terça-feira, 9 de outubro de 2012

Do caralho que ta foda.

«Fear it, Ophelia, fear it, the shot and danger of desire»
Shakespeare, Hamlet, 10, 41.
 

Alguém por simples e mero acaso, tendo beneficiado de uma nesga de tempo entre as várias preocupações a que tem sido submetido pelo valente governo constitucional liderado pelo brilhante gestor da Tecnoforma, sabe quem é o Alexandre Borges? Não será o irmão daquele ensaio humorístico em forma de parolo açoriano e beneficiário de várias e esquisitas formas de financiamento, entre as quais a colocação dos dentes afiados na coxa da república, por intermédio de pagamentos por prestação de serviços à RTP 1 e 2, e se houvesse, também à 3, 4, 5 e 6? Não podemos afirmá-lo com toda a certeza, mas podemos pelo menos referir que o Alexandre Borges, quem quer que seja, veio recentemente, depois de um cruzeiro deslizante sobre a superfície dos profundos oceanos onde outrora sulcou a velha quilha do Pequod, puxar das suas profundas ideias políticas e denunciar, por meio de um argumento de autoridade, a irresponsabilidade dos líderes da oposição e dos fazedores de opinião, não devido a transferências estranhas de fundos comunitários, não devido ao abuso da política fiscal, não devido à colaboração com empresas fantasma, mas devido à produção de críticas ao governo: vejam só o despautério desta inqualificável irresponsabilidade; uma oposição que critica o governo, jornais que escrutinam decisões políticas; preparai-vos pois o fim do mundo está próximo.
 
 
O raciocínio é brilhante, posso assegurar, e reconhece que não se podendo pedir às pessoas que estão a ser fabulosamente fodidas pela continuação do regular funcionamento constitucional da república levado a cabo pelos magistrais mestres de sacríficios e torturas que assinam em nome do governo de coligação PSD/CDS, devemos, no entanto, e por outro lado, fustigar todas as irresponsáveis críticas à liderança do governo em nome do estado de excepção que nos anima a caminhar para o futuro esperando ansiosamente a vinda do amanhã que cantará para nós através das gargantas puras e cristalinas das crianças lourinhas e bem nutridas que, por mero acaso, sobreviverem à hecatombe fiscal que estamos absolutamente proibidos de denunciar.
 

Se o Alexandre Borges acha que nos devemos conter até ao dia em que o delírio generalizado venha a produzir efeitos práticos sobre a vida real, lamento informar este confesso anglófilo convicto - é o que se lê na sua biografia - sobre o que um outro anglófilo convicto, mas nascido em Inglaterra, celebrizou num aforismo célebre, sintetizando o tipo de raciocínio que devemos aplicar a todas as tentativas de decapitar o conforto das pessoas em nome de uma amanhã que canta, a saber: «a longo prazo estaremos todos mortos» e sem possibilidade de ouvir belas canções ou constatar os efeitos práticos produzidos pela má teoria sobre a hierática quietude da vida real.
 

Tudo isto é tão tristemente coerente como a  extraordinário e nunca justamente celebrada semelhança entre Carlos Moedas e Manuel Luís Goucha, pois o mesmo Alexandre Borges constata, em um outro lugar, serem os recibos verdes um instrumento de progresso, justiça e civilização, pelo facto de se ter habituado desde cedo e sem ressentimentos, a só ser pago por aquilo que produzia, achando a coisa mais lógica do mundo não receber dinheiro por estar estendido na praia (e logo o dobro do dinheiro do que aquele que receberia se estivesse a trabalhar). Aceitemos que o Alexandre Borges é uma pessoa com um monumentalmente aguçado espírito de equidade, capaz de inflingir sangrias e feridas profundas ao seu próprio corpo, capaz de abnegadamente apenas receber no bolso roto das pobres calças de sarja a parca recompensa da sua labuta diária, e isto sem emitir o mais pequeno balbuceio, a fim de que se produzam relações de justiça remuneratória, tão simples e somente fazendo uso de um pequenino papelinho da cor do Sporting chamado Recibo Verde.
 
 
Porém, para que se produzam os pretendidos efeitos escatológicos da justiça retributiva preconizada pelo açoreano esquisito,  teriamos que desagradavelmente aduzir à consideração sobre o mecanismo legal que formaliza a relação compensatória dos trabalhadores, uma justa análise sobre essa singela informação numérica contida na linha onde os ditos papelinhos verdes observam os valores remuneratórios do filho da puta do Alexandre Borges, não podendo deixar de perguntar, qualquer hipotético legislador que se prestasse ao exercício comparativo, se os supra-referidos valores recebidos pelo  caro Alexandre Borges, serão assim tão geometricamente proporcionais ao nível de combustão produzida pelo  seu estóico corpo, qual Rambo da precariedade justiceira, quando tem a sorte de não estar inutilmente estendido na praia e se consome no mais profundo sentido da vida que é o trabalho libertador e justamente compensado, remunerado por intermédio dos papelinhos verdes.  A julgar pela sua monumental obra, eu diria que o Alexandre Borges é um filho da puta e está aqui a utilizar um instrumento a que os monges beneditinos muito versados nas artes liberais chamariam falácia.
 

Para este Rambo dos recibos verdes, a justificação da ausência de contratos de trabalho (contratos, ouviste ó anglófilo do caralho, contratos, uma coisa que a Magna Carta regista desde o século XIII a fim de constituir um travão capaz de impedir os governos, os patrões e os aristocratas de irem ao bolso das pessoas, nomeadamente os pobres camponeses parolos) deve-se a uma queda económica do ocidente; pasme-se, uma queda económica do ocidente, o que segundo este anglófilo certamente produzido pelos filmes de Chuck Norris e Silvester Stalone, alugados entre 1985 e 1990 no cineclube de Angra do Heroísmo, o terá levado a produzir a seguinte maravilha declaratória:
 

 

Um momento. Nada mais? Nada mais? Mas haverá alguma função ao dispor das capacidades psico-motoras do ser humano que não caiba nesta lista? Isto é o mesmo que dizer que o Benfica deve concentrar os seus recursos na contratação de pontas-de-lança, médios, defesas, extremos, massagistas, treinadores de guarda-redes especializados em cruzamentos, roupeiros e guardas do túnel, ou que devemos concentrar a nossa atenção em gajas que tenham duas pernas, dois braços e um aspecto minimamente agradável, ou que devemos concentrar as nossas refeições em função da vontade que venhamos eventualmente a ter em ingerir alimentos, ou que devemos concetrar a polícia em hipotéticos locais onde possivelmente venham a ser cometidos crimes, ou que devemos fornecer medicamentos aos velhos sempre que eles se queixarem, ou que devemos pagar a todos os palhaços que venham dos Açores para nos fazer rir. Mas o Alexandre Borges não fica por aqui:


 

Posto este programa de reformas políticas, faço silêncio e pergunto se haverá necessidade de o povo português continuar cegamente a custear um Governo, uma Presidência e uma Assembleia da República? Digo prontamente que não, pois serão visivelmente «sobressalientes» tais instituições perante tão extraordinária plataforma estadualista capaz de nos conduzir a um futuro de paz, amor e prosperidade.
 
 
 
 

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Ao ver ontem o Câmara Clara, no intervalo da leitura do clássico por João Gobern, exclamei: Senhor lembra-te de mim quando vieres com a tua realeza; mas os gajos nunca se lembram, caralho.

Na concretização da minha nova vida há porém muitas coisas que seguem - como dizem os espanhóis - sendo continuadamente iguais ao que eram na minha vida anterior, como por exemplo, a capacidade de prever com incrível antecedência e perturbante rigor a mediocridade de alguns dos políticos eleitos democraticamente pela República e amplamente elogiados pelo conjunto de deficientes que enverga a carteira de jornalista. Nest post estatisticamente consagrado pelos nossos corajosos e incomparáveis leitores, fiz questão de prevenir com a devida antecedência todas as pessoas de bem (sobretudo as que apreciam a beleza não totalmente convencional da Claudia Schiffer) acerca dos problemas cognitivos do senhor Ministro das Finanças, denunciando ainda a sua carreira académica como um, digamos assim, embuste, para que não fossem mais tarde o remorso, a ingratidão, e o arrependimento (conceitos mais facilmente manobráveis pelo analfabeto do José Tolentino Mendonça) a destroçar o coração do contribuinte, cuja consciência corre o risco de ser inteiramente desnudada pelas sistemáticas vergonhas públicas a que se tem submetido votando em pessoas sobre as quais tudo desconhece.
 
 Não venha pois o indiano Ricardo Costa dizer que há uns meses atrás tudo era diferente, no sistemático exercício de desmobilização da inteligência perante a inquietante realidade (não venha também, como o fez recentemente, citar Shakespeare a este pretexto, mas aposto que pela versão cinematográfica mais recente), uma vez que as oscilações de cenário, longe de constituirem um factor de desnorte da previsão política, deviam ser o terreno de especialização dos deficientes que envergam a carteira de jornalista, dada a sua acumulada experiência em homens que mordem em cães, tragédias naturais, acidentes em cadeia, perversões sexuais e todo o tipo de anomalias consideradas chocantes pelo padrão de normalidade que os assiste. Há um estranho paralelismo entre os comentadores políticos e os comentadores futebolísticos: ambos os discursos são totalmente dependentes da marcha do resultado, o que os transforma em perfeitas inutilidades, a varrer rapidamente do panorama mediático. Uma pessoa minimamente informada ouve dez minutos de conversa de um outro qualquer ser humano e fica desde logo habilitada sobre as suas capacidades públicas: se a pessoa analisada merece o reino dos céus ou casar com a Mónica Belluci (o que talvez seja a mesma coisa) é já um assunto que não cabe ao Kantiano terreno da crítica.
 
 
Do mesmo modo, não venha o indiano José Manuel Fernandes passear com os seus duzentos quilos para a plataforma do metro da Baixa-Chiado quando eu me encontro a menos de dois metros de distância, obrigando-me a um esforço de contenção sem precedentes para não gritar «ó indiano: és mesmo parolo», temendo deste logo o engrandecimento da figura, sob a capa de um ataque injusto, cobarde e soez, onde o rendilhado do martírio racista teria certamente o seu lugar de honra. Mas não é nada disso ó indiano do caralho: é simplesmente uma questão teológica, uma vez que aprendi com uma catequista que envergava saia-casaco verde alface e uma permanente redondamente perfeita a partir de uma matéria-prima capilar de cor castanho-magenta,  que os hipócritas devem ser fustigados com a nossa indignação.
 
 
Outro gajo que me parece um indiano empresário de sucesso é o já supracitado José Tolentino Mendonça que ontem veio conspurcar a memória da literatura russa afirmando que Tchekov escolhe o ponto de vista de um carroceiro para demonstrar que o pobre pode ter uma palavra a dizer numa sociedade cuja galeria de personagens se encontra manipulada pela doença civilizacional da burguesia decadente. Não só Tchekov não escolhe qualquer outro ponto de vista que não seja o seu, como o primeiro conto do vol. 1 de Tchekov na versão portuguesa - de onde o padre Tolentino Mendonça não passou, e onde terá chegado pela bela interpretação de Nani Moretti no seu último filme, aposto (uma vez que não conheço ninguém que cite Levinas e tenha compreendido Tchekov) é precisamente,  e pelo contrário, um tremendo protesto perante a indigência e a indignação de ser pobre.  Filhos da puta dos que engordam a olhos vistos mas vêm depois elogiar a santa vida virtuosa dos pobrezinhos. Esses, cabem com toda a propriedade no conceito de hipócrita, desenhado por Nosso Senhor Jesus Cristo, já vai para dois mil anos.
 
 
O padre Tolentino está cada vez pior desde que cometi o tremendo erro de lhe solicitar um comentário a umas merdolas adolescentes que tinha escrito, sem pinga de qualidade diga-se, e o gajo, depois de não mexer um dedo pela publicação das ditas merdolas - que é o que todos queremos quando solicitamos opiniões deste tipo -, mostrou todo o interesse pelo caso humano, incitando-me até a continuar - sem fazer a ponta de um corno por isso, claro - quando o que devia ter feito era uma de duas coisas: a) ou abrir as portas à rápida edição das merdolas, uma vez que havendo tanta merda por aí não viria mal maior ao mundo, garantindo-me condições financeiras mínimas para evoluir, e pedindo-me, se o assistisse o mínimo de sentido higiénico e empreendedor, que corrigisse aquele material incorrigível (o que de todo o coração lhe agradeço não ter feito, dada a situação psico-moral da poesia em Portugal, um agremiado de desocupados maricas, avozinhas sapatonas e gajas que cheiram mal); b) ou dizer-me frontalmente que aquilo era uma grandessíssima merda sem ponta de interesse humano ou qualidade literária, o que era a pura, simples e cristalina verdade, além de óbvia conclusão a que eu próprio cheguei rapidamente, e sem ajuda.
 
 
Porém, o referido reverendo não enveredou por  nenhuma destas estratégias, ambas consistentes e apropriadas, e andou por ali a engonhar uma ou duas semanas, chegando a telefonar-me, o cabrão. O que eu lhe pedi para que afirmasse com toda a sinceridade se ali estava por motivos literários ou movido por critérios pastorais. Afirmou sem pestanejar que não costumava responder a pedidos de avaliação, mas foi totalmente inconclusivo nas respostas, e nenhuma das explicações avançadas para aquele tratamento diferenciado foi esclarecedora. Partilhar conversas privadas: ingratidão da minha parte, dirão uns; é o que se recebe quando se quer ajudar um jovem escritor irresponsável e imoral, dirão outros. Enfim, se aqui conto publicamente este estranho e bizarro episódio da minha biografia é por motivos edificantes, e para proteção geral de todos os jovens escritores que caiem na tentação de procurar figuras públicas para subir mais rapidamente a longa escadaria da fama, para fugir ao incontornável calvário da originalidade e da inteligência, procurando obter fama sem ter de enfrentar o cálice, os espinhos e a cruz destinados a todos os filhos de deus. Por vezes, perturba-me a seguinte pergunta: estaria o gajo interessado em pontas? Não o posso dizer, mas certo, certo, é que já rezei duas novenas a Santa Rita por ter mantido os meus santos olhos bem longe da influência sapuda, melosa e pouco atlética do padre Tolentino. De um ponto de vista meramente literário, não posso terminar este post sem uma opinião crítica da obra do padre Tolentino: como crítico, uma merda. Como poeta, apesar de frouxo e casual, nos últimos trintas não é do pior que se tem publicado, embora possa ser arrumado, em histórias da literatura futuras, como uma versão em muito pior, mais urbana mas menos culta, de Eugénio de Andrade.
 
 
É verdade que continuo um escritor limpidamente objetivo no estilo, mas editorialmente obscuro, o que apenas apurou as minhas capacidades e acentuou a minha raiva, o que confesso, pode prejudicar a minha objetividade, embora mantenha uma significativa confiança na minha qualidade crítica. Lembro que desde pequenino, para aí 10 anos, as minhas preferências nunca foram para Jesus Cristo (um tipo esquisito que me lembrava os drogados de camisa havaiana impacientemente esbofeteados por Don Johnson em Miami Vice) mas sim para o ladrão a quem já nada resta e que mesmo perante uma execução nada agradável, segundo dizem os arqueólogos da Universidade de Jerusalém, ainda tem energia mental para, em vez de se pôr com pedidos adolescentes ao papá, emitir um juízo político da maior clareza, tentando livrar o maluquinho de serviço, e reconhecendo, nobremente, toda a merda que ele próprio, um reconhecido ladrão, fez durante a vida: reconhecimento dos próprios erros; ora aí está uma coisa de que Jesus Cristo se mostrou totalmente incapaz até ao fim.
 
 
E depois há aquela frase eloquente, que é um comentário irónico sobre a salvação, e que é um pedido de reconhecimento humilde, concerteza acompanhado por um sorriso calmo, que o evangelista por falta de talento literário não anotou. O ladrão sabe que não virá de lado nenhum nenhuma realeza, mas mesmo assim revela urbanidade suficiente para alimentar a fantasia do maluquinho durante mais uns minutos. Além do mais, fez a sua jogada inteligente: em caso de dúvida, tendo em conta a confusão tremenda de teorias político-religiosas que para aqui vão, potenciadas pela racional dominação romana, mais vale um gajo não descartar mesmo as hipóteses mais bizarras (um dia, quem sabe, se por aí vieres, lembra-te de mim). Mas como sempre, foi o maluquinho a triunfar, e do ladrão muito pouca gente se tem lembrado.
 
 
 
 

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Hoje bebi um copo de vinho só para celebrar o feriado

Uma das vantagens em estar fora do país é deixarmos de estar absorvidos pelo clima da crise e das notícias envolventes ao tema. Hoje fui trabalhar (para me habituar já ao próximo ano) e quando volto, é bandeiras ao contrário, discursos pífios de um defunto no poder, mulheres aos gritos contra a crise, jornalistas que não sabem para onde olhar, o Sá Pinto que já foi embora (esta até é uma boa noticia) e o Oceano que lá colocaram (novamente uma má noticia). Entretanto, tenho andado bastante de bicicleta. Dizem que faz bem.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Agora que estou desocupado


vou tentar ver os filmes que ainda não tive tempo. Afinal, para alguma coisa estou a pagar o infantário da garota.

O medo acabou: que comece o jogo.



Terminei hoje uma decisiva fase psico-atlética da minha inacreditavelmente incontrolável carreira universitária, e estando demasiado fodido do miolo para explicar a ausência de um Parlamento em portugal, encabeçar uma revolução socialista, ou explicar às pessoas porque é que só agora o António Borges começar a atrair a minha simpatia, venho apenas solenizar o momento e partilhar com a república (que me vai permitindo esfolar os olhos em coias que muito aprecio) algumas pequenas reflexões, postas em movimento pela força melancólica das coisas cumpridas, e pelo estímulo sempre cinematográfico, feroz, americano (o que é mesma coisa, entenda-se) de uma viagem silenciosa pela cidade nocturna, enquanto regresso a casa, a saber: porque razão estou eu espantado com o facto de no mesmo dia em que me desfaço de cinco anos de trabalho empacotado oito vezes (versão impressa e digital) pelos cornos abaixo da estúpida da mulher da Secretaria da Universidade, ter sido inapelavelmente ameaçado, por esses mesmos enfeitiçados cornos, com uma singela multa de 2000 euros, isso mesmo, 2000 euro-caralhos, se não entregasse já, naquele momento, e perante aqueles dois terrivelmente gelatinosos olhos envidraçado em caixilho negro, o testemunho perene e imperecível do meu denodado esforço?

 

A resposta é simples e prende-se com duas ordens de razões, como diria o engenheiro Ângelo Correia nos tempos em que o Passos Coelho era apenas uma pessoa que morava em Massamá e coiso. A "primeira ordem de razões" (e pensamos aqui num belo coral de pérolas em colo alvo), é que estou perfeita e tristemente consciente de que me insiro numa merda de um sistema universitário de um país de merda de um sistema universitário, e assim sucessivamente, em que não só (uma gaja no macdonald´s acaba de me perguntar se eu quero café) espatifa recursos e energias em inutilidades como mesmo as poucas coisas que podia eventualmente transformar pelo método, a ciência e o trabalho, acabam metamorfoseadas em academices, ao ponto de as pessoas, valha-nos Santo Antão, confundirem o Vítor Gaspar com uma pessoa que estuda. (Não quero, já disse, vou-me já embora, tenha calma).
 
 
Eu não peço que se abram os portões do céu, e apareçam à direita os anjos, e à esquerda os mártires (neste caso, o seu equivalente, Joyce, Kafka, Proust e Pessoa). Já sabemos, Gogol soprou-me ao ouvido: «ao escritor de génio, não o hão-de esperar raparigas de dezasseis anos» (pronto 21, não quero chatices) mas eu só peço que esta merda seja a sério, e que haja um gajo para eu desfazer na discussão deste inacreditável evento que é a minha queda aparatosa no alçapão da Academia. E com isto entramos no segundo ponto.
 
 
 
Com efeito, ninguém mais do que eu está profundamente convicto de que não vale a ponta de um corno como exemplar universal, pois como é bem de ver, de universitário não tenho nada, e por isso, faço aqui, e desde já, a minha inteira justiça a todos os que corajosamente cospem nos cursos de papel e lápis (neste caso também mete Excel, que é a mesma coisa que lápis e papel, mas em digital) tentando alertar a opinião púbica para a falta de higiene genital que tem havido na abertura do ensino superior aos filhos dos carpinteiros, electricistas e canalizadores, um fenómeno que não tem passado (e digo-o com sinceras e amargas lágrimas correndo pela face) de um artifício manhoso, desses que Portugal não se cansa de produzir e devia começar a exportar, uma manigância das classes médias altas para colocarem em situação digna (um grande abraço ao filho da puta do Vasco Pulido Valente) os seus filhos segundos e terceiros que não conseguem entrar em Medicina ou Engenharia, tal como antigamente a Casa de Aveiro ou do Cadaval enviava os mais tapadinhos e mortiços para um arcebispado ou uma abadia. Façam um estudo sobre a ocorrência de burros de famílias ricas nas cátedras de ciências sociais e literatura e procurem não esmurrar a primeira pessoa que se vos deparar num raio de cinco metros após a divulgação dos resultados.

 

Que isto não me sirva, no entanto, como desculpa para a melancolia, porque como até o pai da Fanny sabe (sim, sim, não pensem que ando aqui a dormir), só há um motivo pelo qual vale a pena delapidar a nossa auto-estima, e que é a divina e rosseuanina perceção de que nos enganámos redondamente em tudo isto, a prodigiosa consciência de que estamos encurralados num equívoco, armadilhados dentro de uma metáfora, enclausurados incerteza torturante de políticas públicas que alguém desenha tristemente por desocupação ou falta de talento (num gabinete político ou universitário) e que vem depois a produzir, quarenta anos depois, 8 tristes resmas de papel impresso onde dormem quietos e entediados remotos acontecimentos do século XVIII e sobre os quais há um desconto proporcional ao conjunto de tempo que entre nós e esse passado se interpõe.


 
Deixem-me citar Leopardi, e enviar daqui um forte abraço à Teresa Guilherme, pois estará morta e sepultada em menos de quarenta anos, e para todo o sempre, quando de mim só apenas tiver começado o doce e grandioso murmúrio das almas jovens, sempre as primeiras a coroar os artistas deconhecidos: «E il naufragar m'é dolce in questo mare» que é uma forma de dizer que há qualquer coisa de épico nesta derrota militante (que aqui nos animea, neste estranho e novamente solitário lugar da blogosfera), não uma derrtoa mística, não um naufrágio nesses mares de ignorância natural que os monges orientais de cabeça rapada, zurzem nas suas infinitas fugas ao sentido da vida, mas uma derrota fundada na capacidade de tudo compreender, para tudo perdoar. Ó velhas damas da Corte de Luís XVI, que amavam sonolentas de manhã, em alcovas de veludo, com os seios generosos e arfantes do calor das lareiras, e à noite faziam ciência e ouviam preleções de Quesnay e Lavoisier, experimentavam químicos, resolviam equações, assitiam ao levantamento de  balões: quando será que estarei na vossa companhia? Tudo compreender, é tudo perdoar.

 
 
Entre o que sai do nosso entendimento e as sensações que julgamos poder interpretar, não há diálogo possível e como diria o poeta madeirense e obscuro, o que criamos, é sempre e apenas mais uma triste prova da nossa derrota irrevogável, um testemunho credível, profundo e corajoso de que estamos a morrer, mas fazendo gala de o manifestar ao mundo. Eu sei que apesar de tudo é preciso continuar, e eu vou continuar, mas agora nessa grande tapeçaria de guerreiros melancólios e amantes da música das flautas, mas  apostados em verter o próprio sangue até à última gota; agora vou continuar nos meus livros, finalmente liberto da pedra que eu próprio atei com fios de seda ao meu pescoço quando adolescente, uma pedra que me tem custado o silêncio sepulcral dos livros que trago na cabeça, e que agora conspiram na sombra a favor da vida que não mais será possível continuar a negar-lhes. Criar é morrer com mais velocidade e consciência, é desaparecer do mundo, mas com mais concisão. O vosso nobre e honroso papel é apenas testemunhar essa morte. Cito novamente o barbudo obscuro. «Obrigado por acompanharem a minha morte».

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Coisas realmente graves que provam que não há retribuição possível nesta vida, muito menos na outra.

Em que dimensão espacio-temporal será possível conceber que esta divina pessoa esteja a consumir os melhores anos da sua inacreditavelmente eslava beleza, e a esgotar, na ventoinha das irrelevâncias emocionais, toda a sua (pouca) energia artística, arrastada pela companhia matrimonial de um imbecil borbulhento e descabelado do norte de Inglaterra, que em vez de escrever um filme (levitando sobre um inebriante perfume meridional, e folhas de louro que lhe coroassem a merda da cabeça, animando-o a sair do pântano onde se atolou algures na adolescência, uma vez que se diz realizador, um filme que fosse um cruzamento entre Sonho de Uma Noite de Verão, de Shakespeare e o Jardim dos Finzi-Contini, de Bassani) se desdobra, ao invés, diante de nós, dolorosamente, para nosso horror e sua desgraça, em chinesices sanguinárias e em porcarias mitológicas centro-europeias?

 
 

Rádio televisão dos Pombos


Entretanto, porque hoje é segunda e não me apetece morrer em contra mão atrapalhando o trânsito, faço a apologia de um certo silêncio típico das manhãs de segunda-feira. Vamos até ao campo ouvir os passarinhos.

A RTP, essa fantástica empresa pública tão hábil a descobrir talentos em casa de colaboradores de longa data, essa instituição anti-húmus, fecundada por uma espécie de colmeia da elite intelectual portuguesa, passava ontem um programa em que o ex-médico-de-família agora designer, e uma ex-sangue-do-meu -sangue (que na verdade daria um bom título para um filme sobre a história da RTP “Sangue do Meu Sangue ou a eterna decadência de escolher pelo sangue”) exerciam uma espécie de luta ideológica entre os que cavam batatas (expressão que não faz sentido, dado que às batatas deve-se fazer tudo menos cavá-las, sob pena de apodrecerem pouco tempo depois) e os que morrem de stress lutando à batatada em Lisboa por uma vida melhor.
 
Mais uma vez, o campo foi retratado como um local idílico, com pessoas naïfs e puras, quase angelicais (apesar dos anjos se estarem a cagar para nós, os mortais) sempre prontas a ajudar o próximo, sobretudo se ele for desconhecido. Não me querendo alongar neste tema, nem querendo arriscar uma classificação das camadas de personalidades que se escondem por detrás das aparências de quem olha apenas para ideias cristalizadas, arrisco dizer que o argumentista da série ou estava bêbado, ou é geográfica e historicamente ignorante (“antropologicamente”, se calhar fica melhor aqui), ou é uma espécie de sanguessuga da RTP, bem longe da magnificência das papas de sarrabulho, não obstante a sua dimensão consanguínea ter tido aqui, certamente, um importante papel. 

O dito argumentista ou vê o campo de uma qualquer janela da sua casa em Lisboa, digital, quem sabe, ou tenta percebê-lo quando passa na autoestrada ou, acredito mais nisto, apenas tenta retratar a sua empregada doméstica. Sangue-do-meu-sangue será, senhor. Sanguessuga, subentende-se na série, é a vida de Lisboa, com o seu cosmopolitismo acelerador do tempo. A cidade está para o diabo como o campo está para os deuses. Ahhhhh (sim, pode ser lido como um grito) romantismo aquecido em micro-ondas da estupidez!!!! (isto faz-me perceber, já agora, aquela letra que diz “dançamos no teu micro-ondas”. Faz-me perceber ainda mais que a letra é uma merda, entenda-se!!!). Até pensei escrever mais sobre isto, confesso. Sobre a ideia de ignorância primária como origem da formação da conceção de campo idílico, da pacífica natureza. Mas o programa não merece mais merda de palavra nenhuma. Vou ouvir La Traviata para descontrair. Faça-se silêncio.

Da formiga dopada à cigarra invertida.

Hoje acordei com espírito de Raúl Brandão: esta merda deveria toda virar húmus, decompor-se, ou até, usando um termo recentemente “seguro”, regenerar-se. Mas depois do banho lá aquietei. Calma, só te irritaste outra vez com a porcaria do(s) jornalista (s) a dizer que 20 graus centigrados e algumas nuvens é “mau tempo”, depois de ouvires dizer durante os últimos 4 meses que 40 graus corresponde à ideia jornalística de “bom tempo”. Isto faz-me lembrar um tio meu, a quem foi dito por alguém cheio de boas intenções, quando fez 83 anos: “bonita idade”. Parado a olhar e quase paralisado por uma qualquer doença, das que os médicos se recusam a diagnosticar depois de certa idade, lá ganhou ele forças e respondeu «bonita idade, o caralho!! Cheguem aos 83 anos e depois vejam!!!!». Assim estou eu hoje: “mau tempo o caralho!!!”. Mau tempo são os 40 graus que trazem as insónias noturnas, os 40 graus que impossibilitam o prazer das caminhadas, que turvam o olhar e, enfim, até porque está na moda, que talvez sejam bons mas é para as cigarras. Mas para mim não, eu que sou uma merda de uma formiga inquieta e ansiosa que precisa de se mexer para não “encigarrar” de vez, ou até “encirrosar”, porque isto só lá vai com álcool.  Mas isto na formação da ideia do que é bom em meteorologia é igual ao resto. Vivó consenso, bem temperado, porra!!!

Mas vamos lá deixar a pornografia, por enquanto. Ah, desculpem, é que www.meteo.pt sempre me pareceu o site com o nome mais pornográfico de sempre. Mas enfim, sou eu que sou provavelmente tarado por estas coisas de nomes das coisas. Para descontrair, vamos pedalar.
 
Andar de bicicleta é para mim uma espécie de casa dos segredos invertida. Invertida não devido a qualquer preferência sexual – se fosse por isso, também não haveria problema – mas porque quando ando de bicicleta, fico com a ilusão do tempo e do espaço moldado à velocidade do pedalar. Penso que todos percebem do que falo, mas admito que talvez seja só uma sensação própria.
E este tempo degenerado, nas manhãs da rádio, entre o húmus que se forma nestes dias de Outono – Raúl Brandão continua a ser mais actual e bem mais esquecido do que qualquer escritor que pragmatize os expositores da FNAC – vamos lá fazer um estúpido exercício de analogia entre o andar de bicicleta e o desejo constante de dirigir a economia.
 
E vamos fazer isto à inglesa, tentando dar um tom de que irei falar de qualquer coisa séria, perguntando primeiro. Não é verdade que através do crédito, o endividamento público e privado foi excessivo nos últimos anos? Não é verdade que mesmo na cabeça do mais Keynesiano pensador, o que foi feito em Portugal desde a entrada na agora União Europeia nada tem a ver com investimento? Não é verdade que todos ou quase todos nos perguntávamos “onde é que caralho o nosso vizinho vai buscar tanto dinheiro?” Não é verdade que todos, os que tentam pensar, os que andamos de bicicleta, sabíamos que a coisa ia mais cedo ou mais tarde rebentar? A lista de perguntas é quase infinita, e nem vale a pena continuar.~
 
Vale sim, a pena, a verdade. A verdade, a verdade, é que nem se sabe o que é essa merda da verdade. Nem eu. Por isso só pergunto. Mas faço mais. Sugiro uma imagem. Lembram-se quando estavam a apreender a andar de bicicleta? Toda a gente letrada na coisa vos dizia "é só sentar o cú no selim e pedalar. Não é para pensar sobre isso, senão vais cair”. E lá seguíamos o conselho, pondo o veículo em movimento. E já estava. O vento, a luz, o tempo, o espaço, tudo moldado. Tudo, menos os travões. Sabíamos que não podíamos apertar o travão da frente. Mas também sabíamos que o espaço mental desenhado como seguro estava a terminar. Era necessário travar. Sabíamos aí que a queda estava próxima, nesta primeira vez. Se parássemos cairíamos; se travássemos cairíamos; mais valia seguir, não travar senão no fim. E caíamos.
 
Parece-me, mesmo que a ideia seja idiota, que o momento económico actual é muito parecido com a perda de inocência ciclística. Montamos uma certa bicicleta desenhada para andar a grande velocidade, uma bicicleta grande, difícil de parar. Sabemos que temos de continuar a pedalar senão vamos cair, mas sabemos que temos de travar para não cair no fim do espaço mental desenhado para tal; a questão que se coloca não é saber como continuamos a pedalar infinitamente sem cair; a pergunta que se coloca é se conseguimos cair e voltar a pedalar pouco tempo depois.
 
Convosco não sei, mas face à previsão de mau tempo, eu prefiro pedalar, moldar o espaço e escolher se o meu tempo é realmente assim tão mau. Tenham um bom dia.

sábado, 22 de setembro de 2012

Na primeira e a lutar para não descer, já basta o Sporting

O Filipe Vicente pode eventualmente ter acertado no retrato dos manifestantes de ontem, mas vamos entrar pelos estereótipos adentro: então porque não estender o exercício aos que estavam cercados no palácio de Belém?

Tenho pena que nenhum dos membros do Conselho de Estado tivesse tido os tomates de se dirigir à multidão e escutá-la. Sim, o mais provável era a meio caminho levar com um cocktail molotov nos cornos, mas lá está, estamos de novo a cair no estereótipo. Nem a vasta maioria do povo na manif pretende ir às fuças aos políticos, nem todos os conselheiros são homens, e logo, à partida, não possuem tomates.

Seria um belissímo exercício de cidadania, comparável à moça que abraçou o polícia no sábado passado, se os conselheiros de estado se dignassem a dialogar com o povo presente na manif. Não sairiam dalí nenhumas decisões, nem o país ia mudar, nem o Sporting passaria a jogar melhor. Mas permitiria ultrapassar os estereótipos, o que para primeiro passo, não estaria mal.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Eu próprio já disse isto, algures um dia: vocês é que estavam a dormir.

Como não tenho tempo para explicar, por agora, a não existência de um Parlamento em Portugal, vou iniciar-me numa das mais belas características das pessoas famosas, a saber: 1) transcrever textos que eu próprio já publiquei neste blogue; 2) fazer profecias em que manifestamente se comprovam a minha inteligência, coragem e sagacidade. No início de 2011, era assim.
 
 
Tenho assistido, com particular satisfação, ao derramamento de lágrimas argumentativas por todos aqueles que sempre fundaram no sucesso todo o mecanismo de aferição da verdade, lágrimas banhadas na saudade dos tempos em que a inteligência era o esteio do debate político e a nobreza de valores animava todos os interesses em confronto. Nada que se compare a estes tenebrosos tempos, em que se anunciam protestos forjados na desorientação, na irresponsabilidade, e jovens destrambelhados ganham concursos televisivos por televoto. Com efeito, a vitória dos Homens da Luta como representantes na Eurovisão (um belo conceito a recuperar, uma euro-visão), e uma anunciada manifestação para dia 12, são factos aleatórios que estão a deixar os teóricos da realidade à beira de um ataque de contradições insolúveis, daquelas que costumam motivar camionistas, talhantes e vendedores de fruta a abandonar as fileiras da civilização e a enveredar, ainda que precária e provisoriamente, pelos caminhos apontandos por intelectuais parasitas e jovens universitários decadentes; veredas atribuladas que normalmente costumam conduzir à decapitação de uma qualquer Maria Antonieta que se preste ao virar da história.
 
 
Como devem calcular, eu sou daqueles que se identifica, antes de mais, com as personagens decadentes da literatura russa. Um Laevsky nas mãos de um Tchekov, um Rudin nas mãos de um Turgueniev, ou qualquer alcoólico crónico que odeie irresponsável e parasitamente a organização e os sentimentos nobres que nos fundamentam, que é como quem diz que me estou positivamente lixando para os efeitos do colapso aparente das instituições, mesmo que depois me arrependa e venha aqui chorar copiosamente a perda dos incomparáveis privilégios que me foram concedidos pela revolução democrática de 1974; mesmo que entretanto um segundo Oliveira Salazar (apenas mais gordo e com melhor sotaque inglês), tome as rédeas da República e guie Portugal com a mesma insensatez com que, a fazer fé no que nos conta Ovídio, Faetonte conduziu o carro do sol, e seus corcéis de fogo, até à tragédia final. Ou só agora é que acordaram para as consequências trágicas do pornográfico comportamento da curva de distribuição salarial desta nossa República?


É que já Aristóteles falava nesta merda. Isto porque me parece que estaremos a falhar um ponto, nós, os eruditos, mas também todos os apreciadores de empadão de codornizes (penso aqui no varão de nobre carácter e incomparável argúcia, Miguel Sousa Tavares, mas também no anónimo Maradona, do qual discordo totalmente nesta matéria) a verdade é que tudo sempre está bem com a realidade até a realidade se transformar em Carlos Xistra e sacar dos seus cartões vermelhos. Ou seja, descobrimos agora, via Maradona, que as críticas condensadas de forma canhestra, é certo, mas condensadas, ainda assim, pela geração desorientada, não passam de interesses particulares que gritam mais alto, como se gritar mais alto não fosse o combustível de todas as instituições.Mas os desempregados com licenciatura têm mais poder reivindicativo e mais a ganhar: estágios profissionais para licenciados, bolsas de investigação para trabalhar numa universidade, um posto na Adminstração Pública. Não estão em maior número - só gritam mais.


Isto é tão comovente que chego a pensar em desistir de todos os meus ódios particulares para aderir a uma corrente budista, qualquer uma, desde que encabeçada pela Laurinda Alves. Mas desconhecerá esta pessoa que qualquer direcção social, ou gestão de empresa, se pauta não pelo maior número mas pelo que grita mais alto? Não votamos nós em representantes caracterizados precisamente por serem aqueles que gritam mais alto entre o maior número? Talvez fosse bom explicar que as instituições, desde a regulação oferta/procura dos mercados financeiros, passando pelos sistemas de preços, indo à representação parlamentar e passando pelas academias científicas, são sistemas de gritaria codificados.
 
 
Mesmo quando funcionando no ponto de eficiência máxima, nunca se trata da decisão do maior número mas dos que gritam mais alto. Até a eleição de sua excelência o Presidente da República não foi produzida pelo maior número mas pelos que gritaram mais alto nas urnas (o maior número não vota). Por outro lado, acresce à confusão geral que na falta de um contrato social intra-uterino, todos fomos postos num sistema sem que nos fosse pedida a nossa concordância, pelo que todos os cidadãos da república podem passar a defender uma revisão das instituições, até à ditadura, se for preciso, e que, por isso, convém acordar para o problema da distribuição um pouco antes da confusão estar instalada.
 
 
Sempre que, durante estes últimos dez anos, se referiam assimetrias gritantes relacionadas não apenas com dependências do ponto de partida, mas com erros no funcionamento do sistema institucional, os defensores da realidade, incluindo o Maradona, acenavam com a polícia. Ora, quando a polícia cair na rua (porque se acabou o guito para pagar salários), talvez Maradona seja dos primeiros a reivindicar uma ditadura, pelo que ditadura por ditadura, eu prefiro a marretada verbal free style, enquanto é tempo (não vou sequer argumentar perante tentativas de esvaziamento da realidade, como as que identificam a manifestação da tarde como aquecimento para a "noite" numa coisa chamada Clube Ferroviário, porque, uma vez mais, não será preciso responder a Maradona que a realidade é una, tanto para os benefícios indirectos da divisão do trabalho em Adam Smith, como para a dupla e complexa frequência de actividades tão distantes como a pedrada na cabeça da polícia - à tarde - seguida de bebedeira até ao coma - lá pela noitinha).
 
 
Com efeito, quando existem bloqueios nos sistemas de gritaria, e se produzem periferias qualificadas com poder de gritaria, não há outra coisa a fazer; os espaços institucionalizados da gritaria começam a sofrer a concorrência de outras formas de gritaria, até que se produza novo equilíbrio geral, e mesmo esse novo equilíbrio traz já dentro das suas ínfimas e múltiplas conexões novas sementes de desiquilíbrio; o que é o mesmo que dizer que vivemos em gritaria constante, numa dependência frágil, apenas se verificando o singelo facto de que nem sempre aqueles que gritam mais alto, possuem os altifalantes do sistema. O momento em que os que gritam mais alto estão fora do enquadramento institucional - e querem roubar os altifalantes - tem sido denominado revolução (mas também pode ser golpe de estado, revolta, ataque terrorista, etc) e a sua aceitação como realidade depende de múltiplos e complexos factores em que o número (ao contrário do que pensam os Pachecos Pereiras desta vida) é apenas uma das variáveis. Simplificando: para todos aqueles que sempre confiaram no número como fundamento da autoridade, avizinham-se tempos de grande angústia, pois a gritaria poderá vir a tomar conta disto, em mais um belo momento de metamorfose do diálogo (como se o diálogo não fosse sempre uma forma dissimulada de gritaria) com espaço para a criação, a originalidade e também a parvoíce, que graças a Deus, não é monopólio dos poderosos. Resta dizer que toda a minha obra aponta para a importância de dignificar, se for preciso pelo medo e pela pedrada, a multidão de indivíduos, criando nos futuros decisores uma proibição moral em torno de possíveis agressões a essa entidade abstracta, o «bem comum».
 
 
Tenho ouvido repetir que nada se resolve na rua. Lamentavelmente, tenho o dever de informar que tudo se tem resolvido na rua. Desde 1645 até 1776. Talvez não seja por acaso que os países africanos não têm manifestações massivas e que a Europa dos séculos XVII e XVIII, onde se forjaram todas as ideias que nos assistem até hoje, tinha como passatempo decapitar reis. Veremos se a ocasião será ou não aproveitada. Em todo o caso, meus caros amigos, é pegar no megafone, cerrar os dentes, e sentir o prazer de estar vivo, porque, para o mal e para o bem, nada dura para sempre.

Quando nada o fazia prever, começamos a ter comentários que comprovam a nossa gloriosa chegada à primeira divisão da blogosfera, ainda que a lutar para não descer.


Princesa Letizia disse...
 
«Eu só leio o que sai na Hola.»
 
20 de Setembro de 2012 20:18

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Agora é que ela está a bater

Eu tinha um texto longo, e lindo, sobretudo lindo, todo preparado sobre a crise, a TSU, e a estranha correlação positiva entre os resultados do Sporting e do Real.

Mas hoje fiquei a saber de mais um amigo que levou com a crise em cima. Não estou a falar de ter perdido o emprego, embora tenha sido isso que aconteceu. Sem emprego, e com alternativas que nem sequer pagam a sandocha do almoço, instalou-se o desespero. E uma raiva crescente contra tudo e todos, incluíndo ele próprio.

Infelizmente, não é o primeiro no meu círculo de amigos. Há já algum tempo que venho a assistir a este drama, pessoas que de um momento para o outro se vêem sem nada. Trabalho, esperança, vida. Passado pouco tempo, entra o desespero e relações pessoais que acreditávamos estarem sólidas esboroam-se, tal qual arribas algarvias.

Mais do que a falta de emprego, estou preocupado com a falta de dignidade que vou sentindo e vendo. Na altura em que a rede de relações pessoais é mais necessária, aquilo em que nós, tugas, supostamente somos bons, só vejo cada um pelo seu prato de lentilhas.

É altura dos cínicos, como eu, confortavelmente instalados na sua concha, como eu, irem à luta pelos outros. Como e onde, não sei. Ainda.

Que bom saber que não estamos sozinhos no mundo!

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Amanhã explicarei porque não temos um Parlamento. Bons sonhos a todas as pessoas que gostam de ler.

Por amável sugestão, deixada na caixa de comentários do post anterior, assistimos a um grande momento de animação televisiva que queremos partilhar com os excelentíssimos senhores cidadãos da República (risos). Claro que seria necessário explicar ao Paulo Morais que a razão pela qual «ninguém» faz nada em relação à corrupção, e que explica eloquentemente porque é que metade das pessoas não estão presas - como o próprio sugere, supreendentemente - se deve ao facto da outra metade das pessoas existentes neste nosso ditoso e amado território - conjunto de pessoas que o Paulo Morais não refere diretamente como responsáveis pelo problema -, ou é familiar dos ladrões, ou é empregada dos bandidos, ou prima dos gatunos, ou sócia dos delinquentes, ou cliente dos mafiosos, ou beneficia de alguma forma desta moscambilha política chamada terceira, ou quarta, ou quinta, já não me lembro, República Constitucional - quanto mais não seja pelo seu próprio olímpico desinteresse. Eu já sugeri chamarmos como chefe de uma missão externa, Sua Magestade, a Guilhotina, a fim de corrigirmos rapidamente o défice de responsabilidade social que tem sido manifestado pelo conjunto das pessoas que abraça a carreira política. Mais não posso fazer. Ou melhor, poder posso, mas tal como a vocês, não me apetece. Para fazer bem uma revolução, o revolucionário deve preocupar-se mesmo com a revolução, razão pela qual as pessoas em Portugal fazem revoluções mas só até se ouvir o primeiro tiro, altura em que todos apelam à calma e se chama um General qualquer para conduzir ordeiramente a confusão criada.

 
É que o problema reside no facto de a Democracia ser um sistema tão perfeitamente perfeito que não permite às pessoas sofrerem a casualidade da regeneração participativa sem elas próprias levantarem o cu da sala e correrem o risco sempre implícito em qualquer confronto político. Sem cidadãos não há Democracia, nem com 30 000 Paulos Morais a policiarem cada beco do bairro. Em que hipermercado poderemos nós comprar um carregamento de cidadãos? Aposto que a esta, o Paulo Morais não sabe responder, mas eu sei. Na escola , que já era congenitamente má e que agora estamos a foder a torto e a direito. Nas públicas, reina o Mário Nogueira e nas privadas, Nossa Senhora de Fátima: entre um e outro, venha o diabo e escolha, que eu não gosto nem de pessoas que falam muito alto, nem de pessoas que levitam sobre as árvores.

Se me perguntam se eu guilhotinava o Dr. Paulo Portas por causa daquela situação estranha dos Submarinos e dos sobreiros em Benavente? Sim, guilhotinava. Se me perguntam se eu guilhotinava o Dr. José Pacheco Pereira pelas suas inventivas contra a biliosa inveja e violenta boçalidade das pessoas que vão para as redes sociais - impunemente, olé - verter insultos e ameaças aos políticos? Não, não guilhotinava, porque faz sempre falta um intelectual maricas para dialogar com os radicais de esquerda quando isto aquecer.  Mas eu não sou uma pessoa violenta, e por isso vou ler um livro.
 
 
 

Papá, quero uma revolução! Mas uma em que as pessoas se não aleijem.

Desgraçadamente, os portugueses parecem não gostar de regimes democráticos e desperdiçaram a oportunidade de ouro que lhes foi dada com o PREC, construindo uma vida acima das suas possibilidades, um conceito verdadeiramente obscuro, inventado pela Universidade de Verão do PSD quando o auditório se viu na impossibilidade de concluir um exercício de Matemática do 6º ano. Se eu vivo uma vida que me é possível viver, de que forma se afere que essa vida se encontra acima das minhas possibilidades? Não me digam que é tendo como referência as férias da Cristina Ferreira em Saint-Tropez? Quem não cometeria a impossibilidade de efetuar uma mamada ao Manuel Luís Goucha para ir com a Cristina Ferreira - desde que de boca amordaçada - a Saint Tropez?


Segundo a versão daquela associação folclórica constituída pelo António Barreto (o avô Pingo Doce), o Rui Ramos (um perigoso fascista mascarado de gentleman), o Vasco Pulido Valente (um cónego de Braga mumificado em marreta), a Maria Pataroca Mónica (a avó catedrática com Alzheimer), a Fátima Bonifácio (o travesti fumador), e o João Carlos Espada (o merceeiro que caiu no caldeirão das sociedades secretas do Harry Potter) os portugueses não tinham possibilidade de irem a Porto-Galinhas (e foram), não tinham condições para ir à Riviera Mexicana (e foram), não tinham guito para ir à Jamaica (e caramba, foram mesmo). Filhos das puta dos portugueses. Não gostam de Londres.


Além disso, puseram-se a comprar camisas lavadas, casas de férias no Alentejo (quem não tem uma?) arranjaram os dentes, compraram carros alemães, frequentaram churrascos com aventais importados, aprenderam a escovar a boca depois das refeições, começaram a nascer vivos, em vez de nascer mortos e colocados em cestos ao lado das batatas que estavam a ser retiradas da terra pelo resto da família, começaram a ir à escola em vez de frequentar só a catequese, enfim, coisas que todos sabemos serem um luxo completamente dispensável na Europa do sul, quando toda a gente sabe que devíamos estar todos a trabalhar como criadas de servir, como sempre fizemos, para a família Pulido Valente e as outras dez famílias que mandavam nisto prosperarem em paz. Eu tenho uma outra narrativa. Escusam de procurar os culpados - uma velha mania católica. A verdade é que não tivemos uma revolução e agora é tarde para fazer uma. Não vale a pena penalizar as pessoas, simplesmente não aconteceu connosco. É como aquele momento em que sabemos abruptamente que a gaja mais gira e inteligente da turma acabou de beijar o gajo da mota e blusão de marca, quando nós estamos vestidos com uns calçõs confeccionados pela nossa pobre mãe, a partir de um tecido comprado na Retrosaria do bairro e que tem estampado um colorido padrão de veleiros, brancos e azuis. É que nem vale a pena chorar, estamos absolutamente proibidos de verter lágrimas enquanto envergarmos calções confeccionados artesanalmente.


É verdade que isto foi inteiramente imerecido. A Inglaterra teve Shakespeare e uma revolução pouco tempo depois (será coincidência?). Nós tivemos o chato do Gil Vicente e do Camões e ainda levamos com um regime monárquico de direito divino pelo cu acima durante mais trezentos anos. Uma revolução, eis o problema. Caramba, todos os países desenvolvidos a tiveram, e se tivéssemos que pagar juros de mora sobre o incumprimento da degola da aristrocacia portuguesa, não existiria dinheiro suficiente no planeta para nos salvar da bancarrota. Querem iniciar um peditório? Tenho aqui a moeda do momento: 1 euro. É um começo.


Por isso, quem quiser agremiar-se para montar uma guilhotina de plástico no Terreiro do Paço e testá-la no Primeiro-Ministro e Ministro de Estado e das Finanças (só até os gajos se mijarem todos), pode contar com o meu apoio e o meu talento em trabalhos necessários e pouco edificantes; agora não me venham é com o sofrimento das pessoas, porque foi exactamente o sofrimento das pessoas (onde há pessoas, há sofrimento) que nos trouxe até ao lugar onde nos encontramos.


O problema económico português, para sintetizar, e não entrar agora aqui na velha questão da facilidade de acesso a meios de pagamento, isto é, «ouro do Brasil» (porque me dá vómitos e dores de cabeça, um dia explico porquê) é apenas o resultado de um fenómeno a que um neo-clássico chamaria as externalidades do mercado de legislação pública. Nesse mercado, é determinante que os custos de transferir direitos de propriedade sejam baixos, a fim de que os ajustamentos sigam o caminho correcto (dos mais incompetentes e ricos para os mais pobres e competitivos), e para o caminho ser correcto deve estar correctamente assinalado por bandeirinhas cujo prémio é proporcional ao retorno geral para a população dessa nova estrutura de direitos de propriedade que se propõe, implicitamente, numa dada estrutura fiscal, e para que o retorno seja geral - atenção que agora vai ser dita uma coisa importante - é preciso ter instrumentos que possam medir esse retorno, isto é... isto é..., isto é...., precisamos de comprar um Parlamento. Voilá. Nós não temos um Parlamento, temos um conjunto de pessoas reunidas emiciclicamente que comentam a Gabriela, quando estreia pela primeira vez, e que comentam a estreia da Gabriela, quando estreia pela segunda vez. Numa próxima oportunidade apresentarei aqui as razões que explicam a ausência de um Parlamento, mas posso adiantar desde já que a Igreja e o Senhor Professor Doutor António de Oliveira Salazar (lamento a falta de originalidade) terão aqui um papel fundamental.


Melville (coitado, no meio disto tudo, esqueci-me dele) escreveu que os países se dividem entre aqueles que se dedicam a inventar um futuro e os que se consomem (até à destruição, acrescento eu) na tentativa de responder a um passado. Não é preciso dizer-vos em que lugar nos situamos, pois não?


Como diz o ngonçalves, esta merda vai acabar mal, mas temos a consolação de que ao menos, como já aqui disse uma vez, e apesar de termos saltado a etapa fundamental da guilhotina (achamos desagradáveis quaisquer derramamentos de sangue que não incluam espanhóis) caramba, fizemos coisas bonitas.


 

A internet, esse universo paralelo ou como estragar um momento


Ó Adriana ,tu querias que eu te enfiasse o meu "bastão",mas agora estou de serviço...

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Querem falar de rumo, falem com o Sá Pinto

"Até as reticências tem mais pontos que o Sporting", encontrado há pouco na caixa de comentários de um site qualquer.

Eu não quero a minha vida de volta!!!!

Confesso que não fui à manifestação “Que se lixe a troika. Queremos a nossa vida de volta”. Fiquei em casa, fui às compras, bebi umas minis num café da minha rua, mandei uns sms a comentar o pouco da manifestação que vi na tv e fui correr ao Estádio Universitário.
Na verdade, eu não quero a minha vida de volta. E não percebo como muitos dos manifestantes entrevistados possam querer a sua vida de volta. Mas exercito uma espécie de prós-e-contras, sem berros e jornalistas que subiram na horizontal na cama de qualquer diretor da região norte de um serviço público apimbalhado que agora, perdido o sufixo no nome, grita a sua razão com a (in)tenção de que o seu barulho funda em consenso a opinião de outros. De facto, democratizar em Portugal não é mais do que um esforço contínuo de falar a uma só voz, um pulsar permanente para cristianizar o espaço público. Mas voltarei noutro post a esta ideia. Centremos a atenção no que é importante: no uníssono da manifestação, quem quer a sua vida de volta? O que perdeu o professor que gesticula? Uma ideia de ensino democratizante, na qual a escola servia de buril a desigualdades plasmáticas, contribuindo os professores decisivamente para que se extinga a reprodução de hierarquias bolorentas mas vivas, como qualquer queijo mal cheiroso? Era assim o ensino há um ano?
Não, eu não quero a minha vida de volta. Mas a empregada pública que fala, quer. Mas o que será que quer? Será a capacidade para reproduzir nos seus filhos a razão consanguínea do seu sucesso profissional? Quer as suas férias nas Caraíbas? Penso que não é razão para tanto desconforto. A troika certamente não interfere nos concursos públicos e na sua tradicional função: colocar em bons empregos alguém já conhecido do diretor que entrou na fachada de contratado até que um concurso fosse ficticiamente realizado. Calma, as cunhas não vão acabar.
Mas nesta altura a manifestação congestionou. Não deixa de ser curioso que a própria manifestação tenha produzido a melhor metáfora de si mesma. Um grupo de pessoas que não quer ir por um lado, mas que ficou sem saber onde ir, nem sequer conseguiu chegar ao local pretendido. E que mesmo chegando, nada tinha para dizer ou fazer, para além de um desfile de insultos ao bode expiatório habitual – a sério? Mas ainda ninguém percebeu que por muito estimulante que seja derrubar governos, não é fácil ter a vida de volta, absorvendo o espírito da manifestação? -  Talvez porque, metáfora das metáforas, a Praça de Espanha não seja verdadeiramente uma praça; talvez porque nos últimos 200 anos, pelo menos, a (des)urbanização do país não tenha pensado nesse antigo símbolo de espaço público. Talvez porque nem haja espaço público em Portugal, e na nova praça, o Facebook, o consenso surja em forma de “shares” e “likes” e muito pouco pensamento próprio. Isso compromete, e nós gostamos mais disto como se de uma casa de segredos se tratasse!!!  O melhor, da próxima vez, é marcar a manifestação para um local que todos reconheçamos como espaço público, um qualquer espaço comercial. Para o El Corte Inglês. Porque não?

Mas não é de espaço público que se trata, trata-se de ter a vida de volta. Que se foda isto!! Pensei. E fui às compras, mas na mercearia. É que isto de ajuntamentos e de consensos faz-me fugir de multidões. Lembram-me sempre Fátima, a praia de Armação de Pera, os corredores do Colombo ou a audiência da Casa dos Segredos. Tudo é consenso, mas pouco é espaço público. Do dia, ficaram as minis.

Sic transit gloria mundi

A semana europeia da mobilidade começou hoje. Num esforço para educar a população a utilizar os transportes públicos, a câmara faz-me andar mais 10 minutos para apanhar o autocarro.
 

domingo, 16 de setembro de 2012

Rumo?

A manifestação deste Sábado permitiu à malta mostrar, novamente, o seu desagrado com o governo, a troika e o mundo em geral, excepto o Sá Pinto que, por enquanto, está a salvo.

A manifestação não foi capaz de transformar o desassossego em algo útil e bom, apenas fermentou mais o mal-estar que se vai sentindo. Como todas as manifestações, diga-se; ou a malta já esqueceu a manif dos "deolindas" aqui há um par de anos?

Das entrevistas que vi, o povo sente que o rumo está errado, mas confessa-se baralhado perante a pergunta sobre qual será o rumo correcto. E nada mais angustiante do que sabermos estar a ser levados para onde não conseguimos vislumbrar. Isto via-se, e sentia-se, nas caras de quem andou na manif deste Sábado.  Mais cedo ou mais tarde, a brincadeira acaba nos moldes do anterior regime.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Marilyn ou Joyce: a literatura como máquina de reprodução na era dos computadores - um comentário a Tolan

 
Em qualquer caso, quando somos mais cultos temos de nos esforçar para encontrar o divertido e a quantidade de coisas aborrecidas aumenta exponencialmente, o que também é uma maldição.



Tolan, Quarta-feira, 12 de Setembro de 2012


Porque me estou a cagar para a literatura, preocupando-me apenas com os livros. 
José Mário Bronco, 12 de Setembro de 2012 23:43

 
Finalmente, temos aqui um problema, sobretudo se pensarmos que tenho quinze minutos para sair de casa, e devo responder a isto, uma vez que as questões de literatura devem ser tratadas com urgência, daí a importância das listas, e mesmo sendo eu beneficiário de muito mais tempo do que tu, para ler e pensar, embora tu ganhes mais e provavelmente tenhas apalpado maior número de mamas – o que é inteiramente justo, diga-se – sempre há imprevistos e dificuldades com que não esperávamos, mesmo para um mente ágil e um corpo bem treinado como o meu.
 Começaria por fazer uma pequena homenagem à geração de bêbados e falhados norte-americanos que invocas, invertendo o argumento das mamas, e recorrendo ao sensacionalismo que foi o emblema de toda uma geração com os mecanismos sensoriais avariados: foi precisamente por não terem apalpados as mamas suficientes – ou por não terem julgado suficientes aquelas que apalparam – que escritores como Kerouac acabaram a viver com a mãe. Antes de nos afundarmos no pântano freudiano, convém dar uma pequena volta pela história da naturalização do desejo.
Julgo que a origem da literatura culta e profundamente educada não deve colocar-se em oposição à procura de mamas, pelo menos de forma radical; penso mesmo que a literatura nasce quando nos fartamos de apalpar umas e passamos – ou julgamos que passamos – a querer apalpar outras, e é então necessário colorir a mudança com uma boa narrativa emocional, para bater em retirada com o mínimo de segurança; ou quando temos que justificar a longa permanência perto de mamas amadas e queridas, ou quando não tivemos o privilégio de estar perto de mamas, ou pelo menos de algo parecido, e é necessário uma prodigiosa pirueta de autoilusão para nos despedirmos do mundo em paz. No meu caso, posso dizer em confissão que enquanto fui virgem pouco li, e foi quando desabou sobre mim o misterioso mundo do amor que a literatura surgiu em toda a sua plenitude terapêutica.
Entendamo-nos: a qualificação da cultura como maldição é quase tão antiga como a história e, longe de ser uma maldição, é apenas o resultado de um escritor poderoso, eruditíssimo e incrivelmente sedutor, chamado Jean-Jacques Rosseau. Preferiria que me caíssem todos os dentes da boca antes de pronunciar uma palavra que fosse contra esse meu mais querido mestre, mas a ideia da pulsão adolescente, como critério de avaliação da cultura, é um caminho perigoso que deu oportunidade a um sem número de imbecis, como Nuno Crato e Maria Filomena Mónica, para treslerem o problema da libertação da vida. A pulsão instintiva, como qualquer amador cientista sabe, é dos temas mais difíceis da psicologia do desenvolvimento, e apenas o poder retórico de Rosseau, um homem dilacerado pela incompreensão, foi capaz de transformar um estado adaptativo particular do desenvolvimento num sentido global para toda as etapas da vida, o que tem mantido o Ocidente debaixo de uma chuva de problemas.
 
As pulsões servem propósitos de cultura, e a cultura condiciona infinitamente o leque de pulsões e o seu significado. Até em William Wordsworth, muito bem lido por Elia Kazan, está já a incrível solução de que a vitória sobre a morte reside na recusa do envelhecimento. Mas essa psicologia do desenvolvimento, tão maldita como qualquer outra, nada diz sobre o grandioso artifício literário. É certo que tanto Kerouac como Salinger, como sobretudo Capote, sabiam que a questão se joga neste sagrado confronto, onde começa o terror e se acaba toda a esperança, para utilizar uma expressão de Dante: «não foi para morrer que nós nascemos», disse também o único crítico literário que Portugal produziu depois de Manuel de Faria e Sousa, no século XVII, e é nesta luta contra a morte que devemos procurar o critério de análise literária que pode enfim clarificar o sentido do que temos andado aqui a fazer, ganhando, e não perdendo tempo.
O triunfo da adolescência, e a vergonha de uma cultura literária densa, que nos caracteriza como civilização, tem qualquer coisa de profundamente imaturo: tal como o adolescente que sua em pesadelo com a hipótese dos pais e avós aparecerem na festa de liceu, vestidos com fazendas e xadrez, carregando a merenda, o vinho, o queijo e o pão, também nós suamos perante os antepassados que parecem enviados de um  mundo rural, lento e atrasado; mas cuidado, porque uma velhinha arisca pode ter mais a ensinar-nos do que uma adolescente apolínea de dentes brancos e pernas ágeis – Sidharta que o diga -  e os americanos, totalmente forjados na revolução setecentista do consumo do chá, do tabaco e do açucar - caiem que nem patinhos nas emoções mais fáceis, e julgando-se portadores do elixir da juventude, coitados, já vão a caminho da mumificação, julgando-se coroados para sempre pelas doces mãos das raparigas com grinaldas de flores: se queremos ser surpreendidos, abramos a porta ao inesperado, e recebamos os familiares da província – o passado – com um sorriso franco. Não nos envergonhemos dos que nos precederam só porque queremos começar de novo, só porque queremos esquecer depressa, talvez para recuperar a emoção de não saber o que vem a seguir: porque nós já sabemos o que vem a seguir, já que isso nos foi dito pelo menos um milhão de vezes, e das mais variadas formas: nascemos, debatemo-nos e morremos, e é só. Há uma tradição que vê a literatura como a arte de ensinar a morrer; eu vejo-a como a arte de recusar a morte; e atenção, porque vamos agora pisar terrenos perigosos. É favor colocar o capacete.
 A tecnologia, e à cabeça de toda a tecnologia a linguagem, constitui a extraordinária invenção que encontrámos para dominar o espaço e o tempo (os dois grandes guardiães dos portões da morte) e tal como um avião, ou um sistema informático, o mérito de um livro está na sua capacidade de vencer espaço e tempo: não precisamos de mais do que a Matemática do 9º ano para seguir caminho. 
Percebo a tua comparação entre os russos oitocentistas e os norte-americanos novecentistas mas essa analogia foi ferida por um desconhecimento parcial da história literária de cada uma das obras produzidas nesses contextos. A metáfora das guitarras elétricas foi bem esgalhada – é isso a literatura – mas relembro que não há grande artista sem domínio do solfejo, o que pode é existir um artista que não tenha frequentado a escola, o que é uma outra coisa e bem diferente. Gogol (veja-se como no Retrato põe no olhar de uma personagem a crítica da arte da criança autodidacta, impotente e decrépita, apreciada por «máquinas primitivas e não por homens») conhecia profundamente a história e a cultura da Europa, e Tchekov era um médico com uma erudição notável e Tolstoi pouco mais fez na vida do que ler filosofia; ao contrário dos norte-americanos que largaram os estudos confiando nas virtudes adolescentes da criatividade. Bem pelo contrário, os russos estavam mergulhados de corpo inteiro em Shakespeare, em Racine, nas literaturas clássicas, em problemas culturais profundos. Basta medirmos o cuidado com que as metáforas são trabalhadas nos russos e compararmos com aquela tentativa infeliz e primária de reproduzir o dialeto, os defeitos da linguagem que carateriza o folclore literário norte-americano depois de Melville.
 
Todos os grandes autores perceberam que as metáforas são um mecanismo para injetar nos textos o seu próprio cérebro, dotando o discurso de dispositivos contra o envelhecimento; a marca de roupa, de cigarros ou de carros, os nomes de políticos e artistas que ninguém conhecerá, as sensações conjunturais, os nomes de ruas onde o leitor nunca colocará o pé, tudo isso não passa de peso que nos puxa para o esquecimento, ao contrário do que julgam os escritores que se deixam capturar na insidiosa armadilha do sucesso passageiro – que é o mais belo e aterrador canto de sereia que produz o mundo na seu rodopiar infernal. O acontecimento, num futuro relativamente próximo, é talvez irrelevante, e ficará só o equilíbrio tenso dos opostos das mais belas metáforas. Mesmo Shakespeare, a quem agradavam os desfechos inesperados, respigou as suas histórias – relativamente simples na estrutura – nos livros mais populares do seu tempo. Aquele público de prostitutas e comerciantes sabia o desfecho de cor, mas ficava hipnotizado com a suspensão do tempo e do espaço que a linguagem produz.
 
A religião usurpou durante muito tempo o monopólio da imortalidade, transformando esse endurecimento perante a morte, que era o estoicismo, numa lamúria de seminaristas adolescentes problemáticos. S. Agostinho, que resfolegou entre mamas, e ancas e pernas, sabia que a única forma de convencer os humanos a embarcar na imortalidade, recusando os prazeres do corpo, era transformando o estoicismo numa religião de padres alienados por uma promessa esconsa de liberdade hologramática. Recusando os padres, os beat-niks mergulharam de olhos fechados no vício e, portanto, no precipício. Só há uma maneira de voltar atrás, sem recuperar a água suja da religião: a grande literatura, e depois dela a linguagem tecnológica, têm sido a única forma consistente de derrotar o medo e a religião, permitindo que construamos com as nossas próprias mãos a imortalidade. Quando Ovídio parecia condenado a desaparecer, 1500 anos depois, explode subitamente na pena de Shakespeare e revive, numa rede infinita de conexões. Estamos na pré-história de um novo e glorioso mundo, onde a tecnologia já esteve mais de longe da possibilidade de reproduzir o cérebro humano.
Deus sabe o que eu tenho sofrido – e feito sofrer – às mãos das mulheres, e a última coisa que gostaria de fazer era deixar ligada a minha pobre existência a uma desvalorização do desejo. Mas a reprodução sexual que tem marcado muito do que tem sido a vida da nossa mente, não é o único, nem talvez o mais eficiente mecanismo reprodutor que existe na natureza, como qualquer biólogo amador sabe. O sexo – e a procura de mamas – é uma atividade encantadora e prodigiosa, mas ler não o é menos, e tenho dúvidas sobre qual caracterize melhor a humanidade. Os Historiadores adoram politizar mas não vêm um palmo à frente do nariz: se a pílula e o preservativo libertaram a mulher, libertaram ainda mais o homem que viu reduzidos os filhos – como potenciais inimigos na partilha da atenção e da propriedade, como bem viu o em tantas outras coisas visionário, Leonardo da Vinci. Ao desligar o sexo da reprodução, a humanidade transformou o intercurso sexual, para utilizar o teu anglicismo, num instrumento de cultura que agora terá que lutar na arena com outros instrumentos de cultura, o que trará certamente algum desgaste do sexo como mecanismo instintivo no nosso equipamento reprodutor. Mas mantenham a calma, estas coisas demoram pelo menos muitos milhares de anos. Além do mais, não há problema, pois já temos uma arma: as grandes linguagens e a sua virtuosa utilização, e por isso vamos continuar a reproduzirmo-nos e a ter prazer de muitas outras formas.
Gostaria de terminar com uma invocação da maldição (julgo ter demonstrado que não é uma maldição) voraz do erudito radical. A Ilíada, talvez o mais belo livro alguma vez escrito, baseia-se numa escultura voraz da inteligência emocional, numa incrivelmente bela homenagem à nossa técnica linguística, e sobre esse pano de fundo – que é uma longa tapeçaria de associações que trazem vivos até nós, os olhos cansados e cegos de Homero - evolui um drama militar: apesar de cercados, os troianos merecem que se conte a sua história, e mesmo perante a vitória dos Gregos, Homero sabe que há qualquer coisa de grandioso na queda das muralhas de Troia. No escudo de Aquiles, que contribuirá para a morte de Heitor no canto XXII, está sintetizada a poesia e a tecnologia, todos os elementos da terra, o mar de seda e pétalas azuis, o céu pontilhado de fogo, a alegria dos casamentos entre noivos, e o antagonismo das comunidades humanas, as muralhas cercadas de uma cidade, e toda a desumanidade dos pastores, de flauta e tambor, chacinados pelos soldados a caminho do combate. É que Homero sabia que, independentemente da justiça das suas ações, todos ganhariam vida, e para sempre, por meio da sua mente, transportados por metáforas, pelo ritmo dos sucessos, pela elegância emocional das ações, e igualados nessa magnífica tapeçaria, Homero via o seu pobre mundo orgânico desaparecer com a sua dignificação dos vencidos e a humilhação dos poderosos, a destruição daquele que terá sido o mecanismo típico da evolução da nossa espécie. Homero deve ter visto, na escuridão da seu cérebro precocemente anoitecido, as cidades a arder em revoltas, os escravos em marcha, os escrivães e secretários cansados de humilhações a congeminar planos de revolta e mecanismos económicos, o disparar da vida dos mais fracos em todas as direções do planeta, o trabalhar dessa máquina que nos libertará do espaço e do tempo. Tal como diz Homero, «para que no futuro/ sejamos tema de canto para os homens ainda por nascer».
Mas não ainda, pois passou uma hora e agora, desgraçadamente, terei que correr para o comboio.

 

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Avô

Hoje, numa cama de um hospital de subúrbio, fechou os olhos.

Tchekov talvez seja melhor que Gogol, estou com dúvidas

Enquanto trincava uma finíssima fatia de queijo da ilha, meticulosamente cortada por um faca de serrilha e colocada lentamente entre duas fatias esquálidas de pão alentejano, eis que o emi-ciclo da República surgiu no ecrã mágico em todo o seu explendor, colorido pela franja esparsa do senhor parolo Ministro de Estado (avé) e das Finanças, Vítor Oliveira Salazar Gaspar. Portugal está agarrada pelos colhões, e de joelhos, o que talvez seja uma impossibilidade anatómica, mas não vou entrar nestes pormenores sórdidos da sociologia política.

Uma pessoa está diante do ecrã e no momento mais fácil para a oposição, em toda a história dos debates parlamentares, em mais de 2500 anos de história de reis ingleses e franceses decapitados, primeiros-ministros das Provínicias Unidas esfolados, e reis portugueses tardiamente baleados, o que sucede? Fazenda, Apolónia e Galamba puxam da sua erudição republicana, do seu vitalizante conhecimento da língua portuguesa, do seu incomparável faro estratégico, da sua gigantesca capacidade manipulatória do confronto político, da sua inabalável convicção nas causas, e disparam o original, o vertiginoso, o arrasador argumento do sofrimentos das pessoas.
Era preciso explicar que as pessoas são justamente o problema, ou não tivessem as pessoas eleito Pedro Passos Dias a Foder Portugal Coelho, com toda a tranquilidade do universo, tanto as pessoas que votaram nele, como as pessoas que nele não votaram por estarem na praia, no Continente, no A Tua Cara Não Me é Estranha, na cona da mãe delas ou flutuando numa jangada perigosamente sobre o pântano da pobreza e do desemprego, o que para efeitos do debate parlamentar é a mesma coisa, ou julgarão Fazenda, Apolónia e Galamba que as pessoas que não vão votar, e as que se afundam no Desemprego, às vezes são as mesmas, têm tempo para assistir curiosas e expectantes aos debates parlamentares? Pois se ardem em sofrimento desesperadas ou se trabalham de sol a sol como poderão assistir ao elogio épico da sua tragédia? Ou quererão Fazenda, Galamba, e Apolónia aparecer cinco segundos no jornal da noite a derramar lágrimas sobre o sofrimento? Há aqui qualquer coisa de sacerdotal, qualquer coisa típica dos grandes hípócritas. Embora os pecados da direita sejam mais graves, eu diria, com Marx e Jesus Cristo, que os hipócritas são especialmente exasperantes.


Todo o operariado, os trabalhadores, os pretos, os ciganos, os explorados que têm sido enrabados pela República Portuguesa e o seu Parlamento em toda a nossa longa história, o que espera não são lágrimas pelo seu sofrimento, pois conhecem bem esse sabor, o que espera todo o fraco e oprimido é justamente a derrota política do ignorante do Vítor Gaspar, mas desta vez com argumentos.
O ponto central da discussão sitou-se no conceito de expansão da procura. Segundo a besta Vítor Gaspar, 1,65 cm, 70 kg, a expansão articial (primeiro conceito a reter) da procura, hipertrofiou os sectores de serviços e de bens transaccionáveis nos últimos 20 anos. A economia foi distorcida (segundo conceito a reter) por rendas e margens de monopólio o que gerou um crescimento económico medíocre (o mais medíocre depois da 2ª Guerra Mundial, segundo (Vítr Salazar Gaspar) e apenas foi sustentado pelo sobre-endividamento. Ora a besta Galamba, 1,80 cm, 80 kg, apenas conseguiu indignar-se e apelidar a interpretação económica de Gaspar como fanática - um libelo que os fanáticos costumam receber como um elogio - integrando-o como membro de uma suposta escola, a neo-liberal. Caralhos me fodam, Galamba: o que é que eu disse aqui? Não vos proibi expressamente de utilizar esse conceito sem fazer o trabalho de casa? Ora, a interpretação económica de Gaspar não é fanática, é ignorante.

A rendas (free-rent) e os preços de monopólio de que Gaspar fala são, em primeiríssimo lugar, fornecidas pelo sistema político e qualquer economista neo-liberal sabujo defende que o sistema político é um instrumento que não deve atrofiar o funcionamento natural (ora aqui está) da sociedade. Gaspar, para que estás a mexer nesta merda? Deixa estar como está, foda-se, não venhas distorcer a evolução natural da curva da procura e reduz essa merda do lado da despesa, enviando para o olho da rua metade do teu gabinete, mais metade do gabinete de cada um dos ministérios, mais toda a despesa do Estado em Hospitais e Escolas Privadas, em Prisões cheias de pilha-galinhas que não fazem mal a uma mosca, mais os generais do exército e a corja de juízes que mama na teta da República. O Gary Becker não recomendou que se pagasse para não se cometerem crimes, que fica mais barato? Tem calma que eu sozinho (isto poderia dizer o Galamba) faço as contas que são necessárias, munido de lápis e caderno de capa preta, daqueles que o David Carreira diz na rádio que utilizou para escrever as suas canções e que são, diz ele, inspiradores.


Pouco depois, aparece o António Sala na televisão e diz: «cada vez que posso, compro ouro em moedas ou em barra». Belisquei-me. Foda-se, caralho, que é esta merda? Será o apocalipse? Onde estão os quatro cavaleiros e as suas espadas de fogo? Mas António Sala apressou-se a explicar: proteja-se do caos financeiro e compre ouro. Fui a correr para a cozinha e abri um garrafa de vinho do Porto.