quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
Ironia
«Os BMW vêm com uma prática espátula de carbono,
para descolar animais atropelados dos pneus ou da grelha frontal»
«Os artistas são todos mas é umas grandes... pombinhas; as que não morrem com bolotas (cof. cof.) entaladas no gargalo, levam, mais cedo ou mais tarde, com chumbo do grosso»
AM, num comentário ao mesmo post
Quem leu a incomparável tese de doutoramento de Kierkeegard sobre o conceito de ironia em Sócrates, sabe desde há muito o alçapão em que pode cair todo aquele que vê nas figuras de estilo - qualquer que seja o ponto de vista do escritor - um escudo eficiente contra os males do mundo em geral e da arte em particular. Um escritor banal como Henry James foi capaz de chegar à conclusão de que a única receita é gostar muito de cozinhar, pelo que tenho cada vez menos dúvidas - e o fortalecimento da minha convicção é proporcional às conquistas privadas que todo o dia imponho ao meu próprio carácter - sobre o que é isso de ser artista. Naturalmente, tal como um código funcional, o artista não pode definir-se sem um contexto apropriado. Qualquer que seja a função do artista, tem sido comum neste último século sublinhar a importância da ironia. Mas o prestígio adquirido pelo uso da ironia em relação a outros efeitos exuberantes e igualmente belos e profundos é apenas o sintoma do afundamento do indivíduo num ponto da história em que o triunfo dos sistemas complexos tornou aparentemente incompreensíveis os significados do mundo, o que é o mesmo que dizer que a era digital espera o seu criador de mitos (calma, estou a caminho).
O inevitável Northorp Frye fornece uma bela lista de comentários a diversos casos irónicos: Hester Prynne, em Letra Escarlate de Hawthorne (uma das mais impressionantes realizações de estilo), o Billy Bud do galáctico Melville, o Septimus de Mrs. Dalloway, da sempre confusa e atribulada Virginia Woolf (uma mulher de uma beleza física impressionante como diria Lobo Antunes mas a propósito dos homens, e porque já não encontra nada de mais original para dizer) os protagonistas das diversas histórias de judeus e negros perseguidos (o cego de Dorothy Parker pode incluir-se aqui) e finalmente os protagonistas das histórias de artistas cujo génio os tranformou num permamente Ismael da sociedade burguesa. A ironia é apenas o emblema sentimental de uma sociedade culpada que aceitou de uma vez para sempre que as injustiças são parte inescapável da existência.
Mas um artista (na perspectiva de uma pessoa que realiza a sua própria tragédia e a descreve à medida que vai vivendo) é uma pessoa que não teme o chumbo grosso (por isso há poucos), e também por isso jamais apertará a mão ao Presidente da República (embora nestes dias apertar essa tipologia manual possa ser meio caminho andado para levar uma chumbada) mesmo contra a receção do inevitável cheque, pois receber prémios e ironizar sobre o facto é muito feio e o artista não deve fazer a figura pouco viril de Thomas Bernhard. Um artista, do ponto de vista da minha obra como filho da puta, é antes alguém que dá um uso sistemático à espátula de carbono, em virtude do esmagamento massivo das coisas decorrente da velocidade implacável da sua mente, mas um esmagamento em que jamais se abdica do estilo, ou seja, o artista nunca abandona a ideia clara de que o tema da morte animal, ou qualquer outro, não tem qualquer importância a não ser como parte da sua obra. Parece que Proust gostava de torturar animais, o que é um sinal de absoluta distinção, e a mais clara marca da grandeza, o que imediatamente convoca o génio dos rapazes travessos perseguindo as moscas tal como os deuses nos perseguem a nós. Um artista é, portanto, uma substituição de deus. E toda a gente sabe o que acontece aos deuses nas histórias humanas.
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
Pequeno longo comentário a uma pequena tragédia em forma musical.
Exuberance is beauty.
William Blake
Nada como um assunto onde um homem especializado se sente manifestamente especial em manifestar a sua especializadíssima ignorância, isto é, não percebo nada de mulheres, nunca percebi nada de mulheres, e pretendo continuar a não perceber nada de mulheres, de forma a não estragar a frágil e perigosa passagem de caninhas atadas com fios de seda que nos permite aceder aos gigantescos continentes de prazer possibilitados pelas sempre repentinas, circunflexas e recurvas manobras dedutivo-psicológicas das pessoas proprietárias de um sexo feminino.
As pessoas que generosamente comentaram a minha incursão no conhecimento das Crónicas do Rei da Boémia desconhecem, infelizmente, e em absoluto, o encanto de uma pessoa que enfrentou as revoltas estudantis anti-Sarkozy na Paris de aqui há uns anos de que agora não me lembro, em virtude de decisões que faço o favor de ignorar mas que parece terem lesado relativamente em grande escala o panorama estudantil francês, tendo inclusivamente a dita pessoa em causa que mudar de sala - as escadas do compartimento universitário previsto ardiam entre pedradas e gritos - para defender a sua tese de doutoramento, um trabalho de fôlego (isto adivinho eu, em face da alta intensidade mantida durante toda a noite) em torno da conhecida obra de Jean Froissart, um menestrel e bardo, e uma pessoa espectacularmente capaz de inventar todo o mapa sentimental das dinastias centro-europeias mas que não acertava uma localização geográfica, isto segundo a minha bonita e fascinante interlocutora.
Serviam vinho branco, fresco, inebriante, capaz de induzir em poucos segundos aquilo a que os críticos italianos do Renascimento chamavam sprezzatura, uma fusão entre coisa e movimento, mas que num jantar de responsabilidade, a decorrer em simultaneidade de tempo com o sempre actualizado pelas novas tecnologias S.C. Braga versus F. C. do Porto, poderia culminar com um violento e potencialmente mortal, por todas as razões conhecidas e deduzidas, «ó Pinto da Costa, vai pró caralho», pelo que tive que dividir a minha atenção entre as aventuras de Leonel de Antuérpia, a filha de Galeazzo Visconti, e o enchimento imparável de copos de vinho que os empregados providenciavam com meticulosa sequência com o especial intento de me foderem os planos. Estava eu no mais profundo sentimento ficcional de Fogo Pálido (do sempre inesquecível e companheiro Vladimir Nabokov - uma obra prima gloriosamente ignorada por todas as pessoas em geral) quando a dita pessoa me confronta com um conhecimento assombroso das qualidades políticas de Joana de Brabante, obrigando-me a um contra golpe que apetrechei de forma canhestra com uma parva invocação da obra de Milan Kundera, um dos mais piores escritores de todos os tempos, e o mais desajeitado trunfo aproximativo sacado por uma pessoa semi-embriagada em toda a história da conversação cortesã da Europa Ocidental.
Quem, o escritor Francês? - perguntou ela.
Francês? - perguntei eu.
Sim, Kundera escreveu sobretudo em Francês, é um escritor de Paris - disse ela com um ar de quem tinha treze anos em Praga quando o muro de Berlim foi derrubado por uma horda de alemães embriagados. «Bem me parecia que devia ter lido o chatim do Kundera», pensei de imediato, fazendo um esforço homérico para convocar na minha mente ondulante o início do muito propriamente chamado romance, A Lentidão, em que uma gaja que nada na piscina, e o caralho, mas só via o Vítor Pereira, o Castro com as faces da cor do mar da Grécia e centos de pipas de vinho do Porto.
Esse gajo não denunciou um colega de trabalho durante a invasão soviética? - disse eu, sem pensar mas logo pensando, «merda, sempre esta minha mania persecutória», enquanto a frase desdobrava as suas asas negras e estriadas de fogo na monstruosa abóbada da sala sombria e repentinamente silenciosa. Respondeu-me ela de imediato, ainda trincando com delicadeza um pouco do veado com ananás gratinado em redução de vinho do porto (isto é a minha homenagem aos peixinhos da horta que aparecem entre os dentinhos das mulheres bonitas nos romances da Patrícia Reis) - Isso foi injusto - e sorriu comovida - foi um tempo de grande intensidade emocional, a polícia política, os interrogatórios - mas retomando a conversa, logo de seguida, certamente para não me deixar sofrer, e vibrando sem mais (ai de nós, que prazer) o golpe de misericórdia, já eu iniciava o meu processo de anestesia levando o copo de vinho branco aos lábios cada vez mais secos - além disso, os estudantes que denunciaram o caso, trataram o tema com grande insensibilidade.
Mas um bufo não é um bufo, qualquer que seja o contexto? - perguntei de súbito, engolindo de penalty o resto do vinho branco.
Esse gajo não denunciou um colega de trabalho durante a invasão soviética? - disse eu, sem pensar mas logo pensando, «merda, sempre esta minha mania persecutória», enquanto a frase desdobrava as suas asas negras e estriadas de fogo na monstruosa abóbada da sala sombria e repentinamente silenciosa. Respondeu-me ela de imediato, ainda trincando com delicadeza um pouco do veado com ananás gratinado em redução de vinho do porto (isto é a minha homenagem aos peixinhos da horta que aparecem entre os dentinhos das mulheres bonitas nos romances da Patrícia Reis) - Isso foi injusto - e sorriu comovida - foi um tempo de grande intensidade emocional, a polícia política, os interrogatórios - mas retomando a conversa, logo de seguida, certamente para não me deixar sofrer, e vibrando sem mais (ai de nós, que prazer) o golpe de misericórdia, já eu iniciava o meu processo de anestesia levando o copo de vinho branco aos lábios cada vez mais secos - além disso, os estudantes que denunciaram o caso, trataram o tema com grande insensibilidade.
Mas um bufo não é um bufo, qualquer que seja o contexto? - perguntei de súbito, engolindo de penalty o resto do vinho branco.
Estando a conversa neste ponto, uma mulher inteligente teria percebido a minha ignorância sobre todos os assuntos checos em geral mas uma mulher sobredotada percebeu de imediato que isso não tinha importância nenhuma e conversámos alegre e longamente sobre o mais recente título sensacionalista publicado em torno dos estudos de género nos Estados Unidos, The fall of Men and the Rise fo Woman. Foi um salto até chegarmos às implicações do romance de cavalaria na forma da novela e do romance moderno, aos príncipios de recorrência dos temas sentimentais, à crítica da estratégia dinástica tardo-medieval como problema político, à potência sexual do homem português (estou a brincar, disto não falámos), dos processos cíclicos do amor, e da deriva da repetição na natureza que torna o tempo intelegível diante dos nossos cansados olhos. Embora já me encontrasse movido a vinho branco, pensei logo comovidamente em Jorge Luís Borges - a forma do romance, que caralho, tão demasiado longa para os nossos olhos escurecidos e a merdosa brevidade da puta desta vida. Vivemos confusos entre rituais de origem biológica, o anoitecer, o crepúsculo, as fases da lua, solstícios, equinócios, nascimentos, iniciações desajeitadas, reproduções indesejadas e uma morte prematura e no meio de tudo isto, amplificando os horrores e os prazeres, o ciclo diário do sono ansioso e o regresso nervoso de cada despertar, a frustração sempre renovada, diária, do desejo e do triunfo, o despertar nocturno de uma personalidade que sofre a consciência titânica e que se debate com a vontade de domínio do que não conhece.
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
domingo, 2 de dezembro de 2012
sábado, 1 de dezembro de 2012
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
Nabokov revisitado no alfa pendular: ontem fotocópias, hoje jantar num restaurante de luxo rodeado de mulheres da Boémia, onde se falou de Gregor Samsa, minorias linguísticas e nobres checos enviados como embaixadores à Corte de D. Afonso V; é isto, meus amigos, a suprema e inexplicável complexidade da vida.
O Porto tem hotéis espectaculares mas nada se compara com a RTP Memória - o melhor canal de televisão segundo maradona - onde neste momento podemos televisionar um programa de 1997, intitulado Falatório, conduzido por uma desconcertante Clara Ferreira Alves, de farta franja enegrecida, lábios carmesim, saia de sarja, botins Gestapo e camisola de lã castanha de onde saiem desesperados dois colarinhos cor-de-laranja. A indomável jornalista apresenta-se bastante cordeirinha diante do então relativamente famoso José Cardoso Pires, estando este, por sua vez, na posse de um polo azul riscado a branco com colarinho vermelho e calças de fazenda, um blazer azul de tirilene, e acaba de dizer (salivando por entre a baliza formada pelo monumental afastamento dos dois gigantescos dentes da frente) que o grande escritor é aquele que não tem estilo, ao que eu respondo, exactamente a razão pela qual os seus livros correm dolorosamente para a morte e o esquecimento, ou seja, têm estilo a mais. Eis agora o grande momento. Pergunta Clara Ferreira Alves: como gostarias de ser recordado pela posteridade? Responde José Cardoso Pires: a posteridade é uma bela desculpa para os falhanços.
Pois é. Quem lê hoje José Cardoso Pires, meus caros amigos? Eu próprio, este monstro cultural que não trabalha, li apenas o Delfim - que larguei a meio, pois cheirou-me a etnologia barata - um pouco da confusão fantasiosa de Alexandre Alfa, e outras merdolas várias cheias de esforço erudito misturadas com calão barato, que também larguei a meio, não sem algum peso na consciência que, no entanto, desapareceu de forma milagrosa no dia em que constatei que Inês Pedrosa privava com Cardoso Pires e julgava essencial que os jovens escritores fossem obrigados a passar por Cardoso Pires antes de ingressar nos clássicos. A verdade é que Cardoso Pires, um homem temível na boémia lisboeta segundo reza a lenda, não deve ser responsabilizado por estas coisas, pois apenas procurou, como por exemplo o Tolan, ganhar a vida, mas não podemos, contudo, isentá-lo de uma verificação dos prognósticos a que a tecnologia se presta com admirável suavidade. Ficam bem os argumentos do sucesso enquanto o tempo nos assiste, mas a televisão conta entre os seus mágicos poderes também maravilhas como esta: um indivíduo que já morreu a cantar o seu canto do cisne - num canal temático e em vias de extinção - para uma posteridade que já o enterrou. Eu diria que o sucesso em vida é uma bela desculpa para as pessoas que ainda estão vivas mas quando a morte ergue a sua rebarbadora eléctrica e o ruído jubiloso da serra ecoa nas gélidas paredes formadas pelos nossos derradeiros segundos, apenas contará de nós aquilo que nos sobreviverá, pelo que teremos que aguardar por momentos a que já não poderemos assistir em vida e se também em morte a esse momentos não podemos assistir, palpita-me que nada nos resta - como num mau filme americano - senão fazer o que temos a fazer. Tenho muita pena de facultar mais uma decepção aos meus leitores comprometidos com a força da realidade presente, mas se nós não existimos no futuro, muito menos existimos no passado.
Permitam-me que recupere, deste modo, a questão colocada pelo Tolan aqui há dois ou três posts: a alternativa ao juízo crítico sobre aquilo que consideramos maus livros é a produção de um livro próprio nas prateleiras das livrarias com código de barras, ISBN, preço de venda e restantes parafernálias político-administrativas. Concordo, mas não sob qualquer circunstância: e é isso que eventualmente nos divide. Não será o preço da nossa dignidade dependente do tamanho da nossa inteligência? Não temam, que não perseguirei ninguém por transigir com os critérios do seu sucesso mas um diferendo que mantenho comigo próprio - que como todos sabem, são os únicos diferendos verdadeiramente mortais - é precisamente sobre se o José Rodrigues dos Santos, por exemplo, não chorará as lágrimas mais amargas na solidão do seu exílio nocturno, precisamente por ser proprietário de uma réstea de inteligência que permite vislumbrar, ainda que por breves mas dolorosos momentos, a inanidade do seu próprio triunfo. Todos nós temos sido, de uma forma ou de outra, escravos da delegação de Viena, acreditando com fastidiosa facilidade nos benefícios a alcançar por força das nossas pulsões de domínio sobre a realidade; mas quem garantirá que no mais feio e limitado entendimento não brilha uma centelha de clarividência, uma vibração de ilimitada liberdade criativa capaz de provocar a comoção do arrependimento ou pelo menos capaz de puxar à superfície um grito de protesto perante a insuficiência do que se é? É isso que define um grande escritor: não depender apenas dos seus próprios limites para julgar o valor do seu trabalho.
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
Epístola de são alf explicada aos comentadorissenses
No post aqui colocado ontem, enquanto procurava condensar a potência policial dos colhões parados de um padre qualquer, qualquer um que fosse - o que sempre constitui uma boa imagem da ineficiência moral - emergiu no meu sistema nervosa central a figura torturada do padre Amaro, tornando implícita a sempre obrigatória referência queirosiana, mas neste caso a partir de um romance totalmente falhado e cuja estrutura dramática, sensacionalista e paroquiana não tem deixado de apaixonar os portugueses, um pouco à semelhança do pobremente conseguido Os Maias, uma tragédia incestuosa que parece uma mistura swingada entre Almeida Garrett e Margarida Rebelo Pinto, sobretudo quando toda a gente sabe que A Ilustre Casa de Ramirez, A Relíquia, as Cartas de Londres, Crónicas de Paris e as Prosas Bárbaras são o que de melhor o algures na sua atribulada vida cônsul de Portugal em Newcastle nos legou como assistência espiritual possível neste pobre mundo.
Ontem passei a tarde a fotocopiar textos impressos, e isto no século XXI, ao serviço galante de uma prestigiada instituição comprometida na busca do conhecimento, o que faz de mim uma pessoa com uma acumulação incomparável de experiência transcendental. Os professores saíam e entravam nos gabinetes, as alunas saíam e entravam ao telemóvel da sala dos alunos, o sol resvalava nos prédios, depois nos toldos das mercearias, depois nos vidros das montras, e a fotocopiadora, implacável, em espasmos de luz verde, fazia o seu trabalho meticuloso: manobrar a minha consciência de acordo com um plano previamente elaborado nos gabinetes do destino. Não ocorreu nenhum episódio doloroso, não me cruzei com nenhuma face odiosa, nem com militares, nem pessoas de bicicleta, nem velhinhas de saco, nem adolescentes de lágrimas irrepremíveis (isso tinha sido na véspera). Apenas produzi fotocópias. E devo confessar que existe qualquer coisa de inefável em sentir a utilidade inconsciente de cumprir um plano previamente determinado. Se o leitor conseguir descodificar o título do livro aqui aduzido é porque já é Quinta-feira e, portanto, está tudo bem.
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
Razão: o grande momento das pessoas fodidas até à ponta dos cabelos por discursos opacos e mistificadores.
A fotografia abaixo aduzida oferece-me a oportunidade mediúnica para explicitar por que razão a utilização dos colhões do padre Amaro, naquela vertiginosa lista de coisas que podiam eventualmente assistir aos que requerem a apresentação de alternativas (confundindo-me de forma soez com o maior partido da oposição), não pode nem dever ser confundida com uma possivelmente díspar e semióticamente diversa aplicação dos colhões do padre Inácio ao efeito enumerativo do texto. É evidente que o padre Amaro ocupa no imaginário refundido da crónica portuguesa um efeito parecido com o que desempenham na arrecadação as esfregonas descabeladas por um excesso de utilização: já não servem mas há um misto de inércia sentimental e preguiça fisiológica que sustenta a sua permanência junto à máquina de lavar. Do mesmo modo, Eça de Queiroz representa no cérebro do homem português medianamente culto um prostituído e sobre-explorado vestígio de um passado de ódio à política e de crítica fácil e pueril à corrupção moral dos cónegos de província, um instrumento moralizante, de baixa rotação, sempre pronto a ser reivindicado pelo mais sabujo e ignorante dos escritores paroquiais, ou não fosse o mesmo Eça um gajo que na segunda juventude foi reponsável por um jornalito em Évora, conseguido para o jovem prodígio com a cunha do seu bastardo pai e o dinheiro facilitado por um empresário de sucesso montado nas costas dos burros alentejanos daquela tão triste época.
Já o padre Inácio remete para uma figura erudita, anónima, livre e serigaiteira (uma das mais espectaculares palavras da língua portuguesa e tristemente negligenciada pelos aclamados escritores de todos os países de expressão lusitana, incluindo os que pertencem ao recentemente estudado cânone angolano, monumental empresa literária que vi publicada recentemente à vista de todos nas prateleiras da Fnac e que tive receio de abrir não fosse eu deparar-me com o Ondjéky, ou Ondjiaky, ou Onddjaaáki, Ondjakyiii, ai caralho, Ondjaki, assim é que é, e sofrer uma comoção cerebral ao nível do baixo ventre. Dizia eu que o padre Inácio é homem para beliscar beatas se as apanhar de cu alçado no apresto das flores para a festa de S. João, ou passar a mão pela anca das viúvas catequistas (há sempre duas ou três) se as supreende a cortar açucenas para florir os suaves pés descalços da virgem, é homenzinho para desgraçar o casamento de uma paroquiana mais bovarizada e fugir para uma grande cidade, é menino para chamar o cónego Seabra e aplicar-lhe uma valente sapa no cachaço obrigando-o a reconhecer que o grande momento da razão foi quando Jesus Cristo percebeu a alhada em que se tinha metido, e entrou num processo de afrontamento claro da autoridade, convocando os amigos para uma ceia de taberna, e acabando no meio de um festival de chicote militar e chacota pública, desaparecendo, em estilo levitante, depois de ressuscitar ao terceiro dia, conforme as escrituras, depois de uma despedida condigna de Maria Madalena (ele era samaritanas, ele era mulheres que lhe perfumavam os pés para depois os enxugar entre cabelos de seda, ele era mulheres com vasta experiência e longo estudo misturado, e um gajo, aqui, exilado por uma adolescência feita de empurrar velhinhas do lar para a missa e da missa para o lar) desaparecendo entre legiões de anjos e deixando a malta toda à rasca com esse mega monumental momento da razão: o chamado negócio da China, que consiste na exploração sistemática do medo, da confusão e da fragilidade congénita das pessoas sensíveis e desarmadas perante os mistérios do mundo.
Não haverá carvão no Inferno que chegue para atiçar com propriedade os padres até ao fim dos tempos, em reposição da justiça, da verdade, dos bons costumes e das boas práticas.
Regozijemos na minha chegada, pois muito em breve, parto para o meu exílio na Babilónia
É importante, nos tempos que correm, ter o olho bem aberto para os apocalípticos profetas da desgraça que se esforçam para fazer passar o seu sound-byte no espaço mediático. Um deles, ou um dos seus discípulos, vai chegar ao poder em breve e convém ter já delineada uma estratégia para o combater.
A minha é a de sempre, aprendida à força de muito calduço na pública escola secundária de Pombal: virar costas e ignorá-los. O Daniel Khaneman tem uma teoria muito bonita para explicar porque é que eu sou assim, mas continuo a pensar que é uma influência subliminar da catequese de Domingo.
terça-feira, 27 de novembro de 2012
Às vezes, um alinhamento desfavorável dos astros obriga a que eu recorra por economia de tempo aos gratuitos serviços do Henrique Raposo, mas isto apenas e tão só para debelar uma questão elementar.
«Não há negócio como o das pichas moles»
Toxicodependente de muletas
e sem três dos dentes frontais na mandíbula superior, ontem, pelas 20h14,
junto à estação ferroviária de Vila Franca de Xira.
As autarquias não conseguem ter o chão limpo e o espaço urbano ordenado, mas fazem festas com os Xutos (quase meio milhão de euros) e com o Tony Carreira (quase um milhão de euros - só em 2009). Não tenho nada contra os artistas, mas tenho tudo contra as câmaras que desbaratam assim o dinheiro dos meus impostos.
No meu caso, tenho tudo contra as Câmaras, contra os artistas e já agora contra o anormal do Henrique Raposo que não obstante estas duas frases ligeiramente acertadas é um monumental parvo em tudo o que resta sobre a superfície desprotegida do globo. A todos os que confundem o mercado (conceito económico) com o mercado do Bulhão (conceito estúpido), venho relembrar que as escolhas dos consumidores num mundo sujeito às regras da física ditam sempre uma distribuição de valores, são sempre uma qualificação do mundo entre os bons produtos e o «lixo», como demonstra a singela, pressurosa e inefável existência de painéis de qualidade nas editoras (constituídas por professores conselheiros, conselhos editoriais, e todo um conjunto de merdas, ou o caralho que o valha) e não só qualificam como lixo aquilo que dezenas de leitores escrevem (ao não fazer da publicação uma competição sujeita ao mercado) como contribuem com os seus critérios de escolha e trabalho militante para o esmagamento da pluralidade com a multiplicação de entrevistas ao José Luís Peixoto (mais uma hoje, no jornal I) na vã tentativa para reduzir o gigantesco risco de editar uma merda numa área da qual não percebem um caralho, e em face do investimento inicial; simplesmente esses painéis de qualidade são ocupados por pessoas que não gostam nem de ler, nem de livros. A vida é simples, quando o tempo e a inteligência nos assistem.
Gostaria ainda de lembrar a todos seres vivos e organismos inanimados que nós não somos nada nem ninguém para criticar a aspiração do Tolan em se juntar aos medíocres mas já somos alguma coisa e muito alguém para criticar o alf em criticar a aspiração do Tolan em se juntar aos medíocres. A grande descoberta da minha vida - pelo qual serei imortalizado em estátuas de plástico vendidas em loja chinesas e sujeitas às mãos maviosas das adolescentes ou de bronze em praças suburbanas e sujeitas aos imaculados e naturalmente puros dejectos dos pombos cinzentos - reside na falácia liberal do mercado do livro. Se ninguém tem o direito de criticar as escolhas dos editores e dos comensais, então ninguém tem o direito de criticar as minhas escolhas e se eu decidir dedicar a minha vida a dizer mal do mercado, do José Luís Peixoto, do João Fernado Tordo, da Alexandra Eduardo Jacinto do Prado Lucas Coelho, do Pedro Mexia mas já não Mexe, de todos os que vendem mais de 50 000 livros, do Tolan, do Pedro Arroja, dos colhões do Padre Amaro, dos comentadores do Tolan, e tiver mercado que eu julgue suficiente para tudo isto, só vos resta chamar a polícia, os cães da polícia, o Marinho Pinto, as secretárias dos Tribunais, os Tribunais, os juízes e o Estado de direito, o código civil, o código penal, o senhor cónego Melo, a virgem de Fátima, ou então, aguentem-se caralho, que foram os senhores doutores que começaram por enaltecer as virtudes do mercado; eu sou apenas um humilde e fiel comentador (especialmente conhecido por só falar e não publicar a porra de um caralho) apostado em explorar a pluralidade das perversões, dos ressentimentos, dos gostos, das manias, dos génios.
Continuo a gostar de toda a gente e quero parabenizar sinceramente o valter hugo mãe pelo prémio atribuído hoje: viram bem o alcance grandiloquente deste gigantesco gesto grandioso?
Continuo a gostar de toda a gente e quero parabenizar sinceramente o valter hugo mãe pelo prémio atribuído hoje: viram bem o alcance grandiloquente deste gigantesco gesto grandioso?
Depois não digam que eu não vos avisei
«Le dame, i cavalier, l'arme, gli amori/ le cortesi, le audeci imprese io canto»
Ariosto, Orlando Furioso
A distribuição de oportunidades em face dos limites da racionalidade humana e da escassez dos recursos poderia servir de mote a este post, uma vez que os recursos são escassos precisamente em face dos limites da racionalidade humana, uma coisa que até uma Judite de Sousa ou um Medina Carreira seria capaz de compreender e que os economistas insistem em não conciliar na econometria de carpinteiro com que continuam a sustentar os seus delírios psico-normativos, mas dada a ausência de argumentos racionais - uma vez que as faculdades de economia em vez de trabalharem cientificamente os sistemas complexos preferem dedicar-se ao naming bancário de salas e anfiteatros - prefiro recorrer ao clássico mecanismo da disputatio, que consiste em insultar violentamente as pessoas a quem não reconheço trabalho, inteligência, imaginação, memória, domínio técnico para enveredar pela profissão literária.
Após a chocante confissão de Tolan (abstinência crítica dos medíocres com vista a futuro convívio entre os medíocres) resta-nos continuar a nossa aproximação perigosa à fronteira do anonimato perpétuo ou do apedrejamento público, laborando contra os mestres chineses que insistem em ter como lema de vida a ideia de que «no fundo todos querem é ir para lá, e no dia em que lá estiverem, aparecerá outro qualquer a insultar os que lá estão porque no fundo, no fundo, o que quer é chegar lá também», não sendo preciso aduzir petroleiros de explicações sobre o facto de este raciocínio ser não apenas bovino como a natural consequência dos resumos Europa-América sobre a seleção natural, como encerrar ainda uma contradição lógica insanável (se assim é, temos que aprofundar a nossa economia do insulto e nessa medida, vão chatear o Francisco Sá e Miranda e deixem-me insultar quem muito bem quero) além de uma clara concepção falsamente relativista da natureza humana, uma vez que, sim é verdade, não existe natureza humana mas sim uma natureza geral a partir da qual o humano vai sendo qualquer coisa que não é possível definir o que seja, pelo menos de forma estrutural, satisfatoriamente abrangente e imobilizada no tempo. Ora, a minha simpática personalidade continua a achar que nada temos de superior relativamente à clareza de raciocínio no combate às nossas dificuldades.
O facto de o Diário de Notícias disponibilizar gratuitamente contos portugueses de autores como Fernando Alvim ou João Tordo, já sabemos que não constitui um crime, que caralho, escusam de vir aqui às caixas de comentário dizer que está tudo bem, que cada um faz o que quer, que no final do banquete vamos todos para o céu, onde haverá mártires ensanguentados, trompetas de bronze, delícias eternas e raparigas giras, uma coisa onde os muçulmanos são manifestamente deselegantes com aquele critério apertado e farisaico das virgens, miúdas em geral muito chatas e como dizem os brasileiros, com nariz de «chefía». Julgo que foi Kant uma das primeiras pessoas de bem a ultrapassar o problema da separação dos níveis entre codificação criminal e julgamento ético, pelo que o problema da crítica artística se coloca ao nível do atribulada conjugalidade entre sistema de valores morais, eficiência do mercado e igualdade de oportunidades na competição.
A gratificação monetária ou mesmo a qualificação de funcionários do Pingo Doce como Fernando Alvim tem evidentes repercussões naquilo que as editoras estão dispostas a pagar para assinar contratos com tipos como o Tolan (não falo de mim porque o meu campeanto é rebentar com o Alvim e as editoras de uma só bordoada), que segundo julgo saber, demoraram 3 anos a escrever um romance, quando o Alvim ou o Peixoto o podem fazer numa semana ou em três dias ou numa hora. É verdade que Melville escreveu Moby-Dick em seis meses e em seis meses escreveu Calvino O Barão Trepador, mas isto apenas confirma que as editoras deviam estar mais concentradas no que fazem e menos no que julgam fazer. Ao modelar o conjunto dos autores segundo um determinado nível de discurso, os editores ou os jornais, ou o Júlio Isidro, estão a projectar uma dada margem de lucro, e a selecionar uma preferência que o público não escolheu e é inteiramente falacioso dizer que as editoras publicam de acordo com as preferências do mercado, porque a formação de um negócio em equilíbrio implica desmutiplicação de mercados, desde o recrutamento do capital humano à distribuição das matérias primas.
Ora, o mercado da redação de livros, isto é, a seleção de um escritor potencial, permanece regulada por um sistema baseado no domínio tecnológico do australopiteco, o que não só contribuirá para o enfraquecimento do livro como objeto cultural, como ditará o fim da editora como modelo empresarial, uma organização que continua a ser vista pelas pessoas espectacularmente sapientes na sua calma conservativa em molho de tomate, como uma black box (uma merda que até os economistas já compreenderam) sem consequências para o preço do produto ou para o tipo de serviço que o mercado presta na distribuição de recursos. Não falo sequer das consequências para o estreitamente dos assuntos, do estrangulamento da abordagem, do definhamento do estilo, da redução da imaginação, do empobrecimento dos temas, é entrar numa livraria e anotar a predominância do rosa choque. Ou então, também podem comprar a Viagem no interior do Segredo que viaja secretamente, de José Luís Peixto para anotar logo na primeira página uma espectacular, imaginativa e fértil associação entre o ódio, o perfil de ferro, e a disciplina do militar comunista.
Ora, o mercado da redação de livros, isto é, a seleção de um escritor potencial, permanece regulada por um sistema baseado no domínio tecnológico do australopiteco, o que não só contribuirá para o enfraquecimento do livro como objeto cultural, como ditará o fim da editora como modelo empresarial, uma organização que continua a ser vista pelas pessoas espectacularmente sapientes na sua calma conservativa em molho de tomate, como uma black box (uma merda que até os economistas já compreenderam) sem consequências para o preço do produto ou para o tipo de serviço que o mercado presta na distribuição de recursos. Não falo sequer das consequências para o estreitamente dos assuntos, do estrangulamento da abordagem, do definhamento do estilo, da redução da imaginação, do empobrecimento dos temas, é entrar numa livraria e anotar a predominância do rosa choque. Ou então, também podem comprar a Viagem no interior do Segredo que viaja secretamente, de José Luís Peixto para anotar logo na primeira página uma espectacular, imaginativa e fértil associação entre o ódio, o perfil de ferro, e a disciplina do militar comunista.
É verdade que insistir nesta audaciosa empresa é em si mesmo um motivo de canto, de tão surdos são os ouvidos de um país com um consumo de livros per capita ridiculamente baixo. Gostaria de saber por exemplo quantos livros compram por ano as pessoas que fazem a apologia da preferência dos consumidores e da liberdade de publicação dos autores oferecidos gratuitamente pelo Diário de Notícias. Já dizia o Professor de filosofia moral da Universidade de Edimburgo, Adam Smith: adoramos ser liberalmente generosos com o pilim dos outros, mas insistimos em ser extraordinariamente cautelosos com o nosso guito.
O treinador como forma de nos tornarmos deuses
Hei-de voltar à China quer seja como treinador de futebol quer seja como ser humano.
Jaime Pacheco, em entrevista à Antena 1, via pmramires
Jaime Pacheco, em entrevista à Antena 1, via pmramires
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
Perder ou ganhar, tudo é derrota.
Ensinariam os manuais de micro-economia se fossem capazes de ensinar alguma coisa que a melhor forma de combatermos a asfixiante garra de realidade implícita em qualquer situação crítica é não mexer sequer um dedo contra aquilo que dita a nossa memória operativa, o que é o mesmo que dizer não penses, não faças força, não mexas, não controles e continua a adaptar-te tal como tens feito maravilhosamente até aqui. Acontece que para aquele que comeu da árvore do conhecimento vem a caminho uma grande chatice, e desde a descoberta da seleção natural temos assumido vários e ridículos compromissos com a descodificação da natureza a fim de repetir o que a natureza nos pede que sejamos, o que a mim me parece algo parecido com um cão a morder a própria cauda, só que neste caso com um efeito mais engraçado.
A Porto-editora, fazendo fé no argumento da quantidade, lembrou-se agora de vender caixotes de maus livros com vista ao estímulo da curva de rendimentos dos livreiros, e decide, desta forma, espetar com o valter hugo mãe num cadeirão a sugerir um controlo sobre as nossas preferências - o que me pregou um susto de morte durante o televisionamento do espectacularmente doloroso para a minha pessoal experiência, Milão-Juventus, um jogo em que Van Basten foi aplaudido de pé durante a contemplação de um conjunto de imagens disponibilizadas no placar electrónico de San Siro naquilo que terá constituído, quando for reconstruída meticulosamente a biografia deste autor, um dos mais significativos conjuntos de estímulos dolorosos intermediados pela televisão, na economia da minha sensibilidade imagética, um acontecimento capaz de fazer disparar neurónios desde o inesquecível trio holandês da equipa italiana até ao assassinato de Corrado Cattani à porta de um hospital de Milão, isto depois da sua trágica experiência palermitana como jovem comissário e representante do poder policial do Estado. Os polícias que representam o respeito pela lei democrática continuarão a ser metralhados pela máfia (a sentimental ou a outra), o mundo continuará a ser misterioso, as coisas continuarão a ser naturalmente o que são e as pessoas continuarão naturalmente a fingir que possuem toneladas de classe na aceitação das pequenas derrotas e humilhações, enquanto todos os dias conspiram contra a disposição natural das coisas (só que na sombra) porque afinal de contas, mudar a trajectória da queda em público, mais do que constituir uma violência sobre as leis da natureza pessoal da nossa visão dos problemas, exige não só um certo cálculo dos impactos como uma consistente capacidade para os apresentar e justificar de forma elegante.
sábado, 24 de novembro de 2012
Enquanto vocês andam para aí a falar do Arroja e assim.
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
Sou uma pessoa de coração puro, formei-me na Ilíada, na desgraça, no contacto com o perigo e as coisas belas.
Em suma, os argumentos esgrimidos sinteticamente pela Izzy e mais demoradamente pelo ngonçalves concorrem para a mesmíssima e elegante idéia, a saber, que não nos devemos preocupar com os malucos, que o país precisa de malucos, que à semelhança dos pobres, malucos sempre haverá, mas a mim só me tereis por mais alguns dias. Sim, é verdade, mas não constitui um programa para a nossa ética discursiva. Prometo que vou responder com brevidade a esta solicitação e sem recorrer a personagens do Terceiro Reich. Ora, eu sou uma das poucas pessoas que ainda acredita nas virtudes do debate, no método científico, na importância da identificação de falácias e no combate ao carreamento de doses maciças de ignorância para o debate público. Longe de mim advogar o amordaçamento de pessoas tão criativas como o maluco do Pedro Arroja (peço desculpa) mas se regressarem ao seu blogue verão que não só é um indivíduo que mete medo, como o centro de propaganda que dirige recebe uma média de mais de 900 visitas diárias, enquanto este estupendo, bem informado, crítico, ponderado, imaginativo e internacional blogue continuar a manter-se com muita dificuldade pouco acima das 100 visitas diárias. Se eu acredito que isso diz alguma coisa sobre a qualidade da nossa vida pública, intelectual e genital? Sim, acredito. Se eu acho que devemos cinicamente enterrar as nossas capacidades numa espécie de inexistência perante o facto das coisas serem o que são? Não, não acho.
Depois de ver o discurso do Professor Doutor Almirante Capitão Comandante Geral e em Força das Tropas, Tanques, Espingardas e Furgonetas Militares, Aníbal Cavaco Silva, depois de assistir ao delírio argumentativo anti-policial dos comunistas, depois de assistir ao debate parlamentar sobre a pertinência de esfolar ou não esfolar o Marco António Costa no caso de uma revolução popular, penso (e atenção que eu sou daqueles que penso) que não é o tempo para a paz, como diz o Livro do Eclesiastes, nem o tempo para deixar os malucos à solta como acaba de dizer este post. Que falem, sim senhora, mas que tenham a resposta em conformidade com o seu grau de maluquice, afinal de contas, eu gosto muito de proporcionalidades, pelo que por cada post em que se refira Jesus Cristo, ou o Padre Gonçalo Portocarrero de Almada, deviamos nós postar aqui a sua justa complementaridade. Já agora, que é feito da Kylie Minogue?
Mesmo na Flandres, e depois de calcorrear metade de Bruxelas à procura de um poiso a preços razoáveis, ainda tenho que vir aqui dizer o óbvio, que se lixe, descanso quando morrer.
Um tipo como o alf não deve cometer erros de amador e deixar o flanco mais aberto que uma puta do Intendente quando por breves instantes de insanidade, é certo, e logo a seguir explicados, que eu percebi o que ele quis dizer e não vale a pena entrar em mal-entendidos, quando, dizia, pede uma mesa censória prévia aos Pedros Arrojas deste Portugal.
É óbvio, e por isso é que eu sou capaz de o perceber e escrever, que o mundo precisa de malucos como o Pedro Arroja ou o José Rodrigues dos Santos, ou o mamute intelectual mas sem o pêlo, que é o Camilo Lourenço. O que nós precisávamos mesmo era de cínicos, a la Diógenes de Sinope, mas o que temos é o que se arranja. É pena que a Igreja latina do oeste não tenha aceite os loucos como santos, ao invés da irmã bizantina.
No entanto, convêm ter bem presente a linha que divide o Pedro Arroja dos restantes malucos com acesso a meios de acumulação de salários e redistribuição de favores. Sem o conhecer pessoalmente, e sem o defender, porque já antes do Maradona eu tinha criticado o que o Pedro Arroja tinha efectivamente dito, ao invés de levemente o mencionar como fez o gordo da margem sul, sem o conhecer, repito, estou convencido de que o Pedro Arroja se está positivamente a defecar para o que o mundo pensa ou deixa de achar, ao invés da necessidade patológica que os restantes malucos têm de reconhecimento adoração pelas massas.
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Em Bruxelas não há chineses. Quer dizer, até há mas são marroquinos. Eu explico. Em Lisboa, e num dia chuvoso como o de hoje em Bruxelas, teria passado por não menos de uma vintena de chineses a vender chápeus-de-chuva na rua, ao inflacionado preço de 5 euros. Aqui, no que se diz ser uma capital da Europa civilizada, chove a cântaros e é um ai jesus até um tipo conseguir alguém que lhe venda um chapéu-de-chuva a troco de 20 notas de euro. É um mistério para mim a Bélgica ser um país civilizado. Existem três Macdonalds em toda a área metropolitana de Bruxelas. Tenho que dar mais exemplos?
Adagio para mim próprio que ao contrário do grande pensador Pedro Arroja, sou apenas um parvo que gosta muito do som das palavras em corrida.
No mais recente episódio de bullying digital de que foi vítima Pedro Arroja, o que impressiona, comove, indigna, mal dispõe, é a facilidade com que desinstitucionalizados dos códigos discursivos onde se movem parvalhões economistas como Pedro Arroja, a olímpica, monumental, homérica, glaciar, galáctica ignorância destes indivíduos se espraia sobre as surpreendidas inteligências do mundo inteiro. Ainda eu mal tinha esboçado uma crítica de um post de maradona que me parecia apressado nos seus fundamentos, por resvalar perigosamente para o tipo de argumentação comunista baseada na idéia de que há um destino evolutivo na tecnologia, que roda sobre um conjunto de propulsores cegos para a decisão humana, e já Pedro Arroja ilustrava com invejável clareza e perturbante limitação o absoluto mistério de ser possível um gajo doutorar-se numa Faculdade canadiana, com um trabalho sobre política monetária nacional, publicar um livro sobre teoria das probabilidades e não obstante, ser um burro chapado que nem sequer consegue responder com um mínimo de inteligência e elegância a um post no mínimo rico de conteúdos, o que sempre constitui um factor de fragilidade para o atacante (devido à própria fertilidade contraditória das ideias complexas) e um manifesto incentivo para a resposta se o atacado possuir o mínimo de destreza mental e jogo de rins.
Como poderemos nós dormir tranquilamente no interior de um circuito onde as portas de input são controladas por pessoas deste calibre intelectual, pessoas que engrossam a opinião, respondem a problemas decisivos, influenciam políticas públicas, presidem a cursos superiores, acumulam meios de pagamento, contribuem com determinação (ai de nós) para a vida em comum, se não existir uma oficina prévia onde os Pedros Arrojas sejam expostos, testados e criticados com puritana e protestante clareza, isto é, onde os candidatos a posições críticas no sistema sejam sujeitos aos mais diferentes e variados estímulos eléctricos, permitindo validar e avaliar a sua consistência? Não pretendo com esta manifestação comovida diante da tragédia humana construir uma hipótese para fazer subir a taxa de adaptabilidade do regime democrático português, mas se a seleção natural é um relojoeiro cego, e além do mais, maluco, ao menos, na boa tradição clássica, deixem-nos perecer com dignidade. De certa forma, com todos os defeitos que me assistem, é este o serviço que presto a mim próprio, que vossas excelências também contribuem para adensar e concretizar, e pelo o qual seremos todos alegremente esquecidos nesta nau envelhecida que caminha teimosamente, como elefante ferido, para o local da sua morte anunciada.
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
O tempo a passar pela cabeça demasiado confiante das pessoas que deixam à natureza a resolução dos nossos problemas.
Por influência exercida em resultante do contacto com o parvalhão do Pedro Arroja, decidi numerar esta merda.
1.
Passando por cima do que seria uma magistral e avisada exegese das razões que terão levado o maradona a ressuscitar o seu temível ferrão do calculado silêncio em que esteve mergulhado, este post oferece-me a generosa oportunidade para o colocar em sentido (introduzindo o referido maradona numa organização explicativa do real mais profunda e consistente do que normalmente é costume nos seus incomparavelmente bem esculpidos pedaços de prosa) e reconhecendo ao dito maradona, já que estou a passar por Almada, a importância de ser um indivíduo particularmente importante no meu percurso blogosférico, é no entanto justo reconhecer a surpreeendente realidade que consiste no facto de que o mesmo maradona tem beneficiado, mais vezes do que seria tolerável para a vitalidade do nosso frágil e nano-debilitado regime democrático, da manifesta incapacidade, ignorância, rigidez anatómica, falta de sentido das coisas importantes, boçalidade, cobardia, ou se quiserem em termos simples, tem beneficiado da congénita estupidez e fragilidade combativa das elites de um país que se caracteriza pela simpatia das suas gentes, inconcebível inexistência de luta verbal, excesso de costumes amenos, escassez de consumo de livros, mau cheiro e pouca limpeza das ruas, não esquecendo, para atacar de cornos o assunto que aqui nos chama, incomparáveis quantidades, pelos menos segundo os padrões europeus, de "paisagem conservada", o que tendo ditado o arrefecimento económico da comunidade, do ponto de vista dos economistas carecas nascidos depois de 1778, não me parece que tenha posto em causa a dinâmica evolutiva da paisagem portuguesa mesmo que o mesmo fenómeno possa corresponder ao rebentamento de «Portugal» como entidade político-saloia (voilá).
1.
Passando por cima do que seria uma magistral e avisada exegese das razões que terão levado o maradona a ressuscitar o seu temível ferrão do calculado silêncio em que esteve mergulhado, este post oferece-me a generosa oportunidade para o colocar em sentido (introduzindo o referido maradona numa organização explicativa do real mais profunda e consistente do que normalmente é costume nos seus incomparavelmente bem esculpidos pedaços de prosa) e reconhecendo ao dito maradona, já que estou a passar por Almada, a importância de ser um indivíduo particularmente importante no meu percurso blogosférico, é no entanto justo reconhecer a surpreeendente realidade que consiste no facto de que o mesmo maradona tem beneficiado, mais vezes do que seria tolerável para a vitalidade do nosso frágil e nano-debilitado regime democrático, da manifesta incapacidade, ignorância, rigidez anatómica, falta de sentido das coisas importantes, boçalidade, cobardia, ou se quiserem em termos simples, tem beneficiado da congénita estupidez e fragilidade combativa das elites de um país que se caracteriza pela simpatia das suas gentes, inconcebível inexistência de luta verbal, excesso de costumes amenos, escassez de consumo de livros, mau cheiro e pouca limpeza das ruas, não esquecendo, para atacar de cornos o assunto que aqui nos chama, incomparáveis quantidades, pelos menos segundo os padrões europeus, de "paisagem conservada", o que tendo ditado o arrefecimento económico da comunidade, do ponto de vista dos economistas carecas nascidos depois de 1778, não me parece que tenha posto em causa a dinâmica evolutiva da paisagem portuguesa mesmo que o mesmo fenómeno possa corresponder ao rebentamento de «Portugal» como entidade político-saloia (voilá).
2.
Se formos invadidos pela Argélia e a paisagem for conservada em areia e camelos ou se formos anexados pela China e a paisagem convertida numa mega barragem coberta por um novelo de monumentais viadutos, o sentido futurista ou retrógrado do movimento será sempre dado por um julgamento humano (e não evolutivo, que essas merdas serão sempre opacas para o nosso demasiado estreito ponto de vista) e se a maria amélia conseguir convencer todas as pessoa a irem cultivar porcos e galinhas para o planalto transmontado, nada nos poderá garantir que esse não será o equilíbrio pós-apocalíptico a perseguir pelas potências económicas do momento. As pessoas que repousam os seus olhos cansados sobre as páginas dos livros sabem que o cemitério da história, além de treinadores do Sporting, está cheio de civilizações surpreendidas pela cruel morte quando se encaminhavam na sua dinâmica evolutiva, e em potência tecnológica e energética máxima - segundo os seus próprios padrões, note-se - para o céu das civilizações, uma meta aparentemente garantida desde que respeitadas as leis naturais. Acontece que a morte é um facto tão natural como o nascimento, e a capacidade de combater a extinção ou evitar o abrandamento do conteúdo tecnológico (uma idéia em si mesmo ridícula) não passa pelo respeito das leis naturais (seja a seleção da natural, ou o resultadismo de José Mourinho) mas por compreender e instrumentalizar a realidade em função dos nosso objetivos, humanos, que caralho, tão sempre e demasiado humanos.
3.
O leitor avisado saberá de antemão que o julgamento civilizacional da paisagem em nada se relaciona com os fundamentos cientificos da biologia ou das ciências naturais, qualquer que seja a posição epistemológica defendida, da mais formalista e baseada na mecânica clássica à mais biológica e baseada nas aproximações aos sistemas complexos, estando a qualificação da função da paisagem, como diria um Byron nos seus momentos de sobriedade sexual, votada aos nossos sempre demasiado humanos objetivos, o que é o mesmo que dizer que não fazemos um caralho de uma ideia sobre para que serve a paisagem em sentido colectivo, e isto sobretudo, de um ponto de vista darwinista, pelo menos se aceitarmos que existe uma dinâmica evolutiva a ditar os contornos da interação entre meio e organismo, o que é em si, e desde logo, como sabem todas as pessoas, incluindo a Fátima Lopes, uma divisão problemática. Diz-nos o maradona do seu sofá que é impossível tentar modelar a paisagem a partir de modelos historicamente estreitos (um conceito demasiado largo para caber na minha gama de ferramentas propulsoras do tempo histórico) e dinamicamente falsos (aqui presumo que se queira aludir a uma simulação de movimento, o que é para mim igualmente opaco do ponto de vista da modelização da paisagem) pois a saudade do passado e o fascismo (uma bóia significante a que recorre todo o homem que se sente perto do afogamento argumentativo) podem induzir o declínio económico, encerrando um potencial de destruição da paisagem pelo facto de esta ser conservada de acordo com regras que a própria evolução não contempla. A inconsistência é de tal ordem que custa acreditar como é que um Pedro Arroja não se sentiu particularmente excitado a ferrar os seus dentes pontiagudos no flanco desprotegido da seguinte frase:
«Não é possivel, porque é um esforço antodestrutivo, tentar modelar o desenvolvimento da paisagem recorrendo a esteoreótipos historicamente estreitos e dinamicamente falsos, que aniquilam a inovação e reduzem o conteúdo tecnológico das sociedades em nome de mitos e saudosismos fascistas (trau), que, se levados longe demais, até podem levar ao declínio económico (ou seja: civilizacional) e, finalmente, à destruição da paisagem como entidade evolutiva (que é o que uma paisagem é, e, portanto, deve ser: uma merda viva em evolução contínua).»
4.
Ora, isto não é mais do que o velho e repisado erro liberal que consiste em entronizar uma qualquer banal tautologia (pode ser a organização de uma fábrica de alfinetes que vende muito) como uma verdade profunda e auto-explicativa (indefesa e pronta a receber o baptismo fecundo da luz pública) cobrindo-a com as vestes da supresa para oferecer ao que existe a força de uma evidência que em si mesmas as coisas jamias possuirão, tornando particularmente poderoso não o critério de julgamente da realidade mas a própria ausência de combate contra o facto das coisas serem o que são. Se a paisagem é uma merda viva e em evolução contínua, todas as decisões sobre a paisagem, sejam estas decisões esforços para erigir uma catedral gótica em cada prado ainda não urbanizado, ou devolver manchas de pinhal ao centro montanhoso de Portugal, serão sempre o sinal de que a dinâmica está em processo e não vejo como a conservação de um pedaço de paisagem (que é sempre um conteúdo tão tecnológico como uma barragem ou uma cidade porque serve o propósito técnico da ação humana) possa gerar menos benefícios económicos do que uma outra qualquer solução. Parece-me, com todo o respeito que nutro pelas pessoas da margem sul que pesam mais de 80 kg, que existe aqui uma tentativa de fazer do pluralismo uma entidade filosófica eficiente em sentido absoluto, garantindo que a libertação das dinâmicas da espécie devem ser opostas ao esforço que algums membros da espécie fazem, ingloriamente, é justo reconhcer, para conservar as qualidades vitais da própria espécie.
5.
O que me parece é que de um modo ou de outro, o resultado será sempre a evolução dinâmica da paisagem, com morte, fascismo, catedrais, cenários historicamente estreitos, aeroportos no deserto, reflorestações da faixa atlântica, ou mesmo a proibição da permanência nocturna de belíssimas e peitudas adolescentes alemãs no sudoeste alentejano, e que ceder perante a morte é precisamente confiar na ideia de que a organização dinâmica da relação com o mundo, pelo facto de comportar a inexistência de interferência, ou de interferência mínima (como no caso da redução do pensamento paisagístico aos parques naturais, que são a aplicação do «estado mínimo» à ocupação política do espaço) será sempre a garantia de que tudo correrá pelo melhor, afinal, aqui estão as leis evolutivas da selecção prontas a ditar o que é o homem e o que deve ser a sua relação com as coisas, desde que não façamos muita força. Parece-me inútil dizer que levando esta lógica até às últimas consequências teríamos que ficar calados, pois a evolução político-biológica teria sempre a última palavra em matéria de paisagem, de uma forma ou de outra e quaisquer que fossem as nossas estratégias de ocupação do espaço. De igual modo, não será preciso lembrar que o homem ao revelar uma fotografia muito parcial da sua evolução apenas descodificou os fundamentos das suas origens (fisiológicas, neurológicas e comportamentais) a partir de abstrações inferidas das interações passadas (história natural) o que de modo nenhum nos habilita a dizer, nem sequer ao maradona, que no futuro a dinâmica nos conduzirá à imortalidade como seres evolutivos que somos. Veja-se o caso dos dinossauros, que não tendo o génio político de Mário Soares, já por cá não andam.
6.
Em todo o caso, não acho natural nem dinamicamente evolutivo que o maradona utilize tópicos retóricos (cuja análise da magnificiência instrumental deixarei para outra ocasião) e lance mão de conceitos como os de «irracionalidade» ou «justiça económica» sem que um qualquer Pedro Arroja do alto do seu império de contactos com os jucas, os livros, os valores, a imparcialidade, o João Gonçalves, e todas as forças do bem em geral, não se sinta obrigado a desafiar o homem para uma fundamentação mais esclarecida destes operadores lógicos que estão tão gastos para a cultura democrática como a coragem de César estava para os senadores que decidiram esburacar-lhe o corpo com os seus punhais aguçados. É que não querendo chamar a Isabel Jonet para nos proibir a lavagem dos dentes com água corrente (uma prática de que me orgulho perante a minha mãe, e agora perante a minha mulher, pelo menos desde os 9 anos de idade) e agremiar um conjunto de pessoas valorosas em torno da salvação da democracia, o próprio maradona convirá que a sua defesa do regime democrático, com base neste tipo de argumentos, embora seja perfeitamente suficiente contra os ignorantes, maluquinhos e incomparavelmente burros do 5 dias, precisa de se articular melhor com a gigante incongruência das teorias da eficiência, ou as fissuras do frágil sistema democrático tornarão a sua defesa cada vez mais difícel de sustentar perante a vitalidade lógica e o conhecimento monstruoso, e multifacetado, de terroristas versados em livros como eu. Que o maradona diga que o desaparecimento físico de algo não deve ser encarado como uma negação civilizacional é um facto injustamente negligenciado pela imprensa portuguesa pelo que revela de desorientação e perigosa aproximação ao tipo de argumentos malucos dos comunistas.
7.
O que justamente pariu o respeito eficiente pelos conteúdos tecnológicos, a investigação sobre a selecção dos homens e dos animais, o gosto sagrado pela dinâmica evolutiva das coisas, incluindo a nossa bela e economicamente atrasada paisagem, foi justamente a vontade de participarmos desses prazeres, pelo que não contem comigo para salvar a posição ideológica de respeito pela economia, o desenvolvimento tecnológico e o caralho, além do estafado tópico das coisas serem aquilo que são, uma vez que tudo o que eventualmente conduzir ao meu desaparecimento, ou ao desaparecimento das coisas que aprecio (e este é o ponto chave) não pode deixar de ser um fenómeno por mim violentamente combatido, vá ou não a evolução neste sentido, uma coisa que em todo o caso, nunca ninguém poderá saber a priori. Permitirão que deixe as promessa do amanhã que canta aos comunistas, aos católicos e a todos os malucos em geral. Quando à dinâmica da paisagem, cabe aos defensores da transformação defenderem democraticamente os seus benefícios colectivos e de preferência com argumentos políticos, não com ciência de bolso. Enquanto tal não sucede, até amanhã camaradas, uma vez que agora vou ver a inestimável Joana Carneiro naquele edifício manhoso nos falsos jardins da Gulbenkian.
A idéia de que a natureza nos ensina a reconhecer os nosso inimigos é uma falácia ainda mais antiga do que o génio de Shakespeare, para não falar do countryside inglês, e como é evidente, baseia-se num princípio filosófico sobre o «natural» que carece totalmente de demonstração. Deixo para deleite dos queridos leitores a bela e polémica fotografia de duas mulheres do exército norte-americano durante a amamentação dos seus amados filhos.
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
Peço desculpa por tudo mas eu, ao contrário do Duarte Marques, sou só uma pessoa.
Há por aí alguém na blogosfera com caridade suficiente para explicar ao Duarte Marques o tipo de coisas que se podem eventualmente ganhar nos Conselhos de Administração?
Reparem agora nisto:
O que vai fazer depois de sair da JSD?
Não sei. Às vezes penso se hei-de acabar este mandato. Terei agora um tempo mais apagado nas áreas da juventude para dar espaço a quem me vai suceder. Há muitas coisas que gostava de fazer. Gostava de trabalhar na ONU, gostava de ir para Moçambique ou para São Tomé trabalhar numa ONG que ajudei a criar. Costumo usar uma máxima do Nuno Morais Sarmento: tenho sempre o objectivo de ir para qualquer lado.
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAhhhhhhhhhh ah ah ah ah ah ih ih ih ih ih uh uh uh uh uh...
Calma. Está tudo bem.
Finalmente, e em cinco vocábulos, Tolan no seu melhor.
Chamo a atenção dos pobres de espírito para o facto de que o conhecimento da obra de Eurico Celobo está apenas ao alcance das mentes predestinadamente potentes.
Não temos facebook, mas temos arroz de tomate.
O título era para ser outro, mas entretanto perdeu-se o momentum da coisa. E fica o aviso aos Luíses Peixotos que o texto do título pertence a uma afamada casa de pasto em Pombal, mesmo à borda da estrada nacional.
Algures na semana passada, calhou ouvir o José Rodrigues dos Santos falar do seu último livro, A Mão do Diabo. A julgar pela capa, estava convencido que seria sobre
mais uma conspiração de cardeais e bispos. Afinal parece que não, é
sobre a actual crise mundial. Confirma-se que sexo vende, mas teorias da
conspiração da Igreja vendem muito mais.
Segundo o próprio, a ideia surgiu, e estou a citar de memória por isso vão para o caralho com as inexactidões, "porque as pessoas estão confusas sobre a origem da crise. Vai um fulano à televisão e diz que a culpa é da Merkel, vai outro e arrota que a culpa é dos americanos." E portanto o dos Santos diz: li "muita coisa sobre a crise, conversei com banqueiros, antigos governantes, economistas, magistrados... até desempregados". E claro, as conclusões são colocadas num romance maçudo à venda na FNAC.
Que fique bem patente que eu não me oponho a que o dos Santos pague o almoço com este tipo de patranhas. O problema é o que vem depois.
Houve um indivíduo que enviou uma mensagem para o programa para anunciar que leu o livro, dizendo, e passo a citar: "agora já percebo o que está a suceder". Que é como quem diz, li O Memorial do Convento e agora sou um perito no século XVIII português. Enfim, haja paciência.
O Zé, autor do livro, a dada altura lá explicou, e eu juro que não estou a inventar isto, que "a verdade é algo de dinâmico e que depende da pessoa que está a falar no momento". E portanto, a fazer fé no que tinha dito cinco vezes apenas sessenta segundos antes, o Zé é mais um a confundir os pobres de espírito. Deles pode ser o reino do Céu, mas enquanto lá não chegam têm um pagode aqui na Terra para os entreter.
É com grande mágoa que constato ser verdade termos todos vivido acima das nossas possibilidades, não materiais mas sim intelectuais.
terça-feira, 20 de novembro de 2012
DJ's em potência.
A verdadeira essência da vida: "tu tens que ir para a cama, vai-te mas é foder".
P.S.: depois de um texto como o que aqui se encontra em baixo, do alf, sei bem que isto merecia outro caminho, mas olhai, ide todos tratar da vossa potência de pensamento.
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
Cinco gigantes intelectuais do nosso tempo e um pobre caminhante solitário, uma pessoa que apenas quis ser uma pessoa, mas se é para daqui a trezentos anos espetarem com o meu nome numa placa comemorativa na mesa à volta da qual se sentam estas pessoas, então não contem comigo para alterar o curso da história: havemos de nos foder todos, mas tal como estava previsto e sem novidades.
Contra contra-ataque
Bastou o filho do homem reclinar a cabeça durante o fim de semana para que o inimigo contra-atacasse violentamente, ou nas palavras de Jorge Jesus, bastou termos estado ligeiramente no limite das nossas capacidades físicas para que os nossos rivais exercessem o contra-golpe, inundando um jornal de referência, o Público, com uma cortina de napalm cultural, a saber, uma reportagem de 4 folhas dedicada ao tema «o segredo da viagem» do reparador de biciletas José Luís Peixoto à Coreia do Norte, uma crónica do funcionário das finanças valter hugo mãe sobre os impactos fisiológicos do fim do livro em papel, que ele lamenta de lágrimas nos olhos porque alegadamente lhe foram ofertados espécimes com flores de buganvília no interior, e os livros electrónicos não têm cheiro, elmento essencial uma vez que segundo o aclamado escritor, as pessoas são como os cães, guiam-se pelo mijo nas paredes (um tópico que parece estar a fazer escola), e ainda uma segunda crónica a cargo do mandarim chinês Nuno Pacheco, sobre as potencialidades metafísicas das crónicas de Eduardo Prado Coelho, onde ficamos a saber que o gigante do pensamento era uma pessoa que se preocupava muito com as horas que a sua empregada brasileira perdia nas filas dos serviços de estrangeiros e fronteiras, uma coisa desagradável do ponto de vista humanitário, não esquecendo este humilde leitor os aspetos nocivos no descurar da limpeza e alimentação da cultura portuguesa.
Mas não faz mal: só é vencido quem pensa um dia vir a ganhar, o que não é manifestamente o nosso caso porque somos vencedores antecipados, «uma vez que já tudo se perdeu», dizia o escafandrista mais conhecido de Rio Maior, e hoje mesmo estareis aqui a contemplar um espectacular post onde se explica porque que é que o livro de Giorgio Agambem sobre Bartleby, a pequena obra-prima de Melville, que tive o azar de ler este fim de semana, é uma das mais ridículas e claras manifestações da impotência filosófica dos académicos na área das humanidades, e explica não só o declínio público dos intelectuais como a ascensão dos ignorantes em matéria de livros e sentido das coisas. Agora tenho que ir ganhar a vida mas já volto porque tal como dizem os turras muçulmanos, o jornal Público (atenção que os turras muçulmanos citam muito o jornal Público) com esta provocação descarada ao Elogio da Derrota, acaba de abrir as portas do inferno.
Parece também que há uma guerra no país das guerras mas eu sou como as misses mundo: custa-me sobretudo ver crianças a sofrer, mas de resto, quanto aos maiores e vacinados, que tenham juízo e aguentem se podem que a política não começa no dia em que soam as bombas. Devo dizer ainda que estes israelitas são de facto velhacos e escolhem o pior momento para os seus delírios bélicos, famosos desdes as temíveis fisgas do pequenino David, o que obrigará o Daniel Oliveria e o 5 Dias a abrir uma pausa na denúnica da política de austeridade, forçando-os a regressarem ao seu tema justiceiro predilecto: disparos e malandrices na faixa de Gaza. Recomendo às pessoas eventualmente chocadas com este post, porque eu não tenho tempo para me justificar, que leiam as Cartas de Londres de Eça de Queiroz onde se explica porque é que a perna partida da vizinha, numa queda aparatosa, nos comove mais do que os milhões de indivíduos enterrados por um terramoto no Indostão, sobretudo se a vizinha for jeitosa, então aí, meus amigos, adieu temáticas humanitárias. Claro que os homems em geral não partilham estas coisas com o universo feminino, embora nos nosso dias, e alegadamente - ainda segundo um cronista do Público - o silêncio se deva a um processo de ajustamento em relação à sua identidade. A questão será entre expandir a parte feminina ou acentuar a virilidade. Bom almoço.
Franz Kafka e Max Brod, divertidos, na praia. Calma, a vida não são só coisas tristes.
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