terça-feira, 30 de outubro de 2012

O modo de produção das lágrimas e a exploração capitalista da consciência: Lobo Antunes, paga ao teu povo o que deves porque é ele que escreve os teus livros. O leitor recebe ainda grátis uma sentida e justa homenagem a Vitor Paneira.

António Lobo Antunes, Público



«As pessoas que lêem não têm importância nenhuma porque em muitos casos podem fazer muito melhor do que eu, se tiverem vontade e condições para tal, assim nós sejamos capazes de inventar um sistema de preços adequado ao mercado do livro, que ponha os mais capazes de produzir literatura a serem remunerados numa organização que elimine com o máximo de eficiência as distorções na produção de informação (sobre o custo de produção) e relacionando a escolha editorial com a produção crítica acerca da qualidade do livro, e essa merda de livros que escutam e leitores que falam, num gajo que está quase a atingir os 40 romances e só se ouve a si próprio - números que pertencem a uma produção industrializada e com altíssima mecanização - é mesmo de quem já perdeu a noção do que anda aqui a fazer»

Alf, em entrevista a uma gaja tremendamente interessante
que acaba de passar movimentando as ancas felinas
em cima de uns saltos incrivelmente elegantes.
 
 
 
Em nome do pai, da mãe e do filho da puta, que sou eu, estamos aqui reunidos para cumprir a descodificação dos santos mistérios a que nos propusemos no fim de semana próximo passado. Quem é António Lobo Antunes para a literatura portuguesa? É, antes de mais, uma pessoa com quem aprendi muita coisa, aspeto com que o salvo generosamente, pelos séculos dos séculos, do esquecimento em que inexoravelmente cairia, não fosse a minha generosa e delirante vida um sucessivo festival de erros de decisão que me levou, antes dos 23 anos, a devorar integralmente, e por esta ordem, no metro ou nas absurdas aulas dadas por um ex-Capitão de Abril sonolento (sou obrigado a sublinhar, mais um vez, que isto é integralmente verdade), Tratado das Paixões da Alma, Fado Alexandrino, Não Entres tão depressa nessa noite escura, Que farei quando tudo arde, Boa Tarde às coisas aqui em baixo, o que naturalmente induziu, na época, alguma distorção na minha capacidade de análise das variáveis em jogo na minha pobre vida, uma vez que a oscilação das árvores, o voo descoordenado dos flamingos, as últimas ceias em paredes colonizadas por manchas de humidade, os naprons manchados por café, os passos dos avós pelo soalho, confundiam-se com a desarrumação lírica da minha própria cabeça. Esta coincidência entre os caracteres ficcionados e a sua realização efetiva num rapaz periférico que frequentava os transportes públicos - onde curiosamente nunca encontrei o filho de uma grande e putativa senhora burguesa, Lobo Antunes - potenciou um nível de identificação com os protagonistas da narrativa (peço desculpa a Vladimir Nabokov mas na época ainda não estava consciente de que isto não tinha importância nenhuma) que deixou durante muito tempo a minha personalidade artística a boiar naquela imenso lago de metáforas bizarras, incandescência emocional e desorientação inter-temporal.
 
 
 
 
Não vou torturar os leitores com análises semiológicas da escrita antuniana, pois para isso temos a velha carcaça da Alzira Seixo, pelo que passamos diretamento à análise do modo de produção capitalista dos livros. Os Professores de Literatura, em geral preguiçosos e muito ignorantes, costumam filiar os textos de Lobo Antunes em Faulkner - um autor de fama inconcebível -, às vezes vão até Virginia Woolf - uma gaja talentosa, e com o seu encanto sexual, e de quem tenho pena de dizer que falhou rotundamente o seu projeto artístico - deixando quase sempre de fora, para minha total perplexidade, o quase nunca citado Ulysses de Joyce, que é evidente e descaradamente a «voz» que Lobo Antunes tenta copiar desajeitada e escandalosamente. Os resumos Europa-América da história da literatura imortalizaram a conquista literária de Joyce como uma abolição das convenções narrativas, reproduzindo-se na folha impressa de Ulysses o universo caótico, arbitrário, das imagens mentais, bem como a organização anacrónica das impressões passadas, aproximando a representação «natural» da consciência humana da desorganização tribal pré-racionalista, daí também a invocação do mundo clássico de Homero, o tempo em que as gajas e as aventuras marítimas (no fundo a mesma emoção de ver «passar um barco rumando para o sul, brincando na proa gostavas de estar, do Tom Swayer da minha infância) aí estavam à disposição. Claro que Joyce, sendo um especialista em muita coisa, era relativamente ignorante em história grega, note-se que alguns dos mais relevantes estudos do mundo clássico do ponto de vista da economia do trabalho foram publicados nos anos trinta do século XX, quando Joyce já tinha finalizado o Ulysses e andava a tentar não levar com uma bomba dos alemães pelos cornos abaixo, e por isso, a idealização bucólica do mundo antigo acaba por passar implícita na demonização do urbano, se bem que o Diabo de Joyce, um indivíduo que renegou a fé, adquiriu um aspeto celebrante, carnavalesco e transformador, pois que tudo na sua escrita surge temperado pela monumental festa de vida que irá constituir o Ulysses.
 
 
 
 
Em Lobo Antunes, a profunda ignorância, acaba por resultar numa elegia frouxa, uma espécie de fado corrido mas com metáforas um pouco mais educadas. Esta atração pela liberdade anti-racionalista (isto era bom era quando a minha família definia o bem e o mal), anti-industrial (aí que pena os prédios que arruinaram as quintas da minha infância em Benfica) e anti-burguesa (o gajo tinha umas tias tão católicas que nem sequer conseguia bater uma punheta em sossego nos lavabos) são características absolutamente implícitas nos livros de Lobo Antunes, embora constituam tópicos enterrados sob uma montanha de metáforas e labirintos narrativos. Eis-nos chegados ao problema. Não por acaso, Lobo Antunes refere muito a experiência africana sobre o tempo, na nossa perspectiva ocidental, racionalista e científica, uma experiência desorganizada, patriarcal, violenta e não individualizada, sem uma separação clara dos efeitos individiais e dos efeitos coletivos na produção dos fenómenos mentais, o que não espanta numa cultura que ainda utiliza, em free style, a catana para resolver os seus problemas de organização social.
 
 
 
Que a separação entre a consciência individual e os valores culturais de uma dada organização social são o tema central da filosofia conemporânea, ninguém tem dúvidas. Que um romancista apresente isto como uma novidade nos anos 90 do século XX, e muito pior, que seja completamente inconsciente relativamente às implicações da sua própria confusão mental, fruto de um maior compromisso com a fama pública do que com um verdadeiro trabalho crítico da sua própria escrita, já me parece uma vigarice digna do major Valentim Loureiro.
 
 
 
 
Lobo Antunes parte da épica e monumental realização do Joyce, mas como médico formado à pressa, e sem o repertório de cultura clássica, utiliza a ideia narrativa que hipnotizou e levou ao falhanço Virginia Woolf, a malograda escritora amiga de John Maynard Keynes, e que consistia na defesa de que era necessário considerar “the ordinary mind on an ordinary day.” Valha-me Deus que estas meninas eram jeitosas para casar (com mansões em charnecas verdejantes, cães de caça mais elegantes do que a própria rainha e bibliotecas luxuosas em salas aquecidas por lumes crepitantes forradas a madeiras exóticas importadas da Àsia à custa do sangue dos indianos) mas não percebiam um caralho do que diziam. Como é que um escritor define o que é uma pessoa ordinária ou um ordinário dia? Precisa de um sistema de valores que classifique o pescador de oleado amarelo de Ulysses como uma pessoa ordinária, ou a menina de Os anos que circula por uma carruajem na Londres de Oliver Twist, mas em qualquer dos casos, o «ordinário» já foi pelo cano, em primeiro lugar porque as pessoas ordinárias raramente atingem níveis de educação que lhes permita criar textos que perdurem no tempo - devo ser o primeiro caso na história da literatura, uma vez que o Saramago não conta porque tinha a servi-lo uma Igreja, o Partido Comunista Português - e em segundo lugar porque apenas numa visão classificadora e hierarquizadora existe uma ideia de ordem, um aspeto essencial para se poder considerar o que é ordinário.

 
 
 
Ora, é bom de ver que neste sentido, está tudo bem. Os burgueses escrevem romances burgueses e conservadores (quem tem lucro não gosta de oscilações de mercado), e atiram lá para dentro confusão suficiente para que se não perceba um corno do que querem dizer com aquilo. Se juntarmos a esta fúria psiquiátrica contra os pais ou mães - uma coisa comum a todos os doentes escritores adeptos da corrente ou fluxo da consciência - a profunda ignorância dos problemas históricos e filosóficos da humanidade, em cada ponto do seu conturbado gráfico evolutivo, temos um conjunto de romances cuja monstruosa propagação teve no caso português um resultado deprimente que originou coisas tão distintas, mas igualmente contaminadas nesta confusão estilística, como Daqui a Nada de Rodrigo Guedes de Carvalho (uma tragédia de auto-estima artística que chega a comover a forma como o homem se ajoelha sem dignidade perante o tosco Lobo Antunes) ou a obra completa de Margarida Rebelo Pinto (uma espécie de corrente da consciência, mas sem corrente ou movimento e uma consciência quase comatosa de tão lenta, além do total desconhecimento de Joyce, de Woolf, de Faulkner, enfim páginas onde convivem um muito escasso domínio dos truques de Lobo Antunes e um amplo domínio da burrice militante que costuma caracterizar pessoas que dizem muitas vezes «sei lá».
 
 
 
Quão longe estamos do arrumador de cavalos num teatro isabelino, e filho de um produtor de luvas, e neto de um criminoso condenado pela justiça inglesa, William Shakespeare. Pronto, pronto, deculpem a comparação. O ponto essencial é que a tentativa de reproduzir a tragédia individual do cidadão comum é uma total mistificação literária porque já devia ser uma edivência nesta altura do desenvolvimento psico-motor das ciências sociais e humanas que se o escritor conseguir dizer alguma coisa sobre si próprio está já na antecâmara aveludada e repleta de damas bonitas que se chama a imortalidade, ou se quiserem o mesmo raciocínio na versão do ex-seminarista de Nelas, e autor de Manhã Submersa, «a vida interia para dizer uma palavra, felizes os que chegam a dizer uma palavra». Aproveito este pequeno momento metafísico para aclarar uma influência decisiva mas não assumida por Lobo Antunes: Vergílio Ferreira, um mau escritor cuja obra tenho a infelicidade de conhecer como a palma da minha mão e que foi dos primeiros a transportar a pseudo-consciência para o discurso narrativo em Portugal mas que inteligentemente Antunes pretende relegar para o esquecimento fazendo diversas vezes considerações sobre o mau feitio do quase-padre como se isso fosse uma classificação digna de uma pessoa que se considera si própria inteligente.



 
Coloquemos uma respeitadora e racional ordem no problema: a erupção da consciência na narrativa como uma pulsão democrática pretende dinamitar a colocação do mesmo problema de sempre (o trágico conflito entre cultura e personalidade) mas erradicando a perspetiva aristocrática e clássica, que funcionava através de uma ordenadora e esteticamente conservadora enumeração analógica das ações, ideias e emoções do narrador, que foi, por exemplo, o caminho trilhado por Ovídio, Shakesperare ou Proust. A consciência simulada é uma tentativa de democratizar a narrativa, porque no meio da confusão e da ilegibilidade somos todos igualmente burros: como é evidente, nada mais falacioso, porque não só a hierarquização é mais violenta, uma vez que tendem a preponderar os argumentos de autoridade em face da obscuridade (veja-se a rapidez com que os abutres universitários atacaram a edição de Lobo Antunes) como os efeitos de escolarizaçao do estilo são mais devastadores (e veja-se a quantidade de pessoas a escrever «à Lobo Antunes»). Em Ulysses, Joyce faz a mesma coisa, mas claro, de forma elegante, chamando a atenção para o seu próprio estatuto como escritor ficcional, o que automaticamente revela a sua posição, e os seus constrangimentos como actor mas também como vítima da história, e a passagem daquilo que se chamava o romance a uma forma moderna de épica, aponta para a ridícula figura do século XIX ao querer naturalizar a consciência numa forma muito específica de realização social, em torno do chá das cinco, do estudo e observação dos movimentos da bolsa e do comércio internacional, e do competitivo e excitante mercado matrimonial.



 
Todos os livros de Lobo Antunes são construídos com alguma imaginação metafórica, embora muito desajeitada em alguns casos, mas numa totalmente estéril reprodução da linguagem joyceana. Vejamos numa entrevista recente, como Lobo Antunes encobre os seus segredos de oficina mental - o que seria imporante discutir - por uma mistificação absurda da sua profissão. Segundo a notícia do Público:

"Não é meia noite quem quer" é um livro que (António Lobo Antunes) escreveu com "as lágrimas a cair". Estava-lhe a acontecer a frase certa, o que queria mesmo dizer. Um livro que se escreveu sozinho, não precisou de muitas correcções e que lhe pareceu "um milagre" como só lhe tinha acontecido com "Explicação dos Pássaros", em 1980. O que já não lhe aconteceu com o romance que escreveu a seguir (acabou-o há um mês) e deverá ser publicado em 2014. "Não é meia noite quem quer" é um livro que escreveu para que pudesse "correr com a morte". É aquele livro de que gosta mais e que considera o mais autobiográfico. "Tenho a impressão de que estive a falar de mim o tempo inteiro, ali se descobre o autor do princípio ao fim do livro. É espantosamente autobiográfico".



 
Foda-se, três mil vezes caralho. Será preciso um gajo cobrir Portugal de livros todos iguais para chegar à velhice e descobrir que o livro de que gosta mais é o livro onde fala de si próprio? Será preciso um gajo sentar-se à secretário à beira da morte para escrever com as lágrimas a cair? No meu caso, ainda não tinha passado a adolescência e já escrevia com lágrimas a cair por muitas e diversas razões: escrevia com lágrimas a cair pela efeito harmónico com que o pensamento se desenrolava em imagens passíveis de serem pintadas com as cores implícitas nas associações de ideias (cumeadas de montanha, o estrondo dos comboios em estações noturnas, o coloridos estridente do monstro popular nos estádios, as praças chuvosas da velha Europa central onde os hieráticos soldados partilhavam o céu de chumbo com o cabelo dourado de meninas tristes com quem eu sonhava o Verão inteiro, fechado em vales repletos de milho, mineiros e velhas analfabetas vestidas de preto) escrevia com lágrimas a cair porque nem sempre as listas de material escolar eram devidamente executadas a tempo de evitar reprimendas públicas; escrevia com lágrimas a cair porque os meus pais não eram ninguém e comovidos com a nossa tragédia se desfaziam em acidentes de trabalho e a assistência humilhante à decadência de velhos generais, isto para evitarem pensar muito, e libertar os filhos da roda mortal da reprodução social, e eu tinha perfeita consciência do que isso significava; escrevia com lágrimas a cair porque o ódio e a inveja se alimentavam da minha carne e a expressão cantante e seletiva de palavras libertava como que por magia uma dignidade estóica que me salvava da degradação e me abria a fabulosa arca de méritos artísticos que é o sistemático cultivo da culpa própria; escrevia com lágrimas a cair por ser medroso e sofrer a incrível pressão do animal que se perdeu dos seus instintos de sobrevivência; escrevia com lágrimas a cair porque me parecia evidente que estava completamente fodido, e se pretendesse salvar o meu excesso de sensibilidade com uma carreira literária, os meus conhecidos ou os amigos do meu pai, que não eram catedráticos de Medicina Psiquiátrica, nem Presidentes da República, mas concertavam motores electro-mecânicos, não pareciam muito entusiasmados com a possibilidade de eu escrever um livro; escrevia com lágrimas a cair porque era muito claro que existiam lágrimas na natureza e tristeza no coração das coisas mas nada disso teria a mínima importância porque mortos ou vivos não existe nenhum ser imortal para lembrar e celebrar diligente a nossa passagem no mundo, pelo que só nos temos uns aos outros, o que não é pouco, e a consciência da beleza humana erguida precariamente num horizonte de destruição, concorria ainda mais para que as lágrimas corressem na minha face.



 
Mas que importa que hoje ou ontem tenham existido lágrimas na nossa face? Há lágrimas a cair em todas as faces, há sofrimento a produzir-se em todos os corpos do mundo, há declínio e humilhação a penetrar em todas as mentes, e a história, sendo um «pesadelo do qual não conseguimos acordar», continuar a desdobrar as suas patas de ferro, deixando para trás a confusão de lágrimas e lama de que já falava S. Agostinho. Continuaremos a laborar impotentes e medrosos na elegia do nosso desgosto, confusos perante as brutais «líricas rodas da vida»? Continuaremos a falar do humano esmagado pela disputa do protagonismo nos sistemas de cultura, despromovendo os que falham - e que são tão valiosos como os que acertam - para o melancólico e obscuro lugar da lírica? Não seria altura de falarmos de nós próprios, o que implica continuar a narrar mas agora a partir do local onde se produz a confusão - a nossa mente - e não simulando a confusão que imputamos aos outros, para naturalizar um conjunto de erros que só a nós pertencem? Em suma, é preciso encontrar D. Quixote e dizer-lhe que conhecemos um bom médico.


 
Claro que isto não é possível porque os outros são tão pouco o fruto da sua consciência como nós o somos da nossa, e falar das coisas que nos rodearam, sem fingir que estamos a reproduzir diretamente processos mentais, é em muitos casos falar mais diretamente da consciência e revelar de forma mais elegante e verdadeira os processos mentais. Mas o escritor trabalha com a mentira, o que torna tudo isto muito pantanoso. Não temos nenhuma compreensão de nós próprios, não avançámos um milímetro depois de Platão (ok, avançámos um décimo de milímetro com S. Agostinho e meio milímetro com Rosseau), nem sabemos sequer em que medida as imagens mentais nos afetam, nem onde se traça a divisão entre o que realmente aconteceu no passado e nossa interpretação mítica do passado, onde as ações, as decisões e até a construção dos desejos culturais são reinventados a cada minuto. Está claro agora como a corrente da consciência é tão falsamente literária como a férrea ordem métrica de Homero? Simplesmente, o totem da consciência está mais próximo da nossa mitologia comunicacional, porque aprendemos a utilizar alguns dos processos estatísticos que parecem estar na base do cálculo e funcionamento do sistema nervoso central, o que automaticamente erigiu o computador biológico como deus ao qual sacrificamos o nosso coração e entendimento.




 
Dessa forma, cada vez fará menos sentido o caos de discursos emocionais e a vitimização histórico-racional, bem como o estilhaçamento do tempo, que a corrente da consciência trouxe ao discurso lírico. A máquina da literatura irá reorganizar-se, e tanto Calvino como Sebald são os cansados mensageiros que descem pela encosta com as suas trompas jubilosas. No caso do italiano, lançando a leveza, o jogo, a velocidade e a participação integrada de muitas inteligências na reconfiguração dos objetivos humanos, construindo um coração para que a potente máquina possa produzir tanto sentidos quantas as capacidades de transformar o mundo físico. No caso do alemão, reorganizando as relações da memória individual com a história, devolvendo ao escritor o controlo sobre o tempo, mesmo nos casos em que esse tempo aparece multiplicado pelos mil problemas emocionais levantados pelo choque entre os atributos do sistema nervoso central e a mecanização dos processos humanos (comboios, aviões, reconversões urbanas, deslocamento de populações, guerras). São muitos os caminhos e ainda mais os intrumentos que os meus queridos leitores têm à sua disposição, para podermos partilhar todos os mundos interiores que estiveram até agora fechados e manipulados pelas divas literárias que monopolizavam as ténicas de impressão, difusão e comercialização da literatura. Só temos que dançar sobre o túmulo do livro e aperfeiçoar o maravilhoso sistema que temos diante dos olhos, colocando-o ao serviço das nossas intenções. Nesse momento, já estaremos a ser vítimas de nova fúria classificadora e não será fácil inventar um efeito que a cada momento reordene a autoridade em função da crítica ou do próprio sucesso do discurso, mantendo em aberto a possibilidade de todos falarmos ao mesmo tempo. Mas em todo o caso, é isso a blogosfera. Não temos o paraíso mas temos uma ligação mais direta entre a visibilidade do escritor, o incentivo moral para que escreva (fruto do número de visitas e tipo de comentários) e a permanente abertura a outros concorrentes, tudo isto com baixíssimos custos de transferência de direitos de propriedade (será isto o comunismo?). Existe o perigo do caos, mas esse esteve aí desde sempre. Resta-nos limpar as lágrimas, deixar os velhinhos entregues ao seu próprio passado, e beijar as almas jovens que são sempre as primeiras a coroar os artistas.

Alf, versão formatada



Flashado pela escrita em que a analítica Susan Sontag desenquadra a fotografia nos anos 70, e fulminado pelo extraordinário casamento entre democracia-jornalismo-maujornalismo-ganhar dinheiro-ter poder-e-democracia-outra-vez que combateu a minha insónia de ontem à noite, olho para a  tua escrita, Alf, e fico indeciso se ela constitui um exercício Pollockiano de realidade - essa bela palavra que descreves como apenas o produto final da evolução histórica de cada um – e a cristalização fotográfica, essa arte de cristalizar pela imagem o que hoje se cristaliza pela repetição. Vou pensar nisso melhor.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Hoje mesmo estareis comigo no Paraíso da Crítica Literária mas agora peço desculpa porque não tenho tempo nem para me coçar. Até logo.


Fora a insistência na tua robusta qualidade de leitor de livros e aquela peregrina ideia de que o único prazer e satisfação que assiste aos leitores de textos literários é achar algum interesse em comparar o seu igualmente rico mundo interior com o mundo interior de um outro sujeito – eu não me entretenho a comparar, digamos que parasito, na medida em que somo ao meu, muito do que me impressiona em textos literários e não só. E não me fodas porque fazes o mesmo. Esse murro no peito e o grito alfa do: eu leio livros; é o almíscar do teu -, fora isto, dizia eu… porque é que pensas que te leio???

Ex-Vincent Poursan, na madrugrada de um dia qualquer
que já não me lembro qual foi
e que agora não me apetece ir localizar 
mas que em o todo o caso 
me correu bastante mal, deve dizer-se.
 


Dada a qualidade das solicitações que têm sido enviadas generosamente para a caixa de comentários e da minha também manifesta e ostentatória generosidade, vamos ver se me consigo explicar a mim próprio com a mesma furiosa elegância com que a mim próprio me tenho fodido desde que me conheço capaz de endireitar a pilinha, ao fazer explodir continuadamente ao longo dos largos anos têm milhares de dias merdosos todos os meus projetos de enriquecimento e grandeza, com a meticulosidade de um terrorista politicamente radical mas apenas em relação à sua própria existência, o que deve, em princípio, fazer de mim um bombista suicida que por não ter Jerusalém ou Nova Iorque contra a qual desfazer-se contra, passa uma grande parte da vida a instruir a inteligência na justificação da sua própria menoridade emocional, o que o habilita a uma posição de especial compreensão em relação ao fenómeno narrativo Lobo Antunes (mas já voltarei a este tema, se me apetecer caralho, que eu ainda não ganho para isso) e isto se entretanto não rebentar por aqui nenhuma bomba ou entrar furibundamente pela porta do café um leitor do ex-vincent com vontade de remeter o génio ao silêncio, uma sugestão mental que me compara a John Lenon e que aceito como um violento insulto já que gajos de Liverpool que comem japonesas ecologistas e de esquerda não são propriamente o meu tipo ideal weberiano de identificação mimética. Há quem sugira que se pode resumir toda esta longa frase dizendo que a grande obra literária é sempre o vestígio do espetacular naufrágio intelectual de uma grande inteligência, e quem sou eu para me contrariar a mim próprio.

 
 
Quando algures na historiografia da minha adolescência, para citar uma expressão do silencioso Maradona, a fisicamente horrenda professora de Matemática do décimo primeiro ano depois de ter começado o inferno deste artista enquanto jovem, concentrada na sua muito superficial ética profissional do ensino secundário, e incapaz de compreender que tinha diante de si um gajo que se estava a marimbar para os resultados e as demonstrações, e que apenas se interessava por problemas realmente difíceis, como os que estão incluídos na domesticação da insuportável dor que sempre lavra imparável na floresta assombrada das recordações e que constituem a glorioso e insidiosa mente de um indivíduo sensível, resolveu alegremente humilhar-me em frente da turma apelidando-me caridosamente de «pobreza franciscana», não só me insultou como pessoa na época especializada na leitura de um livro pornográfico intitulado Florinhas de S. Francisco (e isto é rigorosamente verdade, ó suprema ironia das coisas reais) como entrou diretamente e sem passar pela casa da partida para a história da literatura mundial - figurando como uma lendária atualização do igualmente feio e impiedoso Herodes - como marcou ainda indelevelmente a minha carne  com um projeto de crescente afastamento da razão quantitativa que me tem feito arrastar por salários precários e uma boa vida, sendo que é preciso também dizer que, nesse momento, algo de muito grave ganhou uma importância mórbida para o significado ontológico da vida do autor destas linhas: morreu o homem, nasceu o monstro, pelo que não sei que diga sobre a intervenção da boa e horrenda velhinha, uma vez que tudo em mim apontava para o afastamento do tipo exemplar representativo da confusão que a humanidade tem espalhado pelo mundo, pelo que talvez aquela mulher tenha sido um acontecimento providencial nos destinos artísticos do mundo.
 

Quero chamar a atenção para o facto de esta consciência clara e límpida ser a principal prova de que se não fosse a sucessão de causalidades histórico-psiquiátricas que me afastaram de um aplicado e responsável percurso de estudos, podíamos estar agora todos a celebrar com grande satisfação o grande cientista ou político ou sacerdote português que acaba de mudar o curso da história. Mas não, estamos apenas num lugar obscuro do mundo virtual a fazer uma figura tristemente trágica uns diante dos outros, à semelhança de pavões embriagados que não sabem muito bem o que fazer com o espectacular recurso de penas coloridas com que a natureza, sempre irónica e cruel, resolveu dotá-los. Acontece que a grandeza da vida está em que podemos aplicar este mesmo argumento de causalidade arbitrária a qualquer pessoa que se preze pelo menos um bocadinho e que é a única defesa para evitar a queda ou na auto-mutilação mental ou na auto-glorificação estupificante.
 
(Posso dizer a título de exemplo que este post foi publicado agora mas redigido durante a tarde de Sábado, enquanto um conjunto de pessoas que decidem o que devo ou não escrever profissionalmente, se entretinham a fazer uma figura ainda mais triste do que a que aqui fazemos, embora todas essas pessoas sejam largamente remuneradas por instituições que dependem da nossa extraordinária vontade democrática mas que se auto-anulam de forma circense a cada minuto que passa, sem a mais pequena consciência do festival de parvoíces que lhes sai da boca pelo simples facto de que à semelhança dos aristrocratas dos reinos decadentes, ostentam ainda títulos e folhas de rendimento, ignorando que na noite já se afiam os punhais para a vingança. Está tudo bem, não se incomodem).

Ao contrário do que acontece com as pessoas normais, os indivíduos especialmente doentes e perturbados* são os mais rápidos a identificar o génio, a cultura, o inacreditável e sempre fundamental número de livros assimilados, e a grandiosidade relativa que uns e outros vão demonstrando neste jogo de xadrez a que chamamos vida, o que facilita muito as coisas, e nos permitiria passar já ao que interessa, mas isso se eu tivesse tempo.


* À semelhança de Sua Santidade o Papa, Joseph Ratzinger, e por intermédio dos comentários irados de um dos mais fiéis e exigentes polícias de estilo deste blogue, AM - que muito prezamos por força do critério de excelência a que submetemos as nossas ações - sou forçado a interpretar as minhas próprias interpretações, o que se explica por uma longa exposição da minha altamente rigorosa e influenciável sensibilidade aos efeitos radioativos dos sucedâneos dos discursos eclesiásticos, pelo que se confirma o acerto do meu conceito de perturbação, isto é, alguma coisa que afeta o normal funcionamento das instituições cognitivas que nos habitam interiormente os cornos, o que não quer dizer que o contrário da doença seja a normalidade, ou o contrário da normalidade, a psicopatia grave.  As pessoas especialmente - e faço notar o efeito modificador deste especialmente - doentes e perturbadas devem ser aqui entendidas como pessoas que se perderam da instintiva normalidade da natureza  - uma coisa que ninguém sabe o que é, com a excepção do Merleau Ponty, que é o único marxista que conheço que sabia coisas - ou como dizia o velho Popper interpretando um mito de origem: «para aqueles que comeram da árvore do conhecimento, o Paraíso foi perdido», o que não quer dizer que tenham por isso, e consequentemente, caído no fogo do inferno, acrescento eu. Tudo esclarecido?
 
Caravaggio, Estigmatização de S. Francisco de Assis
 

Será possível escrever bem sem raiva, sem remorso?

Se me perguntarem o que para mim é ser urbano ou sentir-me cosmopolita, falar-vos-ei sem pestanejar, de andar de metro mais entalado que a minha situação fiscal; de autocarros cheios de velhos que parecem ir para lado nenhum e de pessoas outonais que sentem demasiado frio para quem vive num país pré-africano. Um Novaiorquino falar-vos-ia de museus, de cinemas, de exposições e de passeios no parque. E de furacões, mas só hoje; um Berlinense, de varrer a neve no passeio, de copos de vinho francês barato em cabarés na zona leste e de dinheiro mal gasto por países que só conhecem do futebol; um espanhol não fala, resmunga. Mas para mim, deslocado de onde não há transportes públicos, cidade é sinónimo maior de engarrafamentos e de transportes públicos mais cheios que as vergonhas de jovens moças dos filmes porno dos anos 70. Portugal dos anos 2000-e-tal, pós-migração brasileira, já não deveria ser assim.

Mas a cidade é também garante de ver mulheres bonitas todos os dias. Não tenho o privilégio de fazer isto. Mas nada me impede o enquadramento, o desfoque do fundo, o equilíbrio da luz. Nada, exceto o sono. Ela era linda, entrou com a elegância que o frio da rua a ajudava a vestir. Mas o sono, a noite mal dormida e o balançar do autocarro levaram-me a focar tudo. Tudo, da velhota sonâmbula ao motorista-com-perfil-de-empregado-de-balcão-de-banco-da-baixa. Tudo menos ela. Às vezes percebo melhor isto de só se ver o que se quer. Às vezes percebo melhor os retratos que fundam na procura de pequenos traços de nitidez o prazer que se revela aqui e ali. Mesmo no prato. Um bem-haja, Esteves Cardoso.

Estou a ouvir Bon Iver

Dos quatro que aqui escrevem, sou o que menos leu e - por consequência - o que pior e menos escreve. Coisas da vida. Mas gosto muito dos mistérios da paternidade. Que me tira horas de sono e me deixa cansado ainda antes de começar. E sou adepto do Sporting. Que numa segunda feira me parece ser ainda a pior maneira de começar o que quer que seja. E claro, gosto de vídeos de gatinhos. Sou um tipo bastante gráfico. É por isso que gosto mesmo é da Internet.  Só aqui se poderiam encontrar estas duas belas imagens que falam tanto do que aqui se tem escrito. Deixo-vos. Está tudo bem.



domingo, 28 de outubro de 2012

Um tipo questiona-se (II)


Outra curiosidade que a minha busca de emprego revelou foi a uniformidade dos baixos salários pagos por essa Europa fora. Sim, eu escrevi baixos.

Ora, eu estava convencido de que lá fora, as empresas pagariam bateladas de massa pelo privilégio de empregar a minha pessoa. Uma rápida pesquisa pela net revelou que não só na Europa se ganha pouco mais do que cá, como os impostos lá fora garantem que ninguém enriquece a trabalhar.

Mas o que mais me estranhou foi a estranha homogeneidade dos salários. Mais centena menos centena de euros eu iria ganhar o mesmo, quer fosse para Cambridge, talvez vá, quer esteja em Roterdão, vou lá dar um saltinho, ou me mude para Bruxelas, pode ser que sim.

Isto é extraordinário. Os oirópas, designemos assim a malta para lá dos Pirinéus, garantiram-me até que só me iriam pagar de acordo com a posição e a experiência. Que se estavam positivamente a cagar para eu ter custos na mudança e que querem lá saber quanto custa o aluguer de um T2 minúsculo.

E extraordinário é porque contrasta com a minha experiência cá. Logo no início da caminhada falei com uma multinacional sediada nas bordas de Lisboa. Não só pagam mal, para os standards nacionais, como permitem uma grande disparidade de salários para as mesmas posições. Um enorme desincentivo ao esforço individual, como se percebe.

Acrescento também um deslize de um ex-patrão: quando se queixava dos elevados custos salariais da empresa, deixou escapar quanto ganhava o meu colega. Quatro vezes mais que eu porque ele foi cigano o suficiente na altura de negociar. Saí ao fim de dois meses.

sábado, 27 de outubro de 2012

Cenas que um gajo às vezes

Existe toda uma constelação de pessoas interessadas na injusta acusação de que em certos casos eu sou apenas um gajo que envolvido na demonstração do seu génio, acaba por libertar a roda pirotécnica da sua consciência mas apenas egoisticamente e tão só até aquele ponto em que as crianças abrem a boca e deixam cair o gelado no chão. Nada mais injusto. Os milhões e milhões de pretoleiros da Lisnave carregados das pessoas que não me conhecem, não ignoram no entanto que é muito raro uma pessoa com a minha mais do que demonstrada capacidade deixar argumentos a meio, o que acontece é que.
 

 
 
Não sei se têm reparado mas o segundo programa artístico fundamental, no trabalho que tenho vindo a desenvolver junto do grande público, é justamente o continuado aperfeiçoamento das ideias de Northrop Frye acerca da consistência lógica e demonstração racional de uma valorização dos textos literários, uma vez que nesta vida ingrata, e como diziam de Garrett, não me importo de ver as piores porcarias, desde que não me sujeitem a uma frase mal escrita, tenham paciência, caralho. Posto isto, não é justo que tenham privado da sua cabeça, diversas e notáveis mulheres da Corte de Luís XVI -que sabiam mais de literatura, maturidade e foda a dormir do que o Tolan a vender as merdas que ele vende lá aos gajos que sabem como se vendem coisas - para que o mesmo Tolan possa agora reclamar-se de uma liberdade de opinião totalmente construída em cima do joelho feminino que é o dele, e de uma forma escabrosamente arbitrária e notavelmente desinstruída, para muito injustamente cuspir sobre o túmulo de uma nobreza, apesar de tudo cultivada até às lágrimas e o sangue nas belas letras, em troca da liberdade de comércio, direitos constitucionais, e umas centenas de visitas ao seu blogue de gajas e gajos burros que nem uma porta esculpida à cabeçada na talha dourada do entre Douro e Minho.
 
É por causa destas merdas que os comunas não respeitam o sistema de preços: é que os mesmos gajos que se sentem insultados porque as pessoas gostam da merda dos Ornatos Violeta e não gostam da merda de outra banda qualquer de analfabetos musicais, acham por bem dizer que ler Thomas Mann é bom, gratificante, e indiferentemente humano, tão normal como ler um americano alcoólico qualquer que mal sabe soletrar o seu nome, sem apresentarem sequer um argumento que ultrapasse a analogia mais absurda, e penso aqui nas comparações com os russos ou com o coitadinho do esquisitamente incompleto Mário de Sá Carneiro. Um bom sistema de preços não pode funcionar sem um sistema de controlo de qualidade, uma cena que até os ciganos da feira sabem, mas em matéria de livros, vale tudo, sobretudo se isso implicar arrancar os olhos dos gajos que percebem realmente de livros. Reparem que esta merda é especialmente grave porque se trata do Tolan: se fosse o valter hugo mãe, o Urbano Tavares Rodrigues ou outra múmia qualquer, tudo bem com toda a gente, mas estamos a falar do Tolan, uma pessoa que tem responsabilidades neste empreendimento de libertação que estamos a construir para as massas. Isto não me atingiria tão profundamente se não tivesse sido perpetrado por uma pessoa que aprendi a respeitar, por outras razões é verdade, mas ainda assim.
 
 
Amanhã por esta hora voltarei aqui para iniciar uma nova etapa no elogio da derrota que é a anunciada demolição programática da vigarice em que chafurda o meio literário português e fazer cabal demonstração do meu incompleto génio, cumprindo os desejos dos meus leitores com dois posts, a saber:

a) uma ampla elaboração sobre o argumento implícito acerca do desperdício imoral constituído pela criação e edição ne variatur da obra de António Lobo Antunes:

b) uma sustentada iluminação das relações entre a expressão literária do sentido masculino e viril da vida e a dominação monstruosa da mulher sobre o nosso coração de andorinha, a partir de um problema que tocando em Coriolanus, e na poderosamente sensual Volumnia, mas também no crianção fantástico e embriagado, Falstaff, de Henrique IV, nos tem continuadamente preocupado a todos, isto é, pretendo abordar de forma explícita directa e despudorada, a estreita ligação entre a nossa mãezinha, as protuberâncias mamárias e a recordação da doce e aveludada atmosfera do adormecimento infantil a que ligamos as mais secretas e profundas sensações de felicidade, de  tal forma que o maior génio vivo do século XXI, Marcel Proust, ao iniciar a monumental demonstração da sua vida interior através do uso da linguagem, se decidiu pela notificação pública de que durante muito tempo foi para a cama cedo. Estaremos todos nós ainda à espera de mama ou só os mais frágeis e abandonados é que se dão por insatisfeitos com o biberão de borracha que nos ofereceram por substituto?

Boa noite a todos e bons sonhos.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Um tipo questiona-se


Um dos frequentes sound-bites nos media nacionais é que "as universidades portuguesas quase só formam licenciados em áreas sem futuro nem empregabilidade". E que lá fora, na Europa civilizada, não é nada disso e só meia-dúzia de intelectuais é que entram nas ciências sociais.

Assim sendo, é um mistério que ontem tenham estado 44 empresas europeias no Centro de Congressos de Lisboa a recrutar engenheiros e técnicos, formados obviamente por obra e graça do Espírito Santo já que as universidades portuguesas só formam sociólogos, psicólogos e outras variedades de ólogos.

Segundo um recrutador sueco com quem falei hoje, passaram por lá ontem mais de 4 mil engenheiros portugueses, ou três petroleiros Lisnave cheios de gente. Tudo malta que aprendeu a ler, escrever e a resolver o máximo de Pontriagyn sem nunca colocar os cotos numa escola portuguesa. Como é óbvio.

E de acordo com as pessoas com quem falei, e eu meti conversa com muito estrangeiro, três petroleiros da Lisnave com os tanques a transbordar de mão-de-obra não cobrem as necessidades. Porquê? Porque, e isto é extraordinário que assim seja, na Europa dita civilizada a maioria da juventude foge para as ciências sociais. O tal sueco disse-me que na cidade dele, a Odivelas lá do sítio, existem 8 mil desempregados e 1 mil vagas para engenharia que não encontram um Ingmar ou um Svenson minimamente qualificado. Oito para um. Seis petroleiros da Lisnave a transbordar de gente com curso inúteis para meio petroleiro de engenheiros.

O sueco também me deu um baralho de cartas para eu jogar à sueca enquanto que as alemãs me deram um boneco anti-stress. Os estrangeiros são tipos simpáticos.

O fôlego do escafandrista

Oh Alf… olha que eu até gosto de te ler pá, se bem que me canse, mas tens de conter a exuberância e o conhecimento académico, isto de ler os teus posts requer pelo menos meia dúzia de canudos nas mais diversas áreas do conhecimento e um fôlego de escafandrista.
Ex-Vincent Poursan, 25 de Outubro de 2012 16:00

 
 
As pessoas que têm consumido neste blogue algum do seu tempo, apreciando o espectacular e exuberante desfile de tentativas que constituiem a nossa já vasta obra, sabem de ciência certa que o nosso mundo nasceu não só da operacionalização de um sistema de preços, não só da emotividade descontrolada de um Cícero, não só daquela ceia de taberna presidida por um judeu descabelado, não só da mecânica newtoniana, não só dos colhões do patriarca Abraão (andava há séculos para dizer isto), não só da paneleirice contumaz de um génio chamado Proust, não só das parvoíces socialistas nas suas mais diversas manifestações mas também da paciência militante e da virtude combativa de pessoas que não sedem à tirania da comunicação. Faço notar que não estou aqui a defender a opacidade dos discursos - deixo essa tarefa inteiramente a cargo da Maria Alzira Seixo que é aquela gaja responsável pela edição ne variatur do cada vez mais chaladinho António Lobo Antunes. Cada um falará por si, mas o que me traz aqui hoje é a vontade de confirmar que as pessoas devem saber ao que vêm quando, neste blogue, se debruçam sobre os textos onde está apostada a designação alf: vêm ler um gajo que lê livros e que sou eu.
 
 
Mas o facto de eu ser uma pessoa que lê livros, numa cultura que se habituou durante séculos a ajoelhar diante de um livro escrito numa língua que não entendia, significa que a última coisa que as pessoas devem vir aqui procurar é precisamente a compreensão de si próprias: para isso temos o José Tolentino Mendonça, e sei até de um teólogo que se doutorou nos dotes comunicacionais de Jesus Cristo e que defende a existência da palavra perfeita.
 
 
Quem vem aqui não tem outro remédio senão esforçar-se por entender-me, porque ao contrário do que dizem todos os tristemente ignorantes nas coisas gerais da vida, o escritor não espelha nenhuma natureza humana, não espelha nenhuma essência das nossas virtudes e misérias, não espelha nenhuma descodificação do drama universal, não espelha nenhum conhecimento que não necessite de ser refeito a partir de uma experiência individual, e se alguma coisa um escritor espelha é o seu inglório esforço, quase sempre desesperado e inútil, para tentar compreender o bizarro mundo submarino e fantasmagórico a que chama personalidade. Que as pessoas possam achar algum interesse em comparar o seu igualmente rico mundo interior com o mundo interior de um outro sujeito  - um sujeito que por maldição, acaso, ou mania, é capaz de representar o seu próprio mundo e torná-lo estranhamente visível para os outros, e nisto só consiste a vantagem do escritor - é o único prazer e satisfação que assiste aos leitores de textos literários. Quem quiser facilidades, compre vaselina. Aqui só há palavras minhas e um curto pedaço desta breve alegria que levamos desta vida, que é esquecer a nossa própria consciência no esforço de compreender as palavras dos outros.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Bruxelas

Deu-se esta semana a coincidência de eu estar livre do jugo opressor do capitalismo e em simultâneo existir em Bruxelas um capitalista disposto a esbulhar-me na minha dignidade humana a troco de dinheiro. O alf tem mais abaixo um longo texto a explicar o porquê destas coincidências serem tão frequentes.

Mas não posso deixar de realçar a coincidência da História se repetir. Há pouco mais de 40 anos atrás, o senhor meu pai meteu-se no Sud-Express com os mesmos propósitos com que eu me levantei às 5h da matina da passada terça. A subtil ironia, que as hordas de indignados parecem não compreender, está na evolução para melhor das condições oferecidas aos operários. Explorado sim, mas com o cu bem acomodado no assento de um Airbus em vez dos bancos endurecidos de uma carruagem dos anos 50.

Tudo isto para dizer que a Bélgica é extraordinariamente parecida com Portugal. Fica feito o aviso à comunidade belga que nos segue neste blogue.

Os impostos por exemplo, são elevadíssimos. Utilizando a unidade métrica deste blogue, estão a petroleiros enfileirados da Lisnave de distância do que o Gaspar pretende fazer em Portugal. Mas na boa tradição tuga, lá estão as excepções e regalias isentas de impostos. É reconfortante saber que as nossas feitorias em Bruges e na Flandres ensinaram algo aos indígenas, não foi só o preço das arrobas de noz-moscada e pimenta.

E depois há aquela noção de caos organizado, tão familiar a quem faz pela vida aqui em Portugal.

Binary solo


A vida torna-se fácil quando apenas temos 0 e 1's.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Snob, pseudo-intelectual, pessoa de bem, traste, indivíduo em geral supreendido pela sua própria capacidade de gerar a confusão espiritual, perplexidades e desgostos amorosos, são títulos que não renego nesta atribulada vida que há-de ser coroada por uma morte trágica e uma obra ignorada: mas está tudo bem comigo.

José Rodrigues dos Santos, a mão do diabo e o braço musculado de um indivíduo de raça negra: como são misteriosos os caminhos do triunfo da realidade sobre a ficção.

As flies to wanton boys are we to th' gods,
They kill us for their sport.

Shakespeare, King Lear: 4, 1, 32–37


Acabo de ver um indivíduo de raça negra transportando a mais recente obra de José Rodrigues dos Santos debaixo do seu musculado braço direito, um braço por certo esculpido em ébano através de repetidas operações de nivelamento de paredes, ou talvez pelos circulares movimentos repetidos no afagamento de soalhos, ou em outra qualquer outra forma de trabalho precariamente remunerado, e este é o ponto prévio a toda e qualquer ideia que vos queira comunicar: a verdade é que ainda não me refiz do susto e sou forçado a dizer que eventuais gralhas neste post se devem exclusivamente ao tremelicar das minhas mãos, efeito que se deve ao nível de perturbação em que me encontro, devido a esta inesperada e supreendente epifania sociológica que me arrastou para muito perto de modificar toda a minha artilharia psico-política sobre o papel da ficção no mundo pós-industrial. A realidade está a ganhar terreno, um singelo facto que longe de constituir uma ameação à nossa vida espiritual, pode ser apenas o próximo capítulo desta longa história em que somos, para  desporto dos deuses, como moscas perseguidas por rapazes travessos*.
 
 
Com efeito, é preciso respeitar indivíduos que são capazes de colocar milhares de pessoas a ler, incluindo indivíduos de raça negra, ou pelo menos manter a dúvida perante autores que induzem, mesmo que mafiosamente, milhares de pessoas a comprar livros, sendo que não é justificável insistir em cânticos democráticos para depois nos consumirmos em exercícios circenses, e penso aqui na Teresa Paula Moura Pinheiro Ricou, e no Câmara Clara, onde as mãozinhas impecavelmente luzidias do Mário de Carvalho recentemente nos explicaram que a grande literatura é produzida por pessoas que já leram muitos livros, presumo que apenas para fruição dos poucos que são capazes de entender o conteúdo da grande literatura, uma vez que por este prisma bicudo, como esperar que, precisando o mundo de quem faça camas, limpe o nosso lixo, construa casas, desenrole tapates de alcatrão nauseabundo, haja tempo para que todos sejamos capazes de ler os livros que o Mário de Carvalho julga serem essenciais para iniciarmos a nossa civilizada conversa sobre o que é um grande livro? Não estou a sugerir que as pessoas consideradas de segunda classe devam ser obrigadas a ler livros que parecem ter sido escritos por crianças da segunda classe, estou apenas a sublinhar pela enésima vez como é curioso que as pessoas de esquerda se sintam particularmente atraídas por argumentos de autoridade.
 
 
Por muito que a minha simpatia pela hierarquização cultural, a acumulação do trabalho mental e a exigência intelectual me empurrem para as vizinhanças ideológicas do Mário de Carvalho - um escritor banal, demasiado esforçado por parecer inteligente, com um vocabulário ultrapassado e deprimentemente escravizado pelo génio de Jorge Luís Borges, diga-se em passo de corrida - devo manter o meu programa artístico e ser coerente com as posições previamente assumidas: um sorriso corajoso e um coração arrependido, eis tudo aquilo de que necessita tanto um grande escritor como o seu leitor ideal.
 

Até ver um preto passar com um livro de Mário de Carvalho debaixo do braço (também pode ser um preto a passar com o Mário de Carvalho debaixo do braço), a minha paciência compreensiva (e perdão) vai toda para o José Rodrigues dos Santos, um autor que sendo uma nulidade em todos os capítulos da escrita - falta de imaginação, cultura escassa, ausência total de domínio da língua, abundância de expressões pobres, uso prolixo de banalidades comparativas, manifesta deselegância das frases, excesso de parágrafos explicativos do «ambiente político e cultural», e até ideotismos ridículos - tem levado as pessoas normais a comprar livros, o que é o primeiro e mais importante passo para chegarmos a produzir, como sociedade, como cultura, como merda que somos, um escritor digno desse nome. Até que nova epifania irrompa inesperadamente na minha triste existência, também eu me recuso a participar nesta passeata, não obstante o Ano da Morte de Ricardo Reis ser claramente o ponto mais alto da longa e bem sucedida passeata de José Saramago pelo exigente reino da competição literária, num livro tão delicadamente equilibado entre a explosão sentimental e a contenção elegíaca que chega a ser doloroso avançar até ao fim pelas suas páginas, se nos acontece sermos forçados a lê-lo em público, porque será impossível afastar a inaudita ameaça de nos encontrarmos a nós próprios, de lágrimas nos olhos, diante de desconhecidos.


Comunico ainda a todo o mundo e às galáxias mais distantes que a Bárbara Norton de Matos publicou um novo livro chamado Espero por ti, alegadamente  o relato das aventuras e dramas de uma famosa atriz que vê a sua vida amorosa e os seus segredos mais íntimos expostos na praça pública. Calma. Está tudo bem.
 
 
É curioso notar que o cansaço nos atingiu como uma imprevisível praga enviada por deuses coléricos e ressentidos, parecendo claro ao autor destas linhas que a ficção se tornou insuportável e que é absolutamente inútil apelar para a imaginação, para a autoridade dos livros lidos, ou para a capacidade de desenhar narrativas que voltem a sossegar os nossos sonhos juvenis. O mundo envelheceu, é inevitável sair de casa e abandonar a infância. Não tarda muito, seremos forçados a encontrar um companheiro ou companheira de circunvoluções amorosas, ser-nos-á dito que é absolutamente normal sofrer como um cão, ser esmagado por humilhações, assistir ao triunfo dos mediocres. Alguém comunicará que a vida será breve e que nada levaremos daqui, e por último aparecerá uma lacónica autoridade, que veste de acordo com os mais secretos terrrores de cada um, para acender o letreiro luminoso que celebra, por uns breves dois minutos, a nossa definitiva extinção. É bom que os leitores se habituem ao processo revolucionário em curso. Se quiserem saber o que vem aí, leiam W. G. Sebald. Podem começar pelos Anéis de Saturno, como a mais fiel comentadora deste blogue, mas sigam rapidamente até Austerlitz, o momento mais eloquente da mosca fugitiva que somos, se iniciarmos a contagem  em Calvino, e considerarmos a realidade como um rapaz travesso, mimado e pouco imaginativo.


* Antes que se multipliquem na caixa de comentários os insultos, ameaças, convites para duelo, acusações, libelos, anátemas sobre o meu alegado racismo, recomendo a leitura atenta do post, de forma a que possa ser identificada a probabilidade de eu estar exatamente a apontar para uma conclusão contrária à que o leitor se sente impelido a atribuir-me, estando o leitor a ser induzido pela ação insidiosa de dois costumados vícios da humanidade: a velocidade de juízo e o julgamento fácil, dois antigos tiranos, especialmente cruéis na nossa época.

O mundo é plano ou o amor em tempos de crise

No fim de cada oração vem o Ámen!!! Muitos, se tivermos medo. Resta-nos estar com o vazio do mundo nas costas, mais borrados de medo que o Jesus, o Jorge, na Rússia – quiçá ainda recordado das lições da infância que lhe incutiam tacitamente o medo de um contra-ataque da organização política e económica de um regime que comia criancinhas. Era como se – para Jesus perceber– o el dourado consumista jogasse, por assim dizer, com demasiado espaço entre linhas, expondo-se a infiltrações e possíveis derrotas decisivas contra um opositor bom de bola, mas não suficientemente disciplinado para aguentar 90 minutos sempre concentrado. Claro que esse regime se vê agora empatado por falta de treino e pela ressaca de uma bebedeira constante de vitórias, quase gerais, não obstante um pequen derrota aqui e ali. Bêbados não de vinho mas de shots, porque a bebedeira se quer pela bebedeira, não pelo prazer de beber.
 
 
E aparentemente, sublinho o aparentemente, acabou-se o álcool, talvez porque, sagrados comentadores, a festa foi excessiva, talvez porque não cuidou da sua reprodução, talvez, e aqui já digo eu, porque o contrabando e o álcool pelo álcool nos esteja a deixar loucos por uma bela bebedeira, das boas, das verdadeiras, com prazer no cambalear. Bêbado estava eu, e continuei, despejando uma garrafa de licor Beirão, bem melhor que o xarope para  a tosse que ando a tomar, enquanto na passada segunda a Fatinha, tal como um barril que ferve por dentro de uma substância emprestada e, claro, temporariamente, falava de algo que não é dela e que desconfio que pouco lhe conhece o sabor. Falava de amor em tempos de crise. É verdade, amor em tempos de crise, como se Medina Carreira e a sua reluzente careca, arrebatando diariamente o prime time da tv, nos cerceasse todo o desejo, nos tirasse qualquer tusa mais atrevida que uma jovenzinha repórter das tvs se louvasse a despertar enquanto relata um qualquer terrível acidente de trânsito como se dum gelado do Santini, escorrendo pelo peito abaixo, se tratasse. Sim, percebo agora melhor Cronenberg.
 
 
E quem convidou a Fatinha? A malta da literatura. Não vou discutir a oposição entre crise e amor. Nem merece discussão. Mas vejamos. A naftalina académica a falar de amor? Isto é digno de ser classificado como uma grande heresia pela Inquisição, com desmembramentos, tortura e excomunhão por fornicação, e por falta dela, até à sexta geração. É uma espécie de fornicação invertida. Até a imagem de penetração capitalista no mundo chinês é mais sexy que isto; até o Jesus a mastigar a pastilha provoca mais inquietação interior, mesmo que não se repare na jovem moscovita que atrás dele – atrás é sempre uma palavra a utilizar quando o tema é este – se agita. Não vi mais do que 5 minutos, dada a tamanha e precoce ejaculação de estupidez e de falta de sentido. Mas deixo uma sugestão à RTP: substitua todos os entendidos comentadores de várias áreas com a mestria com que o fez até aqui. Desempregados a falar de emprego; pobres a falar de dinheiro; bailarinas a falar de futebol e esfomeados à frente de programas de culinária. Pior não ficaria!! Tenham medo. Eu tenho. 

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Nós, aqueles que apesar de tudo vamos suportando a própria consciência mas com dificuldade

Enquanto a associação de espantosos perscrutadores dos mais secretos efeitos da metafísica económica continua o seu incontornável festival de salvação, luta e redenção de todos trabalhadores e explorados, enquanto esses mesmos ingratos trabalhadores e explorados insistem em não reconhecer os seus enviados messiânicos porque são confusos, pouco cultos e ignorantemente obscuros, enquanto o tolinho do José Rodrigues dos Santos insulta o decoro público com uma dança  irónica  e mercantilista sobre o cadavér do nosso sonho de alfabetização das massas, gracejando com as misérias intelectuais e políticas que o nosso povo alegremente infligiu a si próprio, enquanto o Tolan perde tempo com um autor menor como Thomas Mann, os exemplares mais reles da degradação humana tentam simplesmente compreender a sua estupidificante incapacidade de definir um projeto para a própria vida, sem bem que no meu caso, não chega bem a ser uma incapacidade, pois não me lembro de outro sentimento que me ocupasse tão profundamente a consciência como a muita antiga e enraizada sensação, objetiva e límpida, de um profundo e irrevogável declínio interior. Pessoas como eu, e julgo que, felizmente, não serão muitas, dão-se por felizes quando conseguem, eventualmente, escalar o pico de um só dia sem incomodar os seus concidadãos com os milhares de efeitos colaterais que a imunda e complexa pegada política do indivíduo impõe à inocente estrutura física das coisas, um conjunto de inter-relações simbólicas (e penso aqui na filigrana minhota e não em Braudillard) a que vulgarmente chamamos o quotidiano das pessoas normais.


Embora existam muitas teorias explicativa sobre a origem da linguagem, muitos têm sonhado que este nobre mecanismo deve ter sido criado perante o perturbador sentido de impotência, perante a beleza de um mundo incompreensível, e o protesto humano diante da destruição irreversível para onde caminha esse mesmo mundo. Não se trata de uma visão moral decadentista, trata-se de uma observação elementar extraída da História da Física. Quando Keynes tentava explicar que era inútil forçar o desempenho do trabalho a partir de uma economia deprimida, ou que era um desperdício de energia querer esmagar a força cega do trabalho organizado, e recomendava antes que se conduzisse o trabalho a caminho da prosperidade e se libertasse a força sindical dos seus medos, não abatendo os salários altos, mas elevando as remunerações mais reduzidas, recorria a uma belíssima metáfora, sugerindo que a política económica devia enfrentar as dificuldades tal como o oceano vem submergir as rochas numa maré crescente. As pessoas dividem-se assim entre as que compreendem o melancólico esforço deste homem elegante para falhar com dignidade numa tarefa intelectual nobre, e as que teimam em fazer desfilar a própria ignorância e a estridente auto-complacência num ruídoso jubilo de auto-satisfação.


A humildade é a mais inatingível das virtudes humanas, uma coisa que até um fundamentalista católico e mal casado com T. S. Elliott sabia, e por isso fez notar, na sua interpretação do crime do mouro ao serviço de Veneza, Othelo, quando assassina a sua amada Desdemona, que o que nos choca não é tanto o crime hediondo e gratuito mas os inacreditáveis e incompreensíveis sentimentos auto-justificativos que a boca daquele militar impulsivo, criado por Shakespeare, emite até ao cair do pano. Uma vez que é inútil seguirmos agora pela homiliética penitencial das nossas próprias consciências, uma vez que estamos agora demasiado cansados para abrirmos um velho livro de Séneca, uma vez que ninguém compreenderia que ressuscitássemos agora a auto-crítica marxista, uma vez que o António José Seguro vai a caminho da liderança do próximo governo constitucional, uma vez que o José Luís Peixoto se prepara para mais um retumbante triunfo literário com uma elegia viajante pela Coreia do Norte, uma vez que o Jorge Jesus ainda continuará a treinar o Benfica até ao desastre final, uma vez que W. G. Sebald continua a ser um nome irreconhecível para 99,9% das quase sempre bonitas e comoventemente diligentes empregadas do Pingo Doce, uma vez que me é cada vez mais difícil sustentar a dignidade do meu esforço, resta-nos apelar para a causalidade dos astros e manter, até onde nos for possível, um sorriso corajoso e um coração constantemente arrependido, sempre preparados para abandonar este país estrangeiro que é a vida.

Sou do Spartak desde pequeno

Agora que estou de volta ao burgo reparo que há coisas que não mudaram. O governo continua na mesma. O Sporting continua a não ganhar. O alf continua a escrever textos longos. Mas é bom estar de volta.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Ensaio sobre o problema da posição de esquerda perante a Dívida do Estado, seguido das já não muito firmes mas revolucionariamente belas mamas da Monica Bellucci.

Duvido que seja possível (a alguma das variadas espécies de seres vivos distribuídos evolutivamente pela vasta galeria do planeta, incluindo os ratos-marsupiais australianos e os mochos europeus) continuar a desconhecer a minha profunda aversão pelo estúpido do Senhor Professor Vítor Gaspar e pelo minguadamente aberrante Senhor Professor António Borges, mas esta simples evidência não pode dispensar-me de fazer aqui um exercício de amor pela verdade, de sacrífico pela ciência, de imolação pela república, e que consiste em explicar aos burros dos comunistas, nas suas várias aplicações informáticas, que o problema da dívida é, como eles próprios repetem incansavelmente, um problema de justiça social.
 
 
Ora, os juros que pagamos aos agiotas, aos caloteiros, ao porco judeu Schylock e sua cobiçada filha, ou aos banqueiros Ulrich que vieram de Hamburgo em 1755 para financiar a reconstrução do Terramoto que nos rachou ao meio, dependem de um contrato jurídico assente sobre um mecanismo lógico de harmonização do interesse de quem tem meios de pagamento com o interesse de quem precisa de meios de pagamento, em face da necessidade que todos temos de adquirir coisas, medir valor (para não sermos enganados pelos agiotas e suas balanças de ouro que os pintores flamengos não se cansaram de retratar em pequeninos quadros e que o Estado fez o favor de disciplinar, regular e avaliar, com os seus Intendentes e Capitães do exército), e transportar recursos para o futuro, a fim de nos defendermos dos Pedros Passos Coelhos que por aí andam à solta.

Claro que as inteligências mais férteis, quer na produção de rebuçados morais, quer no desenho de objetivos para a vida humana, como o Daniel Oliveira, a Raquel Varela ou o descomunalmente burro do António José Seguro, perguntam por que razão os portugueses devem pagar uma percentagem tão elevada de interesse sobre o dinheiro que lhes foi emprestado. É uma pergunta pertinente e podemos eventualmente argumentar sobre as possibilidades de baixar estes juros, mas não ficamos esclarecidos sobre se os representantes de um futuro melhor, defendem a abolição dos interesses sobre empréstimos monetários, o cancelamento do euro – como padrão internacional valorizado em taxas de câmbio - e sua substituição por pequeninos bustos de Lenine em mármore de Vila Viçosa, ou simplesmente uma renegociação do mecanismo de financiamento, mantendo a agiotagem, mas desta feita regando a dívida com água benta comprada em Fátima.
 

 
Em caso de renegociação, o Daniel Oliveira e a Raquel Varela podiam começar por responder a três perguntas que aqui deixo com total sinceridade:
a) o que temos nós para oferecer a quem nos emprestou o dinheiro, numa época longínqua do passado em que ninguém parecia muito preocupado com os mecanismos de financiamento do Estado e consumia todo o seu sentido de indignação com os prementes problemas da faixa de Gaza?
b) no caso de os juros baixarem significativamente, devemos ou não distribuir o financiamento futuro do Estado por impostos que incidam sobre os trabalhadores especializados em ganhar dinheiro com a gestão do dinheiro, ou como eles gostam de dizer, tributando o grande capital, ou aplicar um sistema fiscal adequado ao mercado e propiciador do investimento nos nano-micro-pequenos empresários, isto é, empreender reformas, tão ao gosto de comunistas como Mira Amaral ou Manuela Ferreira Leite?
c) Como organizaremos nós a nossa «liberdade económica internacional» com a produção e a distribuição de recursos nos mercados financeiros quando pusermos na ordem a agiotagem internacional?
 
Parece-me que existe aqui um tremendo problema de compreensão em torno dos fundamentos económicos do capitalismo, do papel da liberdade na promoção de injustiças e na própria conceção do comunismo como etapa final do capitalismo industrial. É que não sei se alguém já explicou a estas pessoas (mas eu caritativamente, uma vez que fui educado na perversidade da fé católica, posso explicar) que foi precisamente a liberdade de iniciativa saída das revoluções burguesas (que as gajas de mamas descaídas pretendem agora invocar) que ditou o triunfo do dinheiro sobre a organização aristocrática da sociedade e que foi justamente o sistema de preços a dissolver, numa grande transformação, as sociedades de castas da idade média – e que tem permitido aos trabalhadores libertarem-se dos nós antropológicos da simbologia tribal, do analfabetismo e da indigência anti-escolar (em que viviam encerrados nas sociedades rurais). A liberdade dos trabalhadores só tomou forma com a uniformização de meios de medição, peso, transporte e comunicação, possibilitados pela circulação monetária, e apenas o triunfo do dinheiro permitiu medir o trabalho, identificar a exploração, e revelar pessoas alienadas, em relação a potenciais exploradores.  Num sentido filosófico profundo, o dinheiro é a gazua do comunismo mas os comunistas, como são mentalmente muito fracos, e moralmente muito fortes, não o compreendem, e nisto colocam-se ao lado da casta de cardeais, teólogos e outras aves raras que subscrevem a doutrina social da igreja, esse caldo constituído por frases incompreensíveis, catequistas embalsamados e seres fantásticos.
 

 
As pessoas que leram Marx (entre as quais não se encontram a Raquel Varela e o Daniel Oliveira, porque são pessoas demasiado ocupadas em programas de televisão, conferências universitárias e a liderança dos fracos e oprimidos de todo o mundo conhecido e desconhecido) sabem perfeitamente que a única forma de combater o Capitalismo é destruindo o mecanismo monetário, uma coisa que até o mentecapto do Lenine percebeu. No entanto, muito pelo contrário, os comunistas querem um sistema financeiro regulado, e um mecanismo social mais redistributivo, baseado no trabalho (sem se explicarem se ser filmado a fazer um broche, ou gerir uma editora comunista são duas atividades que podem ser consideradas trabalho), isto é, os comunistas querem que o capitalismo funcione melhor aqui do que na União Soviética, aspeto em que estamos amplamente de acordo, mas não explicam de que forma querem melhorar aquilo que prendem destruir. Calma, está tudo bem.

Neste ponto, convém introduzir um pouco da minha raiva congénita contra as pessoas que não gostam de ler e citar um pequenino mas muito virtuoso ensaio do emigrante arménio a quem a Raquel Varela, o Renato Teixeira, o Ricardo Noronha, ou o Zé Neves, certamente gostariam muito de elogiar se esse emigrante se não chamasse Milton Friedman. Este emigrante, muito amigo de um outro filho de emigrantes pobres, também adepto do capitalismo, explicou no já longínquo ano de 1962 (não há desculpa para os níveis de ignorância orgulhosamente ostentados pelas pessoas de bem) que até os mais críticos opositores do capitalismo aceitam o pagamento monetário do trabalho efetuado. Sendo assim, e de acordo com o velho Marx (do jovem, ao contrário da nova esquerda em geral, não gosto muito, bebia muita cerveja e escrevia mal) todo o produto social decorre do trabalho, mas o trabalhador recebe apenas uma parte, e foi a partir destas divisões pouco claras, ultrapassadas, mas importantes na história da economia, entre produto recebido, transferido e acumulado, que se construíram todas aquelas especulações confusas posteriores (e conservadas em gelo pelos comunistas e marxistas) em torno do sobre-produto social (surplus value, em inglês, quem quiser saber em alemão pergunte ao Fernando Ulrich que ele deve saber).

Mas o ponto importante (e reparem agora, aqueles que podem, no maravilhoso detalhe onde não chegam os Oliveiras e Varelas deste mundo, nem aqueles que já desistiram de ler este post, e vão por isso perder o mais valioso tesouro) é que só há exploração do trabalho em relação a um cálculo de valor do produto (suponho que monetário, pois foi também monetariamente que se efetivou o pagamento do salário exploratório) o que obriga os críticos do capitalismo, e todos as raras espécies de comunistas que ainda resistem ao esclarecimento e à higiene científica dos tempos modernos, a reconhecer e aceitar as premissas capitalistas de Smtih e Ricardo (que Marx como é sabido, embora discordando em parte, nunca conseguiu ultrapassar) pois numa economia socialista, que pretende remunerar cada um de acordo com as suas capacidades, esperando que cada um produza apenas o trabalho segundo a sua habilidade, seria necessário comparar o que os diferentes tipos de trabalho podem produzir, não com o que cada um recebe (recusando moralmente a sujidade do dinheiro como um instrumento despersonalizante) mas com a habilidade de cada um para fazer uma determinada coisa. Isto obriga a comparar o resultado do trabalho (alheiras de Mirandela, poemas de José Luís Peixoto, queijos de Niza, canções do Sérgio Godinho) não com aquilo que efetivamente produz mas com aquilo que as pessoas precisam. Não sei se estão a ver a confusão monumental, mas julgo que, apesar das toneladas de propriedade moral dos deputados comunistas, isto explica os resultados eleitorais do PCP.
 
 

Deve aqui explicar-se que as imperfeições do sistema de preços têm sido ignoradas e desvalorizadas na medida em que uma grande maioria de pessoas (excluindo novamente os comunistas, os católicos, e todos os malucos em geral) reconheceu as virtualidades da informação contida nos preços como sistema racional capaz de adequar as escolhas e os comportamentos de milhões de indivíduos, distribuindo a remuneração do trabalho e permitindo tomar decisões sobre quais os recursos necessários para satisfazer, em tempo útil, as necessidades de pessoas que vivem em liberdade e mudam de preferências com pecaminosa, para não dizer diabólica, velocidade. Bendito seja o poder do desejo, porque por ele chegaremos ao reino do prazer.

Tentando iluminar as trevas que se abateram sobre nós, Marx – e nisto foi seguido pela Raquel Varela e mais 18 economistas, historiadores, filósofos, sociólogos, curandeiros, taxistas autores do contra-hegemónico-livro sobre o Estado Social – confundiu o produto total da cooperação entre todos os trabalhadores e recursos, com o conjunto adicionado ao produto, o que no jargão económico, segundo Friedman e os economistas que passam nas cadeiras de Microeconomia I, se denomina produto marginal. Por outro lado, e por mais incrível que isto possa parecer a quem passa a vida entre o suor e o sangue dos trabalhadores, os intelectuais comunistas, marxistas e socialistas (mas também os infinitamente burros políticos da direita) usam o conceito de trabalho com a despreocupação de quem nunca teve que trabalhar. Marx reconhecia o papel do capital (o grande, na maior parte dos casos, mas também o pequeno, para efeitos teóricos) na produção do produto social (é aliás a base de toda a teoria de acumulação e exploração) mas continuou a criticar o capital, como entidade devoradora do trabalho social, ou sepulcro com trabalho incorporado, o que na melhor das hipóteses significa a incapacidade teórica de um intelectual formado nas abstrações (que Marx reconhecia e identificava) dos economistas clássicos do século XVIII e XIX, mas que se revelou incapaz de ultrapassar a análise económica baseada na suspensão do tempo, o que aprofundou a incapacidade de separar o que no trabalho se deve ao operário dos efeitos multiplicadores dos diferentes tipos de trabalho, incluindo  a gestão do Capital e o sistema bancário. (Milton Friedman, Capitalism and Freedom, Chicago University Press, 2002, 167-168)

Se me é permitido, terminaria com uma nota espetacularmente erudita, um argumento de autoridade, e um juízo filosófico sobre a desorientação do marxismo como filosofia social. No já muito afastado ano de 1902, na desesperadamente bela cidade de Palermo, Achille Loria destacou que Marx era um metafísico a quem, não obstante o maravilhoso conhecimento da vida real, e da história jurídica e política da Europa, nunca deixaram de fascinar os idealismos hegelianos (e atenção que ao contrário de Karl Popper, eu li mesmo Hegel), o que o empurrou para uma confusão entre o desenvolvimento «natural» das coisas e o papel da filosofia como mértodo revelador e potenciador desses processos metafísicos em que sentido e matéria se casam no fim dos tempos, processo que pode ser sintetizado em conceitos e expresso pelo desenvolvimento da consciência dos intelectuais até «o ponto da inteligência teórica de todo o movimento histórico», tal como vem biblicamente referido no Manifesto do Partido Comunista. Não é preciso grande sentido interpretativo para entender como a preocupação moral e o uso abundante e abusivo do conceito de consciência são problemas de metafísica judaica que chocam qualquer espírito científico contemporâneo e aborrecem qualquer pessoa minimamente saudável.

Gramsci, como é sabido, arrumou o problema das pessoas inteligentes que querem transformar o mundo e denunciar as injustiças: «Os trabalhadores intelectuais, ainda que aparentem ser indiferentes à manutenção ou destruição da ordem social existente, estão em todo o caso, e até ao mais fundo da sua natureza, interessados na sorte da superestrutura ideológica da ordem social (funcionários empregados pelo Estado, magistrados, advogados)» - e eu acrescentaria professores, médicos , enfermeiros e todas as pessoas lideradas por Bettencourt Picanço em geral (Scriti Politici Giovanili, 1919-1928, Roma-Bari, Laterza, 1972, 16-25).

A todos os que continuam a acreditar nas luzes do entendimento, na liberdade da vontade e na poderosa imaginação humana, posso assegurar que neste blogue se continuará, sem tréguas e sem quartel, a luta contra o obscurantismo, a vigarice e a ignorância das massas.