quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Marilyn ou Joyce: a literatura como máquina de reprodução na era dos computadores - um comentário a Tolan

 
Em qualquer caso, quando somos mais cultos temos de nos esforçar para encontrar o divertido e a quantidade de coisas aborrecidas aumenta exponencialmente, o que também é uma maldição.



Tolan, Quarta-feira, 12 de Setembro de 2012


Porque me estou a cagar para a literatura, preocupando-me apenas com os livros. 
José Mário Bronco, 12 de Setembro de 2012 23:43

 
Finalmente, temos aqui um problema, sobretudo se pensarmos que tenho quinze minutos para sair de casa, e devo responder a isto, uma vez que as questões de literatura devem ser tratadas com urgência, daí a importância das listas, e mesmo sendo eu beneficiário de muito mais tempo do que tu, para ler e pensar, embora tu ganhes mais e provavelmente tenhas apalpado maior número de mamas – o que é inteiramente justo, diga-se – sempre há imprevistos e dificuldades com que não esperávamos, mesmo para um mente ágil e um corpo bem treinado como o meu.
 Começaria por fazer uma pequena homenagem à geração de bêbados e falhados norte-americanos que invocas, invertendo o argumento das mamas, e recorrendo ao sensacionalismo que foi o emblema de toda uma geração com os mecanismos sensoriais avariados: foi precisamente por não terem apalpados as mamas suficientes – ou por não terem julgado suficientes aquelas que apalparam – que escritores como Kerouac acabaram a viver com a mãe. Antes de nos afundarmos no pântano freudiano, convém dar uma pequena volta pela história da naturalização do desejo.
Julgo que a origem da literatura culta e profundamente educada não deve colocar-se em oposição à procura de mamas, pelo menos de forma radical; penso mesmo que a literatura nasce quando nos fartamos de apalpar umas e passamos – ou julgamos que passamos – a querer apalpar outras, e é então necessário colorir a mudança com uma boa narrativa emocional, para bater em retirada com o mínimo de segurança; ou quando temos que justificar a longa permanência perto de mamas amadas e queridas, ou quando não tivemos o privilégio de estar perto de mamas, ou pelo menos de algo parecido, e é necessário uma prodigiosa pirueta de autoilusão para nos despedirmos do mundo em paz. No meu caso, posso dizer em confissão que enquanto fui virgem pouco li, e foi quando desabou sobre mim o misterioso mundo do amor que a literatura surgiu em toda a sua plenitude terapêutica.
Entendamo-nos: a qualificação da cultura como maldição é quase tão antiga como a história e, longe de ser uma maldição, é apenas o resultado de um escritor poderoso, eruditíssimo e incrivelmente sedutor, chamado Jean-Jacques Rosseau. Preferiria que me caíssem todos os dentes da boca antes de pronunciar uma palavra que fosse contra esse meu mais querido mestre, mas a ideia da pulsão adolescente, como critério de avaliação da cultura, é um caminho perigoso que deu oportunidade a um sem número de imbecis, como Nuno Crato e Maria Filomena Mónica, para treslerem o problema da libertação da vida. A pulsão instintiva, como qualquer amador cientista sabe, é dos temas mais difíceis da psicologia do desenvolvimento, e apenas o poder retórico de Rosseau, um homem dilacerado pela incompreensão, foi capaz de transformar um estado adaptativo particular do desenvolvimento num sentido global para toda as etapas da vida, o que tem mantido o Ocidente debaixo de uma chuva de problemas.
 
As pulsões servem propósitos de cultura, e a cultura condiciona infinitamente o leque de pulsões e o seu significado. Até em William Wordsworth, muito bem lido por Elia Kazan, está já a incrível solução de que a vitória sobre a morte reside na recusa do envelhecimento. Mas essa psicologia do desenvolvimento, tão maldita como qualquer outra, nada diz sobre o grandioso artifício literário. É certo que tanto Kerouac como Salinger, como sobretudo Capote, sabiam que a questão se joga neste sagrado confronto, onde começa o terror e se acaba toda a esperança, para utilizar uma expressão de Dante: «não foi para morrer que nós nascemos», disse também o único crítico literário que Portugal produziu depois de Manuel de Faria e Sousa, no século XVII, e é nesta luta contra a morte que devemos procurar o critério de análise literária que pode enfim clarificar o sentido do que temos andado aqui a fazer, ganhando, e não perdendo tempo.
O triunfo da adolescência, e a vergonha de uma cultura literária densa, que nos caracteriza como civilização, tem qualquer coisa de profundamente imaturo: tal como o adolescente que sua em pesadelo com a hipótese dos pais e avós aparecerem na festa de liceu, vestidos com fazendas e xadrez, carregando a merenda, o vinho, o queijo e o pão, também nós suamos perante os antepassados que parecem enviados de um  mundo rural, lento e atrasado; mas cuidado, porque uma velhinha arisca pode ter mais a ensinar-nos do que uma adolescente apolínea de dentes brancos e pernas ágeis – Sidharta que o diga -  e os americanos, totalmente forjados na revolução setecentista do consumo do chá, do tabaco e do açucar - caiem que nem patinhos nas emoções mais fáceis, e julgando-se portadores do elixir da juventude, coitados, já vão a caminho da mumificação, julgando-se coroados para sempre pelas doces mãos das raparigas com grinaldas de flores: se queremos ser surpreendidos, abramos a porta ao inesperado, e recebamos os familiares da província – o passado – com um sorriso franco. Não nos envergonhemos dos que nos precederam só porque queremos começar de novo, só porque queremos esquecer depressa, talvez para recuperar a emoção de não saber o que vem a seguir: porque nós já sabemos o que vem a seguir, já que isso nos foi dito pelo menos um milhão de vezes, e das mais variadas formas: nascemos, debatemo-nos e morremos, e é só. Há uma tradição que vê a literatura como a arte de ensinar a morrer; eu vejo-a como a arte de recusar a morte; e atenção, porque vamos agora pisar terrenos perigosos. É favor colocar o capacete.
 A tecnologia, e à cabeça de toda a tecnologia a linguagem, constitui a extraordinária invenção que encontrámos para dominar o espaço e o tempo (os dois grandes guardiães dos portões da morte) e tal como um avião, ou um sistema informático, o mérito de um livro está na sua capacidade de vencer espaço e tempo: não precisamos de mais do que a Matemática do 9º ano para seguir caminho. 
Percebo a tua comparação entre os russos oitocentistas e os norte-americanos novecentistas mas essa analogia foi ferida por um desconhecimento parcial da história literária de cada uma das obras produzidas nesses contextos. A metáfora das guitarras elétricas foi bem esgalhada – é isso a literatura – mas relembro que não há grande artista sem domínio do solfejo, o que pode é existir um artista que não tenha frequentado a escola, o que é uma outra coisa e bem diferente. Gogol (veja-se como no Retrato põe no olhar de uma personagem a crítica da arte da criança autodidacta, impotente e decrépita, apreciada por «máquinas primitivas e não por homens») conhecia profundamente a história e a cultura da Europa, e Tchekov era um médico com uma erudição notável e Tolstoi pouco mais fez na vida do que ler filosofia; ao contrário dos norte-americanos que largaram os estudos confiando nas virtudes adolescentes da criatividade. Bem pelo contrário, os russos estavam mergulhados de corpo inteiro em Shakespeare, em Racine, nas literaturas clássicas, em problemas culturais profundos. Basta medirmos o cuidado com que as metáforas são trabalhadas nos russos e compararmos com aquela tentativa infeliz e primária de reproduzir o dialeto, os defeitos da linguagem que carateriza o folclore literário norte-americano depois de Melville.
 
Todos os grandes autores perceberam que as metáforas são um mecanismo para injetar nos textos o seu próprio cérebro, dotando o discurso de dispositivos contra o envelhecimento; a marca de roupa, de cigarros ou de carros, os nomes de políticos e artistas que ninguém conhecerá, as sensações conjunturais, os nomes de ruas onde o leitor nunca colocará o pé, tudo isso não passa de peso que nos puxa para o esquecimento, ao contrário do que julgam os escritores que se deixam capturar na insidiosa armadilha do sucesso passageiro – que é o mais belo e aterrador canto de sereia que produz o mundo na seu rodopiar infernal. O acontecimento, num futuro relativamente próximo, é talvez irrelevante, e ficará só o equilíbrio tenso dos opostos das mais belas metáforas. Mesmo Shakespeare, a quem agradavam os desfechos inesperados, respigou as suas histórias – relativamente simples na estrutura – nos livros mais populares do seu tempo. Aquele público de prostitutas e comerciantes sabia o desfecho de cor, mas ficava hipnotizado com a suspensão do tempo e do espaço que a linguagem produz.
 
A religião usurpou durante muito tempo o monopólio da imortalidade, transformando esse endurecimento perante a morte, que era o estoicismo, numa lamúria de seminaristas adolescentes problemáticos. S. Agostinho, que resfolegou entre mamas, e ancas e pernas, sabia que a única forma de convencer os humanos a embarcar na imortalidade, recusando os prazeres do corpo, era transformando o estoicismo numa religião de padres alienados por uma promessa esconsa de liberdade hologramática. Recusando os padres, os beat-niks mergulharam de olhos fechados no vício e, portanto, no precipício. Só há uma maneira de voltar atrás, sem recuperar a água suja da religião: a grande literatura, e depois dela a linguagem tecnológica, têm sido a única forma consistente de derrotar o medo e a religião, permitindo que construamos com as nossas próprias mãos a imortalidade. Quando Ovídio parecia condenado a desaparecer, 1500 anos depois, explode subitamente na pena de Shakespeare e revive, numa rede infinita de conexões. Estamos na pré-história de um novo e glorioso mundo, onde a tecnologia já esteve mais de longe da possibilidade de reproduzir o cérebro humano.
Deus sabe o que eu tenho sofrido – e feito sofrer – às mãos das mulheres, e a última coisa que gostaria de fazer era deixar ligada a minha pobre existência a uma desvalorização do desejo. Mas a reprodução sexual que tem marcado muito do que tem sido a vida da nossa mente, não é o único, nem talvez o mais eficiente mecanismo reprodutor que existe na natureza, como qualquer biólogo amador sabe. O sexo – e a procura de mamas – é uma atividade encantadora e prodigiosa, mas ler não o é menos, e tenho dúvidas sobre qual caracterize melhor a humanidade. Os Historiadores adoram politizar mas não vêm um palmo à frente do nariz: se a pílula e o preservativo libertaram a mulher, libertaram ainda mais o homem que viu reduzidos os filhos – como potenciais inimigos na partilha da atenção e da propriedade, como bem viu o em tantas outras coisas visionário, Leonardo da Vinci. Ao desligar o sexo da reprodução, a humanidade transformou o intercurso sexual, para utilizar o teu anglicismo, num instrumento de cultura que agora terá que lutar na arena com outros instrumentos de cultura, o que trará certamente algum desgaste do sexo como mecanismo instintivo no nosso equipamento reprodutor. Mas mantenham a calma, estas coisas demoram pelo menos muitos milhares de anos. Além do mais, não há problema, pois já temos uma arma: as grandes linguagens e a sua virtuosa utilização, e por isso vamos continuar a reproduzirmo-nos e a ter prazer de muitas outras formas.
Gostaria de terminar com uma invocação da maldição (julgo ter demonstrado que não é uma maldição) voraz do erudito radical. A Ilíada, talvez o mais belo livro alguma vez escrito, baseia-se numa escultura voraz da inteligência emocional, numa incrivelmente bela homenagem à nossa técnica linguística, e sobre esse pano de fundo – que é uma longa tapeçaria de associações que trazem vivos até nós, os olhos cansados e cegos de Homero - evolui um drama militar: apesar de cercados, os troianos merecem que se conte a sua história, e mesmo perante a vitória dos Gregos, Homero sabe que há qualquer coisa de grandioso na queda das muralhas de Troia. No escudo de Aquiles, que contribuirá para a morte de Heitor no canto XXII, está sintetizada a poesia e a tecnologia, todos os elementos da terra, o mar de seda e pétalas azuis, o céu pontilhado de fogo, a alegria dos casamentos entre noivos, e o antagonismo das comunidades humanas, as muralhas cercadas de uma cidade, e toda a desumanidade dos pastores, de flauta e tambor, chacinados pelos soldados a caminho do combate. É que Homero sabia que, independentemente da justiça das suas ações, todos ganhariam vida, e para sempre, por meio da sua mente, transportados por metáforas, pelo ritmo dos sucessos, pela elegância emocional das ações, e igualados nessa magnífica tapeçaria, Homero via o seu pobre mundo orgânico desaparecer com a sua dignificação dos vencidos e a humilhação dos poderosos, a destruição daquele que terá sido o mecanismo típico da evolução da nossa espécie. Homero deve ter visto, na escuridão da seu cérebro precocemente anoitecido, as cidades a arder em revoltas, os escravos em marcha, os escrivães e secretários cansados de humilhações a congeminar planos de revolta e mecanismos económicos, o disparar da vida dos mais fracos em todas as direções do planeta, o trabalhar dessa máquina que nos libertará do espaço e do tempo. Tal como diz Homero, «para que no futuro/ sejamos tema de canto para os homens ainda por nascer».
Mas não ainda, pois passou uma hora e agora, desgraçadamente, terei que correr para o comboio.

 

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Avô

Hoje, numa cama de um hospital de subúrbio, fechou os olhos.

Tchekov talvez seja melhor que Gogol, estou com dúvidas

Enquanto trincava uma finíssima fatia de queijo da ilha, meticulosamente cortada por um faca de serrilha e colocada lentamente entre duas fatias esquálidas de pão alentejano, eis que o emi-ciclo da República surgiu no ecrã mágico em todo o seu explendor, colorido pela franja esparsa do senhor parolo Ministro de Estado (avé) e das Finanças, Vítor Oliveira Salazar Gaspar. Portugal está agarrada pelos colhões, e de joelhos, o que talvez seja uma impossibilidade anatómica, mas não vou entrar nestes pormenores sórdidos da sociologia política.

Uma pessoa está diante do ecrã e no momento mais fácil para a oposição, em toda a história dos debates parlamentares, em mais de 2500 anos de história de reis ingleses e franceses decapitados, primeiros-ministros das Provínicias Unidas esfolados, e reis portugueses tardiamente baleados, o que sucede? Fazenda, Apolónia e Galamba puxam da sua erudição republicana, do seu vitalizante conhecimento da língua portuguesa, do seu incomparável faro estratégico, da sua gigantesca capacidade manipulatória do confronto político, da sua inabalável convicção nas causas, e disparam o original, o vertiginoso, o arrasador argumento do sofrimentos das pessoas.
Era preciso explicar que as pessoas são justamente o problema, ou não tivessem as pessoas eleito Pedro Passos Dias a Foder Portugal Coelho, com toda a tranquilidade do universo, tanto as pessoas que votaram nele, como as pessoas que nele não votaram por estarem na praia, no Continente, no A Tua Cara Não Me é Estranha, na cona da mãe delas ou flutuando numa jangada perigosamente sobre o pântano da pobreza e do desemprego, o que para efeitos do debate parlamentar é a mesma coisa, ou julgarão Fazenda, Apolónia e Galamba que as pessoas que não vão votar, e as que se afundam no Desemprego, às vezes são as mesmas, têm tempo para assistir curiosas e expectantes aos debates parlamentares? Pois se ardem em sofrimento desesperadas ou se trabalham de sol a sol como poderão assistir ao elogio épico da sua tragédia? Ou quererão Fazenda, Galamba, e Apolónia aparecer cinco segundos no jornal da noite a derramar lágrimas sobre o sofrimento? Há aqui qualquer coisa de sacerdotal, qualquer coisa típica dos grandes hípócritas. Embora os pecados da direita sejam mais graves, eu diria, com Marx e Jesus Cristo, que os hipócritas são especialmente exasperantes.


Todo o operariado, os trabalhadores, os pretos, os ciganos, os explorados que têm sido enrabados pela República Portuguesa e o seu Parlamento em toda a nossa longa história, o que espera não são lágrimas pelo seu sofrimento, pois conhecem bem esse sabor, o que espera todo o fraco e oprimido é justamente a derrota política do ignorante do Vítor Gaspar, mas desta vez com argumentos.
O ponto central da discussão sitou-se no conceito de expansão da procura. Segundo a besta Vítor Gaspar, 1,65 cm, 70 kg, a expansão articial (primeiro conceito a reter) da procura, hipertrofiou os sectores de serviços e de bens transaccionáveis nos últimos 20 anos. A economia foi distorcida (segundo conceito a reter) por rendas e margens de monopólio o que gerou um crescimento económico medíocre (o mais medíocre depois da 2ª Guerra Mundial, segundo (Vítr Salazar Gaspar) e apenas foi sustentado pelo sobre-endividamento. Ora a besta Galamba, 1,80 cm, 80 kg, apenas conseguiu indignar-se e apelidar a interpretação económica de Gaspar como fanática - um libelo que os fanáticos costumam receber como um elogio - integrando-o como membro de uma suposta escola, a neo-liberal. Caralhos me fodam, Galamba: o que é que eu disse aqui? Não vos proibi expressamente de utilizar esse conceito sem fazer o trabalho de casa? Ora, a interpretação económica de Gaspar não é fanática, é ignorante.

A rendas (free-rent) e os preços de monopólio de que Gaspar fala são, em primeiríssimo lugar, fornecidas pelo sistema político e qualquer economista neo-liberal sabujo defende que o sistema político é um instrumento que não deve atrofiar o funcionamento natural (ora aqui está) da sociedade. Gaspar, para que estás a mexer nesta merda? Deixa estar como está, foda-se, não venhas distorcer a evolução natural da curva da procura e reduz essa merda do lado da despesa, enviando para o olho da rua metade do teu gabinete, mais metade do gabinete de cada um dos ministérios, mais toda a despesa do Estado em Hospitais e Escolas Privadas, em Prisões cheias de pilha-galinhas que não fazem mal a uma mosca, mais os generais do exército e a corja de juízes que mama na teta da República. O Gary Becker não recomendou que se pagasse para não se cometerem crimes, que fica mais barato? Tem calma que eu sozinho (isto poderia dizer o Galamba) faço as contas que são necessárias, munido de lápis e caderno de capa preta, daqueles que o David Carreira diz na rádio que utilizou para escrever as suas canções e que são, diz ele, inspiradores.


Pouco depois, aparece o António Sala na televisão e diz: «cada vez que posso, compro ouro em moedas ou em barra». Belisquei-me. Foda-se, caralho, que é esta merda? Será o apocalipse? Onde estão os quatro cavaleiros e as suas espadas de fogo? Mas António Sala apressou-se a explicar: proteja-se do caos financeiro e compre ouro. Fui a correr para a cozinha e abri um garrafa de vinho do Porto.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

A ver se nos conseguimos entender antes do Passos Coelho e o Vítor Gaspar foderem esta merda toda

A todos os que revelam incompreensão na vertiginosa virtude das listas, tenho a infeliz missão de anunciar que é justamente esse o sinal de que não estão habilitados para compreender a profundidade das coisas que, por vezes - e só por vezes, porque somos só 5%, segundo o José Mário Bronco -, vos são ditas. A lista é o mais antigo e eficaz instrumento de conhecimento (listas de ovelhas, listas de exércitos, listas de receitas e despesas, listas de animais, listas de equações, listas de combinações binárias, listas de coisas que apreciamos no objeto amado, listas de tesouros que nunca mais tocaremos quando se nos acabar o tempo) e a todos os que, movidos por comovente ternura, revelam uma grande compreensão pela subjetividade da expressão individual, pela «voz» de cada autor (e relembro que o Calvino disse tudo sobre este mega embuste da invidualidade do autor num ensaio chamado «Cibernética e fantamas») ou pela qualidade diferenciada de cada sistema nervoso, a esses eu digo que cada autor escreve com uma lista de caracteres, e é da rigorosa ordenação desses símbolos, e da listagem emociada das palavras, e da hierarquização férrea das frases, e da sequenciação mórbida dos capítulos, e da megalómana sucessão de livros, que se faz aquilo que os senhores cépticos das listas e dos rankings julgam ser a flutuante relatividade da literatura e dos juízos estéticos que sobre ela podem ser produzidos.

 
Claro que valorizar listas de literatura bem feitas pode revelar-se um exercício fútil, sobretudo para aqueles que ainda não compreenderam que o tempo é o nosso recurso mais escasso, e que para qualquer mortal que encontre na literatura a salvação (Deus abençoe a Santíssima Trindade da solidão, Kafka, Proust e Pessoa) é absolutamente urgente levar a cabo uma hierarquização dos livros porque o tempo não pára, as leis da física aceleram, diante dos nosso cérebro cansado, o desgaste dos nossos (ó miséria) limitados olhos, e com a sombra da morte poisada sobre a nossa frágil existência, só podemos dizer, como o filósofo apologizado por Platão, ai de nós, os que queremos ainda saber antes de nos ser oferecida uma taça transbordante de veneno. Aprendam a viver com as limitações humanas que é o primeiro passo para que as lágrimas da plenitude se derramem no vosso rosto em perene oração pela dignidade da criatura humana (uma abraço ao paneleiro do senhor cardeal-patriarca).


Vamos ao que interessa. Porque é que ninguém (à excepção da entusiasmante esposa russa e do labrego medíocre do John Updike) compreendeu Nabokov? Precisamente por que o monumentalmente magistral escritor russo (e só vagamente associado à galáxia anglo-saxónica pelos analfabetos e os jornalistas) pertence ao minúsculo conjunto dos 5% que compreendem a profundidade das merdas. Devo dizer, antes de prosseguir, que uma das mais traumáticas razões das incompreensões mútuas que a todos nos mergulham em perdas de tempo (que poderiam ser eficazmente poupadas por listas apropriadas) decorrem daquilo a que Snow apelidou as duas culturas. A nossa sensibilidade está fundada numa especialização que é, de certa forma - e como explicou outro grande escritor de ciência Herbert Simon - um mecanismo de resolução de problemas que apenas conduz a novos problemas. Ora, Nabokov é provavelmente o único exemplo no século da bomba atómica, e da emancipação da arte como paneleirice, a caminhar no perigoso arame que sobrevoa as duas culturas: a arte e a ciência. Falar de uma ausência de calor humano em Nabokov, ou de falta de compreensão pela tragédia humana, e os seus pecadilhos e misérias, é não compreender um homem que fez da suspensão das lágrimas o mais comovente e apaixonado hino ao afecto humano, que ensaiou a mais comovente e humanizadora leitura da Metamorfose de Kafka - um texto julgado pelas pessoas que não gostam de listas como bizarro, frio e revelador do absurdo da vida, quando é sobretudo uma sensível, clara e compreensível fábula, bebida em Ovídio - provavelmente o maior de todos os tempos (mas voltarei ao tema) - onde se derramam todas as nossas belas qualidades.
 
 
Claro que parte da incompreensão a propósito de Nabokov se explica a partir dos mesmos princípios com que facilmente condenamos Dostoievsky. Em primeiro lugar, é este o momento para vestir a toga, louvar a filosofia escolástica, dar um pontapé no cu de Passos Coelho e Vítor Gaspar (que a esta hora deve estar a tentar demonstrar que sendo uma merda de político é um grande académico) e fazer um ponto prévio: para fazer boas listas é preciso conhecer as propriedades dos elementos listados.
 
 
Normalmente, quantas pessoas conhecem a fundo Dostoievsky e Nabokov? Muito poucas, uma vez que foram autores que escreveram abundantemente. Nabokov escreveu um livro intitulado Ada ou ardor que é uma obra prima até num mundo que fosse esteticamente governado pelos punhos de aço e rendas do walter hugo mãe. Que dizer de Glória? Que dizer de Pnin? Poderá um leitor atento de Pnin afirmar que não há compreensão pela fraqueza humana, que não há humildade, que não há consciência das trágicas fronteiras da inteligência e dos perturbadores limites da consciência? Quando comparado com Dostoievsky, Nabokov vence em toda a linha, até nas coisas menos conseguidas. O Jogador é um livro vertiginoso, conseguido, embora lhe falte, aqui e ali, ornamento, dissimulação, mascarada, enfim, vida, e se o colaborador do Correio da Manhã de S. Petersburgo tivesse seguido esse caminho teria provalmente chegado a um lugar bem diferente. Acontece que escrever um livro naquele estado semi-divino de pré-engate a uma gaja é um acontecimento ainda com mais baixa taxa de ocorrência do que um bronco como Mário Soares entrar para a história da Democracia Ocidental. Regra geral, os livros de Dostoievsky estão repletos de coisas que não servem para nada, sentimentos de comoção ao nível do Bispo emérito de Leiria-Fátima, elementos mórbidos, descrições, reparos, anotações que servem para embalar um leitor de baixa ou média cultura. Claro que sendo um indivíduo de talento, não escreveu maus livros (reparem que lhe atribuo um 5º lugar) mas compará-lo a Nabokov? Valha-nos a Virgem Santíssima.
 
 
Sobre Melville: é que nem sequer discuto o problema, de tão claro que é, a menos que o Tolan consiga sustentar consistentemente que há aqui um problema.
 

 
 

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Não se preocupem que ninguém lê livros

É comum entre os literatos tentarem impressionar o auditório mais ignorante com um velhíssimo truque de feira que consiste num pobre exercício de classificação das pessoas em termos de votos para melhor escritor russo de todos os tempos. Apesar de nem o tolinho do George Steiner ter escapado a esta parvoíce, a inocente comédia transforma-se perigosamente em tragédia quando os literatos apresentam os dois líderes dos sub-conjuntos: Tolstoi e Dostoievsky. Ora, toda a gente sabe que o melhor escritor russo de todos os tempos foi o ucraniano Nicolau Gogol, seguido de perto pelo igualmente ucraniano, Anton Tchekov, apresentando-se em terceiro lucar, mas a distância considerável, e muito cansado pela sua pesada linguagem e excessiva deambulação pela teoria da produção agrícola de finais do século XIX, o conde Tolstoi, logo vigiado de perto por esse velhinho maluco apreciador de pitas, Vladimir Nabokov, e só então, num nada honroso 5º lugar, esbaforido e emporcalhado por um cheiro a esgoto e a lodaçal, o jornalista chato que chegou a trabalhar no Correio da Manhã de S. Petersburgo, Dostoievsky.



A escrita de Gogol resiste inacreditavelmente à poeira do tempo, e troça mesmo do futuro, o que deveria consistir um problema intrigante para os físicos, que em vez de andarem a bricar com aquela coisa dos túneis, deviam era pegar em papel e lápis, e tentar compreender as merdas. Na verdade, «Diário de um Louco» é a maior síntese de controlo técnico alguma vez produzida por mão humana: do controlo narrativo, passando pela torrente de consciência, até à vertigem do controlo impessoal da política como máquina, está lá tudo, até o que ainda não foi experienciado pela nossa consciência a caminho da doença crónica. Quanto a Tchekov, «Enfermaria nº 6», «O monge negro» e «Casa com Mezanin», são três contos que juntos não chegam às 200 páginas mas que fazem, de uma penada, a  crónica da medicina como auto-ilusão, a crítica da filosofia como pesadelo humano, e denúncia da arte como prisão afetiva e asfixia inútil, revelando, de caminho, três vidas imoladas ao absurdo da beleza. Não vos canso mais.

 
 
O que queria mesmo dizer, é que, no meu caso, só costumo dividir as pessoas entre as que julgam que Don Delillo, Philip Roth, Paul Aster e Jonathan Frazen são grandes escritores, e as que sabem que nenhuma destas pessoas escreveu uma só página que fosse que se revele digna de nela limparmos o cu, uma vez que um escritor se distingue, se não por outras coisas mais higiénicas, ao menos pela consciência de que uma página se sustenta, não pela relação com a realidade, o tempo, ou - Maria Santíssima nos valha - os acontecimentos -, mas sim pelo engenho metafórico, a elegância, a velocidade, e a quantidade de emoção sintetizada em raciocínio, coisas que se devem extrair sem esforço, de cada parágrafo, e coisas que de modo algum se encontram nas fastidiosas obras dos quatro só por acaso norte-americanos. Depois de Melville, a vida ficou díficil, eu sei, mas tenham paciência, o tempo é um recurso escasso, e já vai sendo tempo de América fazer alguma coisa pela causa.


A verdade é que nós, os europeus, que temos obrigações morais nesta matéria, não estamos a ajudar, e temos deixado que as Alexandras Lucas Coelho deste mundo dirijam as críticas jornalísticas de literatura e convençam as pobres pessoas, que na Europa ainda compram livros baseadas em opiniões especializadas, a consumir recursos nesses pobres tristes retratos de pessoas cultas com sentimentos que passam 400 páginas, se for preciso, sem o mais pequeno estremecimento, sem a mais pequena centelha, sem fornecer o mais pequeno indício que  nos permita distinguir os 4 citados norte-americanos de um qualquer jornalista cultural fracassado.

 
 
Deixo-vos com uma curta declaração que, pelo meu profundo e grande amor à escola, não posso deixar de fazer ao país: estão absolutamente proibidos (em especial os caralhos de esquerda, mas também os filhos da puta de direita) mas absolutamente proibidos, de voltar a usar a expressão neo-liberal, sem pelo menos ter lido a bibliografia básica, A Theory of the Consumption Function. Ainda por cima, seus merdosos, nem vos assiste a desculpa do preço, pois o texto está comunistamente disponível na internet, mas para isso terão que largar o caralho que vos foda do Facebook. É que isto não é só neoliberalismo para aqui, e neo-liberalismo para acolá, e o Chile do Pinochet nos anos Setenta, e o paneleiro do Passos Coelho não sei o quê, e o Estado Social não sei que mais, que isto de ser o parasita preguiçoso do Mário Soares, só acontece uma vez na história de uma República. Nada disso, no vosso caso é preciso fazer o trabalho de casa, seus caralhos. É preciso saber que o Milton Friedman era descendente de Arménios, e que casou com uma mulher baixinha mas muito viva, e que é um escritor pelo menos ao nível de Darwin e Freud, e que o seu melhor amigo era outro economista igualmente brilhante como escritor, mas menos irritantemente pregador, chamado George Stigler (com quem Friedman esgalhou as suas lições sobre o sistema de preços) e que escreveu um magnífico artigo - Smith's Travels on the Ship of State - onde se demonstra por que é que os políticos respondem a interesses tão objetivamente porcos como qualquer Presidente da Sonae, e onde se pode compreender com profunda tranquilidade por que razão o Pedro Passos Coelho e o Vítor Gaspar são a merda que são, e fazem a merda que fazem, aproveitando para saudar o irreverente Daniel Oliveira  e o irrequieto Sérgio Lavos, recomendando aos dois, en passant, que enfiem, um de cada vez, o supracitado artigo pelo cu acima, isto no caso de serem capazes.


 

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Pode um broche ao Governo constituir um problema técnico-profissional?

Não sei se tenho insistido aqui o suficiente com o filho da puta do Pedro Lomba, uma vez que o Senhor Professor resolveu explicitar hoje mesmo, publicamente, num jornal de referência que afinal o ensino técnico-profissionalizante-mecânico-pragmático é que vai salvar as futuras gerações do desemprego e das ilusões da qualificaçao universitária? Isso mesmo, o caríssimo leitor ainda não está maluquinho, embora pouco falte se continuar a ler este blogue. Segundo o Evangelho de S. Filho da Puta do Pedro Lomba, o problema de Portugal foi ter semeado o solo pátrio, e de uma ponta à outra, com «cursos de brincadeira», deixando cair a consistente, sólida e fundamental aprendizagem de «ofícios»; pasme-se, de ofícios, um conceito que não víamos introduzido no debate público desde que um velhinho desdentado de Alhos Vedros, vindo da Idade Média a empurrar a sua banquinha de sapateiro, telefonou entusiasmado para o programa Opinião Pública da Sic Notícias e disse: «o que é preciso, caralho, é ensinar aos jovens um ofício». É fantasticamente notável que o Pedro Lomba, que é uma só pessoa, apesar de munida com a potência intelectual de 50 cabeças, incorra, num tão curto espaço de folha de jornal, num tão grande novelo de contradições, numa tão grande cambalhota psico-programática, que seriam precisos 100 anos de uma paciente Penélope para nos desenvencilharmos das suas pegajosas palavras.


1. É extraordinário, e inolvidávelmente comovente, que um filho da puta que ensina numa Universidade no âmbito de uma licenciatura em Direito, isto é, que ganha a vida no contexto de uma cultura da perversão, da confusão mental e da mistificação social (veja-se, a título de exemplo, a sua crónica de segunda-feira, sobre a importância dos factos históricos e políticos para a manutenção da liberdade, as duas únicas áreas do saber onde curiosamente, e para a manutenção da liberdade, não pode haver factos) passe uma crónica inteira a elogiar o ensino técnico-profissional, indignado pelas acusações que, movidas a impulsos de sinistra igualdade, se colaram a essa nobre instituição escolar - as escolas de apertar parafusos - quando até a Alemanha (um bastião da igualdade, e da produção de fornos crematórios, digo eu) cultiva com esmero e brilho a qualificação profissionalizante. E que faz o Pedro Lomba para sustentar empiricamente a sua tese? Dá o exemplo de um ensaista, licenciado em Filosofia pela Universidade de Chicago, que abriu uma oficina de reparação de motas, algures na terra da liberdade, no solo da mais vanguardista indústria pornográfica, uma actividade técnico-profissional que espero encarecidamente não seja esquecida pelos ambiciosos planos de revitalização do mercado de trabalho do ex-trotskista-leninista Nuno Crato.


Foda-se, Foda-se, Foda-se. Três vezes Foda-se. Então ó Pedro Lomba, diz-me lá, se és capaz, por que maravihas da imprevisibilidade pedagógica o tal gajo não foi aprender a concertar motas no caralho da escola técnico-profissional lá da terra dele? Eu sei a resposta e vou ajudar-te: é porque dessa forma estaria enfiado numa oficina da periferia de Boston ou numa floresta do Delaware, rodeado de mexicanos, talibans e gasolineiros de piça aguçada e bigode farto, e nos intervalos de umas punhetas nos lavabos da oficina, poderia até talvez encher os bolsos sabujos e oleados das calças com notas de 50 dólares, mas verdade, verdadinha, é que tu jamais em tempo algum chegarias a fazer a mais pequena das ideias acerca das ideias que circulam pelos circuitos neuronais dessa criatura, porque desse modo, a criatura, ó cabrão do caralho, não teria aprendido a exprimir conceitos e a articular ideias, pois apesar do seu gosto de sujar as aposto que imaculadas mãos nas entranhas das máquinas, o facto é que não foi de ir aprender às espectaculares escolas técnico-profissionais os segredos da mecânica aquilo de que o teu edificante exemplo se muniu, mas sim do mais inútil dos inúteis dos inutilizantes dos saberes universitários: o amor da pura e sagradamente etérea sabedoria. Ouviste, labrego do caralho?


2. Nunca será demais contemplar, e com um larguíssimo sorriso nos lábios, o facto de serem sempre universitários parasitas, que mal sabem apertar um parafuso e têm aquelas mãos terminadas em dedos finos incrivelmente imaculados de pelos, os primeiros a conceber sinfonias de aclamação aos trabalhos manuais, ao ensino técnico-profissional, às virtudes dos ofícios, ao enfileiramento das massas para o lugar a que pertencem. Que têm os cursos de merda, que para aí há às toneladas, entre eles o Direito, a ver com a necessidade de profissões técnicas? Porque não pode um Engenheiro profissionalizar-se como canalizador ou electricista? Para que vai o Estado meter-se na segmentação profissional da iniciativa empresarial? Vossa excelência não defende menos Estado?  As empresas que formem os seus técnicos. À República só cabe formar cidadãos: o resto é com a iniciativa privada. E pró caralho, reverendíssimos senhores doutores, em especial tu, Pedro Lomba.

Para um comentário civilizado e inteligente sobre o mesmo tema, e com o qual me deparei somente depois de ter escrito este belo post, carregue educadamente na seguinte expressão: litigância de má-fé

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Os ingleses dizem muitas coisas

"The man of culture is in politics," cries Mr. Frederic Harrison, "one of the poorest mortals alive!" Mr. Frederic Harrison wants to be doing business, and he complains that the man of culture stops him with a "turn for small fault-finding, love of selfish ease, and indecision in action." Of what use is culture, he asks, except for "a critic of new books or a professor of belles lettres?" Why, it is of use because, in presence of the fierce exasperation which breathes, or rather, I may say, hisses, through the whole production in which Mr. Frederic Harrison [47] asks that question, it reminds us that the perfection of human nature is sweetness and light. It is of use because, like religion,- -that other effort after perfection,—it testifies that, where bitter envying and strife are, there is confusion and every evil work.
The pursuit of perfection, then, is the pursuit of sweetness and light. He who works for sweetness works in the end for light also; he who works for light works in the end for sweetness also. But he who works for sweetness and light united, works to make reason and the will of God prevail. He who works for machinery, he who works for hatred, works only for confusion. Culture looks beyond machinery, culture hates hatred; culture has but one great passion, the passion for sweetness and light.


Para quem ainda não sabe, ficar a saber

Quando um dia rebocarem aquele hino ao verdete intitulado estátua de Fernando Pessoa no Chiado, onde as nórdicas se esfregam gloriosas de ombros nus e sorriso científico, e os brasileiros, sem distinção de sexo ou idade, fotografam a origem dos seus cérebros como se estivessem a posar para uma galeria de aberrações antropológicas, será claro para todo o Ocidente (e excluo o Oriente porque tenho noção dos meus limites) que todo o propósito da minha existência foi por mim erigido como esforço de resposta a um pergunta simples e clara: haverá alguma coisa que impeça um indivíduo de se realizar contra as tendências do ambiente sabendo nós que existe uma continuidade trágica entre a consciência e as coisas que a rodeiam?


As regras da eficácia, pelo menos de acordo com o Jorge Jesus e os taxistas de Massamá, ditam que as pessoas é que sabem o que lhes agrada aos excelentíssimos cornos, e quem sou eu para agora desatar a educar as pessoas, mas lembro que do ponto de vista da eficácia, e sobretudo numa perspectiva de engenheiro - que é aquela que a todos nos governa (para o bem e para o mal), é preciso esclarecer a partir de que teoremas físico-matemáticos deduzimos nós o conceito de eficácia. A fazer fé no ignorante e inútil do Steve Jobs, parece que as pessoas não sabem o que querem até «nós» o mostrármos. Tenho como projeto realizar a baixo custo um hino à minha própria educação, permitindo às massas conhecerem a minha nobre, profunda e incomparável mente, mas sem considerar por um só minuto que seja as ideias das massas, ou a ideia que umas pessoas que estudaram em Inglaterra fazem passar por ideias das massas, uma vez que as massas, na medida em que estão pelo menos tão desorientadas como eu, mais não são do que um conjunto de interrogações armadilhadas, pelo que o mais eficaz é mostrar o que temos, e «uns aos outros», como diria Jesus Cristo (e atenção que é segunda vez que cito Jesus Cristo no espaço de uma semana, mas garanto que está tudo bem). Parece que até o Livro dos Provérbios (29:18) regista que onde não existe uma visão, as pessoas padecem.

A sociedade aberta e os meus inimigos

Soube há pouco num almoço que às vezes também sou tratado na minha ausência por pseudo-intelectual, e reparem que eu nem sequer faço a mais pequena ideia de quem seja o Morrissey, um merdas cantor qualquer que os pseudo-intelectuais postam ininterruptamente nos seus blogues sobre a amizade. Eu, reparem, que nem sequer escrevo nos jornais e nutro até algum respeito por apresentadores de televisão. Acontece que as pessoas não me perdoam o facto de eu gostar de ler, aspeto (o autor deste post respeita o acordo ortográfico) que me tem penalizado ao longo desta magnífica mas curta jornada, tanto em questões de paridade escolar, onde o prémio da ignorância livresca é desde há muito altamente incentivador da boçalidade a que as pessoas chamam humildade, como em questões de auto-análise e escrutínio mental, uma vez que o corpo é o primeiro inimigo da cabeça, e sobre isto vão consultar o Aristóteles, de preferência em português do Brasil (o autor deste post respeita o acordo ortográfico).
 
O que eu tenho consumido de horas a cravar longos punhais prateados com cabo de marfim no lombo das minhas mais secretas ambições, o que eu tenho consumido de olhos em livros e blogues de pessoas consagradas, espumando pela boca de desejo, sedento por reconhecimento, o que eu tenho consumido, por outro lado, de moderação dos instintos e de derrota realmente interiorizada, mas realmente interiorizada, notem bem, tão interiorizada como aqueles caracóis que ficam eternos e plurimilenares, expostos em veludo negro mal iluminado em corredores de museus de história natural, encavalitados na sua própria essência, afundados dentro de rochas imemoriais, fechados sobre o tempo como um segredo terrível e vergonhoso.
 
 O que eu tenho tentado avisar as pessoas sobre a inutilidade da cor dos azulejos da cozinha. Porém, talvez isso seja, na verdade, muito relevante, mesmo a marca da pasta de dentes terá a sua primazia num mundo de dentistas brasileiras (e atenção que o autor deste post respeita o acordo ortográfico), e eu tenha estado enganado todo este tempo. Ma não é isso que distingue os génios? Uma profunda convição sobre a sua inutilidade, sobre a sua incapacidade de interpretar o mundo, ou dotar a vida de um sentido? mas convém que o façam com a mestria suficiente para que se note que não o estão a dizer, e nesse aspeto tenho falhado em toda a linha, dando a cada pirueta encarpada que o meu salto desenha no seu desenvolvimento, um grito revelador da natureza ambiciosa do salto. Não pode ser, não nos toleram tentativas de levantar os pés do chão. Temos que ser manhosos, profundos, inspiradores, secretos, impiedosos, ignorantes, silenciosos, temos que ser humilhantemente labregos, consensuais, temos que ser humanos, normais até às lágrimas, temos que ser pessoas, caralho. Só posso dizer que a mim, muito difícil tem sido sê-lo.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Tolan: mantém a fé na espiritualidade espiralada dos astros e volta ao Calvino que a força das coisas serem o que são há-de recompensar-te

Por muito que as questões me suscitem indignação tenho aprendido com as lojas de chineses e o Nuno Rogeiro a estar aberto a todos os cenários possíveis mas confesso que não estava preparado para uma associação entre Paulo Coelho e James Joyce. As multidões que têm vindo a familiarizar-se com a minha obra sabem que tenho os economistas na pior conta possível, ao contrário da economia, ciência que muito prezo. Na verdade, e mais uma vez, os príncípios neo-clássicos têm uma explicação cristalina para o fenómeno do livro enquanto estilo: todos os choques entre a diferenciação do modelo de negócio e a massificação de produtos de sucesso resultam em coisas muito parecidas com o Ulysses. Que é o Ipad senão um Ulysses da informática? No momento em que os escritores começaram a profissionalizar-se e a generalização da alfabetização, bem como a descida do preço do livro, transformaram o romance num objecto tão distintivo como a escova de dentes, os escritores mais educados, exigentes e perturbados, foram obrigados a criar produtos de elite, acrescentando valor. Do ponto de vista da história da literatura, somar valor é somar bizantinices e relação com a tradição clássica, com mais ou menos elegância, e no caso de Joyce, sobra tanto elegância, como conhecimento do ofício. O domínio da retórica é gigantesco, o conhecimento da exegese shakespereana é medonho (o que apenas pode ser contemplado pelo universtário duplamente treinado na obra e crítica de Shakespeare) etc, etc, e estas coisas serviram, e têm servido, para despromover a uma distrital pejada de pelados e centrais caceteiros, qualquer leitor que, por força de suas próprias mãos e energia de seu puro espírito, ouse construir uma visão sólida, independente e abstracta sobre o que é a literatura.


Joyce era demasiado inseguro e egocêntrico para experimentar a novela de sucesso e por isso resolveu dedicar-se a uma obra que permitisse níveis de venda aceitáveis, mas que constituisse um enigma académico, capaz de lhe granjear um lugar entre os idiotas universitários que desempenham, por enquanto, um lugar importante na edificação das galerias dos autores consagrados. Ninguém mais do que aquele dublinense manhoso tinha pura consciência das malandrices carregadas nas páginas de Ulysses. Acontece que lhe apeteceu utilizar os vícios culturais, de uma civilização onde as Universidades se estavam a constituir como potências de cultura, para apanhar o barco do futuro, garantindum um mínio de respeitabilidade, um escândalo moderado, e algunas proventos financeiros. E não se enganou.



 
Quem quiser um exemplo actualizado, mas em postiço, considere toda a pirotecnia que envolveu, entre as hipnotizantes e fluorescentes lágrimas do escritor refletidas no áspero zinco da pobre critica, o lançamento de Uma Viagem à Índia, de Gonçalo M. Tavares, um livro medíocre onde apenas se salvam algumas metáforas bem desenhadas, mas que foi parido juntamente com um mapa dos cantos e significados, em aberto diálogo com o Ulisses, embora também abrindo as pernas à Epopeia Camoniana, numa orgia pornográfica onde não faltaram velhinhos desmemoriados como Eduardo Lourenço, totalmente enganado pelas manhas do artista, diga-se em passagem. Desde sempre, a distinção emerge como um altar onde se sacrificam as mais nobres virtudes da república e os escritores, embora muito esforçadamente o tentem, por vezes até à morte, é justo dizer, não se distinguem, ó impotência das impotências, de qualquer outro carpinteiro das misérias humanas. Do padre ao apresentador de televisão, todos temos os nossos truques. Tudo depende de quem queremos agradar. No fundo, somos todos umas putas relaxadas, e isto, até Jesus Cristo, um analfabeto sem biblioteca, o sabia, e por isso se enamorou por uma mulher com experiência do comércio amoroso. Tudo o resto, é apenas o perturbante barulho da eterna zaragata genética que nos precedeu e que nos há-de suceder.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O silêncio é de ouro, costuma dizer-se


Regresso do silêncio onde me encontro. Sempre gostei do silêncio. Tanto que há uns anos fiquei uma semana sem falar com ninguém. Para pensar nas coisas essenciais da vida. Quem sou eu. O que faço aqui. O porquê do Sporting nao ganhar campeonatos (esta continua válida, talvez para sempre).
Como dizia, regresso porque os Jogos Olimpicos acabaram. Para mim, devia dar todos os dias na televisão. Talvez assim acabasse a necessidade de todas as vezes que os há, lermos comentários e noticias idiotas sobre o desempenho dos atletas, com repetições, até à nausea, das certezas e razões de não ganharmos medalhas.
O desporto enquanto comentador, cá entre nós, devia ser modalidade olimpica. Com certeza teriamos melhores resultados.
Vão lá ler livros, ou pesquisar no Google, para perceber como se conseguem medalhas.
O desporto escolar, enquanto lá andei, resumia-se a jogar à bola 2h por semana. Era a única maneira de ter o campo disponivel, com justificação das aulas, sem levar nas orelhas dos rufias que lá andavam sempre.
Tendo em conta que muitos dos atletas viveram esta realidade do "desporto escolar" e vivem hoje a realidade da miséria do subsidio, é de considerar um milagre de Nossa Senhora, os resultados que temos.
Agora vou calar-me. Até um dia destes.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Os mestres são os que alcançam o dom de serem ultrapassados, desculpem, esta merda parece o Paulo Coelho; é o que dá um gajo tentar explicar as coisas

Se eu fosse o Henrique Raposo começaria este texto invocando a minha experiência neo-realista, onde avulta, nomeadamente, uma tia criada e residente, à moda antiga, em vivenda unifamiliar burguesa nos arvoredos solarengos da Parede, uma mãe despedida de uma fábrica de confeções pronto-a-vestir naquele vendaval histórico que consistiu na generalização dos prazeres sensuais do porco-doce e do frango com amêndoas, e um pai electricista, a quem explodiu um quadro eléctrico de uma fábrica numa inovadora tentativa para potenciar os seus rendimentos monetários através da combustão dos próprios tecidos faciais.

No entanto, nada disto me impede de olhar para a realidade com um sentido de exigência e compaixão. É verdade que por defeito profissional fui treinado para levar o raciocínio para além do que é socialmente aceitável, mas que outros não tenham recebido um treino idêntico não justifica inteiramente que se entreguem a uma espécie de repetição eterna das suas próprias limitações: veja-se o caso de Jorge Jesus ou Joe Berardo, onde cada um, canhestramente e à sua maneira, se desfaz em esforços para falar correctamente a língua portuguesa. Ora, é pegar nesse exemplo e tranportá-lo para o pensamento político: para hipnotizar essa entidade criada pelo século XVIII - a população - com um projecto político novo, é preciso pensar para além dos limites conhecidos, mesmo que isso nos exija uma ética ninja de auto-sacrifício e o manejo de estrela pontiagudas. Se toda esta artilharia moral, imprescindível para o rebetamento dos muros que erguemos à nossa volta para nos defendermos da imprevisibilidade da vida, vos parecer um exercício ridículo e cómico, posso garantir, com auxílio demonstrantivo de toda a comédia clássica e isabelina, que é três vezes mais cómico e ridículo ouvir alguém perorando repetidamente sobre os limites do seu quintal julgando estar a ultrapassar as últimas fronteiras do universo.

Pedro Passos Coelho, após ter rapado o cabelo num barbeiro em Massamá, e questionando os limites da sua incomensurável ignorância, ouve atento as explicações espirituais de Miguel Relvas, depois de este ter ficado cego ao tentar completar a leitura compreensiva de O Príncipe, de Maquiavel


Aqui neste local, o Daniel Oliveira presta-se à demonstração do singelo procedimento da indignação perante os outros, muito habitual nas pessoas bem intencionadas mas com pouco treino nas regiões inóspitas do desconhecido. Desse modo, confunde as percepções dos direitos com os mecanismos que permitem consagrar um determinado direito como legítimo. Não estou com isto a recorrer ao exausto argumento da força das circunstâncias, estou apenas a lembrar que as funcionalidades do dinheiro - para férias, para telémoveis ou para pornografia - dependem de consensos e efeitos de contágio ideológico (como a esquerda devia carinhosamente saber) assim como da própria aceitação da liberdade na distribuição das preferências, e em função de uma expressão numérica, em euros ou em dólares, ou em qualquer bem transacionável que passar a funcionar como unidade monetária. Quando se limita a distribuição dos factores de produção e dos recursos através de um processo qualitativo, acontece em geral, e como se confirma em todos os exemplos históricos conhecidos, uma forte limitação do número de participantes na decisão, e por conseguinte - citando José Guilherme Aguiar - também na democratização dos recursos. Aliás, a importância da expressão numérica é bem visível no mecanismo eleitoral da democracia que, apesar de tudo, se tem aguentado apenas porque se podem contar os votos. A introdução de critérios verbais - os famigerados valores - de justiça, equidade ou comunhão são muito mais difíceis de operacionalizar sem um instrumento de medida e geram, quase sempre, um sistema paralelo de autoridade assente sobre o mecanismo a que convencionámos chamar dinheiro.


Qualquer restrição da organização social - como a que é obscuramente proposta pelo Daniel Oliveira - implica um compromisso com a limitação destas funcionalidades do dinheiro e da sua relação com a representação da autoridade - que manifestamente tende a ser transferida para o sistema de preços nas sociedades modernas e é a principal causa do desconforto de pessoas como o Mário Nogueira. Ora, isto não significa nenhuma tragédia mas apenas a limitação relativa da liberdade, o que não devia fazer corar um socialista. Se as pessoas em vez de frequentarem programas de entretenimento na SIC fossem ler um bocadinho, chegariam à conclusão de que o falhanço rotundo de Marx foi não ter conseguido desenhar um sistema de autoridade alternativo, após um épico trabalho na demonstração da emergência do dinheiro como expressão das relações sociais.


Gisele Bündchen, a fim de que os leitores, eventualmente enfastiados com estas questões, possam descansar, por um momento, os instrumentos cognitivos.

Quando se começam a desenhar restrições políticas sobre a diabólica «economia», invariavelmente surgem palavras ou expressões como «mais democracia», «regulação», «distribuição da riqueza», sem que se perceba exactamente qual o pressuposto geral e coerente - e por isso manipulável pelo maior número de pessoas possível - capaz de fazer brotar esses maravilhosos conceitos no coração da república. Se estamos a falar da representação parlamentar deixem-me só ir ali ao canto rir um bocadinho. Se estamos a falar de outra coisa, palpita-me que temos de trabalhar mais e pensar melhor porque o que temos até agora é muito pobre. O maior erro da esquerda - e um erro que, por exemplo, Rosseau não cometeu - é subestimar o inimigo e não fazer a devida vénia à poderosa coerência interna de um sistema de autoridade sustentado, ainda que vagamente, na ideia de preço.

É preciso compreender que o capitalismo, sendo tremendamente injusto, é um sistema, e apenas será substituído por um outro sistema igualmente poderoso na sua coerência interna (como a esquerda, e a direita, já agora, carinhosamente deviam saber). Palpita-me que a força desse futuro sistema decorrerá, como sempre, do grau de legitimidade sobre os grupos que protagonizam os objectos fundamentais do desejo, e se as revoluções burguesas se legitimaram junto de banqueiros, industriais, negociantes, agricultores, um sistema mais poderoso do que o capitalismo terá que se legitimar junto destes e das classes vanguardistas. O problema está em saber quais são essas classes. Mas palpita-me que esses protagonistas não andam longe da blogosfera.

Partilho da concepção de que o país que ia em massa para a riviera Mexicana é um mau enredo de telefilme barato, mas o país que sofre a desorganização da finança, dos bancos e dos políticos corruptos é um outro telefilme quase tão mau como o prímeiro. Na verdade, não sabemos exactamente o que fazer, e muito menos alcançamos os impactos resultantes da satisfação dos nossos desejos, mas como todos queremos ir para o céu, desfazemo-nos em declarações sobre a salvação de todos e de cada um de nós, numa oratória incontrolável, à maneira dos povos pré-científicos. A crise apenas revelou o que para qualquer pessoa inteligente é uma realidade desde os primeiros contactos com o mundo dos vivos: que a direcção das coisas e o seu significado nos são completamente inacessíveis. 

Mas há uma boa notícia, pois estamos diante de mais oportunidade, não para empreender ou salvar Portugal - o excelentíssimo senhor primeiro-ministro Pedro Passos Coelho que se foda - mas para tentar de novo, e de uma vez para sempre com propósitos firmes e verdadeiros, a resposta à única pergunta a que vale a pena responder: quem sou eu?



Jean-Jacques Rosseau, a primeira pessoa a ter a coragem de ser uma pessoa.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

A psico-sociologia da problemática da problemática psico-social: tudo bem convosco?

A julgar pelo ritmo com que segue o debate psico-social neste blogue, estamos todos fodidos e sem dinheiro para divertimentos mais substanciais, e desde logo me assalta novamente o problema epistemológico da linguagem como veículo de comunicação, uma vez que se acabaram as minis no frigorífico. É preciso estar muito desesperado - como todos parecemos estar - para acreditar que chegamos a algum lado por intermédio do raciocínio não indexado a um projecto social eficientemente adaptado, por exemplo, um partido, ou uma editora de largo espectro, ou uma Igreja, e no entanto há qualquer coisa de perturbador no triunfo do relativismo cultural.

Não sei se já repararam mas não temos feito outra coisa senão cuspir nas virtudes da economia de mercado e da democracia constitucional. Longe de mim sugerir que essa não é uma actividade enobrecedora, mas preocupa-me que não consigamos colocar o problema em bases mais circunstacialmente históricas, tudo bem maradona?, uma vez que também sabemos que as problemáticas psico-sociais contemporâneas e as razões que fazem de José Luís Peixoto, João Ricado Pedro, valter filho da mãe, Rebelo Pinto, Júlia Pinheiro, enfim tutti quanti, são razões que se prendem com uma necessidade a preencher no coração do povo.

Sempre tive um particular carinho pelos jacobinos e o seu sonho de razão, mesmo que munido com a afiada precisão das lâminas (apesar das recomendações de calma da nossa comentadora Alma), mas a verdade é que as pessoas ganharam e isso devia encher-nos de alegria. No entanto, continuamos perturbados. Eu juro que quero acreditar num mundo em que os livros de Peixoto promovem a reflexão da Raquel - a nossa mais recente simpática comentadora - mas nesse mundo de pescadores e carpinteiros como autoridades da cultura há qualquer coisa que nos continuar a pertubar, a todos nós que somos filhos de pescadores, electricistas e carpinteiros. Para lá do clássico aforismo que não quer calar - não foi para isto que se fez o 25 de Abril - também não foi para isto que se fez a escola e o mercado da edição. Ou terá sido?

Toda a gente tem a liberdade de ser comentador, publicar um livro, dar entrevistas, ser um autor de referência. Porém, julgo que a nossa perturbação - a de todos aqueles que protestam contra a autoridade do real mas recusam igualmente o socialismo científico - nasce de um sentido de injustiça. Eu explico. Ainda ontem lia esse magnífico apontamento autobiográfico de Calvino, O Caminho de S. Giovanni, onde num primeiro texto se relatam as recordações de um passado traumático, narrado da perspectiva de um filho, a partir da relação com a sombra tutelar do pai, e após a grande pata da morte ter esmagado o único e frágil cone de luz que permitiria, a ambos, aceder a uma desmistificação final do problema. Estão a ver que este é justamente uma concretização por um grande escritor do tema apenas ligeiramente aflorado em Morreste-me, a obra fundadora da aventura Peixoteana. Ora, nada me move contra os leitores que se afundam privadamente na prosa incompleta e pouco esclarecida de Peixoto. Tenho pena que fiquem por aí, tal como tenho pena dos fundistas dos 10 000 metros que tropeçam na segunda volta e se estatelam na pista com aquele semblante entre a lebre esbaforida e o ladrão apanhado pela populaça em fúria. Porém, quando os meios de comunicação esmagam as alternativas de escolha e os programas escolares, os ministérios da educação, as gasolineiras, as mulheres bonitas, os cartazes histriónicos, as estações de rádio, os humoristas netos de industriais austríacos, começam todos a funcionar como um padrão automático e repetitivo, tenho sempre muitas dúvidas de que isso não represente efeitos perversos para a nossa liberdade e igualdade, para não falar da tão estimada possibilidade de escolha que parece estar na base de todo o mecanismo.

Quero dizer que a economia nos ensinou que o recurso escasso por excelência é o tempo, e se lemos Peixoto, não lemos Calvino. É verdade que a «mão invisível» devia guiar os nosso sentidos cegos de desejo, mas isso no que diz respeito a preferências do corpo. Quando falamos da lei da oferta e da procura de produtos ideológicos, será que nos podemos permitir o uso da força empresarial? Será que estamos a medir bem as consequências do abandono dos mecanismos de transmissão da cultura e do património dos nossos queridos antepassados a mecanismos de preço? Será que estamos conscientes de que não adiante financiar bibliotecas e sistemas de ensino clássico quando os mecanismos empresariais, em cujo seio se fundamenta o futuro, sabotam a cada momento esse legado com uma racionalidade baseada na ignorância da literatura? Deixar ao critério de um público não especializado a escolha dos candidatos às oportunidades de especialização na escrita não será um brincadeira que nos empobrece culturalmente? Será que a falta de sensibilidade a este problema, longe de ser uma manifestação de racionalidade democrática, não é apenas uma perda total do sentido do impacto das nossas decisões individuais na vida de todos?

 
No fundo, podemos dizer que a perturbação diante do espaço e prestígio adquirido por escritores incapazes de dialogar com a exigência e profundidade da galeria clássica, nasce de uma inquietação diante da manifestação da força bruta. O que quero dize desde o início deste post - e que a Raquel, nossa comentadora, confirma com a sua experiência, involuntária ou não - é que a ligação entre estes medíocres e a formação alargada das consciências, não só reduz a margem de manobra das pessoas, mais exigentes e cuidadosas, que em vez de se multiplicarem em livros e banalidades sobre o real, foram estudá-lo, pensá-lo, e tentar reflecti-lo antes de se pronunciarem sobre o que quer que fosse (o que significa que nós, as forças do bem, estamos a ser fodidos em termos de vantagem comparativa), como introduz um esmagamento da invididualidade que é exigente consigo própria (e que penso ser a única forma de salvar a relação entre a igualdade e a liberdade), e uma menorização total das potencialidades do diálogo do indivíduo com o passado histórico e o presente colectivo, transformando a cultura individual no simples eco das relações de mercado. Isto é, sempre me pareceu que um Peixoto, um valter filho da mãe ou mesmo um Gonçalo M. Tavares são o triunfo do escritor profissional pós-industrial e digital, isto é, o equivalente usa e deita-fora, repete, usa e deita-fora, repete, em total articulação com as formas de comunicação modernas.

Nisto, julgo que chegamos a um ponto irreconciliável entre nós, os que pensamos, e todos aqueles que compram e consomem peixotices e tavarices. Se isto é apenas uma manifestação de pedantice da nossa parte, ou um sincero grito de alerta sobre o caminho que estamos a tomar na reificação das nossas referências culturais, é o que pretendo saber de vossas excelências. O mundo não vai acabar, eu sei, mas convém que estejamos, nós os inteligentes e excluídos, conscientes do arranjinho que nos prepararam ou que nós, com a nossa teimosia, preparámos a nós próprios.

Neste sentido, apesar de ser um adepto do bucolismo estóico - tendo já preparada a minha taça de Casal Garcia com 605 Forte - não posso concordar com José Mário Bronco quando sublinha que a solução é ignorá-los. Para terminar, vou resistir à comparação com o nazismo - o que desde logo atesta a minha qualidade intelectual - e recorrer à sabedoria popular: «enquanto o pau vai e vem folgam as costas, mas se ignoras o pau abelhudo, mais tarde ou mais cedo, levas com ele pelo buraquinho ao fundo das costas».

Por falar em pós-modernismo

Quando a minha mão involuntariamente agarrou neste livro, o meu cérebro não estava à espera de uma narrativa a la José Dan Brown Rodrigues dos Santos. Mas pagar por um texto com a qualidade dos acetatos com que a autora enfastidia os seus alunos, é no mínimo aborrecido. Nem todos podem ser José Hermano Saraivas, é certo. Mas isso não desculpa os parágrafos incompletos, quando não estão fora de sítio, e as páginas inteiras a falar de Afonsos, Sanchos e Leões sem mencionar a nacionalidade ou cardinalidade.

O que no fundo faz pena. Que professoras doutoras não sejam capazes de adaptar o discurso para matarruanos como eu. Ou, o que é pior, não se darem ao trabalho exactamente pelo facto do público alvo ser uma massa informe de iletrados. Já no primeiro livro da série, o José Mattoso safou-se com uma referência da Wikipédia que eu aposto singelo contra dobrado, ter sido colocada por um aluno voluntarioso. Não é preciso, não é necessário e mete dó.

Os autocarros da Vimeca

 não foram feitos para certo tipo de livros.



sexta-feira, 20 de julho de 2012

Utilitas expressit nomina rerum

Este verso pertence a Lucrécio e sintetiza com particular acuidade - espectacular palavra deduzida de um setubalense a dizer cuidado - o problema que me tem problematizado os cornos nos últimos meses. Mas que caralho é o sistema mediático, qual o seu modus vivendi - como perguntaria logo de jacto um Pimenta Machado - e que consequências psico-sociais terá esta merda toda da comunicação de massas para todos nós, os que somos, e permanecemos, pessoas sensíveis? Todos os meus amigos me têm recomendado que aprenda a enfiar no cu a relatividade do real, ou seja, sabendo que a comunicação cultural reflecte um dado modelo-padrão (para o qual ainda não foi inventada a respectiva física de partículas) que não pode ser descrito por um critério de justiça, mérito, força ou inteligência, resta-nos, ao que parece, circum-foder-mo-nos todos em espiral nesta grande roda-vida do planeta, essa bola de lama que pelo espaço vai como a andorinha, nas palavras desse inesquecível homossexual de Leça da Palmeira, António Nobre.


Como estou particularemente cansado, recorro à própria raiz e prova do problema, anexando um texto, e recorrendo à impunidade do on-line (para citar Nuno Markl) em que se dá um significativo contributo para a resolução do problema do romance português contemporâneo, colocando de uma só vez as várias perguntas que não podem, nem querem, calar:

a) alguém me pode explicar qual o conjunto de mecanismos lógico-dedutivos que podem eventualmente impedir-me de injerir dois litros de cerveja em face da desoladora evidência constituída pelo facto de mediocridades como Luís Pedro Nunes dirigirem suplementos humorísticos em jornais de referência, e comentarem referencialmente em programas transmitidos por estações de televisão em canal aberto, e textos como o que abaixo se anexa, andarem refundidos em caixas de comentário de blogues?

b) Não teremos aqui um problema típico das teorias da revolução? Não teremos chegado ao momento em que as caves, os prostíbulos, os caixotes do lixo abundam de pessoas qualificadas e os pedestais estão repletos de ceguinhos músicos? Haverá alguma desculpa econométrica para que não tenhamos um sistema que nos permita aceder a inteligências como a de José Mário Bronco em substituição de imbecis como valter e peixoto nos nossos jornais culturais?

c) Alguém terá a tentação de me responder que para isso é necessário que os bons queiram enfrentar os maus?

d) Mas estará cada um de nós a dar o seu contributo para esta triste situação?

e) Teremos nós coragem para chamar o membro da família que oferece um mau livro e aplicar-lhe o mesmo tratamento que aplicariamos se esse familiar fizesse cócó no meio da sala?

f) Será que isto não tem importância nenhuma?

g) Tal como escreveu Duarte Nunes de Leão, em 1601, não será de pensar que tão indecente é sair da boca de um homem de alto lugar e nobre criação uma palavra rústica e mal composta como de uma bainha de ouro e rico esmalte uma espada ferrugenta?


Escusam de invocar razões de gosto médio ou mecanismos de mercado, pois não tenho feito aqui outra coisa senão demonstrar cabalmente como a explicação da política editorial e mediática com base na eficiência financeira da empresa é um dos maiores disparates desde a cura do paralítico na piscina de Silhué. Descontando o elogio à minha irrepetível personalidade - e descontando a shakespereana eficácia do broche mútuo na apreciação das personalidades, uma vez que as forças do bem precisam de unir-se - esta merda aqui em baixo é ou não é um texto de inegável gabarito?




José Mário Bronco, comentador de A causa foi modificada, a 18 de Julho de 2012 às 21:50

O maradona fez um post com muitas letras e sem fotos de desportistas nús, o alf deixou aí uma cena bem esgalhada e eu vou largar um pós-ensaio. Não é isto o sonho de qualquer contribuinte?

A imagem é uma boa imagem e eu não demorei mais de um minuto a apontar com o dedo onde ficam St. Andrews e Carnoustie. Num futuro ensaio publicarei aqui as minhas opiniões sobre o Dr. Passos Coelho, o Dr. Salazar, o Prof. Aníbal António e o General Marechal Almirante Capitão de Fragata-e-Optimist Vasco Gonçalves. Até lá, para não dizerem que vim aqui debalde, deixo-vos umas impressões sobre literatura e pós-modernidade, um tema que calha mesmo a jeito no meio desta canícula.

A literatura, no meu caso, é inversamente proporcional ao ténis. Isto é: de ténis falo muito mas não pego numa raqueta há 14 anos e 234 dias, a data em que perdi num dos campos de terra batida do Clube de Ténis do Estoril com uma gaja a quem andava a tirar as medidas, tendo que passar pela humilhação de ouvir da parte dela um “desculpas...”, depois de no fim do jogo lhe ter dito que a prática do golfe me prejudicava a competência no ténis. Já de literatura, não falo muito mas sei bastante. E é chegado o momento de não ser egoísta e partilhar com os restantes causídicos o que sei. Nesta época, os jornais que não têm nada para dizer, fazem umas secções que eu analiso sempre com muito interesse, chamadas Livros para Férias ou uma merda assim. O que não é de admirar: dadas as capacidades de expressão oral, escrita e de raciocínio da maioria dos jornalistas, está na cara e no cú que eles lêem a Danielle Steel e apenas nas férias.

Vamos ao assunto que tem sido imensamente debatido nos jornais e nos fóruns da TSF: a pós-modernidade literária. Tendo eu passado com olímpica indiferença ao lado da obra do Gianni Vattimo, aquela que todos os wannabes intelectuais balbuciam sempre que querem debitar larachas sobre pós-modernidade, nem isso me impede de ter ideias definitivas acerca da problemática. E atendendo a que a pós-modernidade literária é o tema do momento até nas capas da Bola, uma vez que este ano o Benfica não está a cumprir o seu papel de animador do mercado, mostrando-se interessado em todo e qualquer cromo que dê um pontapé numa bola, de modo a valorizá-lo para que ele até pareça jogador de futebol, vou também dar o meu contributo acerca do assunto porque isso me vai permitir praticar um dos desportos nos quais eu sou brilhante, que é dar pancada em escritores semi-analfabetos de tendência pós-moderna, categoria em Portugal muito bem representada pelo Peixoto e pelo Valter Filho da Mãe.

Os escritores pós-modernos já não têm que saber escrever. Isto não é uma MAB (metáfora à Bronco). É mesmo verdade, verdadinha. Na modernidade escreviam-se maus livros mas os escritores sabiam escrevê-los. Agora os escritores já nem têm que saber escrever. Basta ouvir o Peixoto a falar – qualquer coisa entre o electricista e o ciclista – para perceber que o gajo deve dar uma trabalheira ao desgraçado do revisor dos seus textos, para deixar aquela treta em forma de texto legível. Mas a diferença entre modernidade e pós-modernidade nem se resume apenas à escrita das letrinhas, facto recentemente confirmado pelo próprio Filho da Mãe que disse, não sei onde, que agora já usa maiúsculas. Vejam bem, no caso do Filho da Mãe, a pós-modernidade manifesta-se não só no desconhecimento da capacidade de escrever, como no desconhecimento até do modo como funciona um teclado de computador. Deve ter sido o Peixoto que lhe disse que se ele carregasse na tecla shift em simultâneo com as letras, elas depois apareciam em maiúscula no ecrã. Um dia o Peixoto ainda vai dizer isto à fERNANDA cÂNCIO. Esta malta da esquerda são todos amigos uns dos outros e tratam-se todos por tu e isso também deve servir para se ajudarem uns aos outros.

Portanto, a pós-modernidade é uma espécie de categoria que serve apenas para referir gajos que têm a mania que sabem escrever, categoria essa onde não estão apenas estes modernaços de t-shirt preta. Está lá também o Saramago, a Inês Pedrosa, 99% dos jornalistas escritores e todos os que querem ser Lobo Antunes, incluindo o próprio Lobo Antunes. É justo dizer que destes todos só li Saramago – não gostei – mas isso não altera em nada a verdade daquilo que afirmo.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Carta aberta a maradona num dia especialmente triste para o Benfica

Neste momento particularmente difícil para toda a nação, uma vez que a Igreja parece querer reentrar no circunstancialismo histórico que nos determina, não posso estar de acordo contigo, maradona, e acredita que isso me entristece, por razões que não posso agora explicitar.

Na verdade, incorres num erro típico de quem não fez estudos aprofundados de economia, e nisso estás acompanhado por Vítor Gaspar e Passos Coelho, isto é, insistes na ideia de que o circunstancialismo histórico concorre para a explicação da merda que somos. Com efeito, a menos que te tenhas tornado um corioláceo (mistura de crustáceo com Coriolano) defensor do marxismo, a economia neo-clássica de Becker e Friedman mostrou gloriosamente que as sociedades são livres para se foderem à vontade e não necessitam de ajuda da história ou de um mediocre como António José Seguro.

Ressalvas, e bem, que apenas a invenção de um sistema de previsibilidade nos poderá garantir um futuro digno de um panfleto das testemunhas de Jeová (mas apenas com as americanas loiras e boazonas e sem os leões) mas eu pergunto, porque gosto de perguntar coisas: e se a inconclusão das políticas de Passos Dias a Foder Portugal Coelho for precisamente o garante de uma situação de caos que precipite os incentivos necessários para que génios como tu passem a gastar o seu tempo com uma exacta reflexão sobre a forma de representar a previsibilidade, eliminando de uma penada os partidos, em vez de andarem a coçar os tomates na blogosfera porque se realizam profissionalmente numa outra merda qualquer que a estabilidade do sistema ineficientemente, do ponto de vista do bem comum - peço desculpa -, vai garantindo?

É bom de ver que estamos em pleno território da teoria da agência e um dos sinais de que uma teoria é boa - e deus abençoe a boa e rara teoria económica - é a sua capacidade de sendo um instrumento estar completamente esvaziada de todo o valor político, necessariamente subjectivo, personalista.
Ora, a assunção do interesse de Portugal nas tuas linhas é um desgosto que não posso deixar passar em claro, e o facto de achares que a mudança do mundo, que necessariamente não depende de nenhum circunstancialismo histórico mas apenas das leis da física, possa ficar entregue aos burros e ignorantes do 5 Dias, é um dado que me enche de melanconia, como dizem os italianos.

Na verdade, o que é fascinante na teoria económica, a verdadeira, única e anjelical, e que ninguém lê, pois está encerrada em livros dos anos 30 que não falam nem de Keynes nem de ajustamentos, é a clara separação entre as consequências dos nossos actos - por exemplo, retribuir ao mundo empresarial Passos Coelho - e o juízo político e moral sobre essas consequências. Ou isso ou alguém vai ter que explicar qual foi o circunstancialismo que explica que a Alemanha tenha produzido Bismarck, Hitler, Brant e Merkel quase no espaço de um século. Ok, não foi um bom exemplo.

Mas, em todo o caso, pelo menos, a fazer fé nesse circunstancialismo histórico, teriamos que explicar em que medida é que Salazar não foi capaz de fazer mal a Portugal para lá do seu circunstancialismo (geográfico, astrológico?) e em que medida é que o circunstancialismo de D. João II e D. Manuel lhes permitiu inspirarem uma música a Carlos Paião que conclui gloriosamente que num passado longínquo quase chegámos a ser alguém?

Como estou ligeiramente embriagado termino com uma recomendação. Não terá chegado o tempo de os indivíduos se deixaram de colectivismos e deixarem que o circunstancialismo histórico, na medida em que não determina o que quer que seja, permita que as coisas possam ser o que na realidade são, sem que estejamos sempre a tentar que as coisas sejam os que nós pensamos que são? Para isso só vejo um caminho: fazermos silêncio.

Introdução à minha teoria de que isto está finalmente a aquecer, caralho


Jack Nicholson




D. Januário Torgal Ferreira

terça-feira, 17 de julho de 2012

Introdução imagética à minha teoria dos erros imperdoáveis na especialização profissional



Vladimir Nabokov




Alberto João Jardim

Sob o manto diáfano da preguiça, a nudez forte da desistência


Um estudo encomendado por um dos departamentos deste blogue, o gabinete de relações públicas para o comércio asiático, chegou a uma conclusão inesperada: o post mais visitado versa sobre José Luís Peixoto. Isto significa que as pessoas andam desesperadamente a tentar explicar com os próprios e pobres meios de que dispõem - a Google e o Professor Doutor Marcelo Rebelo de Sousa - a origem do fenómeno literário português. Volto a estas personagens e problemas com alguma recorrência (peço desculpa aos mais urbanos e preocupados com a qualidade da atmosfera) porque também o Jornal de Letras, que cadavericamente agoniza dependurado por molas da roupa nos estendais dos quiosques, faz questão de recorrentemente brindar o público que transita pelas avenidas com as peças literárias dos referidos autores. Se os livros são maus, a cronística de hugo mãe e Peixoto é francamente monstruosa, deficiente do ponto de vista técnico, muitas vezes ilegível e imprecisa nos seus argumentos, além de assustadoramente entediante, o que se explica em duas proposições simples: a) é muito mais difícil escrever pouco que muito; b) sem a codificação imbecil do jargão psico-afectivo, toda a ignorância militante se torna uma inevitabilidade transparente e nua. Seria preciso procurar nas leis obscuras da psicologia - uma ciência morta desde os anos 30 - e na economia - uma ciência morta desde o século XVI - os vectores que empurram o jornalismo cultural para a extinção. Se a pergunta «mas quem raio compra o Jornal de Letras» fizesse algum sentido, talvez pudessemos responder que a captura da indústria do livro pelas forças do mal é um problema que espera o seu analista e Oceano Cruz parece indisponível neste momento. Aos que respondem sistematicamente com a perversão do mercado, respondo que a distribuidora dos livros de valter hugo mãe faliu recentemente e concerteza não foi por falta de visibilidade de um dos autores distribuídos. Será que os livros que por aí se vendem aos milhares são uma grande merda e não se aguentam em corridas de fundo? Será que as editoras, ao viciarem as recepções do público com a visibilidade do produto, estão agora a morrer sob o efeito doce do seu próprio veneno, pois ao suspenderem o gosto especializado e impedindo, ou não promovendo, o florescimento da crítica, neutralizaram os mecanismos lendários e ancestrais de aversão ao risco no mercado do livro? A história empresarial está cheia de pequenas anotações à teoria da galinha-dos-ovos-de-ouro e não vou aqui desenhar uma introdução à vida e morte dos mortos-vivos, isto é, o mundo editorial em papel.

Termino com uma pergunta que não me deixa dormir desde os 14 anos: será que as pessoas seguem o critério quantitativo (livros mais vendidos) para não terem que pensar sobre o que compram? Sendo assim, não será o mercado, um magnífico e espectacular i-pad político-colectivo para fugir à enlouquecedora e escolástica questão da vontade, uma vez que ter preferências, justificadas e individuais, cansa muito e exige tempo, o que dada a divisão e especialização do trabalho (a minha equivalência pessoal para o diabo), se tornou no grande problema da modernidade? Claro que sim, apenas pergunto para acordar os que possam andar por aqui a dormir. Na minha modesta opinião, continuo a pensar que a culpa é toda minha, e dos que podendo fazer melhor (sim, é esta a expressão exacta) se revelam demasiado lentos e idiossincráticos para as grandes e profundas necessidades do mundo.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Uma pechincha alf, comprei os 2 por menos de 13€

e a adorar ler o primeiro, embora com as dificuldades inerentes à leitura do texto original, não sendo eu propriamente um marinheiro. Lá chegarei ao Joyce.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Verão Irlandês

Já que estou numa ilha no atlântico norte, desejo-vos um bom fim de semana e vejam isto:



não tenham pressa, take your time.

Impunidades on-line, humor português e humoristas irritados: alguns aspectos

Vamos falar da sua história. De onde vem o nome Markl?
Da Áustria. O meu avô era austríaco, foi um dos fundadores da Tudor em Portugal. Hoje não falo nada de alemão, nem nunca fui à Áustria, embora tenha lá família.

Conhece bem os dissabores da popularidade do online. Teve de fechar a parte de comentários do site, tem clones no Twitter - pessoas que se fazem passar por si...
Penso que são sempre os mesmos, que querem enervar e desestabilizar. Bem, enquanto se mantiverem online tudo bem, só não me dava jeito que me espetassem uma faca... Vou interpor uma acção judicial, embora seja um oceano tremendo de chatices. Por isso é que muitas celebridades lá fora têm clones e já desistiram de se chatear - deixam-nos à solta. Eu decidi fazê-lo porque me irrita profundamente a impunidade do online. É preciso dar um exemplo, essas pessoas têm que aprender uma lição.

***
As explicações dos fenómenos humanos baseadas em teorias de cunho geracional induzem quase sempre os analistas de vários tipos a incorrerem em erros grosseiros, nomeadamente o esquecimento de que qualquer comportamento adaptativo é condicionado pela competição entre indivíduos da mesma geração. Esta primeira frase saiu-me mal e serve aqui apenas como pretexto para uma introdução à minha teoria do humor em Portugal depois do 25 de Abril de 1974. Aliás, não é sequer uma teoria: é uma posição de fundo que assume contornos analíticos para que o leitor não fique a pensar que sou só mais um ressabiado que vem para a blogosfera descarregar o insucesso, a incapacidade de realizar projectos e uma quantidade astronómica de insultos acumulados silenciosamente em casa, no trabalho e no café. Talvez o aspecto mais enervante das figuras públicas é que explorando, justa e legitimamente, os benefícios comerciais e políticos da exposição pública, julgam-se no direito, justa e legitimamente, de recorrer ao estado policial para extrair da popularidade todos os aspectos nefastos dessa mesma exposição que lhes permite, justa e legitimamente, encher os bolsos. Eu sei, eu sei, há um código civil e penal que prevê todos os comportamentos ilegítimos. Mas todos sabemos que esse mesmo código é repetidas vezes violado pelos próprios humoristas, pelo que o problema emerge apenas quando o primo da província nos bate à porta: perdemos o humor.
***
Na verdade, não consigo deixar de pensar que a genialidade de Ricardo Araújo Pereira e Nuno Markl é apenas uma espécie de equivalente lúdico do caso Miguel «Maquiavel» Relvas. É verdade que têm sido feitos esforços incomensuráveis para nos convencer de que Araújo Pereira e Nuno Markl são génios que não conhecem limites mas como o próprio Araújo Pereira já várias vezes humildemente confessou em público, talvez esta gente não passe de um conjunto de indivíduo um pouco parvos, e é bom que os portugueses comecem a convencer-se de que Araújo Pereira e Markl podem mesmo ser apenas uns tolos que descobriram uma forma pouco trabalhosa de ganhar dinheiro, fingindo que são críticos mordazes do poder. Queria relembrar toda a humanidade que estes brilhantes e geniais humoristas, e indivíduos igualmente dotados de grandeza humana - como diria valter hugo mãe - são uma espécie de Miguel «Maquiavel» Relvas da Comunicação Social com cursos técnico-profissionais de jornalismo e licenciaturas na Universidade Católica. Nada nos garante que sendo, por exemplo, Araújo Pereira licenciado em Ciência Política em Harvard, isso lhe permitiria ser mais engraçado do que Miguel «Maquiavel» Relvas, ou que sendo Markl licenciado em Engenharia pelo M.I.T isso lhe garantiria uma representação mais repugnantemente cómica do que a movimentação de lábios de Mira Amaral, mas pelo menos talvez um pouco de escolarização de qualidade fosse o suficiente para nos salvar de textos absurdos e preconceituosos como o que Araújo Pereira publicou recentemente na Visão, defendendo os salários dos Enfermeiros por comparação com as mulheres da limpeza. O que esse texto assinala é a existência de um ponto de inversão em que o humor se transforma num problema, subjugando o raciocínio político em função do mecanismo retórico, indo por vezes ao ponto de subverter o próprio pensamento do autor, como julgo ser o caso de Araújo Pereira, um manifesto adepto do socialismo, que está a tentar encontrar financiamento para fazer cantar o amanhá nos cofres da Portugal Telecom.
***
Quero deixar claro que este post não pretende insultar ninguém, até porque não quero chatices com os poderosos escritórios de advogados que servem Araújo Pereira e Markl. Apenas gostaria, se me é permitido, sublinhar a dificuldade de ultrapassar os limites profissionais e a especialização do trabalho colocada pelas sociedades monetarizadas. Se Araújo Pereira se dedicar a aprender em Shakespeare (uma vez que parece ser uma pessoa que gosta de comprar e ler o seu livro, de vez em quando) e acompanhar a evolução do bobo de Rei Lear, verá que existe uma grande diferença entre o humorista mediano que é um virtuoso do pensamento - o que lhe permite exercer a independência crítica e manter-se abaixo do nível salarial médio na sociedade medieval britânica - e o humorista virtuoso mas que é um Mira Amaral do pensamento político. A solução não passa por constituir uma comissão de censura mas por reconhecermos todos que o riso, como tudo o resto, também não é uma solução para nada, e isso, por si só, dá imensa vontade de rir, e permite facturas de televisão, net e telefone muito mais baixas já que descontando os engraçadinhos, não teriamos que «pagar a propaganda», como diriam as nossas avós.
***
Não quero com estas linhas entrar no debate acerca do provincianismo dos portugueses, um provincianismo supostamente assinalado, segundo voz corrente, por uma sobrestima dos cursos universitários, popularizada na expressão «o país dos Doutores» - embora recomende a todos os leitores que consultem as estatísticas da OCDE e sustenham o espanto ao descobrir que temos níveis de licenciados abaixo da Turquia e da Grécia, dois países muito provincianos, mas muito menos do que os campeões em licenciaturas, a Inglaterra, Suécia, Dinamarca e Holanda, EUA, Canadá, etc, enfim, sociedades tão provincianas, mas tão provincianas que nem nos merecem aqui qualquer comentário. O que pretendo com estas linhas é apenas chamar a atenção para o que andamos aqui a fazer quando promovemos como líderes culturais os tolinhos da turma ao longo dos anos oitenta. Quem não se lembra de ter um Nuno Markl sentado na cadeira ao lado: o gajo filho de pais licenciados, que não fazia a ponta de um corno em virtude de um misto de irresponsabilidade e «costas aquecidas» pelo dinheiro da família, com um inegável, é justo reconhecer, sentido de auto-ironia - até porque eram gajos normalmente relativamente aproximadamente feios e um pouco toscos na abordagem ao sexo feminino (as gajas, ao contrário do mito que por aí circula, não gostam assim tanto de engracadinhos). Quem não se lembra de dar umas lambadas nos costados desses gajos, quando faziam merda num lance decisivo na final desportiva da escola, e quem não se lembra da sua capacidade para logo transformar tudo numa irrelevante gargalhada, mesmo uma goleada humilhante perante a turma de desporto, porque afinal de contas vamos todos morrer. Claro que vamos todos morrer, mas escusamos de ser goleados em vida. Ao que eles opunham que não há matéria que não possa ser desfamiliarizada da sua gravidade com um bom dispositivo cómico, até porque o homem é o animal que ri, e aqui caros leitores, emerge a cabeça monstruosa do problema.
***
Afinal, quando nada o fazia prever, eis que o humorista veste a casula e começa a dar ordens sobre o que é afinal o «Homem». Ou pior ainda, sobre o que é a «mulher». Já não faltam sequer mulheres que respondem aos inquéritos das revistas sublinhando o sentido de humor como a qualidade mais apreciada num homem, o que não só constitui um insulto à masculinidade, como uma repugnante mentira. Sempre gostava de ver a reação dessas pessoas a uma piadinha do respectivo companheiro versando sobre o tema celulite, ou a uma anedota sobre as conversas sistemáticas em torno da qualidade da «relação», ou a um dichote clássico sobre comprimentos dos pés e a estrutura do lava-loiças, ou um aforismo galhofeiro sobre a altura da mulher e a sardinha. Enfim, a boçalidade cómico-pornográfica está inscrita no ADN masculino e não me parece que isso seja grandemente apreciado pelas mulheres. Na verdade, começo a ter uma sensação desconfortável perante a gargalhada constante, e julgo que não incorrerei na pena de morte, se sugerir que o humor se transformou na religião do século XXI. No momento em que a comunicação de massas e o público se transformaram nos soberanos consistentes da consciência colectiva, quem não ri, não é bom chefe de família. É verdade que o riso nos torna a vida mais fácil e constitui uma espécie de canivete suiço para qualquer problema, mas isso, também o vinho, é verdade que com mais efeitos secundários, mas respeitando mais a liberdade criativa de cada pessoa - o vinho possui a democrática capacidade de transformar Cavaco Silva num Ricardo Araújo Pereira - além de um aparente melhor desempenho na criação de emprego.
***
Não quero deprimir o fim-de-semana do auditório e termino com uma invocação moralista e tão sisuda como a parenética barroca: que é o riso sistemático se não a apoteose triunfal da técnica sobre a variedade da linguagem?

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Juro solenemente comprar atempadamente uma máquina de fazer broches ao Nuno Markl

June 7
cinco para a meia noite.
foi um prazer grande estar à conversa com o nuno markl. por muitas vezes pude comprovar a sua grandeza como indivíduo e inteligência como humorista.
muito me honra o seu apreço, e muito me alegra que tenhamos gente assim nos nossos media.

valter hugo mãe prima tio pai tu aí, eh, estás a ouvir ou não, caralho?


Uma pessoa pergunta-se porque razão a grandeza dos indivíduos está tão mal distribuída quando comparada com a tendência abundante da pequenez nos mesmíssimos indivíduos. Antes que as pessoas comecem a deixar na caixa de comentários silogismos e aforismos sobre a inveja e o ressabiamento dirigidos à minha frágil e psicopata consciência, quero expressar aqui todo o meu apreço por valter hugo mãe, uma pessoa simpática, sem culpa nenhuma do que lhe está acontecer, no fundo, uma vítima da grande roda da fortuna. Quero lembrar aqui as palavras do grande secretário florentino, Miguel Maquiavel Relvas: o problema das pessoas é não saberem muito bem onde está o seu verdadeiro interesse profissional. Ou muito me engano ou valter hugo mãe seria um espectacular animador cultural de província e programador de sessões de poesia se a puta da ambição o não tivesse desviado por maus caminhos. Quem pode dizer que está completamente livre de fazer um broche a Nuno Markl uma vez convidado para essa máquina de fazer tostões, a rádio difusão burguesa? No meu caso, apenas prometo ao grande público que se o tiver que fazer, serei discreto, e não virei para o facebook tirar pelos da língua. Chorarei lágrimas amargas na solidão do meu quarto, jurando à virgem e aos santos nunca mais cometer tal pecado, enquanto afago o recibo de vendas das minhas obras completas.

Antes que os mais imbecis sejam tentados a ler isto como uma manifestação de homofobia, declaro que neste caso, a inveja das pessoas que têm sucesso se sobrepõe claramente à minha tendência para a descriminação de minorias. Também costumo nos meus tempos livres acender velas a Estaline, assaltar velhinhas, insultar africanos e profanar cemitérios judaicos, tendo ainda um considerável apreço pelo Inspector Rosa Casaco.