terça-feira, 3 de junho de 2014

O sportinguismo visto pelo benfiquismo de um ponto de vista do conflito entre qualidades dos objetos e explicação do real - o duelo que faltava na história da literatura portuguesa (pronto, basta o título, o leitor escusa de ler o resto).

«a objetividade, esse andrógino fantasma jornalístico»
Rogério Casanova, Trabalhos de Casa



I

Para que um dia não se acuse o presente autor de apenas destilar o seu veneno, cravando as suas esfomeadas mandíbulas nas tristes criaturas indefesas da selva literária, decidimos brindar o leitor com uma nota crítica sobre um texto de um autor vivo de elevada qualidade. Em futura ocasião, terei tempo para descrever de que forma dois marcantes e distintos autores de blogues escritos na língua de Camões acenderam o rastilho da forja onde se martelou, dolorosamente, a génese deste tão prometido, fugitivo, impreparado, preguiçoso e acossado autor que vos fala. Por hoje, quero saudar o regresso aos textos longos (disciplina espiritual de que maviosamente, como é sabido, julgo dependente a fundamental, e necessária, salvação da humanidade, em Cristo, Nosso Senhor Enzo Perez) escritos pelo nosso ilustre e raramente (mas ainda assim por vezes) equivocado  num dos mais promissores e espectaculares blogues de que há memória na história da literatura greco-romana mais recente: http://threeboysonecup.tumblr.com/.

A primeira e devida vénia prestada em forma de pastiche, aquele que julgo ser o segundo maior autor de língua portuguesa vivo, corresponde ao reconhecimento de que precisamos uns dos outros, nomeadamente, para continuar a alimentar esperanças sobre a vital e impreterível importância da criatividade humana; e isto, por si só, constitui a negação da mais estafada e cantada cantilena da modernidade: a discrição (em termos matemáticos) da vontade individual como explicação da história.

Com efeito, ou nos salvaremos juntos ou morreremos juntos, é esta a nossa terrível maldição como muito bem têm ensinado as Tribos, as Igrejas, as Universidades, os Partidos Políticos, os Ranchos Folclóricos e os Clubes de Futebol. Como notará o leitor erudito deste blogue, abre o presente texto com subliminar referência às maravilhas do cruzamento genético, ainda que com romântica ascendência, entre o fervoroso adepto do Sporting, tão só envergando como defesa a tatuada historiografia do seu sofrimento, e os efeitos nefandos, por epidémica multiplicação, dos presidentes sportinguistas oriundos do grande capital, nomeadamente a banca. Sendo o Sporting um clube cuja génese e existência se deve, essencialmente, à sobrevivência das camadas socio-monárquicas do nosso «tecido no vale do ave social», parece-me que estamos, portanto, e lamentavelmente, na presença de um perturbante e perigoso, para a epistemologia portuguesa, equívoco.

Quero antes de mais, se me for permitido, deixar uma nota prévia de interesse declarado, ainda antes de se me acabar a vontade de vos dizer alguma coisa. Tenho na minha família populares pessoas infectadas com o lamentável vírus do sportinguismo (irmã e tio ex-combatente da guerra colonial) pelo que estou habilitado a incorrer em território inimigo, escolhendo para o efeito um texto de maradona sobre Bruno de Carvalho, sem prejuízo de um outra referência diversa.


A crítica do inconfundível estilo de maradona deve começar por destacar, desde logo, como fazendo uso do fluxo da consciência (joyceano) o referido maradona optou por abandonar a narrativa, invadindo o registo jornalístico, com notáveis realizações e fecunda originalidade. Passemos em revista alguns aspectos formais pelo que contêm de iluminador para as letras portuguesas.

A qualidade das metáforas utilizadas por maradona asseguram ao leitor aquilo a que Calvino chama o uso especializado de códigos metafóricos, sejam o geográfico, o futebolístico ou o religioso. O que conta sempre em maradona é a eficácia da mensagem, como quando se compara com pertinência o campeonato do mundo a uma «celebração que se reacende» ou quando se referem «a verdade profética da mensagem» e a «natureza apostólica da batalha» de Bruno de Carvalho, duas qualificações bem ritmadas de ressuscitação do aparato instrumental da linguagem bíblica. Por outro lado, ninguém ignorará que a maior virtude dos textos de maradona (mas também de Sérgio Gouveia e Rogério Casanova) se prende com a desfamiliarização, não das metáforas, mas do protocolo da linguagem formal da ciência, que é meticulosa, objectiva e procedimental.

No caso de maradona, o escritor desloca, transforma, rebenta, em suma, reconstrói, a torto e a direito, a própria arquitectura gramatical, sugerindo como um cientista pode também, ou sobretudo, expressar conhecimento com os cacos do laboratório que acaba de partir, fazendo uso de um martelo; a dificuldade está em dispor os cacos de forma a reconstruir o conteúdo semiótico de uma mensagem, tornando-a ainda mais original, rigorosa e pessoal, do que seria possível fazendo uso dos equipamentos vulgares da experiência convencional utilizando um laboratório intacto. Ao utilizar a analogia da demolição do laboratório, quero apontar para uma linguagem «partida», precisamente porque é num contexto aparente de escombros sintácticos, que maradona recupera a nobreza da comunicação com uma convicta fé no poder expressivo da língua como veículo capaz de albergar tanto os perigosos poderes da beleza como a generosa fecunidade do conteúdo. Isto só confirma como maradona está familiarizado com o problema da poesia depois de Auschwitz, e como também está absolutamente convicto da irrelevância, ou pelo menos da esterilidade, dos dramáticos debates causadores de vãos esgotamentos nervosos, a jovens e belas estudantes de filosofia que apertam contra o peito uma obra de Wittgenstein; maradona não ignora como podem ser mortais os pântanos fumegantes da ambiguidade, cada vez mais húmidos e lamacentos a cada nova leitura de uma frase difícil; simplesmente acredita que se poderia ter dado melhor uso a tão torturados peitos.

Considere-se o seguinte excerto referente aos presidentes do Sporting anteriores a Bruno de Carvalho:

pessoas que (por fim) refletem cientificamente sobre a  filiação clubística que um adepto do futebol sente pelo seu clube em termos puramente de evidência - a que estamos condenados e a que não podemos fugir -; pessoas destas, queria eu estar a dizer, pró caralho, ou seja, isso mesmo.

O que à partida parece uma construção encavalitada não é mais do que uma experiência da própria capacidade de ultrapassar a incomunicabilidade da linguagem, precisamente o contrário do que o texto parece sugerir. Expliquemos melhor este relevante mecanismo. A ideia da incomunicabilidade é um terrível vício do século XX, já execrado pelo fabuloso, nobre e sempre elegante Primo Levi. Se as mais trágicas exterminações da história podem ser alvo de uma expressão pública dos seus efeitos, em termos de linguagem, e com inegáveis virtualidades de compreensão, porque razão não se poderá expressar a seguinte ideia: que o aparente discurso racional da qualidade da gestão, que não era mais, no caso do sporting, do que um prolongamento da famigerada teoria da escolha racional aplicada ao fenómeno desportivo, pode ser combatido (esse discurso frio e científico de um amor ponderado e racional pelo sporting, mantido como mero intervalo de uma vida concentrada na acumulação de capital) pode ser combatido, dizíamos nós, pela demolição das próprias regras locutórias, utilizando o elenco frio, cirúrgico e formal da linguagem científica, tanto no conteúdo como na forma, ilustrando como a inteligência nos pode proteger da infelicidade decorrente de uma paixão descontrolada, e isto como anestesiando o leitor, após tê-lo conduzido pela mão entre os corredores desinfectados, para o precipitar em seguida, numa morgue repleta de horrores, mostrando como se queria no fundo, e desde o início, enviar as pessoas defensoras de tais teorias «pró caralho», sendo a vida também feita de imponderabilidades e imprevistos, paixões, decisões abruptas e inexplicavelmente inexplicáveis.

Como diria um filósofo que não aprecio particularmente, Paul Ricoeur, a solidão da vida é aí (nessa expressão pública de uma vertiginosa linguagem, invulgar e imprevisível, oriunda do movimento de uma inteligência) iluminada, por um momento, pela luz comum do discurso, transferindo a corrente de uma consciência particular para muitas outras correntes de consciência, tornando o sentido um objeto público, passível de crítica, e pronto a entrar na memória colectiva, pelo trabalho crítico da comunidade, de forma a constituir uma memória mais alargada dos instrumentos e formas possíveis da arte de comunicação, a serem utilizados por futuros expressionistas da sua consciência. Se fossem necessárias citações académicas para assinalar a qualidade textos de maradona (mas também dos outros participantes no blogue que aqui se comenta, Rogério Casanova e Sérgio Gouveia), bastaria invocar o conceito de qualidade artística apresentado por Umberto Eco (e isto para voltarmos a autores italianos, os principais candidatos à vitória em qualquer campeonato do mundo, e a nação onde as mulheres provocam o desfalecimento de qualquer mortal só por se inclinarem ao balcão e pedirem um copo de água) nomeadamente, a qualidade artística como decorrente da baixíssima frequência de redundâncias e de um altíssimo grau de imprevisibilidade da informação. Passo a exemplificar com a resposta de maradona a uma pergunta, onde se arriscava uma comparação entre o equipamento da selecção e um pijama, notoriamente uma péssima comparação, sendo que a resposta comporta toda uma teoria aristotélica da analogia como uma arma, objectiva e eficaz, para identificar semelhanças e produzir novo e acutilante conhecimento sobre a realidade:

A comparação com “pijama” para denegrir uma determinada indumentária fez-me lembrar as sequências de tesouras que o Denilson proferia sobre a bola quando se sentia pressionado a tentar relembrar a audiência da razão porque, num dia pretérito e louco, foi considerado um grande jogador em potência; assim como a fadiga das tesouras inconsequentes estupidamente me alergizaram contra toda a dança que as recordasse, também a saturação da analogia “pijama” me leva ao instinto de imediatamente me seduzir a ideia de andar de pijama pela rua, o que sucederá de seguida quando for despejar o lixo de quatro dias e três cabeças de pescada.

A má comparação produz a maior indiferença, se não um profundo cansaço, de tal maneira que o sujeito poético se sente imunizado contra o poder nefasto da má comparação, construindo por cima da má comparação uma bela analogia com o seu quotidiano, indiferente à fealdade do mundo, pois o artista sabe que a retórica é cosa mentale, e a boa metáfora pode expor-se, sem medo, e por instinto, ao acto de cumprir alegremente, e até com certo orgulho, a função banal de despejar três cabeças de pescada no caixote do lixo.


II.

Já de um ponto de vista do conteúdo, somos levados a terçar armas nesta fundamental matéria do sportinguismo, tomando a liberdade de alargar a nossa crítica, e tentando extrair dessa majestosa forma (num dos mais estimados dos mais estimados dos autores portugueses contemporâneos) o soçobrar, ainda que espectacular, de uma grande inteligência perante o seu próprio juízo, isto porque muitas vezes esse autor apresenta o julgamento subjetivo como inelutável nos seus limites e particularidades, para logo a seguir o apresentar como expressão transparente e autêntica da própria realidade, um velho truque liberal que nunca deixa de irritar.

Quer isto dizer que a invocação de um sportinguismo mais profundo, mais verdadeiro, mais democrático, mais santo, mais digno, mais fraterno, mais gay, mais socialista e de esquerda, mais popular e mais autêntico, por parte de um clube cuja força decorre (como a de todos os outros clubes, diga-se em passagem) da shakespereana capacidade de construir um inimigo, dificilmente pode suceder em sucesso, utilizando apenas as mesmas e cuspidas armas envergadas pelo mesmo, isto é, o inimigo, e a saber, o amor popular, incondicional e santo que as camadas ululantes e totalmente ensandecidas nutrem pelo Sport Lisboa Jhavé e Benfica. No entanto, não lembraria a ninguém justificar as derrotas ou vitórias de um clube de futebol, sujeito às leis de um jogo, com as qualidades etnográficas dos seus presidentes (já sei, já sei), pois isso seria ignorar aquela lei fundamental da vida: a absoluta ausência de relação entre as qualidades de um indivíduo e o seu sucesso, desesperante conclusão, perturbadora evidência, diante da qual a maioria foge atemorizada, e que como todos sabem é o grande amor da minha vida.


Não ignoro que preside ao elogio de Bruno de Carvalho a ideia de que o sportinguismo do presidente foi e é necessário, para levar de vencida a escassez de sportinguismo dos restantes presidentes, ou de que a ausência de rendimentos outros transforma Bruno de Carvalho num mártir comprometido com a única grelha onde, por meio da sua fritada carne, poderá ascender aos céus. O problema é a extrema pobreza desta lógica apresentada em opa de ouro roçagante, gemas várias e luminosa pedraria. Os caros leitores aprenderão que aqui se trava um combate mortal contra todos os vícios de linguagem: os da pobreza e os da riqueza, não fazemos acepção de pessoas.


Estou portanto a tratar de um doloroso tema, nomeadamente, a forma incauta, irresponsável, gigantonte e vaidosa, como o sportinguista se prepara para a sua fase demagógica e suicida, movido pelo desejo e a paixão (esse ídolo da actualidade pós-concílio do Vaticano II) convencido de que pisa os tijolos dourados a caminho de Oz, o que não implica (aliás, tal como pode suceder ao suicida, a quem a sorte eventualmente reverteu o cognome) um irremediável (olé) caminho de infelicidade. Temos a norte do mondego uma agremiação a quem a fase demagógica, étnica e estruturalmente fanática guindou aos mais elevados sucessos, incluindo a construção do, morra o Dantas morra, sucesso internacional e tudo, pum, bem como a uma metódica recolecção de várias experiências humanas, femininas, e estéticas, por parte do seu ilustre, reverendíssimo, boçal, notável, digno e corrupto presidente. Contudo, a ideia de que a paixão é por si só uma garantia de deleite estético humano (ao contrário dos altíssimos critérios de verdade e método impostos em matéria de ciência), oferecendo-se a espontaneidade do gosto e a opinião como estrada escancarada do paraíso, está para a nossa época como os homens do lixo estão para a higiene urbana, o que nada nos diz sobre os méritos da higiene na história da salvação evolucionista (o mecanismo não é finalidade, até quando vai ser necessário ilustrar os analfabetos das ciências naturais sobre este singelo ponto? Obrigado).

A ideia de que Bruno de Carvalho compreende o desporto futebol, na sua natureza (oi) ao contrário da «paneleiragem que abunda no Sporting (...) em que se mitifica um sportinguismo primevo (...) que depois se desenvolve na compreensão do desporto e do futebol» (e logo nos vem à imagem o doutor Rui Eduardo Rogério Oliveira e Costa Barroso Alves) não representa muito mais do que chamar burros a um conjunto de pessoas, afirmando a burrice e a compreensão da natureza do futebol como dados essenciais na distinção entre um bom e um mau jogador de futebol. No mínimo estamos diante de uma pobre tautologia. No máximo, estamos na presença de um hediondo acto de fé.

Não lembra portanto às mais competentes individualidades do nosso meio físico e social (e estou no pináculo de sinceridade deste curto interregno do meu gandiano silêncio) que qualquer forma de dedução lógica (mesmo a naturalista, darwinista e, o senhor vos abençoe, a liberal-libertária) implica um pilha de pratos racio-dedutivos que a dado ponto da sua altitude se escaqueiram num mar de falácias, quando não de contumazes irrelevâncias. Por isso, ou somos convictos da nossa atracção pelo holocausto filosófico, e vamos para o caralho que nos foda, embrulhados num honroso silêncio, ou teremos que enfrentar as acusações de produção espontânea de catecismos (pejados de erros) implícita em qualquer acto locutório. Considerar que um homem se revela apropriado e catalisador de alegrias afetivas, pela simples constatação da sua paixão pelo objecto que lhe permite a notoriedade (e da nossa paixão por ele, em face do nosso amor pelo objecto, de onde decorre a aparente e referida notoriedade do nosso referido homem) além de uma incomensurável paneleirice, não passa de uma pura perda de virilidade metafísica, à la Emanuel Kant esteja connosco. Os resultados promissores alcançados por esse referido homem, Bruno de Carvalho, quanto a mim, não qualificam de forma alguma o futuro como passível de classificações, o que não só assinala como a força do Benfica deriva de uma total indiferença pela racionalização dos aspectos administrativos do jogo como confirmam fatalmente como não ligo a mínima importância aos sinais da realidade, razão pela qual tenho o dobro do cuidado ao atravessar linhas ferroviárias.


O que eu preconizo como estilo de vida e como filosofia do ambiente é uma definitiva e cabal constatação da nossa limitada condição intelectual (uma espécie de castidade argumentativa, no sentido de varrer o ruído dos nossos descontrolados impulsos) cabendo aos mais responsáveis, porque mais dotados de atributos críticos e mentais, uma posição de coragem, uma nobreza, uma anti-espanholada contenção diante dos exércitos do prazer, e da proclamação, ainda que espantosamente ornamentada, dos nossos gostos, e nessa medida, julgo ser urgente o reconhecimento de que (penso eu) pelo menos desde a invenção da máquina de Turing, estamos sob uma terrível ameaça: a ideia de que o conteúdo de uma mensagem é indiferente. Isto só é verdade para efeitos de transporte, tal como não importa se um camião está cheio de cópias de Moby-dick ou da perene obra Prometo Falhar se o objectivo é considerar o tempo de deslocação entre duas cidades.

Não sei até quando vamos continuar a querer manter a nossa ignorância sobre as origens dos nossos de gustibus non est disputandum mas a criação de repúblicas constitucionais, liberais e animadas pelo centralismo democrático, devia ser matéria suficiente para se deixar de considerar que os estímulos mentais apresentados como realidade, como aliás as séries estatísticas econométricas (cuja amplitude nenhum filha da puta de Piketty ousou estudar na sua significância histórica, ou não poderia encher os benditos cornos capitalistas com o maior número de vendas de sempre da Bendita Harvard Belknap University Press) são suficientes para projectar o futuro, e muito menos justificam que consideremos que o gosto é um problema individual. A liberdade com que dizemos tolices devia ser o combustível para nos pormos a caminho de criar filtros, construídos pelo maior número possível dos tolos que somos nós todos, com que filtrar as referidas tolices, sob pena de nos atulharmos todos no lixo (porque isto, ilustres leitores, depende tanto de «nós» como das acções espontâneas do colectivo, entendendo nós por espontâneas as acções que não compreendemos e era bom que começássemos a compreender ou ainda acabamos muito mal; não esquecer além do mais que a grande maioria dos gajos que pariu o transgénero filosófico chamado liberalismo, acreditava na ordem natural e no criacionismo da natureza com especial referência ao paneleiro do ser humano, como se o universo estivesse preocupado connosco). Daqui resulta que: a) sim, a escolha de um processo de coordenação (por exemplo, um presidente de um clube de futebol) pode ser de elevada importância para a sobrevivência da colectividade; b) a sua paixão pelo clube não o qualifica como mais habilitado, não negando eu que possa coabitar em Bruno de Carvalho a paixão com as capacidades críticas; c) o acerto da estratégia, de acordo com as nossas previsões, é apenas uma tentativa que não assegura eficácia final, em face de imponderabilidade do mundo, razão pelo qual estamos metidos neste sarilho filosófico há mais de 200 anos.

Julgo que a construção, em acto, de uma hierarquia estética (essa tão injustiçada atriz pornográfica) é o dever de todo o escritor, filósofo, palhaço, defesa-esquerdo, ou artista, pelo menos do artista que não teme a turba, a história, o tempo, a poeira cósmica, o pecado, os dinossauros, os buracos negros, a evolução, o mercado, o anonimato, a democracia constitucional, a fama, a perda dela, ou qualquer outros dos demónios de papel, apresentados, desde sempre, para nos atemorizar, impedindo-nos de trilhar um caminho em defesa da nossa espécie nesta perigosa brincadeira. Isto não significa que até na descontrolada criatividade metafórica de Bruno Carvalho não existam elementos clamando por um juízo capaz de aguentar um cenário de generalização, derrubando as falsas barreiras entre juízo estético (resultante do efeito do objecto no sujeito) e juízo de conhecimento (decorrente das características do objecto), mesmo que, muito erradamente, nos pareça ser o estilo e a forma, e portanto a beleza, uma matéria do domínio da consciência individual. Falta demonstrar, o que espero fazer antes de ingressar num forno crematório, que a arte também é um objecto com características das quais é possível deduzir conhecimento sobre os seus efeitos no sujeito, hossana nas alturas.A razão pela qual Bruno de Carvalho foi constituído como mecanismo soteriológico pelos adeptos do sporting prende-se com a crença nas possibilidades salvíficas da racionalidade humana, o que está certo. Só falta convencer as pessoas em geral a considerarem uma política do juízo estético que não se restrinja à simples opinião embrulhada em papel de celofane.

No fundo, vale tudo, menos colocarmo-nos do lado da natureza. Sabemos que já os romanos sujavam as suas cansadas e nobilitadas mãos nas vísceras das aves e era espectável que tantos séculos depois nos mostrássemos capazes de fazer melhor. Que esse velho e cansado sonho continue a ser uma quimera, só demonstra como as séries estatísticas são um franco auxílio no nosso cada vez mais artilhado (e talvez por isso pesado) cérebro. Apesar das constantes provas de fé na ciência, continuamos a acreditar demasiado na nossa inteligência individualmente considerada, e nem as laudes ao advento da idade tecnológica nos impedem de mergulhar, quem sabe cada vez mais furiosamente, na demasiado frágil iluminação fornecida pelas nossas intuições biológicas (individualmente consideradas) pobremente tocadas por impulsos cuja origem ignoramos (mas gostamos de esconder que ignoramos), confiando a sorte do corpo aos espasmos cinzentos da nossa rede neuronal (individualmente considerada), com uma parda vaidade de que podemos com a esponja cinzenta, o que não tem sido possível com o estômago e os intestinos, esquecendo que a descoberta da evolução e da complexa submissão das populações a efeitos imprevistos, nos deviam empurrar para esforços de raciocínio mais sistemático, abandonado as robinsonadas do mercado e a ideia de que a acumulação espontânea dos nossos gostos, constitui uma ponte de ferro entre o mérito, o trabalho, a qualidade e o sucesso de vendas ou as vitórias de um clube de futebol.

Agora que temos computadores, ao invés de trabalharmos em conjunto para limitar os impactos dos nossos erros, forjando um sistema capaz de misturar a liberdade de escolha com a crítica da escolha, aproveitando os baixos custos da comunicação, insistimos nas maravilhas do individuo, para depois proclamar em seguida que o indivíduo está racionalmente condenado à irracionalidade onde o enjaulámos. De tal modo que não há maneira de nos contentarmos com a nossa ignorância, graças a deus.


quarta-feira, 14 de maio de 2014

No fim dos tempos, faremos as contas.

As artes elocutivas são a eloquência e a poesia. Eloquência é a arte de exercer um ofício do entendimento como um jogo livre da faculdade da imaginação; a poesia é a arte de executar um jogo livre da faculdade da imaginação como um ofício do entendimento.

Emanuel Kant, Crítica da Faculdade do Juízo, citado por Frederico Nietzsche no seu Curso sobre Retórica.

Porque o natal é quando eu quiser e boa sorte aos vermelhos.


Agora desculpem qualquer coisinha porque vou voltar para o buraco de onde nunca deveria ter saído. 

terça-feira, 13 de maio de 2014

Lazar Markovic como exemplo da narrativa combinatória, espelhando a incerteza da vida, e dando alento aos que fundamentam a sua esperança no casamento entre a beleza e a eficácia.



O elogio da derrota orgulha-se de ser consistente com a verdade dos factos, nomeadamente a inexistência de capacidades de previsão sobre o futuro (e mesmo descontando as merdices do libanês Nassim Taleb) afirmando, nomeadamente, e também, a total ausência de instrumentos que nos permitam identificar logicamente, ou pelo menos demonstrar, a trajetória dos carris onde se desloca, insidiosa e vertiginosamente, o comboio da realidade, um meio de transporte demasiadas vezes atrasado. Se eu fosse uma mulher e a natureza fosse ainda mais flexível do que tem mostrado ser, teria encontrado finalmente o sentido da minha vida: casar com Lazar Markovic; acontece que o mundo é muito mais interessante.

Foto: twitter/@Deyasrb

A vida custa muito mas para medir o custo da vida seria necessário estar na posse de meios de comparação apropriados, o que desde os comentários de David Ricardo aos Princípios de Economia Política do reverendo Malthus, um gajo a quem o sexo fazia impressão, se tem provado tarefa mais complexa do que marcar Lazar Markovic (e veja-se, nomeadamente, aqui, o efeito da aliteração, ou da anáfora, ou alguma coisa desse género, nunca soube essas merdas, nos testes de português interessava-me sobretudo o caminhar dos relógios, objetos onde se esconde a morte, segundo Andrei Béli).

„Svaki posao je težak - kako nekog radnika za  mašinom, tako i nas igrača na terenu. I fudbal je  rudarski posao. Svim radnicima

O facto de figurar no título deste blogue o vocábulo derrota torna-nos especialmente habilitados para compreender a complexidade do mundo. No entanto, não pretendemos vigarizar o leitor com receitas para comer menos e dormir melhor, pois como diria Marcel Proust, não estimamos demasiado a vida, ou só a estimamos na justa medida em que nos permite controlar a dor e estar diante da beleza como Santa Teresa diante do espírito de Deus (e vamos na segunda alusão a paixões homossexuais, a nossa homenagem ao inacreditável paneleiro recentemente vencedor da Eurovisão). Para que não restem dúvidas sobre a magnitude da nossa (humana) ignorância, apresentamos aqui um belíssimo conjunto de fotografias, onde a referida complexidade do mundo está bem patente, nomeadamente nos resultados, decorrentes da reunião entre: a ebulição balcânica, que tem sido para a ciência política o que o supositório representava no passado para o homem com febre, e os efeitos socio-económicos da especialização do trabalho, nomeadamente, quando situada em contexto desportivo de alta-competição, sobretudo depois da vandalização jurídica, por meio da lei Bosman, da virtude específica de cada função humana, neste caso, a violação das idiossincracias (palavra que detesto) do futebol baseado em clubes regionais, de onde se destaca o mais do que evidente choque entre a escala e os interesses das comunidades étnicas, tribais e outras, as unidades políticas formais, e a circulação de capitais (confrontar aqui a República de Platão e a interessante discussão entre Sócrates e Trasímaco sobre a virtude específica de cada função humana em relação com o binómio justiça/injustiça).

Lazar Marković i Darko Lazović

Não quero avançar com efabulações dickensianas sobre as reviravoltas do destino, alçando o meu olhar agudo de felino sobre os múltiplos e imundos altares dos ídolos, onde se derrama o sangue dos inocentes (frase que ouvi há pouco nos comentários às pornográficas cerimónias de Fátima) nem pretendo fazer chorar as adolescentes sonhadoras, as professoras infelizes e as viúvas solitárias, com as peripécias de uma qualquer criança resistente aos golpes da sorte, e muito menos embarco em apologias do trabalho, do esforço e da coragem, para gáudio do empresário bronco, do merceeiro vigarista ou do gestor lunático. O meu propósito é muito mais simples. Embora na literatura se tenham travado obscuras batalhas sobre as razões últimas do sucesso individual (esquecendo que a análise devia incidir antes de mais sobre as características semióticas do texto e a economia da informação) e tendo em conta que o próprio Samuel Johnson se pronunciou a favor do dinheiro como objetivo último de todo o escritor (preposição por mim violentamente aplaudida) está por descodificar quais os meios que em última análise favorecem uma vida tranquila ao profissional da combinatória com uso do alfabeto (um dos vários domínios onde a fama restabelecerá o tempo que me foi tirado em vida). Na ausência de certezas, temos defendido que ao autor, como a todo o ser vivo, em geral, dotado de um sistema de representação dos problemas, isto é, um sistema nervoso integrado, não resta outro caminho senão inventar a sua própria narrativa, contando que só importa o sucesso em dotar essa máquina (a narrativa) das mais acabadas competências (uma hipótese aqui servida apenas como exemplo, o caro aprendiz, por favor, não se deixe esmagar e construa o seu próprio caminho, resistindo, até à tortura se preciso for, aos cursos de escrita criativa dos analfabetos que por aí circulam) competências sintetizadas por Calvino nos cinco esplendorosos valores: leveza, rapidez, exatidão, visibilidade e multiplicidade, curiosamente, características que fazem de Lazar Markovic uma concretização biológica dos princípios universais da arte.

O que é bonito, e assustador, é que desde tempos imemoriais parecemos ignorar que o mundo pouco mais é do que um violento e mortal combate entre narrativas, dominando a tendência cíclica para formar rebanho em redor da narrativa vencedora. Há entre nós pessoas (se é que os economistas clássicos, os liberais, os socialistas, os sociais democratas e os marxistas são pessoas) convencidas de que as narrativas vencedoras dependem da compreensão das regras, ou seja, da capacidade dos jogadores em tirarem partido dessas regras na construção das suas narrativas, vencendo o jogo. Quanto a mim, estou convencido de que não havendo qualquer coerência ou relação determinada entre as regras e o sucesso das narrativas, pois as regras, meus caros leitores, estão sujeitas ao próprio jogo humano, resta aos jogadores a construção artificial das suas próprias regras, e das respetivas narrativas adaptadas (ou expondo) essas novas regras, nomeadamente, a capacidade de convencer os outros jogadores de que estamos a respeitar as mesmas regras. Isto não significa negar os limites físicos do mundo, significa compreender que muito pouco do que conta para os humanos se prende com a mera descrição e utilização dos limites físicos do mundo. As narrativas vencedoras são em grande medidas as que têm capacidade de fundar novas regras, inventando um  novo jogo. Os limites não são dados pela natureza mas limitados pelo desejo dos outros em construírem máquinas e ambientes, restando-nos chegar a um acordo onde predominem valores universalmente pirosos e espectaculares como o belo, o bem, de acordo com a ética kantiana, etc, etc, etc.


Lazar Marković i Darko Lazović

A razão pela qual o jogo nos tem atraído, nas suas mais variadas formas (e deixaremos por agora as razões que explicam a predominância de uns jogos sobre outros, nomeadamente a adaptação da sua escala, onde evoluem as possibilidades combinatórias, aos limites dos meios de comunicação de massas, sobretudo os de controlo único) decorre em grande medida da imprevisibilidade. O facto de o maior e mais promissor avanço da economia moderna, que como até saberão os adeptos do Sporting, geralmente gestores de bancos e outros bastiões do grande capital, se ter devido ao casamento feliz e fecundo da teoria clássica do mercado com a aplicação da teoria das probabilidades ao esquema do jogo, tendo sido erigido sobre a base da imprevisibilidade, resultante da escalada infinitesimal dos efeitos do cálculo mental sobre as jogadas do adversário (e por isso necessariamente paralelo, analógico e muito limitado e não necessariamente serial e rigoroso) devia ser suficiente para não estimular a arrogância das pessoas sobre o horizonte aberto do futuro, nomeadamente ao nível dos jogos onde estão inseridos (um conceito espetacularmente introduzido por Jorge Jesus) muito mais do que dois jogadores, e onde por isso a escalada de complexidade ameaça tornar qualquer projeção de resultados numa rábula humorística.


Marković: Imamo dovoljno samopouzdanja da pobedimo Hrvatsku!

Os ambíguos e perturbadores acontecimentos desta época futebolística, nomeadamente a cavalgada fulgurante de uma mundialmente famosa equipa de futebol, esfarrapando impiedosamente as mais claras e férreas previsões dos analistas, sobretudo depois do auspicioso mergulho nos abismos do insucesso, da derrota e até, o senhor seja louvado, da humilhação, servem, por si só, o propósito público deste blogue (na minha perspetiva) e a saber, a consagração da vontade humana, quando guiada pela sabedoria e a beleza, como o único fundamento lógico do futuro, e por isso, negando qualquer possibilidade de discursar sobre esse mesmo futuro, pois como futuro que é, encontra-se sempre submetido a vontades individuais múltiplas e a tão complexas relações de causalidade, impossíveis (até ver) de determinar num único ponto de vista (nem sequer com modelos computorizados) razão pela qual me tenho abstido de falar, além de estar cada vez mais convencido, tal como aqui foi sugerido pelo ngonçalves, que os meus amigos deviam começar a pagar pelas toneladas de sabedoria, fruição estética (e trabalho, note-se) aqui fornecidas gratuitamente para pornográfico e escandaloso enriquecimento injusto e ilícito dos merdosos que por aí andam a vender as tecnologias de comunicação digital como uma democracia de oportunidades.

Abrindo um importante parêntesis, gostaria de relembrar às crianças que certamente nos lêem com rejubilante afinco, como a transformação da tecnologia e as suas consequências na organização do ambiente humano não têm, por si só, nenhuma relação com a percepção do sofrimento e muito menos com a realização da justiça, se essas tecnologias (tão democráticas como a carta ou a imprensa mecânica) não forem submetidas a uma crítica sobre os seus custos de acesso, dados os evidentes entorces (sempre) implícitos no livre (aleluia, aleluia) funcionamento de qualquer acção humana (a começar na lei da gravidade), nomeadamente, a velha confusão entre a aparente consulta da maioria e a verdadeira convicção da maioria (a informação caracteriza-se por ser imperfeita, ou numa linguagem mais técnica, comporta ruído) para não falar de que tal como as ovelhas, a maioria também comete erros ou segue caminhos errados (errados), devendo todos os sistemas inteligentes (como muito bem têm demonstrado os engenheiros) possuir um alerta contra os erros de apreciação, sejam eles decorrentes da minoria ou da maioria, o que implica confiar na repetição de processos críticos, e na ampla e profunda avaliação das decisões. Seria de ter sempre em conta o ambicioso projeto do iluminismo kantiano, uma coisa que ou dá nazismo, ou dá a paz perpétua universal, dilema trágico que não representa motivo para fugirmos, sem mais, e com o rabinho entre as pernas a buscar conforto nestas semi-orientalices da democracia selvagem e do sistema de representação baseado, como se sabe, em avultadas quantidades de trabalho escravo além da decapitação intelectual de uma significativa parte dos representados. Fecho aqui este importante parêntesis.

De um ponto de vista da minha obra como escritor que não se rebaixa à estupidez, a verdade é que o mais potente motor dos sucessos imortais, se constrói com válvulas engenhosamente desenhadas pela humilhação, alimentando-se desse combustível precioso, a derrota. Como o próprio e grande Simon Leys referiu, aquando da recepção de um qualquer prémio, é bem provável que o maior escritor não estivesse ali a ser agraciado, mas tivesse ainda pela frente uma ou duas décadas de humilhação em busca de editor (e não me venham agora com as potencialidades tecnológicas do computador, isso é outra técnica relativamente à qual os jovens do futuro, assim o queiram, forjarão a sua própria literatura). Farto da remuneração simbólica (os marxistas e os antropólogos que se fodam) e muito adepto da liberdade combinatória e descritiva das unidades de pagamento monetário em base decimal, pretendo um ambicioso casamento entre as altitudes de um texto que seja uma máquina narrativa original, fulgurante, bela e eficaz (à semelhança de Lazar Markovic) e os meios de subsistência suficientes para me poder rir, com tranquilidade, sempre que me chegar aos ouvidos a consagração de um qualquer piolhoso, que acossado pelo medo tenha escolhido um caminho mais atrapalhado, feio, interesseiro, obscuro e dependente das forças malignas e irracionais do ambiente.

Permitam-me que finalize com uma citação longa, a ver se ao menos levam daqui alguma coisa:

Lucrécio via na combinatória do alfabeto o modelo da impalpável estrutura atómica da matéria; hoje cito Galileu que via na combinatória alfabética («as várias combinações de vinte pequenos caracteres») o instrumento insuperável da comunicação. Comunicação entre pessoas afastadas no espaço e no tempo, diz Galileu; mas temos de acrescentar: comunicação imediata que a escrita estabelece entre todos os seres existentes ou possíveis.

Como em cada uma destas conferências me propus recomendar ao próximo milénio um valor que me seja especialmente caro, hoje o valor que pretendo recomendar é precisamente este: numa época em que triunfam outros media rapidíssimos e de raio de acção extremamente amplo, arriscando-se a reduzir toda a comunicação a uma crosta uniforme e homogénea, a função da literatura é a comunicação entre o que é diferente pelo facto de ser diferente, não embotando mas sim exaltando essa diferença, de acordo com a vocação da própria linguagem escrita.

Italo Calvino, Seis Propostas para o próximo milénio, p. 61




O Senhor vos abençoe.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O sonho não comanda a vida: o que comanda a vida é a estupidez e a boçalidade.

No vasto alfobre que a natureza muito generosamente nos oferece, e que já os poetas românticos julgavam ser o sintoma da bem-aventurada distinção humana, nada mais extraordinário e digno da nossa atenção do que o homem esclarecido.

A primeira característica do homem esclarecido é o seu território, isto é, os jornais e as televisões. Embora pudéssemos julgar que o homem esclarecido, conhecedor exímio das secretas engrenagens da tragédia humana, e habituado a mover as alavancas da história, se pudesse encerrar humildemente na sua sabedoria trabalhadora, veladamente guardando para si os frutos do seu labor, nada mais contrário à estirpe invulgar do homem esclarecido. O esclarecimento é audaz e gosta de voar pelos espaços, espalhando por todo o lado uma clarificante visão do mundo.

A segunda característica do homem esclarecido é o método de raciocínio, fulgurante como uma moto-serra: o homem esclarecido sabe que só existem vencedores e perdedores, e que a sociedade longe de ser uma colmeia (onde existem hierarquias, equívocos, autoridade, coordenação coletiva, ilusão) a sociedade, repito em coro com o homem esclarecido, é um ringue onde a violência da luta deve ser voltada a favor do homem esclarecido, clarificando o lugar que cada um deve ocupar nesta longa cadeia de crocodilos devoradores de lagartixas e lagartixas que pretendem ser crocodilos.


Assim, o chato e insistente leitor, pouco habituado à velocidade fulgurante do homem esclarecido, poderia perguntar: mas se a realidade flui melhor da maneira que o homem esclarecido anuncia (e não como parece fluir, desagradando ao homem esclarecido) por que razão é necessário vir o homem esclarecido convencer a realidade das suas próprias leis? O homem esclarecido, como esclarecido que é, não se prende com os fundamentos do esclarecimento. O homem esclarecido esclarece, e é só, impondo aos ignorantes das férreas leis da psicologia humana - os sonhadores - duas violentas estaladas nas suas sonhadoras faces. E para quê? Para que possam deixar-se de sonhos e servir o homem esclarecido.


Vamos seguir um exemplo. O Nuno Abrantes Ferreira é um homem esclarecido, que por dotes de esclarecimento, encontrou uma fórmula mágica. Convidado para escrever num jornal (não por sonho, não por vontade de ultrapassar a sua triste condição de anónimo ou qualquer outro destempero sonhador, mas pelo simples facto de ser mais esclarecido que nós todos juntos atados a um chouriço) o Nuno Abrantes Ferreira gasta uma parte do seu tempo a esclarecer a sociedade que adora olhar para a lua através do ralo de esgoto onde vive. E assim, o Nuno Abrantes Ferreira, por comprovado domínio de um pensamento esclarecido e das qualidades pessoais (nunca por qualquer sonho insólito nascido na sua santa cabeça, ou na do diretor de jornal que o convidou) decide lançar mãos à obra e limpar a porcaria do nosso pensamento, esbofeteando-nos a face, enquanto olhamos para a lua através do ralo deste esgoto onde habitamos, note-se, por nossa culpa apenas e tão só por nossa grande culpa.

A ideia de que o sonho comanda a vida é o maior disparate enraizado e repetido vezes sem conta numa sociedade que adora olhar para a lua através do ralo do esgoto onde vive.

Quero isto dizer que um dos problemas da sociedade é o esgoto onde vive. E que deve fazer uma sociedade para mudar, segundo o homem esclarecido? Deve sonhar com um projeto para melhorar a sua condição? Deve a sociedade procurar encontrar mecanismos eficientes para fornecer informação de modo a que quem ser fadista o seja, e quem quer ser empregada doméstica seja bem pago, se o trabalho for eventualmente desagradável? Não, deve aceitar as características do esgoto onde vive, pois é preciso que alguém viva no interior do esgoto, limpando (e apenas limpando) a porcaria, o resto são conversas de sonhadores.

O homem esclarecido sabe que não vale a pena perder tempo com a descrição das responsabilidades da porcaria enviada para o esgoto, nem consumir recursos a sonhar com o péssimo sistema de ventilação (formado pelas instituições) que empurra as pessoas para o ralo na vã esperança de que ao contemplar a lua, ao menos o mau cheiro se possa suportar com um pouco mais de paciência. Não, mais vale suportar o cheiro e o esgoto (que são realidades irrevogáveis deste nosso mundo) e limpar a porcaria. Outros, menos avisados, poderiam perder tempo a considerar projetos para transformar o esgoto num local habitável, ou a considerar as razões pelas quais uns estão no esgoto e outros no jardim do esclarecimento, mas isso seria ignorar que o homem esclarecido não se perde em considerações oníricas. O homem esclarecido conhece como ninguém a dureza da vida, conhece cada canto do esgoto (embora não o frequente, pois o esgoto é para os sonhadores) e não pode, de modo algum, ser responsabilizado pela colocação dos ralos. A construção do esgoto é da responsabilidade do espírito santo.


Aqui surge um problema de mecânica psicanalítica, ou seja, não se deve admitir o sonho como instrumento de trabalho. De outro modo, desagradaremos ao homem esclarecido. Na verdade, a pá, a enxada, o ferro de engomar, a vassoura, são instrumentos de trabalho, o sonho não. Bem se vê que não lembraria ao homem do lixo ir dormir para o camião, correndo o risco de a meio da recolha se estatelar no alcatrão e partir a cabeça. Bem vistas as coisas, quem sonha não costuma ser a empregada doméstica, nem o homem do lixo, mas essa espécie absurda, a jovem licenciada que se recusa  a ser empregada doméstica ou o jovem licenciado que se arrisca a ser homem do lixo. Mas atenção, o homem esclarecido é mais sagaz, e arrisca dizer coisas provocadoras, de forma a garantir a sobrevivência da sua atividade como homem esclarecido, não vá deslizar para o esgoto onde estão os restantes licenciados. Ou seja, os sonhos representam aqui o desejo, uma projeção do prazer no trabalho para lá do que se tem à disposição. Como o homem esclarecido perdeu horas a pensar sobre estes assuntos, a limpar a porcaria resultante do seu potente motor do seu raciocínio para arrepiar caminho até à saída do esgoto, perdão, de um raciocínio lógico e empiricamente sustentado, lança sobre a sociedade a chicotada da sua crítica.


Recuperando uma perspicaz e inovadora visão do humano, o homem esclarecido sabe que o trabalho é o contrário do prazer, como o pragmatismo é o contrário do sonho, e a vida é o contrário da morte, para citar Lili Caneças, outro homem esclarecido. Há apenas uma pequena dificuldade: embora o valor económico seja uma função do custo, não é muito fácil determinar a relação entre o custo e o sacrifício. Por exemplo, custa-nos toneladas de sacrifício ler o homem esclarecido, e ainda assim, ele encontra-se justamente gratuito ao alcance de um clique. Significa que alguém deve estar a olhar para a lua em algum esgoto para que o homem esclarecido chegue até nós, gratuito, e com tanta facilidade. Isto levaria os mais distraídos a pensar que talvez seja complexo determinar uma relação clara entre sacrifício individual e custo social, pois ainda que, do ponto de vista microeconómico, uma valorização monetária do trabalho (determinada pela utilidade num ponto do mercado) possa beneficiar uma empresa, pode, no entanto, prejudicar psicologicamente o agente, e a curto prazo lesar quer o agente, quer a empresa que o contratou. Ao abraçar uma profissão indesejada, e mesmo com uma lobotomia de pragmatismo, de forma a servir (sem ais, nem uis) os planos do homem esclarecido em troca de pagamentos monetários, pode acontecer que um indivíduo esteja a tomar a decisão errada, e se isto acontecer com muitos indivíduos, podemos ter um conjunto social a afundar-se num pântano de pragmatismo, abraçando mortalmente a quebra de produtividade exponencial. Há continentes de demonstrações deste género na economia das organizações como existem oceanos de prova da falta de correlação entre curvas de incentivos e produtividade. Todavia, o homem esclarecido está atento, e não gosta de atividade intelectual que não produza estrondo ou efeitos moralizadores. Não se perde em sonhos ou especulações e faz muito bem.


Um sonhador e ignorante chamado Hayek, em vez de escrever crónicas num jornal de referência (atividade para a qual não teria gabarito) decidiu dedicar-se a analisar os sistemas de preços. Considerou-os como uma máquina automática para sinalizar fluxos, através da troca de informação descentralizada, de forma a garantir uma melhor distribuição dos recursos. Esta máquina seria, na imaginação do sonhador e destrambelhado Hayek, uma máquina dinâmica, e a esta conclusão inútil chegaria facilmente o homem esclarecido se não estivesse justamente ocupado com coisas muito mais importantes. O ponto crítico deste sistema, os preços, também funcionariam como incentivos psicológicos, capazes de relacionar as oportunidades de um dado trabalho com os indivíduos interessados em produzir esse trabalho. Mas isto são balelas, pois o homem esclarecido sabe que as máquinas complexas, como os aviões, são típicas dos sonhos dos frequentadores do esgoto. Por isso, há apenas que trabalhar, mesmo que isso seja muito pouco compensador de acordo com as preferências do sonhador (não importa, afinal de contas, estamos num esgoto) e não perder tempo, por exemplo, com as instituições que garantem a eficácia de um sistema de preços como distribuidor de informação. Que importa que nos jornais esteja um burro do tamanho da Rússia? O homem esclarecido sabe que a realidade garante que isso nunca poderá suceder, pois os jornais, como empresas sujeitas à lei do esgoto, nunca permitiriam sonhadores, ou seja burros do tamanho da Rússia. Os jornais só recrutam indivíduos dispostos a viver na porcaria sem olhar para a lua, ou seja, candidatos a serem homens esclarecidos.

Os portugueses, em vez de meterem a mão e começarem a limpar a porcaria que têm à volta para arrepiar caminho até à saída, preferem sonhar que é possível sair do esgoto com asinhas. Ou que alguém (quase sempre o Estado) os deve ajudar.

Não se pense aqui em qualquer relação entre a mecânica e a engenharia aeronáutica, coisa de sonhadores de asinhas e pessoas que gostam de viver no esgoto. Não, aqui ninguém deve pensar em asinhas, pois o engenho é uma coutada do homem esclarecido e o homem esclarecido (que não se conta entre os portugueses) nunca conta com a ajuda do Estado, que é a imagem diabólica do próprio satanás e o inimigo do género humano.

O português quando nasce, nasce sempre para ser grande. Mas por qualquer razão nunca passa de mais um pequenino.

Sim, isto é verdade, mãe do céu, isto é tão verdade como as maminhas da virgem terem alimentado os divinos lábios do nosso salvador. O português sonha sempre com coisas grandes, é por isso que tem eleito estadistas de nomeada, autênticos pais da pátria que só se medem com o próprio Júlio César; é por isso que o português compra livros num impulso homérico e exige dos jornais o rigor, a erudição, a elegância e a consistência que os caracterizam; é por isso que o português tem suportado no seu lombo as maiores tramoias dos empreendedores e das pessoas altamente valorizadas pelos prémios monetários; é por isso que o português tem dificuldade em ultrapassar o liceu; é por isso que o português de educação superior, encolhido e de cabeça baixa, vai para o esgoto sonhar. É precisamente porque nunca desiste, e isso obriga o homem esclarecido a prestar um serviço a Portugal e a dizer, com altruísta convicção: o que o português precisa é de saber desistir.

No entanto, o homem esclarecido nunca facilita, pois domina os segredos da narrativa, os truques da retórica, por forma a aguçar a inteligência do seu leitor, que certamente não é português, mas vietnamita. Qual golpe de teatro, ficamos a saber, pela mão do homem esclarecido, que o português apesar de nascer para ser grande (pois o código genético do português vem programado de acordo com as ideias encomendadas à seleção natural pelo homem esclarecido), o português, repito, malgrado as altitudes forjadas na sua bigorna genética, nunca vai a lado nenhum e é o autêntico preto da Europa. E porquê? O homem esclarecido, aqui, indignado por ver desperdiçado o potencial dos seus impostos, sabe e vocifera: o português falha só por culpa dele, o português, e só falha porque se põe a olhar para a lua em vez de ir passar a ferro as camisas do homem esclarecido, homem esclarecido esse, que do pináculo da pirâmide social, por mérito e só por mérito da sua capacidade, há-de conseguir endireitar este desgraçado do sonhador português que, nascendo para ser grande, acaba sempre pequenino, sempre por sua própria culpa, nunca por culpa e responsabilidade do homem esclarecido.

Deixem-me citar um pouco mais longamente o homem esclarecido, e deleitar-me com a coragem dos pragmáticos. Aqueles que por esforço mental e impoluta constituição moral, aqueles que por capacidade de tomarem sobre as suas costas as dores dos seus erros (poucos muito poucos, note-se) e até os erros dos seus irmãos de esgoto (muitos, mesmo muitos) aqueles, homens esclarecidos, conscientes de que apenas os melhores podem (e devem) ficar com as melhores profissões. É com lágrimas nos olhos e um coração contrito que abraço este meu irmão da luz e da retidão, Nuno Abrantes Ferreira, o homem da gelatina e um distinto homem esclarecido:

O mundo parece conjurar contra este ser predestinado a conquistar um lugar ao sol, mas deixado ao relento não se sabe muito bem por quem nem pelo quê. Estes Rómulos de Carvalho de pacotilha esquecem-se que eles até podem ser bons e querer muito uma coisa. Mas o mais normal é existir alguém ainda melhor e a querer ainda mais do que eles. O que é uma chatice. Porque isto de serem só os melhores a ficarem com as profissões com mais garbo é um atentado à húbris lusitana.

Respire o caro leitor, respire nestas alpinas atmosferas, e olhe à sua volta. Quem vê? Ninguém, ninguém, pois só aqui estamos nós (eu, o leitor e o excelso Nuno Abrantes Ferreira). Todos os outros, os sonhadores e portugueses, soçobraram a caminho, indolentes e preguiçosos, caíram no abismo da desculpa, pereceram na armadilha do amor próprio, tropeçaram no engano do sonho, desabaram na trapaça do facilitismo, foram engolidos por uma vida de superiores possibilidades. Mas agora que aqui estamos, não paremos, não paremos, e subamos cada vez mais alto, quem sabe até ao próprio sol.

Parece-me uma “lapalissada” que quem é bom chega lá. E quem é menos bom fica com o que há. Feita as contas: cada um tem o que merece. E não há nada de errado nisso. Bem pelo contrário. É justo e socialmente desejável que esta competitividade impere sobre as quimeras de cada um.

Não parece nada uma lapalissada, não devemos tolerar este excesso de humildade ao homem esclarecido. Nunca os Plutarcos ou os Sénecas trilharam estas veredas de refrescante sabedoria. Os méritos do homem esclarecido são para ser reconhecidos, isto se não queremos viver para sempre num esgoto. Quem é bom chega lá e quem não é bom, que vá para o caralho, olha os grandes filhos da puta, a quererem disputar o território de quem é bom. E não há nada de errado nisso. Mas queríamos competição, concorrência? Uma empregada doméstica a querer destronar a Mariza? Um trolha a querer estudar Física? O homem do lixo a comprar um livro de Gogol? Uns a quererem subir quando o jogo já vai a meio? Quem começa em baixo é baixar a cabeça e desistir já. Mas que caralho é esta merda? Alguma rebaldaria? A feira de Carcavelos?

Chiu, desculpem, não devia ter falado no mercado, uma coisa dinâmica. O homem esclarecido não gosta, o mercado é  no fundo o império do homem esclarecido, mas o mercado sem oscilações, sem sobressaltos, sem reviravoltas entre empregadas domésticas e fadistas. O mercado, estático, equilibrado, gelado até ao osso, hirto que nem uma chapa de ferro, sempre de mão dada com o Estado (essa criatura diabólica que por vezes, em vez de servir o homem esclarecido, se põe, infame, a resgatar pessoas do esgoto). Pois é socialmente desejável que a distribuição socialmente social da realidade real impere sobre os sonhos de cada um. Quero agora pedir desculpa ao leitor pois estão aqui a puxar-me o braço. Só um momento.


- O meu nome é Gertrudes do Caralho Quetafoda e Àgrande e queria fazer uma pergunta. O meu caro amigo podia por acaso informar-me como decide a sociedade quem é bom e quem não é bom? E já agora, também queria perguntar ao Senhor Homem Esclarecido, Nuno Abrantes Ferreira, se existe uma forma para os que não são bons poderem entrar, mesmo que a gatinhar, no país dos que são bons, mas isto sem recorrer aos sonhos?

Claro que o homem esclarecido também sofre as suas contrariedades. Assustado com as altitudes, afinal o homem esclarecido é espetacular e muito bom, mas não deixa de ser humano. Eis que o homem esclarecido é obrigado a descer da categorização do bom - consciente de que acaba de se estatelar na sua lógica da batata - e enfrentar outro caminho, mas sempre com a coragem que caracteriza o homem esclarecido.

O sonho comanda a vida dos poetas. Para o resto da plebe, sonhar é funesto. E é o acordar que importa. É o deixar de ser infantil. É o não ter medo de desistir quando todos dizem “não desistas”. É o realizar que há alguém melhor que nós e que, por isso, há que fazer outra coisa. Mesmo que isso implique fazer algo nos antípodas do que se estudou ou receber um terço do que se sonhou (ou mesmo nada nos primeiros tempos). Porque cada um é pago por aquilo que vale. E a verdade é que todos começamos por valer muito pouco. E não é por se ter uma vulgar licenciatura à bolonhesa que as coisas deixam de ser o que são.

Portanto, o juízo dos outros (não desistas) não tem qualquer interesse, pois decidimos essencialmente sobre valores monetários (cada um é pago por aquilo que vale, ámen, ámen) valores monetários esses que são oferecidos pelos anjinhos do céu e não pelos outros, os tais que, segundo parece, dizem «não desistas» (mas que não devem contar) e que apenas podem, segundo rezam as más línguas, aumentar de número a poder de marketing e vontade sonhadora (não, não, isto só vale para os frutos do trabalho do homem esclarecido, para os outros, os potenciais consumidores não existem nem podem ser convencidos). Respiremos fundo. Em suma, temos uma infinita dívida de gratidão, e devemos por isso mesmo agradecer ao homem esclarecido o conhecimento de que existe uma relação linear entre receber um terço do que se sonhou e desistir do sonho onde não se recebe nada. O que não nos deve deixar baralhado. Se a fadista não recebe nada como fadista  deve rapidamente procurar alguma coisa onde receba, mesmo que seja um terço do que sonhou. Está fora de questão explorar os sonhos dos outros potenciais frequentadores de esgoto e consumidores de fado, não, nada disso, estão todos obrigados a ir limpar a porcaria e a engomar as camisas do homem esclarecido.


Que exista uma relação muito complexa entre a qualidade do que se faz, a sua valorização no mercado, a satisfação pessoal retirada de uma atividade profissional e o estatuto social dessa mesma profissão, é coisa que jamais deve preocupar o homem esclarecido. Caso contrário teria que ir estudar o problema, e não poderia escrever num jornal, tendo que reconhecer uma tremenda falha na realidade das coisas serem o que são. Além do mais, o homem esclarecido não poderia permitir que um jornal contratasse um burro do caralho e o remunerasse (ou autorizasse) a derramar sobre o público a sua burrice, falta de respeito e deselegância, fazendo prova cabal de uma profunda ignorância sobre a complexidade das coisas, e comprovando que os péssimos, os maus, e sobretudo as lagartixas que têm a mania que são crocodilos, desde que munidos da sua vontade e desde que devidamente instigados pelo «não desistas» de burros semelhantes (mas com poder de decisão nos jornais), sempre podem chegar onde pretendem e injetar mais um pouco de porcaria no esgoto, cumprindo os seus sonhos, que neste caso não são sonhos mas iluminações de homem esclarecido. Esta realidade (que sai da minha estúpida cabeça sonhadora) nunca a poderia tolerar o homem esclarecido, por ser um homem esclarecido e assim ser socialmente desejável, a bem da paz coletiva e das coisas serem o que são.

Mas calma. Se o caro leitor tem uma licenciatura à bolonhesa (reforma estrutural que como se sabe, se deve aos portugueses e ao seu estúpido desejo de sonharem com a lua) então pode ficar o caro leitor consciente de que as coisas nunca vão deixar de ser o que são. E é com uma rejubilante alegria e uma redobrada confiança no futuro que sou forçado a reconhecer que, na verdade, as coisas nunca vão realmente deixar de ser o que são. Ou seja, nunca os burros, estúpidos, arrogantes e irrefletidos vão deixar de pisotear tudo e todos com a boçalidade da sua ilimitada confiança no parco conhecimento que manifestam ter, e nunca os inteligentes, persistentes, talentosos e sensíveis vão ter uma passadeira vermelha estendida até ao longínquo dia em que se manifesta o seu génio. Estamos bem os dois, o homem esclarecido Nuno Abrantes Ferreira, no seu pragmático e espero que suficientemente remunerado triunfante estardalhaço, e eu, alf, o sonhador não desistente, a malhar no ferro frio da realidade, neste beco escuro, nesta oficina esconsa, nesta minha teimosia mal remunerada, mas sempre sonhando com a mais que justa, mas provavelmente tardia e inútil, consagração.

 
Cristiano Ronaldo, a chupar um chocolatinho enquanto sonha em mandar para o caralho os Nunos Abrantes Ferreira deste mundo.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

domingo, 26 de janeiro de 2014

Aviso à navegação, este vai ser um post lamechas.

Por virtudes dos tempos, estamos sempre ligados. É ve-los no facebook aqui na sala de espera. O twitter não me larga com bips (Alf larga aquela merda). Nestes últimos dias não tenho dormido. O meu filho adoeceu. O suficiente para nos deixar a pensar.  É difícil a vida. Atendendo às dificuldades. O raciocínio que já falta. O sono que suspira por melhores dias. Os filhos que fazem parte de nós. Extensões de mim para o mundo. E sinto-o a respirar aqui ao meu lado e sonho com um mundo melhor para ele. Estamos a ficar mais parvos com tanta rede social, mas nunca se soube tanto e tão rápido. Vocês, que nunca vi, mas que sabem de mim por aqui. Não sei para onde vamos e o que vai ser lá à frente no tempo. Tudo é relativo dependendo do referencial. O que sei é que amanhã é um novo dia e esta é mais uma noite. Vou voltar agora ao verdadeiramente  importante. E deixar-me disto. O silêncio sempre foi meu amigo.

Santa procrastinação.

Tenho tanta coisa que já devia estar feita há semanas, mas.... o espírito é forte, a carne é fraca. E descobrir bandas de metal no Youtube é bem melhor que ser um adulto responsável.

Um tipo começa no mainstream


 
escorrega, está no rap


e quando se levanta, dá por ele em Jaipur


sábado, 25 de janeiro de 2014

A linguagem C como suporte interpretativo para a compreensão do mundo


Este texto do alf levanta um ponto importante, e realmente a máquina (entenda-se as redes digitais e os recursos computacionais que lhe estão agarrados) pode ajudar os escritores a ter um pouco mais de dignidade profissional. E não é só no sucesso de um livro que a máquina pode ajudar, no amor  também. Aos mais deslumbrados com as maravilhas da técnica, não esqueçam que na origem estão humanos, a máquina está lá só para ajudar.

Mas o texto espicaçou-me o espírito. Como seria um mundo em que a literatura (entenda-se a palavra escrita nas suas variadas formas) tem um suporte predominantemente digital ? Um mundo em que quase toda a gente lê através de um leitor digital tipo Kindle ou Nook. Como seria este mundo ?

Caveat emptor: o que se segue é pura especulação, em que se olha para o passado da música e do software para se tentar prever o futuro da literatura.

Num mundo em que a literatura é consumida em formato digital, quase tudo quanto é livreiro, gráfica ou editora estão fechadas. Os custos de reprodução, distribuição e armazenamento praticamente não existem quando o produto está no formato digital e ocupa muito pouco espaço.

Em vez de livrarias, existem repositórios digitais onde qualquer autor pode submeter a sua obra. Por regra, os repositórios contêm pequenos textos (contos, poemas) gratuitos. A maioria tem publicidade entremeada entre os parágrafos, lá colocada pelos repositórios e totalmente fora do controlo dos autores. As receitas de publicidade revertem a favor dos repositórios. Os problemas da visibilidade do autor mantêm-se, apenas a edição e distribuição se tornam mais fáceis.

Nos repositórios também se encontram textos pagos mas a um preço bastante baixo, tipicamente um euro ou menos. A ideia é jogar com a lei dos números e vender em quantidade. Por exemplo, só o mercado para literatura em português tem cerca de 250 milhões de potenciais clientes. Apesar de alguns casos de sucesso, a maioria dos autores ganha tostões com os repositórios.


Aumenta número de revistas gratuitas, compostas por selecções de textos publicados num dado repositório. Apenas uma meia-dúzia de revistas atinge a notoriedade, promovendo uma competição feroz entre os autores para lá publicar. Com o tempo, a especificidade humana vem ao cimo e isto ou isto tornam-se a regra. Os editores das revistas são os únicos a serem pagos, os autores não recebem um chavo pelo seu trabalho.

A maioria dos autores tem um emprego estável, e publicam nas revistas apenas com o objectivo de aumentarem a sua visibilidade e o seu status laboral. Os jovens autores começam na universidade a publicar gratuitamente para abrilhantar o currículo.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Perdoa-lhes porque não sabem o que fazem.


mais aqui.

Mundo editorial não resiste aos ataques de alf e enlouquece subitamente.

Aqui, e aqui, onde aprendemos sobre a importância do «catálogo», do rosto, do input criativo, da energia mutante, eu sei lá. Questões financeiras é que nada, não se sabe, é segredo, é tabu, é proibido, o dinheiro conspurca, derrete a imaginação, corrompe os espíritos.

Com o devido conjunto de bandas sonoras nº 1, nº2, nº3 e nº4. Mas sobretudo esta e esta. Esta também é fundamental. Ou talvez esta.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Quando a máquina de fazer escritores enfrenta a máquina de fazer dinheiro.

As mina pira, ô ô
As mina pira, ah ah
Se fizé gostoso aí as mina vem pra cima


Este texto pede ao leitor a paciência do santo e a curiosidade do gato mas garanto aos bravos persistentes que no final se sentirão muito melhores pessoas, além de um claro rejuvenescimento da pele e descontos nos postos de abastecimento de combustível da Galp. Vou começar pela interpretação poética da epígrafe dos dois autores sertanejos, Ronny & Rangel. Os homens, como todos os organismos conscientes e dotados de memória, fazem geralmente uma representação interna dos problemas, e à cabeça de todos, representam sempre muito mal o decisivo problema da apropriação locomovida da beleza, ao qual foi anexado um mecanismo de reprodução, cuja lógica interna permanece em grande parte inacessível. Neste caso, calcula-se que perante a espora do desejo (presa numa bota cujo dono desconhecemos) o homem faz a singela previsão de que as meninas terão que ficar doidas para se poderem atingir alguns resultados, o que é desde logo duvidoso, e característico de uma sociedade, a brasileira, amanhada numa caldeirada de indígenas, africanos, aristocratas bovinos, belas italianas e voluptuosas germânicas, e catolicismos made in Portugal, mas adiante. Assumindo as premissas, é necessário fazer gostoso, ou seja, fazer de acordo com as intenções das meninas. Como isto é tão difícil como convencer Jorge Jesus de que não se vencem campeonatos com dois pontas de lança,  os homens são obrigados a esboçar uma ideia geral do que as mulheres consideram gostoso (os autores da epígrafe, «as minas pira», atiram-se ao dinheiro, o mais eficaz e flexível caminho para a satisfação de todos os desejos). Considera-se que perante a ação gostosa, facilitada pela disponibilidade de meios de pagamento, as mulheres virão para cima. Não desenvolverei os inúmeros perigos desta estratégia (e são muitos, são muitos) mas interessa-nos o que revela sobre o mercado editorial.

 
Partimos do princípio de que a intermediação do editor, garante ao processo de seleção de um texto, o atingir de um resultado gostoso. Como? O especialista sabe o que as meninas e os meninos gostam, e avançando com o dinheiro, garante o cumprimento de todas as tarefas mecânicas, incluindo os difíceis fretes da negociação com os meios de comunicação de massas, tal como o processo de elaboração física do livro. O pobre autor, à semelhança do macaco sovado pelo chefe do grupo, com os seus 10% debaixo do braço, vai lamber as suas feridas, satisfeito com a sua condição de pessoa de sucesso com franco acesso aos meios de comunicação, e um magrinho rendimento que o obriga a aceitar toda a espécie de tolices, incluindo cursos de escrita criativa. Não quero ser injusto. Sendo a edição uma decisão progressiva, em articulação com o esgotamento do stock nas diferentes livrarias, e uma leitura dos resultados das vendas, o editor pode ir alocando os recursos aos que mais vendem. Deste modo, estamos mais ou menos de acordo em relação à justiça do jogo competitivo entre os autores publicados, sobretudo em editoras de escala semelhante e com recursos para aceder ao mercado semelhantes (embora isto coloque desde logo petroleiros de problemas ao conceito de igualdade das condições de partida num mercado, e estou a pensar na esfíngica questão de saber se os resultados dependem realmente do mérito do livro ou de um outro qualquer fator crítico). Admitamos, em suma, que o mercado revela, com efeito, preferências reais de consumo. A questão crítica do sistema económico é outra, ou seja, os custos da matéria prima, os incentivos para diversificar a qualidade da produção de livros, e penso nos milhares de manuscritos inéditos, nunca publicados ou incentivados, e entre os quais poderão ter morrido incontáveis génios, mártires da racionalidade altamente limitada do sistema. A simples existência da rede digital não resolve o problema pois nada nos diz sobre a reputação. Para ultrapassar as editoras não basta automatizar o acesso ao texto, é preciso automatizar, em parte, a crítica. Aqui colocam-se dois bicudos problemas.


Por um lado, acreditamos que o escritor de mérito acaba por encontrar o seu editor. Nada mais falso, pois o falhanço das condições favoráveis podem levar o génio artístico às mais diversas práticas, desde a heterossexualidade à homossexualidade, passando pela criação de impérios do calçado, blogues de moda, comentário desportivo e incluindo a liderança política de grandes partidos do arco da governação. Podemos sempre dizer: temos pena. Mas neste caso, abstenham-se de falar no mercado como um elemento de justiça ou do seu serviço, nas condições atuais, à arte da escrita e ao livro. Por outro lado, as falhas de informação no processo tradicional de escolha dos autores, fazem com que os grandes editores persigam, com os seus afiados dentes, reduzir os altíssimos custos de varrer o conjunto dos potenciais manuscritos (imaginem as centenas de milhares, só em Portugal, que todos os dias enviam material inédito, algum, calculo eu, dolorosamente mau). Nada nos diz que isto tenha de ser assim. No entanto, perante a lógica de decisão instalada nas grandes editoras, os custos de análise dos candidatos (sempre a crescer com a democratização da escola) pressionam o processo de decisão e os editores atiram-se para a frente, quer pela capitulação diante de um cálculo apressado sobre o que o público gosta (sexo, espionagem, inquéritos policiais, conspirações, sentimentalismo) quer pelo recurso à visibilidade, a tão famigerada e aqui comentada plataforma (lunática) do autor. Daí a crescente solicitação a pessoas com personalidade pública firmada (na rádio, na televisão, nos jornais) para abraçarem o mundo das letras. Sem a devida crítica no processo de decisão, os editores tentam depois racionalizar as escolhas, uma das atividades cómico-trágicas a que me costumo entregar quando quero dar boas gargalhadas. Posto o processo em movimento, é difícil tirar conclusões claras sobre os fatores críticos mas não é preciso estar ao nível de Jorge Jesus para se perceber que estamos diante de um claríssimo confronto entre o conceito clássico do mercado, tendencialmente destruidor das grandes empresas (gerador de competição e de pressão sobre os efeitos de monopólio) e os esforços dessas mesmas grandes empresas para controlar a disrupção do mercado, e proteger o interesse e os lucros dos seus membros perante outros possíveis interesses presentes no comportamento dinâmico dos consumidores. Sabemos que a relação entre a escala das empresas e as dinâmicas do mercado é um dos mais difíceis temas da economia clássica mas a alternativa é continuar a galhofar perante a ideia de esgravatar, da lama, uns míseros 10% de um trabalho tão digno como qualquer outro. Não contem comigo para enriquecer o Pais do Amaral.


Uma das mais estimulantes atividades a que se pode entregar um ser humano, além da masturbação, é o sistemático combate às ressurreições inesperadas do mais arcaico e resiliente raciocínio explicativo de que há memória nos anais da evolução, ou seja, a ideia de que o indivíduo é inteiramente impotente (ui) perante o movimento da espécie.  Como corolário, vemos permanentemente ressuscitar a ideia de que a natureza encerra uma sabedoria de projeto capaz de garantir a sobrevivência dos humanos, projeto esse inacessível à racionalidade consciente de uma pessoa, ou de um pequeno grupo, ou de uma associação organizada entre todas as pessoas de modo a levar a cabo um processo de decisão. Vulgarmente, chamava-se a isto política, mas caiu em descrédito, precisamente depois das grandes ideias filosófico-científicas do século XVIII. Há também quem diga que foi a explosão tecnológica. Vamos devagarinho para que ninguém se aleije.


Para utilizar uma alegoria mitológica, quanto mais se brande a espada para decepar as mil cabeças desta hidra, mais outras mil nascem em lugar de cada uma das cabeças decepadas. Com efeito, para que uma falácia mil vezes repetida não se transforme num mistério da fé, é necessário vigilância, esforço e falsificação de hipóteses. Ao indivíduo só lhe resta uma racionalidade limitada para vencer os problemas na adaptação a um meio, por vezes hostil, e a relação entre nós, pessoas de bem, oscilará sempre entre cooperação e competição. Podemos fazê-lo à bruta, se continuarmos a esgalhar o pessegueiro da realidade, ou podemos pensar e criticar, de preferência num debate vivo e violentamente participado, sem respeito por qualquer forma de autoridade a não ser a lógica. Sabemos que o «mercado» foi um momento de fulgurante iluminação em que os filósofos de cabeleira e meias de seda avançaram mais um pouco na elegância da nossa adaptação a um ambiente, na época maioritariamente orgânico, mas temos estado de tal forma satisfeitos connosco mesmos que desde então temos assumido a postura do indígena dormitando à sombra da bananeira e continuamos a aplicar as mesmas soluções ao ambiente altamente artificial do século XXI. O problema é que uma visão superficial, e acrítica, do mercado, nada nos diz sobre os mecanismos que no próprio mercado reduzem o leque de escolhas dos consumidores e não estou a falar de teorias da conspiração. Utilizarei o próprio raciocínio da microeconomia clássica.

Desde o século XVI, os altos custos necessários para se imprimir um livro ofereceram às editoras um papel preponderante. O iluminismo setecentista é em parte o resultado do triunfo social deste mecanismo. Mais livros e mais baratos, e melhor eficácia na distribuição dos incentivos para escrever geraram qualidade e quantidade de informação, lançando sobre a crosta terrestre uma fantástica multidão de ferramentas. O livro apresentava maior proteção relativamente à replicação, rápida e a baixo custo, da informação, fortalecendo a produção de textos, e criando uma base económica para a comunicação entre as pessoas. Mas este sistema tinha limites, e esses limites foram estilhaçados pela escolarização do pós-guerra, no século XX, e sobretudo pela invenção do computador. 


O mundo digital facultou instrumentos de comunicação e facilidade de expressão, numa escala sem precedentes. O limite de textos que um leitor conseguia assimilar, ou a informação que um escritor podia produzir num dia, tinham uma aplicação direta no papel que a edição convencional (a escolha por um especialista amarrado pelo cálculo de risco) assumia na distribuição das oportunidades para escrever. E o preço a que a informação chegava ao leitor também limitava a possibilidade deste estar em contato com os textos de vários autores. Se estiverem sentados na vossa cadeira, posso afirmar uma novidade explosiva: neste momento, as editoras são o problema e não a solução. Os grandes grupos económicos com interesses na área da edição desunham-se para apertar a violência sobre direitos de copyright precisamente para travar a democratização económica, mais eficiente, do conhecimento.  Há toneladas de gordura nas editoras, e a solução passa necessariamente por organizações mais pequenas e mais eficientes, com menor taxa de lucro, e com maior remuneração dos autores, se quisermos utilizar o mercado para gerar mais competição, maior diversidade de produção de livros e uma posição económica mais estável no que respeita aos escritores, que são, em geral, filosófico-politco-económico e às vezes literariamente, tão burros como uma porta. Vendem a alma ao diabo por não acreditarem, nem durante três segundos, na força do que têm para dizer, entrando, como o burro engalanado, para esta vergonhosa procissão. Curiosamente, o único texto, em português, a que tive acesso, sobre a posição dos escritores nesta matéria, dirige o seu ataque aos autores que escrevem textos grátis (recuando medrosamente diante dos 10% pagos, em geral, pelas editoras) incapaz, compreensivelmente, de morder a mão de onde lhe chegam as migalhas. Não compreendeu o autor, apesar de economista, e pobre aliado do sistema editorial cada vez mais concentrado, que todos os autores, praticantes dos textos grátis, estão precisamente a incorrer num custo para furar a muralha de estrangulamento comunicacional montada pelos gigantes da edição.


Na verdade, o festival conceptual que dá pelo nome de mercado, quando aplicado à literatura, tem demonstrado à saciedade um volume infinito de confusões e deslocações estratégicas de teorias, pelo que, previsivelmente, os cientistas da computação resolveram desferir uma autêntico tiro de canhão contra a muralha das coisa serem o que são. Ora, um par de chinesas mais um nórdic@ resolveram cometer suicídio lógico e amandaram-se (grande palavra) à resolução destas dificuldades, e embora tenham falhado com estrondo, forneceram algumas contribuições importantes para a consideração do mais complexo problema do mundo, e começaram pelo que tem de ser, isto é, o sentido da linguagem. Peço a vossa indulgência para um citação em inglês:

Predicting the success of literary works is a curious question among publishers and aspiring writers alike. We examine the quantitative connection, if any, between writing style and successful literature. Based on novels over several different genres, we probe the predictive power of statistical stylometry in discriminating successful literary works, and identify characteristic stylistic elements that are more prominent in successful writings.


Traduzo o explosivo resumo das conclusões:

O estudo garante existirem elementos estilísticos comuns às obras de sucesso, pelo menos no âmbito do género literário, permitindo construir um modelo com surpreendentemente elevada capacidade de previsão (84%) do sucesso literário.


Isto não passa de autoilusão, como é evidente, mas veremos como as conclusões podem ser tremendas. A complexidade do problema dinamita, como é evidente, qualquer modelo estatístico de previsão do sucesso de obras literárias. A previsão aplicada a problemas desta natureza é o mesmo que tentar marrar em comboios (onde é que já ouvi isto?). O desconhecimento olímpico da semiótica e mesmo da literatura, sobre temas de linguagem e sentido, da autoria de cientistas da computação, revela alguma superficialidade na falsificação dos dados nos quais se baseia o estudo. É preciso estar um pouco cansado (pode ter sido o caso) para não identificar a gigantesca falácia implícita no estudo: a sistematização de características associadas aos melhores livros já filtrados pelo tempo, aponta, como é evidente, para confirmações do que o passado considerou como um sucesso literário. O que é muito diferente (pesar dos dados recolhidos começarem em Homero) de saber se essa estrutura de gosto, e a própria resiliência dos textos, se manterão, e se o sucesso não foi antes determinado por contextos institucionais (Universidades, Televisão e até as história editorial das próprias obras) tornando muito difícil extrair conclusões do conteúdo semiótico do texto. Para citar o exemplo mais elegante e espirituoso, Umberto Eco escreveu milhares de páginas sobre isto, e em momento oportuno voltaremos à interessante análise, apresentada no estudo, em torno de uma sistematização do «estilo de sucesso» a muito longo prazo.


Em todo o caso, este tipo de instrumentos merecem o nosso aplauso, pois expõem, de uma forma clara, o calcanhar de Aquiles do sistema editorial, isto é, o pouco investimento na procura da qualidade textual dos autores, ou seja, autores capazes de agarrar o público pela abrangência temática, versatilidade semântica, pertinência dos enredos, domínio do estilo e intensidade retórica dos textos. As editoras preferem incorrer em custos para controlar a informação, aliando-se aos meios de comunicação de massas, capazes de reduzir o risco da edição de um autor escolhido de forma semi-aleatória. Ora, este algoritmo, trabalhado pelas investigadoras da computação, poderia sintetizar o trabalho humano dos júris de concursos e dos esforçados editores (lançando ambos no desemprego e prestando assim ao país um serviço inestimável) convidando a um investimento desses recursos na edição de mais livros e no financiamento de mais autores. Não fujamos às dificuldades.


É certo que as editoras se desculpam com a sustentabilidade e por isso teremos de ser nós, pessoas de bem, a dinamitar a sua posição. Por um lado, a identificação de modelos rígidos e invariáveis poderia obrigar as editoras a descartar (ou pelo menos refrear) o elemento humano na decisão editorial, fornecendo maior competitividade, se reduzidas as distorções, sempre inevitáveis, das limitações humanas na escolha de potenciais escritores, e deixando aos consumidores uma maior parte dessa tarefa, pela convencional análise das vendas. Do mesmo modo, ao eliminar a excessiva interferência de intermediários no processo de escolha, e lembre-se que esta interferência se dá atualmente sem informação de qualidade, os autores receberiam, pelo preço de alguma preocupação com o aspeto mais comercial do processo (elaboração física e distribuição do livro) muito mais liberdade para jogarem o jogo das preferências do público, reduzindo as máquinas de produção de imagem dos escritores (propaganda). Na verdade, chega a ser embaraçoso, se não  ridículo, que os escritores se entreguem constantemente à autopromoção, e banalidades orais sobre tudo o que mexe, quando deviam sobretudo escrever textos. Ou seja, uma análise computacional transferiria a decisão, sobre os incentivos para escrever, mais diretamente para os consumidores, garantindo ao autor a marca de uma qualidade prévia (ainda que limitada, eu sei, eu sei, pelos critérios de sucesso do algoritmo) e oferecendo-lhe muito maior legitimidade junto do público. Em suma, seriam poupados avultados recursos despendidos com especialistas em edição, aprofundado a inteligência artificial do mercado. 

Duas consequências lógicas: os escritores, devido à maior rapidez e universalidade deste algoritmo para analisar os seus manuscritos, correriam a tentar um selo de garantia. Esquecendo agora as injustiças, que também existem (e talvez em maior quantidade) no modelo humano, isso geraria uma independência brutal do escritor, equivalente ao crescimento do seu poder e legitimidade para se autopublicar e não ficar apenas com 10%. Sem um algoritmo deste género, ou mais afinado, a publicação digital não representa uma solução ótima pois, no mar de informação, irá colocar nas mãos de um gigante editorial qualquer, a faca, o queijo e a broa de Avintes. A outra consequência lógica seria a tentativa de grande parte dos escritores para adequarem os seus textos ao algoritmo, de forma a passar, com boa nota, na máquina, o que abriria, por certo, uma oportunidade para massificar a verdadeira literatura popular, pois as pessoas, em critérios de exigência estética, obedecem melhor às máquinas do que a pobres autores e críticos como eu. Claro que teríamos que submeter-nos a uma máquina e não à Maria do Rosário Pedreira mas não estou certo de que: a) a segunda seja mais inteligente do que a primeira; b) a substituição seja necessariamente má.

Como eu sei que ninguém me leva a sério, chamo a testemunha nº 1 do processo, o senhor Italo Calvino:

«Neste sentido, mesmo confiada à máquina, a literatura continuará a ser um lugar privilegiado da consciência humana, uma explicitação de potencialidades contidas num sistema de signos de todas as sociedades e de todas as épocas: a obra continuará a nascer, a ser julgada, a ser destruída ou continuamente renovada pelo contacto do olho que a lê; o que desaparecerá será a figura do autor, esta personagem a quem se continua a atribuir funções que não lhe competem, o autor como expositor da sua própria alma na exposição permanente das almas, o autor como utente de órgãos sensoriais e interpretativos mais perspicazes do que a média, o autor, essa personagem anacrónica, portadora de mensagens, diretor de consciências, orador de conferências nas sociedades culturais. (...) Desapareça então o autor - este enfant gâté da ignorância -, para deixar o seu lugar a um homem mais consciente, que saiba que o autor é uma máquina e saiba como esta máquina funciona»."Cibernética e Fantasmas"

No fundo, estaremos apenas a afinar o problema de um sistema económico que sustenta a relação complexa entre a capacidade de análise de manuscritos e automatização de um juízo crítico. A extraordinária importância de incorporar uma máquina no processo prende-se com a capacidade de analisar milhares e milhares de manuscritos, minimizando as limitações de tempo e de memória do editor. Claro que o modelo dotará o processo de rigidez, mas eu pergunto se o modelo humano atual, baseado, por vezes, na total aleatoriedade, de gosto, de cálculo de probabilidades de lucro, e no peso da televisão, dos jornais e das rádios, serve melhor a consciência artística, o público e os candidatos a um rendimento na produção de textos? Claro que isto não é simpático nem para os autores comprometidos com este jogo arcaico e ultrapassado pelos computadores, nem para todos os que, na televisão, nos jornais, nas rádios, nas editoras, gravitam em torno do trabalho do autor. O problema é que o sistema está a matar a dignidade de uma atividade crítica, individual e coletiva, e é tempo de o amor à literatura, à leitura, à lógica e ao raciocínio, e à arte da escrita, desempenharem um certo papel na economia contemporânea. Estamos quase a ponto de poder dar um murro na mesa e dizer com Manuel José, treinador em terras do Egipto, e poeta popular: «ou há moralidade ou comem todos».
Julgo que o importante é continuar a questionar as limitações do atual modelo, antes de começar a vociferar contra as máquinas. Afinal de contas, não sabemos bem que espécie de máquina somos nós.