quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

O meu post sobre literatura

Há dias descobri isto. E parece que é mesmo a sério. Ao que parece são todos sobre o mesmo tema, o que é pena, mas tendo em conta o excerto de um deles:

"As she runs, leading it through a gauntlet of traps, the thrill of the hunt soars through her blood, leaving her wet with desire. When the angry T-Rex corners the huntress in a box canyon, it seems more interested in her wet womanhood than in her flesh."

diria que isto é espectacular. Alguns títulos:



Alguém compra e depois diz como é?

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

O melhor livro lido no ano passado.


Lido nos últimos dias do ano, por entre os sonos da minha bacorita.

E o melhor porque me conseguiu tirar do aconchego do meu conforto ideológico, num exercício de imaginação sobre um mundo digital diferente do que conhecemos hoje.

Desde há já largos anos que eu estava convencido de que a informação, e o acesso à dita cuja, deveria ser livre em nome do bem colectivo. E realmente o mundo parece estar melhor desde a vinda ao mundo da Wikipedia, dos torrents e mulas, e claro o software livre.

Mas e se toda a informação que nós produzimos (e senhores, vós produzis diariamente e em quantidade) fosse propriedade nossa? E portanto, comercializada por nós os donos, como outro qualquer bem e serviço?

Eu tambem vou alf, se houver lá disto.


A jovem em questão apresenta claramente um talento nato para a literatura, quando comparada com alguns dos abaixo mencionados.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Casulo.


Já falta pouco.

Será isto o luso-tropicalismo?



ou este

Falemos de jornalismo


Boa noite.

A única coisa a concluir do triste espetáculo a que o país se entregou durante esta semana, é a tremenda e coletiva falta de respeito das elites, dos jornalistas e das pessoas educadas, pela morte de Eusébio, uma pessoa exemplar, discreta, competente e simpática. Sem ponta de paternalismo ou ironia, acho que o descontrolo geral é a própria demonstração de que algo de relevante se joga neste triste evento, com o cruzamento entre o controlo dos eruditos sobre a cultura, a fantasmagórica sombra da estúpida herança deixada pelo Estado Novo, a roda livre da sociedade do espetáculo, e a humildade e inegável prestígio desportivo de um brilhante português nascido em Moçambique, uma antiga colónia do império mais arcaico e caduco do Ocidente moderno. Além do mais, lembro que o futebol talvez seja o mecanismo social mais democrático do mundo, e por isso, a única porta verdadeiramente mágica para todas as crianças pobres. Se a indústria do futebol gera hoje exclusão, seleção absurda e desigualdade, não devemos culpar por isso o próprio futebol e os seus mais brilhantes intérpretes, pois não representa mais do que uma amplificação da nossa condição trágica, marcada pela incerteza da trajetória individual e das verdadeiras razões do mérito. O que é muito difícil, confesso, é continuar a suportar declarações de pureza diante da tecnologia, por pessoas que todos os dias ganham a vida com essa mesma tecnologia, com o mediatismo, explorando até ao osso, o decrépito esqueleto desta moribunda sociedade do espetáculo, em programas irónicos, capazes de transformar os temas mais sérios em entretenimento saloio. Eu próprio fui arrastado pelo mirabolante circo da atualidade e não me contive diante da antropofagia jornalística. Em primeiro lugar, peço desculpa à família do Eusébio, pois era merecedora do nosso silêncio e contenção, pelo menos neste momento. Em segundo lugar, peço desculpa aos leitores deste blogue, por ter respondido a um comentário do Daniel Oliveira, quando muitas vezes não respondo às solicitações (frequentemente, muito mais inteligentes) dos anónimos. Se é verdade que seria deselegante não responder, tendo em conta ter sido eu o autor das duras (ainda que justas) críticas, não deixa de ser igualmente verdade que muitos anónimos têm ficado sem resposta. Só não apago o texto, abaixo colocado, e por incrível que possa parecer, por razões de decoro, pois apesar do tom nem sempre elegante, seria uma tremenda cobardia fugir agora a uma posição que mantenho, num debate bem mais importante do que possa parecer a um leitor mais desprevenido. Não estive à altura das circunstâncias, e não dormiria descansado se não viesse aqui reconhecer essa dura realidade. Como penitência, ainda hoje mesmo estareis a ler o post sobre o trabalho científico de Nabokov, retomando as águas tranquilas, constantes e ininterruptas desta fantástica ilha dos amores, o Elogio da Derrota.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Subir para os ombros dos gigantes: a mecânica estatística do prestígio virtual.

Nos intervalos das mais variadas coisas, incluindo raparigas que fazem saltar caricas com as mamas, este blogue tem refletido sobre os mecanismos de comunicação em massa, e para maior clareza analítica, tem recusado a espuma, manchada de petróleo, deste singular quotidiano, os ódios enquistados no alto da cabeça dos jornalistas, enfim, tem evitado a estrutura sociológica da nação. Ora, estes dias melancólicos foram palco para mais um desses sismos de notoriedade, nada mais, nada menos do que um sobressalto mediático no sistema blogosférico, o que constituirá, nos próximos meses, utilíssima experiência de laboratório. O caso conta-se em dez segundos. Um blogue excelente: Gremlin Literario; excelente e largamente ignorado pela matilha (chamo desde já a atenção do público para este magnífico texto sobre a cultura italiana, largamente ignorado). A dado momento, eis publicado, no referido blogue, um excelente post, de Margarida Bentes Penedo, sobre Mário Soares a propósito de Eusébio, um post bem escrito, intenso, claro, profundo, parcial (como deve ser todo o ponto de vista honesto, iluminista e democrático). O texto é transformado num fenómeno de fulgurante circulação nas redes sociais. Provavelmente (e arriscamos já um interpretação prévia sobre os dados acumulados por 35 anos de experiência da coletividade nacional a que pertencemos) apenas devido a dois simples mecanismos: a) o facto de um amplo conjunto de pessoas, onde se contam muitas particularmente influentes no país, nutrir um ódio profundo a Mário Soares; b) o facto de um outro amplo conjunto de pessoas, mas muito pouco influente no país, nutrir um particular ódio pela política, pelos livros, e por todas as pessoas que se assemelhem a leitores especializados de livros, o que por aleatória movimentação das coisas, sucede também ser o caso de Mário Soares, ou seja, um político odiado e espertalhão que, apesar de só por notável e profunda ignorância poder ser confundido com um homem culto ou lido, cruzes credo, acaba constantemente por ser tomado pelo povo como um intelectual. Quanto aos complexos labirintos da causalidade: pelo facto de a tocha ter caído sobre um fardo de palha não se deve deduzir que a tocha não tem ímpeto combustível ou eloquente brilho. Consequência: uma explosão de visitas, de impacto imprevisível.

Haverá nisto injustiça, casualidade, desproporção, mérito, mera repercussão das coisas serem o que são (olé)? Bem se vê como nos faltam conceitos (e se calhar coragem) para medir os movimentos do nosso mundo. Dizia um brilhante filósofo francês: estamos condenados a não compreender os textos produzidos pelo nosso tempo. Ora, neste nosso blogue recusamos aceitar essa condenação. Os textos do passado, filtrados pelo exigente e elitista Cronos, deus do tempo, são por nós amados com toda a força do nosso ser e entendimento. Os textos do presente são para nós o campo de batalha que nos recusamos a abandonar de mãos vazias. Por isso, é muito provável que os textos do futuro tenham algo da nossa trágica identidade. Acompanharemos o caso, como é da mais elementar justiça. E logo se verá se a curva de notoriedade pode ser forçada pelo mérito ou se está condenada à hierarquia autoritária, ditada pelo triunfo dos preguiçosos, vaidosos e ignorantes, sempre escondidos por esse enorme carrocel de feira, estridente e horripilante, a que chamam liberdade de informação.
Moral da história: ao contrário do que julgamos, não é o riso ou o raciocínio o maior abono de família da história humana. É o ressentimento contra os objetos do ódio coletivo. Sempre me pareceu que a humanidade estava fundada sobre uma espécie de bullying socialmente tolerado. Desconhecemos o quanto a raiva e ódio impotente sustenta uma grande parte das nossas instituições. Quanto a nós, declaramos guerra ao imediatismo. Morrer sim, mas devagar.


This Week's Visits
 
Evolução das visitas do blogue Gremlin Literário, antes e depois do post Era "só" um futebolista.

alf bebe mais uma que isso passa


segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Enquanto não redigimos o post definitivo sobre a obra científica de Nabokov, deixamos aqui um comentário ao glorioso coletivo de malucos russos, gloriosamente postado pelo Binary solo, com algumas notas sobre a importância de continuar a ler este blogue.

«Unfortunaly Russians today have completely lost their ability to kill tyrants»
Vladimir Nabokov

 
1.
 
«Os que têm olhos, ouvidos, nariz, percebem por todos os lados, a atmosfera de um manicómio e de um hospital, em todas as partes do mundo civilizado, europeizado.» Com esta profética e gloriosa frase, Frederico Nietzsche opera uma deslocação da sua potência satírica contra o ideal ascético que por todo o lado, sob a capa da virtude e da religião, ou sob a capa do humorista (o mais ascético de todos os indivíduos) fundou uma autêntica cultura do enfermo e do maluco. Temos três alternativas: a) fazer como Fernando Couto e Luís Figo, hoje, na missa de exéquias de Eusébio, e integrar o corpo místico de Cristo (cuja ressurreição está prometida para o último dia) comungando das mãos do sacerdote e esperando pela vinda da verdadeira vida; aquele que viu (eu) é que dá testemunho deste surpreendente facto; Luís Figo e Fernando Couto comungam do pão do céu; b) Fechar os olhos e mergulhar no abismo do vício, como recomendava Mário de Cesariny, o que no caso da nossa aquacultura particular, cujo maior vício é a gargalhada, significa transformar tudo em matéria risível e considerar a inteligência incapaz de produzir qualquer significado não irónico sobre o mundo, o que é, paradoxal e ironicamente, a maior vingança da literatura contra as pessoas que não consideram a literatura, encerrando o nosso triste mundo dentro de uma só figura de estilo; c) utilizar o maior espaço disponível da memória e uma parte significativa da potência de raciocínio para resolver problemas de organização e resolução de problemas no ambiente, mediante a colocação de objetivos, devidamente refletivos e discutidos com os pares, isto é, entregar-se ao tipo de atividades (múltiplas, radicais, profundas, plurais, não apenas irónicas, mas também irónicas) propostas neste blogue.



2.

Como é do domínio público, a nossa civilização foi erigida sobre um nobre fundamento: o relógio. Por outras palavras,  mal nascemos e logo aparece alguém munido com instrumentos de registo e trata de assinalar as horas e os minutos do evento, e tudo começa a adquirir um sentido organizado, dócil, mórbido. Quer dizer que sendo o tempo o mais escorregadio dos conceitos, é também o mais despudoramente utilizado e não há mecanismo com ambições de autoridade ou raciocínio castradamente lógico que não recorra à importância do tempo ou, pelo menos, às leis psicológicas decorrentes de uma suposta escassez do tempo, mesmo que para tal seja preciso continuar a fingir que as unidades mecânicas em contínuo movimento são um bom instrumento de medida desse fluxo irreversível e misterioso, a vida. Ou muito me engano ou a importância adquirida pelo tempo, precisamente no mesmo momento em que a civilização ocidental defenestrava a metafísica pela janela mais larga do seu edifício filosófico, deve-se a uma necessidade patológica de fugir à mais simples, aristocrática e, por isso mesmo, também a mais perigosa das questões, a saber, quem sou eu. Não terá sido por acaso que o romance (por excelência o género literário típico da burguesia doente e das pessoas assustadas pelo tédio e interessadas dos negócios) foi salvo in extremis, no início do século XX, por uma reconfiguração das conspícuas relações entre a medição do tempo e a importância dos eventos humanos, saldando-se os dois casos mais famosos (Proust e Joyce) por modificações de escala (diminuição no caso de Proust, aumento no caso de Joyce) no sentido de tornar irrelevante a vontade e as decisões humanas, o que serve ao artista como justificação da sua impotência social e política, ou mesmo como fuga desesperada à tortura da sua personalidade demasiado sensível (ou seja, impressionada por demasiada informação) e por isso dolorosamente confusa, pois o artista, tal como, de resto, o filósofo, revela incapacidade fisiológica para digerir o excesso de sinais: para onde quer que dirija o seu olhar, não vê senão os erros da sua vida. Por isso, põe-se a rir como uma freirinha histérica, e tem feito de tudo para justificar a sua crescente irrelevância. Que faz o povo de deus, tão aparentemente laicizado e independente? Vai atrás do artista. Pior, vai atrás do artista, do sacerdote, do médico, e do filósofo (tudo variações pouco especializadas do mesto tipo, o indivíduo ascético).  Deste singelo modo, não há nada que mais agrade ao meu temperamento recursivo do que o combate a duas sólidas características da nossa bem amada civilização do ecrã: a abjeta eficácia da imagem; e a mais estéril e  inútil repetição de estímulos às duas expressões mais básicas do sistema nervoso, as lágrimas e o riso. Para levar esse combate a bom termo, nada como o culto da preocupação estética no âmbito da resolução de problemas (tudo o que é contrário à utilidade do rebanho, com especial referência à necessidade de ordenar os objetos estéticos, trau) e a prática de um estilo que não tem medo de assumir a tirania do emissor (tudo o que é favorável à solidão do raciocínio e à atmosfera perfumada de baixa densidade humana, onde apenas são admitidas pessoas já falecidas e selecionadas, por mecanismo natural-cronológico - nunca menos de 30 anos, por motivos higiénicos - e sob a forma codificada da linguagem alfabetizada e impressa em livro, de preferência com mais de duzentas páginas).


3.
 
As nossas decisões sobre a importância de insistir na leitura de um texto longo decorrem, e posso avançar aqui com certo grau de segurança, do lento desenvolvimento social, e da sua penetração nas nossas disciplinas, desse belíssimo conceito científico: a seleção natural. Guardo para o próximo post o desenvolvimento deste assunto, para já, retenha o caro leitor a importância da diversidade dos organismos, sobretudo da sua morfologia mental, diversidade que não pode ser deixada apenas a cargo da variedade genética e cromossomática, sobretudo tendo em conta as limitações na taxa de variação de cada espécie. As nossas avós entregavam-se à repetição do terço sem a mais leve sensação de inutilidade mas não nos passa pela cabeça entrar na escuridão da igreja e dirigir o olhar doente para a luz do Senhor: bem sabemos como o homem comum procura essa outra fonte de conforto, o riso, eterno ressentido contra a circunspeção e a gravidade, já o dissemos, já o dissemos. Porém, estamos a ficar sem alternativas, caro público, a realidade parece uma excursão de peregrinos, com a sua clássica divisão entre os parolos religiosos e os pândegos inconscientes. Assim, meus amigos, fujamos destes cultores de uma ética de formigueiro, ou na melhor das hipóteses, de colmeia (sejam os cómicos ou os circunspectos) e pensemos um pouco mais diante da lâmina que nos encostam ao pescoço: a todos os queixosos, a todos os magoados com a vida, acaso somos nós os culpados do seu sofrimento? Acaso fomos nós os construtores das pesadas correntes com que se rodearam e sob as quais gemem todos os dias a falta de tempo? Fomos nós quem os convenceu da utilidade das generalizações, dos atalhos, das estradas seguras, da importância social do cálculo e das leis férreas da economia, a segurança, a previsão, a ferida, da qual se queixam todos os dias e que foram eles próprios a infligir à sua frágil carne? De igual modo, aos que não conseguem dar um passo senão movidos pelo caricato gosto da risada, pelo insólito e enjoativo culto de uma só figura de retórica, a ironia, sem pinga de talento para a metáfora, a perífrase ou a difícil e distintiva anáfora, perguntamos nós, se não se trata, nesse caso, de uma doença da linguagem, tão ridícula como a da Academia? Ou de uma espécie de esterilidade retórica, ditada por um fascismo do gosto (a comédia) e esventrada de todo o alimento racional por imposições de uma limitada concepção do tempo? Ou talvez se trate, deus nos livre, de uma tremenda falta de virilidade?


4.
 
O sentido de utilidade do tempo decorre da noção de finitude, e a noção de finitude acentua a preocupação com função das nossas ações numa economia individual das sensações, o que coloca no centro da tragédia diária a relação entre o que aprendemos (com os outros, com os livros, com o Eusébio) e a capacidade de sustentar as decisões da nossa vida, por isso nos agradam tanto as tolices, o humor, os vídeos de gatinhos, que atiram para muito longe todos os problemas decisivos, tremendos, distintos, rigorosos, humanos. Bem sei, bem sei, estamos muito perto da perigosa função do sacerdote (Gogol acreditava que a literatura estava fundada no sermão) mas, caríssimos leitores, e penso aqui sobretudo, e a eles me dirijo, nos génios da vida prática e da inutilidade de pensar ou escrever longamente sobre todas as coisas em geral: quem nos garante que ao rir de tudo e ao considerar todas as coisas como relativas e sujeitas à lei férrea da realidade (risos) que não estamos, com o culto do riso, a criar a mais tolinha das metafísicas e a fazer a mais ridícula figura de que há memória nos anais da história humana? Não quero dizer que o reino da mente não tem relação com a fisiologia, ou que os limites psicológicos do sistema nervoso não oferecem amplo fundamento para o culto da ironia, ou para uma teoria da decisão baseada numa economia de tempo. Mas ainda assim, teremos sempre que decidir entre ler um texto longo ou apontar os olhos de carneiro para um vídeos de gatinhos (venha de lá esse ilustrativo vídeo de gatinhos, caro binary) ainda que o intervalo de tempo disponível seja exatamente o mesmo. Todo o tolinho faz figura de inteligente, num contexto de absoluta irrelevância. Sobretudo, reflete uma orfandade de sentido, ao apontar para a desorganização irónica do real, e com isso, afirma-se como um desiludido com a queda do velho mundo. No nosso caso, não temos nenhum desilusão, nem especial vontade de rir, pois não vemos nenhum paraíso perdido, nem nenhuma relativização das coisas. O sentido sempre dependeu de nós, humanos. Podemos rir, é certo, e isso é já um sentido, mas para tal, convém que a ironia (que é sobretudo uma retórica do ressentido com a realidade) coexista com a reordenação da realidade, e nesse caso, a analogia, na sua forma mais eloquente, a metáfora, sempre foi a arma mais poderosa. O que difere, entre ironia e metáfora, é a nossa aceitação de um sentido para o esforço de criar algo de novo, o que pressupõe a capacidade de colocar a cabeça fora da máquina, abandonando a desilusão e o ressentimento. Assim, surgem dois caminhos diante dos nossos olhos: ou estamos a representar bem o problema e consideramos que ver gatinhos é muito mais interessante, e nesse caso, está tudo bem, ou não estamos a representar bem o problema e nesse caso, é favor continuar a ler este blogue nos próximos dias.

domingo, 5 de janeiro de 2014

A morte não existe, só o estilo.

 
A horas tardias, aqui vai o texto apropriado. Se Eusébio não teve inimigos (só dentro do campo) cabe-nos a nós, os intelectuais avessos ao «humanismo» e à igualdade abstrata, desprezados pelos pais da pátria e da constituição, odiados pelos pares, e insultados pela multidão ululante que, de forma não correspondida, amamos; cabe-nos a nós estarmos à altura do desafio: guindar o povo a um futuro melhor, mas respeitando os heróis do povo, amando o próprio povo na sua forma estética mais estilizada, que é, quase sempre, a forma do próprio corpo humano. 

Estamos a ficar sem heróis

Adeus Pantera. Bom jogo.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Entretanto no país de Gogol e Nabokov


atentem nos pormenores: tacos de baseball, garrafas de litro, bata e máscara de cirurgia. é tudo demasiado bom. estamos à tua espera mãe rússia.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Já estava quase a dormir à meia noite.

Não há melhor metáfora para a vida que acabar o ano a limpar a merda de uma fralda que explodiu e começar o ano novo a fazer sopa de legumes. Conclusões não as há, apenas que o tempo é sempre relativo, mas que nunca para, esse grande filho da puta.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Interlúdio em forma de espiral psicológica: «mas não correu bem».

Entretanto, dei de caras com esta frase de Gogol (abaixo transcrita) e tenho tido algumas dificuldades em manter a concentração, o que longe de constituir um abrandamento no ritmo de trabalho, tem promovido as mais férteis deambulações pelo domínio da sátira. Por último, e na impossibilidade de roubar tempo ao meu futuro ganha-pão (a literatura enquanto submetida às esplendorosas curvas de indiferença) deixo-vos um link para uma eloquente metáfora do meu último ano, sobretudo as duas últimas semanas, por motivos que não interessam agora ao caso.

Gogol, o grande: «Sei que a memória de mim será mais feliz do que eu, e os descendentes dos meus contemporâneos talvez pronunciem, com as lágrimas nos olhos, palavras de perdão à minha sombra.»

Este ano.

Devia fazer o que todos fazem nesta altura. Rever o ano. Olhar para o que se passou e pensar sobre isso. Diria que foi um ano intenso. E difícil. A família cresceu e agora são 2 para 2, que parecem a maioria das vezes um exército. Acabo o ano estourado pela noites mal dormidas. Apesar de tudo, os sorrisos deles compensam o mau humor e as olheiras negras como carvão. Foi um ano em que não fui ao cinema (mais um) mas graças ao andar para trás no tempo daquela caixa preta, consegui ver os filmes do Tarantino. Chego tarde às coisas, já sabem. Já a acabar o ano pude conhecer a Suécia, esse país que me fez pensar o que aqui estou a fazer, mas também me fez acreditar que não há nada como bacalhau salgado e porco com migas. Agora vou terminar porque a filha quer brincar e isso resume tudo o que se passou. Andamos todos ao mesmo, apenas queremos rir e beber um copo. À vossa, que para o ano há mais.


sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Também consigo ser erudito e essas merdas

Naturalmente, caro binary solo, depois de todo e qualquer post, bebem-se imperiais e assiste-se ao Sporting Clube de Cascais-Estoril versus Futebol Clube do Porto.

Como a imprensa portuguesa não garante aos cidadãos o devido esclarecimento sobre todas as coisas, somos forçados a sustentar, com a simples força dos nosso braços, o único suplemento literário da nação onde o peso dos cérebros dos colaboradores, todos somados, não é inferior ao peso de uma lata de atum. Se Eça de Queiroz escreveu sozinho um jornal em Évora, garantindo o conto, a sátira e a notícia, o que nos impede de prosseguir esta simpática tarefa, e recuperar uma imprensa literária digna das nossas leitoras e leitores, recriando o folhetim, uma atividade que formou penas tão vibrantes como Dickens e Flaubert? É certo que o ilustre futuro cônsul em Bristol era, na época, olimpicamente financiado pelo proprietário de latifúndios, Eugénio de Almeida. Porém, nós somos financiados pela generosidade das pessoas inteligentes e combateremos a sombra até a conta bancária o permitir. Depois, venha o dilúvio, a mim não me vestirão as calças de merceeiro. Na verdade, servimos o público, nada mais. Poderá haver casamento mais feliz, onde se junta o socialismo democrático e a mais pura aristocracia de espada? Pensemos em conjunto. Estaremos assim tão enobrecidos em espírito que já só consumimos prosa encadernada em lombada de couro? Vamos lá a percutir essas tabletes adquiridas por graciosa oferta durante o Natal e a comentar aqui os textos, pois nada de mais fértil do que uma boa polémica.


A todos os ansiosos, anuncia-se para breve o Capítulo II de O rapaz da periferia (António Antão e o nosso narrador, muito menos omnisciente do que seria desejável, ainda antes de dinamitarem as colunas do templo, isto é, ainda antes de se confundirem no tumulto selvático a que chamam a Universidade, atravessam o longilíneo e delirante salão festivo de uma candidatura política no nosso Portugal democrático, onde desde os laçarotes em papel crepe, passando pelas pirâmides de camarão em bandejas de prata, até aos suspiros apaixonados das secretárias administrativas em vários departamentos municipais,  tudo é motivo para o leitor fazer juras de fidelidade à importância da cultura como alucinogénio). Nada, nada, chiça. Na medida em que estou a braços com um estudo detalhado da obra em seguida ilustrada (tema a que não fugirei, lavrando um outro post alusivo, com pelo menos 12 números) não posso, por isso mesmo, fazer prognósticos, mas em verdade, em verdade vos digo, ainda antes do próximo ano de 2014 estareis a navegar virtualmente na rede plástica da minha massa encefálica.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

O que fazer depois do último post do alf?

Hoje de madrugada, enquanto no meu colo a minha filha tossia a noite de sono, pensei no que fazer depois desta posta (aqui em baixo). Imolar-me pelo fogo? Ouvir em repeat Tony Carreira? Nunca mais ler blogues porque apenas vale a pena este? Desligar o router e ficar a olhar a chuva que cai lá fora? Optei pela fuga para a frente, muito habitual em pessoas com a minha formação técnica. Assim, em vez de pais natais, fiquem com a história gráfica do menino Jesus. E já agora, um Santo Natal para todos os que andam aí fora à escuta. Over and out.

scorpiondagger:

- here’s my ‘life of christ’ in 10 gifs - 
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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Lamento muito, mas não há nada de mais triste do que uma imensa loja de brinquedos, cheia de crianças a apontar em silêncio, ou a chorar e vou abster-me, por hoje, de citar Charles Dickens.

Marcel Proust hesitou durante muito tempo sobre a natureza do seu discurso. Seria mais apropriado escrever um ensaio ou um romance? O primeiro texto publicado, em 1894, é uma simples queda, em roda livre, apesar de constituir, precocemente, uma excelente imitação da vida, uma lamentação cheia de considerações elegantes, um sem número de claríssimas demonstrações quanto ao rigor da observação, e uma necessária desorientação narrativa, típica do nosso mundo moderno. Mundo moderno que era já o seu, quando em 1914, diante da velocidade e da mecânica (as duas forças motrizes que estilhaçaram a ordem antiga, a ordem própria do mundo da cultura impressa) tentou publicar o mais extraordinário delírio lógico de que há memória na história da escrita com alfabeto.


Tal como todas as pessoas de coragem intelectual, Marcel Proust era de uma total desconsideração para com a sua própria segurança. Conta-se que empreendia religiosamente os seus passeios noturnos no meio dos bombardeamentos de Paris, para desespero da sua governanta e cuidadora nos derradeiros anos de vida, e só isto seria suficiente para dar nota da sua grandeza, o facto de ter concedido a uma criada (sempre usando de uma liberalidade que aprendeu com os Guermantes) toda a sua intimidade e favor material, precisamente no momento em que mais se afirmava a sua glória literária. A hesitação entre ensaio e romance não seria mais do que uma hesitação entre a consideração pelo público e o amor da arte, e nisto reside a única e terrível tragédia daquele que foi tocado pelo demónio da beleza. Assim, também as criatura forjadas nessa obra prima da consciência ocidental são, nas própria palavras do autor, «demasiado frágeis para quererem o bem e demasiado nobres para gozarem plenamente o mal, conhecendo apenas o sofrimento (...)» e por isso a investigação sobre o tempo perdido é a investigação sobre as mais diversas formas de queda no interior da própria vida. Palavras terríveis que nestes últimos dias me têm roubado o sono. Para onde estou eu a cair com tão avassaladora velocidade?
 
 
A consistência artística tem sempre qualquer coisa da coragem aristocrática e da robustez militar do indivíduo educado na elegância do combate. A fragilidade do escritor apenas comprometido com a beleza e o seu simpático mas restrito público, acaba por constituir, com o tempo, a mais eficaz força demolidora. Que força é essa, pergunta o leitor angustiado, parafraseando a conhecida canção de um desafinado cantor socialista e português? A força de quem recusa o tacticismo e não teme viver a sua vida, orientado por escolha forjadas no silêncio e no exame do seu próprio mecanismo mental. Sim, é verdade, qualquer um de nós pode fechar os olhos e recordar o sabor do seu bolo preferido, retomando uma tarde da infância, mas é preciso que essa tarde, e esse sabor, tenham sido companheiras de uma generosidade perante a beleza, é preciso que o tenham sido vividas por alguém capaz de sacrificar a sua vida diante de uma fotografia onde consta, finalmente, a imagem de uma mulher até então invisível. Uma coisa é o mercado, qualquer que seja o produto trocado neste mercado, outra coisa é a nossa sede de beleza e prazer e os sofrimentos implícitos na busca dessa beleza sempre demasiado distante. Agradecia que não se fizessem aqui especulações sobre o caráter adolescente desta economia, pois que outra razão existirá para que a paixão da mente, naquela alegoria grega, seja Cupido, o filho adolescente de Vénus? E que outra coisa senão isto, repete biliões e biliões de vezes o martirizado Oscar Wilde? E que outra coisa senão isto arrastou para a doença e a morte John Keats?
 
 
Quem está com Proust sabe que, na vida, só existe esta estranha triangulação: a beleza é o fim, e o prazer o único caminho para aceder ao inacessível  reino da beleza. Mas o resultado será sempre e irrevogavelmente um imenso e irremediável sofrimento. A literatura já foi clara a este respeito, quando as legiões romanas marchavam sob os frondosos bosques da Europa, as mulheres ofereciam flores e acendiam lâmpadas de azeite a pequenos altares perdidos nas orlas das florestas, e os homens não temiam ainda pagar o preço do exílio público pelo prazer de uma paixão terrível, nobre e magnífica. Um autor tão austeramente genial como Apuleio construiu uma daquelas labirínticas alegorias sobre a mente, numa época em que o dualismo psique/corpo não constituía um erro de tal modo grosseiro que levasse a negligenciar a nossa condição prática, e o texto do velho romano é tão claro quanto à necessidade de engenho, que é de fazer inveja a muitos cursos de engenharia. A definição da vida humana passa pela ciência do projeto e a literatura antiga consagrou-o, no seu desmesurado gosto pelo género literário na época conhecido por Metamorfoses: o segredo da vida era para os antigos o processo de transformação. Contudo, nós, ignorantes até à medula, a percutirmos como macacos as nossas tabletes luminosas, achamo-nos tremendos, julgamos ter atingido o pináculo da evolução mas temos produzido uma literatura, e um discurso em geral, que é de fugir. Todavia, temos esperança na vitalidade da juventude.


Na verdade, a bela Psique, a mais jovem e bela das três irmãs de um dada família, foi forçada, no meio da sua desgraçada paixão, ao ousar ver a cara do seu amado, a separar sementes, obter lã de ferozes ovelhas, e trazer água de fontes alcandoradas em penhascos inacessíveis. Pois o que é a vida? Cumprir com método, e uma programação apropriada (Psique é auxiliada pelo sábio plano de uma Deusa experiente) as mais terríveis tarefas e passar pelas mais absurdas e estranhas transformações (modificando as próprias regras de raciocínio e operação interna) e manter, apesar de tudo isto, uma certa coerência de processos, como dizem os jornalistas desportivos. Tanto Ovídeo como Apuleio (e eu não quereria agora dizer Jorge Jesus) sabem que a condição humana está sujeita: i) a uma cadeia de recíprocas ligações (ai, ai, a novidade das redes sociais) e a nossa forma é afetada pela adaptação a um meio e nessa adaptação, a forma do corpo e da mente será sempre função da relação com os outros (a teoria das populações, tão fértil na biologia dos anos 50 e 60 do século XX) e da relação com o meio; ii) as nossas relações com os outros determinam a nossa vida ou morte, o insucesso ou o insucesso da nossa vida; iii) o problema central dos indivíduos é por isso o da escolha entre a sobrevivência a todo o custo (mesmo cortando a cabeça, como nas práticas religiosas mais sinistras) ou da realização de um projeto de prazer, o que nos casos mais felizes, será sempre a combustão da vida na perseguição da beleza, o que constitui uma ética moral da mais fina estirpe, onde vão inscrever-se todos os grandes samurais da inteligência constantes da nossa breve história civilizacional. A este propósito, não gostaria de fazer grandes distinções entre as equações de Newton e os sonetos de Shakespeare: são duas materializações do mesmo tipo humano. Também aqui Apuleio tem uma palavra a dizer e fornece uma excelente teoria sobre a história tecnológica da iluminação. A luz artificial, na sua elegante expressão, deve ter sido inventada por certo apaixonado, quando pela primeira vez, inventou um processo de iluminação (a lâmpada de azeite) a fim de contemplar, possuindo durante mais tempo, e noite dentro, a mulher dos seus desejos.
 
 
Neste sentido, esta famigerada rede social, bem como todos os nossos toscos instrumentos não significam muito mais do que o prolongamento glorioso da nossa sede de beleza. Que a vida seja para todos os caros leitores e leitoras tão fértil de deslumbramentos como tem sido a minha e que a mão terrível do sofrimento possa ser indulgente diante da nossa condição. Amanhã celebra-se o nascimento de um desorientado samaritano mas autor do sábio aforismo que muito tem gerado esforços de interpretação castradora por todos os filisteus deste mundo: «são-lhe perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou». A frase é clara, meus amigos, a frase é clara, pois para quem muito amou a beleza, o sofrimento implícito nesse amor, constitui, por si só, uma coroa de santidade. Sabia-o Jesus Cristo, sabia-o Marcel Proust, e sei-o eu que tenho sido um mártir às mãos da beleza. A luta continua, cuidado com o bom vinho, pois preciso de todos os meus leitores e leitoras, sóbrios e aguerridos. Até breve.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Suspiremos, inclinando respeitosamente a cabeça, diante de alf, o sofredor.

 
 
 
Seguindo-se a minha prenda de Natal para o simpático público deste blog, sobretudo para quem gosta de ler em inglês, um link para o melhor livro de crítica literária de todos os tempos:
 
do inesquecível e genial Andrei Béli.

O Rapaz da Periferia. Capítulo I: 7-12.

Para o Capítulo I: 1-6 deslocar a setinha, suavemente e com arrepiante ansiedade, até aqui.


Capítulo I
 
7.
 
          António Antão hesitou diante do guarda-roupa, abriu uma das portas, espantou-se com a rotação das dobradiças, tantos anos sem um gota de óleo e ainda assim, que funcionalidade, mas também podia ter sido o seu pai, de robe castanho, deslizando com aquela estúpida latinha vermelha na mão, velando com imperial zelo por cada pormenor mecânico da casa. António Antão considerou irrelevante saber quem teria sido o responsável pelo desempenho das dobradiças (o que foi um erro, dizemo-lo nós) e passou a considerar as várias camisas, calças, calções, e camisolas de lã de muitas cores e feitios, em geral rotas nos cotovelos, a que se juntavam ainda antigos casacos de pano confecionados pela sua mãe, um cachecol tricotado, duas ou três revistas escabrosas, toalhas de praia desbotadas, e alguns jornais velhos, sobretudo desportivos. A roupa é um capítulo essencial da nossa existência, embora a catequese, hoje a braços com uma crise de conceitos, e os apresentadores da nossas televisões, em expansão sofrida, se esforcem por educar o povo no sentido contrário, mas depois interrompe-se a apresentação, seja na missa ou no estúdio, e lá vem um hino comercial, ladeado por trombetas de bronze, enaltecendo a robustez esplendorosa de umas calças de ganga, ou uma canção sinfónica, com formações corais e orquestras de sopros, assinalando as virtudes de um novo detergente. Porém, quem pode dizer que se tornou independente face à robusteza das calças de ganga e ao efeito divino do detergente?
          A propósito, já reparam nos nossos apresentadores de televisão? Aquela pele bem tratada em senhoras que já não vão para novas, o cabelo penteado com classe, o cuidado e a elegância das roupas, patrocinadas pelas mais elegantes casas da moda, os dentes de marfim, as mãos de imperatriz, as frases cadenciadas, a simpatia sem preço, a disponibilidade sem limite? E os homens, tão charmosos de fazer inveja a qualquer marido, com o cabelo grisalho, mas só até se ouvir o ai, ai das divorciadas, o porte moderado, a inteligência prodigiosa, a riqueza do vocabulário, e o cuidado com cada frase, pausada, enxuta, cristalina na forma como se dirige, como uma criada bem treinada, até aos ouvidos do telespetador, sempre atenciosos com as nossas viúvas, velhinhos e reformados, prontos a sorrirem para as mais desgraçadas criancinhas. Um regalo de saúde e serviço público.
          Na verdade, o volume de televisão naquela casa atingia níveis insuportáveis e António Antão, pensando-se a pessoa mais inteligente à face da terra, gostava de experimentar a paciência oriental na solidão do seu quarto (outra parvoíce, e bem o dissemos nós, enquanto partilhámos os bancos da Universidade, mas já lá vamos) e por isso, não captou o sentido de nenhum dos dois anúncios, nem das calças, nem do detergente, pois a sua atenção foi, de imediato, captada pelas cores vivas dos jornais no interior do roupeiro, notando-se o impressivo esgar de esforço na face de um jogador, o qual envergava uma camisola de competição de cor garrida, onde se destacava, apesar do movimento, da má qualidade da fotografia, do tempo passado sobre a impressão do jornal, e da confusão reinante no seu armário, o pequeno símbolo clube desportivo pelo qual sofrera um profundo desgaste emocional durante a sua infância, fenómeno tão destemperado e irracional como são todos os desgastes emocionais quando considerados em face de um juízo posterior. António Antão leu, a medo, a frase sonante atribuída a esse jogador, um jogador a braços com a justificação de uma derrota mais do que provável, pelo menos assim o considerou António Antão na época em que se desenrolara o jogo, e isto soube-o ao consultar, fechando os olhos numa fração de segundo, as centenas de juízos em torno da probabilidade de vitória e derrota nas centenas de jogos acumulados na sua memória, avivada agora pelo título da primeira página do jornal: «fizemos tudo o que foi possível». Não fizeram nada, pensou António Antão, e continuou a hesitar ainda durante um longo espaço de tempo diante daquele amontoado de roupa. Reparem que este «longo espaço» não vai acompanhado da unidade de medida, pois estou cansado destas eternas flutuações. Usamos o espaço para definir o tempo e usamos o tempo para definir o espaço, e ao fim e ao cabo, que sabemos nós sobre isto? Também o fetiche pelas séries temporais introduzidas na mecânica clássica deu origem a um enorme desenvolvimento da física e não é preciso estar sempre a fazer entrar os bombos e as cornetas por causa disso. Parto aqui do princípio de que o leitor conhece os dilemas da existência, e o poder viperino da recordação no dinamitar de todos os nossos planos de sossego interior, e por isso mesmo, não necessita que lhe deem lições sobre a vida interna da sua mente. Neste caso, sabemos que existe uma urgência para António Antão, um número de telefone para o qual se ligou e de onde se obteve uma resposta enigmática, através de uma voz bonita e quente, e deixemos por momentos o tipo de urgência, pois sabemos que é preciso sair de casa. Mas ninguém vai dirigir-se para a rua de pijama, ou mesmo nu, acabado de sair do banho, e com o cabelo ainda a pingar. Em geral, os escritores arrumam estas coisas com uma expressão do tipo «vestiu um casaco» ou, muito pior, fazem por ignorar que é preciso tomar decisões sobre o vestuário (o que se percebe quando constatamos de que forma os escritores aparecem vestidos nas entrevistas e nos festivais literários). Depois inventaram o fluxo da consciência e vai de relembrar avós decrépitos a gemer com doenças prolongadas, recordações da mãezinha a tocar no seu piano, ou os passinhos do bebé, do irmãozito mais novo, no soalho da velha quinta, as cores bizarras das mais esquisitas espécies de árvores perdidas em passados coloniais (mas estas pessoas consultam manuais de botânica?) a forma recursiva do penteado da tia, etc, etc. Lá está, mesmo nós, que não somos escritores, mas simples colegas de Universidade de António Antão (mas já lá vamos) acabamos por cair nestes fandangos. Todavia, no que respeita à articulação de uma camisa de flanela xadrez com umas calças de bombazina, nem uma palavra, quando estas, meu caros, são as verdadeiras tragédias de todos os dias, das quais depende, muitas vezes, a salvação económica das nações e a própria saúde dos povos.



8.
 
As mulheres, por exemplo, e António Antão pensava muitas vezes nestas diferenças de género, vivem este processo como um ritual de passagem, mas um ritual de passagem diário, em que a noite é a adolescência e a manhã o perigoso reino da vida adulta. Levantam-se a tremer da cama e contemplam o espelho, desesperadas por arranjar justificações para o que não gostam de contemplar nesse espelho, e ali ficam, paradas, como crianças desapontadas com um brinquedo estragado, outras vezes são cruéis com o próprio corpo e apertam-no em acessórios vários, escondem o rosto em substâncias pastosas e coloridas, outras vezes, estão inteiramente satisfeitas consigo, sabe-se lá porquê, e enfrentam com leveza toda a distorção exercida pela ótica sobre os objetos, a inclinação da luz aprofundando uma ruga, a tonalidade da lâmpada escondendo a face mais cavada por um sofrimento recente, outras vezes ainda, sofrem horrores com um mal calculado excesso de peso, a inadequação de um tecido áspero à forma do seio, a junção da anca ao particular corte de uma saia recém comprada por uma fortuna, um castanho-plátano que não combina com uns opalinos olhos verdes-paraíso, ou o estado envelhecido de uma camisola de seda, incapaz de reproduzir o brilho esperado; e após vários minutos de indeterminação, o tempo acaba por exercer a sua tirania e seleciona a opção mais recente, umas calças de ganga, velhas e rasgadas, e uma camisa branca, cheia de vincos mas austera, e é então que a mulher sai para a rua indiferente à roleta dos juízos e descobre, para justiça deste mundo selvagem, como é bonita, como é sempre e terrivelmente bonita para os olhos disponíveis a enfrentar o perigo dessa beleza.



9.

          António Antão talvez não esteja tão atento à relação entre o vestuário e as formas do seu próprio corpo, uma vez que não tem nesse corpo, que aliás detesta, o principal troféu, isto já todos sabemos, mas qual o homem que não sofre indescritíveis horrores no labirinto do prestígio? A roupa está velha, fora de moda, e António Antão sabe bem que se não pode aparentar estatuto, envergando estes farrapos, pois sem poder de compra, sem uma nota no bolso, não se pode apresentar o mais pequeno vislumbre do prestígio sagrado de uma marca minimamente respeitada e Antão sabe bem como é perigoso enfrentar olhares alheios sem a proteção dos símbolos. Contudo, a má sorte sopra onde quer, e o seu armário é um cemitério de improvisações. Podia agora aduzir vários exemplos, mas o próprio pediu-me encarecidamente, ao rever este texto, para não me perder em assuntos de uma sordidez sociológica inegável. António Antão viu uns ténis brancos, comprados inadvertidamente numa feira, as calças confecionadas pela mãe (onde já se viu isto?) e uma camisola azul turquesa de uma conhecida equipa de futebol britânica, mas esta foi comprada a um cigano, e terá chegado a Portugal na traseira de camiões guiados por delinquentes. Assim, não pode dizer-se que a camisola seja capaz de convencer alguém sobre as virtudes do seu portador, e dos ténis nem se fala. Por isso, António Antão está de pé e hesita. Irritado com o problema, regressa ao quarto e retira um livro da prateleira. Procura o ano de 1976, pois os textos desse livro estão ordenados por ano, e Antão lembra-se de ter passado os olhos por especulações que talvez agora sejam de alguma utilidade. Finalmente encontra: «Modeling Strategy Shifts in a Problem Solving Task». Senta-se na cama e deixa cair a cabeça sobre a almofada, e com o livro na mão, sustentado sobre a cabeça, o que faz doer os braços, ali fica deitado sobre uma manta grossa, muito parecida com as mantas tradicionais confecionadas pelos pastores do seu país, e lê com rapidez a argumentação do autor, um velhinho americano, académico versado em todas as grandes disciplinas do pensamento. Coincidência das coincidências. António Antão não sabe, mas nesse preciso momento, o autor do artigo encontra-se no último minuto da sua vida, depois de oitenta e quatro anos de uma virtuosa e espetacular combustão do cérebro, na tentativa de encontrar os limites do raciocínio, uma vida concebida e educada, no amor e na busca da beleza, por um engenheiro eletrotécnico e uma pianista descendente de alemães construtores de instrumentos, emigrantes como tantos outros, salvos pela furiosa beleza do continente americano. Ainda Antão na acabou de ler o curto texto e já o velhinho mergulha nas trevas de um inverno de final indeterminado, e António Antão observa, através da janela, um grupo de pássaros em direção ao sul, num movimento coordenado mas aleatório e, por isso, sente um arrepio na cabeça. A morte é, para António Antão, e desde sempre, sinónimo de uma imagem recorrente, contou-mo várias vezes, enquanto eu escondia o riso: ainda não fez treze anos e está sentado numa planície de gelo, infinita e bela, e existe apenas uma mesa e uma folha de papel. Não existe o medo, e o frio está muito longe de ser insuportável, embora sinta um pequeno desconforto, pois os dedos mexem-se com dificuldade, na tentativa de resolver uma equação rabiscada numa folha de papel. Embora sinta vontade de chegar ao resultado, sabe como é difícil, e por qualquer razão desconhecida, sente um prazer moderado conforme vai desdobrando os termos em linhas sucessivas, sem nunca atingir um efeito de clareza, cada vez mais cansado e cada vez mais insatisfeito com aquela linguagem exata, mas rígida, incapaz de expressar as sensações muito obscuras de quem tenta expressar um resultado exato. Nestas alturas, quanto António Antão sente a sua cabeça a mergulhar num abismo, o mundo dos vivos regressa à sua atenção, e acaba sempre por perguntar a quem esteja mais perto:
          - Que horas são?
          Mas julgará o leitor que eu tenho cara de relógio?



10.
 
          Sei bem o que leitor está a pensar, ou julgam que não sou eu próprio um leitor desconfiado? Os títulos em inglês, as especulações sobre os pensamentos de António Antão. Como sabe o autor todas estas coisas? Em face de perguntas sobre perguntas do autor sobre o que sabe o autor, o leitor abana a cabeça e procura expressar o seu cansaço. Lá vem outro com as especulações do costume. Nada mais errado. Por acaso, pagou o caro leitor alguma coisa por esta singela narração? Assinou algum contrato? Estará a tomar-me por algum telefonista vendedor? Então, tranquilidade, e sigamos a história absolutamente extraordinária de António Antão. Além do mais, que raio, se Tolstoi nos brinda com diálogos em francês, só porque a nobreza russa estava inteiramente vergada a um modelo cultural estrangeiro, e utilizava esse código encriptado para as criadas e os lacaios não capturarem o sentido das conversas, por que razão não posso eu ser fiel ao meu relato e descrever as coisas exatamente como se passaram? Se o artigo foi publicado em inglês, constante de um livro em inglês, e se o nosso herói aprendeu inglês na escola pública da sua cidade, e se depois foi forçado, sim forçado, a ler inglês na Universidade (mas já lá vamos) e se encontrou naquele texto em inglês algum conforto para os seus delírios, estarei eu interditado no que respeita ao uso de línguas estrangeiras, apenas para satisfazer necessidades de comunicação? Niet. Já que falo na nossa escola pública, aproveito para dizer que António Antão foi um aluno sofrível, muito interessado nas ciências pois, de alguma forma, as ciências franquearam o acesso a duas coisas muito importantes na sua adolescência: uma explicação sobre o funcionamento dos despertadores (o principal inimigo da sua infância) e um contato prolongado com o mundo das ideias, isto é, um mundo de limites vagos, onde as regras podem ser recriadas a partir da potência de raciocínio e da imaginação, sendo, por isso, um mundo onde os limites são definidos não pelas leis da natureza, mas pelos limites da própria razão, e estes, já o sabemos, são do mais elástico que pode conceber-se. Qual era mesmo o tema deste número?



11.

          Mal António Antão terminou a leitura do texto, sentiu-se animado de uma nova força. enfrentou o molho de calças e camisas munido de novos instrumentos. Entretanto, na sua mente, a voz do outro lado do telefone fazia voos rasantes sobre o horizonte da sua atenção, e nos intervalos, Antão tentava concentrar-se nas características da roupa. Mas agora tinha um método. Começou a falar em voz alta:
          - Escolher a roupa apropriada. Apropriada a quê? A causar boa impressão diante da rapariga detentora daquela magnífica voz (suave e bela) a rapariga com que falei agora mesmo ao telefone. Mas suave e bela porquê? Há algo de familiar nessa voz, por isso a suavidade e a beleza são sempre um reconhecimento. Familiar em termos de conhecimento da pessoa em causa ou familiar em termos de semelhança da voz da pessoa em causa em relação à voz de outras pessoas já conhecidas? Perante a impaciência, abandonar as rotinas de pesquisa - e António Antão, fechando os olhos recomeçou:
          - Escolher a roupa apropriada para apanhar o autocarro a tempo. Quanto tempo me resta? - e fixou os olhos no relógio, rodando ligeiramente o pulso: - Dez minutos. Dez minutos são suficientes? Se correr, claramente, mais do que suficientes. Mas estou mais velho, e não tenho feito exercício, além disso é impensável uma queda, ou chegar ao local combinado, suado e com a camisa encharcada. Mas qual camisa? Calma. Não posso cair, nem suar muito. Consultar situações semelhantes. No passado, dez minutos foram suficientes para escolher a roupa e apanhar o autocarro? Sim. Escolher roupa de imediato e sem perder mais tempo.



12.
 
          António Antão considerou uma segunda vez o problema da roupa, abriu a outra porta do armário e exclamou:
          - Meu Deus, como é possível perder tanto tempo com banalidades.
          Vestiu a primeira coisa que encontrou e já ia em corrida pela avenida, quando o autocarro colocou a cabeça amarela entre as fileiras de prédios, e preparando-se para aumentar a velocidade da corrida, António Antão reparou no cotovelo roto da camisola de lã. Indiferente, acelerou o movimento, e chegou a sprintar, tendo discutido a entrada no autocarro até ao último momento, atrapalhado por uma senhora, como dizer, africana (está bem assim?) muito sorridente, apesar do esforço, cheia de sacos de plástico carregadinhos com latas, frutas e outras mercearias, e um adolescente que cometia a proeza de se locomover cheio de roupa nas mãos, pois tirara certamente o casaco e camisola por excesso de calor, levando ainda uma mochila, e pendurados a tiracolo um saco com uma bola de futebol, e um segundo saco azul cheio de livros. Já no autocarro, o adolescente sentou-se junto da janela, naqueles bancos singulares que são a delícia dos melancólicos, e viu passar na rua a sucessão dos postes de eletricidade, o conjunto de letreiros luminosos, o olhar desesperado de um polícia, o caminhar diagonal de um cão, uma velhinha coxa carregada de mantas peruanas, uma rapariga em corrida com espetacular equilíbrio sobre o salto agulha dos sapatos, o dono de uma loja a vociferar com um chinês, e neste momento, o adolescente terá colocado os pés em cima do assento da frente e logo um reformado, que tresandava a lixívia, muito zeloso com o património público, resolveu interpelar o jovem:
          - Ouve lá, foi isso que te ensinaram em casa?
          - Estou a fazer algum mal? - respondeu o rapazola.
          António Antão resolveu intervir em defesa do rapazola e gerou-se uma interessante discussão sobre o futuro das novas gerações, a decadência dos costumes, a evolução do linguajar popular e mesmo sobre a pertinência de uma correta posição do organismo, sobretudo quando jovem, em face das péssimas cadeiras e condições de viagem da empresa de transportes coletivos. Intervieram em defesa do rapazola um desempregado e duas cabeleireiras. Estas duas senhoras eram por sinal bem elegantes, segurando em compridos dedos, de onde emergiam umas reptilíneas unhas grená, revistas de altíssimo conteúdo literário, onde podia ler-se uma interessante análise sobre o número de estaladas desferidas por um concorrente de um qualquer concurso televisivo no seu pobre e velhinho pai. Atenção, não estou com isto a criticar as camadas populares da nossa esforçada República, mas devo ser fiel aos factos. Aliás, as cabeleireiras, conhecidas de António Antão, mastigavam pastilha elástica. E que tem isso de errado? O leitor já reparou bem como certas senhoras mastigam a pastilha numa oscilação mandibular plena de elementos estéticos e desportivos? O que dizem sobre isto os nossos escritores e críticos literários? O que dizem sobre isto os nossos catedráticos de motricidade humana? E no entanto, é vê-las, de braços cruzados, prontas a disputar qualquer conversa, empoleiradas nos saltos das suas elegantes botas de mosqueteiro, casacos plastificados, azul-fluor e vermelho explosão, um só risco no contorno inferior dos olhos, e a voz estridente, em que existe qualquer coisa da esgrimista olímpica, mas sem o treino, só a tensão e o talento para o golpe, numa palavra, estilo.
          Intervieram em favor do reformado duas pessoas de raça negra, uma velhinha com um xaile negro tricotado e bochechas muito semelhantes a um bolo de aniversário e ainda uma jovem universitária, e a sua fiel amiga, que magoada pelo namorado, não parava de falar, e isto escutou-o António Antão, da tremenda coincidência do estúpido rapazola ser igualzinho, mas é que exatamente igualzinho, apesar da diferença de idades, ao parvo do namorado. Quanto aos dois trabalhadores negros convém dizer, mas com cuidado, como pareciam esculpidos numa pedra vulcânica de um planeta longínquo, e gargalhavam de pé, exibindo uma dentição magnífica. Em volta dos braços pendurados nas argolas presas ao sinistro varão do autocarro, as veias circundavam a massa muscular dos braços daquele dois pretos, como serpentes inchadas, em fuga por aqueles monumentais corpos e quanto mais travavam o riso mais as suas vozes guturais, entre a censura humorada e discreta da atitude do rapazola, feriam a atmosfera do autocarro com a boa disposição dos nascidos no continente africano. Como podiam rir daquela maneira depois de um dia de trabalho, não pode saber-se, mas pareceu a António Antão ouvir alguém pronunciar a palavra resistência. Não, não, é alegria pura, a única forma inteligente de sufocar a raiva e a injustiça. Entretanto, outro incidente veio agitar os passageiros. Uma das universitárias, a que seguia de pé, cheia de cadernos argolados e livros fotocopiados apertados pelos braços em cruz contra os palpitantes seios, estatelou-se no chão, em pleno autocarro, desmaiada. Ouviram-se gritos e suspiros, e logo acorreram três senhoras de cabelo armado e um desempregado, que pelos vistos tinha conhecimentos de socorrismo muito duvidosos. Passou os braços em torno da cintura esguia da rapariga e levantou-a lentamente, mas alguém gritou que se deviam levantar as pernas e não a cabeça. A pobre rapariga logo voltou a si, com um sorriso envergonhado, mostrando pouca vontade para retomar a atividade consciente, e a amiga, com as mãos na cabeça, resolveu dar um ralhete a todo ao autocarro, uma vez que a desmaiada não comera nada desde a manhã, e era já pelo fim da tarde. Ninguém conseguia perceber de quem era realmente a culpa, se da rapariga desmaiada, da sua família, que não dispunha de dinheiro em conformidade com as necessidades do estudo, dos serviços de pastelaria, maus, maus, maus, do sádico Professor que as submetera, e a uma turma inteira, a um exame exigentíssimo durante toda a tarde, ou dos nossos homens de Estado, habilidosos a comprar cursos em jantaradas enquanto as pobres universitárias desmaiavam nos transportes coletivos, e logo apareceram em frente da face descolorida da universitária desmaiada uma maçã, um bocado de chocolate já dentado, dois pacotes de açúcar com um aspeto imundo, e até uma sandes de presunto. Ouviu-se uma voz:
          - Estudar para quê? Quando esses malandros andam a roubar tudo ao povo - era o reformado.
          - Isto era enforcar aquela corja toda - sugeriu o desempregado com dotes de socorrista, mas logo alguém respondeu:
          - E compras tu a corda - e ficaram a pairar no ar as gargalhadas dos trabalhadores que ainda não tinham parado de rir.
          Mal a estátua esverdeada de um aristocrata libertador, embranquecida pelas leis da natureza, surgiu no ponto de fuga da avenida, António Antão levantou-se do seu banco, passou com cuidado ao lado das universitárias, reparando com a recém desmaiada mordiscava a maçã com umas dentadinhas pequeninas, e aguardou de pé, com um braço pendurado no sinistros varão, a  próxima paragem daquele paralelepípedo amarelo com rodas. Quando o paralelepípedo suspendeu a marcha, António Antão saiu para a rua, recebeu no rosto o ar fresco da noite, viu o rosto iluminado de uma bela australiana anunciando uma marca de perfume, reparou na foice da lua, tentou contar os mil olhos da noite, mas, cansado, baixou a cabeça e logo reconheceu a rua indicada no telefonema. Caminhou durante dois minutos, tocou à porta, e para seu imenso espanto, uma cara conhecida, demasiado conhecida, correspondeu, de repente e sem aviso, à voz suave e  bela, que por qualquer motivo estranho, não tinha reconhecido, naquele mesmo dia, pela manhã, talvez por surgir, junto das suas orelhas grandes e doridas, filtrada pela complexa rede de sinais com que as grandes empresas de comunicação vão explorando, sabe deus com que dificuldade, a frágil estrutura emocional das pessoas e a complexidade do mundo. Vieram abrir a porta.
          - Anastácia, és tu. Nem sabes, curioso, não te reconheci ao telefone e pensei que viesse ter com uma desconhecida.
          - Uma desconhecida? Estás maluquinho? Quem havia de ser? Mas não me pareceste surpreendido - disse a rapariga, muito bonita (pelo menos, eu acho) sacudindo uma madeixa colorida para trás do ombro direito, de forma a desnudar, com a devida justiça, a forma exata com que o esqueleto e a respetiva massa muscular evoluíram com particular precisão, contribuindo para um elevado momento da história natural da humanidade.
          - Ai não? Não te pareci surpreendido? Mas como é que sabes quando fico surpreendido? - perguntou António Antão.
          - Pelos vistos não sei, pois para isso, teria que saber em que momento ficaste surpreendido, o que pelos vistos não é fácil, pois precisaria de saber quando ficaste surpreendido. Entra, rápido.
          Não é muito importante saber, para já, como era a casa de Anastácia. A rapariga, vestida de forma simples mas atraente, uma camisola roxa, sem mangas, e calças de montar, não sofria das mesmas hesitações sobre vestuário, e a seu tempo se verá porquê. Pedindo a António Antão para se sentar, perguntou:
          - Leste o livro?
          - Qual livro?
          - Ora, qual livro, o que te ofereceu a tia Ermelinda.
          - Li cerca de vinte páginas. O livro é horrível, intragável, uma manifestação eloquente de realidade, e deus sabe como eu odeio quando a realidade resolve instrumentalizar a consciência de indivíduos com aspirações de sucesso imediato, e os leva a produzir monumentos dedicados a engrandecer a própria realidade.
          - Não temos tempo para teorias. Viste o código?
          - Qual código.
          - Caramba, pareces um macaco de repetição.
          - Não estou a perceber, Anastácia, pareces nervosa.
          Mas nisto, Anastácia colocou um dedo em frente dos lábios e pediu silêncio. Apontou para a janela, e António Antão viu através da cortina um vulto, num  movimento nervoso. Um homem de elevada estatura, deambulava, para cá e para lá, como se tentasse ouvir a conversa, e sem qualquer preocupação em ser notado ou ouvido. Anastácia chegou-se mais perto e perguntou num sussurro:
          - Sabes quem é?
          - Não.
          - Mas eu sei. É o meu pai, telefonou-me hoje de manhã, e diz que não vai sobrar sequer um osso inteiro desse teu esqueleto com que possa fazer-se um candeeiro de sala.
          - Anastácia, que brincadeira parva, estás a assustar-me para quê? Disseste que o teu pai estava na Ucrânia e não viria a Lisboa tão cedo.
          - Mas veio, desculpa. Agora é preciso fingir que não estamos em casa, não sei como descobriu a morada da Patrícia.
         Já anotarei alguns aspetos pitorescos a propósito desta Patrícia. Para já, saiba o leitor que o pânico se apoderou de António Antão. Nem quis perguntar por que descabelado motivo, dadas as circunstâncias, Anastácia o tinha chamado ali, para ir ao encontro de uma tragédia digna de um jornal sensacionalista da mais baixa categoria. Deixou o corpo deslizar até ao chão e sentiu o frio do mosaico. Não percebia se Anastácia brincava ou dizia a verdade, mas pelo sim, pelo não, uma vez que não a conhecia assim tão bem, limitou-se a cumprir ordens, e fechou os olhos à espera do que se seguiria, tal como o leitor, e considerou, por um momento, tal como o leitor, se aquela reação, a ser verdadeira, era ou não proporcional perante os factos da sua vida recente. A reação, posso dizê-lo, era mais do que proporcional e correspondia a um profundo sentimento de traição que o pai de Anastácia muito justamente alimentava naquele momento, brandindo os dois braços como se alimentasse a sopros de gigante, um imenso  fole, com que excitava para a fúria destruidora o crepitante fogo de uma imensa fornalha. Os factos eram terríveis e foram esses extraordinários factos, e a forma como chegaram ao conhecimento do pai de Anastácia, que me permitiram conhecer António Antão e acompanhar a sua posterior e atribulada aventura. Vou passar a contar-vos de que forma absurda conheci António Antão, num memorável dia de final de Verão, em que pela primeira vez cruzámos os portões da Universidade.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Inquérito ao estimado e atencioso público deste blog: é impressão minha ou este é o mais injustamente esquecido e subvalorizado filme de todos os tempos?

Despite dreams of achieving mainstream literary success, Dick’s only saleable output was a steady stream of science-fiction short stories. His life was plagued by financial trouble – a harsh irony given the many posthumous big-budget Hollywood adaptations of his work: Total Recall, Paycheck, Minority Report.


Entretanto, esperemos que haja juízo, de modo a travar a sequela que, pelos vistos, já se vai congeminando. Deus nos livre. Um grande momento de crítica, aqui.

Serviço público.

O melhor site do mundo já começou a colocar as melhores fotos deste ano. Fica aqui a primeira parte.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

E se O Elogio da Derrota fosse um blogue de maternidade, paternidade e questões associadas aos dilemas de viver entre fraldas, crianças e brinquedos?

Estou deitada, a dormir. O Ricardo vai buscar a Madalena para a nossa cama para depois a vestir. Ela aninhou-se, abraçou-se, deu festinhas e beijinhos. Eu sorri, ainda meio adormecida. E de repente, ela perguntou:
- Mamã?
- Humm.
- Ainda falta muito para tu morreres?

(Ora digam lá se não é uma bela forma de acordar)


Versão O Elogio da Derrota, sob inspiração da melhor versão da música mais apropriada para acordar em manhãs particularmente difíceis, e tendo em conta todos os tempos e todas as latitudes possíveis do planeta.


- Papá?
- Hummm.
- Ainda falta muito para tu morreres?
- Depende.
- Depende do quê?
- Depende do que estás a pensar quando dizes muito?
- Muito, papá, muito é assim como um dia de sol, na praia, que nunca mais acaba.
- Então já não falta muito.
- Oh, e eu?
- Tu vais continuar aqui, mas não faz mal, pois a vida é maravilhosa, e depois da morte, é como antes da vida, já dizia um senhor romano cujo nome rima com marreca. Já agora, diz-me lá, o que é que tu achas que significa morrer?
- Morrer, tipo, apagar, ser enterrado, desaparecer, ser engolido, estilo as bolinhas do Pacman, aquele jogo que me mostraste no outro dia, juntamente com a fotografia do Jorge Jesus.
- Ah, isso. Não tem problema. A morte é só a continuação da vida por outros meios.
- Como assim, papá, todos morrem, até nos jogos da PlayStation.
- Todos quem?
- Todos, os pais, as mães, os cães, os gatos, a Popota, o Nodi.
- Shakespeare não morreu.
- Isso é aquele senhor do brinco?
- Isso mesmo, cabelo ralo, rosto latino, gibão negro e golilha espanhola.
-  Os meus coleguinhas do infantário dizem que tu és esquisito.
- Como assim?
- Não fazes nada, papá, estás sempre no sofá com a cabeça inclinada para aqueles livros que não mexem e são muito descoloridos e dizes coisas melancólicas e complicadas.
- Belo uso da palavra melancólico, sim senhor. Como não faço nada? Olha ali aquele senhor, o Shakespeare, achas que ele fazia alguma coisa?
- Fazia peças de teatro, não foi o que tu disseste? A Professora da minha sala também faz peças de teatro para nós representarmos, de vez em quando, mas está sempre a correr de um lado para o outro, a suar muito, e as peças acabam sempre mal. A Julinha agride sempre invariavelmente (gosto desta palavra que a mamã está sempre a usar) o Bernardo e a Carminho, e eles choram muito porque têm inveja da Julinha que anda sempre com doces nos bolsos, enquanto a mãe deles não os deixa comer coisas com açúcar. É como naquela peça que me mostraste. Não percebi nada, estava tudo escuro, os ingleses falam muito alto, mas os gritos daquela senhora, como é que se chamava, a McBeta, parecia a Professora Fátima, quando o marido telefona lá para a sala.
- Vês, filho, isso é a prova de que Shakespeare não morreu?
- É o senhor do brinco?
- Sim, filho.
- Por que é que tu não usas brinco?
- Isso agora demorava muito tempo a explicar, mas lembras-te daquela peça sobre um Príncipe Dinamarquês?
- Sim, aquela da caveira, é fixe, papá.
- O Príncipe também faz perguntas, muito parecidas com as tuas, e apesar de o Príncipe viver muito triste, pois não conseguiu prolongar a memória do pai, e traiu os sonhos da mãe, e mesmo que a partir de uma certa altura, tenha desejado que já não faltasse muito tempo para morrer, a verdade é que ainda hoje vive, ao contrário de certos e determinados organismos biológicos.
-  Isso é muito confuso. Quer dizer que sou como um príncipe?
- É mais ou menos isso, filho.
- E quer dizer que ainda falta muito tempo para eu morrer?
- Quer dizer que esse tipo de perguntas mostra como estás vivo e bem vivo, pois ainda não te fizeram a cabeça (como o Príncipe, o Hamlet, que não deixa que lhe façam a cabeça, e desafia todos, e até se bate em duelo com um amigo, chamado Laertes, lembras-te) e quando já não puderes ou quiseres fazer essas perguntas, não terá muita importância se já morreste realmente, embora vivas, ou se ainda falta muito tempo para morreres, aí de forma definitiva. Bem, vamos vestir-te que o tempo é muito traiçoeiro e não podemos chegar atrasados à escola. E como dizia um escritor maneta e castelhano, hasta la muerte, todo es vida.
- Não percebi, papá.
- Não faz mal, filho, já não falta muito tempo para perceberes.

Hoje, ao ver o debate quinzenal, lembrei-me desta:


Desafio qualquer um a encontrar um gif melhor que este.


quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Isto resume a minha posição geral sobre o assunto, uma vez que me encontro interditado por motivos de imortalização da minha singular visão de todas as restantes coisas.

Aqui.

De caminho, também me senti hoje especialmente confortado com um aforismo bem esgalhado, a que apenas acrescentaria ainda um terceiro tipo de pessoas (uma espécie de terceira via para desesperados) ou seja, as pessoas que temem tanto o sofrimento e a morte que deixaram de se preocupar com o dilema e procuram ocupar a mente na leitura de livros.

Apelo também às pessoas espetaculares, para que nunca se esqueçam de nós (os pobrezinhos, situados abaixo das 100 visitas diárias) quando um dia estiverem no Paraíso.