Os donos de Portugal:
Lamento profundamente a minha ignorância e inoperância face a isto. Vai correr mal a minha semana.
segunda-feira, 25 de junho de 2012
Um país a beira-mar plantado
“existem condicionalismos que dificultam a rapidez da tramitação processual das decisões administrativas”
para alem desta frase belíssima digna de um romance, esta história (diga-se como tantas outras) reflectem o que verdadeiramente somos. quando é que portugal joga mesmo?
para alem desta frase belíssima digna de um romance, esta história (diga-se como tantas outras) reflectem o que verdadeiramente somos. quando é que portugal joga mesmo?
quarta-feira, 20 de junho de 2012
segunda-feira, 11 de junho de 2012
As analogias são tramadas
Moço, olha que não. Se o ponto fundamental do argumento é que a FPF tem o monopólio dos futebóis para Portugal, confesso que não vejo como é que poderia ser feito de forma diferente.
Dito de outra forma, não penso que seja razoável ou sequer factível a existência de múltiplas federações de futebol, cada uma a organizar os seus próprios campeonatos, com as suas próprias equipas nas competições internacionais e a concorrerem entre si pelo apuramento ao Euro ou ao Mundial. Acho que nos primórdios do futebol português existiram de facto vários campeonatos regionais, mas já não estamos no tempo em que o guarda-redes não podia agarrar a bola com a mão.
O monopólio da FPF parece-me que é um exemplo típico de monopólio natural, e que não deve ser metido no mesmo saco dos subsídios encapotados à cultura. Pondo de lado a máfia organizada que é a UEFA, não creio que os portugueses estivessem melhor se o Estado periodicamente cobrasse uma taxa pelo monopólio do futebol, como faz por exemplo pela utilização do espaço electromagnético. Não existe concorrência à FPF, e não creio que venha a existir à cause de l'UEFA et mons. Platini. E para além do circo montado à volta da seleção, existe toda uma silenciosa estrutura que organiza e mantêm campeonatos regionais e vai dando formação a muita miudagem por esse país fora. Tal como fazem as restantes federações, diga-se de passagem.
Dito de outra forma, não penso que seja razoável ou sequer factível a existência de múltiplas federações de futebol, cada uma a organizar os seus próprios campeonatos, com as suas próprias equipas nas competições internacionais e a concorrerem entre si pelo apuramento ao Euro ou ao Mundial. Acho que nos primórdios do futebol português existiram de facto vários campeonatos regionais, mas já não estamos no tempo em que o guarda-redes não podia agarrar a bola com a mão.
O monopólio da FPF parece-me que é um exemplo típico de monopólio natural, e que não deve ser metido no mesmo saco dos subsídios encapotados à cultura. Pondo de lado a máfia organizada que é a UEFA, não creio que os portugueses estivessem melhor se o Estado periodicamente cobrasse uma taxa pelo monopólio do futebol, como faz por exemplo pela utilização do espaço electromagnético. Não existe concorrência à FPF, e não creio que venha a existir à cause de l'UEFA et mons. Platini. E para além do circo montado à volta da seleção, existe toda uma silenciosa estrutura que organiza e mantêm campeonatos regionais e vai dando formação a muita miudagem por esse país fora. Tal como fazem as restantes federações, diga-se de passagem.
segunda-feira, 4 de junho de 2012
Anda um tipo
com vontade de mandar uns engraçadinhos para a cona da meretriz que os colocou neste mundo, e depois descobre isto no Youtube e eis que a fé na humanidade é de novo restaurada e a violência adiada por mais uns dias.
sexta-feira, 1 de junho de 2012
Se forem a Madrid nunca comam sandes de tortilha
Às vezes pergunto-me sobre quais as razões que justificarão a minha auto-confiança tendo em contas as péssimas condições iniciais. O facto de nada ter publicado ainda, ou o singelo evento que consiste em não ter amigos, pais, irmãos, periquitos premiados pelas várias disciplinas olímpicas actualmente praticadas nas inúmeras piscinas da cultura, apenas aprofunda uma persistente modelação do meu poder criativo, que vai da academia até ao comentário exegético de manuscritos inéditos. Este anonimato reforça a imparcialidade sobre a própria dor (quinta essência do literatura) e ergue com visível maestria e realismo toda uma série de moinhos de vento que rodam as suas pás ameaçadoras no ondulante e infernal horizonte desta lateralmente exaurida Castilha-la-mancha chamada Portugal. Mas estou com pensamentos universalistas e recupero toda a energia necessária para prosseguir o meu difícil trabalho, acabando com todas as minhas incertezas no domínio artístico, ao constatar que sou o único ser vivo, pelo menos com potencialidades de replicação genética intactas, capaz de se lembrar (enquanto vomita três vezes uma tortilha numa casa de banho de Madrid) que Herbert Simon é talvez aquilo que mais se aproxima de Kant neste pobremente filosófico século XX. Nisto, torna-se ainda mais evidente qual a especificidade que faz a minha potencialidade como escritor, que neste blog (entre as leituras, essas sim, essenciais, e as várias frustrações desportivas) emerge apenas como epifenómeno: nada mais, nada menos do que o conhecimento rigoroso e assombradamente consistente das limitações da minha racionalidade. Neste sentido, é muito importante olhar para a infância e ver apenas muros muito altos. A vingança, e não a justiça, é o verdadeiro coração da revolução. A raiva, e não a sensibilidade, é o verdadeiro motor do génio artístico. Acho que já o repeti aqui demasiadas vezes. As coisas que nós fazemos para nos convencermos de que temos razão.
quinta-feira, 31 de maio de 2012
quarta-feira, 30 de maio de 2012
Depois de um inicio de semana em queda
eis que hoje recuperamos com um passeio de bicicleta e uma musica dos homens que andam. Grande video e musica:
segunda-feira, 28 de maio de 2012
O liberalismo é isto mesmo
Como é evidente, estou a ler. Mas conto-vos uma coisa. Há dias cruzei-me com uma antiga colega de faculdade, durante a travessia de uma passadeira, ao longo de uma avenida semi-movimentada, um evento normalíssimo, uma coisa sem nenhuma importância, uma casualidade nem sequer dotada das características dos acontecimentos de baixa previsibilidade. Acontece que a pessoa em causa fingiu que não me viu. «Mas que merda é esta?» pensei de imediato, na medida em que é possível dizer que se pensa qualquer coisa consistente e inserida no tempo. O primeiro impulso foi o da incredulidade, o segundo o da negação, o que me levou a relampejar com os meus olhos lama-verde-água o evento noticioso que faiscava no painel electrónico. Porém, não tendo obtido salvação, não me restou se não conjecturar duas hipóteses: ou está cada vez mais maluca (a pessoa em causa é ligeiramente perturbada, no sentido em que é uma daquelas personalidades que na falta de verdadeira disciplina de trabalho, originalidade, cultura, ideias sobre os fenómenos da vida e da morte, acaba por se dedicar à fotografia) ou sendo uma pessoa de cultura (neste momento, alf, contorcido em espasmos de fúria, dobra sobre si mesmo a poderosa cabeça e medita nas dores do mundo) resolveu manifestar o seu desprezo por um antigo e banal colega. Nada disto é relevante até ao momento em que me deparo com esta referência acoplada às notícias psico-pessoais da dita personalidade nas inacreditavelmente eficazes redes sociais. Que me dizem a isto? As leis do bom gosto são de tal sorte proporcionais aos parâmetros que regem as leis orbitais dos corpos que tudo está bem quando os espíritos se encontram, como tudo está igualmente bem quando os espíritos se não encontram, sobretudo porque todos sabemos que não existem espíritos, mas apenas efeitos químicos modificados.
Voltei ao transito hoje
E é fascinante perceber o tempo que se perde em analisar questões que no fundo apenas servem para nos distrair da realidade. Relvas só aquelas do jardim do palácio do Marquês. Bem agradável.
sexta-feira, 25 de maio de 2012
quarta-feira, 23 de maio de 2012
Espanholas de fartos seios
Era para vir para aqui desabafar sobre a crise, o governo e a vida em geral. Tópicos secundários perante o problema que me vem afectando há já algumas semanas. É absolutamente impossível ler no autocarro, quando se está rodeado de espanholas de fartos seios. As moças cacarejam que se fartam, e um pobre cidadão não se consegue concentrar na leitura.
sábado, 12 de maio de 2012
***
Já andamos todos por aí a especular, uma vez que isto de suportar o silêncio da incompreensão não é, de modo nenhum, para todos os narizes. Se não temos o que dizer, não digamos nada: julgo que ninguém nos julgará por isso. Porém, no último dia, faremos sempre bem fraca figura, se nada tivermos dito ou compreendido, e por isso esta tamanha dificuldade em permanecer na obscuridade silenciosa, e tanto mais quando o abismo abre a sua poderosa, infinita e assustadora garganta: logo nos pomos a balbuciar emocionados, ora corajosos ora amedrontados, como crianças diante de um poço. O resultado é perturbador (instala-se o ruído), e no que me diz respeito, não posso esconder um certo incómodo, embora não consiga explicar qual a razão desta vertigem diante do mais humano dos fenómenos. Os músicos têm neste domínio uma imensa superioridade (e por isso Platão os detestava) porque são especialistas na economia do silêncio, aprendem a desenhar curvas irritantemente elegantes, prodigiosamente equilibradas, e escondem-se da verbosidade, trabalhando na rectaguarda da linguagem: inventam fonéticas artificiais, feitas de marfim, branco e negro, ou esculpem castelos sonoros, percutindo por magia em cordas transparentes, forjadas no mais sintético e misterioso dos materiais humanos. Por serem tão eficazes na seu tratamento do enigma - o sentido da vida - têm a justa admiração de todos, e situam-se em zonas de consenso, que são a recompensa material por terem renunciado à difícil e perigosa arte de comunicar com palavras. Mas não falemos do passado: pois se tanto elogiamos o silêncio (que é em certo sentido uma tentativa de fugir ao espaço), porque razão nos deixamos fechar sistematicamente na prisão do tempo?
quinta-feira, 10 de maio de 2012
O teu rosto é apenas mais um: nunca te esqueças disso, pois é a morte do artista - uma crítica (breve) de O Teu Rosto Será o Último.
E sempre que era um concerto dos U2, as pessoas até dormiam na rua dias a fio para comprar um bilhete. Meu deus, para os U2. O mundo é assim. Também me intriga muito aquilo do Pique Nique do Continente ou as vuvuzelas da Galp e a bandeira humana e essas merdas. Ou pessoas que gostam de José Luís Peixoto ou de The National ou os congressos do PCP. Cada um tem a sua curva de utilidade que inclui, entre outras coisas, preocupações ideológicas e a sensação de ser manipulado.
acho que todos iriamos às lágrimas se vissemos os primeiros homo-stercus a articular as primeiras palavras. as primeiras palavras de perplexidade diante do mundo, de si mesmo... os primeiros sustos humanos. a pré-história das merdas.
o mais peor, comentador de A causa foi modificada, 10 de Maio de 2012 às 13:52
Uma coisa é certa: a leitura deste post nada trará ao leitor para além do curto prazer que representa a leitura de uma experiência subjectiva, e embora este seja um assunto muito obscuro, tudo parece indicar que esse prazer decorre das alegadas semelhanças entre experiências sensoriais, uma vez que todos estamos mais ou menos equipados com um sistema nervoso central. Posto isto, é evidente que as pessoas menos cultivadas, pouco curiosas e pouco treinadas na leitura, já navegaram para outras latitudes. Fiquemos então apenas nós, tu e eu, caro leitor acima da média, a fim de prosseguirmos esta silenciosa conversa, como se o tempo tivesse deixado de existir, e as hierarquias tivessem deixado de ser um problema.
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A forma particular como a intelecção das emoções se processa na inteligência, deve revestir-se de importância fundamental no sucesso literário. Na maior parte dos casos, é isto o que o público manifesta de forma pouco refletida quando diz que um determinado livro é «fácil de ler no sentido de cativar». Se escolhermos ao acaso um desses bizarros blogues onde pessoas com tempo se dedicam a ler uns quantos livros escolhidos sem qualquer tipo de critério, estranhamente baseadas numa espécie de selecção aleatória cara aos estatísticos mais ortodoxos, vemos que a identificação pessoal vem à cabeça da lista de critérios de sucesso. Nabokov bem tentou prevenir o leitor, e nas suas aulas monocórdicas desfez-se em explicações sobre a absoluta inutilidade da identificação, com personagens ou situações, no sucesso de um livro a longo prazo. No entanto, a falácia analógica é extremamente poderosa. O blog Planetamarcia (um nome sintomático) recebe o livro do premiado João Ricardo Pedro com uma sinceridade desarmante, e que serve bem o argumento que queremos desenvolver:
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«É a história de uma família, enaltecida por pormenores curiosos com que todos nos identificamos mas que na realidade poucas vezes vemos nas páginas de um livro. Vão sendo narrados “pedaços de rotinas” por vezes disparatadas e cómicas, histórias dentro de histórias, como se fossem muitos livros dentro de um só. Ri de puro prazer com as situações inesperadas, desencadeadas pelo que de mais típico caracteriza o “ser português”. Emocionei-me com a dureza das consequências da Guerra Colonial, com o peso da doença no seio de uma família, com todos os fragmentos que fui juntando até completar, à minha maneira, uma história que não tem fim no papel. João Ricardo Pedro tem um conhecimento da nossa História recente que não é comum na sua (também minha) geração. Senti-lhe gosto pela música e prazer pela arte.»
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Numa mente minimamente educada isto seria precisamente o ponto de partida para um juízo demolidor de O teu rosto será o último. Não vou agora dar conta do significado sociológico do Prémio Leya, muito menos da ampla visibilidade do mesmo ser, em si mesma, um objectivo comercial, independentemente do conteúdo das informações trocadas a propósito do livro. Interessa-me considerar, ainda que brevemente, os aspectos propriamente literários da obra, porque julgo que a literatura tem tudo de subjectivo no seu significado ontológico, mas a sobrevivência e pretígio dos autores, bem como o maior ou menor tempo de vida das obras literárias na memória das comunidades, nada tem de subjectivo enquanto fenómeno puramente prático.
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A razão pela qual o texto shakespereano continua a ser (exceptuando a Bíblia) aquele com maiores capacidades de resistência perante a selecção e mutabilidade, quer de um ponto de vista espacial e geográfico, quer de um ponto de vista cronológico e cultural, prende-se com as quantidades gigantescas de conhecimento retórico que o dramaturgo isabelino possuía. Mas a retórica pode advir de um conhecimento profundo da técnicas gregas, amplamente cultivadas numa civilização especializada no discurso, ou da experimentação quotidiana, por meio do estudo sistemático da utilização de recursos linguísticos. A retórica é a arte de falar bem, e embora Platão se tenha desde logo apercebido do tremendo conflito entre o bem enquanto sistema de símbolos inamovíveis e inalteráveis, e o bem enquanto técnica que permite alcançar os objectivos pretendidos, podemos estabelecer um ponto: falar bem significa convencer os grupos humanos de que se falou bem. Aqui entram em acção regularidades fenomenológicas que se perdem na noite dos tempos: erudição dos conteúdos, ritmo da frase, simplicidade de expressão, repetição dos caracteres, musicalidade do discurso, desfamiliarização das metáforas, plasticidade dos ambientes. Mesmo no que diz respeito à utilização especializada da língua - as enumerações (frequentes em Shakespeare), aliterações, anáforas, hiperbatos, o uso é magistral e revela uma experimentação quase obsessiva, o que não espanta num homem que se profissionalizaou em embasbacar audiências de putas e piratas, e não academias repletas de Professores de literatura e maricas. Em Shakespeare é evidente, por exemplo, uma assustadora capacidade para descrever através de símiles originais mas perturbantemente rigorosos e abrangentes (isto é, que não requerem conhecimento específico) assim como uma invejável capacidade para, nos milhares de palavras utilizadas, proceder a uma escolha de emoções, problemas, locais, situações, dados, que não dependem da evolução técnica mas que estão umbilicalmente ligadas a características humanas que, não sendo imutáveis, pertencem à teoria da variabilidade genética e não da relativização cultural.
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Para que não pensem que bato em ceguinhos por um prazer sádico a que recorrentemente me entrego, por via do meu peso excessivo e limitante impotência sexual, passo a explicar porque é que João Ricardo Pedro comete vários erros que o enterrarão como escritor a breve prazo. A referida Marcia no seu Planeta (que não faço a mínima ideia onde seja, note-se) copia excertos que a emocionaram particularmente:
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«Dona Laura, para quem as corridas de bicicletas, a par dos homens com brincos, das televisões a cores, dos implantes mamários, das lentes progressivas, dos astronautas e do Ramalho Eanes, eram augúrios de apocalipses, depois de uma manhã inteira ao espremedor e ao fogão, trancara-se no quarto a rezar para que aquilo acabasse depressa, e nem a presença do padre Alberto a demovera da clausura.»
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A primeira coisa que salta à vista é a obscuridade da caracterização: Shakespeare usava brinco, e isso nada nos diz sobre o seu carácter ou o das pessoas que não gostavam dele, e o tratavam como jovem pretensioso e intelectualizante, e mesmo as que invocavam o uso do brinco, podiam estar apenas a utilizar um recurso retórico, pelo que tudo na literatura depende da rede de significados criada para expressar uma dada mente. O problema é que a maioria dos escritores contemporâneos (e aqui os anglo-saxónicos mais recentes, mais do que todos) está na pré-história da filosofia, e desconhece que se não temos certezas sobre nós próprios (fui só eu que li Álvaro de Campos?) como as poderemos ter sobre o que os outros pensam? A tentativa de descrever Dona Laura falha completamente porque assenta em deduções superficiais sobre generalizações sociológicas de bolso: as corridas de bicicletas não eram bem vistas por um determinado tipo de mulheres (?) o progresso irritava e desgostava grande parte das pessoas apoiantes, ou vagamente simpatizantes, do ex-seminarista António de Oliveira Salazar, etc. Para acentuar a tacanhez dese tipo social lá vem o estafado ódio ao progresso, expresso por artefactos como a televisão, as lentes progressivas, ou actividades profissionais modernizantes, os astronautas, e talvez mesmo a alusão a Ramalho Eanes seja uma tentativa de o transformar numa espécie de electrodoméstico, não sei bem o que pensar. Aliás, quem é Ramalho Eanes na história de Portugal, alguém saberá? Daqui a trinta anos concerteza que não.
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Em suma, Dona Laura é aquilo que nos romances de Eça de Queiroz, nas conversas de café, e nas telenovelas brasileiras, se chama uma beata. Mas a espessura psicológica de uma beata pode ser das experiências mais eróticas desta pobre vida: mas para isso é preciso conhecimento das beatas, olé, olá, o doce cheiro do seu perfume antigo - intensificado pelo incenso e o fumo da cera pura - o rendilhado preto onde se adivinha a curva entumescida do sexo, os peitos maduros, cheios, um pouco antes do início da decadência, o andar levitante, a voz torturada e torturante, em suma, o imaginário sensorial que hipnotizou Bernini. Mas não, para João Ricardo Pedro, Laura vai para o quarto e reza. Mas se reza é porque na sua cabeça talvez o astronauta não ande apenas pela lua. Ou então, se não gostamos do lugar comum da beata ninfomaníaca - que só funciona bem em italiano - tentemos descrever a Dona Laura, sem mais. Mas porque quer Laura que aquilo acabe depressa? Essa seria a excelsa porta por onde teríamos acesso ao maravilhoso palácio da imprevisibilidade humana, mas na maioria dos escritores, as pessoas são tipos. Porquê? Porque não choraram ainda as lágrima humilhantes de que falava Proust, porque não percorreram ainda a corda tensa da paixão sobre o enorme abismo da destruição familiar, porque não observaram, porque não viveram, porque não arriscaram perder a cabeça por uma inutilidade qualquer, porque ainda não penetraram no ridículo das suas próprias vidas. Vejamos se melhora com a descrição do Padro Alberto.
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O padre Alberto, que torcia pelo Sporting com uma fé inabalável e conhecia pessoalmente as grandes glórias do clube – tinha inclusivamente uma fotografia em que aparecia abraçado ao Jesus Correia -, levantara-se ainda de noite e, com a solenidade que a liturgia exige, aspergira com água benta todo o percurso que atravessava a freguesia, desde o cemitério antigo até à fonte salgada. Um percurso repleto de curvas perigosas, descidas íngremes, bermas traiçoeiras.” (pág.50)
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A primeira imprecisão é gritante: as grandes glórias do Sporting? Quais glórias? Enfim, não se pode pedir a um autor com conhecimentos invejáveis sobre história de Portugal (segundo Planetamarcia) que conheça também a historiografia comparada do desporto. Ou pode? O caso de Jesus Correia é mais grave. Que passou pela cabeça de Jesus Correia para se deixar fotografar por um padre que anda pelas freguesias rurais a aspergir água benta desde o cemitério até à fonte salgada? É verdade que o hábito da punheta (um tema, aliás, abordado no livro) poderia ter dado ao padre Alberto a destreza suficiente para manobrar incansavelmente o hissope em todo o trajecto, qual badalo cavalar semeando a fonte da vida por pedras inóspitas. Porém, mais uma vez, temos um padre que asperge água benta e jovens que batem punhetas. Ora, uma descrição rigorosa de Portugal exigiria padres que batem punhetas e jovens que aspergem água benta.
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O ponto que quero destacar é que a escolha e utilização das metáforas dizem tudo sobre um escritor. A capacidade de descrever rigorosamente a emoção e retratar com inteligência as situações complexas, quer da compreensão, quer da incomprensão perante os fenómenos do mundo, está ao alcance de muito poucos porque implica tanto uma sensibilidade apurada quase até à insuportabilidade do real (dizia-se de Rosseau que parecia não ter protecção dermatológica sobre os nervos, daí ser muito raro a conjugação de forças que permite a um indivíduo com estas características não se afundar nas suas próprias lágrimas), como um monstruoso trabalho de crítica lógica e selecção qualitativa dos dados (o que pressupõe uma inteligência invulgar, facto que tantas vezes inviabiliza a obra, por pura arrogância), capacidades que permitirão, por exemplo, julgar se Jesus Correia pode figurar num texto literário como um veículo de significado. Eu julgo que não, mas eu não ganhei o prémio Leya (lá está - diz o leitor cínico - a incontornável cabecinha verde e escamada da inveja). Pois bem, esta capacidade de seleccionar é sempre o resultado de um conhecimento profundo de saberes muito diversos (e quanto mais diversos mais verosimelhança terá o livro) e sobretudo da história da literatura (que é a história do ofício) e é nesse sentido que João Pedro Ricardo é a parte mais triste e infeliz (confesso que até simpatizo com o seu genuíno amor à leitura) de uma utilizãção monstruosa da fragilidade humana (emissor e receptor incluídos) para gerar dinheiro (por quem não tem o mais pequeno amor à literatura), que faz uso das limitações de tempo das pessoas. João Ricardo Pedro tem duas características fundamentais num grande escritor: começou a publicar por necessidade e não estudou literatura. Porém, é igualmente protagonista de um acontecimento que revela as suas limitações enquanto autor (talvez reversíveis, com muito trabalho): começou a escrever igualmente por necessidade. É pena que não tenha tido mais tempo, condições financeiras e coragem intelectual para ter começado a escrever antes, pois revela algum domínio da língua, embora tudo pareça arrancado a ferros, e soe a falso, sendo a estrutura temática do livro muito convencional.
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Se é verdade que a necessidade é a mãe da indústria, isso não quer dizer de modo nenhum que tenha de ser a madrastra da literatura, mesmo sendo verdade que há pequenas diferenças de técnica entre a produção de alfinetes e a produção de textos, sobretudo do ponto de vista do autor. É um erro muito recorrente achar que a necessidade apenas se expressa em unidades monetárias, uma tendência que nos ficou da esplendorosa descoberta dos iluministas escoceses: a de que poderiam economizar as descrições do funcionamento da sociedade por meio da informação das preferências contidas nos preços. Raramente um escritor de livros quer apenas dinheiro: para isso`há a fórmula 1, o futebol, a banca de investimento, o comércio retalhista, as telecomunicações. 99% dos escritores procura sobreviver, mas mal atinge os 50 000 livros vendidos, passa ao segundo nível: a fama. Se o objectivo é vender, parabéns a João Ricardo Pedro. Se o objectivo é entrar para a história da literatura, tenho muita pena, mas não lhe posso dar uma boa notícia.
Nem sempre os mercados, nem sempre.
A oscilação dos pêndulos é talvez das coisas que mais me irritavam nos exercícios de Fisico-Química mas confesso que a temática possui um valor inestimável para a compreensão antropológica do mundo. Hoje, Pedro Lomba, uma pessoa extremamente considerável, comenta a eleição do Hollande, curiosamente, um tipo cuja maior qualidade é o seu aspecto flácido, o seu rosto utrapassado pela própria vida, semelhante a uma cortina desgastada, com os mesmos esgares que vemos esculpidos por insultos na face de um pobre Professor de Fisico-Química de um bairro periférico. Pois bem, perante este pobre homem, o falcão Lomba desenha os vários cenários possíveis (todos eles cinicamente limitados pelo insucesso), e nesta sua teoria das probabilidades para licencidos em Direito, o abutre Lomba tenta reanimar a funcionalidade dos mercados como entidades político-constitucionais. É curioso: bastou um socialista chegar ao poder para que o milhafre Lomba se mulplicasse em exercícios de futurologia, tentando calcular o ponto de equilíbrio entre curvas comerciais, a fim de resusscitar a posição esfíngica dos mercados. Nada de supreendente, portanto. O mesmo não poderemos afirmar a propósito da espectacular e nunca devidamente saudada revelação de Pedro Boucherie Mendes, envergonhadamente escondida (o que achamos mal) numa entrevista ao jornal I: parece que o autor Boucherie Mendes passou uma tarde na Fnac, numa sessão de autógrafos, onde compareceram, segundo o próprio confessou agastado, «uma ou duas pessoas». Cuidado com o cálculo diferencial: os pontos tangenciais de uma dada função podem mesmo baralhar toda a tentativa de descrever pacheco-pereiramente o comportamento das coisas. Ou por outras palavras: uma luz bruxuleante brilha na noite, uma pequeniníssima luz, brilha.
terça-feira, 8 de maio de 2012
Eu
Posto isto, e embora a minha personalidade não possa confundir-se de maneira nenhuma com o Pacheco Pereira ou o António Manuel dos Santos, é necessário prevenir caçadas retrospectivas nas minhas posições, vindas de um futuro longínquo com intenções menos claras. Nada me move contra visões libertadoras do indivíduo, e pretendo eu mesmo libertar-me de mim próprio o mais rapidamente possível, e se por vezes pareço mais arreganhado contra os comunistas do 5 Dias é porque nada é mais enervante do que a mistura entre falácia argumentativa e orgulho moral, da mesma forma que nada é mais perturbador do que a tentativa de investir um argumento que se pretende escurado contra o poder da exploração, por meio da brutalização moral do raciocínio, fazendo da luta contra a exploração uma posição de autoridade, o que além de ser uma tautologia ridícula é também uma profunda incapacidade de fazer frente à incompreensão das coisas.
Se a posição a defender se fundamenta numa justa proporção dos meios de pagamento, propriedade, remunerações do factor capital e trabalho, então puxem das máquinas de calcular e das funções complexas porque a declaração de intenções não será suficiente, dadas as invejáveis capacidades dos indivíduos em encontrar novas formas de se penetrarem mutuamente e sem preocupações sistemáticas com os níveis de prazer obtidos pelos intervenientes. Se a posição a defender se fundamenta na compensação por danos sofridos, então puxem dos manuais de fisiologia porque os conhecimentos neurobiológicos aduzidos até agora não são suficientemente esclarecedores.
Veja-se este texto do idiota do Caetano Veloso respigado no blog do idiota do Pedro Mexia: Chico Buarque já citou mais de uma vez o rap (ou o hip-hop em geral) como a verdadeira música de protesto do nosso tempo: não é feita por universitários bem nutridos que se comovem com o sofrimento dos excluídos, mas pelas próprias vítimas da exclusão.
Os universitários bem nutridos, comovidos com o sofrimento dos excluídos, são em geral da mesma tipologia do 5 dias mas não me parece que fiquemos melhor servidos com as vítimas da exclusão, a menos que aceitemos todos regressar a padrões de reprodução das relações de produção regulados pela força da indignação. O Caetano Veloso e o Chico Buarque podem estar muito interessados na merda de música de protesto que por aí se produz mas não me parece que se resolvam problemas de organização política com a destruição do raciocínio musical, sob pena de conseguir a notável proeza de falhar não só os objectivos políticos como os estéticos. Aos que defendem uma comunhão da política com a estética, devo dizer que não só isto cheira logo a fascismo - o que é curioso, vindo normalmente de comunistas ou socialistas - como me parece muito provável que a tentativa de fazer muita coisa ao mesmo tempo acaba por não produzir nada de muito interessante.
Mas não é só na música de protesto que a bolsa de valores morais distribui as hierarquias. O Vasco Pulido Valente, numa entrevista recente, refere que o euro foi uma espécie de 50% desconto-Pingo Doce a uma escala gigantesca, o que apenas demonstra como esta gente foi para Oxford esfregar o cu nos relvados húmidos, e balançar a gordura junto às margens bucólicas dos regatos ingleses mas não perdeu um minuto a ler ou a tentar compreender o que quer que fosse. Continuam a achar que isto é tudo muito simples, e que os mais fortes são fortes porque são fortes e os mais fracos são fracos porque são fracos, o que é muito pouco para quem frequentou uma Universidade de prestígio mundial. Quanto ao conflito interpretativo entre teorias monetárias baseadas no papel do dinheiro como unidade de medida, a partir dos metais precisoos, e as teorias que defendem que o dinheiro é apenas uma actualização do importantíssimo papel do crédito nas relações sociais, ficam para pobres como eu que tenho que trabalhar para ganhar a vida, enquanto a malta de Oxford se desdobra em entrevistas.
De uma forma ou de outra, a necessidade é a mãe da indústria e nesse sentido, estamos no bom caminho,
segunda-feira, 7 de maio de 2012
Há o ciclismo, o rugby, o cricket e há o snooker
Aqueles que me conhecem, sabem que gosto de ver desportos que (quase) ninguém vê. O snooker como exercício de táctica e técnica é um belo exemplo de como passar horas em frente à tv, deliciado, enquanto a paciência de quem insiste em partilhar comigo as noites diminui proporcionalmente à rapidez com que o Rocket vai despachando bolas. Hoje foi bonito vê-lo celebrar com o filho o campeonato do mundo. São estas coisas que se levam para a terra que nos prende os pés.
Estou a trabalhar
Ontem, o inacreditavelmente imbecil do Mia Couto contou à parvinha da Paula Moura Pinheiro que tem um amigo caçador e que existem intersecções entre a escrita e a caça, pois o seu último livro, ao que parece, foi pago por uma multinacional pretrolífera, e que os leões apareceram no norte de Moçambique, e o caralho, porque mudei logo o canal, e apareceu uma imagem hedionda, um careca de óculos escuros a beijar o longo punho desnudo de uma virgem de cabelo curto. Meu deus, era o Pedro Abrunhosa, que ainda não sabe que não se pode andar por aí a beijar a mão a adolescentes lacrimejantes que acabaram de sofrer a desilusão das suas vidas. Demorei alguns minutos a recuperar e cheguei mesmo a ingerir um copo de vinho do Porto, porque, já dizia Gogol, a esse, o grande escritor, não virão procurá-lo as jovens mulheres de dezasseis anos, e muito provavelmente acabará a nadar num lago de fel, maldizendo a personalidadee materna, enfim, isto no tempo em que escrever era considerado uma actividade quase tão desprestigiante como trabalhar envolto numa bata branca na desmontagem de bois, algures nas traseiras de um talho, o dia todo a resfolegar em carne fumegante, sangue peganhento e vísceras cinzento-chumbo, e a verdade é que por causa destas merdas não preguei olho a noite inteira. Caralhos fodam a cultura e a televisão.
sexta-feira, 4 de maio de 2012
Amanhã será outro dia.
O Pingo Doce é das instituições portuguesas aquela que tem as empregadas desqualificadas mais bonitas e atraentes (as do Continente pintam-se muito), e julgo que este ataque suez (onde o Partido Comunista mostrou porque razão se vai extinguir dentro de 24 meses, apesar da maior crise económica dos últimos 100 anos) é apenas um sintoma da estupidez colectiva (desde a invenção do sistema de preços pelos iluministas do século XVIII, andamos destreinados na invenção de soluções colectivas) e não um sinal de qualquer decadência, ao contrário do que pensa Miguel Real, o filósofo mais parecido com Diamantino, o camisola 10 do Benfica, desde, pelo menos, Jean-Jacques Rosseau. No entanto, permito-me a mim mesmo discordar com quase toda a gente em relação à importância do assunto uma vez que até o cabrão do Marques Mendes está convencido de que o assunto é irrelevante. De um ponto de vista económico, como bem viu o ngonçalves, claro que este assunto não vale a mama esquerda da Júlia Pinheiro.Mas do ponto de vista político-filosófico, é a mais cabal representação da espectacular falência do raciocínio socialista e um poderoso indicador de que os portugueses, apesar de todo o alarido sentimental em torno do neo-liberalismo, são profundamente desconhecedores das regras da selvajaria de mercado, a começar pelos analfabetos dirigentes do Pingo Doce que decidiram esta mega -celebração auto-humlhante de uma instituição que todos nos habituámos a frequentar.
Se os pobres não conseguem furtar-se a uma fila de supermercado e mergulham sorrindo com toda a boca desdentada na mais banal, primária e absurda campanha de marketing promocional de que há memória neste país tão escasso de campanhas de marketing promocional, baixando as hediondas cuecas a uma exploração infame às mãos do capital distribuidor, de que maneira, pergunto eu, vão os pobres e oprimidos conduzir-se a si próprios, enquanto massas libertadas de si próprias, em direcção a uma sociedade mais justa, mais livre e mais fraterna? Claro que para isso é necessário o trabalho esclarecedor dos intelectuais científicos e dos dirigentes fraternos que militam em prol dos mais fracos e oprimidos pelas intermináveis filas de espera do Pingo Doce.
Reformulo então. Se os dirigentes do Bloco de Esquerda não conseguem conduzir à libertação uma pessoa que é continuamente enrabada pelas oportunidades promocionais do Pingo Doce, e se vê conduzida a um consumo 3 ou 4 vezes maior do que seria se fosse o Jerónimo de Sousa a dirigir a rede de supermercados Pingo Doce, como pensam convencer essa pessoa a marchar contra os canhões dos ignóbeis capitalistas que continuamente os prostituem, e enviam os seus saudáveis filhos para as correntes da pobreza e da miséria?
Há aqui um problema de antropologia sistemática que eu explicaria de bom grado se Claude Lévi-Strauss não o tivesse já feito naquele que é talvez o maior livro científico do século XX, depois dos textos de Von Neumann, embora ninguém tenha reparado nisso, mesmo que todas as sardinheiras andem sempre com o estruturalismo na ponta da língua.
No fundo, e à semelhança de quase tudo o que nos acontece na vida, o difícil é permanecer calado, e reconhecer que não fazemos a mínima idéia de qual seja o significado profundo do referido acontecimento histórico-político. É isso, Tristes Trópicos: o reconhecimento da infinita beleza de nos estarmos a afundar num local de que nem sequer a certeza de que seja bonito temos.
No fundo, e à semelhança de quase tudo o que nos acontece na vida, o difícil é permanecer calado, e reconhecer que não fazemos a mínima idéia de qual seja o significado profundo do referido acontecimento histórico-político. É isso, Tristes Trópicos: o reconhecimento da infinita beleza de nos estarmos a afundar num local de que nem sequer a certeza de que seja bonito temos.
quinta-feira, 3 de maio de 2012
O Pingo Doce enquanto categoria escatológica
Estou a citar de cabeça, mas não devo andar longe. As principais fontes de lucro de um supermercado, por ordem decrescente de importância são: aluguer de espaços a outros lojistas, pagamentos para colocar produtos em locais chave, juros sobre o dinheiro em caixa e lucro com as compras do clientes. Mutatis mutantis, esta ordenação de rendimentos será bastante semelhante para todos os supermercados.
Presumo que a promoção de anteontem tenha tido como motivação angariar dinheiro para emprestar ao grupo Jerónimo Martins, sem ter a maçada de ir à banca e pagar juros de usura. Presumo também que quem teve a ideia da promoção não estava à espera da enchente de gente que se verificou.
Mas estas considerações meramente monetárias rapidamente foram eclipsadas pela elevação do Pingo Doce a categoria escatológia. Ao Daniel Oliveira só faltou dizer, das quatro bestas do apocalipse, qual é o Pingo Doce. No Blasfémias defende-se o Pingo Doce como mirífico paladino dos pobres e oprimidos, campeão do liberalismo mundial. Ganha o Daniel Oliveira no desempate por penalidades, por ter o texto mais melhor bem escrito. Sim, eu sei.
O que não deixa de me espantar, e é dizer muito para quem tem o cinismo entranhado fundo na carne, dizia eu que o que não deixa de me espantar é o histerismo colectivo em torno de um evento que amanhã já estará esquecido. Tentar explicar o Portugal contemporâneo através deste acontecimento é no mínimo ridículo.
Não fosse ter proporcionado ao Ricardo Araújo Pereira finalmente produzir uma rábula decente nas manhãs da Comercial, nada se teria aproveitado desta tragicomédia.
sábado, 28 de abril de 2012
O futebol é isto mesmo
1. Tenho todo o respeito pelo investigador Pedro Magalhães, uma pessoa simpática que, embora muito ignorante, pertence ao restrito grupo das figuras quase mediáticas que faz um esforço hercúleo para fundamentar as posições que publicamente toma. Mas lamento informar que ao chegar tardiamente a este post de Priscila Rêgo, sou obrigado a ter que recordar mais uma vez aos caros universitários que o argumento técnico é, em si mesmo, um daqueles momentos de auto-humilhação lógica, que só os sacerdotes, dotados de níveis estratosféricos de resistência à dor e à vergonha, conseguem sustentar, pois à semelhança de um qualquer drama clássico (pode ser, por exemplo, Ifigénia entre os Tauros) as regras do jogo são precisamente o troféu pelo qual lutamos, e procurar solucionar divergências sobre as regras do jogo, aludindo à necessidade de mudar as regras do jogo, é qualquer coisa que releva ou de um sportinguismo de grau muito acentuado, ou de uma incapacidade frustrantemente comovedora para entender que até a matemática é uma linguagem, e que, por isso mesmo, resta-nos cultivar a retórica (sobretudo a partir de uma maior profundidade de utilização dos conceitos matemáticos) como se não houvesse amanhã. Isto não quer dizer que eu não partilhe, com todas as forças da minha jesuítica consciência, a raiva contra os Pachecos Pereiras desta vida, e que não apoie com toda a energia do meu coração a construção de um um país a sério, onde os debates sobre os resultados escolares, a segurança social, ou a incidência do crime, fossem o resultado da inteligência colaborativa de milhões de Garys Beckers, e que por cada Manuel Luís Goucha parido nos ecrãs, houvesse uma resposta óptima do sistema afogando os programas da tarde em quantidades infinitas de prémios nobel.
2. Acontece que a percepção dos raciocínios que permitem aceder à interpretação dos direitos de propriedade futuros como um importante factor macro-económico no estudo da segurança social, ou a dependência das variáveis psicológicas nos pradões de consumo de crime, exigem tomadas de posição teoréticas, éticas e até políticas, no micro-fundamento de cada uma das operações lógicas que usamos, e procurar transferir para o padrão de conflitos políticos democráticos (que em suma é a confusão generalizada ao nivel do estado-nação) o padrão de conflitos políticos académicos (que em suma é uma reprodução aristocrática muito imperfeita onde existe a mesma tremenda confusão entre objectivos individuais e objectivos colectivos) é apenas defender uma redução da participação política a partir de um crítério de competências retóricas. Quando a Priscila Rêgo se permite excluir o Henrique Raposo do debate, ou apontar as deficiências da sua agumentação, por meio de uma longa prova de competências em matéria de análise das interdependências entre demografia e mecanismos distributivos, para concluir que «pensar em termos macroeconómicos não é para todos», que outra coisa está a fazer senão a reduzir a democraticidade do debate? E isto para no fundo chegar ao mesmo ponto onde já está a sardinheira da lota de Matosinhos, com as nodosas mãos apoiadas na anca e a gutural garganta pronta a afirmar: «o Henrique Raposo que vá para o caralho que aqui quem manda sou eu».
3. No fundo, quando se apontam os estudos, qualquer que seja a sua natureza, apontam-se novas formas de hipnotizar a assembleia, o que nada tem de errado, deus nos livre de qualquer forma de limitação da expressão oral. Apenas venho dar o meu contributo para a sisudez do debate segundos os meus critérios de eficiência retórica.Tanto o Pedro Magalhães como a Priscila Rêgo, com a sua deficiente formação literária, precisam de ser rapidamente instruídos neste processo, a fim de melhorar as respecitvas performances retóricas, não por ser melhor para a utilidade pública (um conceito que cheira mal e era muito utilizado pelo marquês de Pombal) que o seu grupo de referência triunfe na praça, mas porque nada me agrada mais do que ver os contendores extraírem de uma natureza bruta e limitada, a fulgurante beleza do estilo.
Continuo sem saber quem é o José Luis Peixoto
mas conheço o Walter Hugo Mãe e o Ricardo Adolfo. Nenhum dos dois me inquietou, e é tudo o que eu tenho a dizer. A vida é mesmo assim, um tipo vai fazendo o seu caminho tranquilamente, e se estiver atento encontra pequenos tesouros por entre o restolho.
O governo vai lançar um imposto sobre os grandes distribuidores alimentares, que mais não que é uma forma de taxar a Sonae e a Jerónimo Martins. Muito boa gente reclama que os consumidores vão ser prejudicados porque, e é extraordinária a panache com que estas coisas são ditas, as empresas não pagam impostos porque imputam esses custos aos seus clientes.
Há que atentar bem os olhos nesta falácia. Entendendo um custo como toda aquela operação contabilística que não gera entrada de dinheiro, então sim os impostos são um custo que em última análise são pagos pelos clientes. Os tais que geram entradas de dinheiro em caixa. Mas há impostos e impostos, há custos e proveitos. O IRC, e a derrama municipal acho, são pagos sobre os resultados líquidos das empresas. É difícil de conceber que o preço de venda a um cliente reflicta o IRC que se irá pagar no ano seguinte.
Também é difícil de conceber que todos os custos sejam metidos no mesmo saco. Até para um bípede como eu que apenas leu meia dúzia de livros sobre marketing e gestão. E nem foi precisa a curta formação em empreendorismo da Nova, a que faltei mais do que devia, para saber que custos não são tidos nem achados na feitura de preços. A Sonae e a Jerónimo Martins cobram o mais alto possível aos seus clientes, sendo que por "mais alto possível" se define
como o valor a partir do qual a venda não se faz. E nem preciso de me apoiar aqui (apoiaria-me num livro de gestão, mas está emprestado em parte incerta e já me esqueci do título), para afirmar convictamente que o sonho húmido de um gestor de supermercado é ter preços diferenciados para cada cliente. Basta
dizer que em tempos me iludi a pensar que seria por aqui que iria fazer fortuna.
A ser correcto que são os clientes dos supermercados que pagam os impostos destas empresas, então os meus impostos de 2011foram pagos pelo polígono quadrilátero de entidades colectivas sitas em Tomar, Barcelona, Saragoça e Bilbao. Já lá vou ao Sporting. Seguindo esta falácia, chega-se à simples conclusão: nem paguei impostos em 2011, nem tenho o dinheiro comigo. Adiante.
O Sporting jogou mal, o Pereirinha mostrou que não nem no Sporting de Pombal tem lugar e o André Martins poderá almejar a um pedestal ao nível do João Vieira Pinto, sempre e quando tenha juízo naquela cabecinha. E é isso.
Da incomensurável sorte que consiste em se nascer uma besta
1. Alguns generosos leitores deste inacreditável blog, têm manifestado o seu desagrado perante as minhas posições em face do magnífico autor que acaba de lançar mais um livro de merda, desta vez para crianças, José Luís Peixoto. As pessoas menos dotadas, irritadas perante tão gratuito juízo, querem esbofetear-me, cuspir sobre a minha esplendorosa fase, perseguir-me na rua sem ninguém saber quem sou, e pensam imediatamente num dado perfil, dadas as manifestas dificuldades das mentes menos potentes em laborar em ambientes abstractos e permanecer serenas perante adversários poderosos e eloquentes. Nesse rebuscado e imperfeito perfil, nascido nas profundidades cavernosas das mentes dos meus generosos leitores, emerge um homem de meia idade, zangado com a vida, amargo, cansado de aventuras com mulheres que toda a vida têm votado em pessoas como o Professor Doutor Francisco Louçã, emerge um devorador de livros franceses, capaz de semear em cada frase mais de dez intelectuais nascidos para lá do muro de Berlim. Nada mais errado. É com grande irritação que o generoso leitor deste blog, descobre, também horrorizado, que o perfil que acaba de desenhar corresponde, precisamente, ao triste autor de «Morreste-me» e que o autor do blog, onde o leitor deseja despejar a sua confusão perante o mundo incompreensível, permanece na obscuridade e corre veloz pelas fíbrosas redes da virtualidade, de asas drapejantes de imaculada pureza, elástico e flexível, leve, sucinto e eficaz, como tem de ser todo o juízo que não busca o próprio interesse mas se anima apenas com o esclarecimento das trevas. Como Newton brincando com pedrinhas coloridas à beira da praía, também eu entretenho a morte, essa bela e pobre ceifeira - que nenhum poder terá sobre mim - aproveitando para transformar a infinita ira em mortais e belas rubras pétalas de rosa.
2. Nada me move contra os mais fracos, ao contrário do que tem sido por vezes sugerido, apenas penso que algo de perturbador se instalou nos interstícios de uma economia de mercado que faz da competição perfeita e da curva de indiferença uma espada de medo, uma sombra insinuante, uma vaga ameaçadora. Os mesmo escritores que cavalgam o populismo e são velozes como o tempo, sempre lestos para encontrar em cada ser fragilizado um servo sofredor à espera de redenção, que bradam a favor das pessoas contra o poder dos mercados financeiros - sim estou a falar do tolo do José Luís Peixoto - são os mesmo que dão as mãos às gasolineiras e se vendem com camisolas chinesas em grandes superfícies, e aparecem nos canais generalistas, lacrimejando em face do rolo compressor da técnica e da modernidade, e saltitam nos meios de comunicação especializados, orando em memória da cultura e da criação, pois o escritor de sucesso está sempre de mão dada com o mais devastador dos poderes - o da ignorância. Apenas julgo que a competiçaõ pefeita não existe, e que o poder esmagador de uma indústria de propaganda barata, paralizante, se apoderou da edição (e desse precioso artefacto, o livro) hipnotizando o analfabeto e a cabeleireira, o universitário e o capitão de Abril, com a serpenteante promessa de um altar, portátil e manuseável, onde a produção dos sentimentos massificados encontra combustível suficiente para nos engolir a todos num vale de lágrimas. Que mal fez o autor de sucesso, pergunta o generoso leitor, de lágrimas nos olhos, insultado, magoado, ofendido? Não fez nada: e esse é justamente o problema.
3. Claro que podem sempre alegar que o grande José Luís Peixoto apenas se transforma em alvo da minha bilis (uma infeliz expressão que todo o comentador de jornais gosta de usar) porque vende mais do que, por exemplo, uma Margarida Rebelo Pinto, e nesse sentido, à semelhança dos messias e dos génios, é vítima da sua própria raridade, e que o facto de Professores Catedráticos de Semiótica da Universidade de Évora(sim, o mal existe) se entregarem à exege das obras completas de um autor premiado e consagrado pelas preferências racionais dos portugueses, apenas confirma a inveja, a mesquinhez, a falta de sentido estóico, a raiva perante o insucesso, o sentido alienado de injustiça que caracteriza todos os loucos e deformados que perseguem nos seus blogues os autores de sucesso. Nada mais errado. Os recursos são escassos e a mente humana não é inesgotável, nem ilimitada no seu exercício de luta contra a morte e o esquecimento, e cada dia que passa investe a sua lança veloz no meu flanco, e eu, à semelhança do Capitão Ahab que persegue nas frias ondas dos oceanos a baleia que lhe comeu a perna e a serenidade, vejo como o tempo nos engole a todos, nós que nos preocupamos com a beleza, cada um a seu modo, atiçados pela fúria da justiça ou injectados com o fel da sentimentalidade, divididos sobre quem nos guiará neste tempo de infortúnio, que à semelhança de todos os tempos, balança imprevisível diante dos nosso olhos cansados. Neste momento, Peixoto leva a dianteira e consome o vosso tempo, e eu torço as minhas mãos, como o Juiz na meta da corrida, por ver cada um desses meus generosos leitores que incapazes de distinguir entre a sabedoria e a contingência, soçobram na raiva e no insulto, vergados sobre um ser menor, cambaleantes perante a máquina de fazer adoradores: a indústria do livro. Mas cada insulto vosso é um poderoso tronco de carvalho atirado para a fornalha do meu ânimo, e urro de alegria por ver que ainda vos resta energia para reagir, para forjar com a matéria prima da literatura - a violência do sentido crítico, o protesto, o sentido de justiça - um caminho mais verdadeiro do que essas alegorias baratas, sentimentais, humanas, que semeiam jagunços e protectores encartados, em vez de forjar novos autores. A ver se assim, a curva da oferta literária finalmente sobe, e se pode finalmente ouvir de alguém a voz humana, capaz de contar, generosa e dócil, a nossa mais secreta natureza, a da infâmia.
4. É provável que eu seja apenas um universitário anónimo e ressabiado, baloiçando num transporte público da periferia, rangendo os dentes diante de um sucesso que nunca virá, descendo uma alameda de um parque urbano, que às vezes repara nos dedos finos mas esfolados da rapariga das farturas, e olha, esmagado pelo dia, o vertiginoso correr das nuvens, entediado entre os livros, se por acaso se comete o erro de encerrar a tarde numa feira de editores, perplexo diante da incapacidade que todos temos em aceitar as infâmias uns dos outros, por não sabermos reparar que se não compreendermos, nada poderemos pedoar.
domingo, 22 de abril de 2012
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"tipo de argumentação cara a pessoas estúpidas e que consiste em dizer que (...) os alemães são trabalhadores e nós gastadores" (alf aqui em baixo, ao falar de gente estúpida)
Até 1800, Portugal apenas entrou uma vez em default ao contrário de Espanha, Inglaterra e França que eram campeões dos defaults governamentais. A Alemanha não conta por não existia. De 1800 até 2009, a Alemanha passou mais anos em default que nós. Retirado do livro abaixo indicado. Performances passadas não são garantia de performances futuras, é certo. Mas como o alf bem lembra, a complexidade do mundo é um tema complexo.
Até 1800, Portugal apenas entrou uma vez em default ao contrário de Espanha, Inglaterra e França que eram campeões dos defaults governamentais. A Alemanha não conta por não existia. De 1800 até 2009, a Alemanha passou mais anos em default que nós. Retirado do livro abaixo indicado. Performances passadas não são garantia de performances futuras, é certo. Mas como o alf bem lembra, a complexidade do mundo é um tema complexo.
Gaylord Nelson
é o nome do senador americano que impulsionou o dia Terra, que hoje se celebra. Pelo menos é isso que diz na wikipédia.
Mas o que me traz por cá hoje é ainda o pensamento crítico. Saber encadear um raciocínio é uma qualidade que não assiste a muita gente, mas isso em si mesmo não interessa. Estou convicto de que o verdadeiro valor está na coragem de responder com um sonoro "não percebi" logo a seguir a alguém nos tentar iluminar com a clareza de um raciocínio digno dos antigos sofistas.
A capacidade de passar por estúpido é inata a todo e qualquer cidadão deste país, como eu tenho vindo a pessoalizar até à exaustão. Mas esta nossa cultura camponesa não nos permite questionar o abegão com um honesto "não percebi, troque lá por miúdos". Esta frase é uma espécie de movimento de Aikido do raciocínio, alavanca a força do racioncínio do outro contra ele próprio.
Conheci muito pouca gente que tenha esta capacidade de se rebaixar, de voltar à idade dos porquês. De honestamente tentar perceber o que outro está a dizer. Mesmo que logo a seguir lhe dê uma intelectual carga de porrada.
Mas o que me traz por cá hoje é ainda o pensamento crítico. Saber encadear um raciocínio é uma qualidade que não assiste a muita gente, mas isso em si mesmo não interessa. Estou convicto de que o verdadeiro valor está na coragem de responder com um sonoro "não percebi" logo a seguir a alguém nos tentar iluminar com a clareza de um raciocínio digno dos antigos sofistas.
A capacidade de passar por estúpido é inata a todo e qualquer cidadão deste país, como eu tenho vindo a pessoalizar até à exaustão. Mas esta nossa cultura camponesa não nos permite questionar o abegão com um honesto "não percebi, troque lá por miúdos". Esta frase é uma espécie de movimento de Aikido do raciocínio, alavanca a força do racioncínio do outro contra ele próprio.
Conheci muito pouca gente que tenha esta capacidade de se rebaixar, de voltar à idade dos porquês. De honestamente tentar perceber o que outro está a dizer. Mesmo que logo a seguir lhe dê uma intelectual carga de porrada.
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