Em qualquer caso, quando somos mais cultos temos de nos esforçar para encontrar o divertido e a quantidade de coisas aborrecidas aumenta exponencialmente, o que também é uma maldição.
Tolan, Quarta-feira, 12 de Setembro de 2012
Porque me estou a cagar para a literatura, preocupando-me apenas com os livros.
José Mário Bronco, 12 de Setembro de 2012 23:43
Finalmente, temos aqui um problema, sobretudo se pensarmos
que tenho quinze minutos para sair de casa, e devo responder a isto, uma vez
que as questões de literatura devem ser tratadas com urgência, daí a
importância das listas, e mesmo sendo eu beneficiário de muito mais tempo do
que tu, para ler e pensar, embora tu ganhes mais e provavelmente tenhas
apalpado maior número de mamas – o que é inteiramente justo, diga-se – sempre há
imprevistos e dificuldades com que não esperávamos, mesmo para um mente ágil e
um corpo bem treinado como o meu.
Julgo que a origem da literatura culta e profundamente
educada não deve colocar-se em oposição à procura de mamas, pelo menos de forma
radical; penso mesmo que a literatura nasce quando nos fartamos de apalpar umas
e passamos – ou julgamos que passamos – a querer apalpar outras, e é então necessário
colorir a mudança com uma boa narrativa emocional, para bater em retirada com o
mínimo de segurança; ou quando temos que justificar a longa permanência perto de mamas
amadas e queridas, ou quando não tivemos o privilégio de estar perto de mamas,
ou pelo menos de algo parecido, e é necessário uma prodigiosa pirueta de autoilusão
para nos despedirmos do mundo em paz. No meu caso, posso dizer em confissão que
enquanto fui virgem pouco li, e foi quando desabou sobre mim o misterioso mundo
do amor que a literatura surgiu em toda a sua plenitude terapêutica.
Entendamo-nos: a qualificação da cultura como maldição é
quase tão antiga como a história e, longe de ser uma maldição, é apenas o
resultado de um escritor poderoso, eruditíssimo e incrivelmente sedutor,
chamado Jean-Jacques Rosseau. Preferiria que me caíssem todos os dentes da boca
antes de pronunciar uma palavra que fosse contra esse meu mais querido mestre, mas
a ideia da pulsão adolescente, como critério de avaliação da cultura, é um
caminho perigoso que deu oportunidade a um sem número de imbecis, como Nuno Crato e Maria
Filomena Mónica, para treslerem o problema da libertação da vida. A pulsão instintiva,
como qualquer amador cientista sabe, é dos temas mais difíceis da psicologia do
desenvolvimento, e apenas o poder retórico de Rosseau, um homem dilacerado pela
incompreensão, foi capaz de transformar um estado adaptativo particular do
desenvolvimento num sentido global para toda as etapas da vida, o que tem mantido o Ocidente
debaixo de uma chuva de problemas.
As pulsões servem propósitos de cultura, e a cultura
condiciona infinitamente o leque de pulsões e o seu significado. Até em William
Wordsworth, muito bem lido por Elia Kazan, está já a incrível solução de que a
vitória sobre a morte reside na recusa do envelhecimento. Mas essa psicologia do
desenvolvimento, tão maldita como qualquer outra, nada diz sobre o grandioso artifício
literário. É certo que tanto Kerouac como Salinger, como sobretudo Capote,
sabiam que a questão se joga neste sagrado confronto, onde começa o terror e se
acaba toda a esperança, para utilizar uma expressão de Dante: «não foi para
morrer que nós nascemos», disse também o único crítico literário que Portugal produziu
depois de Manuel de Faria e Sousa, no século XVII, e é nesta luta contra a
morte que devemos procurar o critério de análise literária que pode enfim
clarificar o sentido do que temos andado aqui a fazer, ganhando, e não perdendo
tempo.
O triunfo da adolescência, e a vergonha de uma cultura literária densa, que nos caracteriza como civilização, tem qualquer coisa de profundamente
imaturo: tal como o adolescente que sua em pesadelo com a hipótese dos pais e
avós aparecerem na festa de liceu, vestidos com fazendas e xadrez, carregando a
merenda, o vinho, o queijo e o pão, também nós suamos perante os antepassados que parecem enviados de um mundo rural, lento e atrasado; mas cuidado, porque uma velhinha arisca
pode ter mais a ensinar-nos do que uma adolescente apolínea de dentes brancos e
pernas ágeis – Sidharta que o diga - e
os americanos, totalmente forjados na revolução setecentista do consumo do chá,
do tabaco e do açucar - caiem que nem patinhos nas emoções mais fáceis, e julgando-se portadores do elixir da juventude, coitados, já vão a caminho da
mumificação, julgando-se coroados para sempre pelas doces mãos das raparigas com
grinaldas de flores: se queremos ser surpreendidos, abramos a porta ao
inesperado, e recebamos os familiares da província – o passado – com um sorriso
franco. Não nos envergonhemos dos que nos precederam só porque queremos começar
de novo, só porque queremos esquecer depressa, talvez para recuperar a emoção
de não saber o que vem a seguir: porque nós já sabemos o que vem a seguir, já que isso
nos foi dito pelo menos um milhão de vezes, e das mais variadas formas: nascemos,
debatemo-nos e morremos, e é só. Há uma tradição que vê a literatura como a arte de
ensinar a morrer; eu vejo-a como a arte de recusar a morte; e atenção, porque
vamos agora pisar terrenos perigosos. É favor colocar o capacete.
A tecnologia, e à
cabeça de toda a tecnologia a linguagem, constitui a extraordinária invenção que
encontrámos para dominar o espaço e o tempo (os dois grandes guardiães dos
portões da morte) e tal como um avião, ou um sistema informático, o mérito de um
livro está na sua capacidade de vencer espaço e tempo: não precisamos de mais
do que a Matemática do 9º ano para seguir caminho.
Percebo a tua comparação entre os russos oitocentistas e os
norte-americanos novecentistas mas essa analogia foi ferida por um
desconhecimento parcial da história literária de cada uma das obras produzidas nesses contextos. A metáfora
das guitarras elétricas foi bem esgalhada – é isso a literatura – mas relembro
que não há grande artista sem domínio do solfejo, o que pode é existir um artista que não tenha frequentado
a escola, o que é uma outra coisa e bem diferente. Gogol (veja-se como no Retrato
põe no olhar de uma personagem a crítica da arte da criança autodidacta, impotente
e decrépita, apreciada por «máquinas primitivas e não por homens») conhecia
profundamente a história e a cultura da Europa, e Tchekov era um médico com uma
erudição notável e Tolstoi pouco mais fez na vida do que ler filosofia; ao
contrário dos norte-americanos que largaram os estudos confiando nas virtudes
adolescentes da criatividade. Bem pelo contrário, os russos estavam mergulhados de corpo inteiro em
Shakespeare, em Racine, nas literaturas clássicas, em problemas culturais
profundos. Basta medirmos o cuidado com que as metáforas são trabalhadas nos
russos e compararmos com aquela tentativa infeliz e primária de reproduzir o dialeto, os
defeitos da linguagem que carateriza o folclore literário norte-americano depois de
Melville.
Todos os grandes autores perceberam que as metáforas são um
mecanismo para injetar nos textos o seu próprio cérebro, dotando o discurso de
dispositivos contra o envelhecimento; a marca de roupa, de cigarros ou de
carros, os nomes de políticos e artistas que ninguém conhecerá, as sensações
conjunturais, os nomes de ruas onde o leitor nunca colocará o pé, tudo isso não
passa de peso que nos puxa para o esquecimento, ao contrário do que julgam os
escritores que se deixam capturar na insidiosa armadilha do sucesso passageiro –
que é o mais belo e aterrador canto de sereia que produz o mundo na seu rodopiar infernal. O
acontecimento, num futuro relativamente próximo, é talvez irrelevante, e ficará
só o equilíbrio tenso dos opostos das mais belas metáforas. Mesmo Shakespeare, a quem agradavam os
desfechos inesperados, respigou as suas histórias – relativamente simples na
estrutura – nos livros mais populares do seu tempo. Aquele público de
prostitutas e comerciantes sabia o desfecho de cor, mas ficava hipnotizado com
a suspensão do tempo e do espaço que a linguagem produz.
A religião usurpou durante muito tempo o monopólio da
imortalidade, transformando esse endurecimento perante a morte, que era o
estoicismo, numa lamúria de seminaristas adolescentes problemáticos. S.
Agostinho, que resfolegou entre mamas, e ancas e pernas, sabia que a única forma
de convencer os humanos a embarcar na imortalidade, recusando os prazeres do
corpo, era transformando o estoicismo numa religião de padres alienados por uma promessa esconsa de liberdade hologramática. Recusando os
padres, os beat-niks mergulharam de olhos fechados no vício e, portanto, no precipício.
Só há uma maneira de voltar atrás, sem recuperar a água suja da religião: a
grande literatura, e depois dela a linguagem tecnológica, têm sido a única
forma consistente de derrotar o medo e a religião, permitindo que construamos
com as nossas próprias mãos a imortalidade. Quando Ovídio parecia condenado a
desaparecer, 1500 anos depois, explode subitamente na pena de Shakespeare e revive, numa rede
infinita de conexões. Estamos na pré-história de um novo e glorioso mundo, onde a
tecnologia já esteve mais de longe da possibilidade de reproduzir o cérebro humano.
Deus sabe o que eu tenho sofrido – e feito sofrer – às mãos
das mulheres, e a última coisa que gostaria de fazer era deixar ligada a minha
pobre existência a uma desvalorização do desejo. Mas a reprodução sexual que
tem marcado muito do que tem sido a vida da nossa mente, não é o único, nem
talvez o mais eficiente mecanismo reprodutor que existe na natureza, como
qualquer biólogo amador sabe. O sexo – e a procura de mamas – é uma atividade
encantadora e prodigiosa, mas ler não o é menos, e tenho dúvidas sobre qual
caracterize melhor a humanidade. Os Historiadores adoram politizar mas não vêm
um palmo à frente do nariz: se a pílula e o preservativo libertaram a mulher,
libertaram ainda mais o homem que viu reduzidos os filhos – como potenciais
inimigos na partilha da atenção e da propriedade, como bem viu o em tantas
outras coisas visionário, Leonardo da Vinci. Ao desligar o sexo da reprodução,
a humanidade transformou o intercurso sexual, para utilizar o teu anglicismo,
num instrumento de cultura que agora terá que lutar na arena com outros
instrumentos de cultura, o que trará certamente algum desgaste do sexo como
mecanismo instintivo no nosso equipamento reprodutor. Mas mantenham a calma,
estas coisas demoram pelo menos muitos milhares de anos. Além do mais, não há
problema, pois já temos uma arma: as grandes linguagens e a sua virtuosa
utilização, e por isso vamos continuar a reproduzirmo-nos e a ter prazer de
muitas outras formas.
Gostaria de terminar com uma invocação da maldição (julgo
ter demonstrado que não é uma maldição) voraz do erudito radical. A Ilíada,
talvez o mais belo livro alguma vez escrito, baseia-se numa escultura voraz da
inteligência emocional, numa incrivelmente bela homenagem à nossa técnica
linguística, e sobre esse pano de fundo – que é uma longa tapeçaria de
associações que trazem vivos até nós, os olhos cansados e cegos de Homero -
evolui um drama militar: apesar de cercados, os troianos merecem que se conte a
sua história, e mesmo perante a vitória dos Gregos, Homero sabe que há qualquer
coisa de grandioso na queda das muralhas de Troia. No escudo de Aquiles, que contribuirá
para a morte de Heitor no canto XXII, está sintetizada a poesia e a tecnologia,
todos os elementos da terra, o mar de seda e pétalas azuis, o céu pontilhado de fogo, a
alegria dos casamentos entre noivos, e o antagonismo das comunidades humanas, as
muralhas cercadas de uma cidade, e toda a desumanidade dos pastores, de flauta
e tambor, chacinados pelos soldados a caminho do combate. É que Homero sabia que,
independentemente da justiça das suas ações, todos ganhariam vida, e para sempre,
por meio da sua mente, transportados por metáforas, pelo ritmo dos sucessos, pela
elegância emocional das ações, e igualados nessa magnífica tapeçaria, Homero
via o seu pobre mundo orgânico desaparecer com a sua dignificação dos vencidos
e a humilhação dos poderosos, a destruição daquele que terá sido o mecanismo
típico da evolução da nossa espécie. Homero deve ter visto, na escuridão da seu
cérebro precocemente anoitecido, as cidades a arder em revoltas, os escravos em
marcha, os escrivães e secretários cansados de humilhações a congeminar planos
de revolta e mecanismos económicos, o disparar da vida dos mais fracos em todas
as direções do planeta, o trabalhar dessa máquina que nos libertará do espaço e
do tempo. Tal como diz Homero, «para que no futuro/ sejamos tema de canto para
os homens ainda por nascer».
Mas não ainda, pois passou uma hora e agora, desgraçadamente,
terei que correr para o comboio.
















