segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Será possível escrever bem sem raiva, sem remorso?

Se me perguntarem o que para mim é ser urbano ou sentir-me cosmopolita, falar-vos-ei sem pestanejar, de andar de metro mais entalado que a minha situação fiscal; de autocarros cheios de velhos que parecem ir para lado nenhum e de pessoas outonais que sentem demasiado frio para quem vive num país pré-africano. Um Novaiorquino falar-vos-ia de museus, de cinemas, de exposições e de passeios no parque. E de furacões, mas só hoje; um Berlinense, de varrer a neve no passeio, de copos de vinho francês barato em cabarés na zona leste e de dinheiro mal gasto por países que só conhecem do futebol; um espanhol não fala, resmunga. Mas para mim, deslocado de onde não há transportes públicos, cidade é sinónimo maior de engarrafamentos e de transportes públicos mais cheios que as vergonhas de jovens moças dos filmes porno dos anos 70. Portugal dos anos 2000-e-tal, pós-migração brasileira, já não deveria ser assim.

Mas a cidade é também garante de ver mulheres bonitas todos os dias. Não tenho o privilégio de fazer isto. Mas nada me impede o enquadramento, o desfoque do fundo, o equilíbrio da luz. Nada, exceto o sono. Ela era linda, entrou com a elegância que o frio da rua a ajudava a vestir. Mas o sono, a noite mal dormida e o balançar do autocarro levaram-me a focar tudo. Tudo, da velhota sonâmbula ao motorista-com-perfil-de-empregado-de-balcão-de-banco-da-baixa. Tudo menos ela. Às vezes percebo melhor isto de só se ver o que se quer. Às vezes percebo melhor os retratos que fundam na procura de pequenos traços de nitidez o prazer que se revela aqui e ali. Mesmo no prato. Um bem-haja, Esteves Cardoso.

Estou a ouvir Bon Iver

Dos quatro que aqui escrevem, sou o que menos leu e - por consequência - o que pior e menos escreve. Coisas da vida. Mas gosto muito dos mistérios da paternidade. Que me tira horas de sono e me deixa cansado ainda antes de começar. E sou adepto do Sporting. Que numa segunda feira me parece ser ainda a pior maneira de começar o que quer que seja. E claro, gosto de vídeos de gatinhos. Sou um tipo bastante gráfico. É por isso que gosto mesmo é da Internet.  Só aqui se poderiam encontrar estas duas belas imagens que falam tanto do que aqui se tem escrito. Deixo-vos. Está tudo bem.



domingo, 28 de outubro de 2012

Um tipo questiona-se (II)


Outra curiosidade que a minha busca de emprego revelou foi a uniformidade dos baixos salários pagos por essa Europa fora. Sim, eu escrevi baixos.

Ora, eu estava convencido de que lá fora, as empresas pagariam bateladas de massa pelo privilégio de empregar a minha pessoa. Uma rápida pesquisa pela net revelou que não só na Europa se ganha pouco mais do que cá, como os impostos lá fora garantem que ninguém enriquece a trabalhar.

Mas o que mais me estranhou foi a estranha homogeneidade dos salários. Mais centena menos centena de euros eu iria ganhar o mesmo, quer fosse para Cambridge, talvez vá, quer esteja em Roterdão, vou lá dar um saltinho, ou me mude para Bruxelas, pode ser que sim.

Isto é extraordinário. Os oirópas, designemos assim a malta para lá dos Pirinéus, garantiram-me até que só me iriam pagar de acordo com a posição e a experiência. Que se estavam positivamente a cagar para eu ter custos na mudança e que querem lá saber quanto custa o aluguer de um T2 minúsculo.

E extraordinário é porque contrasta com a minha experiência cá. Logo no início da caminhada falei com uma multinacional sediada nas bordas de Lisboa. Não só pagam mal, para os standards nacionais, como permitem uma grande disparidade de salários para as mesmas posições. Um enorme desincentivo ao esforço individual, como se percebe.

Acrescento também um deslize de um ex-patrão: quando se queixava dos elevados custos salariais da empresa, deixou escapar quanto ganhava o meu colega. Quatro vezes mais que eu porque ele foi cigano o suficiente na altura de negociar. Saí ao fim de dois meses.

sábado, 27 de outubro de 2012

Cenas que um gajo às vezes

Existe toda uma constelação de pessoas interessadas na injusta acusação de que em certos casos eu sou apenas um gajo que envolvido na demonstração do seu génio, acaba por libertar a roda pirotécnica da sua consciência mas apenas egoisticamente e tão só até aquele ponto em que as crianças abrem a boca e deixam cair o gelado no chão. Nada mais injusto. Os milhões e milhões de pretoleiros da Lisnave carregados das pessoas que não me conhecem, não ignoram no entanto que é muito raro uma pessoa com a minha mais do que demonstrada capacidade deixar argumentos a meio, o que acontece é que.
 

 
 
Não sei se têm reparado mas o segundo programa artístico fundamental, no trabalho que tenho vindo a desenvolver junto do grande público, é justamente o continuado aperfeiçoamento das ideias de Northrop Frye acerca da consistência lógica e demonstração racional de uma valorização dos textos literários, uma vez que nesta vida ingrata, e como diziam de Garrett, não me importo de ver as piores porcarias, desde que não me sujeitem a uma frase mal escrita, tenham paciência, caralho. Posto isto, não é justo que tenham privado da sua cabeça, diversas e notáveis mulheres da Corte de Luís XVI -que sabiam mais de literatura, maturidade e foda a dormir do que o Tolan a vender as merdas que ele vende lá aos gajos que sabem como se vendem coisas - para que o mesmo Tolan possa agora reclamar-se de uma liberdade de opinião totalmente construída em cima do joelho feminino que é o dele, e de uma forma escabrosamente arbitrária e notavelmente desinstruída, para muito injustamente cuspir sobre o túmulo de uma nobreza, apesar de tudo cultivada até às lágrimas e o sangue nas belas letras, em troca da liberdade de comércio, direitos constitucionais, e umas centenas de visitas ao seu blogue de gajas e gajos burros que nem uma porta esculpida à cabeçada na talha dourada do entre Douro e Minho.
 
É por causa destas merdas que os comunas não respeitam o sistema de preços: é que os mesmos gajos que se sentem insultados porque as pessoas gostam da merda dos Ornatos Violeta e não gostam da merda de outra banda qualquer de analfabetos musicais, acham por bem dizer que ler Thomas Mann é bom, gratificante, e indiferentemente humano, tão normal como ler um americano alcoólico qualquer que mal sabe soletrar o seu nome, sem apresentarem sequer um argumento que ultrapasse a analogia mais absurda, e penso aqui nas comparações com os russos ou com o coitadinho do esquisitamente incompleto Mário de Sá Carneiro. Um bom sistema de preços não pode funcionar sem um sistema de controlo de qualidade, uma cena que até os ciganos da feira sabem, mas em matéria de livros, vale tudo, sobretudo se isso implicar arrancar os olhos dos gajos que percebem realmente de livros. Reparem que esta merda é especialmente grave porque se trata do Tolan: se fosse o valter hugo mãe, o Urbano Tavares Rodrigues ou outra múmia qualquer, tudo bem com toda a gente, mas estamos a falar do Tolan, uma pessoa que tem responsabilidades neste empreendimento de libertação que estamos a construir para as massas. Isto não me atingiria tão profundamente se não tivesse sido perpetrado por uma pessoa que aprendi a respeitar, por outras razões é verdade, mas ainda assim.
 
 
Amanhã por esta hora voltarei aqui para iniciar uma nova etapa no elogio da derrota que é a anunciada demolição programática da vigarice em que chafurda o meio literário português e fazer cabal demonstração do meu incompleto génio, cumprindo os desejos dos meus leitores com dois posts, a saber:

a) uma ampla elaboração sobre o argumento implícito acerca do desperdício imoral constituído pela criação e edição ne variatur da obra de António Lobo Antunes:

b) uma sustentada iluminação das relações entre a expressão literária do sentido masculino e viril da vida e a dominação monstruosa da mulher sobre o nosso coração de andorinha, a partir de um problema que tocando em Coriolanus, e na poderosamente sensual Volumnia, mas também no crianção fantástico e embriagado, Falstaff, de Henrique IV, nos tem continuadamente preocupado a todos, isto é, pretendo abordar de forma explícita directa e despudorada, a estreita ligação entre a nossa mãezinha, as protuberâncias mamárias e a recordação da doce e aveludada atmosfera do adormecimento infantil a que ligamos as mais secretas e profundas sensações de felicidade, de  tal forma que o maior génio vivo do século XXI, Marcel Proust, ao iniciar a monumental demonstração da sua vida interior através do uso da linguagem, se decidiu pela notificação pública de que durante muito tempo foi para a cama cedo. Estaremos todos nós ainda à espera de mama ou só os mais frágeis e abandonados é que se dão por insatisfeitos com o biberão de borracha que nos ofereceram por substituto?

Boa noite a todos e bons sonhos.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Um tipo questiona-se


Um dos frequentes sound-bites nos media nacionais é que "as universidades portuguesas quase só formam licenciados em áreas sem futuro nem empregabilidade". E que lá fora, na Europa civilizada, não é nada disso e só meia-dúzia de intelectuais é que entram nas ciências sociais.

Assim sendo, é um mistério que ontem tenham estado 44 empresas europeias no Centro de Congressos de Lisboa a recrutar engenheiros e técnicos, formados obviamente por obra e graça do Espírito Santo já que as universidades portuguesas só formam sociólogos, psicólogos e outras variedades de ólogos.

Segundo um recrutador sueco com quem falei hoje, passaram por lá ontem mais de 4 mil engenheiros portugueses, ou três petroleiros Lisnave cheios de gente. Tudo malta que aprendeu a ler, escrever e a resolver o máximo de Pontriagyn sem nunca colocar os cotos numa escola portuguesa. Como é óbvio.

E de acordo com as pessoas com quem falei, e eu meti conversa com muito estrangeiro, três petroleiros da Lisnave com os tanques a transbordar de mão-de-obra não cobrem as necessidades. Porquê? Porque, e isto é extraordinário que assim seja, na Europa dita civilizada a maioria da juventude foge para as ciências sociais. O tal sueco disse-me que na cidade dele, a Odivelas lá do sítio, existem 8 mil desempregados e 1 mil vagas para engenharia que não encontram um Ingmar ou um Svenson minimamente qualificado. Oito para um. Seis petroleiros da Lisnave a transbordar de gente com curso inúteis para meio petroleiro de engenheiros.

O sueco também me deu um baralho de cartas para eu jogar à sueca enquanto que as alemãs me deram um boneco anti-stress. Os estrangeiros são tipos simpáticos.

O fôlego do escafandrista

Oh Alf… olha que eu até gosto de te ler pá, se bem que me canse, mas tens de conter a exuberância e o conhecimento académico, isto de ler os teus posts requer pelo menos meia dúzia de canudos nas mais diversas áreas do conhecimento e um fôlego de escafandrista.
Ex-Vincent Poursan, 25 de Outubro de 2012 16:00

 
 
As pessoas que têm consumido neste blogue algum do seu tempo, apreciando o espectacular e exuberante desfile de tentativas que constituiem a nossa já vasta obra, sabem de ciência certa que o nosso mundo nasceu não só da operacionalização de um sistema de preços, não só da emotividade descontrolada de um Cícero, não só daquela ceia de taberna presidida por um judeu descabelado, não só da mecânica newtoniana, não só dos colhões do patriarca Abraão (andava há séculos para dizer isto), não só da paneleirice contumaz de um génio chamado Proust, não só das parvoíces socialistas nas suas mais diversas manifestações mas também da paciência militante e da virtude combativa de pessoas que não sedem à tirania da comunicação. Faço notar que não estou aqui a defender a opacidade dos discursos - deixo essa tarefa inteiramente a cargo da Maria Alzira Seixo que é aquela gaja responsável pela edição ne variatur do cada vez mais chaladinho António Lobo Antunes. Cada um falará por si, mas o que me traz aqui hoje é a vontade de confirmar que as pessoas devem saber ao que vêm quando, neste blogue, se debruçam sobre os textos onde está apostada a designação alf: vêm ler um gajo que lê livros e que sou eu.
 
 
Mas o facto de eu ser uma pessoa que lê livros, numa cultura que se habituou durante séculos a ajoelhar diante de um livro escrito numa língua que não entendia, significa que a última coisa que as pessoas devem vir aqui procurar é precisamente a compreensão de si próprias: para isso temos o José Tolentino Mendonça, e sei até de um teólogo que se doutorou nos dotes comunicacionais de Jesus Cristo e que defende a existência da palavra perfeita.
 
 
Quem vem aqui não tem outro remédio senão esforçar-se por entender-me, porque ao contrário do que dizem todos os tristemente ignorantes nas coisas gerais da vida, o escritor não espelha nenhuma natureza humana, não espelha nenhuma essência das nossas virtudes e misérias, não espelha nenhuma descodificação do drama universal, não espelha nenhum conhecimento que não necessite de ser refeito a partir de uma experiência individual, e se alguma coisa um escritor espelha é o seu inglório esforço, quase sempre desesperado e inútil, para tentar compreender o bizarro mundo submarino e fantasmagórico a que chama personalidade. Que as pessoas possam achar algum interesse em comparar o seu igualmente rico mundo interior com o mundo interior de um outro sujeito  - um sujeito que por maldição, acaso, ou mania, é capaz de representar o seu próprio mundo e torná-lo estranhamente visível para os outros, e nisto só consiste a vantagem do escritor - é o único prazer e satisfação que assiste aos leitores de textos literários. Quem quiser facilidades, compre vaselina. Aqui só há palavras minhas e um curto pedaço desta breve alegria que levamos desta vida, que é esquecer a nossa própria consciência no esforço de compreender as palavras dos outros.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Bruxelas

Deu-se esta semana a coincidência de eu estar livre do jugo opressor do capitalismo e em simultâneo existir em Bruxelas um capitalista disposto a esbulhar-me na minha dignidade humana a troco de dinheiro. O alf tem mais abaixo um longo texto a explicar o porquê destas coincidências serem tão frequentes.

Mas não posso deixar de realçar a coincidência da História se repetir. Há pouco mais de 40 anos atrás, o senhor meu pai meteu-se no Sud-Express com os mesmos propósitos com que eu me levantei às 5h da matina da passada terça. A subtil ironia, que as hordas de indignados parecem não compreender, está na evolução para melhor das condições oferecidas aos operários. Explorado sim, mas com o cu bem acomodado no assento de um Airbus em vez dos bancos endurecidos de uma carruagem dos anos 50.

Tudo isto para dizer que a Bélgica é extraordinariamente parecida com Portugal. Fica feito o aviso à comunidade belga que nos segue neste blogue.

Os impostos por exemplo, são elevadíssimos. Utilizando a unidade métrica deste blogue, estão a petroleiros enfileirados da Lisnave de distância do que o Gaspar pretende fazer em Portugal. Mas na boa tradição tuga, lá estão as excepções e regalias isentas de impostos. É reconfortante saber que as nossas feitorias em Bruges e na Flandres ensinaram algo aos indígenas, não foi só o preço das arrobas de noz-moscada e pimenta.

E depois há aquela noção de caos organizado, tão familiar a quem faz pela vida aqui em Portugal.

Binary solo


A vida torna-se fácil quando apenas temos 0 e 1's.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Snob, pseudo-intelectual, pessoa de bem, traste, indivíduo em geral supreendido pela sua própria capacidade de gerar a confusão espiritual, perplexidades e desgostos amorosos, são títulos que não renego nesta atribulada vida que há-de ser coroada por uma morte trágica e uma obra ignorada: mas está tudo bem comigo.

José Rodrigues dos Santos, a mão do diabo e o braço musculado de um indivíduo de raça negra: como são misteriosos os caminhos do triunfo da realidade sobre a ficção.

As flies to wanton boys are we to th' gods,
They kill us for their sport.

Shakespeare, King Lear: 4, 1, 32–37


Acabo de ver um indivíduo de raça negra transportando a mais recente obra de José Rodrigues dos Santos debaixo do seu musculado braço direito, um braço por certo esculpido em ébano através de repetidas operações de nivelamento de paredes, ou talvez pelos circulares movimentos repetidos no afagamento de soalhos, ou em outra qualquer outra forma de trabalho precariamente remunerado, e este é o ponto prévio a toda e qualquer ideia que vos queira comunicar: a verdade é que ainda não me refiz do susto e sou forçado a dizer que eventuais gralhas neste post se devem exclusivamente ao tremelicar das minhas mãos, efeito que se deve ao nível de perturbação em que me encontro, devido a esta inesperada e supreendente epifania sociológica que me arrastou para muito perto de modificar toda a minha artilharia psico-política sobre o papel da ficção no mundo pós-industrial. A realidade está a ganhar terreno, um singelo facto que longe de constituir uma ameação à nossa vida espiritual, pode ser apenas o próximo capítulo desta longa história em que somos, para  desporto dos deuses, como moscas perseguidas por rapazes travessos*.
 
 
Com efeito, é preciso respeitar indivíduos que são capazes de colocar milhares de pessoas a ler, incluindo indivíduos de raça negra, ou pelo menos manter a dúvida perante autores que induzem, mesmo que mafiosamente, milhares de pessoas a comprar livros, sendo que não é justificável insistir em cânticos democráticos para depois nos consumirmos em exercícios circenses, e penso aqui na Teresa Paula Moura Pinheiro Ricou, e no Câmara Clara, onde as mãozinhas impecavelmente luzidias do Mário de Carvalho recentemente nos explicaram que a grande literatura é produzida por pessoas que já leram muitos livros, presumo que apenas para fruição dos poucos que são capazes de entender o conteúdo da grande literatura, uma vez que por este prisma bicudo, como esperar que, precisando o mundo de quem faça camas, limpe o nosso lixo, construa casas, desenrole tapates de alcatrão nauseabundo, haja tempo para que todos sejamos capazes de ler os livros que o Mário de Carvalho julga serem essenciais para iniciarmos a nossa civilizada conversa sobre o que é um grande livro? Não estou a sugerir que as pessoas consideradas de segunda classe devam ser obrigadas a ler livros que parecem ter sido escritos por crianças da segunda classe, estou apenas a sublinhar pela enésima vez como é curioso que as pessoas de esquerda se sintam particularmente atraídas por argumentos de autoridade.
 
 
Por muito que a minha simpatia pela hierarquização cultural, a acumulação do trabalho mental e a exigência intelectual me empurrem para as vizinhanças ideológicas do Mário de Carvalho - um escritor banal, demasiado esforçado por parecer inteligente, com um vocabulário ultrapassado e deprimentemente escravizado pelo génio de Jorge Luís Borges, diga-se em passo de corrida - devo manter o meu programa artístico e ser coerente com as posições previamente assumidas: um sorriso corajoso e um coração arrependido, eis tudo aquilo de que necessita tanto um grande escritor como o seu leitor ideal.
 

Até ver um preto passar com um livro de Mário de Carvalho debaixo do braço (também pode ser um preto a passar com o Mário de Carvalho debaixo do braço), a minha paciência compreensiva (e perdão) vai toda para o José Rodrigues dos Santos, um autor que sendo uma nulidade em todos os capítulos da escrita - falta de imaginação, cultura escassa, ausência total de domínio da língua, abundância de expressões pobres, uso prolixo de banalidades comparativas, manifesta deselegância das frases, excesso de parágrafos explicativos do «ambiente político e cultural», e até ideotismos ridículos - tem levado as pessoas normais a comprar livros, o que é o primeiro e mais importante passo para chegarmos a produzir, como sociedade, como cultura, como merda que somos, um escritor digno desse nome. Até que nova epifania irrompa inesperadamente na minha triste existência, também eu me recuso a participar nesta passeata, não obstante o Ano da Morte de Ricardo Reis ser claramente o ponto mais alto da longa e bem sucedida passeata de José Saramago pelo exigente reino da competição literária, num livro tão delicadamente equilibado entre a explosão sentimental e a contenção elegíaca que chega a ser doloroso avançar até ao fim pelas suas páginas, se nos acontece sermos forçados a lê-lo em público, porque será impossível afastar a inaudita ameaça de nos encontrarmos a nós próprios, de lágrimas nos olhos, diante de desconhecidos.


Comunico ainda a todo o mundo e às galáxias mais distantes que a Bárbara Norton de Matos publicou um novo livro chamado Espero por ti, alegadamente  o relato das aventuras e dramas de uma famosa atriz que vê a sua vida amorosa e os seus segredos mais íntimos expostos na praça pública. Calma. Está tudo bem.
 
 
É curioso notar que o cansaço nos atingiu como uma imprevisível praga enviada por deuses coléricos e ressentidos, parecendo claro ao autor destas linhas que a ficção se tornou insuportável e que é absolutamente inútil apelar para a imaginação, para a autoridade dos livros lidos, ou para a capacidade de desenhar narrativas que voltem a sossegar os nossos sonhos juvenis. O mundo envelheceu, é inevitável sair de casa e abandonar a infância. Não tarda muito, seremos forçados a encontrar um companheiro ou companheira de circunvoluções amorosas, ser-nos-á dito que é absolutamente normal sofrer como um cão, ser esmagado por humilhações, assistir ao triunfo dos mediocres. Alguém comunicará que a vida será breve e que nada levaremos daqui, e por último aparecerá uma lacónica autoridade, que veste de acordo com os mais secretos terrrores de cada um, para acender o letreiro luminoso que celebra, por uns breves dois minutos, a nossa definitiva extinção. É bom que os leitores se habituem ao processo revolucionário em curso. Se quiserem saber o que vem aí, leiam W. G. Sebald. Podem começar pelos Anéis de Saturno, como a mais fiel comentadora deste blogue, mas sigam rapidamente até Austerlitz, o momento mais eloquente da mosca fugitiva que somos, se iniciarmos a contagem  em Calvino, e considerarmos a realidade como um rapaz travesso, mimado e pouco imaginativo.


* Antes que se multipliquem na caixa de comentários os insultos, ameaças, convites para duelo, acusações, libelos, anátemas sobre o meu alegado racismo, recomendo a leitura atenta do post, de forma a que possa ser identificada a probabilidade de eu estar exatamente a apontar para uma conclusão contrária à que o leitor se sente impelido a atribuir-me, estando o leitor a ser induzido pela ação insidiosa de dois costumados vícios da humanidade: a velocidade de juízo e o julgamento fácil, dois antigos tiranos, especialmente cruéis na nossa época.

O mundo é plano ou o amor em tempos de crise

No fim de cada oração vem o Ámen!!! Muitos, se tivermos medo. Resta-nos estar com o vazio do mundo nas costas, mais borrados de medo que o Jesus, o Jorge, na Rússia – quiçá ainda recordado das lições da infância que lhe incutiam tacitamente o medo de um contra-ataque da organização política e económica de um regime que comia criancinhas. Era como se – para Jesus perceber– o el dourado consumista jogasse, por assim dizer, com demasiado espaço entre linhas, expondo-se a infiltrações e possíveis derrotas decisivas contra um opositor bom de bola, mas não suficientemente disciplinado para aguentar 90 minutos sempre concentrado. Claro que esse regime se vê agora empatado por falta de treino e pela ressaca de uma bebedeira constante de vitórias, quase gerais, não obstante um pequen derrota aqui e ali. Bêbados não de vinho mas de shots, porque a bebedeira se quer pela bebedeira, não pelo prazer de beber.
 
 
E aparentemente, sublinho o aparentemente, acabou-se o álcool, talvez porque, sagrados comentadores, a festa foi excessiva, talvez porque não cuidou da sua reprodução, talvez, e aqui já digo eu, porque o contrabando e o álcool pelo álcool nos esteja a deixar loucos por uma bela bebedeira, das boas, das verdadeiras, com prazer no cambalear. Bêbado estava eu, e continuei, despejando uma garrafa de licor Beirão, bem melhor que o xarope para  a tosse que ando a tomar, enquanto na passada segunda a Fatinha, tal como um barril que ferve por dentro de uma substância emprestada e, claro, temporariamente, falava de algo que não é dela e que desconfio que pouco lhe conhece o sabor. Falava de amor em tempos de crise. É verdade, amor em tempos de crise, como se Medina Carreira e a sua reluzente careca, arrebatando diariamente o prime time da tv, nos cerceasse todo o desejo, nos tirasse qualquer tusa mais atrevida que uma jovenzinha repórter das tvs se louvasse a despertar enquanto relata um qualquer terrível acidente de trânsito como se dum gelado do Santini, escorrendo pelo peito abaixo, se tratasse. Sim, percebo agora melhor Cronenberg.
 
 
E quem convidou a Fatinha? A malta da literatura. Não vou discutir a oposição entre crise e amor. Nem merece discussão. Mas vejamos. A naftalina académica a falar de amor? Isto é digno de ser classificado como uma grande heresia pela Inquisição, com desmembramentos, tortura e excomunhão por fornicação, e por falta dela, até à sexta geração. É uma espécie de fornicação invertida. Até a imagem de penetração capitalista no mundo chinês é mais sexy que isto; até o Jesus a mastigar a pastilha provoca mais inquietação interior, mesmo que não se repare na jovem moscovita que atrás dele – atrás é sempre uma palavra a utilizar quando o tema é este – se agita. Não vi mais do que 5 minutos, dada a tamanha e precoce ejaculação de estupidez e de falta de sentido. Mas deixo uma sugestão à RTP: substitua todos os entendidos comentadores de várias áreas com a mestria com que o fez até aqui. Desempregados a falar de emprego; pobres a falar de dinheiro; bailarinas a falar de futebol e esfomeados à frente de programas de culinária. Pior não ficaria!! Tenham medo. Eu tenho. 

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Nós, aqueles que apesar de tudo vamos suportando a própria consciência mas com dificuldade

Enquanto a associação de espantosos perscrutadores dos mais secretos efeitos da metafísica económica continua o seu incontornável festival de salvação, luta e redenção de todos trabalhadores e explorados, enquanto esses mesmos ingratos trabalhadores e explorados insistem em não reconhecer os seus enviados messiânicos porque são confusos, pouco cultos e ignorantemente obscuros, enquanto o tolinho do José Rodrigues dos Santos insulta o decoro público com uma dança  irónica  e mercantilista sobre o cadavér do nosso sonho de alfabetização das massas, gracejando com as misérias intelectuais e políticas que o nosso povo alegremente infligiu a si próprio, enquanto o Tolan perde tempo com um autor menor como Thomas Mann, os exemplares mais reles da degradação humana tentam simplesmente compreender a sua estupidificante incapacidade de definir um projeto para a própria vida, sem bem que no meu caso, não chega bem a ser uma incapacidade, pois não me lembro de outro sentimento que me ocupasse tão profundamente a consciência como a muita antiga e enraizada sensação, objetiva e límpida, de um profundo e irrevogável declínio interior. Pessoas como eu, e julgo que, felizmente, não serão muitas, dão-se por felizes quando conseguem, eventualmente, escalar o pico de um só dia sem incomodar os seus concidadãos com os milhares de efeitos colaterais que a imunda e complexa pegada política do indivíduo impõe à inocente estrutura física das coisas, um conjunto de inter-relações simbólicas (e penso aqui na filigrana minhota e não em Braudillard) a que vulgarmente chamamos o quotidiano das pessoas normais.


Embora existam muitas teorias explicativa sobre a origem da linguagem, muitos têm sonhado que este nobre mecanismo deve ter sido criado perante o perturbador sentido de impotência, perante a beleza de um mundo incompreensível, e o protesto humano diante da destruição irreversível para onde caminha esse mesmo mundo. Não se trata de uma visão moral decadentista, trata-se de uma observação elementar extraída da História da Física. Quando Keynes tentava explicar que era inútil forçar o desempenho do trabalho a partir de uma economia deprimida, ou que era um desperdício de energia querer esmagar a força cega do trabalho organizado, e recomendava antes que se conduzisse o trabalho a caminho da prosperidade e se libertasse a força sindical dos seus medos, não abatendo os salários altos, mas elevando as remunerações mais reduzidas, recorria a uma belíssima metáfora, sugerindo que a política económica devia enfrentar as dificuldades tal como o oceano vem submergir as rochas numa maré crescente. As pessoas dividem-se assim entre as que compreendem o melancólico esforço deste homem elegante para falhar com dignidade numa tarefa intelectual nobre, e as que teimam em fazer desfilar a própria ignorância e a estridente auto-complacência num ruídoso jubilo de auto-satisfação.


A humildade é a mais inatingível das virtudes humanas, uma coisa que até um fundamentalista católico e mal casado com T. S. Elliott sabia, e por isso fez notar, na sua interpretação do crime do mouro ao serviço de Veneza, Othelo, quando assassina a sua amada Desdemona, que o que nos choca não é tanto o crime hediondo e gratuito mas os inacreditáveis e incompreensíveis sentimentos auto-justificativos que a boca daquele militar impulsivo, criado por Shakespeare, emite até ao cair do pano. Uma vez que é inútil seguirmos agora pela homiliética penitencial das nossas próprias consciências, uma vez que estamos agora demasiado cansados para abrirmos um velho livro de Séneca, uma vez que ninguém compreenderia que ressuscitássemos agora a auto-crítica marxista, uma vez que o António José Seguro vai a caminho da liderança do próximo governo constitucional, uma vez que o José Luís Peixoto se prepara para mais um retumbante triunfo literário com uma elegia viajante pela Coreia do Norte, uma vez que o Jorge Jesus ainda continuará a treinar o Benfica até ao desastre final, uma vez que W. G. Sebald continua a ser um nome irreconhecível para 99,9% das quase sempre bonitas e comoventemente diligentes empregadas do Pingo Doce, uma vez que me é cada vez mais difícil sustentar a dignidade do meu esforço, resta-nos apelar para a causalidade dos astros e manter, até onde nos for possível, um sorriso corajoso e um coração constantemente arrependido, sempre preparados para abandonar este país estrangeiro que é a vida.

Sou do Spartak desde pequeno

Agora que estou de volta ao burgo reparo que há coisas que não mudaram. O governo continua na mesma. O Sporting continua a não ganhar. O alf continua a escrever textos longos. Mas é bom estar de volta.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Ensaio sobre o problema da posição de esquerda perante a Dívida do Estado, seguido das já não muito firmes mas revolucionariamente belas mamas da Monica Bellucci.

Duvido que seja possível (a alguma das variadas espécies de seres vivos distribuídos evolutivamente pela vasta galeria do planeta, incluindo os ratos-marsupiais australianos e os mochos europeus) continuar a desconhecer a minha profunda aversão pelo estúpido do Senhor Professor Vítor Gaspar e pelo minguadamente aberrante Senhor Professor António Borges, mas esta simples evidência não pode dispensar-me de fazer aqui um exercício de amor pela verdade, de sacrífico pela ciência, de imolação pela república, e que consiste em explicar aos burros dos comunistas, nas suas várias aplicações informáticas, que o problema da dívida é, como eles próprios repetem incansavelmente, um problema de justiça social.
 
 
Ora, os juros que pagamos aos agiotas, aos caloteiros, ao porco judeu Schylock e sua cobiçada filha, ou aos banqueiros Ulrich que vieram de Hamburgo em 1755 para financiar a reconstrução do Terramoto que nos rachou ao meio, dependem de um contrato jurídico assente sobre um mecanismo lógico de harmonização do interesse de quem tem meios de pagamento com o interesse de quem precisa de meios de pagamento, em face da necessidade que todos temos de adquirir coisas, medir valor (para não sermos enganados pelos agiotas e suas balanças de ouro que os pintores flamengos não se cansaram de retratar em pequeninos quadros e que o Estado fez o favor de disciplinar, regular e avaliar, com os seus Intendentes e Capitães do exército), e transportar recursos para o futuro, a fim de nos defendermos dos Pedros Passos Coelhos que por aí andam à solta.

Claro que as inteligências mais férteis, quer na produção de rebuçados morais, quer no desenho de objetivos para a vida humana, como o Daniel Oliveira, a Raquel Varela ou o descomunalmente burro do António José Seguro, perguntam por que razão os portugueses devem pagar uma percentagem tão elevada de interesse sobre o dinheiro que lhes foi emprestado. É uma pergunta pertinente e podemos eventualmente argumentar sobre as possibilidades de baixar estes juros, mas não ficamos esclarecidos sobre se os representantes de um futuro melhor, defendem a abolição dos interesses sobre empréstimos monetários, o cancelamento do euro – como padrão internacional valorizado em taxas de câmbio - e sua substituição por pequeninos bustos de Lenine em mármore de Vila Viçosa, ou simplesmente uma renegociação do mecanismo de financiamento, mantendo a agiotagem, mas desta feita regando a dívida com água benta comprada em Fátima.
 

 
Em caso de renegociação, o Daniel Oliveira e a Raquel Varela podiam começar por responder a três perguntas que aqui deixo com total sinceridade:
a) o que temos nós para oferecer a quem nos emprestou o dinheiro, numa época longínqua do passado em que ninguém parecia muito preocupado com os mecanismos de financiamento do Estado e consumia todo o seu sentido de indignação com os prementes problemas da faixa de Gaza?
b) no caso de os juros baixarem significativamente, devemos ou não distribuir o financiamento futuro do Estado por impostos que incidam sobre os trabalhadores especializados em ganhar dinheiro com a gestão do dinheiro, ou como eles gostam de dizer, tributando o grande capital, ou aplicar um sistema fiscal adequado ao mercado e propiciador do investimento nos nano-micro-pequenos empresários, isto é, empreender reformas, tão ao gosto de comunistas como Mira Amaral ou Manuela Ferreira Leite?
c) Como organizaremos nós a nossa «liberdade económica internacional» com a produção e a distribuição de recursos nos mercados financeiros quando pusermos na ordem a agiotagem internacional?
 
Parece-me que existe aqui um tremendo problema de compreensão em torno dos fundamentos económicos do capitalismo, do papel da liberdade na promoção de injustiças e na própria conceção do comunismo como etapa final do capitalismo industrial. É que não sei se alguém já explicou a estas pessoas (mas eu caritativamente, uma vez que fui educado na perversidade da fé católica, posso explicar) que foi precisamente a liberdade de iniciativa saída das revoluções burguesas (que as gajas de mamas descaídas pretendem agora invocar) que ditou o triunfo do dinheiro sobre a organização aristocrática da sociedade e que foi justamente o sistema de preços a dissolver, numa grande transformação, as sociedades de castas da idade média – e que tem permitido aos trabalhadores libertarem-se dos nós antropológicos da simbologia tribal, do analfabetismo e da indigência anti-escolar (em que viviam encerrados nas sociedades rurais). A liberdade dos trabalhadores só tomou forma com a uniformização de meios de medição, peso, transporte e comunicação, possibilitados pela circulação monetária, e apenas o triunfo do dinheiro permitiu medir o trabalho, identificar a exploração, e revelar pessoas alienadas, em relação a potenciais exploradores.  Num sentido filosófico profundo, o dinheiro é a gazua do comunismo mas os comunistas, como são mentalmente muito fracos, e moralmente muito fortes, não o compreendem, e nisto colocam-se ao lado da casta de cardeais, teólogos e outras aves raras que subscrevem a doutrina social da igreja, esse caldo constituído por frases incompreensíveis, catequistas embalsamados e seres fantásticos.
 

 
As pessoas que leram Marx (entre as quais não se encontram a Raquel Varela e o Daniel Oliveira, porque são pessoas demasiado ocupadas em programas de televisão, conferências universitárias e a liderança dos fracos e oprimidos de todo o mundo conhecido e desconhecido) sabem perfeitamente que a única forma de combater o Capitalismo é destruindo o mecanismo monetário, uma coisa que até o mentecapto do Lenine percebeu. No entanto, muito pelo contrário, os comunistas querem um sistema financeiro regulado, e um mecanismo social mais redistributivo, baseado no trabalho (sem se explicarem se ser filmado a fazer um broche, ou gerir uma editora comunista são duas atividades que podem ser consideradas trabalho), isto é, os comunistas querem que o capitalismo funcione melhor aqui do que na União Soviética, aspeto em que estamos amplamente de acordo, mas não explicam de que forma querem melhorar aquilo que prendem destruir. Calma, está tudo bem.

Neste ponto, convém introduzir um pouco da minha raiva congénita contra as pessoas que não gostam de ler e citar um pequenino mas muito virtuoso ensaio do emigrante arménio a quem a Raquel Varela, o Renato Teixeira, o Ricardo Noronha, ou o Zé Neves, certamente gostariam muito de elogiar se esse emigrante se não chamasse Milton Friedman. Este emigrante, muito amigo de um outro filho de emigrantes pobres, também adepto do capitalismo, explicou no já longínquo ano de 1962 (não há desculpa para os níveis de ignorância orgulhosamente ostentados pelas pessoas de bem) que até os mais críticos opositores do capitalismo aceitam o pagamento monetário do trabalho efetuado. Sendo assim, e de acordo com o velho Marx (do jovem, ao contrário da nova esquerda em geral, não gosto muito, bebia muita cerveja e escrevia mal) todo o produto social decorre do trabalho, mas o trabalhador recebe apenas uma parte, e foi a partir destas divisões pouco claras, ultrapassadas, mas importantes na história da economia, entre produto recebido, transferido e acumulado, que se construíram todas aquelas especulações confusas posteriores (e conservadas em gelo pelos comunistas e marxistas) em torno do sobre-produto social (surplus value, em inglês, quem quiser saber em alemão pergunte ao Fernando Ulrich que ele deve saber).

Mas o ponto importante (e reparem agora, aqueles que podem, no maravilhoso detalhe onde não chegam os Oliveiras e Varelas deste mundo, nem aqueles que já desistiram de ler este post, e vão por isso perder o mais valioso tesouro) é que só há exploração do trabalho em relação a um cálculo de valor do produto (suponho que monetário, pois foi também monetariamente que se efetivou o pagamento do salário exploratório) o que obriga os críticos do capitalismo, e todos as raras espécies de comunistas que ainda resistem ao esclarecimento e à higiene científica dos tempos modernos, a reconhecer e aceitar as premissas capitalistas de Smtih e Ricardo (que Marx como é sabido, embora discordando em parte, nunca conseguiu ultrapassar) pois numa economia socialista, que pretende remunerar cada um de acordo com as suas capacidades, esperando que cada um produza apenas o trabalho segundo a sua habilidade, seria necessário comparar o que os diferentes tipos de trabalho podem produzir, não com o que cada um recebe (recusando moralmente a sujidade do dinheiro como um instrumento despersonalizante) mas com a habilidade de cada um para fazer uma determinada coisa. Isto obriga a comparar o resultado do trabalho (alheiras de Mirandela, poemas de José Luís Peixoto, queijos de Niza, canções do Sérgio Godinho) não com aquilo que efetivamente produz mas com aquilo que as pessoas precisam. Não sei se estão a ver a confusão monumental, mas julgo que, apesar das toneladas de propriedade moral dos deputados comunistas, isto explica os resultados eleitorais do PCP.
 
 

Deve aqui explicar-se que as imperfeições do sistema de preços têm sido ignoradas e desvalorizadas na medida em que uma grande maioria de pessoas (excluindo novamente os comunistas, os católicos, e todos os malucos em geral) reconheceu as virtualidades da informação contida nos preços como sistema racional capaz de adequar as escolhas e os comportamentos de milhões de indivíduos, distribuindo a remuneração do trabalho e permitindo tomar decisões sobre quais os recursos necessários para satisfazer, em tempo útil, as necessidades de pessoas que vivem em liberdade e mudam de preferências com pecaminosa, para não dizer diabólica, velocidade. Bendito seja o poder do desejo, porque por ele chegaremos ao reino do prazer.

Tentando iluminar as trevas que se abateram sobre nós, Marx – e nisto foi seguido pela Raquel Varela e mais 18 economistas, historiadores, filósofos, sociólogos, curandeiros, taxistas autores do contra-hegemónico-livro sobre o Estado Social – confundiu o produto total da cooperação entre todos os trabalhadores e recursos, com o conjunto adicionado ao produto, o que no jargão económico, segundo Friedman e os economistas que passam nas cadeiras de Microeconomia I, se denomina produto marginal. Por outro lado, e por mais incrível que isto possa parecer a quem passa a vida entre o suor e o sangue dos trabalhadores, os intelectuais comunistas, marxistas e socialistas (mas também os infinitamente burros políticos da direita) usam o conceito de trabalho com a despreocupação de quem nunca teve que trabalhar. Marx reconhecia o papel do capital (o grande, na maior parte dos casos, mas também o pequeno, para efeitos teóricos) na produção do produto social (é aliás a base de toda a teoria de acumulação e exploração) mas continuou a criticar o capital, como entidade devoradora do trabalho social, ou sepulcro com trabalho incorporado, o que na melhor das hipóteses significa a incapacidade teórica de um intelectual formado nas abstrações (que Marx reconhecia e identificava) dos economistas clássicos do século XVIII e XIX, mas que se revelou incapaz de ultrapassar a análise económica baseada na suspensão do tempo, o que aprofundou a incapacidade de separar o que no trabalho se deve ao operário dos efeitos multiplicadores dos diferentes tipos de trabalho, incluindo  a gestão do Capital e o sistema bancário. (Milton Friedman, Capitalism and Freedom, Chicago University Press, 2002, 167-168)

Se me é permitido, terminaria com uma nota espetacularmente erudita, um argumento de autoridade, e um juízo filosófico sobre a desorientação do marxismo como filosofia social. No já muito afastado ano de 1902, na desesperadamente bela cidade de Palermo, Achille Loria destacou que Marx era um metafísico a quem, não obstante o maravilhoso conhecimento da vida real, e da história jurídica e política da Europa, nunca deixaram de fascinar os idealismos hegelianos (e atenção que ao contrário de Karl Popper, eu li mesmo Hegel), o que o empurrou para uma confusão entre o desenvolvimento «natural» das coisas e o papel da filosofia como mértodo revelador e potenciador desses processos metafísicos em que sentido e matéria se casam no fim dos tempos, processo que pode ser sintetizado em conceitos e expresso pelo desenvolvimento da consciência dos intelectuais até «o ponto da inteligência teórica de todo o movimento histórico», tal como vem biblicamente referido no Manifesto do Partido Comunista. Não é preciso grande sentido interpretativo para entender como a preocupação moral e o uso abundante e abusivo do conceito de consciência são problemas de metafísica judaica que chocam qualquer espírito científico contemporâneo e aborrecem qualquer pessoa minimamente saudável.

Gramsci, como é sabido, arrumou o problema das pessoas inteligentes que querem transformar o mundo e denunciar as injustiças: «Os trabalhadores intelectuais, ainda que aparentem ser indiferentes à manutenção ou destruição da ordem social existente, estão em todo o caso, e até ao mais fundo da sua natureza, interessados na sorte da superestrutura ideológica da ordem social (funcionários empregados pelo Estado, magistrados, advogados)» - e eu acrescentaria professores, médicos , enfermeiros e todas as pessoas lideradas por Bettencourt Picanço em geral (Scriti Politici Giovanili, 1919-1928, Roma-Bari, Laterza, 1972, 16-25).

A todos os que continuam a acreditar nas luzes do entendimento, na liberdade da vontade e na poderosa imaginação humana, posso assegurar que neste blogue se continuará, sem tréguas e sem quartel, a luta contra o obscurantismo, a vigarice e a ignorância das massas.
 

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Continuo a sentir-me um imbecil asqueroso e totalmente dispensável desta nossa República

 
Raquel Varela, uma pessoa infinitamente espectacular
 
 
Toda a gente sabe que a Bertrand editora e as Livrarias Bertrand constituem uma corajosa e solitária organização contra-hegemónica que tem procurado sinalizar as grandes injustiças sociais, os erros ideológicos do mercado livreiro, a fome das criancinhas em África, os profundos impactos políticos das maluquinhas que se despem em frente ao Parlamento, e mesmo as trajectórias cósmicas de planetas eventualmente desorientados e incorrectamente envolvidos na sua politica e moralmente errada órbita celeste, sendo que o singelo facto de a Bertrand editora possuir inúmeras e extensas unidades de venda, nos locais comercialmente mais caros e luxuosos do país (sejam os centros históricos remodelados de Lisboa ou Porto ou as incrívelmente capitalistas galerias da Sonae) e não caves sombrias, masmorras húmidas e águas-furtadas obscuras onde cientistas revolucionários pugnam gloriosamente, contra os seus próprios instintos, a favor da verdade, é apenas uma mera coincidência que não deve perturbar um espírito comprometido com o desvelar da complexa realidade.
 
Segundo a sempre espectacular e nunca devidamente elogiada Raquel Varela, o livro contra-hegemónico que ostenta já na sua bronzea couraça a gloriosa insígnia constituída por milhares de likes, continuará a ser contra-hegemonicamente apresentado e contra-enfaticamente-discutido em mais de uma dezena de contra-universidades em Portugal, Espanha, Inglaterra, Brasil, não deixando margem de manobra aos discursos hegemónicos que terão, desta forma, que buscar refúgio num qualquer beco sórdido (ofereço desde já a minha despensa) perante a onda contra-hegemónica que ameaça desfazer a hegemonia reinante do capitalismo selvagem por meio da mega-contra-discussão que vem já em formação no Atlântico Sul, com o intuito de invadir toda a Ásia, obrigando mesmo a China a contra-perturbar-se a si própria, persuadindo os seus próprios contra-dirigentes e contra-comunistas a abandonarem o contra-comunismo e a construirem um contra-Estado Social, segundo o livro contra-hegemónico.

As centenas de dezenas de milhares de pessoas que têm vontade de se atirar da ponte 25 de Abril, sempre, que me acompanhem nesta hora de provação, pois estou no limite máximo das minhas forças perante a estupidez reinante que ameaça mesmo contra-desfazer-me num caldo de irrelevâncias publicadas, temperado por uma olímpica ignorância das coisas em geral.

Um dia, de bicicleta, com Daniel Oliveira, em alta definição

Sempre gostei de dias de chuva. Sei agora porquê: acalma-me o traço desconfortante em chapéu-de-chuva de quem por mim passa. Não me revejo numa qualquer espécie de sádico empedernido-ó-vampiresco que se alimente do desconforto alheio. Nem sequer sou do sporting, entenda-se. Mas a negação quase consensual da água como elemento impulsionador de vida, os traços que caem como num desenho e a água como marcador do tempo à medida de Sebald, como o Alf bem nos mostra, tranquilizam-me. Há dias de sol que se assemelham a Ritas Pereiras revestidas em capas da Playboy, de tão banais, de luz tão fraca, talvez aqui e ali elegantes, quando visto da janela do comboio da linha de Cascais. Para mim, não um dia de sol, mas a fustigação da sequência de muitos assemelha-se a comer bitoque todos os dias, a digerir sempre a rita pereira ou o humor minimalista do ricardo araújo pereira.  É o nosso castigo meteorológico do sul esse sol aglutinador, o mesmo que dias curtos de inverno, neve em qualquer zona B de Berlim. Tudo é branco ou tudo é luz. E com as pessoas também é assim. Uma fotografia tirada na abertura 22, dispondo os pormenores lentamente. É ver a vida espelhada em qualquer janela de um moderno comboio em qualquer país do centro da europa, percorrer a vida que se finda em qualquer praia deserta do Mar do Norte ou chegar à estação central de Antuérpia no terceira andar, subterrâneo, e ser surpreendido com o espetáculo à superfície. Gosto de livros, vinho e boa comida, sofás e de viajar. E de chuva, claro.

E vão dois

O Ministério da Educação anulou ontem todos, sim todos, os contratos feitos com professores em escolas em zonas "socialmente instáveis". Estas escolas gozavam de uma certa autonomia na escolha dos professores, e este ano foram denunciados muitos abusos.

Convêm deixar claro que o Ministério aprovou todos os procedimentos e critérios que as escolas usaram na contratação e que estas foram visitadas, nas últimas semanas, por inspectores do Ministério. Em alguns casos, os inspectores concluíram que existiram abusos, noutros não. O Ministério está-se a cagar e vai daí, anula todos os contratos. Volto a repetir, todos. Mais uns meses para o imbróglio se resolver, com os alunos "socialmente instáveis" sem aulas.

No meio disto tudo estou curioso para ver como reage o Sindicato. Eu estou em crer que se vai calar.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Faltam prémios nóbeis a esta casa


Foi o que tive tempo para acabar, nestes tempos conturbados. Parecendo que não, tenho trabalhado que nem um moiro, o que não deixa de espantar para quem está estoicamente a enfrentar o desemprego.

Dizer que não é muito difícil

que o diga o Paulo Bento, pois parece ser incapaz de sentar o Postiga no banco. Está bem que marcou um golo, mas uma andorinha não faz a Primavera.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Sem título porque vou a correr para um café ver a segunda parte do Cristiano Ronaldo contra o que resta das Repúblicas Socialistas Soviéticas

Passam 3 minutos sobre o apito inicial da segunda parte do ex-União das Repúblicas Socialistas Soviéticas-Portugal, sendo por isso extremamente desagradável que a minha inteligência seja chamada a corrigir a confusão mental que grassa nas cabeças comunistas com a  ferocidade de um 25 de Novembro de 1974 mal interpretado. Tenho permanecido continuadamente perplexo com a defesa do Estado Social (vénia) levada a cabo pelas forças da ordem colectivizante, seja o PCP (vénia), o 5 dias.net (dupla-vénia), ou o Bagão Félix (cuspidela) porque segundo me recordo, de todas as vastas e várias explanações e exercícios especulativos de Marx, nos seus infindáveis manuscritos preparativos do Capital - que implicaram várias horas de British Library a ler as robinsonadas dos economistas ingleses, recordo que Marx era uma pessoa que trabalhava, ao contrário dos deputados comunistas em geral - não me lembro de ter lido em parte alguma desses preciosos papéis, vastamente editados e comentados por autores obscuros mas brilhantes como José Barata Moura, que o aparelho de Estado e as suas extensões ideológicas, mesmo as mais neo-classicamente decantadas pela London School of Economics nos anos 30, como o Estado Social, devessem ser salvas da hecatombe capitalista e homenageados os dois principais pontas de lança ideológicos dessa monstruosidade político-burguesa, os professores (cuspidela) e os médicos (tripla-cuspidela).
 

 
Não duvido do facto de o livro, Quem Paga o Estado Social em Portugal?, apresentado hoje, e coordenado pela incansável, sempre brilhante, mas inocentemente feia Raquel Varela, provar com números e factos que os trabalhadores portugueses contribuem para o Estado social o necessário para pagar a sua saúde, educação, bem-estar e infraestruturas, mas conviria um amigo mais chegado telefonar urgentemente à Raquel Varela sensibilizando-a, e a todos os colaboradores do livro, acerca da verdadeira natureza do problema, a saber, a existência de uma dívida de que não somos todos igualmente responsáveis, é certo, mas cuja existência coloca um problema ao nível dos sistemas de verdade, para citar Foucault, o que resulta num efeito coletivo e republicano, fenómeno tão do agrado das pessoas que gostam do comunismo, e que virtualmente nos torna a todos responsáveis (nós todos, o colectivo, abraçados e indistintos nos nossos sofrimentos), a começar pelos filhos da puta dos deputados - incluindo os do PCP - que auferem remunerações e incentivos para colaborar activamente na super-estrutura decisória da República, e no processo de produção  e acumulação da ideologia burguesa, onde brilha como o mais dourado emblema, ornado a diamantes e safiras, o Estado Social.
 

 
Ora, se os comunistas acreditam realmente nas contradições do sistema capitalista, e não andam aqui simplesmente a tratar da vidinha como todos nós, os pecadores e publicanos, sejam homenzinhos, abandonem a Assembleia da República, peguem em armas e ataquem a super-estrutura política constitucional, começando, por exemplo, por fazer ir pelos ares o Presidente da República e o seu palácio de Belém. É que ao contrário do que pensam os deputados e intelectuais comunistas (tripla-vénia com dupla jenuflexão), os trabalhadores analfabetos, precisamente por não terem sido escolarizados pelas instituições do Estado, não são assim tão estúpidos como parece aos estúpidos e ignorantes membros dos partidos políticos, professores universitários e seus colaboradores, quase integralmente escolarizados por instituições diretamente dependentes do Estado, o que explica o facto dos mesmos trabalhadores perceberem à distância de quarenta petroleiros da Lisnave todos alinhados em fila, que o discurso coletivista é um engodo burguês, e parido por burgueses, tão impotente e estratificante como qualquer outro discurso saído das barrigas cheias e ociosas da vanguarda intelectual do Estado socializante que paga bolsas de estudo a estas pessoas para andarem a provar argumentos políticos que poderiam ser mais consistentemente provados com a nomeação dos próprios trabalhadores como deputados, representantes políticos, e criadores de um discurso ideológico, mesmo se ignorantes e portadores de erros gramaticais congénitos, como o prova a recuperação eleitoral do PCP, depois de ter mandado Carvalhas para a sua casa de campo, substituindo-o pelo anafalbeto mas muito mais eficaz Jerónimo de Sousa. 
 

 
Termino com uma pequena indicação sobre estratégia política leninista: enquanto os senhores deputados do PCP sentarem o cu naquelas cadeiras almofadadas a veludo carmim, enquanto auferirem remunerações e serviços produzidos pelo monstro, enquanto se desdobrarem paradoxalmente na defesa da democracia onde todos os dias cospem, resta-lhes ou elaborar um programa eleitoral decente que persuada os cidadãos das suas razões coletivas, que pode eventualmente passar pela nacionalização do Pingo Doce e do Continente (a mim, é-me indiferente, tenho um figueira e um laranjeira e terra suficiente, entre a garagem e o quintal, para plantar regos de nabos, alfaces, tomate, batatas e feijão) ou simplesmente definhar apresentando-se como a mais clara e deprimente prova da evidente incapacidade das classes baixas e oprimidas produzirem um discurso coerente e minimamente capaz sequer de formular os problemas da injustiça social numa base clara e consistente.

 
 

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Do caralho que ta foda.

«Fear it, Ophelia, fear it, the shot and danger of desire»
Shakespeare, Hamlet, 10, 41.
 

Alguém por simples e mero acaso, tendo beneficiado de uma nesga de tempo entre as várias preocupações a que tem sido submetido pelo valente governo constitucional liderado pelo brilhante gestor da Tecnoforma, sabe quem é o Alexandre Borges? Não será o irmão daquele ensaio humorístico em forma de parolo açoriano e beneficiário de várias e esquisitas formas de financiamento, entre as quais a colocação dos dentes afiados na coxa da república, por intermédio de pagamentos por prestação de serviços à RTP 1 e 2, e se houvesse, também à 3, 4, 5 e 6? Não podemos afirmá-lo com toda a certeza, mas podemos pelo menos referir que o Alexandre Borges, quem quer que seja, veio recentemente, depois de um cruzeiro deslizante sobre a superfície dos profundos oceanos onde outrora sulcou a velha quilha do Pequod, puxar das suas profundas ideias políticas e denunciar, por meio de um argumento de autoridade, a irresponsabilidade dos líderes da oposição e dos fazedores de opinião, não devido a transferências estranhas de fundos comunitários, não devido ao abuso da política fiscal, não devido à colaboração com empresas fantasma, mas devido à produção de críticas ao governo: vejam só o despautério desta inqualificável irresponsabilidade; uma oposição que critica o governo, jornais que escrutinam decisões políticas; preparai-vos pois o fim do mundo está próximo.
 
 
O raciocínio é brilhante, posso assegurar, e reconhece que não se podendo pedir às pessoas que estão a ser fabulosamente fodidas pela continuação do regular funcionamento constitucional da república levado a cabo pelos magistrais mestres de sacríficios e torturas que assinam em nome do governo de coligação PSD/CDS, devemos, no entanto, e por outro lado, fustigar todas as irresponsáveis críticas à liderança do governo em nome do estado de excepção que nos anima a caminhar para o futuro esperando ansiosamente a vinda do amanhã que cantará para nós através das gargantas puras e cristalinas das crianças lourinhas e bem nutridas que, por mero acaso, sobreviverem à hecatombe fiscal que estamos absolutamente proibidos de denunciar.
 

Se o Alexandre Borges acha que nos devemos conter até ao dia em que o delírio generalizado venha a produzir efeitos práticos sobre a vida real, lamento informar este confesso anglófilo convicto - é o que se lê na sua biografia - sobre o que um outro anglófilo convicto, mas nascido em Inglaterra, celebrizou num aforismo célebre, sintetizando o tipo de raciocínio que devemos aplicar a todas as tentativas de decapitar o conforto das pessoas em nome de uma amanhã que canta, a saber: «a longo prazo estaremos todos mortos» e sem possibilidade de ouvir belas canções ou constatar os efeitos práticos produzidos pela má teoria sobre a hierática quietude da vida real.
 

Tudo isto é tão tristemente coerente como a  extraordinário e nunca justamente celebrada semelhança entre Carlos Moedas e Manuel Luís Goucha, pois o mesmo Alexandre Borges constata, em um outro lugar, serem os recibos verdes um instrumento de progresso, justiça e civilização, pelo facto de se ter habituado desde cedo e sem ressentimentos, a só ser pago por aquilo que produzia, achando a coisa mais lógica do mundo não receber dinheiro por estar estendido na praia (e logo o dobro do dinheiro do que aquele que receberia se estivesse a trabalhar). Aceitemos que o Alexandre Borges é uma pessoa com um monumentalmente aguçado espírito de equidade, capaz de inflingir sangrias e feridas profundas ao seu próprio corpo, capaz de abnegadamente apenas receber no bolso roto das pobres calças de sarja a parca recompensa da sua labuta diária, e isto sem emitir o mais pequeno balbuceio, a fim de que se produzam relações de justiça remuneratória, tão simples e somente fazendo uso de um pequenino papelinho da cor do Sporting chamado Recibo Verde.
 
 
Porém, para que se produzam os pretendidos efeitos escatológicos da justiça retributiva preconizada pelo açoreano esquisito,  teriamos que desagradavelmente aduzir à consideração sobre o mecanismo legal que formaliza a relação compensatória dos trabalhadores, uma justa análise sobre essa singela informação numérica contida na linha onde os ditos papelinhos verdes observam os valores remuneratórios do filho da puta do Alexandre Borges, não podendo deixar de perguntar, qualquer hipotético legislador que se prestasse ao exercício comparativo, se os supra-referidos valores recebidos pelo  caro Alexandre Borges, serão assim tão geometricamente proporcionais ao nível de combustão produzida pelo  seu estóico corpo, qual Rambo da precariedade justiceira, quando tem a sorte de não estar inutilmente estendido na praia e se consome no mais profundo sentido da vida que é o trabalho libertador e justamente compensado, remunerado por intermédio dos papelinhos verdes.  A julgar pela sua monumental obra, eu diria que o Alexandre Borges é um filho da puta e está aqui a utilizar um instrumento a que os monges beneditinos muito versados nas artes liberais chamariam falácia.
 

Para este Rambo dos recibos verdes, a justificação da ausência de contratos de trabalho (contratos, ouviste ó anglófilo do caralho, contratos, uma coisa que a Magna Carta regista desde o século XIII a fim de constituir um travão capaz de impedir os governos, os patrões e os aristocratas de irem ao bolso das pessoas, nomeadamente os pobres camponeses parolos) deve-se a uma queda económica do ocidente; pasme-se, uma queda económica do ocidente, o que segundo este anglófilo certamente produzido pelos filmes de Chuck Norris e Silvester Stalone, alugados entre 1985 e 1990 no cineclube de Angra do Heroísmo, o terá levado a produzir a seguinte maravilha declaratória:
 

 

Um momento. Nada mais? Nada mais? Mas haverá alguma função ao dispor das capacidades psico-motoras do ser humano que não caiba nesta lista? Isto é o mesmo que dizer que o Benfica deve concentrar os seus recursos na contratação de pontas-de-lança, médios, defesas, extremos, massagistas, treinadores de guarda-redes especializados em cruzamentos, roupeiros e guardas do túnel, ou que devemos concentrar a nossa atenção em gajas que tenham duas pernas, dois braços e um aspecto minimamente agradável, ou que devemos concentrar as nossas refeições em função da vontade que venhamos eventualmente a ter em ingerir alimentos, ou que devemos concetrar a polícia em hipotéticos locais onde possivelmente venham a ser cometidos crimes, ou que devemos fornecer medicamentos aos velhos sempre que eles se queixarem, ou que devemos pagar a todos os palhaços que venham dos Açores para nos fazer rir. Mas o Alexandre Borges não fica por aqui:


 

Posto este programa de reformas políticas, faço silêncio e pergunto se haverá necessidade de o povo português continuar cegamente a custear um Governo, uma Presidência e uma Assembleia da República? Digo prontamente que não, pois serão visivelmente «sobressalientes» tais instituições perante tão extraordinária plataforma estadualista capaz de nos conduzir a um futuro de paz, amor e prosperidade.
 
 
 
 

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Ao ver ontem o Câmara Clara, no intervalo da leitura do clássico por João Gobern, exclamei: Senhor lembra-te de mim quando vieres com a tua realeza; mas os gajos nunca se lembram, caralho.

Na concretização da minha nova vida há porém muitas coisas que seguem - como dizem os espanhóis - sendo continuadamente iguais ao que eram na minha vida anterior, como por exemplo, a capacidade de prever com incrível antecedência e perturbante rigor a mediocridade de alguns dos políticos eleitos democraticamente pela República e amplamente elogiados pelo conjunto de deficientes que enverga a carteira de jornalista. Nest post estatisticamente consagrado pelos nossos corajosos e incomparáveis leitores, fiz questão de prevenir com a devida antecedência todas as pessoas de bem (sobretudo as que apreciam a beleza não totalmente convencional da Claudia Schiffer) acerca dos problemas cognitivos do senhor Ministro das Finanças, denunciando ainda a sua carreira académica como um, digamos assim, embuste, para que não fossem mais tarde o remorso, a ingratidão, e o arrependimento (conceitos mais facilmente manobráveis pelo analfabeto do José Tolentino Mendonça) a destroçar o coração do contribuinte, cuja consciência corre o risco de ser inteiramente desnudada pelas sistemáticas vergonhas públicas a que se tem submetido votando em pessoas sobre as quais tudo desconhece.
 
 Não venha pois o indiano Ricardo Costa dizer que há uns meses atrás tudo era diferente, no sistemático exercício de desmobilização da inteligência perante a inquietante realidade (não venha também, como o fez recentemente, citar Shakespeare a este pretexto, mas aposto que pela versão cinematográfica mais recente), uma vez que as oscilações de cenário, longe de constituirem um factor de desnorte da previsão política, deviam ser o terreno de especialização dos deficientes que envergam a carteira de jornalista, dada a sua acumulada experiência em homens que mordem em cães, tragédias naturais, acidentes em cadeia, perversões sexuais e todo o tipo de anomalias consideradas chocantes pelo padrão de normalidade que os assiste. Há um estranho paralelismo entre os comentadores políticos e os comentadores futebolísticos: ambos os discursos são totalmente dependentes da marcha do resultado, o que os transforma em perfeitas inutilidades, a varrer rapidamente do panorama mediático. Uma pessoa minimamente informada ouve dez minutos de conversa de um outro qualquer ser humano e fica desde logo habilitada sobre as suas capacidades públicas: se a pessoa analisada merece o reino dos céus ou casar com a Mónica Belluci (o que talvez seja a mesma coisa) é já um assunto que não cabe ao Kantiano terreno da crítica.
 
 
Do mesmo modo, não venha o indiano José Manuel Fernandes passear com os seus duzentos quilos para a plataforma do metro da Baixa-Chiado quando eu me encontro a menos de dois metros de distância, obrigando-me a um esforço de contenção sem precedentes para não gritar «ó indiano: és mesmo parolo», temendo deste logo o engrandecimento da figura, sob a capa de um ataque injusto, cobarde e soez, onde o rendilhado do martírio racista teria certamente o seu lugar de honra. Mas não é nada disso ó indiano do caralho: é simplesmente uma questão teológica, uma vez que aprendi com uma catequista que envergava saia-casaco verde alface e uma permanente redondamente perfeita a partir de uma matéria-prima capilar de cor castanho-magenta,  que os hipócritas devem ser fustigados com a nossa indignação.
 
 
Outro gajo que me parece um indiano empresário de sucesso é o já supracitado José Tolentino Mendonça que ontem veio conspurcar a memória da literatura russa afirmando que Tchekov escolhe o ponto de vista de um carroceiro para demonstrar que o pobre pode ter uma palavra a dizer numa sociedade cuja galeria de personagens se encontra manipulada pela doença civilizacional da burguesia decadente. Não só Tchekov não escolhe qualquer outro ponto de vista que não seja o seu, como o primeiro conto do vol. 1 de Tchekov na versão portuguesa - de onde o padre Tolentino Mendonça não passou, e onde terá chegado pela bela interpretação de Nani Moretti no seu último filme, aposto (uma vez que não conheço ninguém que cite Levinas e tenha compreendido Tchekov) é precisamente,  e pelo contrário, um tremendo protesto perante a indigência e a indignação de ser pobre.  Filhos da puta dos que engordam a olhos vistos mas vêm depois elogiar a santa vida virtuosa dos pobrezinhos. Esses, cabem com toda a propriedade no conceito de hipócrita, desenhado por Nosso Senhor Jesus Cristo, já vai para dois mil anos.
 
 
O padre Tolentino está cada vez pior desde que cometi o tremendo erro de lhe solicitar um comentário a umas merdolas adolescentes que tinha escrito, sem pinga de qualidade diga-se, e o gajo, depois de não mexer um dedo pela publicação das ditas merdolas - que é o que todos queremos quando solicitamos opiniões deste tipo -, mostrou todo o interesse pelo caso humano, incitando-me até a continuar - sem fazer a ponta de um corno por isso, claro - quando o que devia ter feito era uma de duas coisas: a) ou abrir as portas à rápida edição das merdolas, uma vez que havendo tanta merda por aí não viria mal maior ao mundo, garantindo-me condições financeiras mínimas para evoluir, e pedindo-me, se o assistisse o mínimo de sentido higiénico e empreendedor, que corrigisse aquele material incorrigível (o que de todo o coração lhe agradeço não ter feito, dada a situação psico-moral da poesia em Portugal, um agremiado de desocupados maricas, avozinhas sapatonas e gajas que cheiram mal); b) ou dizer-me frontalmente que aquilo era uma grandessíssima merda sem ponta de interesse humano ou qualidade literária, o que era a pura, simples e cristalina verdade, além de óbvia conclusão a que eu próprio cheguei rapidamente, e sem ajuda.
 
 
Porém, o referido reverendo não enveredou por  nenhuma destas estratégias, ambas consistentes e apropriadas, e andou por ali a engonhar uma ou duas semanas, chegando a telefonar-me, o cabrão. O que eu lhe pedi para que afirmasse com toda a sinceridade se ali estava por motivos literários ou movido por critérios pastorais. Afirmou sem pestanejar que não costumava responder a pedidos de avaliação, mas foi totalmente inconclusivo nas respostas, e nenhuma das explicações avançadas para aquele tratamento diferenciado foi esclarecedora. Partilhar conversas privadas: ingratidão da minha parte, dirão uns; é o que se recebe quando se quer ajudar um jovem escritor irresponsável e imoral, dirão outros. Enfim, se aqui conto publicamente este estranho e bizarro episódio da minha biografia é por motivos edificantes, e para proteção geral de todos os jovens escritores que caiem na tentação de procurar figuras públicas para subir mais rapidamente a longa escadaria da fama, para fugir ao incontornável calvário da originalidade e da inteligência, procurando obter fama sem ter de enfrentar o cálice, os espinhos e a cruz destinados a todos os filhos de deus. Por vezes, perturba-me a seguinte pergunta: estaria o gajo interessado em pontas? Não o posso dizer, mas certo, certo, é que já rezei duas novenas a Santa Rita por ter mantido os meus santos olhos bem longe da influência sapuda, melosa e pouco atlética do padre Tolentino. De um ponto de vista meramente literário, não posso terminar este post sem uma opinião crítica da obra do padre Tolentino: como crítico, uma merda. Como poeta, apesar de frouxo e casual, nos últimos trintas não é do pior que se tem publicado, embora possa ser arrumado, em histórias da literatura futuras, como uma versão em muito pior, mais urbana mas menos culta, de Eugénio de Andrade.
 
 
É verdade que continuo um escritor limpidamente objetivo no estilo, mas editorialmente obscuro, o que apenas apurou as minhas capacidades e acentuou a minha raiva, o que confesso, pode prejudicar a minha objetividade, embora mantenha uma significativa confiança na minha qualidade crítica. Lembro que desde pequenino, para aí 10 anos, as minhas preferências nunca foram para Jesus Cristo (um tipo esquisito que me lembrava os drogados de camisa havaiana impacientemente esbofeteados por Don Johnson em Miami Vice) mas sim para o ladrão a quem já nada resta e que mesmo perante uma execução nada agradável, segundo dizem os arqueólogos da Universidade de Jerusalém, ainda tem energia mental para, em vez de se pôr com pedidos adolescentes ao papá, emitir um juízo político da maior clareza, tentando livrar o maluquinho de serviço, e reconhecendo, nobremente, toda a merda que ele próprio, um reconhecido ladrão, fez durante a vida: reconhecimento dos próprios erros; ora aí está uma coisa de que Jesus Cristo se mostrou totalmente incapaz até ao fim.
 
 
E depois há aquela frase eloquente, que é um comentário irónico sobre a salvação, e que é um pedido de reconhecimento humilde, concerteza acompanhado por um sorriso calmo, que o evangelista por falta de talento literário não anotou. O ladrão sabe que não virá de lado nenhum nenhuma realeza, mas mesmo assim revela urbanidade suficiente para alimentar a fantasia do maluquinho durante mais uns minutos. Além do mais, fez a sua jogada inteligente: em caso de dúvida, tendo em conta a confusão tremenda de teorias político-religiosas que para aqui vão, potenciadas pela racional dominação romana, mais vale um gajo não descartar mesmo as hipóteses mais bizarras (um dia, quem sabe, se por aí vieres, lembra-te de mim). Mas como sempre, foi o maluquinho a triunfar, e do ladrão muito pouca gente se tem lembrado.
 
 
 
 

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Hoje bebi um copo de vinho só para celebrar o feriado

Uma das vantagens em estar fora do país é deixarmos de estar absorvidos pelo clima da crise e das notícias envolventes ao tema. Hoje fui trabalhar (para me habituar já ao próximo ano) e quando volto, é bandeiras ao contrário, discursos pífios de um defunto no poder, mulheres aos gritos contra a crise, jornalistas que não sabem para onde olhar, o Sá Pinto que já foi embora (esta até é uma boa noticia) e o Oceano que lá colocaram (novamente uma má noticia). Entretanto, tenho andado bastante de bicicleta. Dizem que faz bem.