de
construir sobre a linguagem uma violência organizada), nem quanto à capacidade
estilística, nem quanto à qualidade da retórica (figuras, símbolos, imagens,
apresentação de variações, repetições, hierarquia das frases) nem quanto à
coragem temática, nem quanto à erudição, fosse ela histórica ou literária, já
não peço técnica ou prática, nem quanto a nada, os críticos, valha-nos deus,
resolvem ainda, para não fugir ao clássico fedor escolástico, lançar mão do
famigerado e incansável argumento de autoridade, e com que espalhafato o fazem,
deus nosso senhor.
Se Joyce multiplicava o mundo, acrescentando camadas ao seu texto em vez de o rarefazer, como Beckett, então Alexandra neste livro está claramente mais próxima de Joyce, a quem de resto pede emprestado o artifício do fluxo de consciência
Quem sou eu para negar que um romance arquitetado sobre as ruínas do famigerado fluxo da consciência, lançando a mão a Beckett e Joyce, e ostentando a ambição de relatar os abismos de sentido que haverá (quem o nega) em toda a mulher que se preza de ser mulher, não possa fazer uso de uma suposta boazona de Gaia, apostada em matar o namorado. Porém, Alexandra, neste livro, e lamentamos transportar esta pesada novidade, está claramente mais próxima de Margarida Rebelo Pinto do que de Joyce ou Beckett.
«Complexidade formal do livro? Personagem sem par na literatura portuguesa recente?» Servirá isto para esconder o facto de o livro simplesmente não ter o mais pequeno interesse, por ser a escrita da autora de uma desarmante indigência literária, psicológica, dramática, retórica? No fundo, depois dos ridículos encómios (o computador queria forçar-me a escrever manicómios) em que entram à espanhola Joyce e Beckett, o melhor que se pode arranjar, num livro de quase 200 páginas, foi uma analogia entre uma nespereira atravessada pelo sol cuja sombra é (e passo a citar) uma filigrana em movimento, projectada na cal e no anil que os árabes deixaram cá. Se me permitem, isto mais parece prosa de prospecto turístico de junta de freguesia, esgalhada pela secretária do presidente (lá está) entre uma ida ao cabeleireiro e um croquete mastigado em pé na pastelaria da praça, todavia, é imperioso dar a voz à autora, Alexandra Lucas Coelho, e por isso, mergulhemos no material para avaliarmos a tal «verdadeira beleza desta prosa», a partir do primeiro capítulo generosamente cedido pela Tinta da China.
Não vamos implicar com a total incapacidade de sugerir a
«linguagem dos mecânicos» mas não podemos deixar de nos sentir insultados com a
total ausência de ritmo neste frasear, e muito pior, com a desajeitada
utilização do vernáculo, sendo de destacar a quase inexistência de analogias,
imagens ou metáforas de modesta originalidade, problema que, a julgar pelos
primeiros capítulos, afeta todo o livro. Mas um dos aspetos mais inaceitáveis
de O Meu Amante de Domingo vai para uma sociologia descuidada e violentamente
preconceituosa, que podemos caracterizar como a «mania das gajas de esquerda
que se julgam cultas», o que podendo ser uma prova do espetacular realismo da
personagem (deduzida nós bem sabemos de quem), não casa nem com o uso do
vernáculo, nem com a atracção pela violência da gaja de Gaia, pois que a «mania
das gajas de esquerda que se julgam cultas» considera inaceitável toda a forma
de violência, com excepção das cargas policiais. Com efeito, esta simpatia pela
mãe da amiga (com doutoramento e
agregação na Faculdade de Letras) a juntar à simpatia pelos doutorados que,
coitados, não podem comprar carro, tem origem na ideia de que as pessoas com
estudos estão mais próximas de alcançar a verdade, o que sendo interessante
como discussão filosófica, se revela uma tragédia do ponto de vista do
tratamento como tema literário.
A mãe era a gaja mais gira de Letras, e continua a ser a gaja de cinquenta anos mais gira de Letras, doutoramento, agregação, etc. Isto de ter cinquenta anos não sabemos bem como acontece. Um dia uma gaja está com quarenta, toda a gente lhe dá trinta, e de repente faz cinquenta. Aí, toda a gente diz que os cinquenta são os novos trinta. Mas como eu sou do Canidelo, concelho de Vila Nova de Gaia, o que digo é, quero o meu pescoço de volta, caralho.
Portanto, numa prosa que se reputa como bela, desabrida, nunca antes vista, e capaz de caracterizar uma singularíssima personagem na ficção portuguesa, a mesma gaja que faz a revisão gramatical da biografia de Nelson Rodrigues também é capaz de dizer «Mas como eu sou do Canidelo, concelho de Vila Nova de Gaia, o que digo é, quero o meu pescoço de volta, caralho.»
Temos dado nota do crescimento exponencial da mulher como compradora de romances, e mesmo sem estatísticas rigorosas, sabemos de ciência segura que a mulher terá sido, desde o século XVIII, a consumidora preferencial do romance popular, e tendo em conta o terramoto sociológico originado pela descoberta da pílula e da mecanização da vida doméstica, é da mais elementar justiça reconhecer que, mais tarde ou mais cedo, a mulher criaria um produto romanesco da sua própria lavra, tendo em conta a sua mitologia específica, e veja-se um recente trabalho da nunca devidamente apreciada Eva Illouz, sobre a triunfante cultura de auto-ajuda que ameaça toda a narrativa acerca do hipotético e desgovernado imaginário sexual da mulher moderna. Contudo, os riscos de simplificação são mortais, e não me parece que Alexandra Lucas Coelho tenha conseguido tocar o lodo em que se forjam os mitos da criação, ao dar vida a uma natural do Canidelo, loura, relacionada com mulheres que viajam para o Rio de Janeiro (na estafada forma do «disse-me uma amiga»), profissional do mundo da edição, adepta do ginásio, e aposto que do ioga e do vegetarianismo, e utilizadora desajeitada de palavrões, de resto, se fosse assim tão fácil criar mitos, não seriamos forçados a gastar tanto dinheiro em vinho, cerveja e ansiolíticos.
Outra prova desta sociologia de bolso decorre da análise que a personagem faz dos lisboetas, certamente contagiada por conversas com os amigos de Alexandra Lucas Coelho, no que respeita ao uso do vernáculo.
A minha melhor amiga diz caralho mesmo sendo lisboeta mas deve ser a única. Depois de uma garrafa de vinho debruçámo‑nos sobre esse clichê do porno que é um mecânico, mais clichê só bombeiro, canalizador, trolha, de acordo, e daí?, no apocalipse do capitalismo seremos enfim irmãos, e entretanto o clichê é apenas a gaveta onde o civilizado acha que arruma o selvagem (...)

Prometo desde já ir a Fátima a pé no caso do Liverpool emprestar Lazar Markovic ao Benfica.
Isto é tão doloroso para a minha sensibilidade que tenho muita dificuldade em comentar, pois da ideia de «apocalipse do capitalismo» até à teoria do clichê como «gaveta onde o civilizado arruma o selvagem», é tudo tão autenticamente produto da «mania das gajas de esquerda que se julgam cultas» que só pode ser fruto da pressa com que Alexandra Lucas Coelho transportou para o livro muitas das suas conclusões apressadas.
Às dez e meia, o meu futuro amante de domingo entregou‑me o Lada pronto. Às onze eu ainda não tinha ido embora e ele já me tinha contado a história da sua vida, ilustrada por fotografias do filho no telefone, que era um smartphone, porque só os excluídos e os auto‑excluídos não têm um smartphone em 2014. Como o filho morava com a mãe, e ele dizia a mãe do meu filho, deduzi que estava separado.
Estamos diante de mais um clássico da «mania das gajas de esquerda que se julgam cultas», ou seja, a raiva elementar contra a tecnologia, o que explica, de certa forma, esta outra afirmação bombástica, a saber, escrever sobre sexo é escrever sobre fracasso, e arriscaríamos interpretar esta dificuldade como decorrente da incapacidade de entender o sexo como mecânica, e por isso, dotado de uma técnica, como sempre souberam as culturas antigas (que tinham tempo, meu deus, que tinham tempo) o que nada implica desvalorizar os estados mentais subjetivos implícitos no sexo, ou as retribuições ditas mentais, espirituais ou conscientes (façam favor de utilizar a terminologia paranormal que mais vos aprouver) associadas à maior «sentimentalidade» da mulher. É aliás muito estranho como a própria autora não se apercebe (ou pelo menos não sinaliza) as ligações evidentes entre o mecânico, com a sua taumaturgia da reparação, e o desejo sexual de uma mulher em busca de soluções, no fundo, a assunção de um velho e incontornável problema da nossa civilização pós-moderna, identificado por Italo Calvino, ou seja, a incapacidade de associar a maravilha e o milagre com o prazer do trabalho. Escrever sobre sexo, só é escrever sobre fracasso para quem se encontra enterrado em quinquilharia psicológica, e tende a associar a escrita de ficção a um bazar indiano confusamente repleto de pedaços dos nossos estados mentais, onde é impossível ao proprietário encontrar os artigos solicitados pelo cliente, tal é a desilusão, depois das catástrofes do século XX, perante os limites da racionalidade humana, sendo a dita racionalidade, uma das poucas coisas de que nos podemos orgulhar. Para refutar este decadentismo burguês (tão nocivo para os nossos adolescentes) bastaria agora citar dois fundamentos da humanidade, o Kama Sutra e o Cântico dos Cânticos.
Bem vê o leitor como a escrita de Alexandra Lucas Coelho, como aliás todo o seu raciocínio, é vibrante de beleza e originalidade, e diria mesmo verosimilhança, mas não quero forçar a nota do realismo, que aliás me interessa pouco como género literário, e assim, quero apenas chamar a atenção para mais um pedaço da penetrante sagacidade da personagem principal de O Meu Amante de Domingo quando deduz da frase do mecânico «a mãe do meu filho», um mais que certo divórcio, sendo que se a frase fosse «o filho da minha mulher», poderíamos daí deduzir um casamento saudável e fulgurante. Ainda dizem que a literatura não comporta mensagens.
Eu e o meu futuro amante de domingo despedimo-nos a contragosto, achei eu (a capacidade de as gajas acharem é impossível de satisfazer). Felizmente, o multibanco dele estava avariado, eu não tinha dinheiro na carteira, e ele disse que preferia dinheiro em vez de uma transferência, portanto concordámos que no domingo seguinte eu voltaria para lhe pagar.
Em suma, esta prosa é tão pobremente jornalística, tão banal e incapaz de suscitar efeitos emocionais no leitor, tão pobre de temas e invenções, tão escassamente inteligente na caracterização psicológica, que diremos constituírem as referidas críticas (publicadas em jornais de referência, valha-nos deus) dois exemplares pedaços de absoluto delírio metafísico, de injustificada preguiça mental, de tresloucada lambe-botice, de incompreensível e circense raciocínio crítico, cuja justificação só pode ser a de uma sólida relação de amizade (e respeito) entre os dois críticos e autora, relação de amizade em que o leitor (infelizmente) não tem o prazer de participar.
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
Profunda vénia a todos vós
É com tristeza que confirmo que a discussão na praça pública em Portugal continua a ser feita por adolescentes com o pito aos saltos. A propósito da TAP.
O Mário Amorim Lopes, que eu desconfio ser o nom de plume de Laura Silva Pedrosa, 14 anos, natural da Alfarelos e que está inconsolável por a Liliana ter saído da Casa dos Segredos, acha que teve azar em herdar logo à nascença e contra a sua vontade, uma posição de accionista na TAP. Realmente teve azar, se tivesse nascido no Chade, ou no Burkina Faso, não teria que carregar com este ónus e poderia passar os dias a blogar sobre a guerra civil. Um dia, quando o Mário a Laura for mais velha, gostaria de lhe poder explicar os conceitos de sociedade, liberdade e responsabilidade intergeracional.
Do outro lado da barricada, temos o António Costa. Que sugere um "aumento do capital da empresa, através da bolsa, com investimento de capital privado, sem que o Estado perca a posição de controlo fundamental para a empresa". Que ele tenha dito isto sem se rir, e que o jornalista não lhe tenha enfiado o microfone nas trombas diz muito de ambos.
Que os sindicatos têm toda a razão em fazer greve é algo que me parece da mais elementar verdade. Senão digam-me: o patrão, a seguir a ter-vos cortado o salário, anuncia que a empresa vai ser privatizada e que quase/todos os privilégios em espécie que ainda recebem, vão acabar. Vossas senhorias (i) tiravam o tubo de vaselina da gaveta enquanto baixavam as calças ou (ii) faziam birra e ameaçavam partir tudo enquanto o patrão não desse o dito por não dito ? Não compreender isto é não compreender que o William Carvalho anda a jogar uma merda.
Em verdade vos digo, o estúpido no meio disto tudo fui eu que tinha adquirido três títulos de viagem na TAP para uma das datas da greve e na passada sexta tive de os cancelar e comprar novos títulos de viagem, devidamente inflacionados pelo livre mercado, na concorrência. Mas pronto, é a errar que se aprende e eu aprendi a não efectuar comércio com a TAP. As pitas, em vez de gritinhos esganiçados, que façam o mesmo e utilizem a concorrência. E a TAP que se lixe.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2014
terça-feira, 9 de dezembro de 2014
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
terça-feira, 25 de novembro de 2014
domingo, 23 de novembro de 2014
Há males que vêm por bem
Ainda bem que estou emigrado, não tenho que aturar o circo que imagino está a ser a prisão do Sócrates.
sexta-feira, 31 de outubro de 2014
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
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