segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Com quantas palavras se descreve um problema?

Os compêndios, manuais, breviários, conjuntos de regras, bíblias, listas telefónicas, sobre as famigeradas leis da escrita perfeita têm estado na ordem do dia, não sei se devido ao triunfo comercial do modelo «se podes foder-te em companhia, para quê perder mais tempo a tentar fazê-lo sozinho?» ou se por colonização massiva do espírito computacional sobre as nossas melancólicas cabeças, a saber, uma obsessão incontrolável em reduzir tudo a um algoritmo manejável pelas máquinas, não querendo, de modo algum, cometer aqui a superficialidade de explicar o fenómeno por meio da infecciosa proliferação do grande capital.

Como alternativa, este magnífico texto apresenta uma invejável síntese do mais assustador zombie da literatura moderna, a saber, uma suposta ideia de maior verosimilhança patente no pechisbeque psicologista, ou seja, uma escrita que faz do fluxo da consciência (mas que raio é essa merda?) a única forma de retratar os abismos da personalidade humana. Não entro sequer pela crítica de uma suposta profundidade da consciência (e o sublinhado é nosso), devido às minhas evidentes limitações em topologia, mas tendo em conta o sucesso comercial dos livros de António Damásio (como todos sabem, um dos piores presidentes da história do Benfica) já seria o momento do venerável público assumir que a ideia de consciência é tão inefavelmente paneleira como a de alma ou de personalidade, no fundo, um outro nome para a nossa puta ignorância sobre nós mesmos, numa frase que poderíamos atribuir ao grego Samaris, ou a Herberto Helder, com toda a certeza, um gajo que torce pelo Sporting.

Por outras palavras, quem já se confrontou com livros de divulgação na área das neurociências (e tendo em conta que a Leonor Beleza seria em nova uma gaja com um certo nível de agressividade morfológica, de um ponto de vista do homem sensível) sabe perfeitamente como os mais reputados génios da especialidade, não fazem ponta de ideia acerca do que seja a consciência. Mesmo a descrição do seu funcionamento (pelas mãos de um Gazzaniga, gajo menos espalhafatoso do que o António Damásio - e não lhe perdoamos a contratação de Artur Jorge) corre o risco de se assemelhar mais à descrição do funcionamento de uma máquina retroprojetora de transparências (e lembrei-me agora de umas aulas sobre arte rupestre dadas pela reencarnação da Marlyn Monroe, uma gaja de quem toda a Universidade dizia ter galgado o estrado do ensino académico por motivos obscuros, digamos assim) do que à descrição de um organismo vivo, qualquer que seja a definição de organismo vivo, não me fodam agora o juízo com duas questões fodidas em simultâneo, ainda que a indústria pornográfica muito nos tenha ensinado sobre essa matéria.

Em suma, estamos a secar o terreno da ficção publicável, por estarmos todos fodidos do miolo, e não há gajo nem gaja (do Chef'sAcademy ao Factor X, do Alta Definição paneleiro Oliveira à Casa das espetaculares mamas da Sofia, sejamos rigorosos, passando pelo comentário do professor Rebelo de Sousa heil hitler) repito, não há gajo nem gaja, capaz de aguentar cinco minutos de oratória confessional televisiva sem incorrer nas lágrimas, apostando eu que isto se deve a não encontrarmos solução original para os nossos problemas, que é como quem diz, uma voz própria, foda-se, caralho, quando nada nos impediria de procurar um caminho, veja-se o caso de Tolstoi (outro merdas) que via na infelicidade da adúltera sentimental um maior emblema distintivo do aquele representado pela mulher desinibida disposta a vender o corpo de forma especializada e profissional, o que não o impediu - justiça lhe seja feita - de nos falar com uma cristalina objetividade, pelo que, pergunto, teriam os russos à época um «mestre de gramática armado com régua de madeira» em lugar de um cérebro habitado por uma consciência?

Do meu triste ponto de vista, tudo se deve à imaginação lunática de uns quantos literatos que encostados à parede pelas circunstâncias específicas da sua vida (e tanto Joyce como Proust se envenenaram o suficiente com a ideia platónica de alma) deram em ressuscitar a parafernália sentimental do cristianismo sob a forma científica e mecânica da consciência, esse esgoto a céu aberto. 

I believeit is also worth pointing out that (for some sections of the novel especially),a tweet feels like (and, tripping off the tongue, even sounds like) the idealdelivery mechanism for a fractured stream-of-consciousness monologue, an artJoyce didn’t invent but certainly cemented and codified as a literary techniqueof incredible aesthetic potential. Ulysses is, in some sense, about thefragmentation of thought and culture in the modern world — a panoramic snapshotof human minds in 1904.

Logicamente, a literatura vive da descrição das coisas, 1) por uso da inteligência, e 2) com recurso ao alfabeto, as únicas regras passíveis de serem formuladas com total segurança. Quanto ao estilo e tamanho das descrições, esperamos sempre esfomeadamente esse divino momento em que alguém, libertando-se em vertigem, tanto do medo do abismo como da consolação da esperança, decide expressar-se, mandando-vos a todos vós, venerando e respeitável público, para o caralho que vos foda.

E carnevale sia! - Vittoria Risi vista da Gino Gabrieli

Um bom ano

Para aqueles que não têm tempo de ler o fabuloso texto do alf aqui colocado em baixo, fica o resumo:

1. as mamas da Alexandra são boas como o caralho
2. a Alexandra escreve mal como o caralho
3. os "críticos" querem que a Alexandra lhes chupe o caralho

sábado, 20 de dezembro de 2014

Literatura: a minha amante de todos os dias - compreender a incompreensível ascensão literária de Alexandra Lucas Coelho à luz da pessoa que leu mais do que dois livros.

Comentário de leitor anónimo no Diário de Notícias ao mais recente romance de Alexandra Lucas Coelho, a de magníficas mamas, isto segundo maradona (e não vejo razões para o contrariar). 


Não beneficiamos dos necessários incentivos institucionais (e monetários) para aqui e agora (embora tal missão se revestisse de suprema importância) fundamentar o conjunto de razões porque julgamos ser esta nossa triste república refém de um analfabetismo contumaz, que tem no pobre jornalismo nacional (por razões históricas, económicas e médicas) uma das suas bases mais estruturalmente estruturantes. Bem sei que talvez se espere nesta casa demasiado do jornalismo (mais uma brilhante invenção do século XVIII) mas num ecossistema ameaçado pelo crescimento exponencial da informação, ou o jornalismo se põe fininho e direitinho e encontra o caminho da salvação, ou nós, citoyens (com grande desperdício de recursos) seremos forçados a auxiliar os fracos e oprimidos a encontrarem a saída desta selva escura e perigosa em que se transformou a paisagem mediática, uma selva onde tanto podemos ser abocanhados pelo prognatismo de Manuel Luís Goucha como expostos à sedução das abençoadas e exemplares protuberâncias de assistência à reprodução de uma Cristina Milf Ferreira, sem que exista uma profícua discussão na nossa comunidade sobre a relação entre o sucesso comercial das empresas de comunicação (sobretudo as que possuem antena aberta concedida pelo Estado) e as toneladas de ignorância (repito, de ignorância) despejadas em cima das reformadas, adolescentes e crianças, para não falar da brutalização mediática das crianças desfavorecidas, perpetrada por bandos de malfeitores.


Daily Cristina

A forma como certas tendências irracionais insistem em colonizar o espaço da nossa vida pública, cultural e epidémica, não pode deixar de causar um enorme desconforto ao observador desprevenido, sobretudo quando pensamos no estrondoso desajuste entre as sempre enjoativas manifestações de altruísmo político dos nossos escritores e os interesses económicos dos mesmos, sem que nada se saiba (e seria muito interessante sabê-lo) acerca do círculo hipnótico através do qual certas redes de amigos, companheiros e conhecidos frequentadores de festas, lançamentos, encontros, almoçaradas, e provavelmente, alcovas, acumulam capital mediático sem a mais pequena explicação (ao menos por motivos folclóricos e higiénicos) dos critérios estéticos, artísticos, sociológicos e erógenos, que presidiram, presidem e presidirão às mesmas e referidas tendências, e pensamos aqui nessa torrente de impressões avulsas que passa, entre nós, por crítica literária, sobretudo ao nível da imprensa escrita, o que agrava sobremaneira a responsabilidade dos autores das referidas torrentes de impressões avulsas (ou seja, os paneleiros dos críticos) quando produzem juízos inteiramente subjetivos e pessoais (e é triste sermos obrigados a recordá-lo ao pobre leitor) apresentando os críticos esses juízos (às vezes com estrelinhas numericamente valorativas) sob a prestigiada forma de uma «crítica» em jornal de referência, e procurando, desta forma, implicitamente: 1) reivindicar o estatuto de especialistas (quando nada no conteúdo dessas críticas qualifica esses críticos como especialistas, nem sequer, por vezes, como pessoas capazes de interpretar a língua portuguesa) ou 2) defender uma suposta validade universal do texto avaliado, sem qualquer explicação dos critérios valorativos e estéticos (não digo morais, para não assustar ninguém) e assentando uma suposta validade universal dos textos avaliados em afirmações tão profundas, gerais, consistentes e sólidas como «Há muitos anos que não aparecia na literatura portuguesa um livro assim» ou ainda, nos casos mais patológicos, como veremos em seguida, 3) fazendo comparações lunáticas entre os livros dos seus amigos/as (escritos numa linguagem ao alcance de cerca de 95% dos estudantes de língua portuguesa das nossas escolas secundárias) e os livros de escritores tão raros e originais como Joyce ou Beckett. Não seria necessário fazer uso de um pouco de lógica e de um conhecimento, ao menos moderado, da literatura ocidental? Mas acreditarão estes críticos na generalidade congénita da estupidez como atributo do cidadão leitor de jornais, julgando-o incapaz de separar a crítica da publicidade? É uma hipótese.

Se a empresa é (na actual teoria económica espontânea) uma caixa negra, cujos preços dos produtos fornecem toda a informação relevante do ponto de vista do interesse público, não podemos deixar de manifestar as nossas mais sérias dúvidas sobre a simples aplicação deste princípio, quando o produto das ditas empresas consiste num jornal com diversos sub-produtos, incluindo a crítica literária, não sendo esta sujeita aos ditos preços e comportando, por isso, uma parasitagem de certos interesses económicos (nomeadamente das editoras), a coberto do investimento no jornal (cuidado senhor engenheiro Belmiro). Aos que remetem qualquer crítica da «crítica literária» para os resultados da performance económica dos referidos jornais (sendo esta performance definida pela decisão final de compra dos pobres leitores) eu diria que também a estrondosa desgraça económica da imprensa escrita (e de grande parte do mundo editorial), concorre para desconfiarmos de que algo vai mal no reino da crítica, e por conseguinte, no reino da imprensa escrita, seja impressa ou digital, bem como no mundo da edição, num mercado, reputado pelos próprios agentes, como cada vez mais hostil, e com margens canibais (pudera), pois cá estaremos (se não morrermos antes) para assistir às falências em cascata.

Conhecemos muitos casos de meteórica ascensão literária de autores, sem a mais pequena evidência de que a referida ascensão corresponda aos méritos do texto produzido por esses autores, quando seria natural a existência de uma certa relação entre os juízos dos leitores/consumidores e o espalhar da notícia (o murmúrio, para utilizar uma expressão de Umberto Eco) sobre o interesse de um dado livro. Todavia, mesmo sabendo como funciona o mercado, a forma despudorada como o mais recente livro de Alexandra Lucas Coelho, O Meu Amante de Domingo, colonizou a paisagem jornalística com as respectivas consequências comerciais, e sem uma justificação literária ou anatómica convincente, diz muito sobre o que ainda nos falta percorrer quando falamos da relação entre o funcionamento do mercado e a informação despejada (por obscuros critérios e com incerta origem) acerca dos produtos trocados nesse mesmo mercado. Fica contente a autora, fica contente a editora, fica contente a redacção do jornal, mas pergunto se a médio prazo, e com a galopante descida do preço da informação, não será para todos clara a manipulação do valor real do produto (sentiram isto?).


Não quero apressar-me em matéria de juízo estético, até porque a justiça deve estar separada da política, nesta como em muitas outras matérias (e veja-se o caso das magníficas mamas de Alexandra Lucas Coelho, sobre as quais, e muito injustamente, nada sabemos) e até porque as referidas críticas acerca do mais recente livro da autora, chamam a atenção do leitor para a forma enérgica e penetrante com que Alexandra Lucas Coelho trata os assuntos sexuais, nomeadamente, dando vida a uma literata (a personagem principal) praticante de ginástica sueca, e natural do Canidelo, assunto em que não tenho qualquer interesse em entrar de forma descuidada.

Diz-nos um crítico de referência acerca da protagonista da referida obra em apreço:



para logo em seguida confessar que:




Ora, consultando qualquer interposto comercial, constatamos que a sinopse do tal livro de Ricardo Adolfo, Maria dos Canos Serrados, livro e autor que temos o prazer de ignorar em absoluto, refere a história de uma moça dos arredores de Lisboa que adora a igualdade de liberdades, o seu namorado gigolô, as noites intoxicadas com as amigas e a ideia de vir a ser directora. Mas, de um dia para o outro, vê-se desamada, despedida e falida. E, entre resignar-se ou virar a mesa, Maria decide acertar contas de arma em punho. Contada de rajada na primeira pessoa, Maria dos Canos Serrados é uma história desbocada, nascida da Grande Crise. (O sublinhado é nosso).


Portanto, julgo que até o mecânico amante da personagem inventada pela adorável Alexandra Lucas Coelho seria capaz de chegar à conclusão que o último dos atributos deste livro, O meu Amante de Domingo (e não nego que possa ter muitos) é a originalidade do tema, pelo que a referida crítica começa logo à cabeça por dar prova de uma total incompetência na ponderação da singularidade do livro, apresentando o próprio crítico inequívocas provas da sua incapacidade. Como podemos classificar isto? Distracção? Ilusão de impunidade? Sonolência patológica?


Em segundo lugar, seguindo o elogio do crítico, somos confrontados com um efeito pirotécnico de festa de aldeia, aliás, relativamente típico dos estilhaços estético-linguísticos encontrados entre as ruínas dessa nobre tentativa de recuperação da verdade, intitulada neo-realismo, a saber, a recuperação dos dialectos, ou da linguagem franca e regional, representando uma suposta psicologia humana mais próxima da terra, dos sentimentos carnais, ou seja, deus nos valha, da natureza, esse cadáver que os poetas do século XVIII inventaram e que o romantismo regurgitou para, qual Frankenstein, nunca mais acabar de nos encanitar a paciência.


Segundo Riço Direitinho (quem?) a linguagem da personagem dominante, feita de fúria e raiva, contrasta com a suposta gravata envergada pela língua dos lisboetas (uma imagem horrível, diga-se em passagem) isto a julgar pelos critérios da personagem, e é bonito ver como a crítica baseia a sua análise da personagem no mundo psicológico da personagem analisada.

Também o simpático crítico-guru José Mário Silva, a quem o meio literário parece prestar uma assinalável vassalagem, em face de méritos absolutamente desconhecidos, avança com a sua leitura de fenómeno linguístico, pelos vistos, um aspecto significante no belo instrumentário estilístico associado à autora, Alexandra Lucas Coelho:



Coloquemos pois um ponto de ordem no assunto: a invocação desse horrível problema de geografia humana, o regionalismo (e veja-se a mais recente Europa a foder-se à grande com estas brincadeiras) levanta problemas graves e particulares, mas não no caso de um país, Portugal, com precoce centralização política, onde alguma coisa deve explicar a inexistência de uma nobreza ou elite económica regional, capaz de pressionar a construção de um parlamento em tempo útil (já não pedimos a decapitação de um rei) com tudo o que isso significa de artificialismo quando se pretende sublinhar em demasia o regionalismo de um país que é em si mesmo, apesar da diversidade geográfica, culturalmente uma região, e por isso, a cristalização de características regionais no caso da literatura portuguesa (e arriscaríamos dizer, em todas as literaturas) é sempre, na nossa modesta opinião, uma incapacidade de colocar problemas interessantes, por ignorância e preguiça mental, e fazemos o favor de reconhecer que no livro, ou ao menos no espírito da autora, pode estar uma vontade em tratar assuntos pertinentes, que o crítico ou não compreendeu, ou não soube interpretar, despejando em cima da cabeça do potencial comprador do livro, uma torrente de banalidades e lugares comuns, de resto, extraídos da banalidade torrencial da personagem principal do referido livro, a boazona de Gaia.


Na verdade, se o crítico tivesse ido à escola, esclareceria o leitor sobre o facto de a suposta brutalização das gajas nortenhas apontar quase sempre para uma triste generalização, típica da revista à portuguesa (triste generalização a que nenhuma citação literária, de Balzac ou Joyce, consegue disfarçar o cheiro a sardinha assada) pois que as gajas desabridas amantes de mecânicos, em princípio, não traduzem Nelson Rodrigues, quem sabe não farão antes broches a empresários do calçado, a fim de pagar o material escolar dos filhos, e esta seria com toda a certeza uma situação de muito maior interesse literário (digo eu) sobretudo se a referida gaiense e boazona, apresentasse indícios de querer esmagar o crânio ao referido empresário, por uma de várias malfeitorias, sempre possíveis de serem praticadas por homens com poder, o que não é, em princípio, o caso dos mecânicos, por muito que a nossa indignação conspire na sombra contra os autênticos assaltos praticados sob a capa de reparações por essas oficinas deste nosso Portugal.


Por outro lado, também se podia colocar a questão de a sobrevivência do dialecto ser muitas vezes sinal de resistência perante movimentos de normalização, apresentando-se como sinal de distinção em face da massificação da língua nacional, tal como ficou estabelecido no célebre debate Calvino/Pasolini a propósito da repressão educativa em torno de uma língua única, concorrendo para a ambiguidade inútil, a torpe aproximação, a vaga indiferença, a obscuridade sem profundidade da língua burocrática, tão típica dos nosso tempos, acrescentaria este pobre autor que vos fala.



Em suma, embora não seja fornecida ao leitor (pelo menos ao leitor na posse de um sistema nervoso central) qualquer prova cabal e inteligente para o injustificado entusiasmo pelo livro de Alexandra Lucas Coelho, nem quanto ao enredo, nem quanto à eufonia e ritmo (a tal capacidade de construir sobre a linguagem uma violência organizada), nem quanto à capacidade estilística, nem quanto à qualidade da retórica (figuras, símbolos, imagens, apresentação de variações, repetições, hierarquia das frases) nem quanto à coragem temática, nem quanto à erudição, fosse ela histórica ou literária, já não peço técnica ou prática, nem quanto a nada, os críticos, valha-nos deus, resolvem ainda, para não fugir ao clássico fedor escolástico, lançar mão do famigerado e incansável argumento de autoridade, e com que espalhafato o fazem, deus nosso senhor.

Se Joyce multiplicava o mundo, acrescentando camadas ao seu texto em vez de o rarefazer, como Beckett, então Alexandra neste livro está claramente mais próxima de Joyce, a quem de resto pede emprestado o artifício do fluxo de consciência

Quem sou eu para negar que um romance arquitetado sobre as ruínas do famigerado fluxo da consciência, lançando a mão a Beckett e Joyce, e ostentando a ambição de relatar os abismos de sentido que haverá (quem o nega) em toda a mulher que se preza de ser mulher, não possa fazer uso de uma suposta boazona de Gaia, apostada em matar o namorado. Porém, Alexandra, neste livro, e lamentamos transportar esta pesada novidade, está claramente mais próxima de Margarida Rebelo Pinto do que de Joyce ou Beckett.


«Complexidade formal do livro? Personagem sem par na literatura portuguesa recente?» Servirá isto para esconder o facto de o livro simplesmente não ter o mais pequeno interesse, por ser a escrita da autora de uma desarmante indigência literária, psicológica, dramática, retórica? No fundo, depois dos ridículos encómios (o computador queria forçar-me a escrever manicómios) em que entram à espanhola Joyce e Beckett, o melhor que se pode arranjar, num livro de quase 200 páginas, foi uma analogia entre uma nespereira atravessada pelo sol cuja sombra é (e passo a citar) uma filigrana em movimento, projectada na cal e no anil que os árabes deixaram cá. Se me permitem, isto mais parece prosa de prospecto turístico de junta de freguesia, esgalhada pela secretária do presidente (lá está) entre uma ida ao cabeleireiro e um croquete mastigado em pé na pastelaria da praça, todavia, é imperioso dar a voz à autora, Alexandra Lucas Coelho, e por isso, mergulhemos no material para avaliarmos a tal «verdadeira beleza desta prosa», a partir do primeiro capítulo generosamente cedido pela Tinta da China.




Não vamos implicar com a total incapacidade de sugerir a «linguagem dos mecânicos» mas não podemos deixar de nos sentir insultados com a total ausência de ritmo neste frasear, e muito pior, com a desajeitada utilização do vernáculo, sendo de destacar a quase inexistência de analogias, imagens ou metáforas de modesta originalidade, problema que, a julgar pelos primeiros capítulos, afeta todo o livro. Mas um dos aspetos mais inaceitáveis de O Meu Amante de Domingo vai para uma sociologia descuidada e violentamente preconceituosa, que podemos caracterizar como a «mania das gajas de esquerda que se julgam cultas», o que podendo ser uma prova do espetacular realismo da personagem (deduzida nós bem sabemos de quem), não casa nem com o uso do vernáculo, nem com a atracção pela violência da gaja de Gaia, pois que a «mania das gajas de esquerda que se julgam cultas» considera inaceitável toda a forma de violência, com excepção das cargas policiais. Com efeito, esta simpatia pela mãe da amiga (com  doutoramento e agregação na Faculdade de Letras) a juntar à simpatia pelos doutorados que, coitados, não podem comprar carro, tem origem na ideia de que as pessoas com estudos estão mais próximas de alcançar a verdade, o que sendo interessante como discussão filosófica, se revela uma tragédia do ponto de vista do tratamento como tema literário.

A mãe era a gaja mais gira de Letras, e continua a ser a gaja de cinquenta anos mais gira de Letras, doutoramento, agregação, etc. Isto de ter cinquenta anos não sabemos bem como acontece. Um dia uma gaja está com quarenta, toda a gente lhe dá trinta, e de repente faz cinquenta. Aí, toda a gente diz que os cinquenta são os novos trinta. Mas como eu sou do Canidelo, concelho de Vila Nova de Gaia, o que digo é, quero o meu pescoço de volta, caralho. 

Portanto, numa prosa que se reputa como bela, desabrida, nunca antes vista, e capaz de caracterizar uma singularíssima personagem na ficção portuguesa, a mesma gaja que faz a revisão gramatical da biografia de Nelson Rodrigues também é capaz de dizer «Mas como eu sou do Canidelo, concelho de Vila Nova de Gaia, o que digo é, quero o meu pescoço de volta, caralho.»


Temos dado nota do crescimento exponencial da mulher como compradora de romances, e mesmo sem estatísticas rigorosas, sabemos de ciência segura que a mulher terá sido, desde o século XVIII, a consumidora preferencial do romance popular, e tendo em conta o terramoto sociológico originado pela descoberta da pílula e da mecanização da vida doméstica, é da mais elementar justiça reconhecer que, mais tarde ou mais cedo, a mulher criaria um produto romanesco da sua própria lavra, tendo em conta a sua mitologia específica, e veja-se um recente trabalho da nunca devidamente apreciada Eva Illouz, sobre a triunfante cultura de auto-ajuda que ameaça toda a narrativa acerca do hipotético e desgovernado imaginário sexual da mulher moderna. Contudo, os riscos de simplificação são mortais, e não me parece que Alexandra Lucas Coelho tenha conseguido tocar o lodo em que se forjam os mitos da criação, ao dar vida a uma natural do Canidelo, loura, relacionada com mulheres que viajam para o Rio de Janeiro (na estafada forma do «disse-me uma amiga»), profissional do mundo da edição, adepta do ginásio, e aposto que do ioga e do vegetarianismo, e utilizadora desajeitada de palavrões, de resto, se fosse assim tão fácil criar mitos, não seriamos forçados a gastar tanto dinheiro em vinho, cerveja e ansiolíticos.


Outra prova desta sociologia de bolso decorre da análise que a personagem faz dos lisboetas, certamente contagiada por conversas com os amigos de Alexandra Lucas Coelho, no que respeita ao uso do vernáculo.


A minha melhor amiga diz caralho mesmo sendo lisboeta mas deve ser a única. Depois de uma garrafa de vinho debruçámo‑nos sobre esse clichê do porno que é um mecânico, mais clichê só bombeiro, canalizador, trolha, de acordo, e daí?, no apocalipse do capitalismo seremos enfim irmãos, e entretanto o clichê é apenas a gaveta onde o civilizado acha que arruma o selvagem (...)



Lazar Marković i Darko Lazović
Prometo desde já ir a Fátima a pé no caso do Liverpool emprestar Lazar Markovic ao Benfica.

Isto é tão doloroso para a minha sensibilidade que tenho muita dificuldade em comentar, pois da ideia de «apocalipse do capitalismo» até à teoria do clichê como «gaveta onde o civilizado arruma o selvagem», é tudo tão autenticamente produto da «mania das gajas de esquerda que se julgam cultas» que só pode ser fruto da pressa com que Alexandra Lucas Coelho transportou para o livro muitas das suas conclusões apressadas. 

Às dez e meia, o meu futuro amante de domingo entregou‑me o Lada pronto. Às onze eu ainda não tinha ido embora e ele já me tinha contado a história da sua vida, ilustrada por fotografias do filho no telefone, que era um smartphone, porque só os excluídos e os auto‑excluídos não têm um smartphone em 2014. Como o filho morava com a mãe, e ele dizia a mãe do meu filho, deduzi que estava separado. 


Estamos diante de mais um clássico da «mania das gajas de esquerda que se julgam cultas», ou seja, a raiva elementar contra a tecnologia, o que explica, de certa forma, esta outra afirmação bombástica, a saber, escrever sobre sexo é escrever sobre fracasso, e arriscaríamos interpretar esta dificuldade como decorrente da incapacidade de entender o sexo como mecânica, e por isso, dotado de uma técnica, como sempre souberam as culturas antigas (que tinham tempo, meu deus, que tinham tempo) o que nada implica desvalorizar os estados mentais subjetivos implícitos no sexo, ou as retribuições ditas mentais, espirituais ou conscientes (façam favor de utilizar a terminologia paranormal que mais vos aprouver) associadas à maior «sentimentalidade» da mulher. É aliás muito estranho como a própria autora não se apercebe (ou pelo menos não sinaliza) as ligações evidentes entre o mecânico, com a sua taumaturgia da reparação, e o desejo sexual de uma mulher em busca de soluções, no fundo, a assunção de um velho e incontornável problema da nossa civilização pós-moderna, identificado por Italo Calvino, ou seja, a incapacidade de associar a maravilha e o milagre com o prazer do trabalho. Escrever sobre sexo, só é escrever sobre fracasso para quem se encontra enterrado em quinquilharia psicológica, e tende a associar a escrita de ficção a um bazar indiano confusamente repleto de pedaços dos nossos estados mentais, onde é impossível ao proprietário encontrar os artigos solicitados pelo cliente, tal é a desilusão, depois das catástrofes do século XX, perante os limites da racionalidade humana, sendo a dita racionalidade, uma das poucas coisas de que nos podemos orgulhar. Para refutar este decadentismo burguês (tão nocivo para os nossos adolescentes) bastaria agora citar dois fundamentos da humanidade, o Kama Sutra e o Cântico dos Cânticos.


Bem vê o leitor como a escrita de Alexandra Lucas Coelho, como aliás todo o seu raciocínio, é vibrante de beleza e originalidade, e diria mesmo verosimilhança, mas não quero forçar a nota do realismo, que aliás me interessa pouco como género literário, e assim, quero apenas chamar a atenção para mais um pedaço da penetrante sagacidade da personagem principal de O Meu Amante de Domingo quando deduz da frase do mecânico «a mãe do meu filho», um mais que certo divórcio, sendo que se a frase fosse «o filho da minha mulher», poderíamos daí deduzir um casamento saudável e fulgurante. Ainda dizem que a literatura não comporta mensagens.


Eu e o meu futuro amante de domingo despedimo-nos a contragosto, achei eu (a capacidade de as gajas acharem é impossível de satisfazer). Felizmente, o multibanco dele estava avariado, eu não tinha dinheiro na carteira, e ele disse que preferia dinheiro em vez de uma transferência, portanto concordámos que no domingo seguinte eu voltaria para lhe pagar.


Em suma, esta prosa é tão pobremente jornalística, tão banal e incapaz de suscitar efeitos emocionais no leitor, tão pobre de temas e invenções, tão escassamente inteligente na caracterização psicológica, que diremos constituírem as referidas críticas (publicadas em jornais de referência, valha-nos deus) dois exemplares pedaços de absoluto delírio metafísico, de injustificada preguiça mental, de tresloucada lambe-botice, de incompreensível e circense raciocínio crítico, cuja justificação só pode ser a de uma sólida relação de amizade (e respeito) entre os dois críticos e autora, relação de amizade em que o leitor (infelizmente) não tem o prazer de participar.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Profunda vénia a todos vós


É com tristeza que confirmo que a discussão na praça pública em Portugal continua a ser feita por adolescentes com o pito aos saltos. A propósito da TAP.

O Mário Amorim Lopes, que eu desconfio ser o nom de plume de Laura Silva Pedrosa, 14 anos, natural da Alfarelos e que está inconsolável por a Liliana ter saído da Casa dos Segredos, acha que teve azar em herdar logo à nascença e contra a sua vontade, uma posição de accionista na TAP. Realmente teve azar, se tivesse nascido no Chade, ou no Burkina Faso, não teria que carregar com este ónus e poderia passar os dias a blogar sobre a guerra civil. Um dia, quando o Mário a Laura for mais velha, gostaria de lhe poder explicar os conceitos de sociedade, liberdade e responsabilidade intergeracional.

Do outro lado da barricada, temos o António Costa. Que sugere um "aumento do capital da empresa, através da bolsa, com investimento de capital privado, sem que o Estado perca a posição de controlo fundamental para a empresa". Que ele tenha dito isto sem se rir, e que o jornalista não lhe tenha enfiado o microfone nas trombas diz muito de ambos.


Que os sindicatos têm toda a razão em fazer greve é algo que me parece da mais elementar verdade. Senão digam-me: o patrão, a seguir a ter-vos cortado o salário, anuncia que a empresa vai ser privatizada e que quase/todos os privilégios em espécie que ainda recebem, vão acabar. Vossas senhorias (i) tiravam o tubo de vaselina da gaveta enquanto baixavam as calças ou (ii) faziam birra e ameaçavam partir tudo enquanto o patrão não desse o dito por não dito ? Não compreender isto é não compreender que o William Carvalho anda a jogar uma merda.
Em verdade vos digo, o estúpido no meio disto tudo fui eu que tinha adquirido três títulos de viagem na TAP para uma das datas da greve e na passada sexta tive de os cancelar e  comprar novos títulos de viagem, devidamente inflacionados pelo livre mercado, na concorrência. Mas pronto, é a errar que se aprende e eu aprendi a não efectuar comércio com a TAP. As pitas, em vez de gritinhos esganiçados, que façam o mesmo e utilizem a concorrência. E a TAP que se lixe.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Sobre estes dias


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domingo, 23 de novembro de 2014

Há males que vêm por bem

Ainda bem que estou emigrado, não tenho que aturar o circo que imagino está a ser a prisão do Sócrates.

domingo, 26 de outubro de 2014

Com toda a sinceridade que é possível reunir nesta hora de aflição, o verme que sou pretende endereçar encarecidas desculpas e abraçar José Luís Peixoto, lá nas alturas onde se encontre.

Estando nós a verter dos nossos lábios ressequidos o líquido viscoso típico dos pigmeus morais, tanto por sermos recalcados enquanto pessoas odiosas, como por nisso continuarmos por inclinação e vocação, eis que uma simpática leitora oriunda da terra onde reina a Ordem e o Progresso (parabéns Dilma) veio apimentar a nossa trágica existência com uma retumbante e legítima acusação de recalque, ainda a propósito do texto mais lamentavelmente lido (de acordo com as diabólicas estatísticas) nesta nossa singela publicação O Elogio da Derrota, a saber, uma merdola qualquer e sem interesse nenhum a propósito de uma crónica do imortal José Luís Peixoto, merdola que eu próprio, num triste momento da minha vincada e original estupidez, dei a lume com tremenda frustração diante do Carnaval de parvoíces que me caracteriza, de onde gostaria de salientar, entre numerosos exemplos aqui passíveis de serem aduzidos, a minha contumaz mania de fazer do mundo um lugar melhor para todos, a começar por todos e cada um dos leitores de José Luís Peixoto, deus os ajude.

Porém, volvidos dois anos, e sendo o referido texto satírico por mim redigido, uma retumbante merda, não posso deixar de o apresentar aqui como prova da minha existência como ser vivo, e testemunho da luta sem quartel a que me entreguei nestes últimos anos, ficando este texto para a posteridade, como uma de várias dolorosas cicatrizes nesta minha ascensão ao Olimpo, não estando o referido monte dos deuses sequer à vista (Olimpo onde, segundo reza a lenda, passeiam gajas nuas de aljavas penduradas nos apetitosos flancos, mas também paneleiros, é preciso ter cuidado). Contudo, porém, e sem esquecer que no entanto, nada me impedirá de prosseguir nesta vitoriosa senda em busca de qualquer coisa melhor do que esta hora em que nos encontramos, precisamente, as 17 horas e 18 minutos de uma tarde onde é imperioso derrotar o Braga de Sérgio Conceição.

A referida prosa:

 Notícia de última hora: José Luís Peixoto explica ...

O comentário da simpática leitora Lena:

Nossa! Seu "recalque" é de doer as vistas... Como diria uma "pensadora contemporânea" brasileira, "beijinho no ombro para o recalque passar longe!". 

Lembro, contudo, aos ilustres leitores aqui trazidos por qualquer irónica curva do nosso sistema político-digital, que neste tenebroso e húmido lugar, como o próprio título indica, trata-se de elogiar a derrota, o recalque, o falhanço, a impotência, a falta de mulheres, a escassez de dinheiro, a ressaca, os golos falhados por Lima (avançado do Benfica), as noites em branco, o ranger dos dentes, o morder da almofada, o espremer da bílis, o ressentir da inveja, enfim, todas as patologias psicológicas de que o leitor, como filho (ou filha, ou filha, não esquecer) da nossa bendita medicalizada civilização, for capaz de convocar neste momento de aflição da história da cultura ocidental. Na verdade, para celebrações do génio, temos inúmeras instituições, nomeadamente, as pessoas espectaculares, o que não é, manifestamente, o meu caso, pois tenho bilhete comprado no comboio das doenças mentais, e com muito gosto, o amor de Cristo nos uniu, saudai-vos na paz de Cristo.

Apesar destes excitantes momentos de tensão quero parabenizar a simpática Lena pela sagacidade espiritual e agradecer o beijinho no ombro, tão necessitado estou de carinho neste já longo mês de Outubro, aflito com o destino da minha vida, esmagado com as previsões da minha consciência, derrotado pelos raciocínios do meu cérebro, enjoado pelos espasmos do meu sistema nervoso, inquieto pelas deambulações do meu pessimismo, queimado pelos incêndios da minha imaginação. A todos os leitores e leitoras de todo o nosso belo mundo, do Atlântico ao Pacífico, passando pelos recifes de coral e as neves eternas dos Himalaias, o meu muito obrigado por continuarem a ler O Elogio da Derrota, este imperdível bastião na luta contra tudo e todos, incluindo eu próprio.


quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Amanhã o meu dia vai ser assim

No filme "Não ou a vã glória de mandar", aquando da batalha de Alcácer-Quibir, o Luís Sintra interpreta um coxo que incentiva os soldados a irem combater com a seguinte frase (cito de memória):

Vamos ! Em frente, que foi para morrer que aqui viemos hoje !

Já não sei o que aconteceu à personagem, provavelmente lerpou junto com el-rei Dom Sebastião. Mas está tudo bem comigo.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

De que gostam, afinal, as mulheres?

This Week's Visits

Blogue Ciberescritas (http://blogues.publico.pt/ciberescritas/) da jornalista Isabel Coutinho, Ipsilon/suplemento cultural (risos, risos) do Público/ Grande Capital/Espírito Santo Finance/Sonae, SA/Tony Carreira/Instituições/As forças do mal, etc, etc.



Parece que efectivamente, contudo, morreu o companheiro de Marguerite Duras. Este tema levaria a colocar em perspectiva a ascensão da mulher no mercado do livro, quer enquanto consumidora, quer enquanto autora, quer enquanto crítica, quer enquanto unidade de potência, quer ainda enquanto força de tracção à retaguarda. No entanto, somos forçados a admitir que as coisas vão muito mal, quer dizer, vão muito bem, uma vez que nos é dado sempre experimentar a áspera e salgada língua da realidade.

Poderemos extrair de um irrelevante evento da vida da, portanto, já falecida Marguerite Duras, algo de substancial? No caso de uma potencial e impotente resposta afirmativa, poderemos, nesse caso, e efectivamente, apenas concluir alguma coisa acerca da pertinência do artigo recentemente publicado no Público pela sempre bela, helénica e atractiva (a julgar pelas fotografias) Isabel Coutinho (que esperamos, em Cristo, não ser relacionada geneticamente com a  família Pereira Coutinho, a bem de Portugal, de Fátima e da necessária aleatoriedade dos poderes cósmicos do Universo). 

http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/yann-andrea-companheiro-de-marguerite-duras-morreu-aos-63-anos-1662528
(é que já nem um link sei introduzir nesta merda)



Tentaremos neste breve intervalo da nossa tragédia profissional responder a esta elegante, pretensa e ociosa, questão: qual o interesse para o público de uma notícia sobre a morte do companheiro da escritora Marguerite Duras? Evidentemente, nenhum. Todavia, o jornalismo insiste em fazer dos suplementos culturais a coutada da sobrevivência das espécies nacionais em extinção, nomeadamente, os funcionários e colaboradores dos jornais. Se isto é iniciativa privada, venha a função pública em todo o seu vibrante esplendor, paramentada de roxo e ajaezada à Andaluza. Claro que os leitores mais versados em Paulo Coelho, ou noutra qualquer quincalharia psicológica mais sofisticada, estarão agora a arquear a felpuda sobrancelha, exclamando: este gajo (ou seja, eu) quer é ir para lá. Nada mais errado. Eu quero é que não me venham foder  a paciência com a ideia da justiça e da sustentabilidade dos projectos mediáticos, que isso sim, me inferniza a vida e a de todos os que pretendem sobreviver (sem lamber o cu ao sistema mediático-editorial) pelo uso das faculdades mentais, nomeadamente no uso inteligente do alfabeto e da narrativa.


Vi em diversos espaços culturais, sem excepção do facebook, menções aos Cavalos de Tarquínia da autoria de Marguerite Duras, livro que tenho todo o gosto em nunca ter metido as mãos. Gostaria contudo, e portanto, de muito ter sido convencido pelo artigo de Isabel Coutinho. No entanto, e infelizmente, os livros continuam a ser entendidos pelas pessoas dos livros como objectos sem  capacidade para marcar a agência noticiosa, pois a mesma encontra-se saturada pelos eventos biologicamente associados aos autores dos livros. Por outras palavras, as pessoas que vivem à custa dos livros, continuam a não estar dispostas a morrer pelos livros, razão pela qual, e não me canso de dizer isto, Cervantes já ridicularizava o romance como destino comportamental. Quer dizer que um gajo a quem a guerra e a puta da vida decepara um braço em batalha, estava disposto a sofrer, apesar de tudo, por um destino cujo fim último seria a ambiguidade, o equívoco, e depois, o esquecimento, última estação de todo o animal falante.

Contudo, os comerciantes do livro são os primeiros a enterrar as propriedades do livro num monte de contradições, contribuindo para a misteriosa evolução da natureza, sem que nenhum deles, ou mesmo nós, possamos resolver o irremediável labirinto de erros, razão que nos deveria levar a maior prudência nos actos, mas de caminho temos de almoçar. Isto é muito mais do que trágico, isto é Impulse. A bondosa jornalista Isabel Coutinho, estimulada pelo chefe, e o próprio chefe, estimulado por uma percepção dos gostos dos indivíduos, ou muito pior, a jornalista Isabel Coutinho, ela própria, convicta da importância da morte do companheiro de Marguerite Duras, decide gastar o caríssimo e acossado espaço da imprensa generalista para nos brindar com bugigangas reais (meu deus, reais, reais) a propósito da vida sexual (eventualmente, eventualmente) do companheiro da escritora Marguerite Duras, ela própria tão estimulante sexualmente como uma melancia. Bem, talvez a melancia, enfim.


Quero portanto concluir, com júbilo e ao som de trombetas, que o artigo jornalístico de Isabel Coutinho não é muito melhor do que O poder do amor, programa de entretenimento da SIC generalista, ao entronizar a realidade como produto cultural, dando-se ao jogo mortal (por fraqueza de raciocínio e homérica ignorância) de uma suposta eficácia económica baseada na visão sobre o papel dos sentidos e dos afectos nas relações de comunicação entre orgãos mediáticos e público. Claro que esta merda vai desabar a qualquer momento, mas enquanto não desaba, eu passo por maluquinho e a realidade passa por ajustada à «realidade». Ou seja, está em marcha um triunfo sensacionalista do sensualismo moderado, e seria interessante avaliar o papel das mulheres nesta evolução. Fariam os estúpidos dos homens melhor? Claro que não. Em primeiro lugar, não pretendo, deus me livre, fazer aqui qualquer apologia da relação entre sagacidade crítica e orgãos genitais masculinos. Em segundo lugar, o fenómeno é por demais complexo para que possa conferir-se às mulheres uma unidade de intenções ou uma planificação dos produtos culturais. Não pode contudo negar-se que há qualquer coisa de diverso num certo triunfo da novela/romance/amor enquanto tragédia dos afectos moderados, de longo prazo, bem como dos cálculos de segurança e previsão do lar, por oposição à novela/romance/amor enquanto tragédia do desejo apolíneo, violento, efémero, múltiplo, destrutivo, sistemático, artificial, irónico, anti-natural e anti-reprodutivo, e por isso, tido como anti-humano. 


O mais relevante, neste tipo de problemas, é a existência de uma ideia de sustentabilidade económica, de burrice estratégica, de enviesada concepção da natureza, ao entender o jornalismo da obra de ficção como sujeito às mesmas leis da comunicação de acidentes ou eventos de sociedade, em si, um sub-produto das gazetas e crónicas aristocráticas do século XVII. O livro de ficção é o contrário do jornalismo, e se isto não é claro para um jornalista, devia ao menos servir como um supositório anti-febril. Meteu-se na cabeça das pessoas que escrever sobre livros do passado não faz parte da actualidade actuante, e de caminho mergulha-se na necrologia de sub-produtos da vida mental dos escritores. Ou estão o Jornal Público e a Isabel Coutinho convictos da importância deste incidente (a morte do não sei quantos) na vida biológica mundial, ou, naturalmente, teriam de assumir a sua vocação quixotesca e analisar os problemas (o que é um texto? a quem se dirige? que instrumentos usa? que comportamentos induz? em que pressupostos lógico-científicos se baseia? propõe explicações para a tragédia da indecisão humana, etc, etc) mesmo que para tal fossem forçados a trabalhar um pouco mais a linguagem. Gostaria de lembrar que enquanto Cervantes escreveu merdolas a gosto, cirandou pelos becos, e quando escreveu a sua imortal paródia, alcançou o sucesso comercial. Não sou ingénuo ao ponto de pensar que existe um Cervantes potencial em cada jornalista/colaborador do Público. Em todo o caso, acredito na inteligência das pessoas.

Palpita-me que, como em muitas outras coisas, o problema reside neste entroncamento: o trabalho custa. Ao ser necessário introduzir mecanismos retóricos (humor, sensacionalismo) no tratamento dessas questões, para além do domínio das mesmas referidas questões (e passo a repetir: o que é um texto? a quem se dirige? que instrumentos usa? que comportamentos induz? em que pressupostos lógico-científicos se baseia? propõe explicações para a tragédia da indecisão humana) o jornalismo entende ser mais democrático entregar ao público o que o público, supostamente, já conhece, incorrendo, o referido jornalismo, na ideia de que o jornalista não é um professor mas apenas um simples e humilde mensageiro. Esta é, porém, a terrível ferida mortal por onde sangra o jornalismo: nesse caso, o jornalismo deixou de ser necessário, pois somos todos jornalistas, razão pela qual os jornais se estão a foder à grande e à francesa.

Que a política (luta pelos orçamento de Estado) incorra nesta demagogia infértil, desculpa-se com um certo conhecimento dos vários totalitarismos, um pouco de boa vontade e alguma vaselina. Que o façam os jornalistas culturais, sempre prontos a choramingar atenção diferenciada para a cultura, constitui-se como uma realidade chocante. Deste modo,  e continuando a festa, não virá ao mundo nenhuma decadência moral pelo facto de os livros desaparecerem da nossa paisagem mediática, nem sequer se forem eliminados, por completo, das nossas ferramentas digitais e dos nossos hábitos de consumo. Não incorro sequer no tremendismo das críticas ao inevitável empobrecimento da linguagem se os textos literários se virem extintos às mãos, digitalmente adestradas, de universitárias mamalhudas, cheias de sonhos e esperanças, que fazem do terrorismo ortográfico o mais doce dos cantos. Só não admito que imputem à natureza e ao progresso o que só à burrice, e à trágica liberdade, dos homens e das mulheres diz respeito.



arte etrusca

Cavalos de Tarquínia, ao que parece, fabulosa escultura etrusca, terra das imortais italianas de longas pernas e ágil língua.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Entre o conservadorismo e a Lana Del Rey, o público, graças a deus, não hesita.

João Pereira Coutinho assinou recentemente a defesa pública do conservadorismo. Mas o público, sem tempo para perder tempo com inovações (a alfabetização das massas ou a leitura de livros) pergunta desconfiado: o que é o conservadorismo? Não se pode explicar isso num minuto? Temos mesmo de comprar o livro?

Para sossego das consciências modernas, respondo: claro que não. Devo dizer, antes de mais, que é muito estimulante circular numa República onde 80% das personalidades públicas resultam de um belo efeito de conservação, sendo que não basta, a conservador que se preze, esse simples efeito de conservar a sua posição inicial de pessoa bem nascida. Não, não, de modo algum. O conservador procura por todos os meios espalhar o germe da conservação, ficando, por exemplo, o pobre republicano, socialista e laico espantado com o facto de o conservador pretender dirigir-se a um público para conservar o estado de coisas. Não seria melhor, se o objectivo é conservar, manter o silêncio? Daqui resulta um sinistro paradoxo, ao pretender o conservador alterar a situação do público em relação a uma situação inicial específica (ou seja, o conservador não convive bem com o facto de o público poder permanecer ignorante absoluto do que seja a conservação). Em geral, o conservador não se perturba com estas contradições, pois conserva também vários amigos cuja conservação o leva a escrever em jornais (esses instrumentos da conservação) e livros (objectos frutos da conservação do manuscrito) esforçados no gesto de convencer quem os rodeia de que devem conservador aquilo que a todos nos mantém de joelhos perante os conservadores.

Assim, o monumental João Pereira Coutinho, ilustre cientista (oi) político, publicou, na sua versão portuguesa, um belo manual sobre conservadorismo, não se lembrando que a simples publicação do seu livro constitui uma retumbante refutação dos méritos do conservadorismo. Como apelidar estes frutos da incapacidade de os conservadores se conservarem como estão, calados, preferindo os conservadores dirigirem-se aos outros para os convencer a não conservarem a sua ignorância sobre o que os conservadores têm para dizer? Bem, não temos resposta para esta pergunta, mas creio que as coisas na Universidade estarão cada vez mais difíceis.

Não conheço as origens específicas da família Pereira Coutinho (resistindo eu contra todas as pulsões lunáticas do meu sistema nervoso que me levariam a investigar de onde raio saiu o João Pereira Coutinho para chegar depois à landscape da conservação). O desconhecimento das origens intelectuais de João Pereira Coutinho não nos impede, contudo, de nos maravilharmos com os necessários e inegáveis méritos da conservação, pelo menos durante alguns minutos, mesmo que diante de uma certa perplexidade, tendo em conta a multiplicação de conservadores alojados nos sovacos de uma instituição conservadora, como a Universidade Católica, cuja conservação se deve a esse grande conservador, Jesus de Nazaré, um gajo com tal capacidade de conservação que resolveu pregar-se a duas tábuas cruzadas para ver quanto tempo aguentava conservado na mesma posição.


Lana Del Rey

Lana Del Rey, conservando os braços abertos em posição crística.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Ai então a verdade é isto?


Rapariga natural de Famalicão, comprometida com vários cursos sócio-profissionais, incapaz de conjugar diversos verbos regulares, algo ressentida por um caso mal resolvido com um bombeiro de Fafe, muito cedo apaixonada por animais domésticos (sobretudo gatinhos listados) e unhas de gel (vermelho sangue raiado a ouro, rosa estriado de amarelo sol-em-fogo), portadora de uma vastíssima experiência (com pelo menos um assédio implícito num toque de mão e duas reclamações inflamadas, uma protagonizada por mãe-solteira) em lojas de telefones móveis, e pessoa a quem a avó (histórica devota analfabeta militante do partido do governo) confeccionou, numa semana, o vestido do crisma (com pano comprado na retrosaria de um retornado alcoólico) acompanhada aqui por um gordo de merda de um serralheiro barrigudo de Quiaios (coleccionador de latas de refrigerantes e discos de vinil de bandas americanas inteiramente ultrapassadas) e além do mais, segundo consta, amigo de infância do Hugo Almeida, incompreensível profissional de futebol internacional ao serviço da República Portuguesa).

De sentimentos detalhados, emoções profundas, fluxos da mente, e várias outras merdices contemporâneas, não falo. Ao quotidiano, essa divindade para todos os confusos e atormentados corações modernos, atribuo o meu mais profundo desprezo.



Lana Del Rey, uma pessoa comprovadamente real.


Queriam literatura? Claro, claro, é para já, isto se o cruel destino me não foder os cornos antes.

terça-feira, 3 de junho de 2014

O sportinguismo visto pelo benfiquismo de um ponto de vista do conflito entre qualidades dos objetos e explicação do real - o duelo que faltava na história da literatura portuguesa (pronto, basta o título, o leitor escusa de ler o resto).

«a objetividade, esse andrógino fantasma jornalístico»
Rogério Casanova, Trabalhos de Casa



I

Para que um dia não se acuse o presente autor de apenas destilar o seu veneno, cravando as suas esfomeadas mandíbulas nas tristes criaturas indefesas da selva literária, decidimos brindar o leitor com uma nota crítica sobre um texto de um autor vivo de elevada qualidade. Em futura ocasião, terei tempo para descrever de que forma dois marcantes e distintos autores de blogues escritos na língua de Camões acenderam o rastilho da forja onde se martelou, dolorosamente, a génese deste tão prometido, fugitivo, impreparado, preguiçoso e acossado autor que vos fala. Por hoje, quero saudar o regresso aos textos longos (disciplina espiritual de que maviosamente, como é sabido, julgo dependente a fundamental, e necessária, salvação da humanidade, em Cristo, Nosso Senhor Enzo Perez) escritos pelo nosso ilustre e raramente (mas ainda assim por vezes) equivocado  num dos mais promissores e espectaculares blogues de que há memória na história da literatura greco-romana mais recente: http://threeboysonecup.tumblr.com/.

A primeira e devida vénia prestada em forma de pastiche, aquele que julgo ser o segundo maior autor de língua portuguesa vivo, corresponde ao reconhecimento de que precisamos uns dos outros, nomeadamente, para continuar a alimentar esperanças sobre a vital e impreterível importância da criatividade humana; e isto, por si só, constitui a negação da mais estafada e cantada cantilena da modernidade: a discrição (em termos matemáticos) da vontade individual como explicação da história.

Com efeito, ou nos salvaremos juntos ou morreremos juntos, é esta a nossa terrível maldição como muito bem têm ensinado as Tribos, as Igrejas, as Universidades, os Partidos Políticos, os Ranchos Folclóricos e os Clubes de Futebol. Como notará o leitor erudito deste blogue, abre o presente texto com subliminar referência às maravilhas do cruzamento genético, ainda que com romântica ascendência, entre o fervoroso adepto do Sporting, tão só envergando como defesa a tatuada historiografia do seu sofrimento, e os efeitos nefandos, por epidémica multiplicação, dos presidentes sportinguistas oriundos do grande capital, nomeadamente a banca. Sendo o Sporting um clube cuja génese e existência se deve, essencialmente, à sobrevivência das camadas socio-monárquicas do nosso «tecido no vale do ave social», parece-me que estamos, portanto, e lamentavelmente, na presença de um perturbante e perigoso, para a epistemologia portuguesa, equívoco.

Quero antes de mais, se me for permitido, deixar uma nota prévia de interesse declarado, ainda antes de se me acabar a vontade de vos dizer alguma coisa. Tenho na minha família populares pessoas infectadas com o lamentável vírus do sportinguismo (irmã e tio ex-combatente da guerra colonial) pelo que estou habilitado a incorrer em território inimigo, escolhendo para o efeito um texto de maradona sobre Bruno de Carvalho, sem prejuízo de um outra referência diversa.


A crítica do inconfundível estilo de maradona deve começar por destacar, desde logo, como fazendo uso do fluxo da consciência (joyceano) o referido maradona optou por abandonar a narrativa, invadindo o registo jornalístico, com notáveis realizações e fecunda originalidade. Passemos em revista alguns aspectos formais pelo que contêm de iluminador para as letras portuguesas.

A qualidade das metáforas utilizadas por maradona asseguram ao leitor aquilo a que Calvino chama o uso especializado de códigos metafóricos, sejam o geográfico, o futebolístico ou o religioso. O que conta sempre em maradona é a eficácia da mensagem, como quando se compara com pertinência o campeonato do mundo a uma «celebração que se reacende» ou quando se referem «a verdade profética da mensagem» e a «natureza apostólica da batalha» de Bruno de Carvalho, duas qualificações bem ritmadas de ressuscitação do aparato instrumental da linguagem bíblica. Por outro lado, ninguém ignorará que a maior virtude dos textos de maradona (mas também de Sérgio Gouveia e Rogério Casanova) se prende com a desfamiliarização, não das metáforas, mas do protocolo da linguagem formal da ciência, que é meticulosa, objectiva e procedimental.

No caso de maradona, o escritor desloca, transforma, rebenta, em suma, reconstrói, a torto e a direito, a própria arquitectura gramatical, sugerindo como um cientista pode também, ou sobretudo, expressar conhecimento com os cacos do laboratório que acaba de partir, fazendo uso de um martelo; a dificuldade está em dispor os cacos de forma a reconstruir o conteúdo semiótico de uma mensagem, tornando-a ainda mais original, rigorosa e pessoal, do que seria possível fazendo uso dos equipamentos vulgares da experiência convencional utilizando um laboratório intacto. Ao utilizar a analogia da demolição do laboratório, quero apontar para uma linguagem «partida», precisamente porque é num contexto aparente de escombros sintácticos, que maradona recupera a nobreza da comunicação com uma convicta fé no poder expressivo da língua como veículo capaz de albergar tanto os perigosos poderes da beleza como a generosa fecunidade do conteúdo. Isto só confirma como maradona está familiarizado com o problema da poesia depois de Auschwitz, e como também está absolutamente convicto da irrelevância, ou pelo menos da esterilidade, dos dramáticos debates causadores de vãos esgotamentos nervosos, a jovens e belas estudantes de filosofia que apertam contra o peito uma obra de Wittgenstein; maradona não ignora como podem ser mortais os pântanos fumegantes da ambiguidade, cada vez mais húmidos e lamacentos a cada nova leitura de uma frase difícil; simplesmente acredita que se poderia ter dado melhor uso a tão torturados peitos.

Considere-se o seguinte excerto referente aos presidentes do Sporting anteriores a Bruno de Carvalho:

pessoas que (por fim) refletem cientificamente sobre a  filiação clubística que um adepto do futebol sente pelo seu clube em termos puramente de evidência - a que estamos condenados e a que não podemos fugir -; pessoas destas, queria eu estar a dizer, pró caralho, ou seja, isso mesmo.

O que à partida parece uma construção encavalitada não é mais do que uma experiência da própria capacidade de ultrapassar a incomunicabilidade da linguagem, precisamente o contrário do que o texto parece sugerir. Expliquemos melhor este relevante mecanismo. A ideia da incomunicabilidade é um terrível vício do século XX, já execrado pelo fabuloso, nobre e sempre elegante Primo Levi. Se as mais trágicas exterminações da história podem ser alvo de uma expressão pública dos seus efeitos, em termos de linguagem, e com inegáveis virtualidades de compreensão, porque razão não se poderá expressar a seguinte ideia: que o aparente discurso racional da qualidade da gestão, que não era mais, no caso do sporting, do que um prolongamento da famigerada teoria da escolha racional aplicada ao fenómeno desportivo, pode ser combatido (esse discurso frio e científico de um amor ponderado e racional pelo sporting, mantido como mero intervalo de uma vida concentrada na acumulação de capital) pode ser combatido, dizíamos nós, pela demolição das próprias regras locutórias, utilizando o elenco frio, cirúrgico e formal da linguagem científica, tanto no conteúdo como na forma, ilustrando como a inteligência nos pode proteger da infelicidade decorrente de uma paixão descontrolada, e isto como anestesiando o leitor, após tê-lo conduzido pela mão entre os corredores desinfectados, para o precipitar em seguida, numa morgue repleta de horrores, mostrando como se queria no fundo, e desde o início, enviar as pessoas defensoras de tais teorias «pró caralho», sendo a vida também feita de imponderabilidades e imprevistos, paixões, decisões abruptas e inexplicavelmente inexplicáveis.

Como diria um filósofo que não aprecio particularmente, Paul Ricoeur, a solidão da vida é aí (nessa expressão pública de uma vertiginosa linguagem, invulgar e imprevisível, oriunda do movimento de uma inteligência) iluminada, por um momento, pela luz comum do discurso, transferindo a corrente de uma consciência particular para muitas outras correntes de consciência, tornando o sentido um objeto público, passível de crítica, e pronto a entrar na memória colectiva, pelo trabalho crítico da comunidade, de forma a constituir uma memória mais alargada dos instrumentos e formas possíveis da arte de comunicação, a serem utilizados por futuros expressionistas da sua consciência. Se fossem necessárias citações académicas para assinalar a qualidade textos de maradona (mas também dos outros participantes no blogue que aqui se comenta, Rogério Casanova e Sérgio Gouveia), bastaria invocar o conceito de qualidade artística apresentado por Umberto Eco (e isto para voltarmos a autores italianos, os principais candidatos à vitória em qualquer campeonato do mundo, e a nação onde as mulheres provocam o desfalecimento de qualquer mortal só por se inclinarem ao balcão e pedirem um copo de água) nomeadamente, a qualidade artística como decorrente da baixíssima frequência de redundâncias e de um altíssimo grau de imprevisibilidade da informação. Passo a exemplificar com a resposta de maradona a uma pergunta, onde se arriscava uma comparação entre o equipamento da selecção e um pijama, notoriamente uma péssima comparação, sendo que a resposta comporta toda uma teoria aristotélica da analogia como uma arma, objectiva e eficaz, para identificar semelhanças e produzir novo e acutilante conhecimento sobre a realidade:

A comparação com “pijama” para denegrir uma determinada indumentária fez-me lembrar as sequências de tesouras que o Denilson proferia sobre a bola quando se sentia pressionado a tentar relembrar a audiência da razão porque, num dia pretérito e louco, foi considerado um grande jogador em potência; assim como a fadiga das tesouras inconsequentes estupidamente me alergizaram contra toda a dança que as recordasse, também a saturação da analogia “pijama” me leva ao instinto de imediatamente me seduzir a ideia de andar de pijama pela rua, o que sucederá de seguida quando for despejar o lixo de quatro dias e três cabeças de pescada.

A má comparação produz a maior indiferença, se não um profundo cansaço, de tal maneira que o sujeito poético se sente imunizado contra o poder nefasto da má comparação, construindo por cima da má comparação uma bela analogia com o seu quotidiano, indiferente à fealdade do mundo, pois o artista sabe que a retórica é cosa mentale, e a boa metáfora pode expor-se, sem medo, e por instinto, ao acto de cumprir alegremente, e até com certo orgulho, a função banal de despejar três cabeças de pescada no caixote do lixo.


II.

Já de um ponto de vista do conteúdo, somos levados a terçar armas nesta fundamental matéria do sportinguismo, tomando a liberdade de alargar a nossa crítica, e tentando extrair dessa majestosa forma (num dos mais estimados dos mais estimados dos autores portugueses contemporâneos) o soçobrar, ainda que espectacular, de uma grande inteligência perante o seu próprio juízo, isto porque muitas vezes esse autor apresenta o julgamento subjetivo como inelutável nos seus limites e particularidades, para logo a seguir o apresentar como expressão transparente e autêntica da própria realidade, um velho truque liberal que nunca deixa de irritar.

Quer isto dizer que a invocação de um sportinguismo mais profundo, mais verdadeiro, mais democrático, mais santo, mais digno, mais fraterno, mais gay, mais socialista e de esquerda, mais popular e mais autêntico, por parte de um clube cuja força decorre (como a de todos os outros clubes, diga-se em passagem) da shakespereana capacidade de construir um inimigo, dificilmente pode suceder em sucesso, utilizando apenas as mesmas e cuspidas armas envergadas pelo mesmo, isto é, o inimigo, e a saber, o amor popular, incondicional e santo que as camadas ululantes e totalmente ensandecidas nutrem pelo Sport Lisboa Jhavé e Benfica. No entanto, não lembraria a ninguém justificar as derrotas ou vitórias de um clube de futebol, sujeito às leis de um jogo, com as qualidades etnográficas dos seus presidentes (já sei, já sei), pois isso seria ignorar aquela lei fundamental da vida: a absoluta ausência de relação entre as qualidades de um indivíduo e o seu sucesso, desesperante conclusão, perturbadora evidência, diante da qual a maioria foge atemorizada, e que como todos sabem é o grande amor da minha vida.


Não ignoro que preside ao elogio de Bruno de Carvalho a ideia de que o sportinguismo do presidente foi e é necessário, para levar de vencida a escassez de sportinguismo dos restantes presidentes, ou de que a ausência de rendimentos outros transforma Bruno de Carvalho num mártir comprometido com a única grelha onde, por meio da sua fritada carne, poderá ascender aos céus. O problema é a extrema pobreza desta lógica apresentada em opa de ouro roçagante, gemas várias e luminosa pedraria. Os caros leitores aprenderão que aqui se trava um combate mortal contra todos os vícios de linguagem: os da pobreza e os da riqueza, não fazemos acepção de pessoas.


Estou portanto a tratar de um doloroso tema, nomeadamente, a forma incauta, irresponsável, gigantonte e vaidosa, como o sportinguista se prepara para a sua fase demagógica e suicida, movido pelo desejo e a paixão (esse ídolo da actualidade pós-concílio do Vaticano II) convencido de que pisa os tijolos dourados a caminho de Oz, o que não implica (aliás, tal como pode suceder ao suicida, a quem a sorte eventualmente reverteu o cognome) um irremediável (olé) caminho de infelicidade. Temos a norte do mondego uma agremiação a quem a fase demagógica, étnica e estruturalmente fanática guindou aos mais elevados sucessos, incluindo a construção do, morra o Dantas morra, sucesso internacional e tudo, pum, bem como a uma metódica recolecção de várias experiências humanas, femininas, e estéticas, por parte do seu ilustre, reverendíssimo, boçal, notável, digno e corrupto presidente. Contudo, a ideia de que a paixão é por si só uma garantia de deleite estético humano (ao contrário dos altíssimos critérios de verdade e método impostos em matéria de ciência), oferecendo-se a espontaneidade do gosto e a opinião como estrada escancarada do paraíso, está para a nossa época como os homens do lixo estão para a higiene urbana, o que nada nos diz sobre os méritos da higiene na história da salvação evolucionista (o mecanismo não é finalidade, até quando vai ser necessário ilustrar os analfabetos das ciências naturais sobre este singelo ponto? Obrigado).

A ideia de que Bruno de Carvalho compreende o desporto futebol, na sua natureza (oi) ao contrário da «paneleiragem que abunda no Sporting (...) em que se mitifica um sportinguismo primevo (...) que depois se desenvolve na compreensão do desporto e do futebol» (e logo nos vem à imagem o doutor Rui Eduardo Rogério Oliveira e Costa Barroso Alves) não representa muito mais do que chamar burros a um conjunto de pessoas, afirmando a burrice e a compreensão da natureza do futebol como dados essenciais na distinção entre um bom e um mau jogador de futebol. No mínimo estamos diante de uma pobre tautologia. No máximo, estamos na presença de um hediondo acto de fé.

Não lembra portanto às mais competentes individualidades do nosso meio físico e social (e estou no pináculo de sinceridade deste curto interregno do meu gandiano silêncio) que qualquer forma de dedução lógica (mesmo a naturalista, darwinista e, o senhor vos abençoe, a liberal-libertária) implica um pilha de pratos racio-dedutivos que a dado ponto da sua altitude se escaqueiram num mar de falácias, quando não de contumazes irrelevâncias. Por isso, ou somos convictos da nossa atracção pelo holocausto filosófico, e vamos para o caralho que nos foda, embrulhados num honroso silêncio, ou teremos que enfrentar as acusações de produção espontânea de catecismos (pejados de erros) implícita em qualquer acto locutório. Considerar que um homem se revela apropriado e catalisador de alegrias afetivas, pela simples constatação da sua paixão pelo objecto que lhe permite a notoriedade (e da nossa paixão por ele, em face do nosso amor pelo objecto, de onde decorre a aparente e referida notoriedade do nosso referido homem) além de uma incomensurável paneleirice, não passa de uma pura perda de virilidade metafísica, à la Emanuel Kant esteja connosco. Os resultados promissores alcançados por esse referido homem, Bruno de Carvalho, quanto a mim, não qualificam de forma alguma o futuro como passível de classificações, o que não só assinala como a força do Benfica deriva de uma total indiferença pela racionalização dos aspectos administrativos do jogo como confirmam fatalmente como não ligo a mínima importância aos sinais da realidade, razão pela qual tenho o dobro do cuidado ao atravessar linhas ferroviárias.


O que eu preconizo como estilo de vida e como filosofia do ambiente é uma definitiva e cabal constatação da nossa limitada condição intelectual (uma espécie de castidade argumentativa, no sentido de varrer o ruído dos nossos descontrolados impulsos) cabendo aos mais responsáveis, porque mais dotados de atributos críticos e mentais, uma posição de coragem, uma nobreza, uma anti-espanholada contenção diante dos exércitos do prazer, e da proclamação, ainda que espantosamente ornamentada, dos nossos gostos, e nessa medida, julgo ser urgente o reconhecimento de que (penso eu) pelo menos desde a invenção da máquina de Turing, estamos sob uma terrível ameaça: a ideia de que o conteúdo de uma mensagem é indiferente. Isto só é verdade para efeitos de transporte, tal como não importa se um camião está cheio de cópias de Moby-dick ou da perene obra Prometo Falhar se o objectivo é considerar o tempo de deslocação entre duas cidades.

Não sei até quando vamos continuar a querer manter a nossa ignorância sobre as origens dos nossos de gustibus non est disputandum mas a criação de repúblicas constitucionais, liberais e animadas pelo centralismo democrático, devia ser matéria suficiente para se deixar de considerar que os estímulos mentais apresentados como realidade, como aliás as séries estatísticas econométricas (cuja amplitude nenhum filha da puta de Piketty ousou estudar na sua significância histórica, ou não poderia encher os benditos cornos capitalistas com o maior número de vendas de sempre da Bendita Harvard Belknap University Press) são suficientes para projectar o futuro, e muito menos justificam que consideremos que o gosto é um problema individual. A liberdade com que dizemos tolices devia ser o combustível para nos pormos a caminho de criar filtros, construídos pelo maior número possível dos tolos que somos nós todos, com que filtrar as referidas tolices, sob pena de nos atulharmos todos no lixo (porque isto, ilustres leitores, depende tanto de «nós» como das acções espontâneas do colectivo, entendendo nós por espontâneas as acções que não compreendemos e era bom que começássemos a compreender ou ainda acabamos muito mal; não esquecer além do mais que a grande maioria dos gajos que pariu o transgénero filosófico chamado liberalismo, acreditava na ordem natural e no criacionismo da natureza com especial referência ao paneleiro do ser humano, como se o universo estivesse preocupado connosco). Daqui resulta que: a) sim, a escolha de um processo de coordenação (por exemplo, um presidente de um clube de futebol) pode ser de elevada importância para a sobrevivência da colectividade; b) a sua paixão pelo clube não o qualifica como mais habilitado, não negando eu que possa coabitar em Bruno de Carvalho a paixão com as capacidades críticas; c) o acerto da estratégia, de acordo com as nossas previsões, é apenas uma tentativa que não assegura eficácia final, em face de imponderabilidade do mundo, razão pelo qual estamos metidos neste sarilho filosófico há mais de 200 anos.

Julgo que a construção, em acto, de uma hierarquia estética (essa tão injustiçada atriz pornográfica) é o dever de todo o escritor, filósofo, palhaço, defesa-esquerdo, ou artista, pelo menos do artista que não teme a turba, a história, o tempo, a poeira cósmica, o pecado, os dinossauros, os buracos negros, a evolução, o mercado, o anonimato, a democracia constitucional, a fama, a perda dela, ou qualquer outros dos demónios de papel, apresentados, desde sempre, para nos atemorizar, impedindo-nos de trilhar um caminho em defesa da nossa espécie nesta perigosa brincadeira. Isto não significa que até na descontrolada criatividade metafórica de Bruno Carvalho não existam elementos clamando por um juízo capaz de aguentar um cenário de generalização, derrubando as falsas barreiras entre juízo estético (resultante do efeito do objecto no sujeito) e juízo de conhecimento (decorrente das características do objecto), mesmo que, muito erradamente, nos pareça ser o estilo e a forma, e portanto a beleza, uma matéria do domínio da consciência individual. Falta demonstrar, o que espero fazer antes de ingressar num forno crematório, que a arte também é um objecto com características das quais é possível deduzir conhecimento sobre os seus efeitos no sujeito, hossana nas alturas.A razão pela qual Bruno de Carvalho foi constituído como mecanismo soteriológico pelos adeptos do sporting prende-se com a crença nas possibilidades salvíficas da racionalidade humana, o que está certo. Só falta convencer as pessoas em geral a considerarem uma política do juízo estético que não se restrinja à simples opinião embrulhada em papel de celofane.

No fundo, vale tudo, menos colocarmo-nos do lado da natureza. Sabemos que já os romanos sujavam as suas cansadas e nobilitadas mãos nas vísceras das aves e era espectável que tantos séculos depois nos mostrássemos capazes de fazer melhor. Que esse velho e cansado sonho continue a ser uma quimera, só demonstra como as séries estatísticas são um franco auxílio no nosso cada vez mais artilhado (e talvez por isso pesado) cérebro. Apesar das constantes provas de fé na ciência, continuamos a acreditar demasiado na nossa inteligência individualmente considerada, e nem as laudes ao advento da idade tecnológica nos impedem de mergulhar, quem sabe cada vez mais furiosamente, na demasiado frágil iluminação fornecida pelas nossas intuições biológicas (individualmente consideradas) pobremente tocadas por impulsos cuja origem ignoramos (mas gostamos de esconder que ignoramos), confiando a sorte do corpo aos espasmos cinzentos da nossa rede neuronal (individualmente considerada), com uma parda vaidade de que podemos com a esponja cinzenta, o que não tem sido possível com o estômago e os intestinos, esquecendo que a descoberta da evolução e da complexa submissão das populações a efeitos imprevistos, nos deviam empurrar para esforços de raciocínio mais sistemático, abandonado as robinsonadas do mercado e a ideia de que a acumulação espontânea dos nossos gostos, constitui uma ponte de ferro entre o mérito, o trabalho, a qualidade e o sucesso de vendas ou as vitórias de um clube de futebol.

Agora que temos computadores, ao invés de trabalharmos em conjunto para limitar os impactos dos nossos erros, forjando um sistema capaz de misturar a liberdade de escolha com a crítica da escolha, aproveitando os baixos custos da comunicação, insistimos nas maravilhas do individuo, para depois proclamar em seguida que o indivíduo está racionalmente condenado à irracionalidade onde o enjaulámos. De tal modo que não há maneira de nos contentarmos com a nossa ignorância, graças a deus.