quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Newton brincando na praia com pedrinhas coloridas: intermezzo político sobre a Casa dos Segredos com especial referência à obra de Eduardo Prado Coelho, seguido de longa citação exploratória e abusiva do imortal comentador Ex-Vincent Poursan.

Declaração de interesses: as pessoas com falta de tempo podem já saltar para o comentário de Ex-Vincent Poursan, identificado por Anexo 1, e que resume no essencial os problemas de sociologia literária abordados neste post. Uma boa noite a todas as pessoas que ainda não desistiram.
 
Há pessoas que me perguntam continuada e repetidamente porque não se cansa a minha personalidade inesquecível com as infinitas, desesperadas e aparentemente inúteis tentativas de objetivar as forças obscuramente poderosas que levam as máquina de impressão da revista Visão a obedecer às indicações do diretor gráfico para que obedeça às recomendações do diretor editorial intermediadas pelo diretor de fecho de edição, depois de devidamente informado pelo editor de capa, a permitir que figure no campo superior direito da primeira página da referida revista uma chamada de atenção para o novo livro de José Luís Peixoto sobre um conjunto de viagens à Coreia do Norte.
 
- Mas que te importa esse gajo? Caramba, é um coitadinho que explora a ignorância dos leitores e beneficia de uma indústria atrofiada por posições abusivas de mercado, situações de monopólio e erros de previsão sobre a preferência dos consumidores, o que resulta normalmente em tentativas de controlo do risco pelo condicionamento da oferta de produtos concorrentes - disse Heinz, enquanto cofiava uma barba cinicamente trabalhada por um longo acumular de derrotas intelectuais e políticas, pegando lentamente nos jornais do dia, e lançando para o infinito os dois olhos mortiços que não levarão muito tempo a desmaiar novamente sobre a superfície negra da mesa do café.
 
- Pois é, pois é, uma questão de assimetrias do mercado. Repara que do meu ponto de vista, Peixoto é apenas um exemplo que nos permite descodificar regularidades mais vastas. Newton escolheu maçãs porque lhe cairam na cabeça; podiam ser abóboras, melancias, limões, laranjas ou pêssegos. Ora, a mim está-me sempre a cair o Peixoto no alto da cabeça. Ligo a televisão e logo em rodapé: Peixoto; compro o jornal, Peixoto; olho para um quiosque, Peixoto; entro no átrio de uma Universidade e logo o cartaz de um prémio de poesia rural, Peixoto. Se o gajo não quer ser tomado como representante de uma classe que deixe de aparecer em todo o lado. Repara, o que farias se te servissem um bife estragado? - perguntei de súbito, enquanto duas gaivotas desferiam ferozes bicadas numa carcaça metalizada que rapidamente identifiquei como o reles e desprezado vestígio da forte indústria pesqueira, entretanto substituída pela agradável e variada  gama de bens e serviços de ponta, tão vilipendiados por economistas carecas.
 
- Não só essa história do Newton é apócrifa como a analogia é totalmente canhestra. Um livro não coloca em causa a minha saúde - disse o meu amigo, Heinz (um leitor militante de Gonçalo M. Tavares, que me implorou para que lhe atribuísse um nome austro-alemão de forma a parecer inteligente). Depois, palpando a coxa onde acabara de se despenhar uma poderosa melga após sugar violentamente todo o sangue possível da gordura abdominal de uma funcionária das finanças, ainda por cima sexagenária, Heinz espetou um dedo no meu ombro e com olhos amendoados ameaçou - cuidado, ainda pisas o terreno perigoso da liberdade de opinião. Não me parece que a vida das pessoas esteja em perigo.
 
- Ai não? Ainda há pouco tempo li num blogue o comentário de uma pessoa a quem recomendaram o Peixoto como sociológo da vida quotidiana. Quando o Gaspar concretizar o ajustamento e as pessoas tiverem todas que fugir de Portugal para não serem acorrentadas a um poste a fabricar sapatos chineses, depois da falência da Europa e dos Estados Unidos, a dita menina será confrontada com uma entrevista para assistente social na Alemanha onde um tipo de olhos em bico, envergando meias brancas e carregando duplamente nos «rr» e nos «ll», lhe perguntará: «entlão diga lá quaiss são às suas ideias sobrre o flagelo do envelecimento?» A menina começará a responder por monossílabos e frases curtas, citando a experiência da emigração em França, a maratona de Lázaro, os problemas das pessoas ruralizadas coitadinhas que sofrem muito, ai, ui, e o Galopim pedreiro, e os desgostos amorosos da velha Lubélia que nessa obra prima intitulada Livro, profere a certa altura a grandiloquente frase «estafona-me toda», e quando o senhor chino-alemão responder que se estamos a falar de literatura, então a menina deve partilhar o que extraiu das suas leituras, a menina sentirá então que sobre sociologia só apreendeu os estereótipos da cabeça do escritor e com a literatura não teve o menor contacto - respondi eu, cada vez mais acossado com o inquérito e pronto a sacar do bolso esquerdo e roto de umas calças de sarja, oferecidas por uma tia perneta no meu trigésimo aniversário, o argumento newtoniano de que com estas ideias estaria só a brincar com pedrinhas coloridas - Qual é o mal, não se pode?
 
- Isso é muito subjetivo. O escritor Peixoto apenas manifesta o seu ponto de vista e quem quiser que compre, e é só - respondeu Heinz esticando os punhos do casaco como se quisesse demonstrar a justiça das suas afirmações com o facto de não saber escolher o tamanho do vestuário.
 
- Mas manifesta muito mal o seu ponto de vista, de tal maneira que há quem o confunda com uma disciplina, a sociologia - respondi sem hesitar porque me pareceu importante aduzir um argumento baseado na indeterminação das preferências dos consumidores.
 
- Não tentes contrariar movimentos espontâneos - disse Heinz abrindo as mãos num movimento ondulante, para ilustrar com o corpo uma frase obscura e pouco quotidiana que um editor zeloso e preocupado me obrigará certamente a rever.
 
- Como? - perguntei eu.
 
- Como o quê? - perguntou Heinz. Mas entretanto passou um gaja impressionante onde um risco preto e regular sublinhava umas sobrancelhas misteriosas, onde faiscavam, às ordens de um movimento rápido e severo, dois pontinhos de luz verde. Oscilando as ancas em coordenação de antílope (pronto, lá se foram duzentas gajas do blogue do Tolan) e rodando matematicamente o pescoço numa perfeição de metrelhadora anti-aére, enviou-nos impiedosamente para o longínquo e desprezado país das pessoas irrelevantes e desprotegidas perante todas as formas de beleza agressiva.
 
- E as pessoas não merecem ter acesso a um discurso crítico sobre um produto tão manifestamente comercial como um bife? Não temos o direito de saber se as páginas foram engordadas com hormonas? - retomou Heinz (perdão, enganei-me, mas a Izzy, uma notável comentadora, corrigiu-me prontamente; na verdade, pensando melhor - ah, a maravilha da correção e da objetividade - estas duas perguntas foram por mim formuladas, e não pelo querido Heinz) numa tentativa frustrada para ultrapassar o silêncio confranjedor que se instalara subitamente entre nós como um exército invasor.
 
- E como podemos nós fazer tal juízo? Não só o livro não afeta diretamente a saúde como não pretende ter uma visão consistente ou integrada num sistema de valores previamente ordenado pelos mesmos pressupostos críticos - respondeu Heinz, enquanto eu me esforçava para elevar o olhar sobre as cabeças dos outros clientes do café, porque entretanto a gaja impressionante parara à porta, fornecendo uma derradeira oportunidade para conferir de que forma as suas pernas compridas, revestidas numa elegante licra cinza, se fundiam com as ancas, uma vez que é muito habitual uma coxa divinamente torneada alargar de tal forma na sua terminação que toda a contemplação lateral resulta num choque entre duas formas de beleza, que mesmo sendo igualmente poderosas na sua diversa coerência, a robustez muscular da abundância ou a forma esguia e atlética da escassez, acabam por misturadas vitimar a anatomia humana com as mesmas impressões de desprazer com que são vitimadas as fachadas de igrejas onde as colunas neo-clássicas são esmagadas com o peso de anjinhos gorduchos e inúteis.
 
- Em primeiro lugar, não tenho tantas certezas sobre a saúde. Os estereótipos sobre a natureza humana, abundantes nos maus livros, reduzem a imprevisibilidade dos acontecimentos e tornam as pessoas mais vulneráveis ao engano. Quanto a sistemas de valor, se é assim tão indiferente a ordem de preferências, porque razão há leis tão apertadas sobre a formação do preço do livro? - perguntei eu para me libertar dos sentimentos pecaminosos que colonizavam a minha inteligência separando o objeto mulher da sua função reprodutora (eu depois explico).
 
- Mesmo que isso fosse verdade, onde pensas chegar com a descodificação da qualidade literária? Não te parece que é uma brincadeira que nos colocar muito perto da censura? - perguntou Heinz, invejoso pela informação visual de que me sabia possuidor mesmo que com essa informação eu não pudesse adquirir sobre o meu amigo qualquer vantagem comparativa, pois na verdade, a inveja não só não é interesseira como não respeita o tempo, esmagando todas as formas de cálculo: nasce e esgota todas as suas forças num curto instante, à semelhança das grandes explosões.
 
- E será por ser perigoso que se deve proibir a utilização do fogo? - disse rapidamente, ainda sobre o efeito das reflexões sobre a inveja, e continuei - A questão está em controlar e conduzir os instrumentos perigosos, como a censura, segundo os nosso objetivos e não deixar que sejam editores analfabetos e presidentes de gasolineiras, com quem Peixoto já teve acordos, note-se, a decidir que livros e autores devem ou não ser publicados e reproduzidos. Ou há mercado ou comem todos. Mas para haver mercado é preciso instrumentos de informação sobre a qualidade dos produtos transacionados no mercado, coisa que inexiste em Portugal no que diz respeito a livros, razão pela qual o mercado não ultrapassa a indigência: estamos todos de côcoras perante a estupidez geral - terminei prontamente, não muito convencido das minhas ideias. 
 
Mas porque estava totalmente consciente das dificuldades que me cercavam, e a pouca paciência dos leitores assombrava a minha consciência sensível, recomendei a Heinz que ficássemos por aqui, e terminássemos o pequeno diálogo, pois  o eléctrico que nos levaria para o centro da cidade, rugia já sobre o duplo carril por onde escorria uma torrente de água. Pouco preocupados com a nossa roupa de baixo preço (os escritores russos sabem sempre o valor em rublos dos sobretudos e casacos) e apostados em subir a bordo, fomos violentamente encharcados pelo veículo desajeitado que se vingou do progresso tecnológico com um urro ensurdecedor e uma convulsão mecância que ao recolocar a pesada massa em andamento, fez surgir na fiada de janelas a cabeça de uma alemã simpática que disparou sobre nós a sua máquina fotográfica, imortalizando involuntariamente aqueles dois lisboetas, parados, de pé, sobre a calçada, sorrindo agora, com a compaixão possível, para os anónimos que dali a treze palavras desapareceriam para sempre no interior de um eléctrico perdido numa cidade crepuscular.

 
 
Apesar do respeito que não posso deixar de continuamente manifestar por Tolan, há certas merdas na vida que definem todo um programa psico-político em relação à economia do desenvolvimento a defender para uma agremiação como Portugal, e um dos indicadores perfeitos para saber quem está e quem não está a caminho de um superior estádio de desenvolvimento das condições materiais de produção de uma sociedade mais justa, mais fraterna, mais bem remunerada, mais bem apetrechada de gajas interessantes, é a capacidade de disntinguir entre um génio literário (remeto o leitor para  minha obra, onde são facultados gratuitamente vários exemplos) e um chato que encheu a existência mundial de livros tão pesados quanto a chatice, irrelevância emocional, ignorância cultural e científica que transportava dolorosamente dentro da cabeça (Thomas Mann).


Não quero com isto dizer que os camaradas de causa - o Casanova foi ganhar dinheiro para o lado do inimigo e o maradona abandonou misteriosamente o barco, constando que está a divertir-se ventriloquamente com a criação, altamente bem remunerda, de todas as declarações públicas do público boneco Vítor Gaspar - devam dividir-se em grupúsculos e fações à semelhança da esquerda portuguesa e albanesa nos anos 60 e 70, mas deve ser claro para todos os leitores que o meu programa libertário, enquanto não põe de pé uma emissão crítica e organizada da produção de livros, implica uma justa edição de comentadores capaz de subverter o imperialismo capitalista que governa a consciência altamente hierarquizada das nossas identidades culturais, e lembro a todos que o Carlos Vidal vai falar da importância de Badiou no pensamento de Eduardo Prado Coelho, dia 15 de Novembro no Auditório 3 da Fundação Calouste Gullbenkian, pelo que antes de me despedir com uma longa e justa citação de Ex-Vincent Poursan, quero lançar dois reptos às pessoas que pensam perder tempo com a simpática, inegavelmente inteligente e sempre sedutora Angela Merkel, autora da dissertação cuja referência aqui se deixa aos mais esquecidos, Merkel, Angela (1986) Investigation of the mechanism of decay reactions with single bond breaking and calculation of their velocity constants on the basis of quantum chemical and statistical methods.


 
1) os portugueses deverão acorrer no máximo número possível às instalações da Fundação Calouste Gulbenkian no próximo dia 15 de Novembro para pulvilhar com farinha Amparo todas as sumidades mumificadas que durante dois dias procederão à perigosa exumação do morto e enterrado estéril agregado de pulsões desconexas a que os mais desprevenidos e burros chamam a obra de Eduardo Prado Coelho, uma pessoa que dedicou toda a sua vida a estudar literatura para no fim qualificar José Luís Peixoto como um grande escritor e de passagem conseguir ainda ignorar e desprezar o único poeta português com alguma relevância nascido depois de 1970, Daniel Faria, que se lhe dirigiu em vão e pessoalmente com os seus textos para pouco tempo depois, e na sequência de uma queda na casa de banho de um mosteiro beneditino no norte do país (instituições que contra toda o bom senso ainda existem e se encarregam de exterminar pessoas promissoras) morrer estupidamente ignorado pelo conjunto de pessoas a quem o Estado paga para separarem o trigo dos produtos plastificados e tóxicos que por aí circulam perigosamente.
 
2) os portugueses, a quem peço isto encarecidamente e de joelhos, devem, por amor de quem lá têm, por meio de todas as plataformas digitais, analógicas e por berros de garganta a plenos pulmões, se necessário for, dedilhar furiosamente mensagens capazes de expulsar o Hélio da Casa dos Segredos pois ontem, inadvertidamente, fui confrontado com uma tentativa de argumentação em torno das virtudes psico-sociais de um gordo estúpido cujo maior prodígio foi espetar a sua tromba medonha na berma de uma estrada municipal nos arredores de Almeirim (e nisto estou inteiramente com o Wilson). Neste sentido, o Hélio deve ser perseguido pela nossa fúria participativa a bem da República, por ser uma pessoa com um projeto pessoal de enriquecimento à custa dos pobres ignorantes, explorados e ofendidos que consomem a Casa dos Segredos. Nisto convido os portugueses a convidarem de bom grado o prestável Hélio, a prestar-se à importante função de bode expiatório, com sucessivas idas ao poste de qualquer escola secundária, seguindo-se uma sessão dupla de corredor da morte, com chuva de palmadas, biqueiros e calduços, podendo ainda experimentar-se a ressuscitação de um gato morto contra a cabeça do dito Hélio, por meio de várias e robustas movimentações de choque entre o dito gato e a estúpida cabeça da pessoa em causa, pelo menos até o gato miar três vezes.
 
 
Anexo 1.
Dada a manifesta falta de dotes de estratégia comercial do autor destas linhas, convido o leitor a um resumo das principais ideias defendidas neste post, através da leitura do aqui transcrito comentário ao relativamente interessante post intelectual subway games de Tolan:
 
fodaçe tolan, tu não me desiludas caralho!!!

primeiros: uma gaja estrábica é a quintessência da tusa na modalidade bicos;

segundos: um gajo que calça “botinhas” e salta com medo de borrifos dum eléctrico, não tem autoridade moral - ou macheza, na linguagem dos reles necrófilos do Jorge Amado escandalosamente exibidos em horário nobre numa cadeia de televisão que se diz pública - pra chamar apaneleirado a um gajo de cachecol e sapatinho italiano. Mesmo que para rabeta só lhe faltassem as penas, o que parece confirmar-se pelos olhos arregaladinhos pró volume do teu mann;

terceiros: gajo que é gajo não se põe a ler no metro. Fica atento às gajas que lêm no metro e se possível senta-se em frente. Normalmente, páginas tantas, abrem as pernas e um gajo pra matar o tempo dá uma de Moisés… terra prometida e essas merdas;

quartos: quem não lê no metro não é necessariamente um ignorante e analfabeto funcional a desperdiçar a vida. Eu nunca leio no metro e a minha mãe jura a pés juntos que eu não sou nada disso;

quintos: um gajo apaixonado não desdenha da expressão poética, e nem o criativo mais heterodoxo associaria sapatinho italiano a poesia, salvo se o calçante for zarolho. Já a botinhas qualquer estagiário caixa d’óculos associou, pelo menos uma vez, o mann;

sextos: sobre a questão de fechares o livro para lhe apreciarem o volume… não me pronuncio!!!... mas vem na linha do mercedes coiso e tal;

sétimos: pra compor a coisa devias ter terminado com: Saí na estação seguinte e comprei uma dúzia de castanhas assadas. Descasquei-as lentamente enquanto caminhava. Não me saía da cabeça o estremecimento da miúda do metro. Por alturas do terceiro quarteirão e da quinta castanha já a tinha nua.
Inesperadamente esbarrei num poste. Um autocarro pulverizou uma poça de água nas minhas calças. Um pombo assustado bateu asas e borrou-me o pescoço com merda verde. A imagem da miúda a esvaiu-se, um senhor solicito ajudou-me a recompor – estes gajos não respeitam os peões… calaceiros… quando não estão em greve agridem as pessoas! –, dos tomates pra baixo todo molhado, as botinhas shock shlock… fodaçe!... o mann não prepara um gajo pra estas cenas.
Sentei-me à secretária… vou ali comprar umas calças e um par de peúgas. Refodaçe… o senhor solicito palmou-ma a carteira!!!

Oitavos e últimos que já é tarde: mas afinal já andas a ler o mann há quanto tempo caralho???!!!... andas a sublinhar e a escrever notas nas margens é???... o Fermat também escrevia notas, mas propunha teoremas porra!!!... tu népias, lês, observas, pensas!!!... andas é apanhado por essa tal de Plaft!!!... não te cures não!!!

Ex-Vincent Poursan, num comentário a Tolan, a 8 de Novembro de 2012, sensivelmente perto de umas espectaculares 02:40 da madrugada.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Por razões de estar muito ocupado com merdas

e porque estamos a falar de Obama, fica aqui o registo rápido.

Demonstração irrefutável do facto de a realidade ser aquilo que é.

Como a fotografia é a nossa derradeira arma para restabelecer a mentira (Susan Sontag) e a narrativa é a nossa derradeira hipótese para atingir a verdade (alf), a ilustrução seletiva de uma revista tão insuspeita como esta oferece ampla demonstração das razões que conduziram o simpático candidato democrata à vitória mas também uma cabal explicitação do que arrastou o fanaticamente ridículo e religioso candidato republicano a uma estrondosa derrota que não me canso de aplaudir e festejar, desta vez com tinto maduro Perequita, uma bebida mais suave e adequada aos meus problemas fisiológicos para não falar das crises endo-cripto-literárias que me têm atingido duramente.

 

Uma criança procura calar Obama como que explicando que num mundo de confusão permamente e livre comunicação de opiniões, o silêncio é de ouro.
 
 
 


Tentativa inaceitável e dificilmente desculpável com a tenra idade (os pequenos são os piores, veja-se os pastorinhos de Fátima) de convocar forças celestes para conduzir o fanático religioso Romney à presidência, arrastando pela lama os pergaminhos republicanos de uma nação que está sempre a invocar simbolicamente Deus precisamente porque Deus não tem importância nenhuma nas suas relações de produção reais.
 
 
 


Abraço comovido entre Obama e a sua esposa sob a bandeira dos Estados Unidos da América, uma imagem capaz de comover um extraterrestre muçulmano mas que representa os receios que todos sentimos quando Obama começou a querer explicar os mecanismos do seu plano político. Nesse momento todos sentimos necessidade de abraçar Michelle Obama e pedir-lhe que recomendasse ao seu marido que fizesse aquilo que faz de forma incrivelmente satisfatória: representar a opinião de uma pessoa normal não privilegiada, com educação, e que pretende utilizar o debate político para continuar a usufruir de uma vida que estaria aparentemente destinada a pessoas privilegiadas. 
 
 
 


Após a derrota no primeiro debate televisivo, e na sequência de um desempenho absurdo e lobotomizado do sistema nervoso de Obama, Joe Biden procura estratégias de vitimização na sequência do exemplo histórico português (a bordoada a Mário Soares pelos vidreiros da Marinha Grande) invocado por um consultor açoreano, buscando assim contacto físico traseiro com uma motoqueira casada na presença de dois trogloditas metaleiros que assistem incrédulos a esta manifestação de normalidade brejeira (Deus guarde para sempre no coração Joe Biden) do candidato a Vice-Presidente dos E.U.A.
 
 
 


Um popular explica a Obama como derrotar Romney no segundo debate televisivo da campanha, aplicando ao candidato um assentamento de espadas celebrizado mundialmente por Tarzan Taborda.





 
Romney cava a sua própria sepultura eleitoral ao tentar organizar uma comunidade comunista com crianças indefesas, ainda por cima tendo vestido um blusão de veludo gigolô, com colarinhos insidiosamente levantados e calça de ganga deslavada, além do sapato tendencialmente bicudo, um traje que costuma caracterizar os bandidos, os tarados, os homens divorciados e todas as pessoas mal intencionadas em geral.

We all gonna die someday!!!

Há muitos anos, na casa humilde, vincada e perpetuamente humilde do meu avô materno, a matança do porco organizava-se cuidadosamente, porque rara, porque diferente do dia-a-dia. Penso que seria assim em muitos lares do Portugal dito profundo dos anos 50 e 60 do século passado. Aí não há originalidade. Centro-me, por isso, numa singela singularidade: a Amélia. A Amélia, a cigana do tempo em que os ciganos eram ciganos, do tempo dos ciganos, Kusturicamente falando, pressentia por artes até agora não descortinadas, a matança do bicho. Talvez fosse o espetáculo que hoje é visto como bárbaro, mas na época, e entre dias de fome, assemelhava-se, certamente, senão à mais genial, pelo menos à mais bela ópera de Mozart, como se uma flauta mágica alertasse a cigana, atravessando com os seus sons os húmidos campos em cenário de margaça e lama.
 
E a Amélia chegava a horas. Sentava-se numa pequena pedra que ficava à frente da porta da cozinha, debaixo do minúsculo e improvisado alpendre. E esperava, esperava um bom par de horas. Depois de morto é preciso musgar o animal, queimando-lhe os pelos e a pele, depois abria-se-lhe a barriga usando uma afiada faca que desapertava como um zipper que se abre, e fazia revelar-ser uma janela de vapor e cheiro inqualificáveis, uma imagem muito parecida com a abertura de um cozido que se retira dos pequenos buracos do calor da terra açoriana. Só a imagem, claro.  
 
Sabe-se que do porco, morto pela fome, tudo se aproveita. Os presuntos para a salga; as tripas para os enchidos; as patas para o grão; as orelhas para a brasa, assim como a entremeada. A cigana, embrulhada em saias e sujidade, lá conseguia a parte pela qual esperara durante horas, o piçalho do porco, quando a sorte não lhe trazia porca, claro. Nunca se soube o que fazia a Amélia com o piçalho; mas não sejamos ingénuos: um piçalho vale só por si!!!

 
***
 
Há em Obama algo que se assemelha àquelas mulheres que cozinham, cozinham muito bem, aliás. Mas nunca almoçam, nunca jantam e na verdade nunca vemos sentadas à mesa. Depois de cozinharem a melhor iguaria e de perfumarem a casa com ela, ceiam apenas uma maçã, um pouco de pão ou unicamente insignificâncias. Enche-as a criação terminada, alegra-as o trabalho concluído, assim, sem objetivo maior do que a sua própria realização.
 
Obama para mim é isto. Alegra-se com a simples realização, com o ser e não com o fazer; como uma cozinheira que não come. Não é difícil de imaginar, embora não seja saudável fazê-lo, o que disse Obama a Michelle quando a comia por celebração durante a madrugada de ontem: “foda-se Michelle, we did it again. Já está!! “, se falasse português.  E fica-se assim. Obama olha para o ser presidente americano como eu olho para as mamas que o Alf constantemente nos oferece aqui: são mamas pelas mamas, mamas vistas no objetivo maior de apenas ver mamas. Obama é presidente não para ser, mas por ser presidente, um fim conseguido no título, no dia da eleição. Obama, não tendo que esperar pela matança do porco, também não era o filho do porqueiro, teve de conquistar a sua própria refeição. Ainda por cima num mundo de poder branco. Ele terá sido sempre o menino magro e preto que desde menino se fechava à noite no quarto e dizia, para sobreviver ”yes I can”!! E lá foi ele, o primeiro dia de escola, depois para a América, depois a melhor universidade, depois as lutas regionais e depois a presidência. Que mais era preciso fazer? Ser presidente? Fazer presidente? Nahhh, o melhor é ir com a Michele e as meninas comer um hambúrguer na tasca da esquina, que faz o mesmo efeito que ajudar a Europa e sair da crise ou resolver as nossas próprias crises.
 
Obama é assim um bom exemplo do sonho americano: emigrante, preto e com um toque muçulmano, ainda por cima, venceu por si, pelo seu estudo e astúcia de vencer na vida. Podia ser um vendedor de sucesso, mas chegou a presidente. A presidência como troféu, como um piçalho, o piçalho da Amélia, lembram-se? Saúde-se, na esquerda portuguesa: ele conseguiu o seu piçalho, depois de tanto esperar!!! E já conseguiu dois!!!! Mas todos temos direito a conseguir o nosso. Yes We Can!! Até Passos conseguiu o dele!!!  E haverá razão menos clara para o Seguro não terá direito ao seu piçalho também? Claro que não, há um piçalho à espera dele também, terá apenas de esperar com paciência, mas não muita. Afinal, todos temos direito ao nosso piçalho, mesmo que não saibamos o que fazer com ele!

Ou há moralidade (com Romney) ou comem todos (com Obama): graças a deus, venceu a orgia da despesa pública desde que devidamente organizada a partir do chavascal coletivo, ao contrário de Portugal onde o chavascal é para a elite e as imposições austeras para o ordeiro rebanho que temos gosto em continuar a ser.

"By a margin of 69% to 13%, the pornography industry is supporting President Barack Obama over Governor Mitt Romney in this year’s election, according to a new survey by XBIZ.COM, the porn industry’s online journal" wrote the Washington DC-based organization that was founded in 1962.


Bastaria esta esplendorosa epígrafe para compreendermos toda a profundidade do que está em causa, ou seja, os caminhos da moralização em política são sempre extraordinariamente compensadores e espinhosos, as duas coisas em simultâneo, sobretudo para aqueles que foram formados nos prazeres do sacrífico, pelo que é necessário ter o olho grande, como diria Jorge Jesus, para não desfalecer na tempestade de factos e suas interpretações que caracteriza a nossa económica, política e folclórica existência.


Mas a presente eleição americana oferece-nos democraticamente a graciosa oportunidade para refletir sobre a vaga de despedimentos na imprensa escrita e publicada num papel que além de sujar as mãos, os livros, as calças, mantém o inconcebível gigantismo das folhas cuja utilidade parece ter sido deduzida das necessidades de acender a lareira burguesa, para não referir outras utilizações mais prosaicas e menos adequadas à moral vitoriana (onda de incentivos e punições culturais que varreu o mundo civilizado e o moldou perenemente até os americanos terem ajustado à transação monetária tudo o que mexia, incluindo os burros dos jornalistas). Penso que este aspeto tem justamente preocupado pessoas de inegável calibre intelectual, para não falar da monumental estatura moral que habitualmente caracteriza as pessoas preocupadas com estes aspetos - isto é, a injustiça produzida pela realidade das coisas serem o que são. Alguém menos prevenido poderia agora perguntar como chegamos a saber que coisas determinar como coisas ou como seleceionar no mar contínuo dos objetos um conjunto de «coisas» para depois dizermos que esse conjunto de coisas é a realidade? Mas como os meus leitores são habitualmente pessoas prevenidas, e os desprevenidos não lêm este blogue, passamos ao segundo ponto.
 
 
Logo pela manhã, antes de iniciar o dia e me dedicar ao que verdadeiramente interessa - a leitura da obra que a seguir se anexa ao post - e enquanto engolia torradas com marmelada e chá - depois de um fim de noite a regorgitar um garrafa de tinto maduro Foral (estou a ser perseguido por ironias) uma consulta bovinamente curta e passiva da CNN colocou diante da minha face agoniada os seguintes factos: numa comunidade política com 7,9% de desemprego, as pessoas que destacaram a economia (economy) como tema político central votaram maioritariamente em Romney, enquanto as pessoas que elegerem o emprego (jobs) como tema político central votaram maioritarimaente em Obama, uma conclusão tão simplesmente elegantico-repetitiva que não ficaria mal a um Mário Crespo ou a um Lauro António. Como o que está aqui em causa é naturalmente uma rotação dos observadores sobre o mesmo problema (a coordenação entre mecanismos para distribuir os recursos e a estabilidade do sistema monetário) que tanto pode ser visto  a partir do conceito de mercado (economia) como do conceito filosófico-político de participação do homem na comunidade (trabalho), os resultados apontaram, também muito naturalmente, para um equilíbrio entre representantes republicanos e democratas no Senado, uma vez que estamos todos (tantos nós como os americanos, como qualquer eleitorado democrático) enrolados em coisas que não compreendemos e acabamos por votar naquele indivíduo que nos parece menos perturbado, ou seja, Barak Obama.
 
 
Apesar dos resultados menos equilibrados nos votos eleitorais (devido ao sistema de equivalência entre votantes e peso eleitoral no conjunto dos Estados) com clara vantagem de Obama (303) contra Romney (206), quando falta apurar a Flórida de Miami Vice, o voto popular registou a mesma tendência da representação no Senado: um equilíbrio entre 50% de votos em Obama contra 48% em Romney. Deve notar-se que ainda não tinha terminado a primeira peça do meu par de torradas e já desfilava diante de mim uma acutilante análise sobre a estrutura socio-cultural do eleitorado: 3% asiáticos, 10% hispânicos, 13% pretos e 72% brancos cuja variação eleitoral foi depois escrutinada com asiáticos, hispânicos e pretos (26%) a votarem maioritariamente - e eu diria esmagadoramente - em Obana, e os 72% a votarem maioritariamente em Romney mas não o suficiente para equilibrar o massivo e abençoado voto de confiança da sempre esclarecida escumalha na liberdade democrática que os conduziu e apesar de tudo protegeu nas suas elegantes asas até ao local onde se encontram.
 
 
Mal trinquei a segunda torrada, um escrutínio do chamado jornalisticamente «abismo fiscal» elencou as diferentes tendências de compressão do PIB (cortes na despesa, fim das isenções fiscais de G. W. Bush, subsídios do desemprego) no valor total de 7 triliões de dólares, o que aponta para um impacto de -3 ou 4% de redução do produto interno brutalizado, e isto dito de forma clara e simples por um gajo horrível que no entanto foi rapidamente retirado do ecrã pelo realizador para dar lugar a uma não espectacularmente bonita mas ainda assim agradável locutora que nos levou em direto para todos os lugares do mundo, incluindo um aldeia do Quénia onde uma preta velha avançava por uma multidão de pretos aos saltos saudando a eleição do seu neto.
 
 
Como diria o imortal Professor Doutor Catedrático e pessoa de bem Marcelo Rebelo de Sousa, duas pequenas notas: em primeiro lugar, Deus abençoe a América porque raramente se engana no momento da verdade e afasta para bem longe todas as pessoas que acreditam mesmo na existência de Deus; em segundo lugar, os jornalistas da imprensa escrita que arrumem as coisinhas da sua secretária e vão rapidamente inscrever-se no centro de emprego que nós aqui tomamos conta da loja.
 
 
 
Leitura de apoio aos petroleiros de estupidez sobre as eleições americanas que vão ser metodicamente carregados hoje, ao longo do dia, nas nossas televisões e jornais.


segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Tenho um peixinho vermelho chamado António José Seguro.

Um dos mais prementes assuntos da atualidade - e sobre o qual os estivadores do mundo inteiro estão desde a primeira hora seriamente comprometidos com as noites de sono mal dormidas da sua resolução - consiste em nada mais, nada menos do que o estudo da opinião sobre os impactos do apagamento das paixões no interior da consciência humana, agora que nos subtraíram a metáfora cardíaca do amor e a literatura disponível (da revista Lux até à Harvard Review Of Psychiatry) aponta, ainda que confusamente, para os elos estranhos, e perturbadores, entre o sistema nervoso, a tensão ocular, a produção de imagens, e a irrigação sanguínea das várias protuberâncias do nosso corpo.
 
 
Antes de desejar uma boa tarde a todas as pessoas e uma profícua leitura dos vários blogues brilhantes e muito engraçadas que por aí abundam a transbordar de pertinência emocional e inteligência política, desejo partilhar que um dos mais estranhos efeitos da existência é o rendimento marginal decrescente da contemplação do rosto amado. O jovem Marcel elaborou sobre isto, mas hoje é claramente ultrapassado em influência e ostentação de elogios pelas mais diversas pessoas muito engraçadas que por aí abundam cheias de pertinância emocional e inteligência política. Podemos suportar todas as desilusões, infidelidades, escassa correspondência, alterações afetivas, tudo menos a mudança da nossa própria opinião. Porque o apagamento da coroa de louros, o desaparecimento dos gotas de orvalho, o esmorecer da luminosidade que cercava o rosto amado e imperial sobre a nossa carne, lança sobre nós o anátema da dissolução e lembra cruelmente, a cada indivíduo que se vê desapossado da sua paixão, que a condição subjetiva, longe de ser um problema para o triunfo da ciência e o controlo das nossas vidas, é precisamente a dificuldade que inventámos para que existisse diante nós um inimigo (a personalidade) contra o qual se pudesse erguer um sentido de combate, e de caminho definir a fronteira da consciência.
 
 
Por isso se tem elogiado a invulgar capacidade de escritores como Shakespeare ou Pessoa, ao perseguirem o estilhaçamento temático, e a diversidade de pontos de vista com que retratam a vida, em função de uma despersonalização: mas isso é o que todos fazemos todos os dias, simplesmente a grande maioria das pessoas não cultiva a arte de bem escrever - pois prefere rir e ler irrelevância cómicas e ligeiras (somos todos tremendos economistas amadores e não gostamos de perder tempo com chatices), e mal uma pessoa se relaciona com a linguagem de uma forma intencional, começa logo a ser vítima do seu sistema nervoso, um  sistema que começa logo a economizar em caso de tensão, como o avidor perseguido pela bateria anti-aérea, que em vez de fazer uso de um comportamento altamente complexo que lhe salvaria a vida, e impediria o inimigo de prever a sua manobra, recorre ao material assimilado e aos planos de vôo amplamente treinados que o levam a tirar partido da velocidade, simplificando a rota, e tornando-se previsível para os cálculos do disparo.
 
 
Os tentáculos da personalidade não têm limite, sendo tão rápidos a envolver a presa, como a largá-la inteiramente à sua sorte. Os sentidos e a mutação das suas impressões, ora aparecem como uma onda destruidora, ora como uma farsa onde observamos a destruição da própria dignidade e a ideia que tinhamos de subjetividade, aquilo que em nós pertence a categorias inteiramente coerentes entre si e consistentes num sistema único e irrepetível (eu) que apenas por acaso recebeu um número de polícia, é um dos mais impressionantes mitos da nossa aventura trágica neste planeta. Tenho hesitado muito sobre se o declínio dos prazeres que emergem do rosto amado constitui a prova de que a mudança do coração é a pior dor que podemos algum dia sentir, ou se é apenas a evidência de que nos protegemos do sofrimento, neutralizando a fonte onde pulsa a dor, como um pequeno peixinho que sob a pressão da gigantesca massa de água segue um rumo que não compreende, nem quer compreender, pois não encontrou ainda nenhuma utilidade em refletir sobre problemas teleológicos, ao longo da sua evolução. Uma coisa é certa, se soubermos injetar nos acontecimentos toda a intensidade que é possível, as coisas vão perdendo a sua vibração, isto é, a vida cansa-nos, fazendo declinar a ansiedade sobre a queda da mente e do corpo, e nesse sentido, parece-me que está tudo bem.

O problema do mundo resume-se às pessoas


sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Semiótica

Aqui parece-me que está a semente do nosso sucesso. O Yussef, espero que ele não se importe que eu o trate assim mas eu também não reclamei do hip-hop árabe-neerlandês que ele tinha a berrar no rádio do mercedes. O Yussef, dizia eu, não conduz um táxi. Não, aqui em Roterdão, o Yussef trabalha para a Executive Transport Company Rotterdam, com direito a mercedes topo de gama e cartão de visita todo pipi.

Que ele tenha estado à espera de clientes à saída da estação de comboios, no estacionamento reservado aos táxis e que tenha um letreiro pequenino no topo do mercedes a dizer "taxi", isto tudo são minudências. Questões de pormenor que não nos devem desviar do essencial. O Youssef não é táxista, antes fosse porque prefiro a TSF a uma algarviada de hip-hop aos berros. O Youssef é profissional no transporte de executivos, que apenas por acaso ontem transportou o borra-botas que aqui vos escreve.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

A todos aqueles que têm demonstrado grande preocupação com a minha vida sentimental, o meu muito obrigado.



Se não fosse o facto de a minha presença ser requisitada em um outro campo semântico, mais precisamento um magnificamente coberto pavilhão desportivo de uma colectividade relativamente periférica à imortal linha de Cascais-Estoril, onde pelas 21 horas, 02 minutos e 31 segundos terá início uma refrega futebolística entre solteiros-casados jovens e casados-solteiros um pouco mais envelhecidos (sendo que os mais idosos equipam de preto porque carregam a tristeza melancólica do declínio - e perdem quase sempre, diga-se a bem da justiça desportiva) seria bem capaz de explicar porque razão o Manuel Maria Carrilho acaba de publicar um duplo volume em caixa de cartão, intitulado Pensar o Mundo, e colocado à venda pela pornográfica quantia de 95 euros e mais uns cêntimos, embora seja um dos mais ridículos autores de todos os tempos e manifestamente incapaz sequer de pensar de que maneira é que há-de impedir a cavalona da senhora sua mulher de passear, diante de meio mundo, a olímpica estupidez que a caracteriza, enquanto eu, muito pelo contrário, irei anonimamente espalhar magia com a bola nos pés, enquanto faculto por aqui, a título completamente gracioso, os mais secretos e profundos segredos ocultos no coração do homem moderno. Só para que vejam, a minha vida é isto:
 

Qualquer um pode ser o Lobo Antunes

«Uma maneira de compreender totalmente a compatibilidade do zodíaco Capricórnio, é preciso estar ciente de que uma pessoa Capricórnio é uma tecla qualquer.»
 
Citação de um comentário Elogio da Derrota, gerado automaticamente por alguém perdido numa máquina.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

O modo de produção das lágrimas e a exploração capitalista da consciência: Lobo Antunes, paga ao teu povo o que deves porque é ele que escreve os teus livros. O leitor recebe ainda grátis uma sentida e justa homenagem a Vitor Paneira.

António Lobo Antunes, Público



«As pessoas que lêem não têm importância nenhuma porque em muitos casos podem fazer muito melhor do que eu, se tiverem vontade e condições para tal, assim nós sejamos capazes de inventar um sistema de preços adequado ao mercado do livro, que ponha os mais capazes de produzir literatura a serem remunerados numa organização que elimine com o máximo de eficiência as distorções na produção de informação (sobre o custo de produção) e relacionando a escolha editorial com a produção crítica acerca da qualidade do livro, e essa merda de livros que escutam e leitores que falam, num gajo que está quase a atingir os 40 romances e só se ouve a si próprio - números que pertencem a uma produção industrializada e com altíssima mecanização - é mesmo de quem já perdeu a noção do que anda aqui a fazer»

Alf, em entrevista a uma gaja tremendamente interessante
que acaba de passar movimentando as ancas felinas
em cima de uns saltos incrivelmente elegantes.
 
 
 
Em nome do pai, da mãe e do filho da puta, que sou eu, estamos aqui reunidos para cumprir a descodificação dos santos mistérios a que nos propusemos no fim de semana próximo passado. Quem é António Lobo Antunes para a literatura portuguesa? É, antes de mais, uma pessoa com quem aprendi muita coisa, aspeto com que o salvo generosamente, pelos séculos dos séculos, do esquecimento em que inexoravelmente cairia, não fosse a minha generosa e delirante vida um sucessivo festival de erros de decisão que me levou, antes dos 23 anos, a devorar integralmente, e por esta ordem, no metro ou nas absurdas aulas dadas por um ex-Capitão de Abril sonolento (sou obrigado a sublinhar, mais um vez, que isto é integralmente verdade), Tratado das Paixões da Alma, Fado Alexandrino, Não Entres tão depressa nessa noite escura, Que farei quando tudo arde, Boa Tarde às coisas aqui em baixo, o que naturalmente induziu, na época, alguma distorção na minha capacidade de análise das variáveis em jogo na minha pobre vida, uma vez que a oscilação das árvores, o voo descoordenado dos flamingos, as últimas ceias em paredes colonizadas por manchas de humidade, os naprons manchados por café, os passos dos avós pelo soalho, confundiam-se com a desarrumação lírica da minha própria cabeça. Esta coincidência entre os caracteres ficcionados e a sua realização efetiva num rapaz periférico que frequentava os transportes públicos - onde curiosamente nunca encontrei o filho de uma grande e putativa senhora burguesa, Lobo Antunes - potenciou um nível de identificação com os protagonistas da narrativa (peço desculpa a Vladimir Nabokov mas na época ainda não estava consciente de que isto não tinha importância nenhuma) que deixou durante muito tempo a minha personalidade artística a boiar naquela imenso lago de metáforas bizarras, incandescência emocional e desorientação inter-temporal.
 
 
 
 
Não vou torturar os leitores com análises semiológicas da escrita antuniana, pois para isso temos a velha carcaça da Alzira Seixo, pelo que passamos diretamento à análise do modo de produção capitalista dos livros. Os Professores de Literatura, em geral preguiçosos e muito ignorantes, costumam filiar os textos de Lobo Antunes em Faulkner - um autor de fama inconcebível -, às vezes vão até Virginia Woolf - uma gaja talentosa, e com o seu encanto sexual, e de quem tenho pena de dizer que falhou rotundamente o seu projeto artístico - deixando quase sempre de fora, para minha total perplexidade, o quase nunca citado Ulysses de Joyce, que é evidente e descaradamente a «voz» que Lobo Antunes tenta copiar desajeitada e escandalosamente. Os resumos Europa-América da história da literatura imortalizaram a conquista literária de Joyce como uma abolição das convenções narrativas, reproduzindo-se na folha impressa de Ulysses o universo caótico, arbitrário, das imagens mentais, bem como a organização anacrónica das impressões passadas, aproximando a representação «natural» da consciência humana da desorganização tribal pré-racionalista, daí também a invocação do mundo clássico de Homero, o tempo em que as gajas e as aventuras marítimas (no fundo a mesma emoção de ver «passar um barco rumando para o sul, brincando na proa gostavas de estar, do Tom Swayer da minha infância) aí estavam à disposição. Claro que Joyce, sendo um especialista em muita coisa, era relativamente ignorante em história grega, note-se que alguns dos mais relevantes estudos do mundo clássico do ponto de vista da economia do trabalho foram publicados nos anos trinta do século XX, quando Joyce já tinha finalizado o Ulysses e andava a tentar não levar com uma bomba dos alemães pelos cornos abaixo, e por isso, a idealização bucólica do mundo antigo acaba por passar implícita na demonização do urbano, se bem que o Diabo de Joyce, um indivíduo que renegou a fé, adquiriu um aspeto celebrante, carnavalesco e transformador, pois que tudo na sua escrita surge temperado pela monumental festa de vida que irá constituir o Ulysses.
 
 
 
 
Em Lobo Antunes, a profunda ignorância, acaba por resultar numa elegia frouxa, uma espécie de fado corrido mas com metáforas um pouco mais educadas. Esta atração pela liberdade anti-racionalista (isto era bom era quando a minha família definia o bem e o mal), anti-industrial (aí que pena os prédios que arruinaram as quintas da minha infância em Benfica) e anti-burguesa (o gajo tinha umas tias tão católicas que nem sequer conseguia bater uma punheta em sossego nos lavabos) são características absolutamente implícitas nos livros de Lobo Antunes, embora constituam tópicos enterrados sob uma montanha de metáforas e labirintos narrativos. Eis-nos chegados ao problema. Não por acaso, Lobo Antunes refere muito a experiência africana sobre o tempo, na nossa perspectiva ocidental, racionalista e científica, uma experiência desorganizada, patriarcal, violenta e não individualizada, sem uma separação clara dos efeitos individiais e dos efeitos coletivos na produção dos fenómenos mentais, o que não espanta numa cultura que ainda utiliza, em free style, a catana para resolver os seus problemas de organização social.
 
 
 
Que a separação entre a consciência individual e os valores culturais de uma dada organização social são o tema central da filosofia conemporânea, ninguém tem dúvidas. Que um romancista apresente isto como uma novidade nos anos 90 do século XX, e muito pior, que seja completamente inconsciente relativamente às implicações da sua própria confusão mental, fruto de um maior compromisso com a fama pública do que com um verdadeiro trabalho crítico da sua própria escrita, já me parece uma vigarice digna do major Valentim Loureiro.
 
 
 
 
Lobo Antunes parte da épica e monumental realização do Joyce, mas como médico formado à pressa, e sem o repertório de cultura clássica, utiliza a ideia narrativa que hipnotizou e levou ao falhanço Virginia Woolf, a malograda escritora amiga de John Maynard Keynes, e que consistia na defesa de que era necessário considerar “the ordinary mind on an ordinary day.” Valha-me Deus que estas meninas eram jeitosas para casar (com mansões em charnecas verdejantes, cães de caça mais elegantes do que a própria rainha e bibliotecas luxuosas em salas aquecidas por lumes crepitantes forradas a madeiras exóticas importadas da Àsia à custa do sangue dos indianos) mas não percebiam um caralho do que diziam. Como é que um escritor define o que é uma pessoa ordinária ou um ordinário dia? Precisa de um sistema de valores que classifique o pescador de oleado amarelo de Ulysses como uma pessoa ordinária, ou a menina de Os anos que circula por uma carruajem na Londres de Oliver Twist, mas em qualquer dos casos, o «ordinário» já foi pelo cano, em primeiro lugar porque as pessoas ordinárias raramente atingem níveis de educação que lhes permita criar textos que perdurem no tempo - devo ser o primeiro caso na história da literatura, uma vez que o Saramago não conta porque tinha a servi-lo uma Igreja, o Partido Comunista Português - e em segundo lugar porque apenas numa visão classificadora e hierarquizadora existe uma ideia de ordem, um aspeto essencial para se poder considerar o que é ordinário.

 
 
 
Ora, é bom de ver que neste sentido, está tudo bem. Os burgueses escrevem romances burgueses e conservadores (quem tem lucro não gosta de oscilações de mercado), e atiram lá para dentro confusão suficiente para que se não perceba um corno do que querem dizer com aquilo. Se juntarmos a esta fúria psiquiátrica contra os pais ou mães - uma coisa comum a todos os doentes escritores adeptos da corrente ou fluxo da consciência - a profunda ignorância dos problemas históricos e filosóficos da humanidade, em cada ponto do seu conturbado gráfico evolutivo, temos um conjunto de romances cuja monstruosa propagação teve no caso português um resultado deprimente que originou coisas tão distintas, mas igualmente contaminadas nesta confusão estilística, como Daqui a Nada de Rodrigo Guedes de Carvalho (uma tragédia de auto-estima artística que chega a comover a forma como o homem se ajoelha sem dignidade perante o tosco Lobo Antunes) ou a obra completa de Margarida Rebelo Pinto (uma espécie de corrente da consciência, mas sem corrente ou movimento e uma consciência quase comatosa de tão lenta, além do total desconhecimento de Joyce, de Woolf, de Faulkner, enfim páginas onde convivem um muito escasso domínio dos truques de Lobo Antunes e um amplo domínio da burrice militante que costuma caracterizar pessoas que dizem muitas vezes «sei lá».
 
 
 
Quão longe estamos do arrumador de cavalos num teatro isabelino, e filho de um produtor de luvas, e neto de um criminoso condenado pela justiça inglesa, William Shakespeare. Pronto, pronto, deculpem a comparação. O ponto essencial é que a tentativa de reproduzir a tragédia individual do cidadão comum é uma total mistificação literária porque já devia ser uma edivência nesta altura do desenvolvimento psico-motor das ciências sociais e humanas que se o escritor conseguir dizer alguma coisa sobre si próprio está já na antecâmara aveludada e repleta de damas bonitas que se chama a imortalidade, ou se quiserem o mesmo raciocínio na versão do ex-seminarista de Nelas, e autor de Manhã Submersa, «a vida interia para dizer uma palavra, felizes os que chegam a dizer uma palavra». Aproveito este pequeno momento metafísico para aclarar uma influência decisiva mas não assumida por Lobo Antunes: Vergílio Ferreira, um mau escritor cuja obra tenho a infelicidade de conhecer como a palma da minha mão e que foi dos primeiros a transportar a pseudo-consciência para o discurso narrativo em Portugal mas que inteligentemente Antunes pretende relegar para o esquecimento fazendo diversas vezes considerações sobre o mau feitio do quase-padre como se isso fosse uma classificação digna de uma pessoa que se considera si própria inteligente.



 
Coloquemos uma respeitadora e racional ordem no problema: a erupção da consciência na narrativa como uma pulsão democrática pretende dinamitar a colocação do mesmo problema de sempre (o trágico conflito entre cultura e personalidade) mas erradicando a perspetiva aristocrática e clássica, que funcionava através de uma ordenadora e esteticamente conservadora enumeração analógica das ações, ideias e emoções do narrador, que foi, por exemplo, o caminho trilhado por Ovídio, Shakesperare ou Proust. A consciência simulada é uma tentativa de democratizar a narrativa, porque no meio da confusão e da ilegibilidade somos todos igualmente burros: como é evidente, nada mais falacioso, porque não só a hierarquização é mais violenta, uma vez que tendem a preponderar os argumentos de autoridade em face da obscuridade (veja-se a rapidez com que os abutres universitários atacaram a edição de Lobo Antunes) como os efeitos de escolarizaçao do estilo são mais devastadores (e veja-se a quantidade de pessoas a escrever «à Lobo Antunes»). Em Ulysses, Joyce faz a mesma coisa, mas claro, de forma elegante, chamando a atenção para o seu próprio estatuto como escritor ficcional, o que automaticamente revela a sua posição, e os seus constrangimentos como actor mas também como vítima da história, e a passagem daquilo que se chamava o romance a uma forma moderna de épica, aponta para a ridícula figura do século XIX ao querer naturalizar a consciência numa forma muito específica de realização social, em torno do chá das cinco, do estudo e observação dos movimentos da bolsa e do comércio internacional, e do competitivo e excitante mercado matrimonial.



 
Todos os livros de Lobo Antunes são construídos com alguma imaginação metafórica, embora muito desajeitada em alguns casos, mas numa totalmente estéril reprodução da linguagem joyceana. Vejamos numa entrevista recente, como Lobo Antunes encobre os seus segredos de oficina mental - o que seria imporante discutir - por uma mistificação absurda da sua profissão. Segundo a notícia do Público:

"Não é meia noite quem quer" é um livro que (António Lobo Antunes) escreveu com "as lágrimas a cair". Estava-lhe a acontecer a frase certa, o que queria mesmo dizer. Um livro que se escreveu sozinho, não precisou de muitas correcções e que lhe pareceu "um milagre" como só lhe tinha acontecido com "Explicação dos Pássaros", em 1980. O que já não lhe aconteceu com o romance que escreveu a seguir (acabou-o há um mês) e deverá ser publicado em 2014. "Não é meia noite quem quer" é um livro que escreveu para que pudesse "correr com a morte". É aquele livro de que gosta mais e que considera o mais autobiográfico. "Tenho a impressão de que estive a falar de mim o tempo inteiro, ali se descobre o autor do princípio ao fim do livro. É espantosamente autobiográfico".



 
Foda-se, três mil vezes caralho. Será preciso um gajo cobrir Portugal de livros todos iguais para chegar à velhice e descobrir que o livro de que gosta mais é o livro onde fala de si próprio? Será preciso um gajo sentar-se à secretário à beira da morte para escrever com as lágrimas a cair? No meu caso, ainda não tinha passado a adolescência e já escrevia com lágrimas a cair por muitas e diversas razões: escrevia com lágrimas a cair pela efeito harmónico com que o pensamento se desenrolava em imagens passíveis de serem pintadas com as cores implícitas nas associações de ideias (cumeadas de montanha, o estrondo dos comboios em estações noturnas, o coloridos estridente do monstro popular nos estádios, as praças chuvosas da velha Europa central onde os hieráticos soldados partilhavam o céu de chumbo com o cabelo dourado de meninas tristes com quem eu sonhava o Verão inteiro, fechado em vales repletos de milho, mineiros e velhas analfabetas vestidas de preto) escrevia com lágrimas a cair porque nem sempre as listas de material escolar eram devidamente executadas a tempo de evitar reprimendas públicas; escrevia com lágrimas a cair porque os meus pais não eram ninguém e comovidos com a nossa tragédia se desfaziam em acidentes de trabalho e a assistência humilhante à decadência de velhos generais, isto para evitarem pensar muito, e libertar os filhos da roda mortal da reprodução social, e eu tinha perfeita consciência do que isso significava; escrevia com lágrimas a cair porque o ódio e a inveja se alimentavam da minha carne e a expressão cantante e seletiva de palavras libertava como que por magia uma dignidade estóica que me salvava da degradação e me abria a fabulosa arca de méritos artísticos que é o sistemático cultivo da culpa própria; escrevia com lágrimas a cair por ser medroso e sofrer a incrível pressão do animal que se perdeu dos seus instintos de sobrevivência; escrevia com lágrimas a cair porque me parecia evidente que estava completamente fodido, e se pretendesse salvar o meu excesso de sensibilidade com uma carreira literária, os meus conhecidos ou os amigos do meu pai, que não eram catedráticos de Medicina Psiquiátrica, nem Presidentes da República, mas concertavam motores electro-mecânicos, não pareciam muito entusiasmados com a possibilidade de eu escrever um livro; escrevia com lágrimas a cair porque era muito claro que existiam lágrimas na natureza e tristeza no coração das coisas mas nada disso teria a mínima importância porque mortos ou vivos não existe nenhum ser imortal para lembrar e celebrar diligente a nossa passagem no mundo, pelo que só nos temos uns aos outros, o que não é pouco, e a consciência da beleza humana erguida precariamente num horizonte de destruição, concorria ainda mais para que as lágrimas corressem na minha face.



 
Mas que importa que hoje ou ontem tenham existido lágrimas na nossa face? Há lágrimas a cair em todas as faces, há sofrimento a produzir-se em todos os corpos do mundo, há declínio e humilhação a penetrar em todas as mentes, e a história, sendo um «pesadelo do qual não conseguimos acordar», continuar a desdobrar as suas patas de ferro, deixando para trás a confusão de lágrimas e lama de que já falava S. Agostinho. Continuaremos a laborar impotentes e medrosos na elegia do nosso desgosto, confusos perante as brutais «líricas rodas da vida»? Continuaremos a falar do humano esmagado pela disputa do protagonismo nos sistemas de cultura, despromovendo os que falham - e que são tão valiosos como os que acertam - para o melancólico e obscuro lugar da lírica? Não seria altura de falarmos de nós próprios, o que implica continuar a narrar mas agora a partir do local onde se produz a confusão - a nossa mente - e não simulando a confusão que imputamos aos outros, para naturalizar um conjunto de erros que só a nós pertencem? Em suma, é preciso encontrar D. Quixote e dizer-lhe que conhecemos um bom médico.


 
Claro que isto não é possível porque os outros são tão pouco o fruto da sua consciência como nós o somos da nossa, e falar das coisas que nos rodearam, sem fingir que estamos a reproduzir diretamente processos mentais, é em muitos casos falar mais diretamente da consciência e revelar de forma mais elegante e verdadeira os processos mentais. Mas o escritor trabalha com a mentira, o que torna tudo isto muito pantanoso. Não temos nenhuma compreensão de nós próprios, não avançámos um milímetro depois de Platão (ok, avançámos um décimo de milímetro com S. Agostinho e meio milímetro com Rosseau), nem sabemos sequer em que medida as imagens mentais nos afetam, nem onde se traça a divisão entre o que realmente aconteceu no passado e nossa interpretação mítica do passado, onde as ações, as decisões e até a construção dos desejos culturais são reinventados a cada minuto. Está claro agora como a corrente da consciência é tão falsamente literária como a férrea ordem métrica de Homero? Simplesmente, o totem da consciência está mais próximo da nossa mitologia comunicacional, porque aprendemos a utilizar alguns dos processos estatísticos que parecem estar na base do cálculo e funcionamento do sistema nervoso central, o que automaticamente erigiu o computador biológico como deus ao qual sacrificamos o nosso coração e entendimento.




 
Dessa forma, cada vez fará menos sentido o caos de discursos emocionais e a vitimização histórico-racional, bem como o estilhaçamento do tempo, que a corrente da consciência trouxe ao discurso lírico. A máquina da literatura irá reorganizar-se, e tanto Calvino como Sebald são os cansados mensageiros que descem pela encosta com as suas trompas jubilosas. No caso do italiano, lançando a leveza, o jogo, a velocidade e a participação integrada de muitas inteligências na reconfiguração dos objetivos humanos, construindo um coração para que a potente máquina possa produzir tanto sentidos quantas as capacidades de transformar o mundo físico. No caso do alemão, reorganizando as relações da memória individual com a história, devolvendo ao escritor o controlo sobre o tempo, mesmo nos casos em que esse tempo aparece multiplicado pelos mil problemas emocionais levantados pelo choque entre os atributos do sistema nervoso central e a mecanização dos processos humanos (comboios, aviões, reconversões urbanas, deslocamento de populações, guerras). São muitos os caminhos e ainda mais os intrumentos que os meus queridos leitores têm à sua disposição, para podermos partilhar todos os mundos interiores que estiveram até agora fechados e manipulados pelas divas literárias que monopolizavam as ténicas de impressão, difusão e comercialização da literatura. Só temos que dançar sobre o túmulo do livro e aperfeiçoar o maravilhoso sistema que temos diante dos olhos, colocando-o ao serviço das nossas intenções. Nesse momento, já estaremos a ser vítimas de nova fúria classificadora e não será fácil inventar um efeito que a cada momento reordene a autoridade em função da crítica ou do próprio sucesso do discurso, mantendo em aberto a possibilidade de todos falarmos ao mesmo tempo. Mas em todo o caso, é isso a blogosfera. Não temos o paraíso mas temos uma ligação mais direta entre a visibilidade do escritor, o incentivo moral para que escreva (fruto do número de visitas e tipo de comentários) e a permanente abertura a outros concorrentes, tudo isto com baixíssimos custos de transferência de direitos de propriedade (será isto o comunismo?). Existe o perigo do caos, mas esse esteve aí desde sempre. Resta-nos limpar as lágrimas, deixar os velhinhos entregues ao seu próprio passado, e beijar as almas jovens que são sempre as primeiras a coroar os artistas.

Alf, versão formatada



Flashado pela escrita em que a analítica Susan Sontag desenquadra a fotografia nos anos 70, e fulminado pelo extraordinário casamento entre democracia-jornalismo-maujornalismo-ganhar dinheiro-ter poder-e-democracia-outra-vez que combateu a minha insónia de ontem à noite, olho para a  tua escrita, Alf, e fico indeciso se ela constitui um exercício Pollockiano de realidade - essa bela palavra que descreves como apenas o produto final da evolução histórica de cada um – e a cristalização fotográfica, essa arte de cristalizar pela imagem o que hoje se cristaliza pela repetição. Vou pensar nisso melhor.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Hoje mesmo estareis comigo no Paraíso da Crítica Literária mas agora peço desculpa porque não tenho tempo nem para me coçar. Até logo.


Fora a insistência na tua robusta qualidade de leitor de livros e aquela peregrina ideia de que o único prazer e satisfação que assiste aos leitores de textos literários é achar algum interesse em comparar o seu igualmente rico mundo interior com o mundo interior de um outro sujeito – eu não me entretenho a comparar, digamos que parasito, na medida em que somo ao meu, muito do que me impressiona em textos literários e não só. E não me fodas porque fazes o mesmo. Esse murro no peito e o grito alfa do: eu leio livros; é o almíscar do teu -, fora isto, dizia eu… porque é que pensas que te leio???

Ex-Vincent Poursan, na madrugrada de um dia qualquer
que já não me lembro qual foi
e que agora não me apetece ir localizar 
mas que em o todo o caso 
me correu bastante mal, deve dizer-se.
 


Dada a qualidade das solicitações que têm sido enviadas generosamente para a caixa de comentários e da minha também manifesta e ostentatória generosidade, vamos ver se me consigo explicar a mim próprio com a mesma furiosa elegância com que a mim próprio me tenho fodido desde que me conheço capaz de endireitar a pilinha, ao fazer explodir continuadamente ao longo dos largos anos têm milhares de dias merdosos todos os meus projetos de enriquecimento e grandeza, com a meticulosidade de um terrorista politicamente radical mas apenas em relação à sua própria existência, o que deve, em princípio, fazer de mim um bombista suicida que por não ter Jerusalém ou Nova Iorque contra a qual desfazer-se contra, passa uma grande parte da vida a instruir a inteligência na justificação da sua própria menoridade emocional, o que o habilita a uma posição de especial compreensão em relação ao fenómeno narrativo Lobo Antunes (mas já voltarei a este tema, se me apetecer caralho, que eu ainda não ganho para isso) e isto se entretanto não rebentar por aqui nenhuma bomba ou entrar furibundamente pela porta do café um leitor do ex-vincent com vontade de remeter o génio ao silêncio, uma sugestão mental que me compara a John Lenon e que aceito como um violento insulto já que gajos de Liverpool que comem japonesas ecologistas e de esquerda não são propriamente o meu tipo ideal weberiano de identificação mimética. Há quem sugira que se pode resumir toda esta longa frase dizendo que a grande obra literária é sempre o vestígio do espetacular naufrágio intelectual de uma grande inteligência, e quem sou eu para me contrariar a mim próprio.

 
 
Quando algures na historiografia da minha adolescência, para citar uma expressão do silencioso Maradona, a fisicamente horrenda professora de Matemática do décimo primeiro ano depois de ter começado o inferno deste artista enquanto jovem, concentrada na sua muito superficial ética profissional do ensino secundário, e incapaz de compreender que tinha diante de si um gajo que se estava a marimbar para os resultados e as demonstrações, e que apenas se interessava por problemas realmente difíceis, como os que estão incluídos na domesticação da insuportável dor que sempre lavra imparável na floresta assombrada das recordações e que constituem a glorioso e insidiosa mente de um indivíduo sensível, resolveu alegremente humilhar-me em frente da turma apelidando-me caridosamente de «pobreza franciscana», não só me insultou como pessoa na época especializada na leitura de um livro pornográfico intitulado Florinhas de S. Francisco (e isto é rigorosamente verdade, ó suprema ironia das coisas reais) como entrou diretamente e sem passar pela casa da partida para a história da literatura mundial - figurando como uma lendária atualização do igualmente feio e impiedoso Herodes - como marcou ainda indelevelmente a minha carne  com um projeto de crescente afastamento da razão quantitativa que me tem feito arrastar por salários precários e uma boa vida, sendo que é preciso também dizer que, nesse momento, algo de muito grave ganhou uma importância mórbida para o significado ontológico da vida do autor destas linhas: morreu o homem, nasceu o monstro, pelo que não sei que diga sobre a intervenção da boa e horrenda velhinha, uma vez que tudo em mim apontava para o afastamento do tipo exemplar representativo da confusão que a humanidade tem espalhado pelo mundo, pelo que talvez aquela mulher tenha sido um acontecimento providencial nos destinos artísticos do mundo.
 

Quero chamar a atenção para o facto de esta consciência clara e límpida ser a principal prova de que se não fosse a sucessão de causalidades histórico-psiquiátricas que me afastaram de um aplicado e responsável percurso de estudos, podíamos estar agora todos a celebrar com grande satisfação o grande cientista ou político ou sacerdote português que acaba de mudar o curso da história. Mas não, estamos apenas num lugar obscuro do mundo virtual a fazer uma figura tristemente trágica uns diante dos outros, à semelhança de pavões embriagados que não sabem muito bem o que fazer com o espectacular recurso de penas coloridas com que a natureza, sempre irónica e cruel, resolveu dotá-los. Acontece que a grandeza da vida está em que podemos aplicar este mesmo argumento de causalidade arbitrária a qualquer pessoa que se preze pelo menos um bocadinho e que é a única defesa para evitar a queda ou na auto-mutilação mental ou na auto-glorificação estupificante.
 
(Posso dizer a título de exemplo que este post foi publicado agora mas redigido durante a tarde de Sábado, enquanto um conjunto de pessoas que decidem o que devo ou não escrever profissionalmente, se entretinham a fazer uma figura ainda mais triste do que a que aqui fazemos, embora todas essas pessoas sejam largamente remuneradas por instituições que dependem da nossa extraordinária vontade democrática mas que se auto-anulam de forma circense a cada minuto que passa, sem a mais pequena consciência do festival de parvoíces que lhes sai da boca pelo simples facto de que à semelhança dos aristrocratas dos reinos decadentes, ostentam ainda títulos e folhas de rendimento, ignorando que na noite já se afiam os punhais para a vingança. Está tudo bem, não se incomodem).

Ao contrário do que acontece com as pessoas normais, os indivíduos especialmente doentes e perturbados* são os mais rápidos a identificar o génio, a cultura, o inacreditável e sempre fundamental número de livros assimilados, e a grandiosidade relativa que uns e outros vão demonstrando neste jogo de xadrez a que chamamos vida, o que facilita muito as coisas, e nos permitiria passar já ao que interessa, mas isso se eu tivesse tempo.


* À semelhança de Sua Santidade o Papa, Joseph Ratzinger, e por intermédio dos comentários irados de um dos mais fiéis e exigentes polícias de estilo deste blogue, AM - que muito prezamos por força do critério de excelência a que submetemos as nossas ações - sou forçado a interpretar as minhas próprias interpretações, o que se explica por uma longa exposição da minha altamente rigorosa e influenciável sensibilidade aos efeitos radioativos dos sucedâneos dos discursos eclesiásticos, pelo que se confirma o acerto do meu conceito de perturbação, isto é, alguma coisa que afeta o normal funcionamento das instituições cognitivas que nos habitam interiormente os cornos, o que não quer dizer que o contrário da doença seja a normalidade, ou o contrário da normalidade, a psicopatia grave.  As pessoas especialmente - e faço notar o efeito modificador deste especialmente - doentes e perturbadas devem ser aqui entendidas como pessoas que se perderam da instintiva normalidade da natureza  - uma coisa que ninguém sabe o que é, com a excepção do Merleau Ponty, que é o único marxista que conheço que sabia coisas - ou como dizia o velho Popper interpretando um mito de origem: «para aqueles que comeram da árvore do conhecimento, o Paraíso foi perdido», o que não quer dizer que tenham por isso, e consequentemente, caído no fogo do inferno, acrescento eu. Tudo esclarecido?
 
Caravaggio, Estigmatização de S. Francisco de Assis
 

Será possível escrever bem sem raiva, sem remorso?

Se me perguntarem o que para mim é ser urbano ou sentir-me cosmopolita, falar-vos-ei sem pestanejar, de andar de metro mais entalado que a minha situação fiscal; de autocarros cheios de velhos que parecem ir para lado nenhum e de pessoas outonais que sentem demasiado frio para quem vive num país pré-africano. Um Novaiorquino falar-vos-ia de museus, de cinemas, de exposições e de passeios no parque. E de furacões, mas só hoje; um Berlinense, de varrer a neve no passeio, de copos de vinho francês barato em cabarés na zona leste e de dinheiro mal gasto por países que só conhecem do futebol; um espanhol não fala, resmunga. Mas para mim, deslocado de onde não há transportes públicos, cidade é sinónimo maior de engarrafamentos e de transportes públicos mais cheios que as vergonhas de jovens moças dos filmes porno dos anos 70. Portugal dos anos 2000-e-tal, pós-migração brasileira, já não deveria ser assim.

Mas a cidade é também garante de ver mulheres bonitas todos os dias. Não tenho o privilégio de fazer isto. Mas nada me impede o enquadramento, o desfoque do fundo, o equilíbrio da luz. Nada, exceto o sono. Ela era linda, entrou com a elegância que o frio da rua a ajudava a vestir. Mas o sono, a noite mal dormida e o balançar do autocarro levaram-me a focar tudo. Tudo, da velhota sonâmbula ao motorista-com-perfil-de-empregado-de-balcão-de-banco-da-baixa. Tudo menos ela. Às vezes percebo melhor isto de só se ver o que se quer. Às vezes percebo melhor os retratos que fundam na procura de pequenos traços de nitidez o prazer que se revela aqui e ali. Mesmo no prato. Um bem-haja, Esteves Cardoso.

Estou a ouvir Bon Iver

Dos quatro que aqui escrevem, sou o que menos leu e - por consequência - o que pior e menos escreve. Coisas da vida. Mas gosto muito dos mistérios da paternidade. Que me tira horas de sono e me deixa cansado ainda antes de começar. E sou adepto do Sporting. Que numa segunda feira me parece ser ainda a pior maneira de começar o que quer que seja. E claro, gosto de vídeos de gatinhos. Sou um tipo bastante gráfico. É por isso que gosto mesmo é da Internet.  Só aqui se poderiam encontrar estas duas belas imagens que falam tanto do que aqui se tem escrito. Deixo-vos. Está tudo bem.



domingo, 28 de outubro de 2012

Um tipo questiona-se (II)


Outra curiosidade que a minha busca de emprego revelou foi a uniformidade dos baixos salários pagos por essa Europa fora. Sim, eu escrevi baixos.

Ora, eu estava convencido de que lá fora, as empresas pagariam bateladas de massa pelo privilégio de empregar a minha pessoa. Uma rápida pesquisa pela net revelou que não só na Europa se ganha pouco mais do que cá, como os impostos lá fora garantem que ninguém enriquece a trabalhar.

Mas o que mais me estranhou foi a estranha homogeneidade dos salários. Mais centena menos centena de euros eu iria ganhar o mesmo, quer fosse para Cambridge, talvez vá, quer esteja em Roterdão, vou lá dar um saltinho, ou me mude para Bruxelas, pode ser que sim.

Isto é extraordinário. Os oirópas, designemos assim a malta para lá dos Pirinéus, garantiram-me até que só me iriam pagar de acordo com a posição e a experiência. Que se estavam positivamente a cagar para eu ter custos na mudança e que querem lá saber quanto custa o aluguer de um T2 minúsculo.

E extraordinário é porque contrasta com a minha experiência cá. Logo no início da caminhada falei com uma multinacional sediada nas bordas de Lisboa. Não só pagam mal, para os standards nacionais, como permitem uma grande disparidade de salários para as mesmas posições. Um enorme desincentivo ao esforço individual, como se percebe.

Acrescento também um deslize de um ex-patrão: quando se queixava dos elevados custos salariais da empresa, deixou escapar quanto ganhava o meu colega. Quatro vezes mais que eu porque ele foi cigano o suficiente na altura de negociar. Saí ao fim de dois meses.