1. Tenho todo o respeito pelo investigador Pedro Magalhães, uma pessoa simpática que, embora muito ignorante, pertence ao restrito grupo das figuras quase mediáticas que faz um esforço hercúleo para fundamentar as posições que publicamente toma. Mas lamento informar que ao chegar tardiamente a este post de Priscila Rêgo, sou obrigado a ter que recordar mais uma vez aos caros universitários que o argumento técnico é, em si mesmo, um daqueles momentos de auto-humilhação lógica, que só os sacerdotes, dotados de níveis estratosféricos de resistência à dor e à vergonha, conseguem sustentar, pois à semelhança de um qualquer drama clássico (pode ser, por exemplo, Ifigénia entre os Tauros) as regras do jogo são precisamente o troféu pelo qual lutamos, e procurar solucionar divergências sobre as regras do jogo, aludindo à necessidade de mudar as regras do jogo, é qualquer coisa que releva ou de um sportinguismo de grau muito acentuado, ou de uma incapacidade frustrantemente comovedora para entender que até a matemática é uma linguagem, e que, por isso mesmo, resta-nos cultivar a retórica (sobretudo a partir de uma maior profundidade de utilização dos conceitos matemáticos) como se não houvesse amanhã. Isto não quer dizer que eu não partilhe, com todas as forças da minha jesuítica consciência, a raiva contra os Pachecos Pereiras desta vida, e que não apoie com toda a energia do meu coração a construção de um um país a sério, onde os debates sobre os resultados escolares, a segurança social, ou a incidência do crime, fossem o resultado da inteligência colaborativa de milhões de Garys Beckers, e que por cada Manuel Luís Goucha parido nos ecrãs, houvesse uma resposta óptima do sistema afogando os programas da tarde em quantidades infinitas de prémios nobel.
2. Acontece que a percepção dos raciocínios que permitem aceder à interpretação dos direitos de propriedade futuros como um importante factor macro-económico no estudo da segurança social, ou a dependência das variáveis psicológicas nos pradões de consumo de crime, exigem tomadas de posição teoréticas, éticas e até políticas, no micro-fundamento de cada uma das operações lógicas que usamos, e procurar transferir para o padrão de conflitos políticos democráticos (que em suma é a confusão generalizada ao nivel do estado-nação) o padrão de conflitos políticos académicos (que em suma é uma reprodução aristocrática muito imperfeita onde existe a mesma tremenda confusão entre objectivos individuais e objectivos colectivos) é apenas defender uma redução da participação política a partir de um crítério de competências retóricas. Quando a Priscila Rêgo se permite excluir o Henrique Raposo do debate, ou apontar as deficiências da sua agumentação, por meio de uma longa prova de competências em matéria de análise das interdependências entre demografia e mecanismos distributivos, para concluir que «pensar em termos macroeconómicos não é para todos», que outra coisa está a fazer senão a reduzir a democraticidade do debate? E isto para no fundo chegar ao mesmo ponto onde já está a sardinheira da lota de Matosinhos, com as nodosas mãos apoiadas na anca e a gutural garganta pronta a afirmar: «o Henrique Raposo que vá para o caralho que aqui quem manda sou eu».
3. No fundo, quando se apontam os estudos, qualquer que seja a sua natureza, apontam-se novas formas de hipnotizar a assembleia, o que nada tem de errado, deus nos livre de qualquer forma de limitação da expressão oral. Apenas venho dar o meu contributo para a sisudez do debate segundos os meus critérios de eficiência retórica.Tanto o Pedro Magalhães como a Priscila Rêgo, com a sua deficiente formação literária, precisam de ser rapidamente instruídos neste processo, a fim de melhorar as respecitvas performances retóricas, não por ser melhor para a utilidade pública (um conceito que cheira mal e era muito utilizado pelo marquês de Pombal) que o seu grupo de referência triunfe na praça, mas porque nada me agrada mais do que ver os contendores extraírem de uma natureza bruta e limitada, a fulgurante beleza do estilo.


















